Capítulo 01 – Casamento Arranjado
Falando do primeiro episódio de um drama tailandês, um dos clichês mais manjados que o público já decorou é: a mocinha é obrigada a se casar com o protagonista para pagar uma dívida enorme que a família fez. No fim, o mocinho teimoso tem que largar a pessoa que ama e casar com a mocinha, meio a contragosto. É exatamente aí que o vilão da novela nasce. O vilão que tenta de tudo para trazer o mocinho de volta para si. Mas, no fim das contas, mocinho e mocinha acabam se amando como se fossem se devorar no último capítulo. Já o fim do vilão? Se não morre, fica louco. Com sorte, só vai preso.
Todo mundo parece adorar esse tipo de dramalhão.
Ninguém percebe que, na verdade, a mocinha roubou o mocinho na cara dura?
"Uma salva de palmas para receber os noivos!!! Nossa, como combinam mesmo!" Os aplausos ecoaram quando o casal subiu ao palco. A mão da noiva agarrava o braço do noivo com força. O rosto dela parecia radiante com o dia mais importante da vida. Já o rosto do noivo... eu não tive coragem de olhar direito agora... meu coração ainda não é forte o bastante.
“P’Poch, vai beber isso no lugar de água?” ‘Nong Ta’, a filha caçula do tio Bowon, tocou de leve no meu pulso para me advertir. Nem sei mais quantos copos de vinho eu já tinha virado. Eu só queria brindar pelos noivos, só isso.
“Eu aguento bebida que é uma beleza, Ta. Lá em Londres eu virava a noite bebendo e acordava zerado pra aula.”
“Toma essa! Para de mentir. O P’Tem já me ligou contando que o P’Poch vive bêbado e tem que ser carregado pro quarto.”
Puta que pariu… isso doeu pra caralho.
Não doeu pelo tapinha da Nong Ta, mas pela frase que acertou em cheio. Daqui pra frente não vai ter mais ninguém pra carregar esse bêbado aqui de volta pro quarto e cobrir com edredom quentinho, né? Porque os braços fortes que me puxavam pras costas naquela época… agora têm alguém que é dona deles por direito.
“Ainda?! Se eu ver mais um copo, vou contar pro papai, hein!” Nong Ta arregalou os olhos quando eu viajei nos pensamentos e virei o copo de uma vez.
“Tá bom, tá bom. Não bebo mais.”
“Ótimo. Porque além do papai, eu conto pro P’Tem também.”
Sem querer, olhei para o palco bem na hora que a Nong Ta soltou a segunda facada. O P’Tem que ela falou é o meu Tem. ‘Tem, Tawin’. Mesma idade que eu, só quatro meses mais velho. Corpo e rosto no padrão: olhos afiados, sobrancelhas grossas, pele clara do jeito que tá na moda. O cabelo undercut deixava ele ainda mais bonito. Ou será que é a aura de noivo? Já eu, sentado na mesa dos parentes do noivo, só tenho a pele clara pra me salvar. Olho puxado, boca empinada que vive pedindo porrada. E o corpo? Nem se fala. Mesmo com altura padrão de homem tailandês, do lado dele eu ainda pareço pequeno.
“Hoje o P’Tem tá bonito, né? Mas ele quase não sorri. O P’Poch não acha?” Meus olhos correram para o rosto que eu estava claramente evitando. Tem razão no que a Nong Ta falou. Mas quem disse que não sorrir significa que não está feliz?
“Normalmente eu sou mais bonito que ele. Mas hoje eu deixo ele ganhar.” Mesmo com o coração chorando sem lágrimas, eu ainda conseguia sentar ali sorrindo e brincando.
“A P’Em também é linda, mas mesmo assim eu não gosto muito dela.”
O rosto da Nong Ta murchou e eu tive que forçar um sorriso no lugar. ‘Em’, a noiva de hoje. Qualquer homem que olhasse ia se apaixonar um pouco. Mas pra mim, aquele rosto doce e o jeito de mocinha comportada pareciam uma máscara escondendo o verdadeiro eu. Tipo dez Aff Thaksorns juntas. Como eu não ia perceber aquele olhar inquieto com medo de não casar?
Quer tanto um marido que precisa usar método sujo!!
O casamento de hoje nasceu do clássico da alta sociedade: querer que o filho tenha um cônjuge à altura, que mantenha as aparências, mesmo nível social. A ideia idiota brotou na cabeça do tio Bowon: pegar a filha de família tradicional que estava prestes a falir e transformá-la em nora. Condição? Pagar a dívida de quase cinquenta milhões.
Como ela não sabe que essa mulher só quer dinheiro?!
É igual vender o corpo!!
“Noivo, pode contar pra gente como se apaixonou pela noiva?”
“Não sei.” Claro que não sabe, porra. Você voltou pra Tailândia comigo há menos de três dias antes do casamento, quando ia ter tempo pra amar aquela ali?
“Ah, deve ser amor que nem percebeu, né? E a noiva, quando se apaixonou pelo noivo?”
“Eu amei o Tem desde a primeira vez que vi. Ele é um cara legal, cuida bem de mim. Tenho certeza que o Tem vai cuidar de mim.”
Mentira!! Mentira!! Mentira!!
Desculpa aí, mas tem hora que eu não consigo me controlar. Quem tem o amor roubado na frente dos olhos como eu e ainda consegue sentar aqui já é forte pra caralho. Se me perguntarem por que eu não reivindico meus direitos agora, a resposta é simples: eu não tenho direito nenhum. Oficialmente, meu status com ele nunca passou de ‘amigo’.
Mas o Tem é meu.
Ele é meu.
Eu amo ele, e eu já disse isso pra ele. Isso não basta?
Tudo era nebuloso, nunca foi claro. Nos mais de quatro anos na Inglaterra eu tinha certeza que não era coisa da minha cabeça. Mesmo que ele nunca tenha reagido quando eu criei coragem pra dizer que o amava. Tudo que ele fez me fez rir, chorar, sorrir, cuidou de mim… tudo isso me fez amar ele mais a cada dia. O abraço que me apertava toda noite, os beijos que não precisavam de palavras melosas… Mas tudo pode acabar do nada se eu não fizer alguma coisa pra recuperar o que é meu…
_Kreeekk!!_
Parece que eu levantei rápido demais. O barulho da cadeira arrastando fez tudo no salão ficar em silêncio. Até o noivo, que finalmente olhou pra mim pela primeira vez no dia. Mas aquele olhar era frio… tipo bronca. Mas quem se importa… eu só queria ir ao banheiro, ué…
“P’Poch, o que foi?”
“Vou no banheiro. Tô meio tonto, sei lá.” Balancei a cabeça, levei a mão à têmpora fingindo mal-estar, enquanto tudo no salão voltava ao normal. E parece que agora o MC ia continuar entrevistando os noivos tranquilamente.
Ou será que não.
“Tá passando mal? Na real, a Ta reparou que o P’Poch tá com a cara ruim desde cedo.”
“Só tonto mesmo. Tô bem.”
_Crash!!!!_
Do nada, meu corpo desabou no chão sem forças. Mas não esqueci de puxar a toalha branca da mesa comigo, fazendo pratos, copos, taças e toda a comida chique rolarem pra brincar comigo no chão. Parece que agora minha consciência apagou e eu não sei de mais nada.
“Poch!! Poch!!” Uma mão batia de leve no meu rosto várias vezes antes de me jogar no ombro em meio aos murmúrios no salão. Não sei se estavam preocupados comigo ou só curiosos pra saber se eu já tinha morrido. Mas a boa notícia é que agora a entrevista no palco acabou pela metade e eu não preciso mais ouvir aquilo me cortando por dentro.
Já a má notícia…
Puta merda!!! Nesse tipo de cena!! Eu desmaio com todo o drama e quem me socorre tinha que ser o protagonista, porra, não o pai do protagonista!!
.
.
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“Alguém desmaiar assim no meio do casamento… os antigos dizem que é mau presságio, viu, querido.”
“E o que eu posso fazer? O Poch não fez de propósito. Não fica pensando besteira, não. Vamos cuidar dos convidados.”
“Você, hein. Desde que criou esse menino, o que melhorou? É um evento sagrado e ele vem com esse azar. Humpf!”
“Mãe!”
“Khun Som, como pode falar assim? Se o Poch acordar e ouvir, vai ficar magoado. Vamos! Pra fora comigo.”
“Ta fica com o P’Poch, tá, mãe.”
“Não precisa! Se alguém quer ficar de babá, deixa seu pai ficar!”
“Khun Som!! Você!!”
Abri os olhos devagar quando os passos sumiram do quarto, até ter certeza que o doente de mentirinha aqui foi deixado sozinho na sala de descanso. É essa a vida de um vilão de verdade. Desmaio desse jeito e ninguém vem dar atenção. Ainda sou xingado de agourento no casamento do filho deles.
‘Khun Som’, esposa do tio Bowon, quase a mais poderosa da casa. A mulher que eu nunca vou respeitar nem amar. Ela me desprezou de todo jeito desde o dia que pisei na casa. Por mais que o tio cuidasse dos meus estudos e da minha vida, na casa onde a Khun Som manda, eu era só um menino com direito a dormir no quartinho do terceiro andar. Nem sei o que o tio teve que negociar pra eu poder ir pra Inglaterra com o Tem sem ser acusado de abusado.
Agora eu estava deitado na cama do quarto de descanso do hotel. Alguém deve ter tirado minha gravata e meu paletó, deixando só a camisa branca. Me sentei para olhar no espelho na ponta da cama. Por que eu tenho que estar aqui? Porque sou homem? Por causa do casamento arranjado? Porque meu lado podre tá falando mais alto… ou porque, na verdade, o Tem nunca me amou?
Dói um pouco saber que ele nem pensou em vir me ver, nem um “tá melhor?” eu ouvi. Mas isso não significa que minha vilania acabou… porque pra hoje… aquilo foi só o começo.
“Ficando aí com cara amarrada pro espelho, já melhorou, né, seu merda?” Saí do transe na hora que ouvi a voz familiar não muito longe. Tem, no terno de noivo completo, encostado na parede me olhando com cara de nada.
“Só tonto. Não morri.”
“Tava na cara. Gente como você não morre fácil.”
“Hm. Se sabe que eu não morro, veio fazer o quê aqui? A noiva deixou você soltar a mão dela?” Tem não respondeu na hora. Deu um sorrisinho e veio sentar na outra ponta da cama. Em vez de olhar pro espelho pesado, ele virou o apoio do meu olhar. Ele nesse terno tá pra caralho de bonito. Se um cara como eu tivesse chance de ficar do lado dele assim… seria perfeito.
“Ela não me amarrou, não.”
“Quer dizer que se ela tivesse te amarrado, você não tava aqui falando comigo, né?”
“Que porra é essa, Poch? Desde que voltou não fala direito comigo uma vez.” …Desde o dia que voltamos e encontrei sua noiva te esperando no aeroporto, né…
O dia que meu coração quebrou em mil pedaços no primeiro segundo que pisei na Tailândia.
“V…você… você não vai me largar, né?” A voz do meu sentimento real tremeu toda. O cara na ponta da cama ficou em silêncio um bom tempo depois de ouvir minha frase direta. Se é pra dizer o que eu sou agora, prefiro falar pra ter uma resposta de como viver daqui pra frente.
“Como eu ia te largar?” Só de ouvir isso meu coração inflou de um jeito indescritível. Antes que a frase seguinte fizesse meu coração voltar a ser estilhaço igual há poucos segundos.
“…Você é meu amigo, Poch.”
Eu odeio a palavra ‘amigo’… Só por causa dessa palavra que eu não tenho direito de reclamar de nada.
Odeio… odeio não poder ser mais que isso.
“Se esse amigo pedir pra você ficar comigo agora, pedir pra você não me largar pra casar… você faria?” O rosto afiado virou pra mim antes de balançar a cabeça de leve como resposta. Minha cara de derrota não ganha nem de longe da atuação nível Aff Thaksorn dela.
“Você sabe que não dá. Não complica, Poch. Não quero que você tenha problema… o que aconteceu na Inglaterra… se você quiser esquecer, eu deixo você esquecer.” O corpo alto saiu deixando aquelas palavras ecoando na minha cabeça. Minhas duas mãos cravaram no lençol com raiva. Raiva de mim mesmo por amar esse cara demais. Raiva por ter nascido sem mais ninguém pra amar além dele.
“Hora de brincar.” Levantei um sorriso maldoso no canto da boca em meio às lágrimas que desciam pelo rosto. Meu estado no espelho agora não era diferente de uma vilã de novela que teve o mocinho roubado. Mas talvez a diferença seja que, no final, eu não vou deixar acabar assim.
_Vrrmmm vrrmmm_
“Alô.”
“A apresentação que pediu pra mudar tá pronta, senhor. Sobre a abertura, talvez precise pagar um pouco mais.”
“Dinheiro não é problema. Pago mais depois que acabar… com estilo.”
Será que os vilões se sentem assim quando fazem uma ‘boa ação’? Será igual a mim agora, feliz com minha bondade de preparar uma surpresa pros noivos? Espero que gostem. Do vídeo de apresentação que refiz… só quis colocar a verdade pra todo mundo no evento entender. Melhor que aquele vídeo fake deles rodando no jardim.
Garanto que esse casamento vai ser inesquecível…
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