Hoje foi mais um dia em que cheguei atrasada. Como sempre.
Os professores já estavam dando aula quando entrei na sala, suada e com a respiração descompassada. Alguns colegas até escolheram sentar longe de mim. Disseram que eu "atrapalhava". Que eu não prestava.
Talvez eles tivessem razão. Eu já estava acostumada.
Hoje a professora passou um trabalho em grupo de novo. E adivinha? Ninguém quis me chamar.
"Não tem problema", eu disse pra mim mesma, sorrindo mesmo com o nó na garganta. "Eu faço sozinha".
E fiz. Passei a tarde inteira na biblioteca, copiando, pesquisando, escrevendo. Quando terminei, já era noite.
Eu nunca fui boa em pedir ajuda. Desde pequena aprendi que se eu quisesse algo, teria que correr atrás sozinha. Mesmo que doesse. Mesmo que ninguém visse.
Na saída, peguei o ônibus lotado. O calor, o empurra-empurra... eu já estava acostumada. Desci duas ruas depois do meu ponto e fui andando. Era mais barato assim.
E foi no beco escuro, perto do mercado, que eu vi.
Um garoto. Da minha idade, talvez. Caído no chão, encostado no muro. A camisa branca estava suja de sangue.
Meu coração gelou.
— Ei? Você está bem? — perguntei, me aproximando devagar.
Ele levantou os olhos. Eram olhos escuros, cansados, e cheios de raiva.
— Some daqui — rosnou. — Não preciso da sua ajuda.
Eu congelei. A voz dele era grossa, fria. Mas o sangue não mentia.
— Você está sangrando. Deixa eu te ajudar, por favor.
— Eu disse pra sumir! — ele gritou, tentando se levantar. Mas caiu de novo, com uma careta de dor.
Naquele momento eu percebi: ele não estava bêbado. Estava machucado. E muito.
Meu instinto falou mais alto. Peguei minha jaqueta, rasguei em tiras e comecei a fazer um torniquete improvisado no braço dele.
— O que você acha que está fazendo? — ele rosnou, mas não tinha mais força pra me afastar.
— Salvando sua vida — respondi, sem olhar nos olhos dele. — Fica quieto.
Ele riu. Um riso seco, sem humor.
— Você é teimosa, hein?
— E você é ingrato — rebati.
Ficamos em silêncio por um tempo. Só o som da respiração dele e do meu coração batendo forte.
— Por que está me ajudando? — ele perguntou de repente, a voz mais baixa. — Não me conhece.
— Porque ninguém merece morrer sozinho num beco — respondi simples.
Ele me encarou. Por um segundo, a máscara de arrogância caiu. E eu vi... cansaço. Medo. Solidão.
Igual a mim.
— Meu nome é Mark — ele disse, por fim.
— Eu sou... — comecei.
— Não precisa dizer — ele me interrompeu. — Não quero saber.
Mas eu disse mesmo assim:
— Meu nome é Lin.
Mark fechou os olhos e encostou a cabeça no muro.
— Lin... que nome idiota.
— E Mark é um nome de rico folgado — eu retruquei, e pela primeira vez em muito tempo, sorri de verdade.
Ele não respondeu. Só ficou ali, respirando.
E eu fiquei ao lado dele. Cuidando. Esperando a ambulância chegar.
Porque às vezes, "face to face" com um estranho é tudo que a gente precisa pra lembrar que ainda somos humanos.
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