5 de ago. de 2026

Let me free - Capítulo 03

Capítulo 03: Frenético por Controle 

Depois da confusão da noite passada, a casa voltou ao silêncio. Um silêncio pesado, que só era quebrado pela minha própria respiração.
Eu me virei na cama por horas. Impossível dormir depois de tudo que aconteceu.

Mark estava no quarto de hóspedes. De vez em quando eu ouvia ele se mexer, tossir baixo. Mas eu não saí do meu quarto.
Se eu saísse, ia acabar perguntando coisas que não tinha coragem de ouvir a resposta.

Quando o sol nasceu, eu já estava acordada. O cheiro de café invadiu o corredor.
Ele estava na cozinha. De costas pra mim, mexendo uma frigideira. O braço ainda enfaixado, a camisa branca um pouco grande no corpo, o cabelo molhado.
— Bom dia — falei baixo.
Ele não se virou.
— O café está pronto. Se sirva.

A voz dele estava fria. Distante. O Mark vulnerável de ontem à noite tinha desaparecido.
No lugar dele estava o Mark de sempre: o "frenético por controle". O que organiza tudo, que dá ordens, que não suporta nada fora do lugar.

Eu me aproximei devagar.
— Você não devia estar cozinhando com esse braço. Vai abrir os pontos.
— E você não devia estar me dando ordens — ele retrucou, virando-se de repente. Os olhos escuros me encararam. — Eu me viro sozinho, Lin. Sempre me virei.

O silêncio entre nós ficou denso. Só o chiado da frigideira.
Até que ele largou a espátula, suspirou e a máscara rachou por um segundo.
— Obrigado. Por ontem.

Meu peito apertou.
— De nada...

Antes que eu pudesse dizer mais, o celular dele vibrou na bancada. Ele olhou a tela e o rosto fechou na hora.
— Alô? — atendeu seco. — Eu já disse que não vou. Resolvam vocês.

Ele desligou e jogou o aparelho na mesa com força.
— Problema? — perguntei, cauteloso.
— Família — ele cuspiu a palavra, como se fosse veneno. — Sempre um problema.

Ele passou a mão no cabelo, frustrado.
— Eles acham que podem decidir minha vida só porque têm o mesmo sobrenome. Mas não podem. Não mais.

— Mark... — eu tentei.
— Não — ele me interrompeu, erguendo a mão. — Não quero falar sobre isso.

E mudou de assunto como quem vira uma chave.
— Você vai trabalhar hoje?
— Vou. No restaurante, às 10h.

Ele assentiu e voltou a mexer na comida. Mas eu percebi: a mão dele tremia um pouco.
— Senta — ele disse, colocando um prato na minha frente. Panqueca, ovo e café. — Come. Você precisa de energia.

— Você também.
Ele deu de ombros e sentou na minha frente. Comemos em silêncio por alguns minutos.
Era estranho. Ontem ele estava sangrando nos meus braços. Hoje estávamos tomando café juntos como se nada tivesse acontecido.

— Por que você fugiu do hospital? — perguntei por fim, sem conseguir me segurar.
Ele parou de mastigar.
— Porque odeio aquele lugar. Cheiro de remédio. Gente me tratando como paciente. Como fraco.
— Você estava fraco.
— E daí? — ele ergueu os olhos pra mim. — Fraco é o que eu não posso ser. Nunca.

A intensidade da resposta me fez recuar na cadeira.
— Entendi — murmurei.

Ele percebeu e suavizou o tom.
— Desculpa. Eu... não sou bom com isso. Com gente se preocupando comigo.
— Pois vai ter que se acostumar — eu disse, tentando leveza. — Porque eu vou ficar te enchendo o saco até esse braço sarar.

Pela primeira vez na manhã, ele sorriu. Um sorriso pequeno, de canto, mas um sorriso.
— Frenética por controle também, hein?
— Talvez — eu sorri de volta. — Alguém precisa manter você na linha.

O momento foi quebrado pelo barulho de passos na porta. A governanta da casa entrou, seguida por dois homens de terno.
— Senhor Mark — disse um deles. — Precisamos falar sobre a reunião de hoje.
Mark fechou a cara na hora.
— Eu já disse que não vou.
— Mas o conselho...
— Eu. Disse. Que. Não. Vou. — cada palavra foi uma ordem.

Os homens olharam pra mim, depois pra ele, e saíram sem dizer mais nada.
Quando a porta fechou, Mark passou as duas mãos no rosto.
— Droga...

— Quer conversar? — perguntei.
— Não — ele respondeu rápido demais. Depois completou, mais baixo: — Mas... obrigado por perguntar.

Ele se levantou, pegou as chaves e a jaqueta com a mão boa.
— Vou sair. Tenho coisas pra resolver.
— Com esse braço?
— Eu disse que me viro — ele já estava na porta. — Não me espera acordado.

E saiu. Batendo a porta atrás de si.

Eu fiquei na cozinha, com o prato meio cheio na minha frente.
O "frenético por controle" tinha ido embora.
E me deixou aqui, me perguntando quantas camadas ainda existiam por baixo daquela armadura.

E o pior: me perguntando por que eu me importava tanto.

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