Capítulo 01
Acho que o céu para o qual estou olhando agora é imenso. Comparado a essa vastidão, eu sou só um ser humano minúsculo. Sou apenas uma parte deste mundo, nada de especial ou importante. Mas seria bom, né? Se um dia eu me tornasse alguém especial para uma pessoa, e fosse só eu que importasse para ela. Mas deve ser difícil se eu pensar na realidade. O amor é algo muito distante de mim se eu me comparar com garotos da minha idade, porque eles não precisam trabalhar sem parar como eu.
Sou aluno do primeiro ano da Faculdade de Engenharia, no curso de Engenharia da Computação de uma universidade pública. Estudo na universidade com uma bolsa do FIES do governo. A mensalidade não me preocupa tanto quanto as despesas de cada mês. Tenho uma renda de apenas dois mil e duzentos bahts por mês com o empréstimo estudantil do governo, mas só isso não basta para o aluguel de um alojamento aqui na capital. Fora água, luz, comida, um monte de contas para pagar. Por isso preciso trabalhar, trabalhar e trabalhar... De noite sou lavador de pratos em um restaurante tailandês famoso atrás da faculdade. De madrugada trabalho no 7-Eleven ao lado do alojamento onde moro até quase amanhecer. Por isso, na hora de me matricular, preciso escolher horários em que eu ainda tenha tempo para dormir... uma hora ou duas já está bom.
Essa vida não é de todo ruim, mas, claro, ela... cansa. Confesso que às vezes dá vontade de pegar esse meu rostinho bonito e voltar para casa de vez. A casa da qual saí por ter brigado com meu pai sobre qual curso escolher. Soa antiquado e meio novelesco, não soa? Mas essa é a minha realidade. Minha família é de médicos. Temos um hospital que, se eu não for convencido demais, diria que é o melhor e maior do país. Mas eu soube desde criança que esse não era o caminho que eu escolheria. Eu gosto de computador, gosto de ficar com ele e estudar. Mas isso não era o que meu pai queria. Quando nossas opiniões não bateram, não vi motivo para continuar naquela casa. Seis meses atrás, depois de terminar o ensino médio, virei as costas e saí... Saí com a ideia de que tudo que eu quisesse, eu conquistaria por conta própria. Parece corajoso e idiota ao mesmo tempo. Empenhei meu relógio favorito para pagar a matrícula que precisava ser adiantada. Vendi os bens que eu tinha para pagar o aluguel do alojamento e as despesas enquanto ainda não conseguia emprego.
Três meses depois de começar a viver sozinho, percebi que ainda era muito novo. Achei que conseguiria lidar com tudo, mas pensei tão pouco que esqueci que o mundo é enorme... grande demais para as minhas forças. Tentei viver sem a ajuda da minha família, mas com o tempo minha tentativa virou teimosia. Não sou mais o filhinho rico que tinha tudo. Sou apenas um garoto que espera... ter dinheiro suficiente para comprar comida no jantar de hoje.
É péssimo que ainda faltem três dias para eu receber pelo trabalho. Mas não é que o pagamento esteja atrasado, é que o fim do mês ainda não chegou... Fui eu mesmo que gastei o dinheiro antes da hora. Que droga, mas não tem jeito. Num fim de tarde de último dia de prova do primeiro semestre como este, vim procurar matéria-prima para cozinhar perto do lago de peixes da Faculdade de Agronomia.
— Seu desgraçado, Pluem!!! Você veio pescar no lago da minha faculdade de novo!!!! Pare com essa audácia agora mesmo!!
Levei um susto e puxei a vara de pescar da água na hora, antes de olhar para o Tik, aluno da Agronomia mas que se vestia como se fosse de Artes, vindo correndo com cara de bravo.
— Ei!! Eu não fiz nada!! — Joguei a vara longe de mim, peguei minha sacola de pano e tentei achar uma rota de fuga para escapar do Tik, que adora bancar o protetor dos peixes do lago enorme à frente como se fossem filhos dele.
— Você ainda tem coragem de negar? Com o equipamento todo aqui e ainda me diz que não!! O dinheiro acabou de novo, né?! Por isso vem atormentar os meus filhos! — Não só falou como o grandalhão carrancudo chamado Tik me lançou um olhar cortante que eu não conseguiria desmentir de jeito nenhum, porque a verdade e as provas estavam escancaradas.
— Não dá para você me deixar levar um ou dois não? Hoje de noite eu realmente não tenho o que comer, senão eu não teria vindo até a Agronomia. Olha só, Tik — apontei para as tilápias, bagres, traíras, tilápias-vermelhas, um monte de peixes disputando para botar a boca para fora da água, alegres quando o pai Tik deles jogava migalhas de pão. — Seus filhos são muitos pra caramba. Vai que eles morrem espremidos no lago? Não vai reduzir a população não? Vai dar gargalo, e aí, Tik, pensa bem...
— Chega, para! As desculpas de cinco rios seus eu já estou cansado de ouvir. Que tipo de pessoa você é? Sobrenome grande, mas sem dinheiro nem pra comer.
— Ué! O que tem a ver meu sobrenome? Eu sou pobre por conta própria, hahaha.
Tik me olhou como se não aceitasse. Parecia que por dentro ele já tinha desistido de mim, porque essa devia ser a quinta vez que eu vinha pescar no lago da Agronomia. Às vezes também rondava a horta. Fazer o quê, eu estava realmente duro. Por isso acabei conhecendo o Tik, que é da mesma turma que eu mas de outra faculdade. Não somos íntimos, só conversamos. Ele também já me ajudou várias vezes.
— Anda, vou te levar pra comer.
— Ah! Fico sem graça.
— Você não precisa ficar sem graça, seu desgraçado. Daqui a pouco a fome bate e você vem perturbar meus filhos de novo. Vem logo.
Mas ao me ver ainda hesitando, ele, que já tinha saído na frente, virou para trás, me olhou e falou alto, irritado:
— Anda logo!
Tik me levou para um restaurante self-service embaixo do prédio da Faculdade de Medicina em vez de comer na Agronomia dele. O motivo foi simples: aqui é mais perto, o que era verdade... Do lago de onde acabamos de sair até o refeitório da faculdade do Tik devia dar meio campo de futebol de distância.
Mas falando sério, eu preferia andar até arrastar o pé para o refeitório da Agronomia a ter que ficar prendendo a respiração aqui. Não é um lugar onde um mero mortal como eu consiga ficar. Só se ouvia o barulho de talher batendo no prato. As conversas eram em uma linguagem que eu não entendia. Eu nem ousava fazer barulho com medo de incomodar a mulher de óculos na mesa ao lado, que lia enquanto comia, murmurando coisas ininteligíveis. Até o Tik, que sempre fala alto por natureza, não ousou abrir a boca. A gente só escreveu o pedido num papel e foi, em silêncio, entregar para a tia que anotava os pedidos.
— Tik, acha melhor a gente pedir pra tia colocar na marmita e comer em outro lugar? — chamei o Tik e sussurrei baixinho.
— Mas eu acho o ar-condicionado bom — ele sussurrou de volta.
— Bom até a gente congelar! Esse pessoal é gente mesmo? O refeitório embaixo do prédio da minha faculdade é barulhento que nem dança do leão no Ano-Novo Chinês. Olha esse daqui, um silêêêncio, um silêêêncio!
Não demorou muito no cochicho com o Tik e uma risada agradável de alguém ecoou. Virei para a porta e vi um grupo grande de rapazes de uniforme entrando. Um deles se destacava... como se tivesse uma aura, algo brilhante, que fez com que eu não conseguisse desviar o olhar. Pele cor de leite que deixava a mulher de óculos da mesa atrás de mim no chinelo. Ele era um pouco mais alto que o rapaz ao lado. E preciso admitir que era muito bonito, mesmo de cabeça raspada, um corte que nem eu, que sou bem confiante com a minha cara, teria coragem de fazer.
Puf!
Parecia que algo tinha batido forte no meu peito quando vi aquele sorriso encantador. Meu coração bateu tão forte que tive medo de que ele, passando pela minha mesa, ouvisse. Ele sorri muito bonito! Quando sorri aparecem uns caninos pequenos. Levei a mão ao peito esquerdo, pensando, meio sem me aceitar, que se eu fosse mulher, eu daria em cima dele!
— Pluem.
— ...
— Pluem.
— ...
— Seu desgraçado, Pluem!!! — Levei um susto com a voz do Tik e saí do transe, mas não fui só eu que me assustei, porque com a voz do Tik trovejando desse jeito, todo mundo no restaurante virou para olhar para a nossa mesa como se tivessem visto uma barata ou algo assim. O rapaz em quem eu tinha ficado encarando me olhou de volta, um pouco surpreso, antes de voltar a conversar com os amigos.
— Por que grita desse jeito! Não tem vergonha não? Todo mundo no restaurante olhando.
— Éééééé!! Se eu não te chamasse você não ia arrancar a cabeça e grudar nele não, né? Hããããã, seu miserável de sobrenome grande — Tik não só falou como enfiou o dedo comprido na minha testa.
— Eu não ia fazer isso — tirei o dedo do Tik da minha cara e fui buscar os dois pratos de rad na que pedi há vinte minutos.
Foi uma refeição em que eu mal senti o gosto. Não que estivesse ruim, não que eu não tivesse fome. Eu estava morrendo de fome, a ponto de querer enfiar o prato junto com o macarrão goela abaixo, mas precisei comer devagar, com requinte, mastigando pouco a pouco, para poder olhar para o ‘P’Prood’ por mais tempo. Depois de ir buscar água no copo pela quinta vez, meu esforço para ler o nome do gato de cabeça raspada deu certo. Obrigado à Medicina por ter crachá para os alunos.
‘Ma Prood’ é um nome que eu realmente acho que combina perfeitamente com ele. Sobrenome grande, ar de alta sociedade, combinando com a elegância que exala dele por cada centímetro. P’Prood sorri fácil, ri com pose mas sem ser forçado. Ele é natural, tranquilo, mas ainda assim parece incrível. Nunca vi ninguém tão bonito e completo assim...
Eu queria ir até ele, me apresentar para que ele me conhecesse, mas quando olhei para mim mesmo vi a diferença de classe. Eu de macacão sujo de poeira e calça jeans que desde que comprei mal lavei algumas vezes. A sacola de pano verde-bandeira no ombro. Da cabeça aos pés não saía nada de ‘bem-apresentado’ de mim. Quando me olho no espelho sempre penso, convencido, que sou lindo e radiante, mas a verdade que carrego no peito é que não sou alguém de aparência marcante. Uso óculos porque sou míope desde a quinta série. O apelido que os amigos da faculdade gentilmente me deram foi ‘Maha Pluem’. Disseram que meu jeito de me vestir combina muito! Mas eu não ligo. Sou do tipo que se não estiver arrumado não fico à vontade, porque em casa meu pai era rígido e metódico com isso. Viver com um pai para quem tudo tem que ser impecável e limpo me acostumou com essas coisas. Mas desde que passei a morar sozinho e ganhar meu próprio dinheiro, descobri que lavar roupa toda hora... gasta dinheiro!
Eu e o Tik terminamos de comer e levamos os pratos, mas a mesa do P’Prood ainda estava lá Eu queria conhecer ele. Só conhecer. Não penso em nada além disso, porque foi a primeira vez que encontrei alguém de quem eu não conseguia tirar os olhos. Pessoalmente, eu não determino que tenho que ficar com uma mulher. Eu penso comigo que se eu encontrar alguém de quem eu goste, seja homem ou mulher, isso não importa para mim.
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Desde o dia em que conheci o P’Prood, passei a acompanhar a vida dele a ponto de o Khun Tik me chamar de stalker. Mas não fico bravo com ele. Eu sempre fico assim com as coisas que me interessam. Toda tarde tenho que dar um jeito de ir comer embaixo do prédio da Medicina. Na volta para o alojamento, sempre passo pela Medicina, mesmo que o caminho fique no lado oposto do meu alojamento. Ainda trabalho todos os dias. Economizo para juntar dinheiro e comprar uma câmera fotográfica. Quero ter uma foto dele guardada, porque não é todo dia que tenho a sorte de encontrar o P’Prood. Depois disso, ver o rosto do P’Prood, mesmo que por apenas alguns segundos por dia, virou algo normal na minha vida. O Khun Tik me disse que não era normal, mas fui eu quem fez aquilo virar normal...
P’Prood é estudante de Medicina do terceiro ano. Dois meses atrás eu só sabia isso, mas agora eu sei quando ele nasceu, qual cor ele gosta, que tipo de comida prefere, que marca de carro dirige, o xampu que usa, o sabonete líquido, a marca de roupa favorita, ou qualquer coisa sobre o P’Prood... eu sei. O Khun Tik já me perguntou seriamente se eu sou psicopata, e eu também não fiquei bravo com ele como sempre. Porque eu não sou. Eu só gosto do P’Prood. Gosto muito, como nunca gostei de ninguém antes. Comprei a câmera no meio do mês passado, e agora a parede do meu quarto está cheia de fotos do P’Prood. Eu gosto de olhar. Quando volto do trabalho cansado, só de ver a foto dele... só isso já me faz sorrir.
Eu realmente espero que... um dia eu tenha a chance de ir conversar com o P’Prood.
“Nossa, que gataaaa!!! Quantas vidas será que a gente precisa pra achar alguém como o P’Prood? Peito é peito, cintura é cintura. Demaissss!”
Não liguei para os assobios tarados dos meus amigos na mesa, mas tive que olhar por causa do nome P’Prood. Ver o ‘Ma Prood’, o calouro mais bonito da Medicina, andando com uma mulher não é nada estranho. E se disser que ele nunca repete, também não seria estranho. P’Prood foi o calouro mais bonito da universidade há dois anos, e foi a primeira vez em sete anos que a Medicina da minha universidade ganhou esse título, segundo a lenda que o Khun Tik me contou. Por isso o P’Prood é conhecido por veteranos, calouros e colegas de turma. Mas eu acho que... mesmo que não soubessem que o P’Prood foi o mais bonito, todo mundo se interessaria por ele do mesmo jeito.
“Caramba, Pluem, você ficou olhando vidrado! Hahaha. E aí, Maha, perdeu a compostura?”
Levantei a mão para ajeitar os óculos de leve, olhei de relance para o Khun Fren e respondi no meu estilo: “Ser estudante e se vestir de forma tão indecente assim não é adequado. Além de quebrar as regras.”
“Ah, qualé, Pluem! Se a mulher tem coisa boa, tem que mostrar mesmo! Vai guardar pra fazer o quê?!”
“A noite de núpcias é a noite certa pra mostrar, Khun Kim.”
Khun Kim, Khun Fren e Khun Prem, amigos do mesmo departamento que estavam sentados à mesa de pedra agora, estenderam a mão juntos para dar um tapa na minha cabeça. Eles são o grupo com quem tenho mais intimidade. No começo também fiquei sem entender como ficamos próximos, mas foi porque quando descobri que o irmão mais novo do P’Prood, o Prem, estudava no mesmo departamento que eu, comecei a conversar com ele com frequência. Perguntava sobre o P’Prood às vezes, sobre outras coisas às vezes, alternando para não levantar suspeita. Até que acabei ficando íntimo deles sem perceber.
“Te pergunto uma coisa, Pluem. Com essa sua cara, você já teve namorada?”
“Nunca. Quando eu estava no ensino médio, meu pai disse que só podia ter depois de me formar na universidade. Meu pai disse que ter namorada é como ter um peso, além de atrapalhar os estudos.”
“Por que você não vira monge logo de uma vez, hein, Pluem? Você se perdeu e veio parar no mundo dos humanos? Vou desmaiar.”
Entreguei um frasco de pimenta para inalação para o Khun Fren na hora, porque parecia que ele ia desmaiar de verdade. Mas levei outro tapa na cabeça antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Os amigos ergueram a mão para fazer um wai em sincronia. A princípio achei que estavam se desculpando comigo, mas na verdade estavam cumprimentando a pessoa que estava atrás de mim.
“Oi, P’Prood. Que vento te trouxe ao prédio da Engenharia?” Prem perguntou ao próprio irmão com um sorrisinho malicioso.
“Trouxe uma caloura pra aula.”
Fiquei tão hipnotizado pela voz dele que esqueci de fazer o wai e dizer o oi que eu ensaiava na frente do espelho todos os dias.
“Fazendo o quê aí?”
“Mini projeto antes da prova do meio do semestre, p’. Estamos rascunhando o fluxograma. Mas e você, hein? Medicina é tão tranquila assim? Te vejo levando e buscando menina diferente todo dia.”
Prem perguntou exatamente o que eu queria perguntar. Eu sei que o P’Prood não sabe dizer não, é simpático e bonzinho demais. Nunca vi as mulheres do P’Prood brigando. Ele consegue organizar as mulheres dele, mesmo quando tem vários encontros marcados no mesmo horário.
“Não é tanto assim. Vejo que as calouras têm dificuldade pegando ônibus pra aula, então achei melhor levar e buscar. Hehe.”
“E hoje você não tem aula?”
“Tenho lab à tarde. Mas quem é esse? Parece que vejo ele no meu prédio direto.”
Khun Fren e Khun Kim me olharam com uma pergunta no rosto, enquanto Khun Prem só ria, parecendo um psicopata. Enquanto isso, P’Prood estendeu a mão branca e cheirosa para tocar meu ombro.
Que felicidade... P’Prood reparou em mim.
“O-oi.”
Fiz o wai e me afastei para o P’Prood poder sentar, porque parecia que ele já estava em pé há um tempo. P’Prood sorriu mostrando os caninos pequenos e sentou do meu lado.
Na verdade, eu deveria ter falado mais alguma coisa. Me apresentar, pelo menos. Dizer meu nome, do que gosto, falar sobre a nossa compatibilidade, ou sobre o novo Mercedes esportivo do P’Prood. Eu queria conversar mais com ele...
“Esse é o Pluem, p’. Estuda no mesmo departamento que eu. Sobre ele aparecer direto no seu prédio, pergunta pra ele mesmo, hehe.”
Khun Prem é muito sacana, eu acho. Mas como não levo jeito para discutir, fiquei só quieto. Na verdade não sou certinho nem covarde. Palavrão eu também solto quando perco a paciência, mas no geral sou sempre educado. Só estou acostumado a falar assim. No ensino médio eu não era diferente dos outros garotos. Eu bebia, saía, fumava, transava com mulher. Já passei por tudo isso, mas agora essas coisas estão muito longe de mim, só porque não tenho tempo nem dinheiro pra isso mais.
“Oi, Pluem.”
“P-pode deixar.”
“Meu nome é Ma Prood, mas pode me chamar de P’Prood. Te vejo tanto no prédio que achei que você fazia Medicina.”
O senhor realmente acha que eu faço Medicina? Toda vez que apareço lá, estou de macacão da Engenharia — —_
“Eu não faço Medicina não, hehe. A comida embaixo do prédio do P’Prood é muito boa, por isso vou lá direto, hehe.”
P’Prood sorriu para mim antes de dizer: “A tia Nim vai ficar feliz de saber que alguém gosta tanto da comida dela.”
Eu só ri sem graça e fiquei quieto ouvindo o P’Prood conversar com meus amigos. P’Prood conversa bem, fala de um jeito muito educado. Os lábios dele estão quase sempre sorrindo. Fiquei olhando para o P’Prood até ele perceber várias vezes, mas ele só virava, me devolvia o sorriso e continuava conversando com meus amigos.
Será que toda a sorte da minha vida se esgotou hoje...
Eu vi o sorriso dele...
Ouvi a risada dele...
Senti o perfume dele...
Tudo ao meu redor ficou mais claro na hora. É muito bom mesmo ter ele sentado do meu lado.
“Você vai, Pluem?”
A voz do P’Prood me tirou do devaneio. Virei com cara de perdido para o P’Prood que sorria para mim de novo.
“V-vai? O quê?”
“Não estava prestando atenção?”
P’Prood riu baixinho enquanto Khun Prem estendia a mão e dava um tapa na minha cabeça.
“Ficou olhando pro P’Prood até a alma sair do corpo, né? Hahaha.” Khun Prem perguntou de um jeito que merecia um chute.
“É mesmo, eu vi você quieto olhando pro P’Prood faz tempo. O que você tem, afinal, Pluem?” E aí o Khun Kim se meteu também.
“Esse é o P’Prood, amigo Pluem, não é um altar pra você ficar com essa cara de devoção, hahahaha.” Fechando com chave de ouro, Khun Fren, que eu pensei comigo mesmo que na próxima vez não ia deixar ele colar no meu trabalho.
“Eu não fiz isso. Mas o que o P’Prood disse mesmo?”
“Chamei pra comer embaixo do prédio da minha faculdade.” P’Prood sorriu de novo. Ele sabe que eu sou fraco pelo sorriso dele, por isso sorri tanto? “Ouvi dizer que o Pluem gosta. Vai comigo?”
“Ah... daqui a pouco tenho que trabalhar.”
“Trabalho é só às seis. Vai, pô. Economiza o dinheiro do jantar, eu pago.” Khun Prem disse enquanto começava a guardar o fluxograma que estávamos rascunhando na bolsa.
“E vocês vão, Khun Prem?”
“Hoje à noite tenho encontro.” Disse Prem.
“E eu vou buscar minha mãe no aeroporto com o Kim. Você, que no fim do mês sempre tá duro, vai com o P’Prood. Deixa o P’Prood te pagar uma refeição, qual o problema? Né, p’?” Khun Fren disse e piscou para o P’Prood, que deu um sorrisinho.
“Vai. Eu banco.”
“Ah... é que eu...”
Não é que eu esteja me fazendo de difícil. Poder jantar com o P’Prood é a maior sorte do mundo. Mas se o Khun Prem e os outros não forem, sobre o que vou conversar com o P’Prood? Eu não sou bom de papo, e será que o P’Prood não vai ficar com vergonha de sentar pra comer com alguém como eu?
“Levanta, Pluem. Estou com fome.”
Sem dizer mais nada, P’Prood pegou minha sacola de pano, colocou no ombro e saiu na frente. Não esqueceu de se despedir dos três mosqueteiros que também foram cuidar da própria vida. Eu corri atrás do P’Prood e mal consegui acompanhar. Pernas longas, ainda por cima andando rápido sem esperar ninguém. Tá caçando gado, é, p’?! Mas o céu é muito injusto comigo. Aquela sacola verde eu carrego há meses e ninguém olha. Quando foi para o ombro do ‘Ma Prood’, aí sim, mulher de todo tipo olhou de uma vez!
“P’Prooooood, espera por mim!”
P’Prood parou para eu alcançar e franziu as sobrancelhas grossas, dizendo com voz suave: “Devagar.”
“Se o p’ anda que nem boi fugido, como é que eu vou acompanhar?”
“Pluem fica enrolando demais. Se eu não apressar, quando é que vamos comer? Você tá muito magro, Pluem. Vive pulando refeição?” P’Prood disse enquanto me olhava dos pés à cabeça, antes de pegar papel e caneta na minha sacola e escrever algo, dizendo: “Não faz bem pra saúde, sabia que o corpo precisa de todos os nutrientes? Aqui, meu número. Quando tiver fome me liga. Se eu estiver livre, vou te levar pra comer.”
“Eu não tenho celular. Além disso não vou incomodar o p’ não. Obrigado pela gentileza.”
Eu não achei que o P’Prood fosse tão bonzinho assim. Ele faz jus ao nome Ma Prood mesmo. E sobre eu não ter celular, é verdade. Meu iPhone eu vendi no primeiro mês que precisei viver sozinho, e desde então não consegui juntar dinheiro pra comprar outro. Além disso, achei que não era necessário já que não falo com ninguém há três vidas.
“Que isso! Que cerimônia é essa? Amigo do Prem é como se fosse meu irmão. O Prem disse que o Pluem trabalha muito, tem que se sustentar sozinho. No que eu puder ajudar, quero ajudar.”
“Só a intenção já basta, P’Prood.”
“Intenção enche só o coração, não enche a barriga. Vamos. Comer alguma coisa. Sobre o celular, depois eu arranjo um.”
P’Prood realmente entende o que eu falo? -_-! Eu não quero incomodar ele de verdade. Mesmo que eu conheça ele, unilateralmente, há muito tempo, não esqueça que o P’Prood só me conheceu hoje, há poucas horas. E o que faz ele querer me ajudar tanto assim? Porque eu já aprendi que nada no mundo é de graça, então não confio nas pessoas tão fácil.
Em só dez minutos eu e o P’Prood já estávamos sentados no restaurante embaixo do prédio da Medicina, lugar onde eu só consegui entrar por causa dele. Porque essa área é rígida mesmo: se não for estudante de Medicina parece que não entra. Toda vez que venho, vejo o segurança carrancudo conferindo a carteirinha antes de entrar no prédio.
P’Prood pediu dois pratos de rad na sem me perguntar o que eu queria comer, e claro que eu ia comer o que o P’Prood pediu mesmo. É... na verdade, o P’Prood me passa uma sensação meio autoritária, sabe? Não sei... acho que por trás desse rosto tão gentil, desses lábios sempre sorrindo e dessa fala educada e suave, talvez ele esconda muita coisa.
Mas de qualquer forma... eu já não consigo mais tirar de volta o sentimento que tenho por esse homem.
“Por que o Pluem gosta de ficar me encarando? Tem alguma coisa?”
Pisquei sem parar com a pergunta do P’Prood... claro que eu tinha uma resposta, mas escolhi balançar a cabeça negando.
“Sério?”
“S-sim.”
P’Prood ficou quieto um tempo antes de dizer: “Pluem não sabe mentir. E eu também não gosto de gente mentirosa.”
“É que... eu...”
“Pluem perguntou sobre mim pro Prem também... né?”
Então... o Khun Prem contou uma coisa dessas pro P’Prood também? -_- E o que o Khun Prem tem a ver com isso pra sair contando meu comportamento pros outros, mesmo que esse outro seja o P’Prood! Deu vontade de chutar a cara de alguém na hora. Eu achei que tinha sido discreto perguntando pro Khun Prem. Não é à toa... ele vivia me olhando e sorrindo de um jeito estranho.
“Fez isso por quê?”
Nossa!! Esse P’Prood, viu que eu fiquei quieto e começou a perguntar mais ainda. O p’ devia calar a boca e ficar quieto como eu -*-!
“E aí, Pluem?”
Faz essa cara de gato e ainda me pressiona! Que isso? Me pressionando pra quê? Tem coisa no mato, é, senhor?!
“Pluem?”
“Eu gosto do p’!”
Opa! Morri! P’Prood até calou a boca, mas fez um silêncio absoluto cair entre a gente. P’Prood ergueu a sobrancelha e me olhou avaliando, e depois...
“Tá puxado o estudo ultimamente?” Mudou de assunto...
P’Prood é muito bom mesmo, eu acho... além de ser bonito nível lendário, ele ainda consegue transformar minha confissão em puro ar.
Falando sério... doeu pra caramba T*_*__T
“E aí, Pluem? Perguntei se tá puxado o estudo?” P’Prood continuou perguntando sem se abalar com meu rosto pálido e suado. Quantas vezes o p’ já machucou o coração dos outros com esse rosto sorridente, hein?!
“P-puxado.”
“O Prem disse que o Pluem é inteligente. Ajuda meu irmão, então. Se o Prem passar na média, vou levar pra comer uma refeição grande. Hmm... o rad na deve estar pronto. Vou buscar. Pluem pega água pra mim, por favor.”
P’Prood decidiu tudo sozinho, e se levantou para pegar o rad na com a tia vendedora. Quanto a mim, só pude ir pegar água no copo no outro canto do restaurante, pensando comigo que aquela refeição grande com certeza não ia me incluir. Khun Prem é muito inteligente, mas a preguiça dele não fica atrás da inteligência. A nota dele ficar abaixo ou acima da média não é algo com que ele se importe.
Dei de ombros levemente antes de suspirar para a coluna de concreto perto do bebedouro. Mesmo que eu já tenha pensado mil vezes que eu e o P’Prood não temos chance, que nunca vou ter meu final feliz, eu também não queria que o sentimento que levo tão a sério acabasse só porque o P’Prood finge que não percebe.
Mas o que mais eu posso fazer... além de aceitar.
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