Capítulo 02
O tempo passou desde aquele dia em que ele acordou se sentindo diferente. Hoje era o dia em que teria alta do hospital. Ele achava que sua vida voltaria a ser como antes. Que voltaria a viver da forma como sempre viveu, sem se importar com nada. Mas quando olhou para o próprio rosto no espelho, percebeu que já não era o mesmo. O rosto era o dele, mas o olhar não era.
"Pai, mãe, eu já vou, tá... mãe." Ele disse em voz baixa, com a garganta seca. Fazia muito tempo que não os chamava assim. Desde que acordou no hospital, não havia falado nada. Ficou só sentado na beira da cama, ainda sem forças, com a roupa já dobrada ao lado.
"Vocês dois não precisam se preocupar comigo. O médico disse que eu já estou bem. Quanto às mensalidades da escola, eu já resolvi. A partir de agora não vou mais dar trabalho para vocês." Ele disse, com um sorriso fraco, tentando parecer tranquilo. Por dentro, não estava. Não lembrava de nada.
"Sim." O pai respondeu apenas isso e virou as costas, saindo do quarto.
"Então eu vou pedir para o motorista te levar para casa e depois volto para te buscar. Cuidem-se." A mãe disse antes de sair também, deixando o quarto em silêncio.
Depois que os dois saíram, ele ficou ali parado por um momento. "Será que antes eu era assim com eles?"
"Sim, senhor." A empregada respondeu, educada. "O jovem disse que viria te visitar hoje."
"Depois eu vou levar você para casa, tá? Eu já avisei a senhora que você ia voltar para a sua casa."
Depois de dizer isso, ele se levantou e saiu do quarto devagar. A empregada o seguiu, mas não disse mais nada.
"Por que você veio aqui, pai?" Ele perguntou quando o pai se virou. "Você devia estar descansando." O pai se virou para olhá-lo, mas não respondeu. Apenas suspirou.
"Eu já disse que vou ficar bem. Você não precisa se preocupar." O pai respondeu, com a voz ainda um pouco trêmula. "Cuide de você."
"Sim, pai."
Depois disso, pai e filho foram juntos até o carro. Durante o caminho, o pai não falou muito. Só olhava de vez em quando, como se quisesse dizer algo, mas desistia. Quando chegaram em casa, a mansão estava silenciosa como sempre. Havia flores caras no jardim, mas não havia calor humano. Ele olhou em volta e sentiu um vazio enorme. Aquilo não era a casa dele.
"Senhor... a senhora está te esperando no quarto desde cedo." A empregada disse, fazendo uma reverência.
"Pode ir, eu me viro sozinho."
"Com licença, senhor." Ele respondeu e subiu as escadas sozinho.
"O que eu faço agora, pai? Você não está mais aqui para me dar conselhos." Ele murmurou para si mesmo enquanto caminhava. Não sabia se estava falando com o pai dele ou com o pai desse corpo.
"Foi você quem fez isso com a sua vida. Não venha culpar os outros." A mãe disse assim que ele entrou no quarto. A voz estava dura, mas os olhos estavam vermelhos.
"Eu não pedi para nascer nessa família." Ele respondeu sem pensar. E se arrependeu na hora.
"Se não fosse por mim, você estaria na rua agora. Eu e seu pai fizemos tudo por você e é assim que você retribui?" A mãe gritou.
"Se é isso que a senhora quer, então eu saio de casa agora e não volto mais!" Ele gritou de volta e virou para sair.
"Se você sair por aquela porta, não volte mais para cá!" A mãe gritou atrás dele.
Ele parou na porta, com as mãos tremendo. Virou devagar. "Tudo bem. Eu vou." E saiu, batendo a porta.
"Senhor, senhor, espera um pouco." O motorista correu atrás dele quando viu que ele estava saindo a pé.
"Não precisa. Eu vou sozinho." Por causa do orgulho, ele recusou a carona e saiu andando.
"Não seja teimoso. Não é seguro você andar sozinho. E para onde você vai?" O motorista perguntou, preocupado, seguindo-o para fora da mansão.
"Senhor... senhor, desse jeito não dá. Eu não vou deixar o senhor ir sozinho."
"Eu já sou adulto. Não preciso que fiquem cuidando de mim o tempo todo." Ele respondeu sem olhar para trás. "Eu cresci cuidando de mim mesmo desde criança. Agora eu consigo cuidar de mim de novo."
"Eu entendo, senhor. O senhor já cresceu. Mas nem por isso pode andar na rua assim." A empregada disse atrás dele, já sem fôlego.
"Emy, se precisar de mim, me liga. A qualquer hora. Eu vou atender." Ele disse antes de virar a esquina.
"Sim, senhor."
Condomínio S
Depois que saiu da casa da mãe, ele foi direto para um condomínio de luxo no centro. Pensou em alugar um apartamento simples, mas não tinha coragem de viver como antes. Não sabia mais como era ser pobre. Mas também não sabia como viver naquela vida de luxo que não era dele.
"Ah." Ele suspirou quando entrou e viu a bagunça. O apartamento estava todo revirado. No sofá havia garrafas vazias e roupas jogadas.
"Não faça isso de novo. Mas se fizer, que seja comigo." Ele disse em voz alta, como se estivesse falando com alguém. Mas não havia ninguém. Só o eco da própria voz.
Ele foi até o quarto e se jogou na cama. O colchão era macio, mas ele não conseguia dormir. Ficou olhando para o teto.
Do outro lado, ele pegou as chaves do carro e saiu. Dirigiu sem destino até parar em frente a um condomínio pequeno. Era onde o irmão mais novo dele morava. Ficou no carro olhando para a janela do quarto do garoto por um tempo. A luz estava acesa.
"Volta. Eu prometo que vou cuidar de você." Ele disse para si mesmo. Naquele dia, quando saiu do hospital, decidiu que não ia deixar o irmão sozinho. Mesmo sem lembrar de nada, aquele sentimento de responsabilidade ainda estava ali.
Ele ligou o carro e foi embora. Passou na loja e comprou comida. Alugou um apartamento pequeno para os dois. Um lugar simples, mas limpo. Tinha sala, quarto, cozinha e banheiro. E mais um quarto.
Quando terminou de arrumar tudo, sentou no chão e ligou para o irmão. Demorou, mas atenderam.
"Alô, quem é?"
"Volta para casa. Eu vou cuidar de você."
Do outro lado ficou um silêncio. Depois de um tempo a voz respondeu, baixa. "Tá... tá bom."
Naquela noite ele dormiu pela primeira vez em semanas. Sem pesadelo. Sem medo.
E pela primeira vez em muito tempo, sentiu que talvez ainda desse para recomeçar.
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