Meu amor com Kokut era como o de um demônio que considerava Kalakuni sua sobremesa favorita.
Naquele dia... não me lembro exatamente de quantos anos tínhamos. Eu estava em cima de uma árvore alta, tremendo de medo. Não conseguia descer de jeito nenhum. Na verdade, eu nem havia subido para sempre ficar preso lá em cima, mas todos ao redor pareciam se divertir com a situação como se estivessem assistindo a um espetáculo.
A verdade é que bastava aquele maldito esquilo aparecer uma vez para eu perder a coragem por completo.
Eu não era o único que tinha medo dele.
Mas naquela noite, Kokut segurou minha mão e se ofereceu para ajudar. Coincidentemente, o esquilo parecia disposto a aprontar justamente naquele momento.
Assim que tentei me aproximar, o bichinho mostrou os dentes e saltou para longe com a leveza do vento.
O problema é que ele não apenas fugiu.
Também veio na minha direção.
Assustado, ergui os braços para proteger o rosto. Perdi o equilíbrio e despencuei da árvore.
Lembro-me apenas do grito que escapou da minha garganta.
Pela lógica da física, uma pessoa caindo de uma árvore de três metros de altura deveria atingir o chão com uma força considerável.
Mas...
Quando caí, quase não senti dor.
Porque alguém havia amortecido o impacto.
Kokut.
Ele usou o próprio corpo para me proteger.
Enquanto eu saí praticamente ileso, ele bateu a cabeça no chão e ficou coberto de sangue.
...
Sim.
Kokut ficou caído numa poça de sangue por minha causa.
De repente, a situação deixou de ser "salvar alguém preso numa árvore" e virou uma corrida para salvar uma vida.
Na época, fiquei apavorado.
Hoje, olhando para trás, ainda me lembro da expressão dele quando abriu os olhos e me encarou.
Parecia um anjo caído do céu.
Se eu contasse isso para qualquer pessoa, provavelmente diriam que eu estava exagerando.
Mas naquela época eu realmente pensei isso.
Todos estavam com medo de se aproximar dele. Eu também não ousava me mover, com receio de piorar seus ferimentos.
Enquanto Kokut era levado para o hospital, eu permaneci ali, atordoado.
Depois daquele dia, a história do "anjo que caiu do céu" se espalhou por toda a faculdade.
E foi assim que comecei a prestar atenção nele.
Kokut era alto, tinha aparência comum e mantinha o cabelo preso de forma descuidada porque tinha preguiça de ir ao barbeiro.
À primeira vista, não parecia nada especial.
Mas ele possuía algo que atraía as pessoas.
Gostava de festas, adorava estar cercado de amigos e parecia capaz de fazer amizade com qualquer um.
Era daí que vinha seu apelido.
Não importava se estivesse caminhando, esbarrando em alguém ou até sendo derrubado no chão.
Kokut sempre seguia em frente com um sorriso no rosto.
Kokut não era perfeito.
Era teimoso, impulsivo e raramente cumpria aquilo que prometia.
Hoje dizia uma coisa.
Amanhã dizia outra completamente diferente.
Muita gente o considerava alguém irresponsável, sem rumo ou sem grandes perspectivas para o futuro.
Mesmo assim, era impossível não gostar dele.
Porque, apesar de todos os defeitos, Kokut possuía uma bondade genuína.
Quando decidia ajudar alguém, fazia isso sem esperar nada em troca.
Quando se importava com alguém, fazia de verdade.
E talvez tenha sido exatamente isso que me conquistou.
O dia em que percebi que estava apaixonado por ele chegou sem aviso.
Não houve uma grande revelação.
Nenhum momento dramático.
Nenhuma música tocando ao fundo.
Apenas um dia comum.
Enquanto observava Kokut rir e conversar com os amigos, algo dentro de mim mudou.
Foi só então que percebi.
Eu gostava dele.
Gostava dele muito mais do que deveria gostar de um amigo.
No início tentei negar.
Tentei convencer a mim mesmo de que era apenas admiração.
Gratidão.
Ou qualquer outro sentimento.
Mas não adiantou.
Porque quanto mais tempo passava ao lado dele, mais difícil ficava ignorar o que sentia.
E então comecei a namorar Kokut.
Naquela época, eu acreditava sinceramente que ficaríamos juntos para sempre.
Acreditava que nenhum problema seria capaz de nos separar.
Acreditava que o amor era suficiente.
Mas a vida raramente segue o roteiro que imaginamos.
...
Quando tudo terminou, eu já estava cansado.
Cansado de esperar.
Cansado de acreditar.
Cansado de fingir que nada estava errado.
— Ainda existe alguma coisa que eu não vi? — perguntei.
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
— Vamos acabar com isso, Kokut.
Ele ficou em silêncio.
Parecia querer dizer alguma coisa.
Parecia querer explicar.
Parecia querer me convencer de que ainda me amava.
Da mesma forma que havia feito tantas vezes antes.
Mas, naquele momento, nenhuma palavra faria diferença.
Porque já não havia mais nada para salvar.
E eu também estava cansado demais para continuar tentando.
As lágrimas escorriam pelo rosto dele.
Ver Kokut chorando sempre foi algo raro.
Por isso a cena apertava meu coração.
Eu não o odiava.
Nunca odiei.
Mesmo depois de tudo.
Mesmo depois do término.
O problema era outro.
Eu simplesmente não o amava mais.
Então o abracei.
Abracei-o com cuidado.
Como quem tenta consolar alguém que está sofrendo.
Porque, naquele instante, ele parecia mais frágil do que jamais havia parecido.
Mas Kokut continuava sendo Kokut.
Depois de algum tempo, enxugou as lágrimas e tentou sorrir.
Um sorriso triste.
Mas ainda assim um sorriso.
— Você continua sendo cruel até o fim — disse ele.
Eu quase ri.
Porque aquilo parecia exatamente algo que ele diria.
— Desculpa, Kokut.
— Não. Quem deve pedir desculpas sou eu.
Balancei a cabeça.
— Não.
— Sim.
Ficamos discutindo por alguns segundos sobre quem deveria se desculpar.
Até que ele soltou uma risada fraca.
— Então me responde uma última coisa.
— O quê?
Kokut me encarou.
Como se estivesse reunindo coragem para fazer a pergunta.
— Você encontrou alguém melhor do que eu?
Respondi imediatamente.
— Não.
A expressão dele vacilou.
— Então por quê?
Fechei os olhos por um instante antes de responder.
— Porque eu deixei de te amar.
— Não tem nada a ver com outra pessoa.
— Não tem nada a ver com ciúmes.
— E também não tem nada a ver com você ser insuficiente.
— Apenas... acabou.
Kokut ficou em silêncio.
Depois sorriu novamente.
Dessa vez, um sorriso sincero.
O mesmo sorriso que um dia havia feito meu coração disparar.
— Você continua honesto demais.
E foi assim que nossa história terminou.
Não com gritos.
Não com traições.
Não com ódio.
Mas com duas pessoas que já não podiam seguir juntas.
...
Às vezes penso que nossa história parecia saída de um romance.
Um daqueles romances doces que fazem as pessoas acreditarem no amor.
Mas a verdade é que nós simplesmente nos encontramos cedo demais.
Porque, se eu tivesse conhecido Kokut naquela época, não haveria como dar certo.
Por outro lado...
Se o encontrasse agora...
Talvez ele fosse a pessoa certa.
A pessoa certa.
Mas no momento errado.
E talvez essa seja a forma mais dolorosa de amor que existe.
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