"Esse é o seu problema, Claude. Você devia ser mais atencioso com os sentimentos dos outros. Quão desolados eles devem ficar ao serem comparados comigo? Como você pôde dizer uma coisa dessas quando Alexander, que eles estão criando na frente da taverna, é tão esperto!"
"..."
"O que foi essa expressão? Não me diga..."
Kyle, que havia mudado arbitrariamente o nome de Kiki, da frente da taverna, para Alexander, cobriu a boca com a mão.
"Será que toquei num ponto sensível? Bom, para começar, você precisaria ter amigos para ir a uma taverna... Desculpa. Foi um ato falho. Você vai me perdoar, não vai, Claude?"
"Foi erro meu ter dado atenção a você."
Parecia que o método de conversa dele era consistentemente assim com todo mundo. Como se estivesse cansado de Kyle despejar mais uma torrente de calúnias, Claude se afastou sem qualquer apego remanescente.
Se Kyle nasceu com um talento natural para irritar as pessoas, Claude era um homem que tinha o dom de ignorar completamente as bobagens dos outros. Ele caminhou até Ian, que vinha observando a situação com uma expressão que dizia que não poderia se importar menos com o que estava sendo tagarelado às suas costas.
"Recebi um relatório ontem dizendo que houve um pequeno mal-entendido com nossos cavaleiros."
Não parecia ser algo pequeno, mas também era ambíguo demais para chamar de grave. Ian, que não se importava muito de qualquer jeito, deu um aceno superficial após uma pausa. Ele não tinha intenção de questionar. Isolar quem não se encaixava no grupo provavelmente era a mesma coisa em qualquer época.
"Foi algo ao qual eu deveria ter prestado atenção."
Uma mentira. Ele não poderia estar alheio às palhaçadas de Fred, que vinham causando confusão há mais de uma semana. Ian, considerando aquilo mera formalidade, estava prestes a acenar de novo quando Claude falou.
"Para ser honesto, eu não prestei."
"..."
Ele está se gabando?
Foi uma declaração confusa, não dava para saber se ele estava tentando arrumar briga ou apenas sendo honesto. Sob o olhar silencioso de Ian, Claude, com a expressão inalterada, continuou sem demora.
"Se você quer que os cavaleiros em questão sejam punidos, é só dizer. Vou incluir todos, do instigador até aqueles que ficaram parados assistindo."
Ele parecia pronto para realizar um julgamento ali mesmo se Ian ao menos assentisse. Ian não conseguia entender a razão exata para ele aparecer depois de uma semana e dizer isso. No entanto, a resposta para aquela pergunta já estava decidida. Enquanto ele erguia o braço lentamente, os olhos de Claude o seguiram.
"..."
Claude ficou em silêncio por um momento diante do gesto de Ian de apontar para si mesmo com a ponta do dedo.
Havia apenas uma razão para ele apontar para Claude quando perguntado se queria punição.
As pontas de suas sobrancelhas bem-feitas se ergueram, mas só por um instante. Ele achara estranho a notícia de que Ian, depois de todo o trabalho para se juntar aos cavaleiros, estava sendo empurrado de um lado para o outro por gente como Fred. Ele tem culhões. Claude, relembrando a imagem de Ian durante a procissão, abriu a boca lentamente.
"...Sim, vou me incluir também."
Ele também tinha sido um espectador.
Se a punição fosse aplicada, teria que ser justa.
Diante da atitude de Claude de aceitar sem desculpas, Ian abaixou a mão erguida e manteve a boca fechada. Achando que já tinha uma ideia do tipo de pessoa que Claude era, engoliu um suspiro e balançou a cabeça.
Ele não era uma criança, e não tinha o hábito de fazer fofoca pelas costas dos outros.
Acenando com a mão como se dissesse que não era necessário, ele se virou.
Parecia improvável que fosse encontrar aquele homem ficando ali. Já que esse era seu único propósito desde o início, ficar mais tempo parecia perda de tempo. Ignorando Shu, que encarava sem expressão nessa direção, Ian caminhou até a entrada. Ele tinha acabado de pensar que seria melhor voltar para seu quarto.
"Ian."
Olhando para trás, Ian deveria ter fugido naquela hora.
Sem mais perguntas, sem querer saber de nada. Se ele tivesse simplesmente fugido sem olhar para o homem que havia matado, talvez pudesse ter tido uma morte pacífica desta vez, exatamente como desejava.
Quanto às suas memórias perdidas, ele poderia apenas tê-las folheado nos lampejos de seus últimos momentos.
Sem saber disso, Ian se virou abruptamente ao som daquela voz rígida e articulada. Algumas emoções indecifráveis passaram pelo rosto inexpressivo de Claude.
"O Comandante deseja vê-lo."
Era uma condolência.
"Bem-vindo!"
Entrando em uma sala bem organizada, Ian piscou, olhando para a figura que se levantou de um pulo.
O homem, que estendeu a mão para um aperto assim que seus olhos se encontraram, era excepcionalmente alto, mesmo comparado às pessoas daqui que geralmente pareciam ter bons físicos, independentemente da idade ou gênero.
Ele deve ter bem mais de dois metros de altura.
Ele mesmo não era baixo de forma alguma, mas por algum motivo, frequentemente se pegava olhando para cima para as pessoas aqui.
Pensando que o volume de voz dele combinava com sua constituição, Ian pegou a mão oferecida, e uma risada calorosa se seguiu.
"Ouvi algumas coisas sobre você."
Sua mão apertada foi chacoalhada com tanta força que ele achou que seu braço fosse sair do lugar. Em vez de resistir, deixou a mão ser sacudida, e o homem logo soltou devagar.
"Ah, minhas desculpas."
Era um olhar raro e amigável entre pessoas que eram incondicionalmente hostis. Não havia traço de malícia no rosto do homem que olhava para ele com um sorriso completo.
Ombros largos, cabelo bem curto. Músculos retesados se destacando na pele escura. Só isso já era uma visão intimidadora o bastante, mas outra coisa chamava mais atenção.
Parecia que uma fera enorme havia arranhado seu rosto inteiro.
Traçando lentamente o rosto do homem, que tinha um tapa-olho preto cobrindo o olho direito, Ian inclinou a cabeça levemente. Um urso? Pelas marcas com aquele espaçamento, teria que ser algo daquele tamanho.
Os ferimentos pareciam antigos, com carne nova já tendo crescido por cima, deixando apenas cicatrizes, mas era certamente uma primeira impressão aterrorizante, o suficiente para fazer uma criança cair no choro.
"Me machuquei um pouco durante a última expedição. O ferimento não cicatrizava nem com tratamento. Por causa disso, fiquei longe dos cavaleiros por um bom tempo. Claude trabalhou duro, mas... deve ter havido coisas às quais ele não conseguiu atender."
"Peço desculpas."
"Não. Você assumiu meus deveres também. A culpa foi minha por ter sido descuidado."
Quando Claude, que estava atrás de Ian, respondeu como se estivesse esperando a deixa, o homem acenou com a mão e balançou a cabeça. Havia risco de infecção adicional, então por várias semanas ele não pôde encontrar ninguém exceto o médico ou o Grão-Duque. Sabendo que o Vice-Capitão, Claude, havia assumido suas funções também, ele balançou a cabeça, então de repente olhou para Ian com um ar de realização.
"Deixei meu convidado de pé. Por favor, sente-se."
Com suas palavras, Ian se aproximou de uma cadeira que parecia ser para convidados e viu que alguém já estava sentado do lado oposto. Sua atenção estava tão focada no homem com uma presença tão forte que ele não tinha notado quem era. Enquanto se sentava, ele olhou para cima. Viu dedos elegantes levantando uma xícara de chá.
Era Aily, tomando chá em um traje impecável, diferente da última vez que ele a viu.
"..."
Ela não era a chefe das criadas?
Talvez sentindo o olhar de Ian enquanto ele confirmava que o cabelo castanho dela, balançando na altura do queixo, não estava empastado de sangue como daquela vez, ela olhou em sua direção.
A expressão dela era muito sutil e complexa.
"Nos encontramos de novo."
Ian não sabia, mas essa era a Aily que havia apostado três meses de seu salário que ele não duraria nem uma semana. Foi bom ela só ter pensado consigo mesma; do contrário, teria perdido todo o seu precioso dinheiro, ganho com tanto esforço.
Para Aily, para quem o dinheiro era a primeira, segunda e trigésima quinta coisa mais importante na vida, não foi nada menos que uma experiência de parar o coração.
Ela precisava corrigir seu hábito de ser incapaz de resistir a uma aposta, mas se fosse tão fácil corrigir, não teria sido um problema para começar.
Quem imaginaria que alguém da realeza lavaria roupa em uma fonte, e por uma semana inteira ainda por cima?
Refletindo sobre sua tolice em julgá-lo pela aparência suave, Aily suou frio sem perceber e ergueu os cantos da boca. Ian não demonstrou nenhuma reação particular ao sorriso limpo e profissional dela.
"A propósito, Kyle, não me lembro de ter chamado você também."
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