17 de jul. de 2026

Deadlock - Capítulo 02

Capítulo 02


Micky convidou os dois para o refeitório, já que eram quase cinco horas. Todos os prisioneiros estavam reunidos em um só lugar, o que significava que, se você não chegasse cedo, era obrigado a esperar em uma fila longa e cansativa. Assim que chegaram ao primeiro andar, Micky chamou um homem na multidão.

“E aí, Nathan. Que coincidência. Deixa eu te apresentar esses caras. Yuto Lennix e Matthew Caine. Eles começam hoje no Bloco A. Esse aqui é meu colega de quarto, Nathan.”

“Nathan Clark. Prazer em conhecê-lo.” Nathan sorriu calorosamente, segurando alguns livros na dobra de um braço e estendendo a outra mão para um aperto de mãos. Ele tinha por volta de trinta anos, com cabelos castanhos lisos e brilhantes que chamavam a atenção. Era alto e magro, mas seus ombros largos impediam que parecesse franzino. Seu nariz fino e lábios delicados lhe davam um ar inteligente, mas também um tanto tenso. Contudo, seu sorriso gentil e seu jeito natural e descontraído atenuavam essa impressão, deixando-o com uma aura de aceitação digna.


“Venha conosco ao refeitório”, disse Micky.

“Claro. Só um minutinho enquanto guardo esses livros”, respondeu Nathan serenamente, subindo lentamente as escadas. De alguma forma peculiar, ele parecia não ser deste mundo.

Enquanto esperavam, Micky começou a contar sua história de vida sem que ninguém tivesse pedido. Ele havia fracassado em um assalto a banco, sido preso e estava ali há cinco anos. Orgulhosamente, informou-lhes que contrabandeava itens proibidos por uma rota especial que passava despercebida pelos guardas e que fazia disso um negócio, vendendo suas mercadorias para uma clientela diversificada.

“Se precisar de alguma coisa, é só me avisar. Revistas pornográficas, drogas, facas, o que você imaginar. Posso conseguir qualquer coisa, menos mulheres.”

Yuto esboçou um sorriso irônico por dentro. Então era disso que se tratava. Ele vinha se perguntando por que Micky era tão amigável, mas agora sabia que, para Micky, recém-chegados significavam novos clientes.

Nathan voltou logo em seguida, e o grupo de quatro saiu do Bloco A em direção ao refeitório. Micky assobiava enquanto caminhava à frente. Nathan, que vinha atrás, explicava a Yuto e Matthew, que ainda não faziam ideia de nada, vários detalhes sobre a prisão.

O edifício era dividido em quatro alas principais que abrangiam o terreno: a ala central, a ala oeste, a ala leste e a ala norte. As alas leste e oeste continham celas; a ala norte abrigava um ginásio e uma oficina; a ala central, a única com uma saliência que lhe conferia o formato de "T", abrigava o gabinete do diretor, a secretaria, o posto da guarda e o centro de controle – todos parte da ala administrativa na seção inferior do "T", que formava o núcleo principal da prisão. Na parte posterior do "T" ficavam o refeitório, a sala de recreação, a enfermaria, a biblioteca e as instalações educacionais.

Foram realizadas verificações de segurança pelos guardas em alguns dos portões principais. Alguns locais estavam equipados com detectores de metal.

“Há inúmeras maneiras de contornar isso, é claro”, acrescentou Nathan, com um sorriso maroto. Suas explicações eram diretas e concisas. Mesmo uma breve conversa bastava para demonstrar sua inteligência.

Eles foram revistados na entrada do refeitório. Yuto entendeu o que Nathan queria dizer quando o guarda lhe fez uma revista superficial. Com revistas corporais como essas, ele não teria muita dificuldade em esconder uma ou duas pequenas lâminas nos sapatos, sob a gola da camisa, atrás do cinto. Havia muitos lugares para esconder uma, se ele sentisse necessidade.

Na cozinha, os detentos vestindo aventais brancos trabalhavam atarefados sob o olhar atento dos guardas. Micky e Nathan, seguidos por Yuto e Matthew, pegaram bandejas de plástico e entraram em uma fila que já estava ficando bastante longa enquanto esperavam o jantar ser servido.

A refeição consistia em alguns itens, como peixe e frango fritos, grits de queijo em copos de papel e salada. Pão, suco de laranja e café estavam disponíveis gratuitamente.

O espaçoso refeitório fervilhava com a algazarra de vários detentos. O ar estava denso com o odor corporal masculino, que se misturava ao cheiro da comida, criando uma combinação peculiar.

Uma observação mais atenta revelou que as mesas em algumas partes da sala eram, na verdade, dominadas por certos grupos: brancos à direita, negros ao fundo e latinos à esquerda. Yuto se perguntou se certas raças tinham que se sentar em mesas específicas, mas Micky e Nathan se sentaram na mesma mesa que Yuto e Matthew, perto do centro da sala. Mesmo ao lado dele, detentos de diferentes cores de pele estavam comendo juntos. Aparentemente, o centro da sala era uma zona mista.

A refeição foi péssima, para dizer o mínimo, embora ele não esperasse muito. Mas o apetite não importava; uma vez no estômago, a comida seria metabolizada em energia. Yuto levou a comida à boca em silêncio com seus talheres de plástico, seu corpo uma máquina, a comida mais como combustível.

De vez em quando, um detento que passava olhava para Matthew e assobiava, como se estivesse cantando uma garota bonita.

"E aí, Marshmallow Caine", disse Micky, estalando os dedos e apontando para Matthew numa imitação exagerada.

"É Matthew", corrigiu o menino prontamente.

"Escuta, quando você terminar de comer, Menino Marshmallow, você precisa ir ao refeitório e comprar o cinto de castidade mais recente. Desenvolvido pela NASA especialmente para prisioneiros. Você pode cagar sem precisar tirá-lo. Legal, né?"

Micky bateu na mesa enquanto ria da própria piada, lançando um olhar para trás na direção de Matthew, que estava sentado ali com uma expressão de surpresa.

“Mas mesmo com um cinto de castidade, aposto que você não dura nem três dias. Aposto três maços de cigarro.”

Matthew fez uma careta, mas o rosto de Nathan estava sério enquanto concordava, dizendo que Micky não estava exagerando.

“Você precisa ter muito cuidado. O número de homicídios não se compara ao número de estupros que ocorrem na prisão. Tente não agir sozinha. Fique longe de lugares suspeitos. Tenha cuidado redobrado com as gangues. Se for atacada por elas, não tente revidar. Deixe que façam o que quiserem com você, e pelo menos você sairá viva.”

“Sair daqui vivo, senhor advogado?”

Nathan franziu a testa. Yuto ficou em alerta ao sentir uma mão agarrar seu ombro.

“Estamos nos divertindo por aqui? Gostaria de me juntar à festa de boas-vindas?” A mão no ombro de Yuto pertencia a um homem negro de estatura imponente. Ele usava um gorro de lã e um brinco de prata na orelha direita. Era, sem dúvida, o homem que havia falado com ele no local. Havia um grupo de homens negros de aparência rude atrás dele.

“Você não vai me apresentar esse rostinho bonito? Estou querendo conhecê-lo desde que o vi aqui. Qual é o seu nome? Sou Bob Trenkler. Todo mundo me chama de BB”, disse o homem, aproximando o rosto do de Yuto. Yuto desviou o olhar. Outro homem negro tentou espiar seu rosto do outro lado.

“Ei, BB. Esquece esse. O garoto branco é mais bonito.”

"Bobagem. O que você vai conseguir de um garoto que parece que nem chegou à puberdade? Aprenda a escolher suas garotas."

BB inclinou-se e aproximou o nariz do pescoço de Yuto. Inalou profundamente com uma expressão de êxtase no rosto, como se estivesse sentindo o cheiro de um banquete. "Ah, você cheira a uma vadia gostosa", sussurrou lascivamente em seu ouvido. Yuto se irritou.

"Não me toque com essas suas mãos imundas", ele cuspiu enquanto afastava a mão de BB. A multidão fervilhava de agitação.

"Você acha que pode falar assim com o BB só porque é novato, seu idiota?"

"Você está pedindo para ser morto?"

Os rapazes do BB se levantaram imediatamente, tomados pela raiva, e cercaram Yuto. Os espectadores, na esperança de presenciar uma briga, os incentivaram.

"Faça isso!"

“Peguem ele!”

“Saiam da frente”, disse uma voz ao grupo ameaçador de homens negros. Todos os olhares se voltaram para o dono da voz. “Deixem-me passar. Gostaria de comer”, disse o homem branco em voz baixa, segurando uma bandeja. Ele tinha uma constituição física equilibrada e musculosa, com um rosto proporcional que era simplesmente belo. Yuto se viu com os olhos fixos no homem.

O homem, que tinha os cabelos loiros compridos presos casualmente na nuca, não parecia se importar nem um pouco com a atmosfera tensa ao seu redor. Ele passou pelos homens negros e seus olhares agressivos e sentou-se ao lado de Yuto.

"Trenkler! O que você está fazendo aí? Se já terminou de comer, suma daqui!" gritou o guarda à distância, percebendo a confusão.

“Entendi, entendi. Só estava cumprimentando a novata”, disse BB tranquilamente para o guarda. Com um sorriso malicioso no rosto, ele lançou um olhar demorado para Yuto. “Gosto de garotas atrevidas. Vamos sair qualquer dia desses, bonitão. Vou te mostrar como é bom se divertir. — Ei, Burnford. Não pense que pode se exibir por aí só porque o Choker está te protegendo.”

BB lançou um olhar fulminante para o homem que o interrompera e saiu com seus comparsas. A plateia de homens ao redor, que observava com a respiração suspensa, soltou um suspiro coletivo, algo entre alívio e decepção.

“Bom trabalho em atrair a atenção do pior cara possível”, tagarelou Micky. “Aquele cara é o Bob Mau, líder dos Soldados Negros. Ele abriu fogo com uma metralhadora e matou quatro pessoas. Foi condenado a cento e cinquenta anos de prisão. Um cara perigoso, esse aí.”

"Soldados Negros? Isso soa meio ridículo, não é?" disse Yuto com desdém. Micky franziu a testa e balançou a cabeça.

“Não é brincadeira, cara. As gangues mandam aqui. As três maiores, com mais poder, são os Black Soldiers, o grupo chicano Locos Hermanos e a gangue de brancos, ABL. Acredite em mim, Yuto. Se você quiser sair daqui vivo, não arrume confusão com eles.”

"Certo, Micky, entendi. Acho que vou até o refeitório e pego um daqueles cintos de castidade da NASA também", disse Yuto, numa piada que já não era bem uma piada.

"Seria uma boa ideia", disse Micky, dando de ombros.

“Dick”, disse Nathan, “ele é seu novo colega de quarto”. O homem, que estava concentrado em sua refeição, virou-se para olhar Yuto sem expressão. Quando Yuto se apresentou, o homem fez o mesmo.

“Dick Burnford”, respondeu ele sucintamente, e voltou a comer. Yuto observou discretamente seu colega de quarto antissocial. Dick Burnford, em resumo, era bonito.

Seus traços masculinos eram bem definidos e proporcionais. Era um homem bonito aos olhos de qualquer pessoa. Sua alta estatura era bem equilibrada e tonificada à perfeição. Seu único defeito era uma cicatriz proeminente que ia da testa até a extremidade externa da sobrancelha, mas na prisão, uma cicatriz no rosto provavelmente lhe conferia um charme especial.

Mas o que mais chamou a atenção de Yuto, mais do que sua aparência refinada ou a cicatriz marcante, foram os impressionantes olhos azuis de Dick, que lembravam um lago cristalino. Não eram azul-acinzentados nem azul-esverdeados, mas azuis no verdadeiro sentido da palavra.

Cabelo loiro e olhos azuis. Não era uma combinação rara, mas os caucasianos que nasciam com olhos azuis tendiam a vê-los escurecer com a idade, assim como seus cabelos loiros. Nesse sentido, era raro encontrar alguém que tivesse conservado ambas as características de forma tão perfeita.

"Quantos anos você tem, Dick?", perguntou Yuto, esperando que sua pergunta servisse de gancho para uma conversa mais longa. Ele preferia ter uma ideia geral logo de cara da pessoa com quem iria dormir e acordar na mesma cela.

“Vinte e nove”, respondeu ele prontamente, sem sequer olhar para Yuto.

“Isso significa que temos um ano de diferença. Eu tenho vinte e oito. Quando você chegou aqui?” Yuto manteve um tom casual, mas Dick parecia totalmente indisposto a continuar a conversa. Em resumo, ele parecia difícil de lidar.

"Matthew, quantos anos você tem?" Micky interrompeu animadamente, como se quisesse apaziguar a situação. Matthew respondeu que tinha quase vinte e um. "Você parece que ainda estaria chorando pela mamãe, rostinho de bebê", comentou Micky. "O que te trouxe aqui?"

Matthew mexeu no mingau de milho com o garfo. "Não é nada demais", murmurou. "Meu amigo e eu furtamos um pouco de uísque de uma loja de bebidas administrada por um senhor de idade. Meu amigo disse que o homem era senil e que não precisaríamos nos preocupar. Mas acabamos sendo pegos e brigamos. Acabei esfaqueando o cara com a faca do meu amigo... foi no braço, mas o cara caiu com o susto e bateu a cabeça. Ficou em estado crítico, com uma contusão cerebral. Peguei dois anos."

“Você deu azar, cara”, disse Micky, dando um tapinha no ombro de Matthew. Um caso de furto em loja se transformou instantaneamente em cumplicidade em roubo qualificado e agressão. Sem mencionar a transferência para a ala oeste, que lhe rendeu até a pena do guarda. Matthew estava mesmo sem sorte.

“Quantos anos você vai ficar preso, Yuto?”

"Quinze."

Micky assobiou e inclinou-se para a frente, ansioso. "Então, o que você fez?"

“Eu não fiz nada.”

Micky e Nathan se entreolharam. Yuto não se importava com o que as pessoas pensariam dele. Não havia outra maneira de descrever a situação.

"Sou inocente", declarou Yuto com firmeza.

“Ah, bem”, disse Micky sem jeito, coçando a bochecha. “Acontece. Você também deve ter tido azar.”

Talvez Micky pensasse que ele era meio maluco, mas Yuto não ligava. Sua versão da história fora rejeitada desde o início, tanto nos interrogatórios quanto no tribunal. Ele fora incriminado pelo assassinato de seu colega investigador e condenado a quinze anos de prisão. Comparada à amargura disso, a ideia de um companheiro de cela pensar que ele tinha perdido o juízo não o incomodava nem um pouco.

“Ei”, disse Matthew a Nathan, como que para quebrar o gelo. “Sabe como aquele cara negro lá atrás te chamou de Senhor Advogado? Você era advogado antes de vir para cá?”

“O Nathan é voluntário na biblioteca jurídica”, respondeu Micky por ele, aparentemente incapaz de resistir à tentação de dar sua opinião sobre tudo. “Esse cara aqui sabe muito e eu digo muito mesmo sobre direito. Ele já apresentou denúncias por escrito em nome de detentos ao Departamento Estadual de Correções. Violações de direitos humanos, tratamento injusto, tudo isso. Ele aconselhou detentos com longas penas e consultou leis e precedentes para redigir e apresentar petições para reduzir suas penas. Ele é incrível. Outro dia mesmo, ele encontrou uma brecha na lei e entrou com um pedido em nome de um detento, e o cara teve sua pena reduzida em dez anos. Outros caras conseguiram liberdade condicional. Você pode confiar muito mais nesse cara do que em advogados de fora. O Nathan tem até o privilégio de falar diretamente com o diretor Corning.”

O tom de admiração de Micky deixou claro que ele respeitava seu colega de cela. Para muitos detentos aqui, Nathan provavelmente era como um salvador.

"O diretor só me chama a atenção quando quer me dar uma bronca", disse Nathan. "Eu o irrito porque vivo causando problemas desnecessários."

“Onde você estudou Direito?”, perguntou Yuto.

“Estudei um pouco disso na faculdade”, disse Nathan com um sorriso. “Minha especialização era direito penal. Agora posso estudar criminosos em primeira mão”, refletiu. Não havia autopiedade na maneira como Nathan brincava sobre sua situação. Yuto sentiu uma forte afeição por ele. Nathan não era apenas um homem inteligente.

Dick, por outro lado, era indecifrável a partir da breve interação que tiveram. Era um homem de poucas palavras e raramente iniciava conversas. Mas isso não significava que rejeitasse a comunicação por completo; ele ainda sorria para as piadas bobas de Micky e respondia às conversas banais de Nathan. Não era do tipo sociável, mas ainda demonstrava um nível aceitável de educação com seus amigos. Essa era a impressão de Yuto até então.

Seja como for, Dick era um colega de quarto infinitamente melhor do que um homem turbulento como Micky.

Após o jantar, o grupo de Yuto retornou ao Bloco A para o confinamento e a chamada às seis horas. Todos os detentos caminharam em massa para suas celas , como em um êxodo.

De repente, uma voz furiosa se ergueu da multidão em movimento. Os espectadores rapidamente se aglomeraram em torno do que parecia ser uma briga. Insultos altos e entusiasmados foram lançados ao ar.

Matthew tentou se aproximar da confusão, mas foi impedido por Nathan. "Não faça isso", advertiu ele. "Não se envolva. Se você se atrasar para a chamada, terá que responder por uma punição severa mais tarde."

“Brigas acontecem o tempo todo. Logo você nem vai mais achar isso novidade. Vamos embora”, disse Micky, empurrando os ombros de Matthew. O garoto deu um suspiro apático.

“Todo mundo está irritado porque não está ingerindo cálcio suficiente”, disse Nathan, com calma. Quando o grupo recomeçou a andar, Yuto tentou segui-los. Ele tinha dado apenas alguns passos quando foi puxado pelo braço por trás. Quando Yuto percebeu o perigo que corria, já era tarde demais. Um grupo de homens já o havia arrastado para um banheiro próximo. Eram os capangas de BB que o haviam ameaçado no refeitório.

"Acabem com ele!" gritou o homem que o imobilizava. Os outros três homens avançaram. Um desferiu um golpe forte em seu estômago; outro, um na nuca. Quando Yuto caiu no chão, tomado pela dor e pelo choque, foi chutado violentamente enquanto ainda estava caído.

Yuto sabia que poderia lutar decentemente se quisesse, mas quatro contra um era uma desvantagem muito grande. Em vez disso, encolheu-se para proteger seus órgãos, ergueu os braços para proteger a cabeça e dedicou-se exclusivamente à defesa enquanto esperava a tempestade passar.

“Da próxima vez que vocês resolverem desrespeitar o BB, lembrem-se de que não será tão gentil assim. Muito bem, pessoal, vamos lá.”

Após espancarem Yuto rapidamente, os homens negros se viraram e fugiram. Nathan e Micky apareceram logo em seguida. Ao verem Yuto caído no chão, correram até ele.

“Yuto, aguenta firme. Você está bem?”

"Droga, são aqueles bastardos dos Soldados Negros!" murmurou Micky, com a voz carregada de ódio. Nathan ordenou que ele trouxesse Dick. O homem irrompeu na sala justamente quando Nathan amparava Yuto nos braços, ajudando-o a se sentar. Dick encarou Yuto nos olhos.

Você consegue ver meu rosto?

“…Sim. Dois olhos, um nariz, uma boca. Olá, bonitão.”

“Se você estiver bem o suficiente para fazer piada, não temos nada com que nos preocupar. Vamos levá-lo para a nossa cela.”

Yuto conseguiu se levantar com o apoio de Nathan e Micky. Seu peito doía intensamente a cada inspiração, sem dúvida por causa dos chutes brutais que havia recebido.

“Vai embora. Vai ser uma experiência solitária para você se descobrirem que você estava brigando. Enquanto isso, vou agradecer aos céus por termos um encrenqueiro desde o primeiro dia.” O tom sarcástico de Dick irritou a todos.

"Eu não fiz nada", respondeu Yuto com uma careta.

“O Micky teve a gentileza de te avisar lá atrás, e você deu de ombros. Você mesmo provocou isso”, disse Dick friamente. Yuto sentiu o rosto endurecer.

"Vou te avisar agora mesmo que você não vai sair impune só porque é a vítima. Para os guardas, a própria confusão é o problema."

“Então você está dizendo que se alguém for linchado, ele também será punido por isso? Isso é muito errado”, disse Yuto irritado enquanto Dick olhava para fora do banheiro. Dick nem se virou.

“Não me importo se você acha isso errado. É aqui que você vai morar de agora em diante. — Certo, vamos embora.” Ao sinal de Dick, Nathan e Micky começaram a andar, carregando Yuto nos braços. Yuto sentia seu corpo gritar de agonia a cada passo. Mas de jeito nenhum ele ia dizer que não conseguia andar. Seu orgulho masculino já estava bastante ferido pela vergonha de apanhar sem nem mesmo ter a chance de revidar.

"Onde está Matthew?", perguntou Yuto a Micky, percebendo que o garoto não estava em lugar nenhum.

“Eu e o Nathan estávamos nos perguntando para onde você tinha ido quando vimos os caras dos Soldados Negros saindo correndo dos banheiros”, respondeu Micky. “Tínhamos uma ideia do que poderia ter acontecido, então o fizemos voltar sozinho. Não queremos envolver um garotinho com uma pena curta, não é?”

"Você tem razão." Yuto sorriu apesar da dor, sentindo-se um pouco redimido pela gentileza de Micky.

“Nathan, o que há de errado com o recém-chegado?” perguntou o guarda parado na entrada do Bloco A, com voz suspeita. Era Guthrie, o guarda que havia trazido Yuto e Matthew até ali.

“Ele foi derrubado e caiu. Estava lotado, então ele foi pisoteado bastante”, disse Nathan calmamente. Guthrie pareceu convencido; ele ergueu o queixo como quem diz para eles se apressarem. Micky suspirou aliviado ao lado dele.

Yuto, com toda a sua força de vontade, conseguiu subir os lances de escada até o terceiro andar. Nathan e Micky sentaram Yuto na cama de Dick antes de correrem para a cela. Poucos minutos depois, um sino ensurdecedor soou por todo o Bloco A.

"Recuem!" o rugido do guarda ecoou por todo o prédio.

“Depois de ouvir esse som, as portas se fecham automaticamente”, disse Dick. E, como prometido, as portas deslizaram rapidamente sobre os trilhos, fechando a cela. Yuto agora tinha plena consciência de que havia se tornado um verdadeiro prisioneiro dentro daquela cela apertada.

Assim que o guarda terminou a chamada, as portas se abriram novamente. Dick ordenou que Yuto se deitasse na cama. Enquanto ele se espreguiçava com cuidado, Dick olhou em seus olhos mais uma vez e, em seguida, passou as mãos frias pelo corpo de Yuto para verificar a gravidade de seus ferimentos, perguntando se ele tinha dor de cabeça ou sentia náuseas.

“Dick. Como está o Yuto?” Nathan e Micky voltaram para visitá-lo.

“Estou examinando-o agora mesmo. — Você disse que sente dor no peito ao inspirar?”

Quando Yuto assentiu com a cabeça, Dick se virou para Nathan e Micky. "Ele pode ter fraturado uma costela."

"O que devemos fazer?", perguntou Nathan. Dick deu de ombros, como quem diz que não era da sua conta, e se levantou.

“Só podemos esperar que se cure sozinho. Estou indo para a enfermaria. Ainda tenho trabalho a fazer. Choker não está nada bem.”

Assim que Dick saiu da cela, Yuto fez uma pergunta a Nathan: "Dick é médico?" Nathan balançou a cabeça negativamente enquanto aplicava uma toalha úmida no rosto inchado de Yuto.

“Mas ele tem bastante conhecimento. Ele é auxiliar de enfermagem na enfermaria. Está acostumado a cuidar de pessoas feridas. Yuto, se ficar insuportável, você deve avisar o guarda. Seu pedido só será recebido amanhã, então você terá que ficar sem a enfermaria esta noite.”

Yuto agradeceu a Nathan pela ajuda, mas disse que não iria apresentar uma queixa. Mesmo que consultasse um médico, o tratamento para uma costela fraturada provavelmente se resumiria, no máximo, ao uso de um colete ortopédico.

"Yuto, o que aconteceu?" Matthew gritou ao entrar na cela. Ele olhou, com os olhos arregalados, para o rosto inchado e repugnante de Yuto. "Está horrível", disse ele, franzindo as sobrancelhas. "Foram aqueles caras negros que estavam te incomodando no refeitório?"

“Sim”, respondeu Micky. “Mas ele teve sorte de ter acontecido antes do fechamento da cela e da chamada. Eles não tiveram muito tempo para causar danos.” Matthew ouviu a explicação de Micky, depois olhou para Yuto e mordeu o lábio, irritado.

"Eles chegaram a esse ponto por causa de um comentário insignificante? Estão loucos."

Yuto perguntou se podia ficar sozinho para descansar. Assim que os três homens saíram de sua cela, ele foi novamente forçado a lidar com as ondas de dor excruciante e incessante que o atacavam. A dor percorria não apenas seu peito, mas todo o seu corpo. Cada parte parecia latejar de dor. Um gemido lamentável ameaçava escapar de seus lábios, mesmo quando ele permanecia imóvel. Yuto cerrou os dentes e suportou.

Essa certamente não era a primeira vez que ele se envolvia em violência; ele já havia lutado com um homem armado que percebeu seu disfarce durante uma operação secreta. Ele também havia sido esfaqueado por um colega traficante quando estava infiltrado. Seu trabalho na DEA sempre lhe impunha algum tipo de perigo.

Mas essa foi a primeira vez que ele foi submetido a uma surra unilateral, sem sequer poder receber tratamento para os ferimentos sofridos. Foi um golpe para sua dignidade estar ali deitado sozinho na cama, em uma cela escura e apertada, sem outra escolha a não ser engolir a dor. Mas ele não ia deixar isso o abater.

Yuto deu a si mesmo um discurso motivacional. Não deixe isso te afetar. Você é um ex-investigador da DEA. Você sempre encarou todas as missões perigosas, sem temer nada. Você superou inúmeras dificuldades.

Naquele momento, o orgulho era a única força que restava a Yuto. Ele havia perdido tudo, mas ninguém podia lhe tirar a dignidade – sua crença em si mesmo. Ele não ia deixar a insegurança dominá-lo agora.

Ele temia que, uma vez que começasse a duvidar de si mesmo, acabaria perdendo completamente a fé em suas próprias habilidades. Era disso que ele mais tinha medo. A última pessoa que ele queria se tornar era um covarde que só se preocupava em se esquivar de todos os problemas.

Yuto praguejou mentalmente, dando um chute figurativo em seu próprio eu deprimido. Ele já previa tudo isso quando chegou aqui. Ninguém o obrigou a vir. A decisão foi dele.

Yuto escolheu vir para a Prisão Estadual de Schelger por vontade própria. Era verdade que ele tinha família em Los Angeles, mas havia outro motivo para ter atravessado o país de avião, da costa leste até aquela prisão remota na costa oeste. A gravidade da situação poderia desestabilizar a vida precária de Yuto.
Ou talvez ele já tivesse caído no abismo. Ele havia perdido tudo por causa daquele incidente — seu emprego, seu status social, a confiança dos amigos. Por mais que lutasse, jamais recuperaria tudo isso.
Mas Yuto recebera uma pequena faísca de esperança no momento mais sombrio e profundo de sua vida. Essa esperança residia ali, na Prisão de Schelger.

Quando Yuto foi condenado a quinze anos de prisão pelo assassinato de Paul McLean, ele foi atingido de forma tão profunda e irreversível que parecia não haver mais volta. Foi então que uma certa organização, discretamente, entrou em contato com Yuto: o FBI, ou Departamento Federal de Investigação.

“E aí, Lennix. Tudo bem?” Heiden mostrou seu crachá para Yuto na sala de reuniões do centro de detenção e se apresentou como investigador da seção de Terrorismo Doméstico da Divisão Antiterrorismo do FBI. Ele era um rosto bonito em um terno caro. Yuto achou difícil gostar dele, com sua atitude elitista, arrogante e condescendente tão típica do FBI.

Yuto ficou confuso a princípio, imaginando o que o FBI poderia querer com ele. Mas quando ouviu as palavras saírem da boca de Heiden, sua confusão se transformou em espanto.

“Queremos que você encontre um certo homem na prisão. Se o encontrar, prometemos sua libertação imediata em liberdade condicional.” A história repentina era muito suspeita. Yuto relutou em acreditar nas alegações do FBI a princípio. Heiden exibiu um sorriso presunçoso para o rosto apreensivo dele antes de começar a explicar.

“Você está ciente de que, ao longo do último ano, ocorreram uma série de atos terroristas de pequena escala em vários locais dos Estados Unidos, que se acredita serem obra de um único grupo?”

“Ouvi falar disso no noticiário”, respondeu Yuto. Os casos, apelidados de Terror Silencioso, estavam causando grande repercussão na sociedade. Até o momento, não houve declarações dos perpetradores, nem um padrão identificável nos locais onde os explosivos foram plantados. Mesmo entre os especialistas, havia muita especulação sobre se os perpetradores eram uma organização terrorista fundamentalista, uma força extremista de extrema-direita ou simplesmente criminosos que cometiam atos terroristas por diversão.

“O FBI está atualmente investigando essa série de incidentes e, há dois meses, prendemos um homem branco em um supermercado em Connecticut que estava em posse de explosivos. Suspeitamos que ele estivesse envolvido nesses incidentes e, por meio de seu depoimento, descobrimos que ele pertencia a um grupo sectário radical. Mas ele recusou um acordo judicial e se calou sobre todo o resto. A totalidade da organização ainda é desconhecida para nós.”

Assim que Heiden percebeu que o homem estava apavorado com a possibilidade de represálias da organização, ele o tranquilizou repetidamente, garantindo que seria incluído em um programa de proteção a testemunhas e que sua segurança estaria garantida. Comovido pela sinceridade de Heiden, o homem finalmente concordou em quebrar o silêncio.

“Resumindo, foi isso que ele nos disse. A organização detém um poder enorme. Aqueles que a traem são mortos. Todos os atos terroristas são decididos por uma única pessoa, o líder. Os atentados terroristas do passado foram apenas simulações – no futuro, algo ocorrerá em uma escala maior. Coisas vagas desse tipo. Também não conseguimos obter muitas informações dele sobre o líder em questão. O FBI decidiu transferir o homem para nossa sede em Washington, onde ele seria submetido a uma investigação mais completa. Mas isso nunca aconteceu.”

"Por que não?" perguntou Yuto. Heiden deu de ombros em fingida derrota.

“Ele morreu. O homem foi atingido por um atirador assim que saiu do centro de detenção. Morreu na hora. Um rifle foi encontrado no telhado do prédio ao lado, presumivelmente a arma do crime. Mas o atirador escapou da operação policial de emergência e nunca foi encontrado.”

Yuto pressentia algo muito estranho na capacidade da organização do culto de agir com tanta ousadia e crueldade. Um culto misterioso que cometia repetidos atos de terror – sem dúvida, eles eram incrivelmente perigosos, mas não era normal matar um de seus membros para impedi-lo de falar.

“Será que eles são mesmo apenas um culto insano? E quanto à possibilidade de uma organização criminosa maior estar por trás deles?”

“Consideramos essa possibilidade, mas não há informações suficientes sobre a organização em si. Nesta fase, não podemos afirmar nada. Mas o homem ficou consciente por um tempo após ser levado ao hospital e nos contou algo muito interessante. O nome do líder é Corvus. Obviamente, um apelido. O que esse homem nos disse foi que Corvus está secretamente coordenando as ações dos membros de dentro de uma certa prisão. Corvus é aparentemente um homem caucasiano, com cerca de trinta anos, e um assassino. No passado, ele passou por treinamento militar completo. Ele tem uma grande cicatriz de queimadura nas costas.”

Heiden tamborilava os dedos na mesa.

"Entendo", murmurou Yuto, olhando distraidamente para as unhas bem aparadas do homem. "E você está me dizendo para encontrá-lo."

“Exatamente. Aparentemente, Corvus está cumprindo pena na Penitenciária Estadual de Schelger, na Califórnia.”

Yuto finalmente se convenceu de que o FBI estava falando sério sobre fechar um acordo com ele. O alvo era um indivíduo extremamente perigoso que supostamente havia orquestrado atos terroristas em diversas ocasiões; se havia uma grande probabilidade de ele cometer mais atos terroristas no futuro, era compreensível que o FBI recorresse a métodos clandestinos para capturá-lo.

“Uma conferência internacional está programada para acontecer em Nova York neste outono. Várias pessoas importantes de diversos países participarão. Se elas planejassem um ataque terrorista durante esse período, vocês podem imaginar o caos que seria. O FBI está levando isso muito a sério. Enviamos investigadores à prisão de Schelger para verificar os perfis de todos os presos.”

“E mesmo assim você não conseguiu encontrá-lo.”

“Não. Havia algumas dezenas de caucasianos com cerca de trinta anos, mas eles tinham experiência militar, porém não tinham cicatrizes de queimadura, ou tinham cicatrizes de queimadura, mas não tinham experiência militar. Não conseguimos encontrar ninguém que se encaixasse perfeitamente na descrição.”

Heiden prosseguiu sua explicação de maneira concisa.

“Isso acabou dividindo opiniões no FBI. Alguns sugeriram que o homem assassinado nos deu uma pista falsa. Outros disseram que deveríamos reconhecer parcialmente suas palavras como verdadeiras e ampliar os critérios. Poderíamos, por exemplo, examinar minuciosamente cada prisioneiro que se encaixasse na descrição. Mas um prisioneiro com ficha limpa não vai confessar, não importa o quanto o interroguemos. Foi então que alguém sugeriu que investigássemos a Corvus por dentro.”

Yuto concluiu que, para o FBI, era como matar dois coelhos com uma cajadada só. Era arriscado demais enviar um dos seus para se infiltrar em uma prisão perigosa em busca de um homem cuja existência eles nem sequer tinham certeza. Mas Yuto já era um prisioneiro, e se falhasse ou colocasse sua vida em perigo, o FBI não seria responsabilizado. Quanto a Yuto, sua vida dependia disso. Sendo assim, o FBI provavelmente presumiu que ele se esforçaria ao máximo sem precisar de mais incentivo.

Embora Yuto soubesse que não passava de um peão conveniente e descartável para o FBI, para ele, aquele era o acordo dos seus sonhos. Não encontrar Corvus não aumentaria sua pena. Ele não tinha nada a perder. Mas a recompensa que se apresentava diante dele também podia não existir. Ele precisava manter essa possibilidade bem presente, ou sua última esperança provavelmente se transformaria em um desespero terrível e um golpe ainda mais duro.

Yuto tomou sua decisão e informou Heiden de sua disposição em aceitar o acordo. Ele não tinha um único motivo para pensar diferente. Assim, Yuto foi enviado para a Prisão de Schelger. Ele era como qualquer outro prisioneiro, pois foi enviado sob estas condições: não receberia nenhum apoio do FBI e só teria permissão para ligar para eles quando tivesse informações concretas. Não lhe foram concedidos privilégios especiais.

Antes de ser enviado para lá, o FBI mostrou-lhe uma lista de prisioneiros que correspondiam a algumas das características. Eram doze pessoas, e todas estavam na ala oeste. Yuto havia gravado seus nomes e rostos em sua memória.

Ao se despedirem, Heiden lhe disse que corvus significava "corvo" em latim. Fazendo jus ao nome, o homem havia se escondido na multidão de prisioneiros como um corvo se camuflando na escuridão. A liberdade só chegaria a Yuto quando ele o encontrasse.

Era irônico, de certa forma; Yuto havia passado anos reprimindo criminosos, e agora sua única esperança residia em um único terrorista diabólico.

Ele havia adormecido sem perceber. Yuto foi acordado pelo toque familiar e desagradável da campainha. Abriu os olhos e viu Dick sentado na beirada da cama, lendo um livro. Só então se lembrou de quem era a cama que estava ocupando, mas antes que pudesse se desculpar, o outro homem falou.

“Esta é a última chamada. Depois disso, as portas serão trancadas até de manhã. As luzes se apagam às onze horas.”

Yuto assentiu com a cabeça e se levantou. Um gemido baixo escapou de seus lábios devido à dor lancinante, mas ele conseguiu ficar de pé para dizer seu nome e número de prisioneiro quando o guarda apareceu.

Agora, ele poderia dormir sem ser incomodado até de manhã. Yuto suspirou aliviado e colocou a mão na escada para subir até a cama de cima, mas foi impedido por Dick.

“Má ideia”, disse ele. “Use a cama de baixo. Do jeito que você está, não vai conseguir subir nem descer por um tempo.”

Dick trocou os cobertores e travesseiros antes de ceder sua cama para Yuto. Foi gentil da parte dele oferecer, e Yuto aceitou sem reclamar. Ao se sentar novamente, Dick trouxe um copo de plástico com água e o que parecia ser um comprimido.

“Analgésicos. Peguei alguns na enfermaria.” Yuto ficou novamente surpreso com o gesto inesperado de gentileza. Embora Dick fosse brusco, aparentemente ele também tinha um lado bondoso. Yuto agradeceu antes de engolir o comprimido. Dick o observou, com os braços cruzados sobre o peito.

"Se você está pensando em dizer ao guarda que foi atacado pelos caras do BB, não diga", disse ele sucintamente.

"Porque eles voltarão para se vingar?"

“Esse é um dos motivos. Na prisão, o guarda é inimigo de todos. Mesmo se você for esfaqueado, nem pense em dedurar. Lembre-se: nós, os presos, temos nossas próprias regras. — Tem um chinês no Bloco A chamado Fei. Ele é o líder dos presos asiáticos. Cumprimente-o amanhã e peça para ele te deixar entrar no grupo.”

"Por que?"

"Por quê?", Dick repetiu. "Depois do que você passou no seu primeiro dia na prisão? Você tem alguma coisa substancial nesse seu crânio?", disse ele, erguendo uma sobrancelha em tom de deboche. Seus traços bonitos, combinados com sua expressão irônica, lhe conferiam um ar friamente impiedoso.

"Quer saber por que o BB agiu assim com você na frente de todos? Foi para mostrar que você era a presa dele. Ele pode estar falando sério sobre te fazer dele. Você quer ser a cadela dele?"

O rosto de Yuto se contraiu, mais pelo tom desdenhoso de Dick do que pelo que ele estava dizendo.

“Claro que não. Prefiro morrer a me tornar dele... argh!” Dick agarrou os ombros de Yuto de repente e o empurrou para a cama. O impacto causou uma dor aguda nas costelas, fazendo-o prender a respiração.

"Você fala grosso, Lennix, mas como vai se proteger nessa situação, hein? Eu posso te estuprar agora mesmo e te fazer perceber que você é impotente sozinho. Precisa mesmo aprender da maneira mais difícil?"

Dick apertou repentinamente a virilha de Yuto. Yuto ficou tão surpreso que, por um instante, esqueceu a dor.

“Dick, que porra é essa…”

“Você pode ficar comigo se não quiser ficar com o BB. Se você concordar em ser minha e somente minha, os outros caras vão te deixar em paz. Me dê seu corpo e eu o protegerei. Pense nisso como uma transação. Certo?”

Yuto estava sufocado pelo peso que o pressionava, e o aperto firme em sua virilha era doloroso. Ele começou a suar enquanto se desesperava para se impulsionar contra o peito sólido de Dick.

"Sai de cima de mim!", disse ele com ferocidade. "Pode tentar me estuprar, mas eu não vou ser sua cadela. E que se dane a proteção. Acha que pode me insultar assim? Vai se foder."

Ele estava frustrado. Se não fosse por aquele ferimento, teria socado o homem contra a parede oposta. Yuto encarou Dick sem se dar ao trabalho de esconder sua raiva. Dick retribuiu o olhar sem pestanejar. Então, deu um sorriso fraco e soltou Yuto sem oferecer resistência.

“Você é forte considerando o que passou no seu primeiro dia. Vamos ver quanto tempo essa energia dura.”

Quando Yuto percebeu que estava apenas sendo provocado, ficou furioso, mas ao mesmo tempo aliviado. Ele não estava nada contente com a ideia de ter que temer por sua castidade perto de seu colega de cela.

“Mas escute”, continuou Dick. “Você pode se debater o quanto quiser, mas não é nada contra um grupo que o escolheu como presa. Neste lugar, você claramente pertence ao lado dos caçados. Mas acho que você já sabe disso. É por isso que você está tentando enganar as pessoas com essa sua barba por fazer, não é?”, disse ele friamente.

Yuto rangeu os dentes de raiva. Embora Dick estivesse apenas apontando algo que Yuto já sabia, o tom sarcástico do homem o irritou profundamente.

“Mas você ainda não sabe que tipo de lugar é este”, continuou Dick. “Subestime-o e você vai se arrepender amargamente. Nathan e Micky podem ser pessoas legais, mas não vão se arriscar para te proteger. Até você conseguir se defender como eles, junte-se a um grupo. Da próxima vez que for atacado, você estará sozinho. Eu não tenho a paciência e a tolerância que Nathan e Micky têm. Prefiro não ter que limpar a sua bunda.” Assim que Dick terminou seu comentário seco, ele desapareceu no beliche de cima, encerrando a conversa.

 Yuto mal conseguia conter a vontade de retrucar. Quem conseguiria, quando Dick era tão rápido em tirar conclusões precipitadas e tão relutante em ouvir? Embora Dick não tivesse dito nada de errado, certamente poderia ter escolhido palavras melhores. Quem ele pensa que é, afinal?

Yuto descartou completamente a impressão que tinha de Dick como um cara legal. Sim, Dick Burnford era um homem extremamente bonito, mas sua atitude horrível era suficiente para anular qualquer ponto positivo que sua boa aparência pudesse ter gerado.

3 de jul. de 2026

Central BL novel Project Luto

Sim, gente, eu estava tendo tempo para atualizar o blog, voltar com as traduções. Até melhor, acredito, mas como vocês sabem, nem tudo é como a gente gostaria que fosse.

No dia 28 eu acabei perdendo a minha mãe para o enfisema pulmonar e está sendo um momento difícil. Eu obviamente aproveitei o dia a dia com ela, tanto que brigávamos, o que era natural entre a gente, mas com o tempo isso está se tornando complicado. E amanhã será o 7º dia da partida dela, então é isso, gente.

Estou trabalhando e resolvi respeitar meu processo. Vou voltar na semana que vem, então não se preocupem.

As atualizações serão sempre às segundas, quartas e sextas, gente.

Desde já, muito obrigado por tirarem o seu tempo para ler.

1 de jul. de 2026

I Noticed That I’ve Become A BL Game Protagonist’s Younger Brother! - Capítulo 16.1

Capítulo 16.1 :: Meu irmão e uma coelha 

Uma manhã de domingo revigorante.

A luz suave que entra pelas frestas das cortinas transforma meu quarto em um espaço muito tranquilo.

É muito diferente do que eu imaginava.

No meu cérebro... meu corpo inteiro está envolto por uma aura negativa de cor suja, como se fosse uma mistura de várias tintas.

É uma era sombria, repleta de turbulências.

A causa é o "terrorismo confessional" da Kaede, ontem.

"Terrorismo", sim... isso é terrorismo.

Desde então, tenho ficado obcecado com a forma como devo lidar com essa situação.

Primeiro, pensei em falar com meu irmão mais velho sobre isso.

Em primeiro lugar, o Irmão mais Velho foi o motivo de tudo isso ter acontecido.

Em segundo lugar, pensei em rejeitá-la, mas... desisti dessa ideia.

Isso porque li um artigo por acaso.

Era um artigo chamado "Etiqueta ao Rejeitar a Confissão de uma Garota", que estava em destaque no topo da página de um site de busca que abri casualmente.

A Kaede não é uma garota, mas tudo bem.

Os pontos abordados no artigo são os seguintes:

1. Responda imediatamente, não prolongue a conversa.
2. Rejeite-a categoricamente.
3. Não lhe dê esperanças.
4. Não mencione isso a nenhum conhecido em comum.

Era o que estava mencionado acima.

Durante a confissão, você já deveria ter tomado sua decisão. Se ainda não consegue se decidir, rejeite-a.

Além disso, demorar muito para responder, expressar-se de forma delicada ou dar a impressão de que você está dando esperança só vai fazê-la sofrer por muito mais tempo.

O motivo para não mencionar isso a nenhum conhecido em comum é que o direito de falar sobre o assunto deve ser confiado à garota que se confessou, pois isso pode afetar sua amizade com ela e com as pessoas ao redor... Ou, pelo menos, foi isso que estava escrito.

Quando li, pensei: "Entendo, pode ser mesmo assim", e fiquei convencido.

Em primeiro lugar, a Kaede se declarou, mas eu não senti aquela situação de "então, vamos namorar".

Eu não odeio a Kaede, mas minha intenção de "não me tornar homossexual" é clara.

De agora em diante, mesmo que a Kaede me peça para sair com ela... eu devo rejeitá-la.

O artigo diz para 'não contar a ninguém', mas não deve haver problema se a outra pessoa for o Irmão mais Velho. Não quero dar detalhes sem permissão, então pensei em seguir o artigo.

Eu a rejeitarei, eu a rejeitarei sem rodeios!

Seguindo a instrução de 'responder imediatamente', liguei para a Kaede sem demora.

Já era tarde da noite, mas eu queria resolver essa questão ainda hoje.

Recuso-me a dar esperança, vou dizer isso claramente!

Com certeza direi isso!

...Será que eu realmente conseguirei transmitir isso da maneira correta?

Ouvi nervoso o som da chamada sendo conectada.

Enquanto eu simulava mentalmente como lhe diria isso, a chamada foi atendida e ouvi a voz da Kaede.

"Akira? O que houve?"

"N-não, já está na hora. Achei que devia dizer isso direito."

"...Sobre eu gostar de você?"

"Certo, isso. Sobre isso, hum... Como eu imaginava, não posso corresponder aos seus sentimentos."

Já disse, já falei.

Eu estava gaguejando um pouco, mas ela deveria entender.

Agora é só aguardar a resposta da Kaede.

Como eu imaginava, será que eu o magoei?

Será que isso vai ficar constrangedor?

Houve momentos em que me senti desconfortável perto dele, mas foi divertido e não foi ruim.

Quando penso que isso vai acabar, sinto-me sozinho.

"...É só isso que você quer dizer?"

A Kaede respondeu afirmativamente, em voz baixa.

Esperei que a Kaede começasse a falar.

"……Suspiro."

...Huh?

Ouvi um suspiro inesperado.

Ele parece bem... Aliás, a voz dele soa como a de alguém surpreso.

"Ei, você ouviu o que eu disse? Por acaso você estava dormindo? Eu já disse para o Akira que sabia que você não queria. É por isso que eu disse para você 'gostar de mim de agora em diante'!"

"Eu ouvi você! É verdade, mas..."

Eu queria dizer que não planejava me tornar homossexual, mas...

"Não pense em coisas desnecessárias, Akira só precisa agir como o idiota que você sempre é."

"Você não está zombando de mim?"

"Não estou. Eu também gosto dessa sua característica."

"É... é mesmo?"

Se ele diz isso dessa forma, é difícil discordar.

Fico meio envergonhado e irritado ao mesmo tempo... mas não quero que as coisas deem errado.

"Você vai acabar gostando de mim antes que perceba, então o Akira não precisa fazer nada! Mas, bem, fico feliz que tenha me ligado assim. Parece que posso te encontrar nos meus sonhos também."

Por favor, pare de dizer coisas difíceis de responder.

Enquanto eu estava perplexo, a Kaede me desejou boa noite e encerrou a ligação.

O tom de ocupado ecoou no meu ouvido, avisando que a chamada havia terminado.

"Por quê..."

Fiz uma ligação para rejeitar os sentimentos dele, mas fui ridicularizado e repreendido sem motivo.

É normal uma coisa dessas acontecer?!

"Eu não entendo..."

O que houve... comigo?

"Por mais que você tente, eu não pretendo ser gay! É inútil!" Será que não teria sido melhor se eu tivesse dito isso a ele?

Não, além da minha personalidade, definitivamente não posso dizer isso.

'Responda de forma clara, não lhes dê esperanças.'

Artigo: Deus, eu não consegui seguir seus ensinamentos...

Passei a noite com uma sensação indescritível de derrota.

Foi uma noite difícil, mas não consigo me livrar dessa sensação de inquietação.

Ela permanece guardada no meu peito.

"Mesmo sendo domingo."

É uma pena terminar um domingo que deveria ser divertido de forma tão deprimente.

"Vamos sair para mudar um pouco de ares!"

O que eu preciso agora é me revigorar.

Troquei de roupa imediatamente e saí de casa sem tomar café da manhã.

30 de jun. de 2026

When Snow Fell on My Lapel - Capítulo 01

Capítulo 01:  A Canção da Fênix Você Acha Que Eu Me Importo com Você?

Era uma noite tempestuosa.  

O vendaval fustigava as portas abertas, e o tilintar rítmico dos sinos de vento de jade soava como um réquiem fúnebre na quietude da noite.  

"Assassinos!"  

"Protejam Sua Alteza!"  

Os Guardas Coruja de Colar Dourado avançaram em uníssono, suas lâminas reluzindo e faiscando contra o aço dos atacantes, em um coro de estrondos metálicos.  

O senhor que protegiam permanecia sentado com calma sobre um amplo estrado branco como jade, alisando as mangas com desdém. Com um pincel fino e delicado, continuava a redigir o memorial enviado pelo Imperador: "Quanto às inundações de Liangguang, estejam de acordo com as autoridades locais. Uma vez que a corte imperial já providenciou o socorro, ordeno que abram os celeiros imediatamente para distribuir grãos e amparar os deslocados."

O lampejo de uma lâmina que passava iluminou sua expressão fria, pálida como jade e gélida.  

Contudo...

Num piscar de olhos, sangue fresco jorrou sobre sua gola, desabrochando como duas flores da morte.  

O senhor franziu a testa, descontente. "Ren Xun."  

Chamou por Ren Xun num tom de voz calmo um tom que há muito havia deixado para trás aquele que usara quinze anos atrás.  

"Quem é você?"  

"Chamo-me Ren Xun. Estou aqui para proteger Sua Alteza."  

Naquele ano, Quan Ye tinha apenas sete. O corpo de sua mãe ainda estava morno, e a penumbra que pairava sobre o palácio ainda não se dissipara. Ele estava tão aterrorizado que não conseguia falar, o corpo inteiro tremendo, até que Ren Xun o puxou para um abraço no exato momento em que testemunhou o massacre no salão, lâminas cortando tudo.  

Foi seu primeiro encontro com um assassinato.  

Ren Xun bloqueou o golpe por ele. Suas costas foram quase fendidas ao meio, e foram necessários três meses de recuperação para que sobrevivesse.  

Quinze anos haviam se passado desde então.  

Quan Ye vivera ileso, enquanto as costas de Ren Xun se tornaram um mapa de cicatrizes entrecruzadas.  

Certa vez ele perguntara: "Você se arrepende de ter me seguido?"  

Ren Xun, homem de poucas palavras, apenas balançara a cabeça, recusando-se a pronunciar uma segunda sílaba.  

Agora, em meio ao caos, os Guardas Coruja de Colar Dourado, com o rosto manchado de sangue, ajoelharam-se diante dele. Ao longo de quinze anos, Quan Ye já se cansara de ver aquela mesma expressão em seu rosto inúmeras vezes.  

Sempre com a testa franzida, frio, cortante e duro como pedra.  

Aquela pedra falou num tom baixo, prático, destituído de qualquer ondulação de emoção. "Sua Alteza se feriu?"  

Seu corpo, imóvel como uma montanha, bloqueou as sombras.  

Quan Ye ergueu o olhar da penumbra, varrendo-o com um olhar frio e zombeteiro.  

Um único olhar bastou para que Ren Xun compreendesse. Ajoelhou-se, erguendo o rosto à espera de ordens. Embora o senhor estivesse calmo, a tempestade oculta em seus olhos era mais densa e turbulenta que a que rugia lá fora, com uma tênue e oculta expectativa.  

"Você falhou em cumprir seu dever. Não deveria ser punido?"  

Ren Xun engoliu em seco, o pomo de Adão subindo e descendo. "Imploro a Sua Alteza que me puna."  

Treze Guardas Coruja de Colar Dourado ajoelharam-se em perfeita sincronia, todos vestidos com armaduras prateadas e máscaras, lâminas empunhadas. Eram os guardas pessoais de Quan Ye, responsáveis por sua segurança.  

"Sua Alteza, a situação já foi contida. Investigarei de imediato." O porta-voz arriscou um apelo por Ren Xun. "O Comandante Ren é ferozmente leal. Ele foi ferido agora há pouco, então, por favor..."  

Quan Ye lançou-lhe um olhar de soslaio. "Tagarela. Saiam."  

Nenhum dos outros ousou argumentar; reconheceram a ordem e se retiraram com rapidez.  

Ren Xun permaneceu de joelhos, imóvel, repetindo: "Imploro a Sua Alteza que me puna."  

Quan Ye ergueu dois dedos e fez um gesto para que se aproximasse. Um sorriso zombeteiro curvou-se em seu rosto frio e arrogante. "Estou punindo você. Está relutante?"  

Ren Xun negou com a cabeça, baixando o olhar.  

Quan Ye beliscou-lhe o queixo, e uma risada baixa e sombria escapou de sua garganta. Seus olhos belos e sinistros não revelavam se estava satisfeito ou irado. Sua voz baixou a um sussurro. "Ah? Então por que imploraram por você? É difícil dizer que não foi você quem instigou."  

"Eu não ousaria."  

"Ousar?"  

Quan Ye o soltou e virou a mão, erguendo-a diante do rosto de Ren Xun. Um fio de sangue fresco escorria por sua mão nevada e translúcida… esticada, revelando veias belas e tendões firmes.  

Olhando-o de cima, Quan Ye deu uma ordem em tom sutil e imperativo:  

"Estou ferido."  

"Lamba até ficar limpo."  

Ren Xun ergueu o rosto, encarando-o com aqueles olhos silenciosos. Inclinou a cabeça não em recusa, mas num engolir em seco, tenso e oco. Naquele rosto frio e implacável, um rubor de cor ambígua floresceu de repente.  

Quan Ye o fitou, levantando levemente as pálpebras. "E então?"  

Essa punição ocorrera muitas vezes; ainda que nunca tivesse sido preciso ensiná-la, Quan Ye ficava irritado. Apertou o queixo de Ren Xun com firmeza. A força não era pesada, mas a malícia superava a ameaça. "Por que a hesitação?"  

"Sim."  

Ren Xun envolveu o pulso do homem e pressionou lentamente os lábios contra ele.  

O sangue estava morno, roçando com delicadeza a ponta de sua língua, deixando um vestígio de sabor salgado e adocicado nos lábios. Enquanto lambia, o aroma que lhe invadia as narinas era, inconfundivelmente, o de seu nobre senhor.  

Quan Ye o encarou. "Mostre a língua."  

A respiração de Ren Xun falhou. Ele o olhou, atônito. Quan Ye soltou um zumbido divertido. "O que está olhando? Feche os olhos."  

Ele usou o dedo para tocar a língua de Ren Xun, empurrando-a para dentro com provocação. Mexeu-a, devagar e depois mais rápido, até que até a raiz de seu dedo estivesse úmida. Retirou o dedo e pressionou o dorso da mão contra a boca de Ren Xun: "Lamba com cuidado."  

Ren Xun obedeceu com relutância, o pomo de Adão subindo e descendo com violência, o rosto ficando quente e ruborizado.  

A mão que segurava o pulso de Quan Ye apertou-se até que os nós dos dedos empalidecessem. Sua palma era áspera, e o aperto no homem crescia cada vez mais ousado, ainda que fosse contido pela permissão silenciosa de Quan Ye.  

"Chega."  

Ele sugou, como se pretendesse arrancar a alma de Quan Ye pela ferida.  

Quan Ye deixou escapar um gemido baixo "Basta, chega."  

Recolheu a mão de repente, agarrando o queixo de Ren Xun com a palma e erguendo-o. "Lambeste até ficar limpo?"  

Ren Xun abriu os olhos, o semblante alterado, e soltou um suspiro lento e entrecortado. "Sim."  

Quan Ye o encarou, estreitando os olhos. "Ren Xun, notei que você tem se tornado cada vez mais desobediente ultimamente."  

Ren Xun falou com a voz rouca: "Eu não ousaria."  

"Você está ferido." O tom de Quan Ye era intrigado. "Eu disse: se ousar se ferir, eu o punirei com certeza. Já esqueceu?"  

Ren Xun balançou a cabeça, tenso, à espera da punição mais severa que viria.  

Quan Ye sussurrou: "Tire suas roupas."  

Ren Xun hesitou por um instante e então respondeu, obediente: "Sim."  

A camada externa da armadura prateada foi retirada, e a gola do uniforme de colarinho dourado caiu em desordem, sumindo entre as dobras de suas vestes. Ele rasgou a túnica, revelando um torso marcado por inúmeras cicatrizes, sem a menor piedade ergueu a mão para limpar um borrão de sangue do braço.  

"Feriram-me apenas o braço; não me impede de me mover."  

Quan Ye se pôs de pé e tirou um pote de unguento de uma caixa. Retirou uma porção, virou o rosto para olhar o homem, ainda de pé, e disse com desagrado: "Por que está aí parado? Venha cá."  

Ren Xun negou com a cabeça, ajoelhando-se ainda mais. "Agradeço sua preocupação, Sua Alteza, mas estou bem."  

Quan Ye se irritou. Franzindo os lábios, ordenou: "Eu mando venha cá."  

"Eu não ousaria."  

"Oito vezes ao dia eu não ousaria." Ele não aceitaria sua gentileza, não aceitaria sua proximidade, e nem mesmo se aproximaria para que lhe aplicasse o remédio. Quan Ye semicerrou os olhos, zombando com frieza. Aquele bastardo ousaria desobedecê-lo em tudo o que quisesse?  

Ele atirou o unguento no colo de Ren Xun, seu rosto assumindo um tom negro e sinistro. "Como quiser."  

Ren Xun segurou o unguento, ajoelhando-se imóvel no mesmo lugar. Só quando o som de passos apressados se desfez, cruzando a cortina de contas até a câmara interna, é que ousou erguer o olhar e soltar uma respiração suave e trêmula.  

A dor em seu braço ajudou-o a recuperar um resquício de lucidez. Caso contrário, se tivesse caído naquela armadilha gentil, não saberia como resistir ao puro encanto daqueles olhos.  

E, no entanto, o senhor sempre o provocava, o torturava, fazendo-o desejar despedaçar aquele corpo por completo. Rasgá-lo e liberar o amor e o desejo caóticos e avassaladores que ameaçavam engolir o homem à sua frente.  

Ele não ousava.  

Quan Ye não o deixou ir, tampouco disse uma única palavra, então ele permaneceu ali, ajoelhado, esperando.  

Esperando até tarde da noite, para deitar-se ao seu lado quando acordasse de um pesadelo.  

Ou esperando até o clarear do dia, para servi-lo pessoalmente enquanto se vestia e colocava a coroa para ir à corte imperial.  

Quan Ye o mantinha a seu lado, nunca a mais de um passo de distância.  

Dormir ao seu lado, guardá-lo diante dele; Ren Xun não ousava nutrir uma única mágoa. Por quinze anos, sempre fora assim.  

Passou-se meia hora.  

Vendo que ele ainda se recusava a ceder e a pedir perdão, Quan Ye falou com frieza: "Aproxime-se."  

Ren Xun levantou-se. "Sim."  

Quan Ye o observou, satisfeito com sua lealdade, mas irado com o distanciamento deliberado. Zombou: "Se eu não tivesse falado, por quanto tempo pretendia ficar ajoelhado?"  

"Até que Sua Alteza esteja satisfeito."  

"Bom." Quan Ye sorriu levemente. "Você é realmente um bom cão~" Apertou o queixo do homem, puxando-o para perto, e mordeu-o com força.  

Ren Xun permaneceu firme como uma montanha, sem ousar deixar a respiração descompassar-se.  

Era o comando de Quan Ye beijá-lo, despejando nele sua raiva como se a transferisse através do beijo, embora lhe proibisse de mover-se ou de responder.  

Pequenas gotas de suor brotaram na testa de Ren Xun.  

Lábios macios, uma língua perfumada e saliva o encharcaram como se estivesse sob a chuva.  

Os lábios de Ren Xun arderam de dor; ele compreendeu vagamente que seu senhor estava expressando seu descontentamento. Mas não sabia a origem daquela infelicidade. Talvez fosse uma punição por sua falha naquele dia. Talvez estivesse simplesmente de mau humor, ou talvez estivesse atormentado por assuntos de Estado.  

Ele era obtuso; por tantos anos, nunca conseguira adivinhar os pensamentos de Quan Ye.  

Aquele homem era como a lua brilhante, refletindo sobre os rios e as nove províncias sublime, inalcançável, misterioso e temperamental... Ele já estava acostumado.  

Quan Ye o soltou e pisou no joelho de Ren Xun. "Já que não quer o remédio, então suporte a dor. Hã? Você acha que eu me importo com você?"  

Ren Xun endireitou-se ainda mais, as pernas tensas como ferro, encarando-o com o rosto coberto de suor frio, e finalmente revelou uma fenda em sua compostura. Ele rosnou: "Eu nunca pensei assim."  

Quan Ye tocou seu lábio partido, levantando-lhe o queixo para encará-lo. "Ferido de novo hoje? Ren Xun, você se lembra do que eu disse... o que deve fazer se estiver ferido?"  

Ren Xun cuspiu lentamente duas palavras: "Admirar a lua."  

Ele acrescentou, forçando a compostura: "Se eu estiver ferido, então devo... ‘admirar a lua’."  

Quan Ye torceu o lábio partido dele, depois deslizou a mão até tocar sua orelha, esfregando-a com força até que toda a orelha de Ren Xun ficasse rubra, de um vermelho carmesim.  

"Que bom que se lembra."  

Quan Ye baixou os olhos. "E então? Faça você mesmo."  

Ren Xun ergueu os joelhos, arrastando-se dois passos à frente até que seu peito firme, iluminado pelo luar, pressionasse os joelhos de Quan Ye. Sua voz era sincera e contida, embora virasse o rosto para o lado: "Por favor... por favor, puna-me, Sua Alteza."  

"Você disse errado. Não é punição, é..."  

"Admirar a lua."  

Quan Ye levantou-lhe o queixo. A luz sombria e distorcida projetava sombras, conferindo ao seu belo rosto uma expressão silenciosa e lânguida.  

Naquela noite chuvosa, o luar iluminava seus traços.  

Em meio a respirações entrecortadas, Ren Xun engoliu os gemidos abafados e quentes em sua garganta ele tremia em sintonia com o senhor diante dele.  

Sua alma estava sendo açoitada e provocada, e ainda assim lhe era proibido responder da mesma forma.  

Ele pensou que deveria morrer num instante como aquele.  

"Sua Alteza, eu posso..."  

"Shh" Quan Ye cobriu-lhe a boca, rejeitando seu pedido, e então avançou com ainda mais ousadia. Até que, como tinta que se espalha, guardando o súbito e infinito sentimento de perda, ele se perdeu num longo e persistente deslumbramento.  

Uma névoa quente, nebulosa, turva e tênue.  

Uma névoa quente roçou a orelha de Ren Xun enquanto o homem falava, com a voz cada vez mais rouca: "Amanhã, com certeza buscarei justiça para você." 


When Snow Fell on My Lapel (Novel)

When Snow Fell on My Lapel
 

nformações  
 

Formato : Web Novel 

Outro nome :  When Snow Fell on My Lapel, 照我滿襟雪

Título nacional: Lançando sua luz sobre a neve que cobre as minhas vestes

Gênero:  Histórico, Romance, Drama, Yaoi 

Data de lançamento: 2026

 Autor : 千杯灼

Novel : 128 Capítulos (Concluído)

Statu : Ativo 

Tradução/Revisão:  Lady Who

Tradução feita através: Dragon Holic Translation

Obras do mesmo autor: Não encontrado

 

Descrição: Por dez anos, a luta pelo trono ocorreu nas sombras.

Enquanto príncipes caíam um após o outro, o Sétimo Príncipe, Quan Ye, saiu ileso. Mesmo depois que o Príncipe Herdeiro ascendeu ao trono, ele não conseguiu nem rebaixá-lo nem eliminá-lo. O imperador aposentado ainda o estimava, e toda tentativa de assassinato havia fracassado.

Agraciado com o título de Príncipe Chongning, Quan Ye permanecia intocável vestido com robes luxuosos, cercado de favores imperiais, admirado por inúmeros apoiadores e celebrado como um nobre cavalheiro de graça impecável.

Para o mundo, ele era elegante, distante e puro como a neve.

Apenas um homem conhecia a verdade.

Ren Xun, a guarda-sombra silenciosa do rei e companheiro de infância, havia passado a vida entre Quan Ye e cada lâmina que tentava atingi-lo. Só ele havia visto a natureza oculta do príncipe possessiva, implacável, imprevisível e perigosamente obcecada.

Quando a fúria de Quan Ye explodia, o primeiro golpe sempre recaía sobre Ren Xun.

Mas o guarda leal nunca revidava.

Em vez disso, com um leve sorriso, ele segurava o chicote de prata do príncipe contra o próprio peito e sussurrava:

"Meu príncipe... por que não me favorece em vez disso?"

"Sou forte o bastante para suportar tudo o que me fizer."

Cada cicatriz em seu corpo fora conquistada protegendo o homem que amava.

À medida que companheiros de infância se tornam mestre e guarda, governante e protetor, o vínculo deles é testado por intrigas palacianas, conspirações mortais e uma disputa por poder onde a confiança é mais rara que a lealdade.

Mas, sob os esquemas e o sangue derramado, existe um amor que perdura desde a infância construído sobre devoção inabalável, possessividade feroz e a determinação de permanecerem lado a lado até o fim.

 
Tradução feito de fã para fã, Re - urpagem para vendas e outros fins proibido, Meu trabalho segue de acordo a lei Art. 46 da Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98 N. II  
 
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29 de jun. de 2026

Villain - Capítulo 03

Capítulo 03 – Vamos nos Conhecer

“Não, por favor… não faz nada com a Kaew, por favor, Khun Fa.”

“Vai me implorar agora! Por que quando roubou o Don de mim você não se tocou!!” A moça de vestido vermelho curto agarrou o cabelo da outra mulher, de aparência mais recatada. O ódio nos olhos dela parecia que ia saltar da órbita. Os lábios vermelhos-fogo tremiam enquanto ela guardava todos os palavrões só para dentro.

“Kaew não, Kaew não quis roubar o Khun Don de você, não.”

“Não quis? Como você ousa dizer que não quis!! Ficou dando mole, se oferecendo pra ele desse jeito… sua sem-vergonha!!” Quem parecia mais forte puxou com força até a vítima tropeçar no chão. O corpo frágil chorava até tremer de medo da fúria da mulher na frente, que podia matá-la a qualquer momento.

“Kaew… hic… Kaew…”

“Fa!! O que você tá fazendo?!” E então o mocinho de cavalo branco apareceu voando pra ajudar. O rapaz correu e envolveu o corpo frágil da mulher nos braços. O rosto furioso não desgrudou da moça de lábios vermelhos.

“Eu só ia dar uma lição nela. Essa vagabunda roubou você de mim!!”

“Ninguém me roubou de você. A nossa história acabou. Volta pra casa e não volta mais aqui.”

“Don, mas você disse que me amava. Como pode fazer isso? Como pode escolher essa mulher safada?”

“A mulher safada que você fala é a minha esposa, legalmente. Vai embora antes que eu mande alguém te arrastar pra fora!!” Depois das palavras do rapaz, a moça ficou ainda mais furiosa. Ela saiu pisando duro, de mau humor, rangendo os dentes vermelhos esperando o dia da vingança… O estranho é que ninguém percebeu o olhar trêmulo de mágoa dela…

.

“Uhuu!! Que delícia! Tem que ser um protagonista esperto assim mesmo.” O tapa na coxa da Tia Wan me fez tirar os olhos da tigela de miojo pra olhar a cena na TV que eu já tava aguentando há um tempão. Olhei pra TV e só consegui balançar a cabeça pra toda aquela maldade. É por causa de novela assim que a sociedade fica assim. Quem chegou primeiro vira vilão mesmo sem ter feito nada de errado. É só vestir roupa curta, pintar a boca de vermelho e sair atrás do mocinho gritando, fazendo coisa idiota como se não tivesse cérebro. Experimenta botar uma freira careca pra pedir o marido de volta. A mocinha é que ia virar vilã.

“Eu não acho nada esperto, tia. Aquela tal Fa é bem mais bonita.” Falei só a verdade, mas ganhei um olhar de reprovação da Tia Wan como se ela fosse tomar minha tigela de miojo de volta… Não faz isso, tia. É a primeira comida que entra na minha barriga depois daquele canjão de peixe.

“Você não entende, Khun Poch. Essa aí é má, quer o protagonista a qualquer custo.”

“Mas pelo que ouvi, eles eram namorados antes, não eram?”

“Ay, não era não. Essa vilã tá se iludindo. Khun Poch, não discute com a tia. Eu vi todos os episódios.”

“………” No fim eu nem discuti. Não discuti porque doeu demais pra falar. Só consegui dar um sorriso sem graça e aceitar meu destino. Parece que eu tô na mesma situação daquela personagem de boca vermelha.

“Khun Poch quer mais uma tigela? Parece que tá com fome. A tia falou pra esperar o almoço com os senhores e você não quis.”

“Tia… e se em vez de pintar a boca de vermelho e gritar, ela se vestisse direito? Alguém ia ter pena da vilã?” A Tia Wan franziu a testa, confusa. Deve estar se perguntando o que deu em mim hoje pra estar tão interessado em novela. A Tia Wan é a empregada da casa há muito tempo. Cuida de quase tudo aqui, e antes incluía cuidar de mim também. Antes de ir pra Inglaterra eu cozinhava pra ela e comia com ela quase todo dia. Se tinha algum problema que dava pra contar, eu contava pra ela.

“Ninguém liga pra essas vilãs, Khun Poch. No fim é sempre o protagonista com a mocinha.” Assenti de leve, como se entendesse essa verdade da vida… É bom ouvir a Tia Wan falar assim. Assim eu já sei que mesmo se eu for bom como um anjo, ninguém vai ver a cabeça de um vilão como eu. Pelo menos quando eu fizer alguma coisa sem querer, não vou precisar perder tempo me sentindo culpado.

“E tia, se no fim a vilã conseguisse ficar com o protagonista, como seria?”

“Ay, não existe novela que termine assim, Khun Poch.”

Por que não existe… Eu, Poch, vou ser o primeiro a terminar essa história sem ninguém lembrar da mocinha.

“De que vocês estão falando?” …Ops. Fala da mocinha e ela aparece na hora.

“Ah, Em. Tava assistindo novela com a Tia Wan. Acabou de passar a cena em que a mocinha inocente apanha… tadinha.” Nem eu sei que expressão eu tava usando pra olhar pra Em. O rosto dela murchou como se estivesse tensa com o meu olhar.

“Então vocês dois conversem aí, viu? A tia não vai atrapalhar. Vou ajudar o Mon a cortar a grama no quintal.” Assenti pra Tia Wan, que parecia saber a hora de me dar a chance de conhecer melhor a esposa do amigo… E pra ela me conhecer melhor também.

“Não sabia que você curtia novela.”

“Normalmente não curto muito. Mas acho que vou ter que estudar pra usar na vida real.” Tentei olhar nos olhos dela pra desmascarar quem ela é de verdade. Mas no fim só vi uma mistura de Aff Thaksorn com Kob Suwanan no olhar.

“Você é engraçado, né, Poch.” Logo você vai ver se é engraçado ou se vai ter vontade de chorar.

“E a Em veio fazer o quê aqui?”

“Eu vim preparar o almoço.”

“Hm… Casou nem faz um dia e já tá sendo uma esposa exemplar, hein.” Em travou um pouco, mas continuou pegando as coisas na cozinha como se não tivesse ouvido. Analisei ela da cabeça aos pés pela primeira vez desde que nos vimos. Tenho que admitir: essa mulher é bonita por fora, impecável. Rosto limpo, jeito educado de família tradicional. Não é à toa que o tio Bowon enlouqueceu e pegou ela de nora… Mas eu ainda acredito na minha teoria: não existe mulher decente que aceite casar por dinheiro.

“Eu só tô fazendo minha obrigação.” Levantei a sobrancelha e assenti com a resposta. Agora a Em não olhava pra mim, estava ocupada lavando uma cesta grande de verduras.

“Deixa eu ajudar.” Estendi a mão pra Em de forma amigável. Ela sorriu de leve e abriu espaço pra eu lidar com as verduras que faltavam na pia.

“Obrigada.”

“De nada. Afinal, a gente mora na mesma casa… compartilha as coisas!” Apertei os dentes sem querer na última frase… Humpf. Agora mesmo se eu xingasse a Em na cara dela ia ser inútil. Essa mulher finge ser indefesa e se faz de desentendida o tempo todo. Mas logo a gente vai ver até quando ela consegue ser inocente.

“Poch tem alguma comida preferida? Outro dia a Em faz pra você.”

“Não precisa. Eu como qualquer coisa.”

“Como assim? A mãe me encarregou da comida da casa. Tenho que cuidar de todo mundo igual. Fala logo o que você gosta.”

“Tudo que o Tem gosta… eu gosto também.” Lancei um olhar de canto pra quem ouvia. Em fingia cortar a carne na tábua como se não estivesse nem aí.

“Vocês dois parecem bem próximos, né.”

“Eu conheço o Tem melhor do que ele mesmo. Desde que cheguei aqui só ele se importou comigo… Tenho que agradecer a ele por me achar importante. Só não sei se, depois do casamento, ele vai achar eu ou a Em mais importante.” Não sei o que a Em tava pensando, mas pela cara deu pra ver que ela já começou a levar minhas palavras a sério.

“Ah… Poch mora aqui há muito tempo? Posso perguntar como veio parar aqui?” Fiquei em silêncio porque não queria responder essa pergunta idiota que desviava do assunto. Mesmo que pudesse aproximar eu e a Em. Experimenta ser perguntado sobre uma memória dolorosa da sua vida e você vai ver como dói responder cada vez…

“E a Em vai ficar aqui por quanto tempo? Pensou direito antes de ficar aqui?” Um clima frio tomou conta da cozinha. Sorri de canto pro olhar atônito da Em… Já começou a cair a ficha, né?

“Por que o Poch pergunta isso?” Foi a primeira vez que Em parou tudo e me encarou. Tentei ler o rosto dela, mas era além do que eu conseguia decifrar agora. O que aqueles olhos redondos e parados queriam me dizer?

“Só curiosidade. Por que decidiu casar com alguém que não te ama… Como teve coragem?”

“Eu acho que o Poch já sabe a resposta. Eu aceitei porque era necessário.”

“E quando essa ‘necessidade’ vai acabar…” Comecei a circular em volta da Em com um olhar de nojo sem nem perceber. O olhar assustado da Em já estava me dando vantagem nesse jogo.

“Poch… A... Acho melhor eu fazer sozinha.” A voz da Em falhou quando peguei a faca na tábua. Meus olhos ficaram grudados no fio da lâmina, feliz… Não ouviu errado. Eu estava feliz olhando pra faca mais do que pra cara dela.

“Grava isso, Em… Algumas coisas já têm um dono. Mesmo que a Em consiga pegar… o dono vai voltar pra tomar de volta.” _Thack!!_ Deixei todo o peso da mão e finquei a faca na tábua até a Em pular. Todo o ódio que eu sentia passei pelo olhar que dei pra ela. Os olhos redondos tremiam como se fossem encher de lágrimas… Que pena que daqui pra frente eu vou virar um psicopata na cabeça da esposa do amigo.

“O… O que você quer dizer, Poch?”

“Hm… Obrigado por deixar o Tem ficar comigo ontem à noite.” Esse sorriso maldoso talvez não seja adequado pra uma mulher, que é mãe. Mas quem tá na minha posição não tem muitas opções de ser bonzinho. Se eu tiver que ser mau pra sobreviver, qual é o problema, né…

“Poch tá fazendo o quê?”

Ahhh, pelo amor de Deus. Eu queria rir em dez idiomas. Que coincidência perfeita pro protagonista aparecer na hora certa. Isso não é replay da novela de agora há pouco, né… Ah, ou na verdade não é coincidência. Ele só veio cuidar da esposa, fazer o almoço pra ela comer… E para de olhar pra ela com essa cara de preocupado, por favor. Vou vomitar! Que pena o miojo.

“Não tô fazendo nada. Só zoando a Em um pouco… Viu? Só mexi um pouquinho e ela tá tremendo toda.” Me afastei da Em, mas o Tem ainda não parava de olhar pra ela com preocupação.

“Em, não liga pra ele. O Poch gosta de zoar com essas besteiras. Faz isso com a Ta direto.” Parece que a Em relaxou com a mentira do Tem. Ela olhou pra mim com um olhar amigável, aliviada, nada a ver com alguns segundos atrás… Com essa cara, nem parece que terminou o jardim de infância. Não me diga que é tão ingênua a ponto de acreditar em qualquer merda fácil assim… Se eu disser que ela é burra, ainda vou ter pena da raiz da palavra.

“Desculpa por te assustar, Em… Depois a gente brinca de novo, tá?”

60%

Passei pelo Tem fazendo nossos ombros roçarem de propósito. Andei mais devagar que o normal por causa dos passos dele atrás de mim. Só pelo olhar de bronca dele já sei que ele não vai deixar barato sem me interrogar. Os passos seguiram atrás de mim até o terceiro andar, meu esconderijo silencioso… De qualquer forma, obrigado, Khun Som, por me exilar num lugar bom desses.

“O que você tá querendo fazer?” A voz fria e irritada fez minha mão parar antes de abrir a porta. Virei pra olhar pra ele com um olhar malicioso, bem mais esperto que o olhar bravo dele.

“Não tô fazendo nada. Só conversei com a Em, normal.”

“Já te falei, Poch. Não se complica. Tá bom assim. Não mexe com a Em. Não enfia ideia maluca na cabeça de ninguém!” Aquela voz dura despedaçou ainda mais meu coração que já estava quebrado. Quanto mais eu ouvia, mais via que ele não tava nem aí pra mim.

“Aquelas coisas malucas que você faz comigo toda noite?”

“Poch!!” O Tem abriu a porta do quarto antes que eu reagisse. Me empurrou com força até eu cair no chão do quarto. Depois bateu a porta com um _bang_ que fez meu coração pular de susto. O olhar dele mudou por um segundo quando me viu tentando me recompor. Depois voltou a ser duro de novo.

“Por quê? Falei algo errado?” Me apoiei na beira da cama. O Tem ainda me olhava com aquele mesmo olhar, sem nunca saber como eu me sentia. Foi rápido demais pra tudo mudar assim. Assim que voltei, o Tem que eu conhecia sumiu… O que eu fiz de errado? Ele falou pra ser amigo, eu fui. E essa dor toda que eu tô sentindo por causa de ‘amigo’ agora, ele já pensou em se responsabilizar por isso?

“Com você… eu só queria tentar.”

“Ah… Tentou várias vezes, né?”

“Poch!!”

Ele veio e me agarrou pela gola até eu sair do chão. Os olhos bravos dele tremiam de leve. Aproveitei a brecha e encostei minha boca na dele pra engolir nossa respiração ofegante. Ele respondeu fácil. As mãos começaram a apertar de leve meu pescoço por instinto. A respiração acelerada ficou cada vez mais alta, só nós dois ouvindo. As mãos do Tem começaram a explorar minha pele. A excitação fez ele me empurrar pra cair na cama. As duas bocas começaram a morder e marcar o corpo um do outro.

E tudo acabou.

Acabou só nisso.

Do nada, o Tem se jogou pra longe de mim como se estivesse irritado. Sentei de joelhos do lado dele com um vazio tão grande que quase não consegui segurar. Por que ele faz essa cara como se fazer isso comigo fosse um crime? Porque se sente culpado por casar com uma mulher que conheceu há três dias? Ou porque tá pensando em me jogar fora, igual todo mundo faz comigo?

“Por quê, Tem… Por quê… hic… É porque você ama a Em… hic… Porque se sente culpado por ela?” Nem sabia quando comecei a chorar. Quando vi, já estava soluçando sem conseguir falar direito.

“Eu te peço. Não tenta fazer algo que não vai te fazer bem. Eu casei. Você fica na sua.”

“E ontem à noite por que veio me procurar! Pra fazer o quê, porra?!” Peguei um travesseiro e bati na cabeça dele com força. Mas além de não se abalar, ele ainda segurou minhas duas mãos com tanta força que doeu… Mas como as palavras dele doeram ainda mais.

“Porque eu tenho pena de você. Pena de você não ter ninguém… Me escuta, olha pra mim, Poch… Porque daqui pra frente você vai ter que viver sozinho!”

Por que dói assim?

Dói mais do que eu imaginava.

Dói mesmo eu já esperando que ia ser assim.

“Não acredito em você, Tem… Não vai acabar assim. Você vai ver!” Fui eu quem saiu do quarto. Passei as mãos no rosto pra enxugar as lágrimas de qualquer jeito, enquanto os planos se empilhavam na minha cabeça sem serem convidados. Comecei a entender a vilã do vestido curto e boca vermelha. Entendi por que ela ficava furiosa como se tivesse perdido a cabeça. Com base no amor e na disputa… tudo é possível.

Se quer que eu seja mais mau ainda… então tenta.

Zombie Hunter - Capítulo 05

Capítulo 05: A Trainee vs. A Trainer

“Vamos para outro lugar?”

O som do sino veio logo depois que Nevils desviou o olhar do anel no meu dedo. Só aí notei que havia um tom zombeteiro ali.

“Tente não ficar nervoso” — ele disse sem olhar para mim, a voz abafada.

“Por que não?”

Ele não respondeu. Só puxou a rédea e olhou para o outro lado, como se escolhesse o destino. Fez meu coração disparar sem motivo.

Não entendi a atitude dele, nem mesmo sabendo que sou novato e que só estou aqui porque ele me forçou a isso. Toda vez que ele olha para mim, não é como se estivesse olhando para algo que deveria estar ali. É como se estivesse me obrigando a ser só um número a mais, só para ele poder fingir que está treinando mais alguém além daquele garoto trainee que ele tanto adora. Como se eu fosse só um boneco de treino para ele, mesmo.

Será que ele está me provocando?

“Sério, Nevils. Eu nem sabia que você tinha um discípulo que trabalhava aqui. E pelo jeito, nem é de hoje.” No fim, não consegui engolir a curiosidade e joguei a pergunta.

Nevils parou de repente, virou o rosto e me encarou.

“Não, mas agora tem.”

“Como assim?”

“Significa que não vou deixar você fazer nada sozinho.”

“Você falou isso com todos eles?” — perguntei, lembrando dos olhares que todos me lançaram antes.

Ele me olhou de cima a baixo antes de responder:

“Você está aqui embaixo só como um estagiário, mas fez coisas que colocam meu discípulo em risco. Ele só tem 18 anos. É fácil eu te acusar de ter vindo com más intenções. Peço que vá embora da fazenda agora mesmo. Chame um carro e volte para o estábulo do seu senhor, que é o lugar certo para você. Se continuar aqui, não posso garantir que consiga manter meu aluno seguro por muito tempo. Posso matá-lo aqui mesmo, com minhas próprias mãos.”

Oh, isso é pior do que eu pensei. Ele está me chamando de alguma espécie de monstro.

Mas eu não sou inocente... só fiz o que precisava para sobreviver.

“Eu nem vou te deixar sair vivo.”

Quando soltei isso, Nevils arregalou os olhos. Ele estava em pé no único lugar onde a luz batia mais forte que em qualquer lugar que eu já tivesse visto, antes de soltar uma risada contida e, então, a voz saiu baixa:

“Quero deixar seu corpo em paz antes de te matar.”

Ele fez meu corpo inteiro tremer, mas ainda conseguiu mastigar a comida calmamente e falar de volta.

Na verdade, não deveria ser você quem responde por ele. Quem trouxe os problemas para a minha fazenda foi um garoto de família nobre que eu não sabia de onde tinha vindo!

“Também acho. Nem eu quero te matar mesmo” — respondi, soltando um riso forçado.

“Então é bem simples. Vai embora. Hoje eu vou te deixar ficar mais um dia.”

Nevils me obrigou a montar atrás dele, me deixando com a boca cheia do cheiro do casaco dele, sem que eu pudesse recusar o cavalo que ele já tinha pegado. Do caminho, e então ele foi embora como se nada tivesse acontecido.

Nevils me levou a um campo de tiro que ficava a pouca distância do haras dessa cidade. Fiquei aliviado por não precisar pegar uma carruagem. O campo de tiro parecia o de uma cidade normal, porque era um campo de tiro comum mesmo, como os que eu costumava ver na TV.

Nevils entrou para falar com um xerife que cuidava do campo, um homem magro e alto. Pelo jeito, ele estava relatando que tinha vindo sem avisar. Aquele xerife era atencioso e até ofereceu uma xícara de café.

“Quer que eu fique aqui até você terminar?”

“Sim, mas o prefeito me pediu para deixá-lo treinar com munição de verdade porque a cidade está se preparando para o desfile.” — disse Nevils.

O xerife concordou em informar o responsável assim que tivesse oportunidade.

Aquele xerife também acenou com a cabeça como se entendesse o significado do que Nevils queria dizer: que ele também teria o mesmo treinamento que o filho dele.

“Então vamos para a sala de tiro.”

“Não precisa correr. O prefeito mandou eu ser o seu supervisor.”

“Ah, deixe o senhor ser meu guia então.”

Nevils assentiu. Eu olhei para o cavalo que tinha saído sem cerimônia e agora tinha voltado para ouvir a ordem dele.

“Bem apropriado. Hoje eu tenho duas pistolas para você escolher: uma de ação simples e uma de ação dupla.”

Sem perder tempo, o xerife nos levou até uma mesa que tinha várias caixas de armas organizadas. Ele pegou uma de ação simples para mostrar, depois pegou outra e começou a explicar sobre a segunda caixa.

Ele entrou numa sala que parecia um escritório, pegou umas caixas de munição e, depois de carregar as armas, virou-se e me chamou para segui-lo até a área de tiro ao lado.

Entrei na área de tiro e, do lado, tinha uma sala com vidro blindado que fazia com que o som dos tiros não me incomodasse tanto. Era só um vidro comum, mas o fato de estar ali já me deixava um pouco mais tranquilo. Apesar de ser a primeira vez que eu segurava uma arma de verdade, senti que estava pegando o jeito rápido, como se já tivesse nascido com isso.

Só que o jeito dele segurar a arma era idêntico ao meu. As mãos que ele me ensinava vinham com uma força que eu não esperava, quase me esmagando. Eu não tinha o que fazer a não ser aceitar o toque do garoto. Além do cheiro do casaco dele, que lembrava os homens da cavalaria com quem eu costumava andar, me fez sentir uma familiaridade estranha, como se eu tivesse conhecido aquele toque na vida passada.

Que filho da mãe! Não quero voltar pra lá de jeito nenhum!

“Abra um pouco as pernas.”

Até o fim da frase, Nevils já tinha me feito ficar na posição certa.

“Respira.” Eu disse baixinho, com o corpo encostado nas costas dele, enquanto ele segurava minha arma.

“Respira junto comigo.” Ele ordenou. Meus dedos tocaram o gatilho.

“Vai atirar em outro alvo, não nesse. Quando eu mandar.”

Nevils abaixou a cabeça e ajeitou meu braço quando o primeiro carregador acabou e ele trocou por outro. Então começou a explicar:

“O que você segura na mão é uma HK45. É uma pistola semiautomática com magazine. Tem recuo leve, não muito forte. Mas se a arma esquentar demais, o cano pode travar. Essa arma pode ser usada de dois modos: ação simples e ação dupla. Já a que está na mesa é uma HK33, uma carabina para uso em selva. A coronha parece de plástico. É uma arma de cano longo, de assalto. A diferença principal dessa carabina é que você precisa decorar cada detalhe e saber como usar.”

Olhei para o garoto que me explicava tudo aquilo. Disse a ele que não sabia nada sobre armas e que nem tinha prestado atenção direito. Que eu nem sabia que os braços dele eram daquele jeito, nem que as costas dele eram tão largas. Também não sabia se ele estava me chamando de burro ou não. Nem lembro mais o que ele falou.

“Você entendeu o que eu falei até agora?”

O jeito que ele me perguntou fez meu rosto corar. Apertei os lábios, tentando manter a expressão séria.

“Entendeu? Se sim, atira. Acertar não é necessário. Só lembra?”

“Se é assim, o que eu faço?” — perguntei, olhando para o garoto sem entender nada.

Olhei para a arma que ainda estava na minha mão e então encarei a cara dele.

“É... HK... é...”

Nevils respirou fundo, visivelmente irritado, antes de soltar o ar e usar o dedo para levantar meu queixo.

“E esse?”

“Ah... HK...”

Lembra desse, pelo menos, né?

Nevils me olhou sem saber se ria ou não. Não tive como saber de onde vinha aquele olhar. Era um olhar de provocação, mas que eu não conseguia ignorar. Não me importo com o que dizem sobre mim nesse lugar. Mas digo: não tenho nenhuma imagem para manter em uma cidade assim, ainda mais depois de tudo.

Sorte que o Nevils não deu importância para aquilo. Mudou de assunto como se nada tivesse acontecido.

“Isso aqui já foi usado pelo pessoal da cavalaria. Agora eles não usam mais. Você pode ficar com um se quiser.”

Eu pegaria um daqueles três revólveres sem nem pensar duas vezes. O formato parecia comum, igual aos outros. Já o cabo era diferente, meio rústico, como se tivesse sido feito por um artesão daqui mesmo. Mas era o tipo de arma que combina com o punho de alguém como eu. Peguei um sem hesitar, antes que ele se arrependesse e pegasse de volta.

“Vamos treinar com alvos móveis primeiro. Se conseguir acertar, te deixo usar um de verdade com munição. Depois te levo para treinar com alvos fixos, mais adequado.”

Assenti, concordando, já que não tinha nada que eu pudesse dizer contra uma ordem daquelas.

“Levanta. Aponta para aquele alvo. Fique ereto. Braço esquerdo deve estar a um palmo do corpo. Não curve o ombro.” — ele explicou.

Fiz o que ele mandou sem reclamar, antes que ele falasse mais alguma coisa.

“Aperte com a mão esquerda o mais forte que conseguir. Dobre os dedos um pouco. Inspire fundo e prenda a respiração, solte o ar devagar junto com o tiro. Mão direita só usa para puxar o gatilho.”

Falou o quê, meu amigo?

“Pode explicar de novo usando palavras que um plebeu como eu entenda?” — franzi a testa para ele.

Nevils suspirou, fundo. Veio até mim e ajustou meu braço com a mão, fazendo com que eu entendesse o que ele queria dizer.

“Se fizer assim, o tiro não vai sair torto.”

“Não treinei desse jeito antes. O primeiro dia já começa assim, é complicado pra caramba.”

“Se continuar assim.” — ele repetiu, sem perder a calma.

Ok. Entendi que ele só queria me ver passar vergonha na frente dele primeiro. Deixa eu ver o que esse xerife aí consegue fazer.

“Isso aí tá bom. Segura firme. Puxa o gatilho com calma, sem pressa.”

Mesmo assim, não vou conseguir acertar nem se me matar. Já atirei uma vez e errei feio. A sensação de derrota ainda não tinha passado.

“Eu disse que se errasse não ia ser bom pra você!” — Nevils disse, ríspido, me fazendo engolir o orgulho e tentar de novo.

“Você só vai acertar se ouvir minha voz até o fim, entendeu?”

Nevils se aproximou sem avisar. Pegou minha mão por trás, corrigindo minha postura.

“Ainda não. Mira bem na base. Você ainda nem está com a postura certa para atirar. Mesmo assim, se acertar alguma coisa, já é sorte. Não faça isso pela primeira vez.”

Eu queria enfiar a coronha da arma na boca daquele xerife metido a besta. Tinha cara de pau para falar isso!

Respirei fundo mais uma vez. Apontei e atirei. Mesmo errando, já era esperado que eu fosse alto demais para controlar o recuo. Mas assim que o tiro saiu, Nevils já se meteu no meio e me interrompeu na mesma hora.

“Não precisa se apressar, moleque.”

Eu engoli seco, com medo. Mas o jeito que ele falava, embora bruto, tinha um tom de quem realmente se importava, mesmo sem demonstrar nenhum traço de emoção no rosto. Só parecia alguém que não recebeu treinamento militar. Um pouco.

“Acabou de atirar pela primeira vez. Errar é normal. Não é que eu tenha te subestimado. É que eu não acredito que você vá acertar de primeira. Nem eu acertava quando comecei.”

“Não tem jeito mesmo?”

“Tem. Mira no alvo daquele manequim ali.” — eu sorri de canto.

Nevils riu mais ainda ao me ouvir. Depois empurrou minha cabeça para longe do ombro dele e pegou outro carregador da mesa, enfiou na arma e recarregou com um movimento firme, antes de levantar o braço e apontar para o alvo.

“Calma, firme, separa as pernas. A arma tem que estar alinhada com o ombro.” — ele disse como se estivesse recitando uma lição decorada.

Pude ver o pulso dele firme, e falei baixinho:

“Não é assim?”

Assim que terminei de falar, ele puxou o gatilho e nem se deu ao trabalho de olhar para o alvo. A bala acertou bem no meio do manequim de pano. O mais importante é que o ponto final de cada tiro dele também acertava.

Eu abri a boca, sem conseguir fechar. Enquanto ele atirava sem nem olhar, com a mão esquerda no bolso, o braço direito estendido. A postura perfeita do último tiro ainda estava cravada na minha mente.

Como faz isso?!

“Não faz essa cara, garoto.” — a voz do Nevils soou acima da minha cabeça, com um riso contido. Eu só consegui encará-lo, sem nem conseguir negar que ele era bom mesmo.

“Esse aqui também usa HK33.”

“Só fala e não atira, vai ficar olhando até quando? Bora, seu mole. Faz logo. Eu não tô de brincadeira.”

Fiquei calado ouvindo as ordens que ele soltava sem nem olhar para mim. A voz dele tinha um tom de quem mandava sem precisar levantar o volume. Eu só consegui obedecer, pressionando o gatilho com os dedos que tremiam de nervoso.

“Quase acerta, só errou por pouco.” — Nevils disse, sorrindo, e balançou a cabeça em sinal de aprovação.

“Não. Ainda não sou bom o suficiente pra atirar assim.”

“Não é tão simples assim.”

“Eu só sou um funcionário contratado pelos seus superiores. Se acontecer alguma coisa com você, eu vou ter que responder junto com eles. E se você morrer, eles vão me culpar também. Não esquece que minha vida depende de manter a sua inteira.” — retruquei.

Nevils olhou para um lado, como se refletisse, mas não disse nada. Só soltou um suspiro pesado, vindo de algum lugar fundo do peito.

“Chega. Não quero mais.” — larguei a arma.

“Volta para a estufa. Se não vai atirar, não tem motivo para ficar aqui. Não vou ficar parado vendo você se exibir na frente do meu pessoal com essa cara de quem não sabe segurar uma arma.”

“Não.”

“Eu mandei voltar.”

“Eu falei que não vou!”

“Isso é uma ordem.”

Ah, que droga. Não tem como vencer.

Eu estava prestes a retrucar quando ele veio para cima. Nevils não me deu tempo de reagir. A mão dele veio rápida, agarrou meu pulso com força antes que eu pudesse me afastar. Fui puxado de volta sem cerimônia, e o peso do corpo dele me prendeu contra a bancada. Não deu tempo de pensar, muito menos de sacar a pistola que ele tinha me entregado antes. Eu só consegui sentir o hálito dele perto do meu ouvido, quente e irritado, enquanto ele trancava meu pulso com uma das mãos e usava a outra para segurar meu queixo.

_Pá!_

“Ei! O que pensa que está fazendo?!” — gritei, tentando me soltar, mas Nevils foi rápido. Ele me prendeu com o corpo inteiro contra a bancada, usando o joelho para travar minha perna. Não consegui me mexer, e o pior é que ele estava segurando meu queixo com tanta força que doía.

Eu nunca imaginei que fosse acabar desse jeito. Sempre achei que fosse só treinamento, mas isso aqui já tinha passado do limite faz tempo. E o pior de tudo é que, por mais que eu odiasse admitir, uma parte de mim não queria que ele parasse. Era como se meu corpo respondesse sozinho à presença dele, como se reconhecesse uma autoridade que eu mesmo não entendia.

“Você não tem ideia do perigo que corre ficando perto de mim. Acha mesmo que consegue sair daqui sozinho? Se eu quiser, posso te quebrar agora e ninguém vai perguntar nada. Essa cidade inteira pertence aos meus superiores, e você é só mais um recruta idiota que eles mandaram pra cá.” — a voz dele saiu baixa, quase um rosnado, antes de apertar ainda mais o meu queixo.

O silêncio que se instalou depois daquilo me fez sentir um frio na espinha que eu não conseguia explicar.

“Y-Ya... já chega, solta!” — tentei empurrar o peito dele antes que ele fizesse algo pior.

Mas a mão dele não cedeu. Quanto mais eu empurrava, mais ele pressionava. E ele nem parecia estar fazendo esforço.

“Eu devia te ensinar uma lição, já que você não sabe qual é o seu lugar.”

Naquele instante, ele soltou um grunhido abafado. Quase não acreditei quando a mão dele subiu e apertou meu ombro, como se fosse me esmagar. Todo o peso do corpo dele caiu sobre mim, e num único movimento ele me prendeu contra a bancada. Mesmo sem usar força total, eu não conseguia me mexer. Além de segurar meu queixo, a outra mão dele travou meu pulso com tanta força que parecia que ia quebrar. O homem que eu conhecia como calmo e frio agora me encarava com um olhar que eu nunca tinha visto antes. Como se eu fosse o inimigo dele.

“Y-Ya... já chega, solta de uma vez!” — tentei falar com a voz trêmula, torcendo para que ele parasse antes que eu perdesse o controle e fizesse alguma burrice por impulso.

Nevils ficou me encarando por alguns segundos antes de, finalmente, soltar meu queixo e me empurrar de leve, como se eu fosse só um inseto irritante.

“Lembra do que eu te falei da última vez?” — ele disse, e então empurrou meu ombro sem nem me olhar. “Levanta. E volta a mirar no alvo da sua frente.”

Ai... que droga.

O cheiro de pólvora dos tiros que Nevils disparou antes ainda pairava no ar. Engoli em seco e ergui a arma, mesmo com as mãos tremendo. Era horário de folga, mas o pessoal do campo de tiro tinha saído para almoçar, me deixando sozinho com ele naquele lugar abafado.

Respirei fundo antes de subir a arma, tentando ignorar a dor latejante no queixo. Antes disso, percebi que tinha um homem parado perto da porta, olhando para mim com um sorriso no rosto, como se estivesse se divertindo com a bronca que eu levei do treinador. Usava um colete tático por cima da camisa e um coldre no quadril. Não parecia ser daqui. Talvez fosse algum segurança particular ou alguém da cidade vizinha vindo só para praticar.

“Vai atirar ou não?”

Ele tirou os olhos da arma e me encarou de novo antes de dizer, com um tom de quem estava se divertindo:

“Vai pro campo de treinamento da academia?”

“Vou pra onde?”

“É lá que os novatos como você treinam com munição real antes de serem mandados pra campo.”

“Então é lá que eu vou ficar mesmo.”

O que ele falou depois disso eu não consegui entender direito, porque o som do tiro ecoou alto demais no campo vazio. Só sei que ele pegou a arma da mesa, verificou o carregador e apontou para o alvo sem nem piscar.

“Isso.” — ele disse, baixo. — “Agora tenta de novo. Só que dessa vez, mira de verdade.”

“Quem mandou você ficar parado aí feito um idiota? Acha que vai aprender alguma coisa só olhando? Mira no centro do alvo e puxa o gatilho.” — disse, desviando o olhar da mira para me encarar. — “Ou vai ficar aí plantado o dia inteiro?”

Ele fez um gesto com a cabeça para eu me aproximar antes de sair andando na minha frente.

Olhei para ele, sem entender direito. O que ele queria dizer com aquilo? Ele ia me ajudar ou só estava tirando sarro da minha cara de novo?

Não tive tempo de pensar. Ele já tinha sumido de vista, e eu fiquei ali, parado, com a arma na mão e o coração batendo tão forte que parecia que ia sair pela boca.

“Fica quieto. Já te falei para não fazer barulho enquanto estou ensinando.”

“Não foi você que me mandou atirar?” — retruquei, irritado. A essa altura eu já não tinha mais medo nenhum de encarar ele.

“Se você continuar assim, vai acabar fazendo eu te deixar sozinho aqui de novo.”

“Não precisa.” — resmunguei.

Ele não disse mais nada. Só saiu andando do campo, me deixando ali sozinho com o som dos disparos ecoando no silêncio. A tensão que eu sentia antes sumiu, dando lugar a um cansaço absurdo.

Eu queria poder voltar atrás só para evitar tudo isso. Treinar até cair era melhor do que ficar parado aqui, aguentando esse silêncio esmagador. Só que, por mais que eu tentasse, não conseguia me mexer. Era como se meu corpo tivesse travado.

O cachorro late ao longe.

Depois de um tempo parado, ouvi passos voltando na minha direção. Quando ergui a cabeça, vi Nevils com uma expressão que eu não soube identificar. Ele quase não falava nada, só me observava.

“Vai ficar aí parado feito um idiota?”

Nevils me encarou por alguns segundos antes de caminhar até a bancada e pegar a caixa de munição que estava ali, jogando-a na minha direção sem cuidado nenhum.

“Pega suas coisas.”

“Pegar o quê?” — perguntei, confuso, ainda sentado no chão.

“Você não vai dormir aqui.”

“Não vou a lugar nenhum até você me dizer para onde quer que eu vá.” — rebati, sem conseguir disfarçar o cansaço. Ele me olhou como se eu fosse uma criança teimosa, e então suspirou fundo, como se estivesse se segurando para não me dar um tiro ali mesmo ou me deixar naquele buraco para sempre.

“Droga. Você acha que tem escolha nessa porcaria de lugar?”

A resposta dele me fez engolir seco. O jeito como ele falou não deixou espaço para discussão.

“Então para onde eu vou?”

“Para o meu quarto.”

“Que quarto?”

“É melhor você dormir no quarto do que ficar aqui… na casa do seu treinador.”

Quando ele respondeu, meu coração quase parou. Não acreditei no que estava ouvindo, e a ideia de dividir o mesmo teto com ele me deixou com um nó na garganta.

“Você quer o quê com isso?” — perguntei, sem conseguir esconder o nervosismo.

“Manter você sob vigilância.”

“Isso tem alguma coisa a ver com eu ter que dormir na sua casa?” — retruquei, cruzando os braços. Deixei claro que não estava nem um pouco a fim de ir para lá, nem que fosse por um minuto. Quanto mais perto dele eu ficava, mais eu sentia que ia acabar mal todos os dias.

Mas Nevils não disse nada além daquela ordem seca.

“Eu te dou dez minutos. Pega suas coisas e volta para o estábulo. Se eu voltar e você ainda estiver aqui, vou ter que te contar o que acontece com quem me desobedece.”

Assim que terminou de falar, ele saiu do campo de tiro sem nem olhar para trás, me deixando ali parado, de queixo caído.

Que filho da mãe desgraçado!


*Pistola HK45C*: É uma pistola semiautomática calibre.45 ACP, com comprimento do cano de 3,94 polegadas. Capacidade do carregador: 8+1 ou 10+1 tiros. É compacta, leve e fácil de manusear. Costuma ser usada como arma secundária por unidades militares ou forças especiais americanas.[1]

*Fuzil de assalto HK33*: Também chamado de HK33A2, é um fuzil de assalto calibre 5.56×45mm NATO. O Exército Real Tailandês o designa como "Fuzil Tipo 11". É uma arma para combate de infantaria, semelhante ao M16. Tem cano de 0,223 polegadas de diâmetro e comprimento de 36,22 polegadas. É leve, com baixo recuo e alta precisão, sendo adotado pelo Exército Real Tailandês em 1968. Foi fabricado na Alemanha.[2]