27 de fev. de 2026
Fanhlaruk - Capítulo 03
Manner of Death - Capítulo 32
Deja Vu - Capítulo 22
S.C.I. Mystery Files Vol. 01 - Capítulo 17
Capítulo 17 – O Caso Antigo
Zhan Zhao folheava os arquivos um a um. A cada pasta aberta, sua expressão tornava-se mais sombria.
— O que foi, Gatinho? — perguntou Bai Yutang, apreensivo.
— Rato… como você descobriu isso? — Zhan Zhao ergueu os olhos para ele.
— …Descobri o quê?
— Todas essas pessoas têm relação com TOC e com sugestão psicológica! — Zhan Zhao bateu os arquivos contra o peito dele. — Responda! Não se faça de desentendido!
— Não estou me fazendo de desentendido. — Bai Yutang pegou a revista que estava lendo. — Pense um pouco. Este caso tem alguma ligação com você… e com o Departamento de Psicologia da Universidade C. Então imaginei que pudesse ter relação com psicologia.
— Além disso — continuou, Wang Chao e a equipe estão analisando esses arquivos há dias, mas não encontraram nenhuma conexão entre as vítimas. O único ponto em comum é que todos estavam passando por dificuldades na vida e não eram bem-sucedidos na carreira. Alguns inclusive tinham histórico de transtornos mentais.
— Ah… — murmurou Zhan Zhao, acariciando o queixo. — Então foi por isso que você veio aqui buscar inspiração.
Bai Yutang ergueu o queixo dele com dois dedos.
— E pelo visto encontrou. Olha essa cara convencida.
Zhan Zhao afastou a mão dele com um tapa leve.
— Vamos!
— Ei! Gato! Pra onde? — Bai Yutang correu atrás dele.
— Você sabia que nossa delegacia foi a primeira a criar o “Escritório de Pesquisa em Psicologia Criminal”? — perguntou Zhan Zhao, andando apressado.
— Hum… não foi criado há vinte anos, por sugestão do Comissário Bao? — Bai Yutang igualou o passo. — O que isso tem a ver com o caso?
Zhan Zhao apertou o botão do elevador.
— Sabe por que esse departamento foi fundado?
— Dá pra ir direto ao ponto?
— Naquela época houve um grande caso. Por causa das implicações, quase ninguém sabe os detalhes. Eu mesmo só descobri quando entrei para o setor.
Os dois entraram no elevador. Zhan Zhao apertou o botão do 11º andar.
— O que se sabe é que o assassino usava sugestão psicológica para controlar e matar pessoas. Em cinco anos, mais de cem morreram. Mais de uma dezena eram policiais.
As portas se abriram.
— Como eu nunca ouvi falar disso? — Bai Yutang perguntou, incrédulo.
Zhan Zhao riu, caminhando em direção ao arquivo.
— Quantos anos você tinha há vinte anos? Que criança teria acesso a esse tipo de coisa?
Bai Yutang revirou os olhos.
— E você sabia como?
Zhan Zhao lançou-lhe um olhar enviesado.
— Sou mais velho que você.
Estalou a língua, satisfeito, ao ver o rosto de Bai Yutang empalidecer de irritação.
— Quem diria que aquele menininho fofo que vivia me chamando de “Gege” cresceria para virar esse sujeito irritante?
— Ora, seu gato miserável! — retrucou Bai Yutang. — E você? Quer que eu conte como era quando pequeno? Quem era mesmo que voltava do jardim de infância com o rosto todo babado de tanto beijo das tias?
— Aham! — Zhan Zhao mudou de assunto abruptamente. — Chegamos ao arquivo!
Entrou depressa na sala.
— Se não fosse eu te proteger naquela época, acha que teria crescido inteiro? Ingrato… — resmungou Bai Yutang.
De repente, Zhan Zhao tentou fechar a porta na cara dele. Por reflexo, Bai Yutang segurou a porta a tempo.
— Você é cruel! Está com inveja do meu nariz perfeito?
— Shhh! — Zhan Zhao fez sinal para que ele se calasse e começou a procurar nas estantes.
— Isso não é extremamente ineficiente? — Bai Yutang olhou para as etiquetas amontoadas. — Não tem nada digitalizado?
— Já verifiquei. Não há registro no sistema… — Zhan Zhao interrompeu-se. — Hein?
— O que foi? Achou?
— Faltam muitos arquivos entre os anos de 82 e 87!
— Esses são confidenciais — disse uma voz envelhecida atrás deles.
…
Mesmo não sendo medrosos, era madrugada e o arquivo estava mergulhado em sombras. A voz repentina quase os fez saltar.
Um feixe de lanterna iluminou-os.
— Senhor Sun? — Bai Yutang protegeu os olhos, colocando-se instintivamente à frente de Zhan Zhao. — Por que está usando lanterna se as luzes estão acesas? Não estamos filmando um terror.
O velho arquivista riu.
— Pensei que fosse algum idiota tentando roubar documentos.
Zhan Zhao apontou a prateleira vazia.
— O senhor disse que esses arquivos são confidenciais?
O velho Sun fez sinal para que o seguissem até a sala dele. Lá dentro, um fogareiro elétrico fervia macarrão instantâneo.
— Que cheiro bom… — disseram os dois ao mesmo tempo, lembrando que não haviam comido nada a noite toda.
— Sentem-se. — Ele colocou mais dois pacotes na panela.
Enquanto distribuía as tigelas, explicou:
— Todos os arquivos desaparecidos pertencem ao mesmo caso. Parte foi selada como confidencial. A outra parte… destruída.
— Destruída?! Como assim?
— Foi destruída por aquela pessoa.
— Que pessoa?
— Se ele não tivesse destruído, talvez jamais tivesse sido capturado.
— Foi o próprio assassino quem destruiu os documentos? — Zhan Zhao arregalou os olhos.
O velho assentiu.
— Ele não era apenas o culpado. Era também policial.
Bai Yutang engasgou.
— Policial?!
— Já ouviram falar dos famosos “Preto e Branco” daquela época?
Bai Yutang riu.
— Está falando do Comissário Bao e do meu pai?
— Sim. Pode soar exagerado hoje, mas era impressionante. Só que… “Preto e Branco” na verdade eram três.
— Três?! — Zhan Zhao ficou chocado. — O terceiro era o assassino?
O velho Sun o encarou por alguns segundos.
— Ele era como você.
— …?
— Um gênio em análise psicológica. Mas naquela época não existia esse cargo. Então deram a ele o título de policial.
Bai Yutang ficou tenso.
— Afinal, quem é ele?
— É confidencial. Só três pessoas sabem tudo.
— Três? Além do meu pai e do Comissário Bao?
— Ele próprio.
— Ele ainda está vivo?! — Zhan Zhao deixou escapar.
— Matou mais de cem pessoas e não foi executado? — Bai Yutang não acreditava.
O velho balançou a cabeça.
— Ele não pode mais machucar ninguém.
E não disse mais nada.
Mais tarde, ao saírem, Bai Yutang resmungou:
— Esse mistério todo é irritante!
— E agora? Perguntamos ao seu pai?
— Pelo amor de Deus, não!
— E ao Comissário Bao?
— Você pergunta!
Enquanto discutiam, Zhan Zhao perguntou de repente:
— Xiao Bai, quantos anos seu irmão é mais velho que você?
— Oito… Aaaah!
— Então ele devia lembrar!
— Não é disso que estou gritando! — Bai Yutang parecia à beira do colapso. — Meu irmão chega hoje. Eu disse que iria buscá-lo.
— Que horas?
— Meio-dia…
Zhan Zhao olhou o relógio. Era exatamente meio-dia.
— Então corre! Meia hora de atraso não é tão grave.
Bai Yutang quase chorou.
— Meio-dia… de agora.
Zhan Zhao ficou em silêncio por um segundo.
— Considerando a personalidade do seu irmão… você está morto.
O restante terminou com Bai Yutang carregando Zhan Zhao à força até o elevador sob gritos de “Rato Branco!” e a porta se fechando com um ding.
Foi essa cena que Gongsun presenciou ao sair do Instituto Médico-Legal.
Logo depois, outro elevador se abriu. Dele saiu um homem alto, elegante, de traços marcantes.
— Está procurando alguém? — perguntou Gongsun.
— E você é quem? — respondeu o homem, frio.
Gongsun sorriu.
— Gongsun Ce, Instituto Médico-Legal.
Aperto de mão.
O homem então percebeu algo estranho: a luva cor de pele de Gongsun estava coberta por resíduos vermelhos e esbranquiçados.
— O vermelho é fígado. O branco, fluido cerebral. O preto é gordura carbonizada — explicou Gongsun com naturalidade.
O homem empalideceu, mas manteve a compostura.
— Como devo chamá-lo?
— Bai Jintang.
Um silêncio coletivo percorreu o corredor.
Então Bai Jintang abriu um sorriso enigmático e puxou Gongsun para um abraço.
— Yutang fala muito de você.
Nas costas de Gongsun ficou uma marca evidente, vermelha e branca.
Dry Drowning - Capítulo 20
Capítulo 20
Kyle, que sorria até então, interrompeu o riso ao perceber o olhar de Ian um olhar que parecia duvidar de seu caráter e compôs uma expressão injustiçada.
— A nossa Shucream nem sabe o que é “Shetier”.
Ian o encarou como se aquilo não tivesse a menor relevância, e Kyle, como se estivesse esperando por essa reação, continuou:
— Ela mal consegue escrever o próprio nome. Ensinar o nome do príncipe seria crueldade, não acha?
Soava como um disparate, mas, raramente, havia algo próximo da verdade ali. Já haviam tentado ensiná-la ao menos a escrever se não falava, talvez pudesse aprender pelas letras, mas a iniciativa fora interrompida por Victorian. Mesmo ele, que o tratava como a um irmão mais novo e lhe ensinava tudo com paciência, desistira em apenas um mês. Por mais que repetissem, Shu não memorizava sequer palavras simples. Parecia não ter vontade de aprender.
“Entendeu?” — perguntavam. E ele apenas sorria: “Hi”. Era de se imaginar quantas vezes alguém já não perdera a paciência.
Talvez ao ouvir a voz de Kyle, Shu assentiu energicamente e correu para apanhar um graveto caído ali perto. Pelo menos o próprio nome ele precisava saber escrever insistira Victorian e, a duras penas, ela conseguira decorar ao menos um caractere.
Com o som áspero do graveto riscando a terra, Shu se agachou e começou a escrever.
Um único som. Uma sílaba. Sem sobrenome.
— Mm!
Orgulhosa por conseguir escrever o único nome que sabia, abriu um sorriso radiante e virou a cabeça bruscamente na direção de Ian. Ele, que não conseguia sequer escrever o próprio nome, limitou-se a encarar aquela caligrafia trêmula que também não sabia ler.
Ao lado do nome de Shu, a palavra “cream” surgiu num instante. Kyle, sacudindo as mãos sujas de terra como se nada tivesse feito, proclamou:
— Viu? Ele já fica satisfeito com isso. E você duvidou da minha generosidade por não querer dar dever de casa à toa, não foi?
Era só provocação, embora falasse como se fosse algo grandioso. Ian desviou o olhar, como se não valesse a pena responder. Já Shu, que escutava atentamente os sofismas de Kyle, parecia concordar em parte.
É por isso que te tratam como boba.
Ian deu um leve toque na testa dele com a ponta do dedo. Shu arregalou os olhos. Quando ele a fitou de cima, como quem pergunta “o que foi?”, ele apenas inclinou a cabeça, confuso e levemente ofendido. Kyle não perdeu a cena e estendeu o graveto a Ian.
Ian o encarou como se perguntasse por que aquilo estava sendo entregue a ele. Kyle sorriu enviesado.
— Mas e se vocês nem sabem o nome um do outro? Escreve você mesmo. Seu nome.
— …
— Não é nada difícil. Até Shucream consegue decorar, não é?
O problema era que o dono do nome “não tão difícil” não o conhecia.
Ian alternou o olhar entre o graveto agora em sua mão e Shu, que o observava com olhos brilhantes. Não conteve o suspiro. O que estava fazendo ali? Não queria se envolver em trivialidades, mas o olhar insistente dela era impossível de ignorar.
Por mais que o encarasse assim, as letras que desconhecia não surgiriam magicamente.
Pensou em largar o graveto e ir embora, mas teve a sensação de que Shu o seguiria como um filhote. Reconsiderou.
De todo modo, naquele país ele era estrangeiro. Mandaram que escrevesse o nome não que fosse em Shetier. Chegando a essa conclusão, Ian se agachou e traçou uma longa linha diagonal logo abaixo do nome de Shu.
Eu escrevo no idioma que eu quiser.
— …
Mas ele não avançou além do “I”. Após alguns segundos fitando o chão, desenhou um círculo à esquerda da letra. Depois outro círculo ao lado. Em seguida, um traço que se projetava lateralmente. E, por fim, uma linha angulosa descendente.
Shu, ainda agachado, observava fascinado o nome escrito em hangul como se tentasse gravar na memória aquelas formas arredondadas e angulosas que representavam “Ian”. A expressão de Kyle, também voltado para o chão, tornou-se estranhamente ambígua. Leu várias vezes, como se tivesse presenciado algo incomum, e quando abriu a boca para falar.
— Se já voltou, apresente o relatório primeiro à chefia.
A voz firme veio de trás, e os três voltaram-se quase ao mesmo tempo. O homem que se aproximava pela entrada era um rosto conhecido.
Cabelos azuis presos no alto. O sinal sagrado traçado na testa. Traços bem definidos e uma expressão impassível, como se nem uma lâmina pudesse desalinhá-la.
Era Claude, o vice-comandante que, no dia da procissão, conduzira Ian a cavalo até a vila.
— Ora, se não é o Claude. O quê? Veio correndo do treino da manhã porque sentiu minha falta? Isso já é meio perturbador.
— Devo responder?
— Ah, agora nem nega mais?
Falavam com rapidez, como velhos conhecidos — embora não no melhor dos sentidos. Enquanto Kyle exibia um entusiasmo escorregadio, Claude caminhava com calma, respondendo como quem instrui alguém lento de entendimento.
— O treino começa às oito em ponto. Eu sempre chego cinco minutos antes. Não tem nada a ver com você.
— Sério?
Kyle continuava sorrindo. Shu, acostumado àquela atmosfera, inclinou a cabeça em cumprimento a Claude e puxou discretamente a manga de Ian.
Vamos escrever nomes juntos!
O pedido estava todo em seu olhar, mas o clima entre os dois homens esfriava rapidamente. Ian já ouvira menções aos nomes deles, mas era a primeira vez que os via lado a lado.
— Já devo ter dito isso mil vezes. Até um vira-lata retardado tem memória melhor que a sua.
Na Ordem, a rivalidade entre os dois era pública. Kyle, escravo de seus próprios impulsos, e Claude, um aristocrata rigoroso. Só pelas inclinações opostas, já eram incompatíveis. Ambos integrantes da elite, frequentemente designados às mesmas missões pelo Grão-Duque e, sempre que se encontravam, colidiam. Nenhum dos dois tinha o hábito de medir palavras. Transformar a Ordem num campo minado parecia quase um passatempo.
— O quê?
Kyle fez um rosto chocado.
Não era alguém que se abalasse com tão pouco. Ian suspeitou que viria algo absurdo e veio.
— Peça desculpas ao cachorro!
Parecia uma piada. Mas piorou:
— Claude, esse é o seu problema. Tenha mais consideração pelos sentimentos alheios. Compará-los a mim? Já pensou como eles ficariam magoados? O Alexander, que criam na frente da taverna, é inteligentíssimo!
— …
— Que expressão é essa? Não me diga que… toquei numa ferida? Bem, para ir à taverna, é preciso ter amigos… Foi mal. Essa foi minha.
— O erro foi meu por falar com você.
Claude se afastou, ignorando o dilúvio de provocações como quem corta ruído com uma lâmina. Se Kyle nascera com o dom de revirar o estômago alheio, Claude era especialista em ignorar disparates.
Aproximou-se então de Ian.
— Recebi ontem o relatório sobre o mal-entendido com alguns de nossos cavaleiros.
“Mal-entendido” talvez fosse brando demais. Ainda assim, Ian apenas assentiu após um instante. Não pretendia discutir. Em qualquer época, quem destoa é rejeitado.
— Era algo que eu deveria ter supervisionado.
Mentira. Era impossível que desconhecesse o tumulto causado por Fred durante mais de uma semana. Ian preparava-se para assentir novamente.
— Não supervisei.
— …Era uma provocação? Ou franqueza?
— Se deseja punição aos envolvidos, basta dizer. Incluirei o instigador e todos os que se omitiram.
Se Ian concordasse, parecia pronto para abrir um julgamento ali mesmo. Por que aquilo, uma semana depois? Ele não sabia. Mas sua resposta já estava decidida.
Ergueu lentamente a mão.
— …E apontou para si mesmo.
Claude permaneceu em silêncio. Só podia haver uma razão para aquilo.
As sobrancelhas se ergueram por um instante. Entrara há pouco na Ordem e já se deixara acuar por alguém como Fred? Corajoso.
— …Muito bem. Inclua-me também.
Ele também fora omisso. Se houvesse punição, que fosse justa.
Ian abaixou a mão. Já entendia que tipo de homem Claude era. Não tinha idade para fofocas pelas costas.
Fez um gesto indicando que não era necessário e virou-se.
Ali não encontraria o homem que procurava. E era esse seu único objetivo. Melhor voltar ao quarto.
— Ian.
Pensando bem, ele deveria ter fugido naquele momento.
Sem fazer perguntas. Sem querer saber de nada. Se tivesse simplesmente corrido, sem olhar para trás sem revisitar o homem que matara talvez, desta vez, pudesse ter encontrado a morte tranquila que desejava.
As memórias perdidas poderiam ter sido apenas um lampejo final.
Mas Ian não percebeu.
Virou-se ao ouvir aquela voz de articulação rígida. Por trás do rosto impassível de Claude, emoções indecifráveis passaram brevemente.
— O comandante deseja vê-lo.
Era um convite.
E também, um prenúncio.
Ang Ang — Capítulo 16
4 de fev. de 2026
Mercenary Goddess Vol.01 - Capítulo 07
27 de out. de 2025
Apocalypse: Counterattack of a Cannon Fodder - Capítulo 57
Yan Xu riu baixinho, sem se apressar em ir embora. Inclinou-se, prestes a beijá-lo novamente, mas Tang Shi o conteve.
— Camarada, seu período de avaliação ainda não acabou. Nem pense em ultrapassar os limites.
Yan Xu não se afastou. Apenas trocou o gesto por um toque leve: passou o polegar pelos lábios macios de Tang Shi, a voz grave e o olhar tomado de fascínio.
— Sabe... quando você corria pelo campo de treino me xingando e amaldiçoando os antepassados da minha família, o que eu mais queria era te jogar no chão e te foder até te fazer chorar.
Tang Shi se recostou no sofá, os cantos dos lábios curvados em um sorriso provocante.
— Que pena. Você perdeu o melhor momento. Agora, já não tem mais chance.
— É mesmo? — respondeu Yan Xu, sem se comprometer.
— A não ser que seja mais forte do que eu. Do contrário, vai ficar só na vontade. E claro — acrescentou com um meio sorriso —, pra ser mais forte, primeiro precisa conseguir me alcançar. Vamos, camarada, trabalhe. Desejar demais faz mal pra saúde.
Tang Shi cutucou o queixo bem desenhado de Yan Xu, orgulhoso e provocador.
Yan Xu suspirou, rendido, e começou a recolher os cacos e a louça espalhada pelo chão.
— Daqui a uns dias vou sair pra uma missão. Se tudo correr bem, volto em alguns dias.
Tang Shi, que já caminhava para o quarto, parou no meio do passo.
— Mal entrou e já te mandam pra uma missão? O exército realmente não sabe esperar.
Yan Xu não levantou a cabeça. Jogou os cacos no lixo.
— É uma missão urgente.
— Você nem faz parte da equipe de despertos. Missões especiais deveriam ser deles. Se querem aproveitar os privilégios que o exército oferece, é justo que deem algo em troca.
— Entre os despertos do exército, o mais forte é Jiang Huai, no limite do nível 1. Ouvi dizer que já tentou avançar pro nível 2 duas vezes e falhou nas duas. — explicou Yan Xu.
Tang Shi soltou um riso frio.
— Se o talento é ruim, não adianta ter quantos cristais de energia quiser. Não vai subir de nível indefinidamente.
Yan Xu concordou com a cabeça. Já havia pensado o mesmo. Cada pessoa tem uma aptidão diferente, e o avanço de nível depende disso. Ele e Tang Shi, por exemplo, sempre subiram de nível com facilidade nunca haviam falhado, e por isso evoluíram bem mais rápido do que a média.
Em termos de coleta de cristais de energia, era óbvio que o exército tinha muito mais recursos do que os dois juntos, mas, mesmo assim, o mais forte deles ainda estava preso no nível 1. Isso dizia tudo sobre a diferença de talento.
Tang Shi cruzou os braços, apoiando-se no batente da porta.
— Quantos despertos vão participar?
— Seis equipes. A primeira, liderada por Jiang Huai, vai permanecer de prontidão no quartel.
— Então, no momento, o desperto de nível mais alto é você. E é por isso que precisa liderar a missão, certo?
— Exato. Eu estarei no comando. Espero que dessa vez tenhamos algum resultado. — Na última operação de busca por mantimentos, o fracasso fora total: mais da metade dos soldados morreu, e o que conseguiram trazer mal sustentou o abrigo por alguns dias. Tudo dependia desta nova tentativa.
Na vida anterior, Tang Shi lembrava bem: além das missões de resgate e defesa contra os alienígenas, o exército só realizava grandes operações para saquear armazéns de comida. Sabia exatamente o que Yan Xu enfrentaria. Com mais de um milhão de sobreviventes na zona segura, o alimento era o problema mais urgente.
Mas, para Tang Shi, aquela insistência em arriscar tropas por comida era inútil. Seria muito melhor organizar logo a evacuação. Lincheng estava perdido só ele parecia enxergar isso. Mesmo se dissesse, ninguém acreditaria.
Na sua opinião, mesmo com despertos envolvidos, o resultado seria o mesmo: sacrifício inútil. Da última vez, metade do exército havia morrido para trazer alguns caminhões de mantimentos. Desta, provavelmente nem isso conseguiriam. A quantidade de criaturas estava aumentando, e elas evoluíam devorando umas às outras cada vez mais fortes, mais perigosas.
A missão de Yan Xu era mortal.
— E se eu mandar você recusar essa missão? Vai me obedecer? — perguntou Tang Shi, encarando-o.
Yan Xu ficou em silêncio por um instante.
— Sou soldado. Cumpro ordens.
Tang Shi assentiu, sem insistir. Voltou para o quarto e bateu a porta com força.
A reação dele deixou Yan Xu sem saída. Era militar tinha deveres. E, num momento tão crítico, se o exército desmoronasse, toda a zona segura cairia junto. Um milhão de vidas dependiam disso. Não podia ignorar essa responsabilidade.
Tang Shi trancou-se em casa por dois dias, sem sair. Enquanto isso, Yan Xu seguia pontualmente para o quartel, ajudando a conter os ataques das criaturas na linha de defesa.
No quartel dos despertos, Jiang Huai estava furioso. Sentado em seu escritório, atirou um maço de relatórios na mesa com um estrondo.
Aquela missão deveria ser dele. Mas justo agora, com a entrada de Yan Xu nas fileiras do exército, haviam passado o comando pra ele roubando-lhe a chance de conquistar mérito. Imperdoável!
Da última vez, soldados comuns haviam conseguido trazer alguns caminhões de comida, mesmo com perdas pesadas. Agora, com uma tropa maior e despertos de apoio, o sucesso parecia garantido. Era a ocasião perfeita pra se destacar e Yan Xu simplesmente apareceu e pegou o cargo.
O que mais o irritava: Yan Xu era um nível acima dele.
Jiang Huai rangeu os dentes. Ele sempre fora o mais forte desperto de Lincheng até agora. A chegada de Yan Xu era um tapa na cara.
Andava de um lado para o outro, inquieto. Se Yan Xu havia se juntado ao exército, e ainda por cima com esse poder… então e Tang Shi? Jiang Huai não tinha dúvidas de que ele também era um desperto. Será que pretendia se alistar? E qual seria o nível dele?
Atualmente, Jiang Huai ostentava a patente de major privilégio reservado aos despertos. No exército, quem possuía esse poder subia de posto muito mais rápido que os soldados comuns. Além disso, ele era o comandante das equipes de despertos, motivo pelo qual fora promovido diretamente de sargento a major.
Mesmo estando no mesmo nível hierárquico que Yan Xu, Jiang Huai não se sentia em pé de igualdade. Algo o corroía uma sensação de inferioridade difícil de disfarçar.
Depois de muito pensar, decidiu tentar disputar novamente a liderança. Não podia abrir mão daquela missão lucrativa.
Estava prestes a sair do escritório quando ouviu batidas na porta.
— Entre — disse, impaciente.
Era Zhu Peng, capitão da segunda equipe de despertos. Entrou às pressas, o rosto aflito, sem notar o mau humor do superior.
— Chefe, preciso de alguns homens emprestados. É urgente!
Jiang Huai franziu o cenho.
— Todos os despertos devem permanecer no quartel, aguardando ordens. Preciso repetir o regulamento?
— Eu sei — respondeu Zhu Peng, ansioso. — Mas meu irmão desapareceu. Saiu há três dias pra caçar na zona de risco e não voltou. Tenho medo de que tenha acontecido algo. Quero levar alguns homens pra procurá-lo.
Jiang Huai acendeu um cigarro luxo raro, privilégio de poucos e tragou lentamente.
— Três dias... Se algo realmente aconteceu, ir atrás agora não vai mudar nada.
— Eu conheço as habilidades do A-Ming! — insistiu Zhu Peng, exaltado. — Ele estava com mais dois companheiros, também despertos. Três despertos e alguns homens de apoio deveriam dar conta dos monstros próximos à zona segura. Acho que encontraram algo mais perigoso e ficaram presos. Por favor, deixe-me ir!
Jiang Huai suspirou, jogando o cigarro fora.
— Entendo seus sentimentos, Zhu Capitão. Mas regras são regras. Não me coloque em posição difícil.
Zhu Peng se aproximou e, discretamente, tirou do bolso cinco cristais de energia de nível zero, colocando-os na mão do superior.
— Só vou levar minha equipe por duas horas. Se a segunda equipe for convocada nesse período, peço que o chefe me cubra.
Jiang Huai fechou a mão sobre os cristais e os guardou no bolso, sem cerimônia.
— Uma hora. É o máximo que posso te conceder.
Zhu Peng mordeu os lábios e assentiu com firmeza.
— Está bem. Uma hora é suficiente. Voltarei rápido.
Na ampla sala de conferências, os líderes civis e militares de Lincheng estavam reunidos para a quinta assembleia de emergência. O assunto: o destino da cidade.
O prefeito Lin Wei abriu a reunião, obstinado.
— As cartas que caíram do céu afetaram o mundo todo. Mesmo que abandonemos Lincheng, pra onde iríamos?
O general Wu Weiguo respondeu com gravidade:
— As perdas militares são enormes. Nosso exército está exausto, e o número de criaturas aumenta a cada dia. Não podemos mais esperar. Precisamos planejar a evacuação.
O prefeito bateu na mesa.
— Se faltam soldados, recrutem! Há mais de um milhão de sobreviventes. Certamente há quem possa empunhar armas.
O general Xu Heng, de expressão severa, interveio:
— Recrutas sem treinamento só servem pra morrer. Seria melhor evacuar primeiro, ir para uma área menos devastada e reorganizar as forças. Além disso, as reservas de comida estão acabando. Em breve, ficaremos sem mantimentos.
O prefeito retrucou:
— Se falta comida, o exército deve buscá-la! Esse é o dever de vocês. Já o fizeram antes; desta vez, mandem mais homens e levem despertos juntos. Vai dar certo.
Wu Weiguo manteve o semblante sério.
— É nossa responsabilidade, sim. Mas mesmo que tentemos de novo, não há garantia de sucesso.
Os militares conheciam a realidade melhor do que os políticos confortavelmente sentados em seus gabinetes. Sabiam que Lincheng estava cercada por hordas cada vez mais fortes, e que as munições estavam no fim. Em um mês de combates, só gastaram nada entrou. A escassez total era questão de tempo.
— Aliás — disse o prefeito, mudando o tom —, ouvi que o general Wu escolheu um novo líder pra próxima missão. Um ex-soldado, não é?
— E o que o prefeito quer dizer com isso? — perguntou Wu Weiguo.
— Só acho curioso. Se o próprio general não confia na escolha, por que não enviar o capitão Jiang? — provocou o prefeito. — Ele é o desperto mais forte de Lincheng e comandante das equipes especiais. Com ele no comando, as chances seriam muito maiores. Ele é a esperança dos sobreviventes, não é mesmo?
Wu Weiguo não respondeu.
Se tivesse de escolher entre Yan Xu e Jiang Huai, não hesitaria nem por um segundo: ficaria com Yan Xu.
Não por favoritismo mas porque Yan Xu fora um soldado das forças especiais. Sua capacidade de julgamento em combate era muito superior à de Jiang Huai.