27 de jul. de 2026

Tensei Kyuuketsuki-san - Capítulo 06

Capítulo 06 — A Cidade Portuária de Alrescha

“Então esta é Hanapecha.”

“É Alrescha. Gostou da cidade?”

“É bem bonita. O vento é um pouco salgado, mas é agradável.”

A brisa salgada era forte o bastante para ser sentida até da carroceria da carroça. Era o cheiro característico de uma região litorânea.

A vista da cidade a partir da carroça passava a sensação de um porto estrangeiro. O ar levemente antigo das construções também transmitia uma atmosfera agradável. Como ponto turístico, não havia nada a criticar.

… Teria sido uma boa ideia ter comentado algo sobre a situação da comida com o vovô Loligramps.

Por mais charmoso que fosse ter um lugar quieto onde eu pudesse dormir o quanto quisesse, se eu tivesse ficado lá, teria morrido de fome.

Por um acaso acabei deixando meu lugar de origem por causa de alguém que passou por ali… mas essa nova região parecia bem boa. Eu queria tirar um cochilo o mais rápido possível.

“Bem, então eu fico por aqui.”

“Ah… E-Espere um segundo, senhorita Arge.”

Quando comecei a descer da carroça, Zeno me chamou.

Sendo sincera, o nome “Arge” pelo qual venho sendo chamada nos últimos dias foi escolhido de forma bem porca.

Meu nome completo é Argento Vampear. Argento significa “prata” em italiano, e Vampear é “vampiro” em francês.

_(N.T.: Optei por escrever “vampear” para diferenciá-lo da palavra inglesa. É o problema clássico do japonês conseguir usar palavras estrangeiras para tudo. Pegue 吸血鬼 e ヴァンパイア como exemplo, embora no original do romance esteja escrito ヴァンピール. Sério, um dia ainda vou dar um tiro em alguém por causa de katakana…)_

Eu poderia ter usado o nome da minha vida passada, mas Kuon Ginji é definitivamente um nome masculino. Por dentro eu até podia me sentir um cara, mas fisicamente eu era uma garota, então acabei escolhendo um nome que soasse feminino.

“O que foi?”

“Por favor, leve isto e isto.”

Zeno-kun vasculhou o interior da carroça e me entregou uma capa preta com capuz e uma bolsa de couro. Quando peguei a bolsa, ela fez um tilintar. É bem pesada, será que tem ouro dentro?

“Pode não ser muito, mas use como fundos para sua viagem.”

“Ah, então é dinheiro… Pode mesmo, mesmo você sendo um comerciante?”

Eu não tinha pensado nesse problema, então a verdade é que fiquei extremamente grata pelo dinheiro… no entanto, para um comerciante, dinheiro deveria ser a coisa mais importante do mundo. Era mesmo ok ele entregar isso tão facilmente para alguém com um histórico tão suspeito?

“É porque você salvou minha vida. E também, enquanto estiver na cidade, tente manter o capuz. Senhorita Arge chama muita atenção, então assim você evita… sabe… ser importunada.”

Ah, isso realmente parece um saco.

Pelo que consigo perceber, não é exagero chamar minha aparência atual de beleza sem igual.

Julgando pelas reações dos Bandidos Terrier e do Zeno-kun, minha avaliação não parece errada. Por esse motivo, talvez seja importante cobrir o rosto. Eu não tenho interesse em homens. Agora, se eles me alimentassem e cuidassem de mim, aí já é outra história.

… Zeno-kun parecia ser do tipo dedicado.

Se eu me casasse com alguém assim, ajudar nos negócios dele parece cansativo.

Pra piorar, ele é mascate. Ou seja, a menos que se aposente, nunca vai ter chance de se estabelecer. Como alvo para encostar, ele não é perfeito. Que droga.

E, pra completar, a desconfortabilidade da carroceria da carroça também fez ele perder pontos.

Mesmo descontando esses pontos, não há como negar que Zeno-kun é uma boa pessoa. Ele fez tudo isso por mim.

“Uun… Me sinto meio mal com tudo isso.”

“Tudo bem. Até eu me sinto meio mal por ter ganhado um cavalo.”

Não, isso foi algo que você pegou dos Bandidos Terrier.

“Mesmo assim, não consigo aceitar tão de boa. Agora não tenho como te retribuir… que tal na próxima vez que nos encontrarmos?”

“Próxima vez?”

“Sim. Se nos encontrarmos de novo e Zeno-kun estiver em apuros, deixe eu te salvar.”

Em troca de ter salvado a vida dele, o que pedi foi que ele me alimentasse.

Já tinha recebido minha recompensa. Por isso considerei ele me trazer até aqui, me vestir e me dar dinheiro como algo separado daquele acordo.

Pode ter parecido natural para Zeno-kun, mas não conseguir retribuir a gentileza dele me deixa enjoada.

Eu posso ser extremamente preguiçosa, mas sou do tipo que quita suas dívidas direito.

Mesmo pensando nisso, tudo o que tenho é meu corpo. Até as roupas que estou usando não são minhas.

A única coisa com que posso pagar agora é uma promessa verbal.

Claro, uma promessa verbal continua sendo uma promessa. Se um dia nos encontrarmos de novo e eu tiver algo para pagar, eu pagaria com prazer. É esse o sentimento por trás dessa promessa.

Depois de fazer essa promessa, o melhor provavelmente é seguirmos caminhos separados por enquanto.

“… Se você coloca dessa forma, eu entendo.”

“Então eu vou indo. Muito obrigada. Por favor, contrate guarda-costas decentes da próxima vez.”

“Vou lembrar disso. Cuide-se, senhorita Arge!”

Ajustei bem o capuz e saltei da carroça.

Com um pouco de relutância, acelerei o passo e desapareci na multidão sem olhar para trás.

Bem, primeiro as coisas primeiro…

“… Vamos almoçar.”

Cochilos são ótimos e tudo, mas acabei de ganhar dinheiro, então vamos usá-lo com gratidão. Dinheiro só tem valor quando é usado, afinal.

Mercenary Goddess Vol.01 - Capítulo 07

Capítulo 07

"Fui forçado a vir para este mundo incompreensível... Além disso, devo liderar um exército que está claramente em desvantagem numérica para vencer esta guerra. Sou um homem, mas vocês querem que eu tenha um filho? Parem de agravar o sofrimento alheio." Yuichiro cerrou os dentes enquanto falava. Enquanto isso, no ar, a cauda de Izrael se contorcia de dor.

Yuichiro teve a impressão de que o homem não gostava de Izrael desde o início. Temeraire parecia desprezar Izrael.

As mãos de Noah, ligeiramente trêmulas, agarraram subitamente o braço de Yuichiro. "Solte-o."

"Por quê? Você também não quer ser rei."

"Eu não quero ser rei, mas..."

"Então por que eu deveria parar? Se eu concordar, significa que aceitarei que você se torne rei e que tenha um filho comigo. Você consegue fazer isso?"

Ele olhou fixamente para o rosto de Noah como se quisesse provocá-lo. Imediatamente, os lábios de Noah tremeram timidamente. Seu rosto estava marcado por hesitação e consternação. Olhando para ele, Yuichiro riu e gritou: "Se você não consegue, então cale a boca e veja-o ser morto!"

Imediatamente após ele dizer isso, Noah gritou: "Iz é meu amigo!"

Com isso, Noah abriu bem a boca e mordeu o braço de Yuichiro com força. A dor dos dentes perfurando a carne através do tecido fez com que Noah relaxasse rapidamente o aperto no corpo de Izrael. Mesmo depois de Izrael ter caído no chão, Noah continuava mordendo o braço de Yuichiro. "Solte-o."

Os caninos de Noah rasgaram a pele onde haviam cravado, fazendo com que o sangue escorresse lentamente para o tecido. Yuichiro repetiu, com os olhos arregalados ao ver o sangue vermelho se espalhando pelo tecido branco. "Solte-o."

Os lábios de Noah se entreabriram como se ele finalmente tivesse despertado quando Yuichiro repetiu a frase. Após um leve gesto de Yuichiro, Noah desabou no chão. Sua boca estava manchada com os resquícios do sangue de Yuichiro.

O bode assobiou uma pequena melodia. "Nunca vi uma deusa tentar matar uma joia no nosso primeiro encontro. E, em troca, a primeira deusa a ser mordida por um rei", brincou ele.

Yuichiro sentiu-se estranhamente relaxado ao ouvi-lo rir sem qualquer hesitação. Ele arregaçou as mangas para examinar a marca de mordida deixada por Noah. O ferimento não parecia profundo em comparação com a quantidade de sangue. Temeraire colocou delicadamente um pano branco sobre o ferimento enquanto examinava as pequenas marcas de dentes. "Eu vou enfaixar depois", disse Temeraire.

"Não me importo."  
— Não, por favor, deixe-me fazer isso.

Yuichiro suspirou, frustrado com a teimosia de Izrael, que não lhe permitia recusar. Enquanto isso, Izrael, que havia recobrado a consciência, tossia no chão. Ele cambaleou: "Ah... É a primeira vez que sou estrangulado por uma deusa." Ele repetia a mesma coisa que Goat. "A sétima deusa é meio moleca", disse Izrael baixinho, encarando Yuichiro como se tivesse esquecido que quase fora morto antes.

"Será que 'molecagem' é suficiente para descrever o que acabei de fazer?"

"Yuichiro, você pode me matar se quiser. Mas aí você nunca mais voltará para o mundo de onde veio." Seu tom não era ameaçador, mas sim direto.

"Há alguma maneira de voltar atrás?", perguntou Yuichiro, com o olhar fixo em Izrael.

"Se ainda assim quiser retornar, primeiro terá de cumprir o seu papel como deusa."

O papel da deusa seria as duas coisas que ele acabou de mencionar: "vitória" e "concepção". Era tão perturbador que Yuichiro sentiu náuseas. Então, murmurou como se estivesse rosnando enquanto engolia a saliva desagradável: "Eu não vou ser, né?"

"Urashima Tarô?"

"O que eu quis dizer é que, depois de décadas neste mundo, não haverá lugar para mim quando eu voltar ao meu mundo original." Considerando as circunstâncias em que ele saltou, provavelmente foi dado como desaparecido em ação no campo de batalha.

Izrael, por outro lado, acenou com o braço curto de um lado para o outro. "Acho que não", disse ele. "O eixo temporal deste mundo é diferente do seu. Dez anos neste mundo equivalem a apenas um ano no outro. Se quiser, posso criar uma nova *identidade* para você."

"Identidade?"

"No seu mundo, isso se chama *registro familiar*, certo?" Izrael inclinou o queixo para a direita. "Preparar um novo registro familiar é algo que entendo muito bem. Aliás, conheço muito bem."

"Você sabe muito sobre o meu mundo."

"Não. Mas, às vezes, Deus fala comigo."

Ao ouvir a palavra "Deus", Yuichiro franziu a testa. [Deusas, pérolas preciosas e Deus... Que tipo de crenças religiosas existem neste mundo?]

"Existe um Deus neste mundo?"

"É minha responsabilidade transmitir as palavras de Deus ao povo. Yuichiro também foi escolhida como uma Deusa por Deus."

Se existisse um Deus, Yuichiro o teria golpeado com toda a força, mas ele já estava cansado de amaldiçoar sua infeliz situação. Não lhe restava outra escolha senão fugir ou aceitar seu destino, pois não havia como reverter a situação. No momento, sua rota de fuga já estava bloqueada.

"Mesmo que eu agisse como a Deusa, como você desejava, não obteria nenhum mérito."

"Mérito?"

"Estou dizendo que é chato voltar para o seu mundo original e estar falido." Yuichiro puxou o colar do pescoço de Goat com a ponta dos dedos. "Uau", exclamou Goat, surpreso. O som de pedras se esfregando umas nas outras se sobrepôs ao ritmo de sua voz.

"Sou um mercenário. Se quiser que eu lute, terá que me pagar." Yuichiro acariciou as pedras na extremidade do colar com a ponta dos dedos, dizendo: "Isso deve bastar."

Izrael olhou para Yuichiro com espanto. "É mesmo? É só uma pedra."

"No meu mundo, isso vale dinheiro. Se eu vencer esta batalha, você pode me pagar com isso."

"Ah! Você está bancando a Deusa em troca de dinheiro?!" Noah exclamou, exasperado.

"É muito melhor do que uma criança correndo por aí dizendo que não quer ser rei", disse Yuichiro, indiferente, ao ver a fúria de Noah.

Noah cerrou os punhos em resposta às palavras frias de Yuichiro. "O que fazemos?" Yuichiro olhou para Noah, que estava prestes a chorar.

Temeraire assentiu levemente com a cabeça, e Goat pareceu estar se segurando para não rir, como de costume, provavelmente se esforçando para não rir da deusa ridícula. Izrael bufou e murmurou baixinho: "Você é tão incrível e descolada."

[Isso significa que ele concorda?]

Após algum tempo, Izrael aproximou-se sorrateiramente dos pés de Yuichiro e gentilmente o abraçou pelas panturrilhas. A pele de Yuichiro tremeu levemente, como se ele pressentisse um estranho destino que estava prestes a lhe sobrevir.

"Você é a melhor deusa de todas!"

Yuichiro riu involuntariamente ao ouvir a voz extasiada de Izrael. Além de um sorriso, ele não sabia o que mais dizer.

Anata No Miteiru Mukogawa – Capítulo 07

Capítulo 07

Fazia dez dias que eu não ia à Kanaria.

Como eu ia à lanchonete sem parar desde antes mesmo de notar o Kanto, com certeza era a primeira vez desde que virei cliente habitual.

Evitei o horário de pico e cheguei um pouco mais tarde.

Depois que passou para as mãos do Kanto, a loja não mudou a decoração. Parecia que ele ainda esperava que, um dia, o antigo dono voltasse.

Abri a porta, entrei e fui direto para o lugar onde sempre me sento quando estou sozinho.

O gerente me reconheceu na hora e disse:  
"Lá faz tempo que a gente não se vê."

"O trabalho está uma loucura. Um saco."

O Kanto não estava, mas mesmo assim inventei uma desculpa para não ter aparecido.

"Está tão ocupado assim?"

Uma voz grave veio de trás.

Me virei de susto. Eu nem tinha dado sinal, e hoje o Kanto estava ali parado.

"Com que cara de espanto é essa."

"Não é... é que o senhor sempre fica lá dentro e não sai, e agora está aqui fora."

"Eu saí porque vi você."

"Me viu?"

Impossível. Será que era verdade?

No olhar do Kanto eu estava refletido?

"Estava preocupado. Pensei se você não tinha ficado doente."

Fiquei feliz de verdade.

Não imaginei que o Kanto pensasse em mim.

Mesmo que fosse só por um segundo, mesmo que fosse só na posição de cliente, só de saber que ele pensou em mim sem ter o nome "Fukuhara" junto, eu já fiquei feliz.

"Está se alimentando direito? Você está com péssimo aspecto."

Tão feliz que as mãos chegaram a tremer.

"Estou comendo, sim. Só estou atolado de serviço, mas estou saudável. Ah, e já que vim até aqui hoje, me dá alguma coisa gostosa pra comer."

"Aqui, o cardápio."

Como o Kanto estava me atendendo, o gerente se afastou em silêncio.

Quando tive certeza de que só estávamos nós dois, abaixei a voz.

"Ei. Hoje à noite você está livre?"

O homem de poucas palavras não percebeu que era um convite.

"Como sempre."

"Mesmo tarde serve? Você consegue tirar um tempinho?"

"...Quer ir beber?"

Mesmo que eu dissesse que queria ir beber, ele não iria.

"Não. Não sei se você toparia ir até o meu apartamento. Tenho um DVD que quero ver, mas é um desperdício ver sozinho, então pensei em te chamar pra ver junto."

"É algum filme de terror?"

Ele riu, como quem está me provocando.

"Não. É o DVD do festival esportivo do terceiro ano do meu pupilo."

E foi aí que o rosto do Kanto endureceu.

Eu sabia que não conseguiria fazê-lo fazer aquela cara. Além disso, ele só é esperto quando o assunto é esse.

"Você vem ver comigo? Ou não quer ir no meu apartamento?"

Perguntei feito bobo.

Isso não ia ser motivo nenhum para ele não ir. Ele não liga pra mim.

"Não, se for na sua casa, tudo bem. Mas chegar muito tarde não é bom, certo?"

"Já é fim de semana. Se não der pra voltar, é só dormir lá. Eu ganho bem, meu apartamento é grande."

Vem.  
Vem.

Era o DVD que eu pedi de propósito por causa dele. Era a isca que eu preparei, mesquinha e cheia de ressentimento, porque sabia que só um convite meu não seria suficiente.

"...Tá. Hoje à noite então passa aqui pra me buscar no horário."

A resposta só podia ser uma, já que eu estava usando o Fukuhara, mas ainda assim soltei o ar aliviado.

"Fechou. Então vou pedir a tortilha de inhame e o frango ao shissô."

"E pra beber depois da refeição?"

"Já passou da hora do almoço, não?"

"Você é caso especial. Eu pago."

Eu sabia que "caso especial" era no sentido de cliente, mas ouvir aquilo da boca dele ainda me deixou contente.

"Então um café."

E ainda colocou a mão na minha cabeça com delicadeza. Desse jeito eu ia acabar criando esperança.

"É um chato, mas quando você não vem eu fico meio triste. Tem que aparecer pra eu ver seu rosto direito."

É cruel não saber de nada.

Ele foi embora com as costas retas, sem perceber que, por causa de uma frase tão simples, eu tive que morder o lábio pra não chorar.

Sem perceber que eu já não conseguia mais rir e dizer "O que você está falando, hein".

Sem perceber que ele me fez acreditar, nem que por um instante, que talvez eu tivesse mais chance do que pensava.

Ele nunca vai saber quanta coragem eu precisei juntar hoje só pra vir até aqui.

Pensei nisso e até deu um pouco de raiva, mas sabendo que ele está sofrendo por amor, não consigo odiá-lo.

Se eu estou sofrendo assim, com certeza o Kanto está sofrendo muito mais.

Pensar que ele está ferido me acalma um pouco. Essa é a prova de como eu sou ruim, e também a desculpa perfeita pra dizer que, por isso, meu amor nunca vai dar certo.

Quando fiquei sozinho, de vez em quando o gerente se aproximava e colocava um copo d'água na mesa.

"O Kanto está preocupado com você, viu."

Aqui também tinha alguém que não sabia do que eu sentia e me dizia coisas assim.

"Vocês dois são bem próximos, né."

Não me dá esperança.

"É que ele é cliente antigo. É tipo: finalmente esse cara apareceu no meu radar, sabe?"

Pra não criar expectativa demais, eu disse palavras que me colocavam no meu lugar e me machucavam.

"Aparecer no radar? É, ele tem isso mesmo. Não sei se digo que ele fala pouco demais ou que a visão dele é estreita demais."

"Ah, o gerente também acha?"

"Às vezes ele esquece de dizer algo porque acha que a outra pessoa já entendeu. Tirando isso, ele é muito competente em tudo."

"Ele é meio desligado, né."

"Pode ser. Ah, o que a gente conversou agora é segredo, tá?"

"Tá, tá."

Usei o Fukuhara como desculpa só pra vê-lo sozinho mais uma vez.

Mas dessa vez com certeza vai ser a última.

Se eu continuar usando o Fukuhara como isca, não vai dar em nada bom nem pro Kanto nem pro Fukuhara. Mas se eu perder essa isca, ele não vai querer me ver sozinho, então essa é a despedida.

Tudo bem.

Se eu vier até aqui ainda posso encontrá-lo, então posso ter tempo pra me valorizar.

Quem sabe, fazendo isso, um dia se abre outro caminho.

Mesmo que não seja amor, mesmo que seja esquecimento ou despedida. Acho que vou conseguir aceitar algo que não seja essa relação indefinida.

Por isso, só hoje à noite, deixa eu sonhar mais um pouco.

Sonhar que a pessoa de quem eu gosto vem brincar no meu apartamento.

Quando terminei o trabalho e estava saindo do escritório, o Fukada me chamou.

"O Fukuhara disse que está preocupado porque seu humor está instável?"

Que garoto esperto.

"Esse shiba é metido demais."

"Miyamoto."

"Eu sei com o que você está preocupado e vou pisar em cima dessa preocupação. A causa não é você nem o Fukuhara. E eu também sei que meu humor está instável."

"O motivo é..."

"Segredo. Agora eu estou na fase da puberdade."

"Miyamoto."

Eu sei.

Qualquer um desconfia quando um cara que sempre viveu fazendo o que quer, como se o mundo girasse em torno dele, começa a falar coisas sem sentido e a agir de forma esquisita.

"Está tudo bem. Eu também vou decidir por mim mesmo. Até você tomou suas decisões sozinho, não tomou?"

"Miyamoto, sobre isso..."

"O Fukuhara mora com a família, certo? No fim de semana chama o garoto pra ir no seu apartamento."

"Miyamoto!"

Hoje à noite, depois de passar um tempo agradável, eu vou recomeçar.

Conversar, rir um pouco, como amigos, conhecer mais um pouco do Kanto. Depois, por enquanto, vou reestabelecer essa situação e tentar me aproximar dele sem usar o Fukuhara como isca.

Agora eu ainda não tenho confiança pra lutar sozinho, mas sou eu. Se eu me esforçar, com certeza ainda consigo me dar bem com ele sem o Fukuhara.

Mesmo que seja só como amigos.

Pensando bem, se ele gostou do Fukuhara, significa que o Kanto pode gostar de homens, então minhas chances são de 1 a 2. Não, talvez uns 5%.

Vou pensar de forma otimista.

Ficar deprimido não combina comigo.

Se eu juntar todas as condições, com certeza vai ter uma resposta.

Eu gosto do Kanto. O Kanto gosta do Fukuhara, mas o Fukuhara já tem alguém. E o Kanto nem pensa em se declarar pro Fukuhara, então talvez ele desista mais fácil do que eu imagino.

Então dessa vez eu só preciso reconstruir minha relação com o Kanto.

Eu sou cliente antigo, então posso virar parceiro de bebida, e depois uma relação mais próxima.

"Cheguei pra te buscar."

De algum jeito levantei o ânimo e fui buscá-lo com o mesmo sorriso de sempre.

O Kanto estava de roupa comum. Para os meus olhos, que amam até o caminho de ida e volta, ele continuava tão elegante quanto antes.

"É longe?"

"Duas estações de trem. Perto o bastante pra não ser um problema ir trabalhar, e longe o bastante pra que, se me chamarem de noite, eu não consiga chegar na empresa na hora."

"Entendi."

"E você, Kanto?"

"Daqui deve dar uns 20 minutos de trem."

Não perguntei pra investigar. Era porque queria saber mais sobre ele.

"Mora sozinho? E sua família?"

"Sozinho. Não tenho família."

"Sua família mora longe?"

"...É."

"De onde você é?"

"Você tem irmãs, né? Só falta o pato."

"Falta o pato como?"

"É a feira."

"Que falta de educação. ...Bom, irmã eu tenho."

Eu estava nas nuvens.

Por estar andando ao lado dele.  
Por estar falando bobagem com ele.  
Por ele entrar no meu apartamento, que eu limpei com aspirador ontem.

Mas essa era só uma felicidade momentânea.

"É grande mesmo, né."

"Eu falei que ganho bem."

Dentro do apartamento, sentei ele no sofá e preparei o café na cafeteira pra servi-lo. Eu tinha me gabado de que ia fazer pra ele hoje.

No meio disso, coloquei num prato os sanduíches que comprei numa loja especializada que vende pra viagem, arrumei na mesa em forma de gota que eu tinha adorado quando comprei, e me sentei ao lado dele.

Entre mim e o Kanto, que já tinha tirado o casaco, havia uns 20 cm. Dava até pra sentir o calor do corpo do outro.

"Vamos comer enquanto assistimos."

Coloquei pra rodar o vídeo que consegui do Fukuhara pagando o preço da vergonha dos meus desenhos da época da escola.

Pelo jeito foi filmado pelos pais, porque no começo a imagem estava tremida e difícil de ver.

Mas parece que pegaram o jeito rápido, porque logo o Fukuhara mais novo que o de agora apareceu bem no centro da tela.

O perfil dele conversando com os amigos.

Parece que era gincana ou algo assim. Ele estava de gakuran comprido e com uma faixa na cabeça.

Era corrida.

O Fukuhara era bem rápido.

"Koji! Força!"

No meio do barulho dava pra ouvir a voz de uma mulher que devia ser a mãe do Fukuhara.

Parece que ouviu o chamado, porque o Fukuhara, sentado de joelhos no centro da tela, levantou o rosto, olhou para a câmera e acenou.

"Deve ser revezamento ou alguma coisa assim, né?"

Falei isso e virei o rosto pro lado. E foi aí que senti todas as esperanças que eu mesmo inventei desmoronarem.

Porque o Fukuhara já tem namorado, então talvez eu tenha uma chance?

Reconstruir a relação do zero, e um dia me aproximar dele?

Isso jamais vai acontecer.

A pessoa ao meu lado olhava fixamente para o Fukuhara na tela, inclinada pra frente, com os cotovelos na mesa e as mãos entrelaçadas cobrindo a boca.

O rosto dele só via ele.

Os olhos estavam cheios de um carinho que doía.

Tudo dizia que ele gostava do Fukuhara. Que ele amava o Fukuhara.

As palavras que eu disse antes não chegaram nem perto dos ouvidos dele.

No coração do Kanto só existe o Fukuhara.



A música animada do festival esportivo ecoava, os gritos da torcida eram ensurdecedores. Fukuhara se levantou e foi para o centro do estádio.

Como eu imaginei. Ele era o corredor do revezamento. E ainda por cima, o último.

Depois de um segundo mostrando alunos desconhecidos correndo sob aplausos estrondosos, a câmera voltou a focar apenas em Fukuhara, esperando a sua vez.

Por um instante, achei que aqueles eram os olhos de Kanto.

Mas eu não olhava para ele.

Mordendo o lábio para não chorar, eu mantinha os olhos grudados no perfil de Kanto.

Olha pra cá.  
Me deixa entrar no seu campo de visão.  
Só um pouquinho. Lembra que eu estou aqui.

Repetindo isso na cabeça, eu não desviava o olhar dele.

Mas até o fim daquele vídeo de família entediante, os olhos de Kanto não saíram da tela. O café que eu preparei já estava frio. O sanduíche que eu comprei, seco.

“…Quer que eu copie isso pra você?”

Só então ele virou o rosto na minha direção.

“Não, não precisa.”

Doeu.

“Você gosta muito do Fukuhara, né. Eu falei com você tantas vezes e você nem ligou.”

“É mesmo?”

Doeu demais.

“É.”

Meu peito doía.

“Eu pensei que alguém como eu jamais chamaria sua atenção.”

“Que absurdo. Você não é o tipo de pessoa que dá pra tirar os olhos.”

“Não precisa mentir. Se você gosta tanto dele, então é só se declarar.”

Aquela dor me transformou.

Transformou quem queria ser otimista, quem queria viver sendo fiel a si mesmo, em algo muito mais feio.

“Eu não vou fazer isso.”

“Por quê? Porque são dois homens?”

“…É.”

“E ser dois homens é errado? Existem tantas pessoas assim no mundo. Se você acha que todos eles são aberrações, isso é uma falta de respeito enorme.”

“…Não é isso que eu quis dizer.”

“Então o que é? Tenho um amigo que é gay e ele é um ótimo cara.”

Até o Fukuhara escolheu um homem. O Fukada.

Então por que você não diz que gosta? Por que não se declara e leva um fora logo? Não importa o quanto você goste dele, o Fukuhara já não pode mais ser seu. Você não percebe que esse sentimento não tem pra onde ir?

Igual ao meu.

“Miyamoto.”

“Eu também…”

Mas eu não consegui dizer.

Porque eu gostava dele. Porque eu sabia o quanto doía amar alguém e não ser correspondido. E eu não queria causar essa dor a ele.

“E se eu dissesse que sou igual a você? Você também ia me chamar de aberração?”

“Miyamoto?”

Se fosse isso, eu preferia me quebrar em pedaços.  
Se esse amor não desse certo, eu mesma encerraria.

Kanto não saberia que o Fukuhara já tinha alguém. Poderia continuar pensando nele à vontade.

“É. Eu também gosto de homens.”

Eu sorri.

“Eu sempre gostei só de homens.”

Com um rosto que não demonstrava sofrimento.

“E... agora eu gosto de você. Por isso eu te ajudei. Eu só queria ajudar alguém que está na mesma situação que eu. Mesmo que fosse um pouco.”

Kanto ficou completamente sem reação.

O que era de se esperar.

“Mas a partir de agora eu não vou mais te ajudar. Porque eu não aguento mais. Eu não vou te contar mais nada sobre o Fukuhara.”

Os olhos dele estavam em mim.
Só em mim.

Será que ele estava surpreso demais com a confissão e não conseguia pensar em mais nada? Será que, nesse momento, em vez do Fukuhara, eu era quem ocupava a cabeça dele?

“Se for brincadeira…”

“Quem faz uma brincadeira dessas? Eu tô falando sério. Ah, e eu sei que isso deve ser um incômodo pra você, então ignora. Só pensei que seria uma forma de retribuir tudo que você fez por mim.”

“O que você quer?”

“Dorme comigo. Só uma vez.”

O silêncio tomou conta do ambiente.

“Você gosta do Fukuhara, mas também tem desejo, não tem? Você mesmo disse que é selvagem. Então dorme comigo. Pode me usar como substituto do Fukuhara. Ou... é sua primeira vez com um homem?”

“E você... não é?”

“Eu? Eu sou diferente.”

Que patético.  
Superficial e patético.

Mentir de novo e de novo. Ficar encenando.

Mesmo assim, eu só queria tocá-lo na vida real. Nem que fosse só uma vez.

“Eu disse pra você dormir comigo porque eu gosto de você. E como é uma retribuição, não vai ter complicação depois. Não tem problema, certo? De qualquer forma você não pode ficar com o Fukuhara, então tanto faz com quem seja.”

“Não é a mesma coisa.”

As palavras dele doeram.

Mas eu não podia demonstrar que estava ferida.  
Porque se eu pesasse demais, ele ia fugir.

“Você é tão sério.”

Estendi a mão trêmula e toquei Kanto, ali do meu lado.

Como um homem seduz outro homem? Pena que eu não perguntei pro Fukada brincando. Com certeza era pra tocar ali, né?

“Só essa noite. Tenha pena de mim.”

As pernas dele eram musculosas e firmes, mesmo por cima da roupa.

“Você é diferente dele.”

“E daí? Eu sei disso. Só de ver você mais cedo eu já entendi o tipo de amor que você sente pelo Fukuhara.”

Eu nem chegava aos pés dele.

“Você percebeu…?”

“Claro. Não sou burra a esse ponto. Por isso que eu falei. Se não fosse isso, eu teria ficado quieta.”

“…É.”

Kanto baixou os olhos por um segundo.

Se não desse, era só me empurrar e ir embora.

Se fosse isso, eu choraria sem nem pensar.

Levar um fora. Chegar num ponto sem volta. Eu ia desabar e chorar. E então decidiria encerrar tudo.

Mas se ele aceitasse, nem que fosse por empatia, ou por pena, eu queria que ele me tocasse ao menos uma vez.

“Eu gosto de você. De um jeito completamente diferente do que eu gosto dele.”

“Que bom.”

E era verdade. Mesmo que fosse em segundo ou terceiro lugar, ouvir um “eu gosto de você” nessa situação me deixou genuinamente feliz.

“Sério?”

“Mesmo sabendo que é desse jeito?”

Mesmo sendo um amor que vem depois do outro. Quem não ficaria feliz ao ouvir isso da pessoa que ama?

“É verdade.”

A mão grande dele segurou a minha, que estava pousada na coxa dele.

O gesto inesperado me fez pular.

“Se você realmente gosta de mim, então eu vou corresponder a esse sentimento.”

Ele puxou meu braço com força e eu caí nos braços dele.

“A.”

Um homem que, no fundo, era gentil e bondoso.
Sério, de cara fechada, bruto, mas incapaz de pisar nos sentimentos dos outros.

Só por isso, eu já estava feliz.

Ele me abraçou. Me beijou. E isso me deixou tão feliz que quase chorei.

Eu sempre achei que Kanto não tinha intenção nenhuma de assumir o Kanaria.
Aquele bar foi criado pelo tio Baba, o antigo dono, e tinha coisas que não combinavam com o Kanto.

Mas a razão dele ter comprado provavelmente foi porque soube que o dono estava doente e precisava de dinheiro. E pensou que, se deixasse nas mãos de outra pessoa, o bar não continuaria igual.

Por isso, depois que comprou, ele não mudou nada. Por causa do tio Baba.

Eu me convenci de que um homem assim, mesmo sem amor, ainda poderia fazer sexo com alguém só por bondade. Ou então porque era tão experiente que se dizia “selvagem”.

Não podia me enganar.
Não podia esquecer o perfil de Kanto grudado naquela DVD.

Mesmo dizendo que gostava de mim, ele nunca me olhou daquele jeito.

Então aquela noite não seria entre dois amantes.

Depois de me abraçar com força e me beijar com intensidade no sofá, ele perguntou onde ficava o quarto e foi pra lá como se fosse uma obrigação.

Ele não disse nada. Sem sussurros. Sem justificativas. Só tirou a roupa e me empurrou na cama.

Ele ia acender a luz, mas eu segurei sua mão e neguei com a cabeça.

Não era porque eu tinha vergonha do meu corpo nu.  
Era porque eu podia me magoar e chorar. E eu não queria que ele visse minhas lágrimas.

A camisa foi erguida e dedos longos deslizaram por dentro.

Dedos que eu me perguntava se seriam quentes ou frios. Eram quentes.

“A...”

Os dedos tocaram meu peito.

Mesmo me dizendo pra agir como experiente, meu corpo, que já tinha estado com outros, mas nunca tinha sido tocado de volta, não aguentou.

“Ei, é sua primeira vez com um homem?”

Se eu ficasse em silêncio ia ficar pesado, então tentei bancar a experiente.

“Eu não tenho lubrificante nem camisinha. Tudo bem?”

Naquele momento parecia exatamente com o que eu tinha imaginado.

A porta para a sala, iluminada, parecia um mundo diferente.
E a sombra dele banhada por aquela luz.

“Vai doer, mas eu aguento. Só posso gritar. Eu não estou acostumada com dor.”

Meu peito vibrou ao pensar que ele estava na minha cama.

“Fica quieta.”

Só que ele não foi gentil.
Não, as palavras não foram gentis, mas as mãos sim.

Ele me tocava com cuidado, como se estivesse abraçando o Fukuhara.

Então mesmo sem curvas as pessoas ligam para o peito.  
Então mesmo sendo homem, mexer nos mamilos dá prazer.

Ele só me beijou uma única vez, no sofá. Depois não me beijou mais.

Em vez disso, os lábios dele percorreram minha barriga.

“Umm...”

A mão desceu e foi para o botão da calça.

Como eu não esperava que chegasse a isso, eu estava de calça skinny. Ela apertava tanto que já estava doendo de tão dura.

Então, quando ele me liberou por cima, a sensação mudou.

De uma dureza crescente, passou a reagir por conta própria.

“A...”

Quando a mão de Kanto tocou ali por cima da cueca, eu gemi.

“É mesmo... homem gosta quando tocam ali...”

“Fica quieta.”

Ele não queria ouvir minha voz?

Eu mesma apaguei a luz, mas por causa disso começou a me rondar a dúvida: será que a pessoa que ele estava abraçando não era eu?

E quando o prazer viesse e ele não conseguisse mais se controlar, talvez isso aparecesse no rosto dele.

Então era melhor mesmo não acender a luz.

“Difícil de tirar.”

Ele murmurou tentando tirar minha parte de baixo.
A calça skinny ficou presa na coxa.

“Eu tiro.”

Com medo de ele desistir por causa disso, eu tirei a calça às pressas. A cueca eu não tive coragem.

A mão dele voltou a tocar minhas pernas nuas.
Onde quer que tocasse, meu corpo inteiro sentia.

Eu achava que não era tão sensível assim.

“Umm...”

Kanto não tirou a roupa.
Continuou com a camisa quase preta e a calça cinza larga. Não tirou nada. Só me tocava.

“A... não...”

Aquilo parecia dizer que ele não queria. E doeu no meu peito.

“Kanto...”

Eu não sou mulher. Talvez eu devesse tirar a roupa dele, pensei, e levei a mão à camisa dele. Ele segurou.

“Não precisa.”

Ah. Doeu de novo no peito.

Ei, você vai fazer amor comigo, né?
Não vai ser só me dar prazer e acabou, né?

Eu queria perguntar, mas a voz não saiu.

“Kanto...”

Ele finalmente se deitou sobre mim, com um peso na medida certa.

A barra da camisa, que tinha voltado ao lugar, ele ergueu de novo com a boca.

Aquela cena por si só já dava um prazer como se estivesse me tocando.

Ele soltou a barra com a boca e foi direto para o meu peito, sugando o mamilo.

“A...”

Quente e úmido brincando com o bico do seio.

Ao mesmo tempo, a cueca foi puxada pra baixo e eu, sem querer, encolhi os joelhos.

Não pode.
Se eu fizer isso ele vai achar que estou recusando.

Pra não parecer que é minha primeira vez, eu preciso recebê-lo com mais experiência.

Mas a mão dele segurou meu membro e começou a se mover devagar, então meus joelhos, que iam se esticar, pararam no meio do caminho.

“A... a... a...”

Um arrepio subiu pela minha espinha.
A pele arrepiou do pescoço até a cabeça.

“Não...”

Meu corpo se contraía sozinho, sem parar.

“Umm...”

Kanto, tira a roupa também.
Deixa eu ver sua pele.
Vem pro mesmo lugar que eu.

Mesmo que seja mentira, deixa eu imaginar que estamos nos abraçando.

Se continuar assim, só vou pensar que estou sendo usada.

Estendi a mão pra ele de novo.
Dessa vez consegui alcançar o braço dele sem ser impedida.

O braço que eu achava magro era na verdade muito forte. Só agora percebi que a razão dele parecer ter braços que minha mão não alcança era porque ele era alto.

Mas não queria soltar o braço que custei a alcançar, então segurei o ombro dele.
Mesmo sem força, só isso já me acalmou um pouco.

“…Já vai.”

Ele murmurou baixo.

O que? Antes que eu pudesse perguntar, a mão que segurava meu membro acelerou.

“A!”

Fui engolida por uma onda que nenhum homem consegue resistir.

“Não...”

Mas espera, o Kanto nem tirou a camisa ainda.

“Não... para...”

Ele queria que só eu gozasse?
Ele não ia fazer amor comigo?

“Kanto!”

Não seja mecânico assim.
Olha pra mim.
Me possui.
Recebe meu sentimento.

Eu não vou pedir nada em troca. Eu sei que essa é a última vez.

“A... não!”

Mas a mão dele não parou.
Não fez nada do que eu pedi.
Só me levou ao limite, me forçou, me fez gozar sozinha, e acabou.

Enquanto o prazer tomava meu corpo inteiro, meu coração estava congelado.

Não era isso.
Não era isso que eu queria.
Não podia terminar assim.

Mas Kanto se afastou de mim, saiu do quarto, voltou do banheiro com uma toalha e cobriu a parte de baixo do meu corpo. Depois não se aproximou mais.

“...Eu vou embora. Descansa um pouco.”

“Ir embora... agora?”

Nesse estado?

“É. Eu não consigo ir além disso.”

Por quê?
Porque eu não sou o Fukuhara?

“É... tá.”

Se essa era a resposta, então tudo bem.
Se mesmo deitado em cima de mim ele não sentiu desejo, eu não podia pedir mais nada.

“Miyamoto.”

“O que?”

“...Copia aquele DVD pra mim. Se for você, eu posso pedir isso, né.”

Um homem cruel.

Me faz gozar e em troca me pede um favor? Eu disse que não ia mais fazer nada por ele.

“Tá. Na próxima eu levo no bar.”

Mas eu não consegui recusar.

Por mais que doesse, por mais que fosse triste, eu não consegui dizer não ao primeiro “pedido” que ele me fez.

Por mais patética que eu fosse...

Ai Shika Iranee yo Vol.01 - Capítulo 03

Capítulo 03

"Sinto muito por mantê-lo aqui até tão tarde." O professor da turma de Sawa, Suzushima, fez um gesto para ele se sentar. Eles estavam no escritório.

"Tudo bem. Eu só ia matar o tempo antes do meu curso preparatório começar."

"O quê? Você está fazendo curso preparatório? Mas suas notas são tão boas!"

"Não tenho certeza se as faculdades vão me aceitar se eu estudar só o que eles nos dão na escola." Sawa deu de ombros à pergunta de Suzushima. Ele se perguntou por que o professor estava demonstrando interesse tão tarde.

A escola de Sawa era uma das escolas particulares de maior prestígio na província, uma instituição combinada de ensino fundamental II e ensino médio só para meninos. Todo ano ela aprovava vários alunos na Universidade de Tóquio, a melhor universidade do país, e por isso a escola era nacionalmente famosa. Mas a abordagem da escola era relaxada, então sua atmosfera era completamente diferente das escolas de alta pressão, as chamadas escolas "elevador" que levavam direto para as melhores universidades.

Isso também podia ser devido ao fato de a escola ser um pouco afastada da cidade: eram duas horas de trem até Tóquio. Era um lugar tranquilo, com a natureza cobrindo o bairro onde a escola foi construída, tornando possível apreciar as riquezas de cada estação do ano.

O pai dele trabalhava na prefeitura, e a mãe dele dedicava todo o seu tempo ao trabalho dela e à liga de mulheres local.

O irmão de Sawa era três anos mais velho que ele. Depois de se formar no ensino médio, ele passou um ano estudando para entrar em uma faculdade em Kansai. Ele disse que pretendia seguir os passos do pai como funcionário público. Sawa estava pensando em seguir o mesmo caminho que o irmão.

"Sobre o que o senhor queria falar comigo, professor Suzushima?" Sawa trouxe a conversa de volta ao assunto.

"Um aluno transferido vai entrar na nossa turma na semana que vem. Existem algumas circunstâncias especiais envolvidas."

Sawa suspirou sem pensar. Devia haver circunstâncias realmente incríveis para o garoto estar mudando de escola tão perto das provas da faculdade. "Que tipo de circunstâncias?"

"Você sabe o que é a Aliança Koryu?" Suzushima perguntou em voz baixa.

"Você quer dizer aquela grande gangue—" Sawa começou a responder, e então engoliu em seco. Ele olhou, incrédulo, mas Suzushima apenas o observou sem dizer uma palavra. "Não me importo com o tipo de problema que eles vão causar. Por que estamos deixando um aluno problemático entrar na nossa escola em primeiro lugar?"

Eles estavam, de certa forma, na escola de "elevador" mais prestigiada da província.

"Tenho certeza de que há uma série de questões de bastidores contribuindo para a situação. Não sei os detalhes, mas há rumores de que o chefão da Aliança Koryu e o presidente do conselho da escola...

...têm algum tipo de relacionamento. Então o filho do chefão está vindo para cá. E eu quero que você o ajude até que ele se estabeleça aqui."

"Mas por quê?"

"Porque você é o representante de turma. Isso não é motivo suficiente?" As palavras de Suzushima não davam margem para discussão.

"Mas eu não sei lidar com o filho de uma família de gangster."

"Sério? Eu achei que você tinha amigos desse tipo."

"O quê?"

"Sabe, todo mundo comenta como você andava com aqueles garotos de gangue de moto na escola."

Sawa encontrou o olhar perspicaz de Suzushima. Ele descobriu imediatamente de quem o professor estava falando. "Eles eram amigos meus do ensino fundamental. Não é nem perto da mesma coisa. Esses caras fazem parte da yakuza."

Era verdade que alguns dos amigos de Sawa tinham entrado para gangues de moto, mas apenas porque eles simplesmente amavam andar de moto. Claro, eles gostavam de arrumar briga. E Sawa sabia que eles tinham se metido em alguns pequenos problemas com a polícia. Ele não aprovava isso, mas quando eles estavam com Sawa, não passavam de garotos com quem ele tinha brincado no ensino fundamental.

"De qualquer forma, eu espero que você seja amigável e não o julgue. Você é um cara legal que diz o que precisa ser dito."

"Como o senhor pode simplesmente me ordenar"

"Eu entendo o quanto isso parece tirânico. Posso pelo menos lhe garantir que ele não é o tipo de cara que sai perdendo a cabeça"



"Para nada. De qualquer forma, independente das circunstâncias de adulto ou não, ele passou no exame de admissão."

"Senhor Suzushima!"

"Estou confiando isso a você. Você é um garoto confiável."

As palavras de Suzushima pesaram no coração de Sawa.

"Tem alguém aqui para vê-lo, Senhor Suzushima," alguém disse da entrada do escritório.

"Isso significa que ele está aqui. Vamos discutir o resto depois."

"Mas eu não posso forçá-lo"

"Ah, desculpe, esqueci a coisa mais importante."
Suzushima se levantou de um salto e, ao voltar, pegou um pedaço de papel e rabiscou algo nele.
"O nome do garoto é Uzuki Kobayakawa. Obrigado de novo," disse Suzushima enquanto se apressava para sair do escritório.

Um homem vestindo um terno azul-marinho estava parado na frente da porta aberta. Ele tinha aparência de intelectual, com o cabelo em uma risca lateral desalinhada e usando óculos, mas havia algo nele que não lembrava nada Suzushima.

Sawa só o viu de relance, de longe, então não podia ter certeza, mas percebeu a tensão no ambiente ao redor do homem.

"Você tem sido de grande ajuda," ele ouviu fracamente alguém dizer em uma voz monótona e sem vida. A porta se fechou e Sawa, deixado sozinho no escritório, olhou para baixo, para o bilhete.
"Uzuki Kobayakawa."
O aluno transferido com mau timing e circunstâncias especiais que ia dar tanto trabalho. Sawa repetiu aquilo várias vezes.

"O que isso quer dizer, eu ser 'confiável'?" Sawa murmurou enquanto voltava para a sala de aula para pegar sua mochila. Ele tinha gostado de ajudar no passado, mas nessa época do ano, com os exames se aproximando, Sawa queria evitar se envolver em coisas que tomavam muito tempo. Mas isso não significava que ele podia recusar o pedido de Suzushima na hora que ele fez.

Tudo o que ele podia fazer era rezar para que esse novo aluno não desse problema.

"Ele nem ouviu o que eu disse."
Sawa olhou para o relógio. Ele sentiu que já tinha ficado no escritório por um bom tempo, mas só tinham se passado cerca de trinta minutos.

"Provavelmente não sobrou mais ninguém aqui tão tarde."
"Como vou matar o tempo antes do cursinho?" Sawa se perguntou. Ele abriu a porta da sala de aula e então congelou.

Ele achou que não teria ninguém lá. Mas havia um garoto sentado em uma carteira perto da janela. Ele estava em silhueta contra a luz do sol poente. Então as narinas de Sawa captaram o cheiro de tabaco. As aulas já tinham acabado, então não tinha como dizer se um professor poderia passar por ali. E de qualquer forma, era uma loucura fumar em uma sala de aula.

"Se alguém te pegar fumando aqui, eles vão fazer mais do que te expulsar," Sawa disse automaticamente, fechando a porta atrás dele.



"Quem é você?", respondeu uma voz de barítono.

"Não foi isso que você aprendeu? Ser educado antes de pedir o nome de alguém para o seu?" Sawa retrucou. Ele colocou as mãos na cintura e deu um passo lento para frente. Conforme o ângulo da luz do sol mudou, ele conseguiu ver direito o garoto sentado na mesa.

Suas pernas longas estavam esticadas sobre a mesa, e ele estava usando jeans, não uniforme. Nas mãos ele segurava um cigarro e um livro de capa de papel. Sawa reconheceu a capa e percebeu que era o livro que ele tinha deixado na mesa.

Era O Estrangeiro, de Camus. Quando estava saindo de casa, ele o tinha colocado na bolsa para dar a um amigo na escola. Ele tinha comprado na escola média, mas não importava quantas vezes Sawa lesse, ele não conseguia entender por que era tão bom.

"Meu nome é Sawa e eu sou o representante da turma."
"E já que estamos no assunto, esse é o meu livro."

"Desculpa. Ele estava só jogado aqui, então peguei para passar o tempo."

O garoto tirou o cigarro da boca e pediu desculpas de forma mais fácil do que Sawa esperava. Ele balançou as pernas para baixo da mesa e se levantou.

Mesmo de longe, Sawa podia dizer que ele era alto. As pernas dele eram longas: quase na proporção de um modelo. Enquanto o garoto caminhava devagar em direção a Sawa, Sawa prendeu a respiração pela boa aparência dele.

O perfil do rosto fino dele mostrava um nariz perfeitamente reto. Abaixo das sobrancelhas bem desenhadas, os olhos puxados cortavam de forma afiada, com uma luz intensa. Aqueles olhos agora estavam voltados para Sawa, que estava diante deles.

Ele não reconheceu esse homem notavelmente bonito com o rosto perfeito e angular.

"Aqui," ele disse de forma rude, estendendo o livro.
"Você gosta de ler?"
"Não," o garoto respondeu sem hesitar. "Eu estava lendo só por causa do sol."
"Claro," Sawa disse de forma um tanto sarcástica, arqueando a sobrancelha por um momento. Ele esticou a mão para pegar o livro de volta.

Em _O Estrangeiro_, o personagem principal matou alguém e disse que o fez "por causa do sol". Sawa não tinha dúvida de que foi por isso que ele respondeu daquele jeito.
Sawa ficou impressionado com a resposta dele. "E aposto que você vai dizer que está fumando aqui por causa do sol também, né?"

"Não mesmo." O homem mudou de posição e ficou obscurecido pela luz do sol novamente. "Eu fumo porque eu quero."
Ele ofereceu o cigarro, segurando entre os dedos para Sawa. Pressionado, Sawa pegou o cigarro entre os lábios e a fumaça distinta do tabaco subiu pelas suas narinas e pulmões.

Sawa começou a tossir, e o homem pegou o cigarro de volta, dando uma tragada como se fosse a segunda natureza dele. "Você nunca fumou antes?"
"Claro que não."
Sawa estreitou os olhos para ele, com os olhos lacrimejando, mas o homem apenas riu. Ele deu um tapa no ombro de Sawa e passou por ele.

Aquele cheiro era claramente diferente do cheiro dos colegas dele. Era o cheiro de um homem.
"Então é você, Uzuki."
Eles ouviram uma voz monótona no corredor e a respiração de Sawa travou. Pareceu a voz que ele tinha ouvido no escritório.
"É, já estou indo."

Pela forma fácil como o homem respondeu, Sawa começou a ligar os pontos.
"Até já."
O homem acenou de forma desleixada enquanto ia para o corredor. Sawa correu atrás dele por impulso. "Espera!"

Sawa alcançou o homem, mas também o homem do terno que ele tinha visto com Suzushima no escritório. Tinha certeza. Agora havia algo imponente nele. Estava mais evidente de perto, talvez por causa da largura dos ombros no terno de duas peças. E tinha, como antes, algo nele que era diferente das outras pessoas.

"Esse deve ser ele: o aluno transferido sobre quem Suzushima me contou. Só precisava ouvir ele falar para confirmar."
"Então você só exige o nome das pessoas e se recusa a dar o seu?"

O homem se apoiou de lado, com uma mão no bolso, e olhou para Sawa com um olhar forte. Sawa ficou em silêncio diante do poder penetrante daqueles olhos.
"E quem é você?"

O homem de terno empurrou a ponte dos óculos e deu um passo à frente, mas o outro homem o bloqueou com a mão. "Cala a boca."
"Mas, Uzuki—"
"Deixa pra lá!"

Um arrepio subiu pela espinha de Sawa com a dignidade poderosa na voz dele enquanto repreendia o homem que parecia até mais velho que ele. Sem pensar, até Sawa ficou um pouco mais ereto. O homem de terno não disse mais nada e, sem mudar a expressão, reconheceu a situação sem palavras e deu um passo para trás.
"Você é bem bonitinho, para um garoto," o homem sussurrou, olhando para o rosto de Sawa com total seriedade.
"O-quê?"
"Uzuki." O coração de Sawa disparou enquanto o homem dizia o nome. "Uzuki Kobayakawa. Vou me transferir para esta escola na semana que vem. Você vai ser meu representante."

O homem não deu atenção ao espanto de Sawa e apenas deu um leve sorriso antes de virar as costas.



Na segunda-feira seguinte, havia uma estranha agitação no ar quando Sawa chegou na sala de aula um pouco atrasado.
"Você está atrasado, Sawa."
"Dormi demais."

Por algum motivo ele teve dificuldade para dormir na noite anterior. Ele tinha começado a ler um livro e acabou terminando. Claro, naquela hora já estava começando a clarear lá fora, e a luz do sol entrando pela fresta da cortina o deixou meio tonto.



Kobayakawa sentado na carteira de Soichi Takaoka, que tinha acabado de falar com ele, sentado naquele lugar. Ele era um figurão; tinha jogado com o time de rugby até o começo da primavera.

"Eu ouvi que vamos ganhar um garoto novo hoje. De Tóquio."

Sawa olhou. "Eu sei."

Ele não tinha conseguido esquecer aquilo desde que Suzushima tinha falado com ele. Mesmo estando sobrecarregado estudando para as provas e fazendo o trabalho da escola, ele não conseguia tirar o rosto de Kobayakawa da cabeça.

Especialmente aqueles olhos dele, que tinham tanto poder de penetrar a alma das pessoas. Aquilo não era algo fácil de esquecer. Sawa nunca tinha conhecido alguém com olhos como aqueles antes.

"Lembra como o Suzushima queria me ver depois da aula da última semana? Ele me contou sobre isso."
"Então você sabe sobre ele?"
"Sabe o quê?"
"Aparentemente ele é o herdeiro de uma família yakuza!"

Sawa franziu a testa. Ele não tinha contado isso para ninguém, e aparentemente a notícia se espalhou rápido.
"Você sabe se é verdade que o motivo dele ter saído da escola anterior foi porque ele espancou um cara até quase matar?"

As palavras dele mandaram um arrepio pela espinha de Sawa.
"Alguém estava aqui antes do garoto novo chegar e deu uma olhada nele. Ele disse que ele era muito bonito. Aposto que as garotas estavam se jogando em cima dele."

Takaoka estava se abandonando à curiosidade. Aquilo provavelmente explicava toda a agitação na sala.

"Eu não podia ser só um cara comum se ele estava mudando de escola numa época como essa."
"O que você quer dizer com 'você sabia'?" Por algum motivo, Sawa sentiu uma raiva subindo no estômago.
"Eu só imaginei que os garotos de Tóquio seriam diferentes dos caras como a gente..."
"Você não pode simplesmente decidir o que é verdade e o que não é quando você não sabe nada sobre a pessoa." Ele bateu as mãos na mesa e se levantou de um salto. O barulho da sala sumiu num instante com a voz ameaçadora de Sawa. "Isso vale para o resto de vocês também! Vocês nem sequer conheceram o garoto. Não façam julgamentos sobre pessoas quando tudo o que vocês têm é um monte de especulações e rumores. Essa é uma ordem! Ficou claro?"

"O que está acontecendo com você, Sawa?" Takaoka sussurrou para Sawa enquanto ele se sentava na cadeira. Ele ainda estava nervoso. Antes que ele pudesse responder, a porta da frente da sala deslizou para abrir.

"Está todo mundo tão quieto hoje." Suzushima entrou na sala com um olhar desconfiado no rosto, vestido com um blazer cinza. Um suspiro percorreu a sala, como se eles estivessem gritando as palavras de Sawa. "Eu normalmente nem consigo me ouvir gritando aqui, vocês estão tão altos. Vocês não devem estar se sentindo bem se estão tão quietos."

Suzushima parou na mesa dele na frente da sala e fez a chamada como de costume.
"E o Yasuda está ausente. Isso completa a chamada. Bem, tenho certeza de que todos vocês já sabem disso, mas temos um aluno novo. Pode entrar, Kobayakawa."

De ombros erguidos, os olhos de Kobayakawa percorreram

a sala, e a classe ficou inquieta.

"Este é nosso aluno novo, Uzuki Kobayakawa. Kobayakawa, vou deixar nosso representante de turma cuidar do resto. Sawa, levanta a mão."

Uma tensão percorreu o corpo de Sawa quando Suzushima o chamou. "Aqui, senhor."
"Sua carteira é ao lado da dele. Se tiver dúvidas sobre as matérias optativas ou qualquer outra coisa, ele vai te ajudar."
"Tá," Kobayakawa respondeu de forma desleixada e foi direto até Sawa. Ele não deu atenção aos olhares dos alunos dos dois lados. Ele chegou na carteira que tinha sido preparada para ele.
"Oi, eu sou Junya Sawa."

Sawa estendeu a mão para Kobayakawa, sem ousar mencionar a última vez que eles tinham se visto. Mas Kobayakawa não reagiu além de lançar um olhar para Sawa. Ele se jogou na carteira e virou para longe dele.

"Sawa, você..." Takaoka começou a se virar, mas Sawa chutou o fundo da carteira dele.
"Você ainda não tem seus livros, né? Você pode compartilhar os meus por enquanto." Sawa moveu a carteira dele para o lado da de Kobayakawa e colocou o livro dele entre eles. Mas Kobayakawa apoiou o cotovelo na mesa e se recusou a olhar para ele.



Sawa mal conseguia ver o perfil dele, mas estava totalmente sem expressão. Sawa franziu as sobrancelhas e apertou os lábios. Ele sentiu o cotovelo de Kobayakawa na mesa, então desistiu de olhar para ele por pura teimosia, e isso o irritou.

"Vamos começar. Abram os livros na página 63 e" Da mesa dele na frente da sala, Suzushima estava começando a aula. Ele ficou na frente do quadro e escreveu números com o giz.

Kobayakawa virou o rosto para frente, mas não estava olhando para o quadro nem para o professor.

Sawa encarou o lado do rosto dele, então de repente empurrou o cotovelo de Kobayakawa debaixo do dele. O queixo de Kobayakawa bateu na carteira com a pancada inesperada.

"Ai!"

Um barulho surpreendentemente alto ecoou pela sala.

"O que você está fazendo, Sawa?" Takaoka murmurou como aviso. Ele e o aluno ao lado de Kobayakawa se viraram para olhar para eles ao mesmo tempo. Eles ficaram estupefatos com a visão lamentável da cabeça de Kobayakawa caída sobre a mesa.

"D-desculpa."
Sawa só tinha cutucado o cotovelo de Kobayakawa para chamar a atenção dele. No máximo, ele achou que ele ia afastar a mão dele da cabeça. Ele nunca imaginou que o queixo de Kobayakawa fosse bater tão forte na mesa.

Aflito sobre o que deveria fazer, Sawa decidiu pedir desculpas.

"O que você quer dizer com 'desculpa'?" Kobayakawa levantou o rosto, com a mão pressionada contra os lábios. "Não seja idiota de fazer algo estúpido em primeiro lugar se você vai só pedir desculpas depois."

A voz irritada de Kobayakawa ressoou pela sala. Os alunos tinham estado olhando para o quadro até então, mas agora todos se viraram para olhar para Kobayakawa e para Sawa para ver o que estava acontecendo. E Suzushima também.
"O que está acontecendo aí atrás?"

"Ele está sangrando!" Sawa interrompeu Suzushima, que estava começando a ir investigar.

"Sangrando?"

"Sim, o Kobayakawa está sangrando."
Sawa levantou imediatamente e agarrou o queixo de Kobayakawa.

O som da cadeira dele batendo no chão fez um barulho estranho. Ainda sem entender a situação, Kobayakawa encarou os olhos de Sawa, com o queixo firme na mão de Sawa.

"Ai meu deus, você está certo! É um banho de sangue!"

Takaoka também estava se debruçando para ver o que tinha acontecido e ficou enjoado. 

"Parece feio, Kobayakawa. Você mordeu a língua ou algo assim?"

"Desculpa. Eu bati no queixo dele."

Sawa tirou apressado um lenço do bolso e pressionou com força contra a boca de Kobayakawa.

"O que você está fazendo?" Kobayakawa arrancou o lenço. Ele jogou de volta em Sawa, mas franziu a testa quando viu como estava vermelho.

"Pronto, agora o que a gente faz? Senhor Suzushima, eu levo o Kobayakawa para a enfermaria."

"Boa ideia."

"Me dá um tempo. Isso não é nada! Eu..."
O gosto de sangue deve ter se espalhado pela boca dele enquanto ele falava. Kobayakawa ficou quieto, com um olhar inquieto no rosto.
"Você quer que eu vá também, Sawa?" Takaoka perguntou, preocupado.

"Não, tá tudo bem. Vamos, Kobayakawa."
Kobayakawa assentiu a contragosto.

Kobayakawa não disse uma palavra até chegarem à enfermaria.

"O senhor está aí? É o Sawa, do terceiro ano."
Sawa bateu na porta, mas não teve resposta.

"O que foi?" A voz de Kobayakawa saiu abafada com o lenço pressionado contra a boca.

Sawa procurou na enfermaria e encontrou um bilhete na mesa da enfermeira. "Diz aqui 'volta em trinta minutos'."

"Então vamos voltar pra sala."

"A gente não pode ir assim. Aqui, bochecha e cospe todo o sangue que está na sua boca."

Kobayakawa obedeceu às instruções de Sawa por enquanto, fazendo gargarejo com a água disponível na enfermaria. A primeira vez que ele cuspiu, a água estava vermelha viva.

"Nossa." Sawa se afastou rápido ao ver aquilo e Kobayakawa levantou as sobrancelhas.

"Não aja tão impressionado por tão pouco." Kobayakawa olhou para Sawa apontando para o canto da boca.

"É, bem, você ficou bem pálido também quando viu o sangue no lenço." Sawa retrucou.

"Mas eu não lido bem com sangue..."

Os olhos de Kobayakawa se arregalaram por um instante, depois ele pareceu que ia explodir de rir, mesmo ainda tendo água na boca.

"Como eu pude? Você estava gritando. Aposto que ouviram você nas salas do lado também."

"Ah, droga. Isso dói."
Sawa suspirou. Ele colocou todos os materiais que tinha juntado numa bandeja e sentou no chão na frente de Kobayakawa.

"O que foi, chateado por ter que cuidar do garoto novo?"

"Não é isso."

Sawa olhou para as prateleiras, pensando se devia passar água oxigenada no interior da boca de Kobayakawa. Depois de procurar com cuidado, ele finalmente achou um remédio para afta.

"O que você quis dizer com isso?"

"Você podia abrir a boca pra mim?"

"Abre a boca."

"Deixa eu ver o corte. Você ainda sente gosto de sangue?"

"Eu te falei que tô bem. O que tem de tão ruim um pouco de sangue?"

"Não é bom pra você. Agora deixa eu ver isso."
Sawa esticou a mão teimosamente para o queixo de Kobayakawa, mas Kobayakawa afastou ele. Sawa tentou de novo e foi empurrado de novo. Essa vai-e-volta continuou por vários segundos, mas o temperamento de Kobayakawa era mais curto que o de Sawa.

"Eu disse que tô bem!" Kobayakawa agarrou o pulso de Sawa e puxou com força para ele.

"Ei!" Sawa perdeu o equilíbrio com esse desenvolvimento inesperado. O corpo dele seguiu a mão dele, e ele caiu pra frente, colidindo com o peito de Kobayakawa.

"Q-que diabos?"

Aparentemente Kobayakawa não esperava que isso acontecesse também. Ele perdeu o equilíbrio e caiu de costas no chão, com Sawa caindo em seus braços.

"Aih!"

Houve um baque surdo, e Sawa sentiu uma dor intensa na testa. Ele pressionou as mãos contra ela.

"Você tá bem?"

"Bati a cabeça."

Sawa rolou de costas para avaliar a situação.

"Por que você fez isso?"

"Você não precisava cair em cima de mim também, sabe." Kobayakawa fez cara feia e se apoiou nos braços para se levantar do chão. Ele também tirou o braço que estava apoiando a cabeça de Sawa. Ao vê-lo remover o braço casualmente, Sawa percebeu de repente que Kobayakawa o tinha protegido.

Um cheiro de tabaco chegou ao nariz dele.

"Seu braço está bem?"

"É, tá de boa. Eu mal bati."

Ele rodeou a cabeça dele casualmente e fez cara feia só por um instante. Sawa tremeu de medo, mas assim que Kobayakawa percebeu, ele rapidamente espantou os medos dele.

"Acho que minha boca começou a sangrar de novo. É isso. Desculpa."

Reclamando do gosto, Kobayakawa se levantou apressado e foi cuspir o sangue na pia. Sawa se levantou também enquanto o som da água correndo enchia a sala.

"Desculpa."

"Tanto faz. Ia acontecer de qualquer jeito," Kobayakawa disse de novo quando viu Sawa com cara de cachorro que levou um chute.

"Mas é culpa minha você estar sangrando, e agora..."

"Tá tudo bem. Isso não é nada comparado com seu azar de ter que ser babá de mim só porque você é o representante de turma." Kobayakawa jogou a cadeira no chão com os pés.

"Kobayakawa—"

"Você já ouviu falar que meu pai é o chefe de uma gangue, certo?" Kobayakawa perguntou com um sorriso zombeteiro enquanto tirava um cigarro do bolso da jaqueta como se fosse a coisa mais natural do mundo. Assim que ele colocou na boca, Sawa arrancou de sua mão.

"O que você está fazendo? Você também não pode!"

"Eu nunca fumei e não vou começar," Sawa retrucou, agarrando a mão de Kobayakawa que ainda segurava o cigarro e jogando no lixo. 

"Eu já te falei antes: se pegarem você fumando na escola, você vai ser expulso."

"Não é a primeira vez."

"Você fuma só porque quer. Bem, isso não é bom o suficiente até você ser adulto." Sawa de repente enfiou a língua para fora para Kobayakawa. 

"E você está tentando me impressionar me dizendo que seu pai é o líder de uma gangue? Isso faz de você parte da gangue também, já que você é filho dele?"

"E—eu—"

"Eu não ligo se é ou não. Esta é uma escola, e na escola você segue as regras da escola. Até onde eu sei, você está numa gangue, certo? Além disso, você é novo aqui. Até se acostumar com como fazemos as coisas aqui, é melhor você calar a boca e fazer o que eu te disser."

Sawa soltou tudo o que vinha querendo dizer. Finalmente ele ficou sem fôlego e, embora seus ombros tremessem, ele não desviou os olhos de Kobayakawa. Kobayakawa olhou para Sawa por um longo tempo, então finalmente gaguejou como se não pudesse mais se segurar e explodiu em risada.

O queixo de Sawa caiu. Ele não fazia ideia de por que Kobayakawa estava rindo dele.

"Você é muito estranho," Kobayakawa disse, segurando a barriga e rindo.

"Não sou, não. Eu só disse a verdade," ele respondeu, tentando soar indignado, mas por dentro Sawa estava aliviado.

Ele vinha tentando ignorar, mas as palavras "filho de mafioso" passaram pela mente dele de qualquer jeito. Quem sabia o que poderia acontecer com ele se ele dissesse a coisa errada? Foi exatamente por isso que ele não queria ser responsável por coisas assim. Mesmo que ele soasse como se estivesse no controle, a verdade era que dúvidas como aquela o assombravam.

Mas enquanto ele via o garoto rir, todos os seus estereótipos e preconceitos desapareceram.

Kobayakawa pode até ter tido alguns hábitos rudes e ter falado um pouco de forma grosseira, mas Sawa percebeu que ele era só um estudante de colegial como ele.

"Tudo o que eu disse foi que isso é uma droga."

"É, isso. Acho que é bem horrível, também." Ele não soou nem obviamente autocomiserado quando disse isso, mas isso fez tudo ficar mais doloroso de ouvir.
"Só pra você saber, eu não estava falando de ter que olhar depois de você," Sawa o corrigiu.

"Então sobre o que você estava falando?" Kobayakawa se virou para olhar Sawa diretamente nos olhos. Os olhos dele focados em Sawa, parecendo penetrar sua alma.

"O fato de que as pessoas me ouviram gritar."
"Você quer dizer porque eu ouvi você? Quem liga? É a verdade, afinal."

"Mas não era isso que eu queria dizer." Ele negou veementemente a interpretação de Kobayakawa.

"Sawa, o que—?"

"Eu não sei qual é a sua história. Mas seja lá o que for, agora que você está usando nosso uniforme escolar, você pertence aqui. Falta menos de um ano para a formatura, então não temos muito tempo. Mas durante o pouco tempo que temos, eu gostaria de ser seu amigo." Ele não estava dizendo o que realmente queria dizer, mas Sawa tentou se expressar o melhor que pôde.

Quando Suzushima tinha falado com ele sobre Kobayakawa, ele tinha assumido que seria um saco. Ele já tinha problemas suficientes para lidar agora com as provas se aproximando. Ele não entendeu por que estava sendo forçado a cuidar de outra pessoa também. Era para ser "até ele se acostumar com a escola", mas dado o contexto, Sawa imaginou que poderia ser impossível para Kobayakawa se adaptar se as coisas começassem mal.

Mas depois da chance de encontro deles mais cedo, havia algo sobre Kobayakawa que ele achou interessante. Não era só a audácia de acender casualmente um cigarro na sala de aula. A força dos olhos de Kobayakawa quando ele olhou para Sawa exerceu algum poder poderoso sobre o coração dele.

Ele não se importava se Kobayakawa era filho de uma família yakuza ou qualquer outra coisa. Ele queria conhecer mais sobre Kobayakawa, o indivíduo.

Um impulso vago estava crescendo agora dentro de Sawa. Mas não importava como ele tentasse expressar seus sentimentos, eles acabavam soando como mentiras.

A cabeça de Sawa caiu de frustração por não conseguir transmitir seus sentimentos e ele apertou as mãos em punhos cerrados.

"Você é um cara realmente estranho."

"Você acha?"

Kobayakawa deu de ombros para a pergunta de Sawa. "Na minha última escola, todo mundo ficava longe de mim. Eles disseram que não queriam nada com um cara como eu. Todo mundo acreditou nas coisas sobre meu pai e todos os rumores sobre mim, e ninguém nunca tentou me ver por mim mesmo."

Sentado na cadeira, Kobayakawa abraçou as pernas e as puxou para o peito.
"Não me incomoda. Não tenho vergonha de ser filho do meu pai. Provavelmente vou seguir os passos dele quando me formar. Você me perguntou se eu sou um gangster, também, só porque eu sou filho de um líder de gangue. No meu caso, acho que não. Então decidi que realmente não me importava com a escola. Mas alguns caras bem chatos continuavam me dizendo que eu deveria ir para a escola enquanto eu ainda podia. Então decidi que ficaria até a formatura para tirá-los do meu pé."

Não havia traço de autocomiseração na voz dele. Kobayakawa soou bastante distante enquanto falava.

"Mas uma vez que eu te vi, pensei que talvez não fosse tão ruim ir para a escola."

"Sério?" Sawa perguntou com cautela.

"Achei, é, por que não se divertir um pouco melhor por uma mudança?" Kobayakawa deu um sorriso tímido. O coração de Sawa bateu mais forte e suas bochechas ficaram quentes com aquilo o primeiro sorriso que ele já tinha visto no rosto de Kobayakawa. Ele nunca tinha imaginado que aquele homem pudesse ter um sorriso tão gentil. A luz poderosa nos olhos dele parecia tão bondosa agora, parecendo se envolver ao redor da alma de Sawa.

De repente o nariz de Sawa captou o cheiro da colônia de Kobayakawa. Não era nada como ele já tinha cheirado antes o cheiro de um homem.

Sawa encarou Kobayakawa. Talvez ele conseguisse aguentar um pouco mais. Eles não estavam se encarando de forma impessoal, mas como um ser humano para outro. Bem quando ele decidiu dar um passo à frente, a porta do consultório da enfermeira se abriu com estrondo.

"Hã? O que você está fazendo aqui, Sawa?"

Sawa congelou na hora e se virou para olhar para a pessoa que tinha falado. A enfermeira estava na porta, usando uma jaqueta branca. A enfermeira, um polipalo usando óculos, olhou para Sawa com aborrecimento.

"Ah, éele bateu o queixo. A boca dele está sangrando."

"Eu não reconheço ele. Mas agora que você falou, lembrei. O senhor Suzushima me contou sobre o aluno novo que estava vindo."

A enfermeira revistou a mesa até achar uma lanterna e então foi ficar na frente de Kobayakawa.

"Onde você se machucou?"
Ela segurou o queixo de Kobayakawa com brusquidão e virou o rosto dele com desaprovação.

"Tá tudo bem agora."

"Eu vou ser quem decide isso, obrigada. Agora abre e não faz cara de boca de mármore.
Ou tem algum problema? Você está com vergonha de abrir a boca, como uma garotinha?"

Parecia que os insultos deliberados da enfermeira tinham funcionado perfeitamente para atingir o orgulho de Kobayakawa.
"Quem você pensa que é?"
"Nesse caso, você pode abrir a boca bem grande pra mim? Que garoto bonzinho."

Agindo como uma dentista com uma criança pequena, a enfermeira conseguiu fazer Kobayakawa abrir a boca sem dificuldade. Ela estava iluminando o interior da boca de Kobayakawa quando finalmente percebeu que tinha caído na dele.
Mas já era tarde demais para calar a boca de novo naquele ponto, então ela colocou com diligência, embora ele fizesse alguns barulhos de dor no fundo da garganta.

"Ah, aqui está. Você deve ter batido na beirada de um dente. Deve ter doído. Aposto que saiu muito sangue."

"Sim, saiu," Sawa respondeu por Kobayakawa, que tinha ficado em silêncio.

"O que aconteceu?"

"Ele estava apoiado no queixo na mão e eu bati o cotovelo nele."

"Entendo."

"Então ele bateu o queixo na carteira."

"E é assim que ele cortou a boca?"

A enfermeira estava olhando para ele com cara séria, mas as mãos começaram a tremer.

"Pare de rir!"

Kobayakawa parecia estar ficando sem paciência. Ele tinha aguentado tudo até aquele ponto, mas agora ele bateu nas mãos da enfermeira e se afastou. Quando ele gritou com ela, a enfermeira se dobrou, com os ombros tremendo de rir.

"Uh, senhor?"

"É tão engraçado que um cara esperto como ele se machucasse tanto só por bater o queixo numa mesa." A enfermeira não conseguiu mais segurar o riso por mais tempo. Ela se agarrou no estômago e ofegou.

"Que legal, rir da dor dos outros desse jeito," Kobayakawa disse, irritado, e se levantou para sair do consultório.

"Ei, Kobayakawa! Espera!"

"Já tive o suficiente do seu tratamento."

A voz da enfermeira veio de trás de Sawa, lutando para suprimir o riso. "Mas o remédio dele—"

Kobayakawa saiu da sala antes que ela conseguisse terminar.

"O sangramento dele parou, então está tudo bem. Se ele levar outra pancada, o sangramento pode voltar, então peça pra ele evitar comer coisas duras o máximo possível. Você fala isso pra ele?"

"Tá bom."

Sawa fez uma reverência educada e correu atrás de Kobayakawa, que já tinha saído na frente.