7 de mar. de 2026

Wandee Wittaya - Capítulo 02.2

Capítulo 02.2 : Pov Dee

Desde que confessei meus sentimentos para aquele maldito Ter, não conseguimos mais nos encarar direito. Mesmo assim, por causa do amor persistente que eu sentia por ele, fiz de tudo para conseguir um emprego no mesmo hospital. O problema é que isso tornou impossível evitar a pessoa que eu mais queria evitar.

Quando descobri que trabalharia no mesmo lugar que ele, para ser sincero, fiquei absurdamente feliz. Paguei um jantar luxuoso para Pakao e ainda doei dinheiro para inúmeras instituições de caridade.

E veja onde estamos agora…

O quê? Tenho que trabalhar no mesmo lugar mesmo querendo evitá-lo.
O quê? Tenho que assistir Ter sendo gentil com os médicos mais jovens do hospital.

Sim, o cavalheiro.
O bonito descendente de chineses.
O cara legal.
O anjo.

As palavras sarcásticas morrem na minha garganta enquanto meu coração arde entre amor e ódio.

— Dee.

Não me chame de “Dee”. Eu não quero mais um namorado médico bonzinho! Eu te odeio!

Claro… isso tudo eu só digo na minha cabeça.

O que realmente respondo quando Ter se vira para mim é bem diferente.

— Sim, Ter?

— Tem alguma coisa errada? Você está trabalhando demais? Parece que nem dormiu.

Fiquei acordado a noite inteira, então é óbvio que não dormi o suficiente.

— É… foi um dia difícil no trabalho.

— Tem certeza de que é por causa do trabalho e não por minha causa?

— O que isso tem a ver com você? — pergunto imediatamente.

Por que deveria ter algo a ver com ele? E será que ele realmente se importa comigo?

— Eu te rejeitei. Fiquei com medo de você ficar tão chateado que nem conseguisse dormir.

Talvez ele tenha mudado de ideia e não queira mais ser apenas meu “irmão”?

— Bem… eu não perdi o sono por causa disso. Sou adulto. Sei lidar com meus sentimentos.

— Ainda bem. Assim podemos continuar sendo bons irmãos.

Irmãos…

Irmãos uma ova! Por que ele tinha que enfatizar isso?!

Estou furioso.

Seguro a bomba atômica que está explodindo na minha cabeça. A palavra irmãos me irrita profundamente. Eu adoraria espancar esse “irmão”, mas sou uma pessoa boa demais para isso. Então apenas lhe ofereço um sorriso forçado.

A pessoa por quem eu estava profundamente apaixonado sorri de volta. Seus olhos estreitos atrás dos óculos se curvam ainda mais, parecendo duas luas crescentes.

— Vamos almoçar juntos hoje. Eu pago.

Se isso tivesse acontecido algum tempo atrás, eu teria ficado radiante. Mas agora…

Eu não quero ir. Estou desconfortável.

— Há tantas pessoas com quem você pode ir. Vá com os mais novos.

— Você disse que não tem problema comigo. Então por que recusar?

— Bem…

— Se realmente não há problema, venha comigo. Quero compensar por ter sido duro com você.

Eu sorrio novamente desta vez com um leve deboche. Até uma criança de três anos perceberia que meu sorriso é falso. Só Ter não percebe. Ou talvez simplesmente não se importe.

Depois de insistir, ele segura meu braço e me puxa.

Alguns dias atrás eu teria ficado feliz se ele estivesse tão ansioso para me arrastar para almoçar com ele.

— O Dr. Dee vai almoçar conosco hoje, certo? — anuncia Ter para os colegas e para os médicos mais jovens.

O grupo dele é grande. Provavelmente porque ele é amigável e gentil.

Mas antes que eu possa continuar admirando isso, alguém no grupo solta uma risada e comenta:

— Já superou o coração partido, Dr. Dee?

— Com licença?

Levanto as sobrancelhas e olho para a pessoa que falou, esperando uma explicação.

— Todo mundo no hospital sabe que você gosta do Dr. Ter.

— Nin, pare com isso. Você está deixando o Dr. Dee constrangido — diz Ter. — Eu já conversei com ele. Somos apenas bons irmãos.

Acabo rindo novamente, mesmo sem achar graça nenhuma. Todos ao redor estão rindo.

Estou com vergonha.

Sinto-me um idiota.

Mas que diabos? Confessar seus sentimentos para alguém que você gosta é algo tão engraçado assim?

Afasto a mão de Ter do meu braço com tanta força que ele se vira para mim. Ainda consigo sentir o calor da palma dele e isso me deixa irritado.

— Qual é o problema, Dee?

Estou prestes a dizer tudo o que penso, mas antes que consiga abrir a boca, alguém puxa meu braço com força.

O calor anterior desaparece, substituído por um aperto firme.

— Eu estava procurando por você.

A pessoa que segura meu braço tem uma voz profunda e agradável.

Eu esbarro em seu peito largo e sou envolvido pelo cheiro suave do amaciante de roupas misturado com colônia e suor.

Levanto o olhar rapidamente.

Assim que nossos olhos se encontram, meu corpo inteiro fica rígido.

É o homem absurdamente sexy da noite passada.

É como se Deus estivesse gritando na minha cabeça:

Vocês ainda não tiveram a chance de se olhar direito, não é? Então aqui está em alta definição, bem de perto.

Sob as luzes fortes do hospital, ele parece ainda mais impressionante.

Diabolicamente bonito.
E seriamente irritado.

— Você…

Eu não sei o nome dele, então acabo chamando apenas de “você”.

Ele suspira, solta meu braço e coloca um grande buquê de flores nas minhas mãos.

— Sinto muito pelo que aconteceu ontem à noite.

Ele faz uma pequena reverência.

Meu rosto fica vermelho imediatamente.

Falando na noite passada…

Ele deve estar se referindo ao sexo que tivemos.

Mas por que ele está pedindo desculpas?

— Desculpe por ter sido impulsivo demais. Desculpe por não ter conseguido me controlar.

Isso só pode ser uma piada.

Ele veio até aqui… trazendo flores… só para pedir desculpas?

Pela primeira vez hoje, sinto um sorriso verdadeiro nascer.

Droga. Estou corando.

Um homem me trazendo flores no hospital… será que ele se interessou pela minha inocência?

Mas como diabos ele chegou aqui?

— Quem é esse cara, Dee? — pergunta aquele maldito Ter, tocando novamente meu braço.

Nesse momento, o homem à minha frente levanta a cabeça. Seus olhos escuros são incrivelmente hipnotizantes.

Eles me encaram sem emoção.

Mas só esse olhar já é suficiente para me deixar vermelho.

Lembrar da noite passada quando ele me possuiu com tanta intensidade quase me faz desmaiar.

— Você pode me perdoar?

Posso perdoá-lo?

Esses olhos… e essas palavras… são perigosamente sedutores.

Ele está me matando.

Dizem que Wanthong, de Khun Chang Khun Phaen, não era promíscua… mas Wandee provavelmente é.

Meu coração está tremendo.

E parece interessado nele.

Meu rosto está queimando e, pior ainda, quando comparo os dois ele e Ter percebo que o jovem à minha frente é muito mais bonito e atraente.

Eu vou morrer.

Parece que já entreguei meu coração para ele.

— Dee…

— Bem, eu não posso almoçar com você, Ter. Tenho algo para conversar com este jovem.

Ignoro Ter e observo o homem alto diante de mim.

Ele está vestido de forma simples: camiseta, bermuda e tênis. Seu corpo tem tatuagens e cicatrizes. Sob a luz do hospital, sua pele parece mais clara do que na noite passada.

Mas o olhar penetrante continua o mesmo.

Pelo meu palpite, ele deve ter pelo menos 1,80 de altura.

— Dee…

— Conversamos depois, Ter. Você vem comigo.

Seguro o buquê com um braço e puxo o homem comigo com a outra mão.

Não me importa quem está olhando ou o que vão dizer.

Eu, Wandee, não vou ser o motivo da risada de ninguém.

— Como você soube que eu trabalho aqui?

— Pelo crachá.

— Entendi. Você chegou na hora certa — digo, andando mais rápido em busca de um lugar privado.

Ele me segue obedientemente.

Ou será que… ele realmente gostou do que aconteceu ontem?

Ao trazer flores aqui… será que ele quer repetir no hospital?

Bang!

Não é o som de alguém sendo empurrado contra a parede para um beijo apaixonado.

É apenas a porta da escada de emergência se fechando atrás de mim.

Aqui é privado o suficiente para conversar sem curiosos por perto.

A situação parece saída de um drama coreano.

Os protagonistas conversando nas escadas…

Na minha imaginação:

Kim So-yeon…
Ele sussurra meu nome enquanto segura meu rosto e se inclina para me beijar.

Um perfeito drama coreano.

Mas é só imaginação.

— Droga! Seu ferimento!

Antes que qualquer cena romântica aconteça, vejo sangue escorrendo de um corte na sobrancelha dele.

Ele está prestes a tocar o ferimento, então agarro seu braço rapidamente.

— Espere! Não toque ou pode infeccionar. Acho melhor não conversarmos aqui. Preciso dar pontos nisso.

— …

— Aliás, qual é o seu nome?

— Yak.

Yak.

Nome que significa “gigante”.

Combina perfeitamente com ele.

Sorrio levemente por instinto, mas quando vejo sua expressão franzida, meu sorriso desaparece.

— Onde você mora? Ainda estuda? Está saindo com alguém?

Ele não responde.

Parece se perguntar por que estou bisbilhotando sua vida.

— Esqueça. Venha comigo. Vamos cuidar desse ferimento.

Olho novamente para o buquê.

— E as flores… você trouxe para mim?

Ele parece jovem. Provavelmente sou mais velho que ele.

Dizem que namorar alguém mais novo rejuvenesce…

Estou começando a achar que gostaria disso.

— Sim. São para você, doutor.

— Pode me chamar de Dee. Não precisa ser tão formal.

— Você sente dor em algum lugar?

— O quê?

— Bem… doutor… Dee… parece que você está com dificuldade para andar. Deve ter doído. Afinal… foi sua primeira vez.

Quando abro a porta da escada, paro e me viro para encará-lo.

Meu rosto está pegando fogo.

— Sim, dói.

Não vejo motivo para negar.

Saímos da escada para o corredor do hospital.

O ar fresco é muito melhor que o cheiro abafado de lá dentro.

— Desculpa — Yak pede novamente.

— Não se preocupe. De certa forma… foi bom.

— Foi bom?

— Sim. Eu não estou bravo com você.

— Hã?

— O que foi?

Diminuto o passo para que ele caminhe ao meu lado, esperando alguma explicação. Mas ele não diz mais nada.

Apenas me segue com uma expressão irritada.

Ele não solta um único gemido enquanto eu costuro seu ferimento.

Enquanto ele preenche o formulário com seus dados, eu dou uma espiada.

Seu nome completo é Yo-Yak Phadetsuek.

Um nome estranho.

E o sobrenome Phadetsuek… soa familiar.

Tenho certeza de que já vi esse nome antes.

— Terminou de costurar?

— Sim. Tudo pronto. Espere os remédios e depois pode ir para casa.

— Quanto aos custos, eu pago. Posso perguntar com quem você brigou?

— Eu não briguei com ninguém.

— Se é verdade… então como conseguiu esses ferimentos?

Faço uma pausa e balanço a cabeça.

— Esqueça. Você provavelmente não quer contar.

Talvez eu seja apenas um estranho para ele.

Então por que isso me incomoda tanto?
Por que fico irritado quando Yo-Yak não responde?

— Não se meta mais em brigas. Seria uma pena se um rosto tão bonito ficasse marcado por cicatrizes. Tome, este é o meu número, Yak. Se algum dia tiver problemas, pode me ligar. Não se preocupe… pode me ligar para qualquer coisa, até mesmo se precisar de dinheiro. Estou disposto a ajudá-lo. Em troca, você pode jantar comigo de vez em quando. Ou, se o problema for grande demais, pode até me pedir uma mesada mensal.



— …

Ele pega meu cartão de visita com meu número. Seus olhos afiados o examinam por um instante e então se erguem para encontrar os meus. Ele parece confuso. Não apenas ele,  eu também não tenho certeza do porquê disse algo assim. É quase como se eu estivesse me oferecendo para que ele fosse meu sugar baby. Talvez seja algo do tipo…

“Precisa de alguma coisa? Então tire a roupa e venha até mim em troca, eu lhe dou dinheiro.”


Cheguei a essa idade… a idade em que estou solteiro e tão sozinho que estou pagando por um gigolô?

— Tudo bem.

Sem sequer piscar, ele aceita minha proposta. Em seguida, coloca meu cartão de visita em um dos bolsos da calça, levanta-se e sai da sala com uma expressão séria.

Eu permaneço imóvel, encarando a porta firmemente fechada, recostando-me completamente na cadeira. A palavra “Phadetsuek”, o sobrenome dele, continua girando na minha cabeça. Então me ocorre algo! É o nome que vejo naquele outdoor pelo qual passo todos os dias.

Assim, procuro “Phadetsuek” na internet e descubro que se trata de uma grande escola de boxe que também oferece aulas de autodefesa. O dono se chama O-Ye Phadetsuek. O nome dele é tão incomum quanto o de Yo-Yak. Pensando bem, o dono se parece bastante com ele.

Então decido pesquisar “Yo-Yak Phadetsuek” no Google.

E, depois disso, uma dúvida surge na minha mente…

“Eu realmente acabei de me oferecer para ser sugar daddy de um homem rico?”


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Wandee Wittaya - Capítulo 02.1

Capítulo 02 : Povo Dee

Morto...

Eu devo estar morto.

Quando o alarme toca, meu corpo não tem energia alguma para se mover.

Ele não está mais aqui, mas esteve comigo a noite inteira. Eu estava meio consciente quando ele saiu. Sei que ele me lavou e me vestiu com roupas limpas. Cobriu-me com um edredom macio e até ajustou o ar-condicionado, que antes estava congelante, para uma temperatura agradável.

Pergunto-me por que ele é tão gentil.

Isso não combina com seu rosto nada simpático e com aquele olhar frio.

Consegui dar uma olhada rápida em seu rosto quando ele me cobriu com o edredom. Ele é perversamente bonito. Perigosamente atraente. Um verdadeiro destruidor de corações.

É assim que eu o descreveria.

Acho que alguém que está entre a consciência e a inconsciência deve ficar com a mente meio estúpida, porque eu não consegui tirar os olhos daquele homem desconhecido.

Talvez seja porque, no fundo, eu estava satisfeito.

Deve ser isso.

Tem que ser isso.

Balanço a cabeça para afastar a típica tontura pós-bebedeira, abro lentamente os olhos ainda pesados e, com as mãos trêmulas, levanto o edredom para olhar meu próprio corpo.

Assim que tento me levantar, sinto todo o corpo dolorido.

Minha bunda ainda está dormente, como se ele ainda estivesse dentro de mim. Minhas pernas tremem quando fico de pé.

Não sei exatamente como descrever o que estou sentindo agora. Ainda há um pouco de dor e dormência, mas existe outro pensamento que surge com mais força na minha mente do que qualquer desconforto.

Eu realmente gostei da noite que tive.

Gostei das coisas obscenas e intensas que fizemos. Gostei da forma como ele me pressionou contra si.

Tenho vinte e nove anos e acabei de descobrir que gosto de sexo intenso e cheio de paixão.

Ei… isso é uma descoberta maior do que quando Einstein descobriu E = mc², não é?

Eu começo a rir, mas logo levo a mão à garganta ao perceber que ela está seca e dolorida.

Então este é o famoso efeito de gemer até perder a voz que aparece nos livros.

Sorrio sem nenhum arrependimento por como perdi minha virgindade.

Pelo contrário, sinto-me incrivelmente feliz por minha vida plana e monótona finalmente ter ganhado algum significado.

Então… sexo é bom.

Assim que percebo isso, adio o alarme e me sinto muito mais animado do que nos últimos dias.

Ainda assim, preciso voltar para a cama por causa da dor na bunda. Não é insuportável, mas toda vez que arde um pouco, lembro do momento em que fui possuído.

Acho que estou começando a ficar meio obcecado.

Mas enfim… como vou vê-lo novamente?

Pisco várias vezes enquanto penso nisso.

Depois de um tempo, sento-me devagar, estalando a língua quando o alarme toca outra vez. Como normalmente tento levantar o mais tarde possível, costumo adiá-lo de cinco em cinco minutos.

Dessa vez eu simplesmente o desligo.

Já estou acordado.

O som do alarme me faz parar de pensar naquele homem por um momento.

Levanto novamente e caminho mancando até a cozinha para começar um novo dia.

Talvez a grande mudança na vida de Wandee comece substituindo a saudável dose matinal de leite de amêndoas… por uma bebida energética capaz de lhe dar um pouco mais de disposição.


Pov Yak


996… 997… 998… 999… 1000.

— Terminei.

Jogo a corda de pular no chão à minha frente e respiro fundo algumas vezes, tentando recuperar o fôlego. Hoje estou mais cansado do que o normal, porque quase não dormi. Na verdade, fazer sexo me deixou exausto, mas como eu já tinha planejado pular corda, mesmo tendo dormido apenas três horas, levantei e fiz meu exercício como de costume.

Caminho até a corda, pego uma garrafa de água que estava sobre a cadeira, desenrosco a tampa e bebo para matar a sede.

Estou suando muito. Meu torso nu está completamente coberto de suor. No entanto, não há ninguém por perto agora. Só se ouvem alguns barulhos de coisas batendo vindos da casa de dois andares. Parece vir da cozinha.

— Ye, o que você está fazendo na cozinha? — pergunto em voz alta, meio desconfiado, enquanto tiro as bandagens das mãos.

Parece que meu irmão está preparando o café da manhã.

O-Ye é sempre assim. Assusta os outros fazendo barulho ou gritando, e vive com uma expressão intimidadora no rosto.

— Não estou encontrando a faca.

— Não está no suporte de facas? Eu usei ontem de manhã.

— Ah, é mesmo. Achei!

— O que você está fazendo?

— Estou tentando pegar a caixa de leite de soja.

— A Cherry pendurou de novo?

— Sim.

Paro de andar e observo a figura um pouco mais alta que vem em minha direção.

O-Ye é meu irmão e, de certa forma, também foi como um pai para mim. Nossos pais têm uma academia de boxe no interior e nos mandaram estudar em Bangkok muitos anos atrás. Como ele é bem mais velho que eu, acabou cuidando de mim no lugar deles.

Ele se formou em engenharia, mas não sei por que, logo depois de se formar, decidiu seguir os passos dos nossos pais e abrir sua própria escola de boxe.

Uma enorme placa com o nome Phadetsuek Boxing Camp Victory Boxing School fica na frente da casa, e há vários outdoors espalhados no início da rua onde moramos.

É ao mesmo tempo uma escola para quem quer se tornar boxeador profissional e um centro de artes marciais.

Claro, O-Ye era o melhor lutador da escola, mas acabou se cansando de lutar apenas para acumular pontos e defender títulos. Então decidiu parar. Ele dizia que havia perdido a paixão por lutar no ringue e que sua única motivação agora era o dinheiro.

Os cursos no Phadetsuek Boxing Camp são caros, mas muitas pessoas ricas enviam seus seguranças para treinar boxe ali. Além disso, muitos jovens preocupados com a saúde que querem melhorar o físico também se inscrevem.

Os cursos são exigentes tanto no preço quanto no treinamento, e acabaram se tornando populares entre os jovens por recomendação boca a boca. Assim, três anos após a inauguração, o Phadetsuek Boxing Camp se tornou bastante conhecido: as técnicas de defesa pessoal são práticas, há muitos equipamentos, e o treinador presta atenção em cada aluno individualmente.

— Quer um pouco? — O-Ye me oferece a caixa de leite de soja.

Mesmo sabendo que eu sempre recuso, ele continua oferecendo.

— Não quer? Me diga, você já comeu alguma coisa? Não pode ficar só bebendo bebida. Senão eu vou te dar uma boa surra.

Na realidade, ele nunca me bateu de verdade. Só faz ameaças. Quando eu faço algo errado e ele fica bravo, ele simplesmente para de falar comigo — e isso me machuca muito mais do que apanhar.

— Já comi congee às seis.

— Ah, ótimo. E que horas você chegou ontem à noite? Eu terminei de tomar banho às duas e você ainda não tinha chegado.

— Às seis — respondo, levantando a mão para massagear a nuca.

Provavelmente foi nesse momento que O-Ye viu os arranhões nas minhas costas.

Ele ergue uma sobrancelha e exclama em voz alta:

— Com quem você dormiu dessa vez? Achei que você tinha dito que ia parar, e que a pessoa de quem você gosta não gosta desse tipo de coisa.

— Não foi minha intenção.

Paro e solto um leve suspiro. Há algo sobre meu parceiro da noite passada que não sai da minha cabeça, e não sei a quem perguntar além do meu irmão.

— Ye, posso te perguntar uma coisa?

— Pode.

— Se você interpretasse as ações de alguém bêbado como um convite para fazer sexo… e… essa pessoa nunca tivesse feito sexo antes… você deveria pedir desculpas?

— Desculpa, pode repetir desde o começo?

Ele joga a caixa vazia de leite de soja no lixo. Seu dedo longo e fino coça a pele logo abaixo do olho afiado e orgulhoso. Antes que eu consiga explicar, ele mesmo conclui a história.

— Deixe-me ver se entendi. Ontem à noite, quando você saiu para comprar Coca-Cola, encontrou um cara bêbado e achou que ele estava pedindo para fazer sexo com você. Mas quando começou, descobriu que ele ainda era virgem, certo? Então agora você está pensando que ele só estava bêbado e não quis realmente aquilo?

— Certo.

— Você foi até o fim?

— Claro que fui.

— E quando descobriu que ele era virgem, você parou imediatamente?

— Não… não parei. Já fazia muito tempo que eu não fazia sexo. Quando finalmente tive a oportunidade, não consegui me controlar.

— Foi só uma vez, certo?

Levanto os dedos para contar. Quando levanto o terceiro dedo, O-Ye imediatamente segura minha mão.

— O quanto ele estava bêbado?

— Muito.

— Ele poderia achar que você abusou dele?

— …

Ele poderia pensar isso, não é?

— Depois que vocês terminaram, vocês chegaram a conversar?

— Não. Ele estava dormindo. Deve ter ficado exausto.

— Bem… acho que você deveria levar um buquê de flores para pedir desculpas e explicar calmamente que entendeu errado o comportamento dele, e que foi por isso que acabaram na cama. (nota: Ele e bem sensato)

— Eu deveria?

Pergunto para confirmar, e O-Ye assente.

— Sim. Deveria.

Meus ganhos com o boxe aumentaram conforme ganhei experiência, e O-Ye não fica com nada. Ele transfere todo o dinheiro para mim, uma quantia que quase sempre chega a sete dígitos. Mesmo assim, ainda me dói gastar várias notas cinzentas de mil baht em um buquê de flores.

O canto da minha boca se contrai quando recebo o troco.

O rosto refletido no espelho parece sério.

O florista permaneceu em silêncio desde que entrei; provavelmente ficou chocado ao ver os ferimentos no meu rosto. E eu não vejo motivo algum para explicar como os consegui.

— Pronto. Ele veio de carro? — pergunta o florista.

— Não.

Fico ali parado, observando o buquê. De fato, é bonito e vale o dinheiro que paguei por ele.

Então, de repente, tenho uma ideia.

Por que não comprar flores também para a pessoa de quem gosto?

Talvez isso cause pelo menos alguma impressão.

— Então, vai levar agora ou prefere que a gente entregue?

— Vou levar agora. E… posso encomendar um buquê com antecedência?

— Claro, senhor. Que tipo de buquê o senhor gostaria?

— Quero um maior do que este.

Olho para o buquê que tenho nas mãos e depois para o dono da loja. Ele assente enquanto anota o pedido e começa a pedir mais detalhes.

— Tem algum tipo específico de flor em mente?

— Não. Só quero algo bonito.

— Para sua pessoa especial, imagino?

Estou prestes a negar, mas acabo assentindo. Na verdade, quero mesmo ter um relacionamento com essa pessoa.

Estou esperando há anos.

Mesmo sem saber quando ela aceitará meus sentimentos.

Fico ali por um bom tempo. Por fim, o dono da floricultura me informa o preço do buquê encomendado, marca o horário para retirada e, depois de pagar, saio imediatamente da loja.

Meu carro está na oficina no momento, então preciso chamar um táxi para levar o buquê até o Dr. Wandee.

Está tudo meio apressado, mas não importa.

Quero entregar as flores e pedir desculpas, apenas para acertar as coisas.

Espero que você não esteja bravo comigo, Dr. Wandee.


Cuti Pie - Capitulo 29

Capítulo 19: Keerati

HieLian Wang sorriu diante da determinação de Keua Keerati. Naquela nova manhã, com o pequeno Keua ainda deitado em seus braços, ele nem teve tempo de ouvir um “bom dia”. A primeira coisa que Keua disse foi que queria administrar as terras da família Keerati.

— Ainda são apenas nove horas, querido.

— Estou muitos anos atrasado… Hia… você não está cansado?

O sorriso permaneceu nos olhos claros de Keua, misturado a uma expressão preocupada. HieLian sentiu como se um gatinho o tivesse arranhado de leve. Depois da noite anterior, de onde vinha tanta energia? Se não tivesse medo de que Keua não aguentasse, para falar a verdade, eles teriam continuado até o amanhecer.

— Não tenha tanta pressa. Em alguns dias eu levo você comigo para a empresa.
Não precisamos pensar demais. Temos uma equipe de contabilidade que pode nos ajudar a analisar tudo, e nós dois podemos avaliar juntos qual solução é a melhor.

HieLian já havia decidido abrir um processo de reestruturação empresarial. Se Keua queria participar, ele desejava ouvir suas ideias primeiro. Mesmo que algumas fossem inviáveis, bastaria explicar o motivo. Ainda que Keua não tivesse conhecimento algum, cem tentativas já seriam o primeiro passo de seu crescimento.

No fundo, Hia não queria que ele amadurecesse tão rápido. A vida despreocupada de Keua era preciosa demais.

— Mas eu ainda estou preocupado…

— Não se preocupe. Deixe-me ficar mais uma hora abraçando você antes de levantarmos para pensar nisso.

— Já são nove horas… Hia, você não vai trabalhar?

— Se o pequeno Keua ainda duvida da minha saúde, então eu não vou me segurar. Podemos repetir a noite passada… e desta vez eu não vou me conter.

Só de ouvir isso, Keua abandonou qualquer dúvida e se escondeu novamente no abraço de HieLian.

Uma hora?

Hia ficou abraçado com Keua até quase onze da manhã. Mesmo quando finalmente se levantou, ainda encontrou tempo para roubar mais alguns beijos. Se a secretária de Hia não tivesse ligado pela terceira vez durante aquela sequência de beijos, Keua tinha certeza de que aquilo teria ido muito além.

Diante do espelho, Keua Keerati segurou o rosto corado, desejando que o rubor desaparecesse logo. Vestia apenas uma camisa larga o pijama de mangas compridas de Hia era enorme nele. E, além disso… ele nem queria ir para a universidade naquele dia.

Seu pescoço estava marcado por beijos e leves mordidas, e seus lábios estavam inchados de tantos beijos.

— Por que não dorme mais um pouco? — Hia saiu do banheiro com apenas uma toalha na cintura.

O corpo de Hia estava coberto pelos arranhões que Keua havia deixado na noite anterior. Só de olhar para aquilo, Keua sentiu o corpo inteiro esquentar: orelhas, rosto e pescoço ardendo. E ainda por cima Hia olhava para ele com aquele sorriso brilhante.

Ah… aquele sorriso era simplesmente mortal.

Keua conseguia enfrentar qualquer provocação dos amigos sem se cansar. Mas lidar com Hia era muito mais difícil. Hia sempre vencia e nunca recuava.

Quando Keua ficou ainda mais envergonhado, Hia não foi se vestir. Em vez disso, aproximou-se novamente e o abraçou.

— Hmm… será que precisamos mesmo sair da cama?

— Hia, vá se vestir! Você vai se atrasar para o trabalho. Precisa ir para a empresa, não é?

— Acho que estou viciado na minha esposa. Um vício não desaparece em um dia. Trabalhar? Fazer amor é muito melhor. E minha esposa ainda fica se perguntando se estou bem.

Que tipo de lógica era aquela?!

Keua quis dar um soco nele, mas estava preso naquele abraço apertado e acabou apenas encostando a testa no ombro de Hia.

— Eu não sou sua esposa! Ainda nem aceitei.

— Meu dote não é caro. Minha mãe não ousaria pedir muito.
Pequeno Keua receberia um Pentágono e todos os meus bens. Vale a pena.

Entre risos e constrangimento, Keua deixou Hia balançá-lo diante do espelho.

— Me dê um beijo. Assim eu me animo a ir trabalhar.

Outro beijo.

— Eu já te beijei tanto… isso ainda não foi incentivo suficiente?

— Se apenas comer você já me desse incentivo, nós não estaríamos só aqui parados.

Que idiota!

Quando Hia finalmente saiu para trabalhar, a casa ficou silenciosa. E, sem as provocações constantes dele, a mente de Keua voltou a se preocupar com a família Keerati.

Ele pegou o arquivo com os documentos de propriedade que estava sobre a mesa. Ao abri-lo, sentiu-se ainda mais perdido. Era como se seus sentimentos estivessem espalhados por todos os lados, sem saber por onde começar a juntá-los.

Respirando fundo, pegou o celular e ligou para a pessoa que provavelmente sabia mais sobre aquilo.

Khunying Kaolin Keerati.

A Áustria estava cinco horas atrás da Tailândia. Ainda assim, sua mãe e seu pai costumavam acordar cedo. Devia ser por volta das sete da manhã lá.

— O que foi, pequeno Keua? Seu pai e eu estamos falando com você agora.

— O pai ainda não foi trabalhar?

— Hoje é feriado na Áustria. Espere, vou ligar a câmera para que ele também fale com você.

A imagem dos dois na cozinha fez Keua sorrir. Mesmo que os rostos de seus pais estivessem tão próximos da câmera que a imagem ficasse um pouco borrada.

— Onde você está, filho?

— Na casa do Hia. Ele foi trabalhar.

A voz de seu pai continuava com o tom firme de um embaixador em Viena. Mas, ao ouvir que Keua estava na casa de Hia, ele franziu levemente a testa. Seu pai nunca gostou muito dele.

— Então você não foi para a universidade?

— Não estou me sentindo bem.

— Foi ao médico? HieLian não levou você?

— Não, pai… não é nada sério.

Quem teria coragem de contar aos próprios pais que faltou à aula porque estava cheio de marcas de beijo no pescoço?

Durante a conversa, falaram sobre várias coisas do cotidiano. Amigos da universidade, histórias aleatórias… até mesmo o mal-entendido sobre Hia gostar de comer cobras.

— Estou com tanta saudade de vocês… quando vão voltar para a Tailândia?

— Pequeno Keua, por que você não vem para a Áustria? HieLian disse para mim que pretende trazer você nas férias do semestre.

Seu pai fez uma pequena expressão de desagrado ao ouvir aquilo.

Antes de tocar no assunto mais difícil, Keua respirou fundo.

— Mãe… sobre as terras da família Keerati…

Khunying Kaolin ficou em silêncio por um momento. O pai de Keua também franziu a testa e olhou para a esposa.

— Pequeno Keua, você está certo. A família Keerati realmente vendeu aquelas terras para a família Wang.

Ela explicou tudo com calma, em uma voz suave, mas firme.

— O negócio da família Keerati já estava em dificuldades desde que você nasceu. Seu pai trabalha na Europa e eu nunca fui boa em administrar empresas.
Seu avô não queria que o nome Keerati fosse manchado… mas acabou pegando empréstimos em segredo para investir mais. No final, tivemos que vender tudo.

Keua não sabia exatamente o que sentir.

Era um alívio… mas também não era.

Ele estava feliz por Hia ter protegido o legado da família, mas também triste ao perceber que os Keerati haviam acabado se apoiando demais na família Wang.

— HieLian queria manter a mansão Keerati como seu dote — continuou sua mãe. — Mas eu disse a ele que poderia vender tudo se quisesse.

Lágrimas escorreram pelo rosto de Keua.

A mansão Keerati era cheia de memórias: seu avô, seus pais, os tios Wang, Hia quando era mais jovem… todos aqueles momentos estavam ligados àquele lugar.

Depois que a ligação terminou, Keua ainda chorou por um tempo.

Mas não era como no dia anterior, quando chorou por medo.

Agora era um choro de alívio.

Pelo menos havia uma solução. Hia não precisaria carregar aquele peso sozinho.

Ainda assim, Keua sabia que precisava pensar no próprio futuro.

Ele não era mais tão rico quanto antes. Seu pai tinha um bom salário, mas Keua queria que ele guardasse dinheiro para a aposentadoria.

Depois de se formar, precisava trabalhar.

Não queria ser um peso para seus pais.

Nem para Hia.

Limpando as lágrimas com as mãos trêmulas, ele pegou o celular novamente e discou para alguém que o conhecia desde os tempos de Inglaterra.

Dearw.

— Dearw… onde você está? Posso te ver?

— Estou na casa do HiaYi, mas posso sair. Sua voz não parece muito boa…

— Eu… preciso pensar sobre o futuro. Podemos nos encontrar? Tenho certeza de que vou acabar chorando de novo.

— Então nos vemos na sua casa secreta. Vou levar meu irmãozinho também.

— Irmãozinho?

— Hehe… você vai ver.

Algum tempo depois…

— Este é meu irmão mais novo.

Keua Keerati ficou completamente atônito ao olhar para o “irmão” que Dearw carregava.

Era um pequeno Chihuahua de pelos castanho-claros misturados com branco. No pescoço, usava uma coleira azul em forma de laço com um pequeno pingente prateado gravado com o nome CHEN.

O famoso Chihuahua da família Chen.

Keua o pegou nos braços com as duas mãos. O cachorro latiu imediatamente e se debateu para escapar. Assim que foi solto, saiu correndo pela casa… explorando tudo.

E então levantou a perna.

— Dearw! Seu irmão está fazendo xixi na minha moto!

— Ah, desculpa! Ele ainda não sabe… estou treinando ele.
Hoje de manhã ele fez xixi na perna do HiaYi. Hia quase me estrangulou.

Dearw correu para pegar um pano e limpar a roda.

Keua queria brigar com o cachorro, mas aqueles olhinhos saltados eram simplesmente fofos demais.

— HiaYi voltou a dormir na mesma casa? — perguntou Keua sem pensar.

Dearw parou por um segundo, revirando os olhos.

De repente, as orelhas de Keua ficaram quentes. Aquela reação só podia significar uma coisa.

— Bem… eu também não sei… Ah… você está com marcas no pescoço…

— Ah… é…

Os dois amigos se encararam por um instante, com os rostos vermelhos como tomates — e então começaram a rir.

— Melhor não falarmos sobre isso.

— Certo. Eu já estou morrendo de vergonha.

Keua tentou se recompor para falar sobre assuntos sérios, mas Dearw se aproximou com um sorriso malicioso.

— Então… foi bom?

— MVP!!

Keua explodiu de vergonha e se escondeu atrás da almofada do sofá, transformando-se em um cadáver cor-de-rosa tentando desesperadamente recuperar a calma.

4 de mar. de 2026

The Boy Next World - Capítulo 18

Capítulo 18: Retribuir

Mesmo com o coração acelerado, mesmo com o rosto quente, mesmo com os cantos dos lábios curvados em sorriso… as lágrimas continuam a cair.

Phugun precisa erguer a mão repetidas vezes para enxugá-las primeiro o lado esquerdo, depois o direito até acabar esfregando os olhos com as duas mãos. P’Cir, por sua vez, o puxa para um abraço e o acomoda em seu colo.

Os braços fortes o envolvem, e o calor do outro o cobre num instante. O pequeno coração dispara. Phugun esconde o rosto no peito largo. P’Cir não diz nada apenas desliza a mão pelas costas dele, acariciando seus cabelos macios. E justamente por isso, o consolado acaba se tornando ainda mais frágil, enterrando o rosto mais fundo no peito do mais velho, soluçando.

Pare de chorar, Phu… pare…

Ele tenta se acalmar, mas quando ergue o rosto, os olhos ainda molhados carregam um brilho miserável.

— D-desculpa, P’Cir.

— Desculpa pelo quê?

Não use esse tom tão gentil…

Phugun lamenta em silêncio. Ao encarar o rosto preocupado do outro através das lágrimas, balança levemente a cabeça.

— Eu não sei.

Ele realmente não sabe o que sente. No início, ficou feliz por ouvir novamente o som da flauta do pai. Depois, ao ver os olhos doces do mais velho, o coração acelerou. E o abraço quente virou um turbilhão.

Talvez tenha pedido desculpas por chorar. Ou por molhar a camisa dele. Ou por sentir algo especial.

— Não chora, tá?

P’Cir segura a mão de Phugun e enxuga sua bochecha com os nós dos dedos.

— Eu… não sei…

As bochechas e o nariz estão vermelhos. Ele tenta esfregar os olhos outra vez, mas P’Cir o impede. Quando tenta com a outra mão, é bloqueado novamente.

— Quero secar as lágrimas.

— Não vou deixar.

Sem soltá-lo, P’Cir entrelaça os dedos aos dele, sorrindo.

— P’Cir, me solta.

— Não.

— Quero limpar meu rosto…

Phugun insiste, irritado com a mão que o segura. De repente, sente lábios quentes tocarem seus olhos. Seus olhos grandes se voltam para o dono daquele toque, mas logo se fecham quando o nariz dele roça sua pele e os lábios repousam sobre suas pálpebras.

Depois do beijo em um lado, P’Cir passa para o outro. O corpo de Phugun estremece levemente.

A fragilidade que sentia desaparece no primeiro toque. Seu humor sobe como uma montanha-russa até atingir o ápice quando abre os olhos.

Há fogo… nos olhos à sua frente.

Quando os lábios quentes descem novamente desta vez pousando sobre os seus o coração dispara. O beijo não é breve. É profundo, intenso, cheio de desejo.

Os lábios se movem, exploram, provocam. Às vezes suaves, às vezes mais firmes. Há mordidas leves, que trazem dor e excitação ao mesmo tempo.

Phugun gosta do beijo de P’Cir.

Ele só consegue abrir a boca e aceitar aquele beijo doce e ardente, deixando que o outro conduza, provoque, invada. O ritmo faz seu corpo tremer incontrolavelmente.

— …Ah…

O gemido escapa de seus lábios, ecoando em sua mente. Ele se agarra ainda mais forte.

Não sabe quanto tempo o beijo dura. Só sente felicidade.

Até que, aos poucos, a razão retorna.

— A flauta…

O calor do corpo de P’Cir o envolve por completo. A única coisa que mantém um fio de lucidez é a flauta do pai.

— Coloquei na mesa — responde P’Cir, em voz baixa e grave.

Phugun confirma com o olhar e volta a encarar o mais velho.

— Phu… não me olhe assim.

— Por quê?

— Eu não vou aguentar.

No início, ele não entende. Até sentir algo rígido pressionando-o através do tecido do pijama.

O corpo de Phugun também esquenta.

P’Cir aperta os dentes, a respiração pesada. A mão em seus quadris o segura com firmeza.

Phugun engole em seco.

Devo me afastar?

Ele morde os lábios e encara o outro, sentindo claramente o calor e a pressão.

— Se eu soltar você… consegue se afastar? — pergunta P’Cir, rouco.

Phugun percebe que ele chegou ao limite.

Assim que é solto, levanta-se do colo do mais velho. P’Cir se recosta na cabeceira, olhos fechados.

Ele deveria ir embora.

Mas…

— Eu… acho que posso ajudar o Phi.

Antes que o outro possa impedir, suas mãos trêmulas puxam o tecido para baixo.

O que vê o faz prender a respiração.

É grande. Imponente. Assustador.

Phugun pensa que “monstro” seria uma palavra adequada mas foi ele quem o despertou.

— Eu avisei você, Phu…

— Tá tudo bem… você já fez isso por mim antes. Eu só… quero retribuir.

Quando toca, não sente nojo. Apenas curiosidade e excitação.

Move a mão devagar.

O suspiro de P’Cir mistura impaciência e prazer.

Ele acelera um pouco. Observa cada reação. Cada detalhe.

Mas P’Cir cobre o rosto com o braço.

— Chega, Phu.

Phugun se frustra. Quer fazer direito. Quer retribuir.

Hesita.

E então toma uma decisão ousada.

Sem encarar o mais velho, aproxima o rosto.

Seus movimentos são inseguros, mas determinados.

— Envolva com a boca.

A voz soa quase como um comando.

Ele obedece.

— Sem os dentes.

Move-se devagar, no ritmo que lhe é indicado.

Mesmo com dificuldade, continua.

O calor, o esforço, a respiração curta… tudo se mistura.

As mãos de P’Cir repousam em sua cabeça, guiando com cuidado.

O ritmo aumenta.

O prazer cresce.

Phugun sente o próprio corpo reagir.

Quando o clímax chega, tudo acontece rápido demais.

Há gemidos, respirações pesadas, tensão.

Depois silêncio.

P’Cir o segura pelo queixo.

— Phu… por que fez isso?

Ele tosse levemente.

— Você fez por mim… eu posso fazer por você também.

— É diferente. Eu escolhi…

— Eu também escolhi.

A resposta o surpreende.

Mas é verdade.

Mais tarde, já limpos e deitados lado a lado, o quarto mergulha na escuridão.

— Dorme comigo hoje, tá?

— Criança teimosa…

— Você não pode fazer nada comigo agora… só dormir, tá?

P’Cir suspira e se deita ao seu lado.

— Mesmo assim, ainda sou perigoso.

Phugun ri nervoso.

— Apagando a luz.

— Vai ficar tudo bem no futuro.

— Não fala como se já soubesse…

Silêncio.

— P’Cir… o que você acha que o outro Phugun está fazendo agora?

Ele se arrepende da pergunta assim que a faz.

Mas P’Cir sorri.

— Se eu estou aqui, talvez exista outro eu lá. Então… aquele Phu deve estar tentando fazer o outro Cir se apaixonar.

— E se ele não estiver interessado?

— Não acho que exista um “eu” que não se interesse por Phu.

Phugun fecha os olhos.

Não é egoísta… mas, naquele momento, faz um pedido silencioso.

Que o P’Cir daquele mundo se apaixone pelo Phugun de lá.

Porque este Phugun…

Tem certeza de que não consegue deixar ir o P’Cir que veio até ele.

E não quer soltar sua mão.


2 de mar. de 2026

One-way Passage – Capítulo 19

Capítulo 19 – Passagem de mão única


Ming Luchuan saiu do trabalho meia hora mais cedo para levar Xia Wennan para jantar em casa. Dispensou o motorista e dirigiu ele mesmo até lá.

O sol ainda não havia se posto, continuando a lançar seus raios do extremo oeste. Eles estavam presos no início do trânsito da hora do rush, e Xia Wennan estava sentada no banco do passageiro, observando os carros se enfileirarem em um cruzamento. Ming Luchuan se aproximava lentamente do final da fila.

"Você poderia me contar sobre sua família?" Xia Wennan parecia um tanto inquieto, incapaz de resistir à vontade de conversar com Ming Luchuan.

As mãos de Ming Luchuan estavam no volante, seus olhos fixos na estrada à frente. "Eu tenho um pai e dois irmãos mais novos."

Xia Wennan perguntou cautelosamente: "E a sua mãe?"

“Meu pai é um ômega”, disse Ming Luchuan.

Xia Wennan entendeu imediatamente. "Então você tem outro pai? Ou uma mãe? Uma mãe alfa?"

Ming Luchuan franziu levemente a testa. "Ele está morto."

Ao ouvir o tom de desdém dele, Xia Wennan se perguntou se havia algum conflito entre os membros de sua família e decidiu deixar o assunto para lá.

O semáforo à frente deles ficou verde e o carro partiu novamente.

Ming Luchuan acrescentou de repente: "Não me perguntem sobre meu pai alfa, meu pai não tem mais nada a ver com ele."

"Ah", murmurou Xia Wennan. Ele fechou a boca e olhou silenciosamente pela janela do carro.

Ming Luchuan dirigiu-se para o sul da cidade e chegou aos subúrbios, onde os arredores se transformaram numa paisagem natural pitoresca, pontilhada de residências de luxo e mansões pertencentes a pessoas ricas, uma das quais era propriedade da família Ming.

A família Ming era mais rica do que Xia Wennan imaginara. Sua mansão não ficava isolada, mas era cercada por uma vasta extensão de gramado e jardins.

Os portões automáticos em frente a eles se abriram e se fecharam lentamente depois que o carro entrou.

Ming Luchuan estacionou o carro casualmente na beira da estrada, abriu a porta e saiu, esperando que Xia Wennan o alcançasse antes de seguir em direção à mansão de três andares que estava bem em frente a eles.

Antes que pudessem ir muito longe, Xia Wennan ouviu alguém no segundo andar gritar para eles: “Luchuan! Wennan!”

Xia Wennan parou abruptamente e olhou para cima, avistando um ômega delicado na sacada do segundo andar, todo sorridente enquanto acenava para eles.

O ômega estava banhado pelo brilho do pôr do sol, com os cabelos tingidos de dourado. Tinha os olhos semicerrados e os lábios curvados para cima, e estava debruçado sobre a grade da varanda antes de se virar e entrar na casa.

"Seu irmãozinho?", sussurrou Xia Wennan.

“Meu pai”, disse Ming Luchuan.

Ming Luchuan e Xia Wennan tinham acabado de entrar em casa quando Ming Qin, o pai de Ming Luchuan, desceu do segundo andar.

Xia Wennan não tinha conseguido observar bem o rosto de Ming Qin à distância, mas agora podia examinar cuidadosamente o ômega de meia-idade à sua frente.

Só pela sua aparência, nada em Ming Qin indicava que ele fosse um "homem de meia-idade". Como a maioria dos ômegas, ele tinha uma constituição franzina e, apesar de não ser mais jovem, permanecia esguio. Possuía uma tez clara e delicada, como porcelana fina e cara uma característica que compartilhava com seu filho ômega. Tinha um queixo proeminente e olhos grandes, com um olhar límpido como se o peso dos anos nunca tivesse afetado sua aparência.

Se alguém estivesse determinado a encontrar os vestígios que o tempo deixou nele, eles poderiam ser encontrados nas linhas finas nos cantos dos olhos e na perda irreversível de colágeno nas bochechas.

Resumindo, Ming Qin parecia extremamente jovem, como se tivesse apenas trinta e poucos anos muito diferente de alguém que teria um filho tão velho quanto Ming Luchuan.

Ming Qin vestia uma camiseta larga de mangas compridas e calças de moletom. O estilo, combinado com sua baixa estatura, dava a impressão de ser um estudante. Ele caminhou até Xia Wennan e estendeu a mão para cumprimentá-lo, dizendo: "Siyan me contou que você perdeu a memória."

Sentindo-se um pouco desconfortável, ele afastou a mão de Ming Qin, envergonhado. Não conseguiu dizer muito mais do que: "Não me lembro de nada depois do meu segundo ano de faculdade."

Ming Qin franziu a testa. "Então você não se lembra de nós?"

Xia Wennan cantarolou. Sem pestanejar, retirou a mão e a enfiou no bolso.

"Você também se esqueceu de Luchuan?", perguntou Ming Qin.

Xia Wennan olhou para Ming Luchuan. "Sim."

Ming Qin também se virou para Ming Luchuan. "O que os médicos disseram? Você não me contou muita coisa ao telefone outro dia."

“A perda de memória dele foi causada pelo traumatismo craniano”, respondeu Ming Luchuan. “Os médicos não disseram que não havia chance de recuperação, apenas que levaria tempo.”

“Por que você saiu do hospital tão de repente?”, perguntou Ming Qin. “Eu estava planejando visitar Wennan.”

“Permanecer no hospital não ajudará na sua recuperação. O médico disse que retomar a sua vida mais cedo pode evocar algumas das suas memórias.”

Ming Qin olhou para Xia Wennan. "Ajudou?"

“Ainda não”, disse Xia Wennan.

Ming Qin ainda franzia a testa. "Será que o médico é incompetente? Devo contatar um especialista do exterior? Ou devemos ir direto lá e pedir para ele examinar Wennan?"

“Isso não será necessário”, disse Ming Luchuan. “Eu cuidarei disso.”

Assim que as palavras saíram de sua boca, ouviram o som da porta se abrindo e um homem entrou.

Xia Wennan se virou para ver quem era e viu um alfa alto. O alfa parecia excepcionalmente jovem, como se não tivesse nem vinte anos ainda. Com uma cabeleira de cachos loiros, ele tinha um ar arrogante, porém bonito. Estava vestido com um uniforme de basquete, com uma mochila pendurada em um ombro e uma bola de basquete na outra mão.

O jogador alfa entrou em quadra girando a bola de basquete no dedo, parando ao perceber a presença de Ming Luchuan e Xia Wennan. A bola quicou duas vezes em sua perna, e ele a abandonou para rolar até um canto.

“Xiao Jing, você voltou?” Xia Wennan ouviu Ming Qin dizer.

O jovem alfa soltou um murmúrio de reconhecimento, caminhou até Ming Qin e inclinou a cabeça para beijar seu rosto antes de acenar para Ming Luchuan e Xia Wennan. “Vocês voltaram? Wennan está bem? Estão se recuperando bem?” Ele disparou as perguntas sem parecer particularmente interessado nas respostas e, antes que Xia Wennan pudesse responder, continuou: “Acabei de voltar de um jogo de basquete. Desço depois de tomar banho.”

Ming Qin esboçou um sorriso. "Você ganhou?"

Os lábios do alfa se curvaram para cima. "Claro", disse ele, acenando enquanto corria em direção às escadas.

Xia Wennan puxou furtivamente a camisa de Ming Luchuan. Ele queria perguntar quem era aquela pessoa, mas não queria fazer isso na frente de Ming Qin.

E, no entanto, depois que o alfa saiu, Ming Qin foi a primeira a se manifestar sobre o assunto. "Wennan não se lembra de Xiao Jing?"

Xia Wennan balançou a cabeça apressadamente.

“Ele é meu namorado”, disse Ming Qin. “O nome dele é Yin Zejing.”

Xia Wennan havia presumido que o alfa fosse o outro irmão mais novo de Ming Luchuan até vê-lo beijar Ming Qin, o que lhe pareceu estranho. Ele reprimiu o choque interno e se esforçou para manter o tom de voz calmo. "Ele é tão... jovem."

Ming Qin riu e disse calmamente: "Ele tem vinte anos este ano. Ainda está na universidade."

Lutando para manter a compostura, Xia Wennan puxou as roupas de Ming Luchuan para dissipar suas emoções caóticas.

Ming Luchuan lançou-lhe um olhar frio.

Nesse instante, Ming Qin subitamente voltou seu olhar para algo atrás de Wennan e exclamou: "Chenchen?"


☆ ☆ ☆

A Round Trip To Love Vol. 04 - Capítulo 10

Capítulo 10

Xiao Chen?

O que ele estava fazendo ali?
Então… tudo o que eu disse agora há pouco… ele ouviu?

Já não havia como voltar atrás. Era hora de pôr um fim naquela história. Respirei fundo e me virei.

Yichen estava parado à porta, em silêncio, segurando o casaco que eu havia deixado no bar. Tremia como uma folha no vento de outono. O olhar que me lançou era pior que desespero pior que dor.

— Eu… pedi ao Yichen para trazer seu casaco até a faculdade… esfriou… — explicou, gaguejando como uma criança que fez algo errado.

— Não tem problema… pode ficar com ele… — respondi, sem saber o que dizer. Diante de Xiao Chen, eu sempre carregara culpa.

— Ge! — Yichen finalmente reagiu, avançando. — O Qin Lang estava falando besteira! Ele ainda não estava sóbrio! Não acredita nele! Ele vai continuar te tratando bem, você pode confiar! Não é, Qin Lang?

Ele virou o rosto para mim, os olhos suplicando.

Fechei os olhos por um instante e evitei aquele pedido silencioso. Então encarei Xiao Chen.

— Xiao Chen, me desculpa. O que eu disse é verdade. Eu amo seu irmão. Sempre amei.

— Eu… eu entendo… — respondeu ele, pálido, evitando meu olhar.

Livrou-se apressadamente dos braços de Yichen e tentou sair correndo.

— Ge!

Ouvi o grito de Yichen e, quando levantei a cabeça, já era tarde demais. No desespero, Xiao Chen havia perdido o equilíbrio na escada e caído pesadamente.

— Antisséptico! E gaze!

Yichen estava completamente perdido. Eu, acostumado a apanhar dele mais vezes do que gostaria de admitir, ao menos tinha alguma experiência com primeiros socorros. Entreguei-lhe o necessário.

Felizmente, fora apenas um corte na testa. Entre lágrimas e respiração trêmula, ele recobrou a consciência.

— Xiao Chen, se você permitir, quero contar a verdade.

Ignorei o olhar incendiário de Yichen e segurei levemente a mão de Xiao Chen. Contei tudo como conheci Yichen, como os sentimentos nasceram, o mal-entendido no bar por causa dos nomes, a troca equivocada… cada detalhe.

Ele permaneceu em silêncio do começo ao fim.

— Eu sei que não é o melhor momento, mas precisava que você entendesse: não houve maldade. Apenas erros.

— Eu sei… — disse por fim, com o rosto pálido.

Levantou-se devagar, tocou a testa de Yichen com ternura.

— Yichen… eu sei que você sempre foi bom comigo. Agora eu te peço… deixe-me sozinho por um tempo. Não venha atrás de mim.

Colocou cuidadosamente meu casaco sobre a mesa e saiu, cambaleando.

— Ge!

Yichen tentou ir atrás dele, mas eu o segurei.

— Não vá. Deixe que ele fique sozinho.

— A culpa é sua! É tudo culpa sua!

O soco veio antes que eu pudesse reagir.

— Nunca vi alguém tão desprezível quanto você! Se meu irmão ficar mal por sua causa, eu juro que você vai se arrepender pelo resto da vida!

— Você está maluco? — rebati, indignado. — Era melhor esclarecer tudo agora. Ele vai sofrer, mas vai superar. Você queria que eu mentisse para ele para sempre?

— Não arrume desculpas!

Ele me encarava com ódio.

— O que você está olhando?

Sorri friamente. Dei um passo à frente e o beijei.

— Animal! Me solta!

Ele tentou me empurrar, xingando.

— Não vem com esse papo nojento de que me ama! Só porque você me ama eu sou obrigado a amar você? Some da minha frente! Eu não preciso de você!

Senti o peito apertar. Puxei seus cabelos com força.

— O que você disse?

— Você não entendeu ainda? Eu só mantive você por causa do meu irmão! Se não fosse isso, eu já teria te mandado embora há muito tempo!

As palavras vieram calculadas, afiadas, destinadas a ferir.

Depois de três segundos de silêncio cortante, minha mão se ergueu.

O estalo ecoou no quarto.

Sangue surgiu no canto da boca dele.

— Você… me bateu?

Ele tentou revidar, mas segurei seu punho.

— Yichen… desde quando alguém ousou me tocar? Só você me chutou, me bateu. Acha mesmo que eu não poderia reagir?

Ele tentou se soltar, mas eu o imobilizei. Minha raiva e frustração transbordaram. Por um momento, perdi o controle tentando forçá-lo a aceitar algo que já estava morto entre nós.

— Qin Lang… não me faça te odiar.

Foi um sussurro.

Mas soou como um trovão.

Parei.

Ele fechou os olhos, exausto.

— Não quero te odiar…

A resistência dele cessara. Não havia mais luta — apenas desespero.

Eu me levantei devagar.

Fui até o banheiro. Deixei a água fria correr sobre mim, tentando apagar o incêndio interno.

Mas já era tarde.

Algumas coisas, quando quebram, não podem ser consertadas.

Quando voltei, Yichen estava encolhido no canto, o rosto coberto de lágrimas.

Peguei o casaco e o coloquei sobre seus ombros.

Ele não me olhou.

Observei-o por alguns segundos.

Depois saí.

Fechei a porta com cuidado.




A cidade tornou-se silenciosa para mim.

Passei a viver entre sala de aula, biblioteca e casa. Meu professor ficou satisfeito com minha súbita dedicação. Um mês depois, recebi meu diploma.

Meu pai perguntou se eu queria fazer pós-graduação ali mesmo.

— Qualquer lugar serve — respondi. — Só não quero continuar nesta cidade.

Minha mãe sugeriu que eu fosse para o Japão, trabalhar na empresa do meu pai.

Aceitei.

Na noite anterior à partida, bebi até tarde no bar do Shen Chao. Su Xiaolu também apareceu. Falamos de tudo do passado, de promoções em lojas, de banalidades.

Ninguém mencionou os irmãos Cheng.

E isso foi melhor assim.

Shen Chao colocou uma música para me despedir.

“BIRDCAGE”, do Mr. Children.

A mesma canção que Yichen havia cantado à beira-mar.

A voz agora era mais grave, melancólica.

Suspirei.

Na manhã seguinte, embarquei no Aeroporto Internacional de Xiamen Gaoqi rumo a Tóquio.

Não deixei ninguém me acompanhar.

A última pessoa que vi foi Su Xiaolu.
Entreguei a ela o CD que guardara junto ao peito.

— Xiaolu… amanhã eu finalmente vou fugir.

A última lembrança que tenho é da lágrima dela caindo sobre a capa rosada do CD.

Transformando-se em uma pequena gota brilhante.


Throwing Hearts - Capítulo 11

Capítulo 11 


Leo

O trabalho foi tão intenso que passou num piscar de olhos, e em qualquer outro sábado eu teria ido para casa, me jogado no sofá e não me levantado até me arrastar para a cama. Mas este não era um sábado qualquer.

Este foi o segundo encontro com Merrick.

Eu não tinha dormido muito na noite anterior. Considerando que tive que relatar cada detalhe para Kell, e considerando que minha frequência cardíaca estava bem acima do normal e que eu estava incrivelmente excitada, o sono não veio fácil.

Eu precisava resolver aquele problema urgente dentro da minha cueca, porque não havia a menor chance de ele se resolver sozinho. E não era só meu pau que queria alívio. Era meu corpo inteiro. Merrick tinha me incendiado da cabeça aos pés.

E o jeito que ele beijava...

Caramba, eu queria mais disso.

Eu queria me afogar nisso.

E esta noite, se tudo correr conforme o planejado, pretendo fazer exatamente isso.

“Ainda não consigo acreditar que vocês dois queriam, mas ambos recusaram”, disse Kell. “Isso é um autocontrole impressionante.” Ela estava passando o vestido na sala de estar.

“É, bem”, respondi do meu quarto. “Que se dane o autocontrole esta noite.”

“Você acha que vai voltar aqui hoje à noite?”

Vesti uma camisa e saí enquanto abotoava os botões. "Por quê? Você tem planos parecidos?"

“Se a noite correr bem.” Ela sorriu para mim e ergueu o vestido. Ela ia sair esta noite com todas as amigas, incluindo Selena, a mulher por quem Kell estava de olho há algum tempo. “Este vestido transmite uma sensação de elegância com um toque de desespero?”

Era preto, curto, acinturado nos lugares certos e decotado, e quando ela o combinou com seus saltos de estampa de leopardo e batom vermelho, ela estava incrível. “Mais eloquente do que desesperada, mas perfeita. Se Selena não te quer, ela é cega. E possivelmente burra.”

Kell sorriu para mim. "Ah, obrigada." Então ela reparou na minha camisa. "É nova?"

“Comprei hoje. Gostou?”

Tinha tons de azul claro com flores de cerejeira em aquarela. Ainda floral e em sintonia com o tema da minha camisa havaiana, mas mais discreta. "Eu amo."

Me virei parcialmente e lancei-lhe um olhar sensual por cima do ombro. "Será que minha roupa diz 'que se dane a eloquência, só quero uma boa transa'?"

Ela riu. "Perfeitamente."

“Ótimo. Porque é esse o visual que eu quero.”

"Você vai conseguir terminar o jantar?"

“Não sei. Mas não ficarei desapontado se não acontecer.”

Ela fez a saudação de Katniss. "Que a sorte esteja sempre a seu favor."

Eu ri e ajeitei minhas calças jeans. "Mas falando sério, será que estou bem?" Agora que finalmente tinha tido tempo para parar e pensar, o nervosismo começou a me dominar.

Você está incrível. Pare de pensar demais nisso, Leo. Ele gosta muito de você.

“Deus, eu espero que sim.”

Kell desapareceu em seu quarto e saiu dez segundos depois vestindo o vestido. "Ele te disse para onde está te levando?"

“Não. Não exatamente. Ele apenas sugeriu um restaurante de macarrão perto da casa dele.”

“A que horas ele vai te buscar?”

“Sete e meia.” Verifiquei meu celular e soltei um suspiro nervoso. “Sete e vinte e três.”

Ela prendeu o cabelo comprido num rabo de cavalo despojado, domando os cachos loiros. "Você já cuidou de tudo: PrEP, lubrificante, camisinhas?"

Assenti com a cabeça. Kell e eu conversamos sobre tudo isso. "Sim. E você sabe que pode me ligar a qualquer hora se precisar, e eu irei te buscar, não importa a hora. Fiquem juntos, se cuidem."

“Sim, mãe”, disse ela carinhosamente.

"Divirta-se."

“Eu diria o mesmo para você, mas isso é óbvio.” Ela me deu um beijo na bochecha. “Vai em frente, minha querida. Vai lá e transa.”

Eu ri enquanto saía e ainda estava sorrindo quando entrei no carro de Merrick. Ele tinha parado na rua quando cheguei à calçada, então entrei direto. "Oi", eu disse, tentando não notar o quão particularmente lindo ele estava esta noite. Ele usava uma camisa azul-marinho de botões e jeans desbotados, seu cabelo curto era preto brilhante, seu sorriso, e seu cheiro...

Jesus. Eu estava pronto para pular o jantar e ir direto ao ponto.

"Ei", respondeu ele com a voz rouca. Olhou para mim como se quisesse me devorar. "Você está tão linda."

Sim. Direto ao ponto. Por favor, e agora mesmo, obrigado.

Ele soltou uma risada como se estivesse nervoso. "Eu disse a mim mesmo para tentar manter a calma. Isso não durou muito tempo."

“Deus, igual.”

Ele riu de novo, mas logo seu olhar se desviou para o retrovisor. "Putz." Havia um carro atrás de nós, então ele continuou dirigindo, o que foi uma boa distração. "Como foi o trabalho?"

"Tão ocupada. Na verdade, estava uma loucura, mas talvez isso tenha sido bom, porque eu estava ocupada demais para pensar demais em tudo e ter um colapso nervoso antes de você me buscar. E você?"

Ele sorriu para mim. "Mais ou menos a mesma coisa."

A química entre nós era incrível. Fiquei surpresa por não haver faíscas de verdade. Meu coração estava acelerado, como se estivesse martelando; eu não conseguia respirar direito, minha pele estava quente por todo o corpo e tudo o que eu queria era rir. "Nossa!", eu disse, tentando recuperar o fôlego, com um sorriso bobo no rosto. "Então, onde vamos jantar?"

“É um bar de noodles com fusão asiática”, respondeu ele. “Tem de tudo. Você está com fome?”

“Sim, estou. Na verdade, não tive uma pausa para o almoço.”

“Bem, a comida deste lugar é incrível.” Ele olhou para minha camisa novamente antes de me encarar. “Eu gosto muito dessa camisa.”

Quase disse onde gostaria que terminasse, mas desisti. "Ah, obrigado."

Ele me lançou um olhar estranho. "O que é tão engraçado?"

"Nada." Eu ainda estava sorrindo e pensei: "Que se dane." "Eu só estava pensando... se você realmente gostar da minha camisa, ficarei muito feliz em deixá-la no chão do seu quarto esta noite."

Ele caiu na gargalhada, surpreso, mas divertido. "É mesmo?"

"É, desculpa. Cantadas bregas são horríveis."

“Não foi de todo ruim. Gostei da direção que a história estava tomando.”

Ele estacionou o carro e foi aí que percebi onde estávamos. Estávamos no estúdio dele, ou melhor, na casa dele. "Ah. A oferta da minha camisa no chão do seu quarto foi melhor do que um jantar? Porque, falando sério, eu não me importaria."

Ele riu novamente e saiu do carro. "Eu estaria mentindo se dissesse que não." Ele acenou com a cabeça na direção da rua. "Mas o restaurante fica a uma curta distância a pé."

Saímos do carro e eu me senti meio mal por ele ter vindo me buscar só para voltar direto para casa. "Eu poderia ter ido até a sua casa", eu disse.

Ele levou a mão ao coração. "Mas é um encontro. Meu pai sempre disse que eu tinha que namorar direito. Buscar a moça, levá-la para casa. Ser um cavalheiro, esse tipo de coisa."

"Tenho quase certeza de que seu pai estava apenas zelando pela sua virtude. Ao buscar sua namorada e depois levá-la para casa, você estaria minimizando o tempo que ela passaria na sua casa."

Merrick riu. "Talvez."

Olhei para o estúdio, para as janelas escuras, para a privacidade. E meu estômago vazio foi esquecido, porque dentro daquele estúdio de cerâmica ou melhor, no mezanino acima dele havia privacidade para beijar, tocar, saborear...

Apontei com o polegar para a porta da frente, onde havia uma placa de "fechado". "Se você quiser me levar lá para cima agora mesmo, eu posso te ajudar a encontrar essa virtude..."

Merrick soltou uma risada e agarrou minha mão. "Primeiro o jantar. Conversas e perguntas. Depois podemos nos preocupar com as virtudes."

Enquanto caminhávamos pela rua, Merrick segurava minha mão com firmeza. Entrelacei nossos dedos com cuidado, e a adrenalina, o nervosismo, a expectativa e a tensão sexual se manifestaram num sorriso malicioso.

O restaurante ficava a apenas um quarteirão de distância, mas não havia apenas um lugar para comer. Havia vários em ambos os lados da rua. Eu podia ver muitas pessoas, sorrindo e comendo, sentadas às mesas dentro de cada um deles. "Nossa, eu queria que eu e o Kell tivéssemos uma dúzia de restaurantes diferentes a um quarteirão de distância."

“Uma das vantagens de morar em uma área semi-comercial da cidade”, disse Merrick enquanto segurava a porta aberta para mim. “Significa que não preciso cozinhar com muita frequência.”

O restaurante estava cheio, mas felizmente Merrick tinha feito uma reserva. Fomos conduzidos à nossa mesa por uma mulher que conhecia Merrick pelo nome, e cada um de nós pediu uma Coca-Cola. "Você vem aqui com frequência."

Ele assentiu. "O japchae é de comer e chorar por mais. E o ramen shoyu é melhor que o da minha avó, mas se alguém perguntar, vou negar que disse isso."

Dei uma risadinha e tomei um gole da minha bebida. Por mais que eu quisesse que Merrick me levasse para o estúdio dele, fiquei muito feliz que ele tivesse optado por jantar primeiro. Ele tinha razão; haveria tempo para isso depois. Nos conhecermos melhor e termos certeza de que essa coisa entre nós era certa era importante demais para ignorar.

“Então”, comecei, “você queria conversar e fazer perguntas... O que você queria perguntar?”

"Tudo", respondeu ele simplesmente. "Quero saber tudo."

Meu Deus, isso pode ser perigoso. "Como assim?"

“Cor favorita?”

Dei uma risadinha irônica, porque não era isso que eu esperava que ele perguntasse. "Hum, depende. Estamos falando de Skittles? Ou de ter que escolher uma cor para usar pelo resto da vida? Porque os critérios de seleção são completamente diferentes."

Minha resposta claramente o surpreendeu. Ele quase se engasgou com a bebida. "Ok, desculpe. Eu deveria ter sido mais específico. Qual a sua cor favorita de Skittle?"

“As roxas, é claro.”

"Claro."

"Seu?"

"Laranja."

“O menos favorito?”

"Amarelo."

“Ninguém come os Skittles amarelos.”

Ele sorriu. "M&M's de cor favorita?"

“As normais ou as de amendoim?”

“Ambos. Qualquer um.”

“Prefiro as de amendoim, para ser sincera. As azuis são as minhas favoritas. E as suas?”

“Eu prefiro os M&M's normais e como os marrons primeiro. Os vermelhos são os últimos a acabar, e todas as outras cores são escolhidas aleatoriamente.”

“Ooh, caos organizado. Gostei disso.”

Merrick riu novamente. "E se você tivesse que escolher uma cor para usar todos os dias pelo resto da vida?"

“Provavelmente azul. É mais adaptável a diversas situações. Adoro toques de rosa, mas usar rosa da cabeça aos pés todos os dias, para sempre, seria um pouco demais.”

“Concordo. Muito Umbridge.”

Agora fui eu quem riu. "Meu Deus, eu nem tinha pensado nisso. Ela era tão má."

A garçonete voltou e anotou nosso pedido, mas como nem tínhamos olhado o cardápio, Merrick pediu para nós dois. Achei que seria interessante ver o que ele escolheria, o que ele achava que eu gostaria.

“Ok, agora é minha vez de fazer uma pergunta. Histórico de relacionamentos. E vamos lá...”

Ele fez uma careta. "Uau, ok. Pode entrar de cabeça."

“Bem, já falamos sobre Skittles e M&M's, então não há mais para onde ir, na verdade.”

Ele deu uma risadinha. “É verdade. Mas, honestamente, não tem muito o que contar. Meu trabalho e os negócios ocuparam cem por cento do meu tempo nos últimos quatro anos. Bem, cinco anos se você contar o planejamento. O que soa muito triste, mas não é. Não foi bem uma escolha. Eu estava... ocupada. Sete dias por semana, dia e noite. Quer dizer, teve alguns caras ao longo dos anos... mas nada sério e nada mais do que uma vez.” Ele pigarreou. “Isso soa mal, desculpe. Mas antes disso, eu tive um namorado por um longo tempo. Ficamos juntos por quatro anos, mas não era o que queríamos. Foi o meu término com ele, no fim das contas, que me deu o impulso para abrir o estúdio. Sabe, aquele momento de 'o que eu realmente quero fazer da minha vida'.” Ele suspirou e me deu um meio sorriso. “Como eu disse. Bem chato. E você?”

“Meu histórico amoroso? Não tem muito o que contar. Tive dois namorados sérios na minha vida. O primeiro logo depois do ensino médio, o segundo quando eu tinha 23 anos. Ambos duraram cerca de dois anos, sem finais trágicos, simplesmente seguimos nosso curso. E nos últimos anos, ou saio com o Kell ou com o Clyde. Também tenho folgas em dias alternados e trabalho nos fins de semana, o que dificulta passar tempo com alguém. Sabe o que quero dizer?”

“Com certeza. Sei exatamente o que você quer dizer. Você precisa encontrar alguém que também trabalhe nos fins de semana e que possa conseguir folgas nos dias que coincidirem.”

Corei. "Na verdade, estou trabalhando nisso."

“Ah, que sorte a dele.”

“Que sorte a minha.”

Seu sorriso se contorceu pensativamente, seus olhos escuros encontraram os meus, e eu sabia que o que quer que ele estivesse prestes a dizer seria intenso. "Uma pergunta hipotética. Se você viesse à minha casa hoje à noite e descobrisse que só tenho beliches, você preferiria a cama de cima ou a de baixo?"

Nossa. A pergunta dele me deixou toda arrepiada, meu estômago embrulhou, meu coração apertou. Por cima ou por baixo? Ele realmente precisava perguntar? Quer dizer, não era educado presumir nada, mas ele me dava a impressão de ser o ativo. Talvez minha roupa não estivesse tão convidativa quanto eu pensava. Meu nervosismo se dissipou em uma risada. "Com certeza, a cama de baixo. Nunca gostei de dormir na de cima, então, sim, a de baixo. Com certeza absoluta."

Merrick se remexeu na cadeira e pigarreou. "Fico muito, muito feliz que você tenha dito isso." Ele puxou a gola da camisa. "Está quente aqui?"

"Um pouco." Respirei fundo e tentei acalmar meu coração antes que ele parasse de bater. "Então, hum... Hipoteticamente, vocês têm beliches?"

Ele balançou a cabeça, rindo. "Não."

“Fico muito feliz em ouvir isso também.”

“Há muitas minúcias.”

"Espero que haja mais tarde." Dei um gole na minha bebida e observei enquanto ele tentava controlar sua expressão.

“Jesus.” Suas bochechas estavam rosadas, seus olhos eram ônix, e sua língua apareceu, umedecendo o canto da boca. Então, ele olhou ao redor da sala. “Cristo, onde está nossa comida?”

E, pontualmente, a garçonete apareceu com dois pratos. Um era um prato de macarrão cujo nome eu não conseguia me lembrar, e o outro era de guioza cozido no vapor com diferentes molhos para mergulhar. Tudo tinha um cheiro delicioso.

Peguei meus hashis e decidi que deveríamos tentar uma conversa que não descambasse para insinuações sexuais. "Então, uma pergunta que não é hipotética", comecei enquanto escolhia um bolinho de massa. "Por que cerâmica? O que você ama em trabalhar com argila?"

Ele terminou de servir um pouco de macarrão do prato compartilhado em sua tigela menor. Parecia ponderar sobre a resposta. "Adoro como ele pode ser moldado em coisas práticas e úteis. Adoro como ele pode se transformar em outra coisa. A arte da argila existe há milhares de anos, presente em quase todas as culturas antigas de alguma forma, e adoro que ela nos conecte."

Eu o encarei. "Uau."

Ele corou novamente e soltou uma risada nervosa. "Eu adoro a sensação", continuou. "É familiar e reconfortante, e me relaxa. Sentar no meu torno, moldando argila, é uma alegria simples para mim. E o processo de queima sempre me empolga. Você nunca sabe realmente o que vai sair. Posso usar diferentes texturas e adicionar diferentes elementos de queima, como madeira ou folha de alumínio, cobre ou folhas, e é sempre algo diferente." Ele me deu um sorriso radiante. "E envolve todos os elementos. Água, terra, ar e fogo. Há algo nisso que me atrai."

Eu não conseguia acreditar no que ele estava dizendo. Não exatamente no que ele disse, mas em como ele disse. Na paixão descarada que ele demonstrava. "Estou com inveja", admiti, e então percebi como isso soava. "Não da argila. Bem, talvez um pouco. Mas de você ter algo pelo qual seja tão apaixonado."

“Não?”

“Na verdade não. Não desse jeito.”

“Talvez você ainda não tenha encontrado.”

“Espero que sim. Quer dizer, eu gostaria.”

Ele deu outra garfada e mastigou pensativamente antes de engolir. "O que você queria ser quando era mais jovem?"

“Rapunzel.”

Ele riu. "E como isso está funcionando para você?"

Baguncei meu cabelo. "Nunca consegui deixar meu cabelo crescer muito, o que era essencial para o papel."

Ele sorriu com a boca cheia de bolinho. "Mais ou menos, sim. Embora seja discriminatório para quem tem problemas de calvície."

“É bem verdade. E esperar pelo meu príncipe encantado foi um fracasso.”

“Para não mencionar que é irrealista.”

“Totalmente irrealista. Nem todas as princesas precisam ser resgatadas.”

Merrick sorriu. "E nem todos os príncipes são heróis."

“E certamente nem todos chegam montados em seus fiéis cavalos, vindos de seus castelos distantes”, acrescentei. “Às vezes, dirigem um Ford Focus e são donos de uma loja de cerâmica.”

Então ele riu. "Você está batendo no meu carro?"

“De jeito nenhum. Aliás, se a Disney fosse adaptar seus clássicos de princesas para o século XXI, o fiel cavalo branco com certeza seria agora um Ford Focus azul.”

“E as princesas delas poderiam ser meninos de cabelo curto, se assim o desejassem.”

“Com certeza.”

Merrick me encarou por alguns longos segundos. Havia apenas gentileza e um leve divertimento em seus olhos. Comemos em silêncio por um tempo, até que eu joguei o guardanapo sobre o prato em sinal de derrota. Merrick deu mais uma garfada e fez o mesmo. "E a comida, o que você achou?"

Tínhamos comido quase tudo o que nos havia sido oferecido. "Perfeito. Já comeram o suficiente?"

Ele assentiu com a cabeça. "Sim."

O que significava que era hora de ir embora... o que significava que era hora de voltar para a casa de Merrick...

Um frio na barriga deu um nó. Dividimos a conta e saímos para a noite fresca de Brisbane. Havia uma brisa suave, risadas vinham de um dos restaurantes e a rua tinha uma atmosfera hipster agradável, embora escurecesse um pouco perto da casa do Merrick. "Deve ser muito legal morar tão no centro. Dá para ir a pé para qualquer lugar."

“Os restaurantes e cafeterias são relativamente novos. Começaram a surgir depois que comprei meu estúdio, o que é ótimo para os negócios.” Merrick entrelaçou sua mão na minha, unindo nossos dedos. “Tudo bem assim?”, perguntou. “Algumas pessoas não gostam muito.”

Apertei os dedos dele. "Para mim, está mais do que bom." E estava mesmo. Fazia anos que eu não segurava a mão de alguém, e me dava uma sensação incrível fazer isso agora. "Eu gosto."

“Eu também”, respondeu ele.

Seu estúdio apareceu à vista, e meu nervosismo aumentou ainda mais. Toda aquela conversa, toda a expectativa, estava prestes a se tornar realidade. Quando paramos na porta da frente do estúdio, Merrick pegou as chaves do bolso, olhou para o meu rosto e parou. "Você está bem?"

"Nervoso."

"Você é mesmo?" Ele pareceu não acreditar em mim. "Antes você só falava. Como se quisesse isso. Nós certamente não precisamos—"

"Eu quero", deixei escapar. "Só estou nervosa, isso é tudo. No bom sentido. Sabe, aquela expectativa. E toda a conversa anterior foi fácil. Agora tenho expectativas com as quais me preocupar."

Ele sorriu. "O seu ou o meu?"

“Suas expectativas em relação a mim.”

Você costuma pensar demais nas coisas?

“O tempo todo.”

Merrick destrancou a porta e entrou. Digitou um código de segurança e segurou a porta aberta para mim. A pequena área do café era familiar, mesmo no escuro. Assim que as portas foram trancadas novamente, Merrick pegou minha mão e me conduziu até a longa mesa de trabalho no estúdio, onde tínhamos nos sentado para fazer nossos vasinhos de barro.

Com a bunda encostada na mesa, sentei-me e ele ficou de pé entre as minhas pernas. "Antes de subirmos, quero que saiba que não precisamos fazer nada. Podemos só conversar ou só nos beijar. Não há pressão para fazermos mais nada. Nem precisamos subir se você não quiser. Posso te levar para casa a qualquer hora."

"Eu quero."

"Mas?"

“Não tem jeito. Eu simplesmente penso demais nas coisas, e já faz um tempo que não faço isso, então eu estava um pouco nervosa.”

Os lábios de Merrick se contorceram e ele suspirou. "Posso sugerir algo?"

"Claro."

“Que tal esperarmos?”

“Esperar o quê?”

Ele fez uma careta "Antes de fazermos sexo."

“Um, okay.”

“Você não parece convencido.”

“Não pense que precisa fazer isso por mim. Eu sei que nós dois dissemos que gostaríamos de esperar, tipo um terceiro encontro ou algo assim, mas, bem, agora eu não sei...”

“Leo, eu só não quero apressar as coisas.” Ele engoliu em seco. “Isso é estranho?”

"De jeito nenhum", eu disse, balançando a cabeça. "Não quero que você faça nada com que não se sinta confortável."

"Não tenho problema nenhum em fazer... outras coisas. Outras coisas sexuais, mas não... sexo com penetração. Prefiro conhecer o cara primeiro e não quero apressar as coisas."

“Que tipo de coisas sexuais?”

Merrick deu uma risadinha. "Bem, eu gosto de orgasmos."

Dei uma risadinha irônica, porque não era isso que eu esperava que ele dissesse. "Que coincidência. Eu também!"

Ele deu uma risadinha, mas seus olhos estavam ternos. "Eu me sinto confortável fazendo coisas sem roupa. Mas eu já tive casos de uma noite só, Leo. E eu não quero isso com você."

"Oh."

Ele passou o polegar pela minha bochecha. "Quero mais do que apenas uma noite."

"Eu também."

“Para mim”, explicou ele, “estar dentro de alguém é algo pessoal e profundo. Eu quero essa conexão. Sei que muitos caras não concordam com isso.