29 de jul. de 2026

The Stranger's Homeward Journey - Capítulo 18

Capítulo 18

Ele olhava para a mesa de pedra e a cadeira de balanço no pátio, com a mente distante. A cena familiar diante dele puxou seus pensamentos para muito longe.

No estúdio silencioso só se ouvia o som suave da ponta do lápis raspando no papel. Luo Shao Heng desenhava livremente as cenas que tinha no coração. Sob sua caneta, o esboço simples de um restaurante foi tomando forma. Depois de corrigir alguns erros de proporção, ele trocou o lápis e refez o contorno, firmando as linhas antes frágeis. O balcão, as mesas, as cadeiras, os vasos de plantas do salão foram ficando cada vez mais nítidos e detalhados.

Ao terminar o desenho, prendeu a folha em outro cavalete e voltou a trabalhar, dessa vez esboçando o pátio: a varanda comprida, o balanço, a mesa de pedra...

Quando Shen Mu Cheng voltou, encontrou Luo Shao Heng concentrado contornando o desenho. Ao lado, ainda estava uma caixa de miojo pela metade. Era óbvio que ele não tinha saído o dia todo e tinha passado o dia matando a fome só com miojo.

As sobrancelhas de Shen Mu Cheng se franziram. Ele estendeu a mão e segurou a mão de Luo Shao Heng que dançava sobre o papel:
— Chega.

Quando estava desenhando, Luo Shao Heng quase não ouvia nada ao redor, então nem percebeu que Shen Mu Cheng tinha chegado. Com a mão presa, ele simplesmente parou o lápis e ergueu a cabeça:
— Quando você chegou?

— Agora.

— Que bom que chegou. Olha só — Luo Shao Heng puxou a mão dele para baixo, mostrando com orgulho a obra do dia.

Shen Mu Cheng não se mexeu. Apontou com o queixo para o miojo do lado:
— Você só comeu isso hoje?

— Comi, sim. E estava gostoso — Luo Shao Heng ainda estava imerso no desenho e não percebeu a expressão dele. Fazia muito tempo que não comia miojo, e de vez em quando até achava o gosto bom.

— É mesmo — a voz de Shen Mu Cheng não demonstrava emoção. — Então esse mês inteiro você vai comer só isso.

Pela entonação, ficou claro que ele não ia cozinhar mais nesse mês. Luo Shao Heng só então caiu na real. Rápido, abraçou a cintura dele:
— Não, não, não. Acho a sua comida muito melhor que miojo. Só comi hoje porque você não estava. Na verdade é horrível.

Shen Mu Cheng bufou, não comprando a lábia dele. Luo Shao Heng esquecer de comer e dormir por causa dos desenhos não era de hoje. Se ele continuasse mimando assim, o outro ia se acostumar mal. E se um dia ele tivesse que viajar a trabalho, nem imaginava com o que aquele homem ia se alimentar.

Vendo que ele ainda estava carrancudo, Luo Shao Heng se levantou, segurou o rosto de Shen Mu Cheng e deu um beijo. Tentou acalmá-lo:
— Não fica assim, tá? Eu prometo que da próxima vez vou comer na hora certa.

Shen Mu Cheng sabia que insistir não adiantaria. Mudou de assunto:
— O que está desenhando?

Ao ouvir isso, Luo Shao Heng se animou. Pegou os dois desenhos prontos e mostrou:
— Olha, eu projetei um restaurantezinho.

O desenho de Luo Shao Heng era extremamente detalhado. Tanto o pátio com o lago artificial, a mesa de pedra e a cadeira de balanço, quanto o salão com o balcão, a adega e os enfeites nas vigas. Até o desenho do vaso no canto da parede estava claro. Dava para ver o quanto ele tinha se dedicado.

— O que é isso? — Shen Mu Cheng perguntou mesmo já sabendo.

— Um restaurante! Esse é o salão, esse é o pátio — Luo Shao Heng foi explicando ponto por ponto. — Não combinamos ontem à noite? Que no futuro a gente ia abrir um restaurante. O chef ia cozinhar para os clientes, e você ia cozinhar pra mim!

— Combinamos? — Shen Mu Cheng revirou os olhos, fingindo que não lembrava de nada.

— Combinamos, sim! — Luo Shao Heng ficou aflito ao ver que ele não lembrava. — A gente combinou sim. Você esqueceu?

Shen Mu Cheng franziu a testa como se pensasse:
— Quando? Onde?

— Ontem à noite, na cama... — Luo Shao Heng calou a boca de repente. Ao ver o meio sorriso de Shen Mu Cheng, percebeu que tinha caído na armadilha. Arrebatou os desenhos da mão dele e virou de costas:
— Se não lembra, dane-se. Eu abro sozinho. Você nem se mete.

Shen Mu Cheng riu baixinho. Abraçou-o por trás e beijou a orelha dele:
— A gente falou mesmo ontem à noite? Eu só lembro de você dizer...

A última frase foi tão baixa que só os dois ouviram. O rosto de Luo Shao Heng ficou vermelho na hora. Ele se desvencilhou:
— Como você pode ser tão sem vergonha? Como consegue falar esse tipo de coisa... — o resto das palavras foi abafado pela boca e pela língua de Shen Mu Cheng.

Shen Mu Cheng apertou de leve a cintura dele, beijando-o fundo, a língua brincando de forma ousada dentro da boca do outro. Só o soltou quando Luo Shao Heng já estava ofegante. Passou o polegar no lábio inferior dele, vermelho e inchado de tanto beijo, e riu baixo:
— Tudo como você quiser.

Luo Shao Heng mordeu de leve o dedo dele e lambeu, resmungando:
—...Agora sim.

[...]

Ao passar pelo pátio, Luo Shao Heng parou na entrada do salão. Parecia que toda a força do corpo tinha sido sugada. As pernas não conseguiam dar mais um passo à frente.

Cenas que o tempo tinha deixado borradas ficaram de repente nítidas. Os beijos íntimos ainda traziam o calor que fazia o coração acelerar só de lembrar. Ver o que ele tinha desenhado se tornar real diante dos olhos foi um choque indescritível.

Mesmo com pequenas mudanças, tanto o pátio quanto o salão mantinham a estrutura geral igual. Ele até sentia que não precisava entrar para saber onde cada objeto estava.

— Essa é a loja do Shen Mu Cheng.

Sem motivo algum, Luo Shao Heng teve essa certeza no coração. Igualzinho à gelatina de coco com vinho de arroz da última vez.

Shen Mu Cheng percebeu que ele não tinha seguido e olhou para trás:
— O que houve?

— Nada, só achei que esse lugar tem muito estilo — Luo Shao Heng se aproximou, fingindo indiferença. — O dono tem bom gosto. — Disse isso e riu sozinho, porque afinal o projeto era dele. Estava se elogiando.

— Gostou? — Shen Mu Cheng perguntou.

— Gostei muito — Luo Shao Heng respondeu com firmeza.

Com essa resposta, a expressão de Shen Mu Cheng suavizou e ele ficou de bom humor.

Os dois seguiram o garçom até uma sala privativa. Como Luo Shao Heng imaginava, o layout era praticamente igual ao do desenho que ele tinha feito. Até a posição dos quadros na parede era a mesma.

Ver tudo aquilo trouxe a mesma sensação de quando comeu a gelatina de coco com vinho de arroz na Suíça. Felicidade misturada com perda.

Por que Shen Mu Cheng lembrava de tudo o que eles tinham planejado juntos, mas só não lembrava dele? Será que ele não era tão importante quanto aquelas coisas?

Mesmo sabendo que não fazia sentido, Luo Shao Heng ficou remoendo. Durante o jantar até sorria, mas não conseguia esconder a tristeza sutil no olhar.

Os dois que já foram os mais apaixonados... Agora só ele lembrava do passado.

Stand by Your Side - Capítulo 08

Capítulo 08: Voz Fantasma


Numa noite abafada de início de outono, o salão principal do templo estava iluminado. No incensário sobre o altar dos deuses, a fumaça dos incensos se enrolava no ar. Sobre a mesa estavam taças de vinho para oferenda, instrumentos rituais e papel-moeda de oferenda.

Gu Butao vestia as roupas de taoísta. Com os olhos bem fechados, balançava com força o sino ritual. Ao lado, fiéis tensos buscavam ajuda.

O som do sino cortava o espaço, guiando as almas perdidas a seguirem o chamado. Num salão sem vento, a chama das velas sobre o altar de repente tremeluziu. O sino parou. Gu Butao se concentrou para ouvir.

Lá fora do templo, um trovão rasgou o céu limpo.

Gu Butao havia assumido o templo há pouco tempo, mas desde pequena acompanhava o avô e tinha anos de experiência como assistente do irmão mais velho do mestre. Foi sua primeira vez conduzindo um ritual sozinha, e já o fazia com muita destreza.

Por ser jovem, alguns fiéis duvidavam se ela daria conta do cargo de líder do templo. Mas ela já estava provando seu valor com competência.

Enquanto Gu Butao conduzia o ritual, Gu Buxia tomava banho feliz, cantarolando. Lá fora do dormitório também soou um estrondo de trovão. Dentro do box, um ruído fraco, parecido com chiado de rádio sintonizando, surgiu.

Um calafrio silencioso o atingiu. Mesmo com a água morna caindo, Gu Buxia tremeu inteiro. Estranhou e aumentou a temperatura da água.

Continuou cantarolando. O som da água batendo parecia isolá-lo do mundo. Ele se entregou à própria canção.

De repente, entre o som puro da água, pareceu ouvir vagamente vozes humanas, como se viessem de uma estação de rádio.

Para confirmar se não tinha ouvido errado, Gu Buxia parou de cantar e fechou o chuveiro para escutar.

Plic —
Plic —
Plic —

O banheiro ficou em silêncio total. Só restou o som das gotas caindo, ecoando baixinho.

“Eu não aceito... Eu não quero ir pro inferno!”

“Eu quero justiça... eu quero vingança...”

Desta vez ouviu claramente as palavras misturadas ao chiado. Gu Buxia esticou a cabeça procurando a origem do som. De repente, outro calafrio percorreu seu corpo e arrepiou tudo.

Ele se secou às pressas e vestiu a roupa de qualquer jeito.

“Quem foi o sem-noção que deixou uma radionovela tão alta?!” Olhou para todos os lados e, não achando a fonte do som, reclamou em voz alta.

Pouco depois desistiu de procurar. Mas ao sair do banheiro, o chiado e as vozes ficaram ainda mais claros. O rosto dele mudou.

“Eu quero reclamar... tomei choque por causa de vazamento...”

“Eu... tô... com... frio... ah...”

A voz ressentida era tão nítida que parecia falar direto no ouvido dele. Assim que caiu a ficha, Gu Buxia ficou com o rosto duro, correu de volta pro quarto, jogou as coisas no chão e pegou o celular às pressas. Com os dedos tremendo, destravou a tela e ligou para Gu Butao.

Agachou-se no chão e se encolheu. Com a mão esquerda puxou por costume o amuleto do pescoço. Nesse puxão, percebeu que o cordão tinha arrebentado em algum momento.

Gu Butao tinha acabado de atender os fiéis e, ao ouvir o telefone tocar, atendeu enquanto varria.
— O que houve —

— Irmã, o selo quebrou? — Gu Buxia perguntou ansioso.

Ao ouvir isso, o cabo de vassoura de Gu Butao caiu no chão.
— Quebrou... quebrou... quebrou?! — ela entrou em pânico.

— Ontem quando voltei tive febre. Aí hoje comecei a ouvir umas vozes estranhas no ouvido, um falatório... e... — a mão de Gu Buxia afrouxou e o amuleto caiu no meio das roupas. — Meu amuleto também arrebentou... — ele arregalou os olhos e tentou achar o amuleto no meio das roupas.

Gu Butao correu até o altar. Na pressa até derrubou uma cadeira, mas não ligou. Vasculhou rápido e achou o talismã de Gu Buxia.

Ao confirmar que só uma pontinha tinha queimado e não havia mais nada, ela o recolocou com culpa.
— Você disse que está ouvindo as vozes deles?

Gu Buxia abaixou a cabeça, segurando firme o amuleto quebrado. O pesadelo da infância tinha voltado. Assentiu, apavorado e sem saber o que fazer, sem ousar olhar para os lados.

Do outro lado da linha só se ouvia a respiração ofegante. Gu Butao estava preocupada.
— Você... se acalma. — De repente parou. Respirou fundo e estabilizou a voz. — O avô dizia que quem assumisse o templo teria que ajudar a resolver os casos. Nós sabemos que você tem medo, então eu me ofereci: "eu faço, eu faço". Ontem à noite eu queimei meu talismã. Agora eu consigo ouvir e ver e conversar com eles.

Gu Buxia levou a mão ao peito e ouviu com atenção. Depois de ouvir aquele desabafo rápido, não entendeu nada.
— E daí? Você queimou o seu, eu selei o meu. O irmão mais velho não reforçou meu selo?

No ouvido dele o chiado de rádio voltou. Ele tremeu de medo.

— Eu queimei meu talismã e quebrei o selo, mas...

— Mas o quê, fala direito! — vendo Gu Butao enrolar, ele ficou irritado de tão nervoso.

— Eu... sem querer queimei um pouquinho do seu talismã. Foi só um pouquinho mesmo. Achei que não ia dar nada... De qualquer forma, você aguenta. Pensa que é só um podcast de histórias de terror. Pelo menos agora você só ouve, não vê... — Gu Butao pensava em como remediar enquanto tentava acalmá-lo. — Ah, a irmã vai dar um jeito. Espera, espera!

Gu Buxia ficou desesperado. Antes de conseguir perguntar mais, a ligação caiu. Ele arregalou os olhos e ligou de novo.

[O número discado está fora da área de cobertura. Tente mais tarde]

Uma voz conhecida. Gu Buxia desligou, furioso.

De repente, ele tremeu inteiro. O chiado de sintonia voltou no ar. Ele esfregou os braços. As vozes fantasma soaram nítidas de novo.

“Quem me trouxe pra um lugar desses...”

“Eu quero justiça, eu quero vingança...”

“Me ajuda a pedir indenização pra escola...”

“Meu túmulo está alagado, tô com tanto frio...”

“Você consegue me ouvir?”

“Você pode passar o recado por mim?”

“Ou você consegue me ver?”

Aquelas vozes terríveis ecoavam no vazio, se sobrepondo. Vozes de homem e mulher, jovens e idosos. Gu Buxia contou umas três ou quatro “vozes fantasma” diferentes grudadas nele. Falavam perto e longe, ora animadas ora apressadas. Ele respirou fundo e se forçou a ignorar.

Por algum motivo, aquelas vozes não ficavam 24 horas. Se ignorasse, mais tarde sumiam sozinhas. Na infância ele sobrevivia assim, até o avô selar o dom dele.

Naquela noite Gu Buxia sofreu muito. Pode-se dizer que rastejou até a cama. Ao deitar, se cobriu inteiro com o cobertor e ficou tremendo.

As vozes ecoavam. Mesmo através do cobertor, as falas estavam claras.

Gu Buxia fechou os olhos com força. Tinha medo de ver alguma cena horrível se desse mole, tipo alguém deitado na cama olhando pra ele.

As vozes reais, o frio e o medo tomaram conta do coração. O cérebro captou tudo e começou a imaginar cenas de terror sozinho. Ele quase chorou de medo.

Clac —

De repente ouviu a porta abrir. Gu Buxia quase pulou da cama de susto. Segurou o cobertor e prendeu a respiração.

Os passos entraram e ficaram circulando só numa parte do quarto. Quando percebeu que era Jiang Chi voltando do trabalho, suspirou aliviado.

“Ouviu? Esse pirralho ouviu, né?”

“Me ajuda... eu fui injustiçado...”

“Frio... huuu... tô morrendo de frio...”

As vozes fantasma continuavam barulhentas. A cabeça de Gu Buxia latejava. Ele se forçou a prestar atenção nos sons de Jiang Chi: passos, pegando coisas, arrastando a cadeira, folheando livro. Qualquer coisa para distrair das vozes apavorantes.

Ficou assim um tempo. Até que, finalmente, ficou quieto. A temperatura ao redor normalizou. Com os nervos relaxando, ele apagou de sono.

Jiang Chi olhou para a cama do outro lado.

Desde que ele chegou, o volume sob o cobertor não parava de se mexer. Só agora tinha parado.

Não sabia se Gu Buxia tinha acabado de dormir ou se estava dormindo mal. Pensou em ir ver se ele estava passando mal, mas agora parecia que estava tudo bem.

— Até pra dormir tem que chamar atenção. — Jiang Chi balançou a cabeça e voltou a estudar.

Naquela noite, depois que Gu Butao desligou, ela não achou solução. Gu Buxia teve que continuar vivendo com o selo quebrado num cantinho.

Pra ele foi um inferno.

Desde pequeno ele tinha pavor de fantasmas. Agora, toda vez que o chiado começava, morria de medo. E o pior: o som não escolhia hora nem lugar, e isso deu muita dor de cabeça pra ele.

De dia a escola estava cheia de gente, mas na verdade era um lugar que atraía coisa ruim. “Fantasmas” gostam do calor humano, têm apego à vida que tinham. Por isso ficam onde tem muita gente, especialmente em lugares cheios de dia e silenciosos e frios à noite.

O avô sempre contava isso quando ele era criança. Gu Buxia sabia muito bem.

Mesmo querendo fugir da escola, não sabia pra onde ir. Por enquanto só podia aguentar até Gu Butao achar uma solução.


S.C.I. Mystery Files Vol. 01 - Capítulo 18

Capítulo 18: Confusão


Quando Zhan Zhao e Bai Yutang chegaram ao aeroporto, já era 1h da manhã. E o Salão de Chegadas estava praticamente vazio. Os dois deram algumas voltas pelo local, mas não havia sinal de Bai Jintang.

— Onde ele está? — Bai Yutang perguntou, olhando ao redor.
— Talvez ele tenha ido embora sozinho? — Zhan Zhao sugeriu.
— Isso é improvável. Ele sempre me espera.
— Você já se atrasou 12 horas antes?
—...Bem, não... — Bai Yutang coçou a cabeça — Meu recorde anterior foi de 8 horas.

— Pra onde ele iria? — Zhan Zhao disse enquanto conferia o relógio. — Da última vez que me lembro, ele não tem casa aqui.
Bai Yutang deu de ombros.
— Ele só volta uma ou duas vezes por ano, então geralmente fica no meu alojamento.
— E se ele foi te procurar?
— Isso seria ainda pior! Ele não tem o menor senso de direção!
— Liga pra ele?
— Ele não carrega celular... Geralmente são os subordinados dele que ficam com o aparelho.
— Subordinados? Eu nunca vi ele com ninguém por perto.
— É porque ele não os traz quando volta pro país.

Diante disso, nada que Zhan Zhao pudesse fazer.
— Vamos chamar a polícia...
— Eu acho... que eu sou a polícia...


...

Justamente quando os dois não sabiam o que fazer, um “miau~” veio do celular de Bai Yutang — uma mensagem?
Zhan Zhao se inclinou para olhar e também pegou o próprio celular. Era uma mensagem de Zhao Hu: `>_< |||||||| Tem um incêndio…`

Bai Yutang olhou para Zhan Zhao.
— O que isso quer dizer?
Zhan Zhao balançou a cabeça, igualmente confuso.

“Miau~”

Outra.
Mensagem de Jiang Ping: `╥﹏╥ …voltem logo`

Os dois trocaram um olhar... um pressentimento nada bom...

17º andar da delegacia, Setor de Medicina Legal.

Um bisturi brilhante desce com um reflexo frio e ossos, tendões, músculos e gordura são todos separados em pedaços.
A mistura sangrenta de carne é então despejada em uma pasta branca leitosa.
Acende-se o bico de Bunsen, monta-se o forno e despeja-se um líquido inflamável amarelado.
Pega-se a carne pegajosa e coloca-se no líquido borbulhante. Uma nuvem de fumaça sobe com um chiado.
Depois de um tempo, as partes do corpo estavam douradas e foram retiradas para serem refogadas em um molho vermelho espesso... depois de adicionar um pouco de cebolinha, são servidas em um béquer.

Gongsun estava encostado na mesa de dissecação com um relatório na mão, lendo o relatório enquanto comia um pedaço de costelinha agridoce com uma pinça.

Todo mundo parado na porta correu para o banheiro tapando a boca com as mãos. Só Bai Jintang permaneceu na porta, tão refinado e composto como sempre. Gongsun ergueu o olhar para ele e perguntou enquanto batia no béquer com a pinça:
— Quer um pouco?

Depois de respirar fundo, Bai Jintang respondeu com calma, embora pálido:
— Eu não como coisas doces.

— Também posso fazer Mapo Tofu. Quer provar?

...Bai Jintang balançou a cabeça em silêncio...

“Ârgh~~~” Todo mundo que tinha acabado de voltar do banheiro ouviu isso e... imediatamente deu meia-volta e voltou correndo para o banheiro.

Bai Yutang e Zhan Zhao estavam voltando a toda.

“Miau~”

Mais um texto.

— Lê, Gato! — Bai Yutang estava com as duas mãos no volante, então fez um gesto para Zhan Zhao pegar o celular no bolso dele.

Desta vez era de Zhang Long: `>口< @@@@@@@ Me salva!`

“Miau~”

Outro?

De Ma Han: `-O-~~~~~~~ Socorro!!`

Zhan Zhao parecia bastante confuso com as mensagens.
— O que diabos eles estão tentando dizer?

Bai Yutang suspirou.
— Acho melhor eu acelerar.

Quando as pessoas que tinham terminado de vomitar saíram do banheiro, foram recebidas com a cena de Bai Jintang sentado em cima de uma mala grande, olhando para o nada.

Zhao Hu se aproximou dele de forma entusiasmada e ofereceu:
— Irmão, por que não espera lá dentro? Eu te ajudo a carregar a bagagem.

Bai Jintang se levantou e Zhao Hu foi pegar a maior mala.
Ele não conseguiu levantá-la com uma mão... Com as duas mãos... Ainda não conseguiu.

— Eu cuido dessa. Que tal você me ajudar com a menor? — Dito isso, Bai Jintang levantou facilmente a mala maior com uma mão só.

...

“Miau~”

Texto de Zhao Hu: `@口@……Por quê??`

— O que você acha que aconteceu? — Zhan Zhao perguntou curioso enquanto lia aquelas mensagens curtas.

— Se segura, Gatinho! — e Bai Yutang pisou fundo no acelerador.

...

Zhao Hu, ferido no orgulho, pegou a bagagem menor, que era uma caixa preta retangular com alguns furos.

De repente, a caixa se mexeu sozinha.

??

Zhao Hu achou aquilo estranho. O que tinha dentro? Olhou mais de perto... parecia ter um trinco e ele esticou a mão para abri-lo...

Com um estrondo alto, uma bola de pelo saiu voando.

“Aaaaaaah!!”

Seguindo o grito de Zhao Hu, todos foram recebidos com a visão de uma criatura parecida com um guaxinim saindo disparada da caixa.

— Pega ele! — Bai Jintang gritou enquanto corria.

Só se pode dizer que Bai Jintang era de fato o irmão mais velho de Bai Yutang, ou talvez só estivesse acostumado a mandar. Com uma ordem, todo mundo, exceto Gongsun, saiu correndo atrás do “guaxinim”.

Em um instante, o corredor fora da S.C.I. virou um caos.

Naquele momento, as portas do elevador abriram com um Ding e revelaram um homem de meia-idade imponente e de pele escura...

Vendo a bagunça além das portas do elevador, com Zhao Hu e Zhang Long no chão, Wang Chao e Ma Han grudados na parede e Jiang Ping segurando uma vassoura... Depois de cerca de 10 segundos de silêncio, Bao Zheng calmamente apertou o botão para as portas do elevador se fecharem.



“Miau~”

Com uma mão na alça do teto do carro e o celular na outra, Zhan Zhao disse:
— Adivinha de quem é dessa vez.

As palavras “De: Bao Zheng” estavam claramente na tela.

Bai Yutang ergueu uma sobrancelha.
— Talvez seja melhor não lermos?

Zhan Zhao revirou os olhos e abriu a mensagem: `╰_╯╬ ╬ Voltem pra cá AGORA!`

Bai Yutang estacionou o carro e os dois saíram correndo e entraram no prédio.

Quando as portas do elevador abriram no 17º andar, antes que pudessem sair, uma bola de pelo pulou neles.

Zhan Zhao o pegou por instinto e o bichinho aproveitou para se aconchegar nos braços de Zhan Zhao antes de soltar um satisfeito “Miau~~”

Zhan Zhao olhou para Bai Yutang e perguntou:
— Outra mensagem?

Bai Yutang apontou para a criatura nos braços dele e respondeu:
— Acho que veio dessa daí.

Zhan Zhao olhou para baixo e viu um gato parecido com guaxinim aninhado em seus braços.
— Um Ragdoll?

“Miau~~” O gato parecia gostar muito de Zhan Zhao, pois se esfregou carinhosamente no pescoço dele e até lambeu o queixo.

— Ei! — Bai Yutang pegou o gato pela nuca.


“Miaaaau~” O gato mostrou as garras de forma ameaçadora, querendo arranhá-lo.

— Chefe! Não solta ele! — Zhao Hu gritou de fora do elevador enquanto segurava a caixa.

Bai Yutang ergueu a cabeça e só então viu que o escritório estava um caos, os membros estavam desgrenhados... Ele soltou um rugido de fúria:
— Que porra é essa com esse gato!

Justo quando ia sair do elevador com o gato, ouviu uma voz carismática vinda do corredor:
— O gato se chama Ruben, um Ragdoll Birmanês. É um presente para Zhan Zhao.

Bai Yutang congelou na hora.
Pela voz dava para perceber o quão bravo Bai Jintang estava. Aquele tom... Ele tinha acabado de fazer um voo de 11 horas, esperou no aeroporto por 12 horas e a S.C.I. devia estar um caos agora há pouco... O que significava que o irmão dele não dormia há 24 horas e a falta de sono o deixava incrivelmente irritável.

— Gato, pega! — Bai Yutang recuou de volta para dentro do elevador num instante, fechando as portas com um único pensamento na cabeça: “Corre!”

Porém, bem antes das portas se fecharem.

Pá!

Um par de mãos as segurou.

Zhan Zhao se encolheu num canto do elevador, abraçando o gato com força, enquanto Bai Yutang apertava desesperadamente o botão de fechar, mas...

Aquele par de mãos fortes já tinha forçado a abertura das portas. Bai Jintang espiou para dentro com um sorriso aterrorizante no rosto.
— Faz tempo... Yutang.

— Ge... Por favor, se acalma... — enquanto recuava para o lado de Zhan Zhao — Gato, fala alguma coisa!

Zhan Zhao correu para o outro canto do elevador com o gato nos braços e apontou para Bai Yutang enquanto dizia para Bai Jintang, que estava furioso:
— Isso não tem nada a ver comigo! Ele está ali!

— Gato traidor... — Vendo Bai Jintang entrar no elevador sorrindo, Bai Yutang lembrou de uma cena direto de filme de terror...


— Sai, Xiao Zhao! — Bai Jintang encurralou Bai Yutang no canto do elevador enquanto abria um caminho pequeno para Zhan Zhao sair.

Zhan Zhao saiu correndo com o gato na mão, mas não antes de apertar o botão de fechar e dizer:
— Da Ge! Eu fecho a porta pra você!

— Gato! Não vai! AAAAAaaaAAAh! — Enquanto as portas do elevador se fechavam, os gritos de Bai Yutang ecoaram pelo prédio inteiro.

Enquanto o resto da equipe da S.C.I. ficou paralisado, Gongsun estava encostado na porta da sala de autópsia comendo o último pedaço de costelinha.

Zhan Zhao acariciava o gato enquanto os gritos no elevador continuavam. Ele se sentiu um pouco culpado...

— Descanse em paz, Ratinho.

No Gabinete do Comissário, Bao Zheng tentou desfazer as sobrancelhas franzidas enquanto balançava a cabeça resignado. Então abriu uma gaveta da mesa.

Na gaveta vazia, havia apenas uma porta-retrato antiga.

Bao Zheng acendeu um cigarro enquanto levantava a foto para encará-la.

Em meio à fumaça, quatro jovens sorriam radiantes na foto.


AWM - Capítulo 22

Capítulo 22

Depois que o passaporte de Yu Yang ficou pronto, He Xiao Xu recolheu os passaportes dos quatro integrantes do Time 1 para providenciar o visto de negócios, e de quebra também levou o do capitão do Time 2, Simba.

Simba ficou lisonjeado e sem jeito, gaguejando:
— T-também... também tem a ver comigo? Eu também vou pra Busan? I-isto isto...[1]

He Xiao Xu enrolou ele com meia verdade e meia mentira:
— A Youth não tem imóveis no nome, o extrato bancário também não serve. Agora o visto de negócios tá um parto pra conseguir, quem sabe o que pode acontecer. Te inscrevi como reserva. Vai lá. Se acontecer algum imprevisto, você entra. Se não acontecer... é só ir fazer umas comprinhas e voltar. Também não é prejuízo. Se prepara direito, tá?[2]

Simba ficou com o rosto todo vermelho de animação e saiu assentindo apressado, garantindo em voz alta que ia começar a treinar pesado e que jamais envergonharia a HOG.

He Xiao Xu suspirou aliviado e saiu segurando o passaporte de Simba.

— Ainda bem que o Simba é gente boa — Lai Hua suspirou. — Se fosse alguém mais esperto, já teria desconfiado.

— Desconfiar do quê? Mesmo se ele sacar alguma coisa, não vai imaginar que é por causa do Qi Zui. No máximo vai achar que é porque eu não confio na Youth — He Xiao Xu disse, ainda chocado. — Amém. Tomara que o Qi Zui aguente até o Torneio Convite de Busan e deixe o Simba assumir o lugar dele... Nem consigo imaginar essa cena.

Lai Hua estava com dor de cabeça. A mecânica do Simba não era ruim. Em outros times, com sorte, ele até teria vaga no time principal. Mas se fosse comparar com o Qi Zui...

— Claro, o ideal é que seja o Qi Zui mesmo — He Xiao Xu pegou o passaporte de Lai Hua. — Mesmo que o desempenho dele caia, não tem problema. Só dele ficar parado lá ele já assusta metade dos adversários.

— Nem pensa nisso — Lai Hua olhou feio para He Xiao Xu e o advertiu. — Se o desempenho dele cair por causa da mão, eu não vou mais escalar ele.

He Xiao Xu não entendeu por que Lai Hua ficou sério de repente e riu sem graça:
— Ué, o que foi?

O tom de Lai Hua ficou ainda mais pesado:
— Não tô brincando com você. Eu sou o técnico. Quem entra e quem sai sou eu quem decido. Se na hora o Qi Zui estiver com o desempenho prejudicado por causa da lesão na mão, eu não vou colocá-lo pra jogar. Nem um único jogo.

— V-você... — He Xiao Xu ficou sem jeito. — P-por quê?

— Tô te avisando antes pra você não virar contra mim por causa da colocação do time — Lai Hua disse em tom grave. — Se a gente ficar em último, a culpa é minha. Que os haters me xinguem à vontade. Se a sede quiser me punir, eu aceito. Essa é a minha decisão. Não tem porquê.

Depois de falar, Lai Hua achou que tinha se exaltado demais. Tossiu, olhou para He Xiao Xu e não disse mais nada. Virou-se e foi supervisionar o treino do Time 1.

O Torneio Convite da Ásia estava chegando. Exceto o Qi Zui, todo mundo do Time 1 estava fazendo, em média, duas horas extras de treino por dia.

Teve um dia em que Yu Yang ficou 19 horas seguidas na frente do computador. Só saiu porque o Qi Zui o expulsou. Se dependesse dele, ainda jogaria mais duas partidas.

— Eu ouvi do Qi Zui que você não quer muito ser o shotcaller? — Lai Hua chamou Yu Yang pra uma conversa a sós. — Qual é o problema? Não vai obedecer à decisão do time?[3]

Qi Zui estava mexendo no celular do lado e, sem nem levantar a cabeça, completou:
— Não vai obedecer?

Yu Yang ficou sem jeito e murmurou:
— Eu sou entry fragger...[4]

— E o que uma coisa tem a ver com a outra? — Lai Hua franziu a testa. — Não vem com esse teu orgulhinho, mimimi e birrinha pra cima de mim! Essa foi uma decisão do time inteiro!

Bu Nana tinha acabado de terminar uma partida e enfiou a cabeça:
— Time inteiro? Quem? Quem decidiu?

O velho Lai conteve a raiva e virou pra Bu Nana:
— Quer ser você o shotcaller? Te aviso já! Pra treinar a visão de jogo de vocês, todo mundo vai treinar como shotcaller! Não é só o Yu Yang! Vocês só não chegaram na vez de vocês ainda!

— Ah, não quero não — Bu Nana se encolheu de novo, esperto. — Eu obedeço quem quer que seja o shotcaller... não me envolve.

Lao Kai estava encolhido junto com Bu Nana:
— Eu também não.

Lai Hua ficou indignado:
— Vocês ouvem os haters chamando vocês de cachorrinho e não ficam putos?

— Não — Lao Kai respondeu inocente. — Au au.

Lai Hua quase teve um treco. Apoiou-se na mesa pra se acalmar, respirou fundo e continuou persuadindo Yu Yang:
— Não aprende com eles... Você é reserva. Essa posição não foi fácil de conseguir. Você mesmo tem que ter consciência disso. Você tem que aprender de tudo.

Yu Yang olhou inquieto para Qi Zui, confuso:
— Eu... eu ainda sou reserva?

— Ah, não é mais — O velho Lai, tonto de raiva, falou sem pensar. — Mas a gente não pode esquecer as origens, né, Yu Yang. Um dia reserva, reserva pra sempre![5]

Yu Yang olhou para Lai Hua, incrédulo:
— Eu vou ser reserva pro resto da vida?!

Bu Nana, que era titular, olhou pra Yu Yang com pena e pena mesmo:
— Tsc tsc tsc, coitado. Que destino é esse, hein...

Lai Hua estava estressado desde a manhã e já estava meio fora de si. Murmurou, zonzo:
— Se você quer se firmar nesse time, tem que se esforçar mais que os outros! Não pode deixar ninguém te menosprezar! Entendeu?!

O discurso motivacional caiu sobre Yu Yang como um balde d’água gelada. Ele olhava toda hora pro Qi Zui e, sem querer, elevou a voz:
— Eu... eu vou ser reserva pra sempre?

— Isso! — Lai Hua bateu na mesa. — E daí se você nasceu num degrau abaixo? Você tá com medo?!

O canto da boca de Yu Yang tremeu. Ele murmurou:
—...Não tô.

Yu Yang olhava sem parar pro Qi Zui, com um olhar pedindo socorro tão forte que Qi Zui finalmente se compadeceu. Segurou o riso, pegou o celular e foi pra sala de descanso.

Lai Hua gritou:
— Tá com medo ou não?

Yu Yang, sem saída:
— Não tô...

Lai Hua, insatisfeito:
— Fala mais alto! Não te ouvi!

Yu Yang: "..."

— O Lai Hua tá na menopausa antecipada ou o quê?

Na sala de descanso, Qi Zui estava recostado na cadeira gamer, com expressão neutra, mexendo no celular enquanto ouvia He Xiao Xu reclamar sem parar.

Ao ouvir sobre os planos de Lai Hua pro Torneio Convite da Ásia, Qi Zui se surpreendeu e sorriu:
— Ele falou isso mesmo?

— Claro que falou! — He Xiao Xu disse, ressentido. — Pô, você não viu. A cara dele fechou na hora. Me deu um cagaço... Eu tô cada vez mais sem conseguir lidar com ele, sério.

Qi Zui mediu He Xiao Xu de cima a baixo e suspirou... Parece que virar membro da diretoria depois de se aposentar não é uma boa. Olha só o He Xiao Xu, que antigamente era um hétero raiz, depois de 7, 8 anos no time, virou uma bagunça de identidade de gênero.

He Xiao Xu desabafou:
— Você acha que ele tá estressado demais e deu um curto-circuito no cérebro ou...

— Eu sei o que ele tá pensando — Qi Zui sorriu. — Como dizer... Nosso capitão é perfeito em tudo. Só peca por ser sentimental demais.[6]

He Xiao Xu ficou confuso:
— Hã? Ele? Sentimental em quê?

Qi Zui largou o celular e perguntou a He Xiao Xu:
— Se eu realmente tiver que me aposentar, qual você acha que seria o melhor momento?

He Xiao Xu não soube o que responder e ficou sem jeito:
— Por que... do nada falar disso?

— O Lai Hua é meu capitão e também meu técnico. Ele sabe da minha situação. Ele prevê que na época do Torneio Convite da Ásia em Busan meu desempenho pode cair. Mas... mesmo caindo, eu ainda sou melhor que o Simba. Então por que deixar o Simba jogar?

He Xiao Xu ficou boquiaberto:
— É... por quê?

Qi Zui sorriu:
— Você lembra de quando o velho Lai se aposentou?

He Xiao Xu se esforçou pra lembrar:
— Na época... a lesão na lombar dele tava tão grave que ele não conseguia ficar sentado por uma hora. No final tomou infiltração, melhorou um pouco, mas o desempenho só caía. Perdeu duas partidas e aí... aí se aposentou...

— Foram três partidas — Qi Zui o corrigiu, com voz calma. — Você ainda lembra quantas partidas o velho Lai ganhou?

He Xiao Xu gaguejou.

— Você não lembra. Os fãs também não lembram — Qi Zui riu com desdém. — Na época o capitão também era o Deus das Armas. Também era o Deus Lai. Também tinha a Mão Divina da Direita.

— Um jogador profissional se aposenta de duas formas...
A primeira: no auge da glória, se retirar invicto e com um sorriso, deixando pra trás uma lenda. Essa é a mais inteligente.
A segunda: é como o velho Lai.
Qi Zui tamborilou na mesa, com voz serena. — Depois de passar pelo auge, conquistar feitos, desfrutar de toda a glória de um pro player, com o passar da idade... o desempenho vai caindo, caindo. Mas a pessoa não aceita. Por causa do sonho, do time, de um monte de coisas... insiste, teima em ficar, até ser pisado pelos novatos e xingado pelos fãs de jogador morto, aí é forçado a sair.

— O resultado de insistir é ser xingado até se aposentar e virar piada.

— São dois caminhos. Se fosse pra você escolher, qual você escolheria?

A garganta de He Xiao Xu travou e ele não conseguiu falar nada.

Qi Zui sorriu:
— O velho Lai tá me forçando a escolher o primeiro caminho.

— Não o culpe. A pressão dele é enorme... — Qi Zui se levantou. — Fica tranquilo. Eu já sei o que fazer. Na pior das hipóteses eu também tomo uma infiltração. O Yu Yang... ainda é novo. Eu tenho que aguentar o máximo que eu puder.

Depois de dizer isso, Qi Zui abriu a porta e saiu. He Xiao Xu ficou um tempo atordoado na sala de descanso e depois também saiu.

O corredor estava mal iluminado. Ninguém percebeu que, no chão em frente à porta da sala de descanso, tinham caído algumas cinzas de cigarro.

A partir desse dia, Yu Yang parecia outra pessoa. De repente, parou de resistir ao posto de shotcaller.


《Nota de tradução》

 [1] 我也去釜山: Busan é sede frequente de torneios internacionais de PUBG. 

 [2] 做代购: Literalmente "fazer代购". Na China é comum atletas irem a outros países e comprarem produtos para revender. 

 [3] 指挥: No contexto de e-sports, é o "shotcaller" - jogador que comanda as decisões táticas durante a partida. Mantive o termo em inglês por ser de uso comum na comunidade BR de FPS.

 [4] 突击位: Posição de "entry fragger", o jogador que entra primeiro e abre espaço para o time.

 [5] 一天做替补!一辈子就做替补!: Trocadilho com o ditado "一天是老师,一辈子是老师". Usei "reserva pra sempre" para manter o tom duro e irônico do Lai Hua.

 [6] 妇人之仁: Expressão idiomática que significa "bondade feminina / sentimentalismo". Aqui usada de forma irônica. Qi Zui está dizendo que a "dureza" de Lai Hua na verdade vem de muito carinho.

A Round Trip To lovers Vol. 05 - Capítulo 01

Volume 5: A Outra Margem

Capítulo 1


Another Paradise

À margem do rio: teu olho esquerdo, meu ombro direito.  
Se para finalmente chegar for preciso ser batizado pelas pancadas da vida,  
prefiro voltar ao tempo de antes de atravessarmos a nado,  
quando éramos felizes com tanta simplicidade.

── DEDICADO À MINHA VIDA 1997∼1999

Ergui os olhos para o relógio de parede do momento em que os pratos chegaram à mesa, cheios e exalando aroma, até agora, com quase tudo já limpo, haviam se passado apenas cinco minutos.

Lancei um olhar de soslaio para a cara do outro lado da mesa, com grãos de arroz grudados na ponta do nariz e ele nem percebia. Limpei a garganta e bati os hashis na tigela em protesto:  
— Yi Chen, come mais devagar! Parece um refugiado da Ásia-África-América Latina¹! Se alguém ver vai achar que eu tô maltratando meu bichinho de estimação!

Os olhos puxados dele piscaram para mim. Um brilho malicioso cruzou. Da boca dele saíram uns resmungos que eu não consegui entender.

Quem fala de boca cheia inevitavelmente solta "língua marciana"². Só me resta adivinhar pela expressão facial. Graças ao "treinamento intensivo" dele, já desenvolvi um ótimo talento para "ler nas entrelinhas". Só que hoje o espasmo no rosto dele estava exagerado demais. Fiquei desconfortável com essa cara, será que ele está orgulhoso da velocidade com que devorou a comida?

Ainda estava pensando quando a tigela vazia já tinha sido jogada na mesa. Com a boca ainda mastigando, Yi Chen deu dois passos largos até o computador.

— Xiao Langlang³! — gritou, todo orgulhoso, e agitou o CD do jogo na minha frente: — Já terminei de comer, então os direitos de estreia desse jogo são meus, hahaha! Vou começar a jogar. Você come com calma, tá? Mastiga devagar. Depois me faz o favor de lavar a louça!

— Hã? Cheng Yi Chen! Como você pode fazer isso comigo? — Fiquei verde de raiva e o encarei, furioso. Esse cavalheiro elegante que sou eu, que por um momento de fraqueza virei babá e cozinheiro dele, tinha esperado um jantar romântico com vinho e quem sabe uma sobremesa na mesa depois⁴. Mas ele, sem nenhuma célula romântica, jogou meus charmes no lixo e ainda usou de meios sórdidos para roubar o jogo que eu tinha comprado ontem. Isso é... isso é abusar dos meus sentimentos!

— E daí? Você que é bobo! — respondeu, todo sorridente e fazendo careta, com cara de quem deu um golpe. Um olho mais fechado que o outro, mas era adorável. Vendo que ele já tinha ligado o PC e me ignorado, resmunguei e me levantei. Abracei-o por trás.

— Yi Chen, minha casa não é um fliperama. Você tira um tempo pra vir aqui e nem faz nada útil? — suspirei, e passei a língua de leve no pescoço dele: — Vamos fazer outra coisa, né? Tem coisa mais divertida que jogo. Por exemplo...

— Para com isso... — ele ficou sensível na hora e se encolheu.

— Você acha que tô brincando? — resmunguei, forçando o tom, e soprei no ouvido dele: — E outra: não me chama mais de Xiao Langlang. Quem fica por cima sou eu⁵. Se for pra ter intimidade, quem tem que chamar de Xiao Chenchen sou eu...

— Chega! — assim que eu disse "Xiao Chenchen", vi os pelos dele arrepiarem. Ele virou bravo: — Que história é essa de "quem fica por cima"? Da primeira vez eu que deixei você. Agora tá se achando? Eu só te deixei porque você é fraquinho e não revida. Foi por espírito esportivo, pra satisfazer seu ego. Do que você tá se orgulhando? Quer ver se na próxima eu não te coloco pra baixo...

Eu que te deixei? Gemi por dentro. Se eu não convencesse ele na base do agrado e da chantagem, ele já teria subido na minha cabeça faz tempo. E agora vem posar de durão?

Com esse corpo meu, qualquer mulher babaria. Magro, mas definido. Se eu quisesse, conseguiria qualquer "senhor tal"⁶ por aí. Como que na boca dele eu virei "fraquinho"?

— Esperar a próxima pra quê? Vamos agora mesmo... — sem deixar ele terminar, já ataquei os lábios dele com um beijo forte. Minhas mãos entraram por baixo da camisa, procurando ansiosas pela pele dele.

Fazia mais de um mês que não o tocava. Nesse tempo eu já estava quase virando monge no templo Nampuo⁷ ao lado da escola.

Esse pirralho só sabe ser tímido e manhoso. Mas no resto é super ativo. Em pouco mais de dois anos de faculdade, a banda dele já tinha um batalhão de garotas gritando atrás. E o número só crescia. Até em outras faculdades apareciam fãs do nada. O nome Cheng Yi Chen já era conhecido na universidade. Há dois meses o departamento cultural decidiu fazer um show com cantores do campus. A banda deles, como representante da música autoral, foi chamada pra abrir. Uma espécie de reconhecimento oficial.

Os pirralhos ficaram eufóricos. Desde o convite, Yi Chen sumiu. Noites e dias no estúdio precário da escola, pesquisando e compondo. Às vezes um pacote de biscoito e uma água mineral resolviam o jantar. Ultimamente até levou a guitarra e o computador pra faculdade. Dormia 3, 4 horas por dia.

Eu não aguentava ver ele tão abatido. Virei despertador, babá e entregador. O pior era ter que chamar os colegas de banda pra ele sair pra comer. Ver aquelas garotas com segundas intenções "discutindo música" e se esfregando nele me dava nos nervos.

Agora a gravação da música nova estava quase pronta. Pelo jeito sonolento com que atendia o telefone, dava pra ver que tinha virado noites.

Ontem, pra animar ele, comprei o CS 1.6 pra jogar e treinar tiro de AK. No telefone ele disse que não tinha tempo. Eu até pensei em jogar o jogo no esquecimento. E hoje ele veio aqui "só pra me ver" e de quebra comer. Fiquei tão bobo que cozinhei. Só depois descobri que o interesse dele era no CD do jogo.

Cada vez mais irritado, aprofundei o beijo:  
— Vamos ver quem é o fraquinho agora, humpf...

— Sai! Além de sexo você não pensa em mais nada? — ele me lançou um olhar furioso. Ignorei e o abracei mais forte, roçando o corpo no dele.

— Qin Lang, não agora... — vendo que eu estava falando sério, ele tentou me empurrar, sem muita força: — Faz dias que não durmo. Tô cansado. Não dá...


Notas de Tradução

[1] Refugiado da Ásia-África-América Latina:  Gíria chinesa pejorativa 亚非拉难民 para quem come de forma desesperada, como se passasse fome.

[2]"Língua marciana": 火星语. Gíria para fala incompreensível, como se fosse de outro planeta.

[3] Xiao Langlang / Xiao Chenchen: "Xiao" = pequeno. Diminutivos carinhosos usados entre o casal. O narrador se incomoda por querer manter o papel "ativo".

[4] sobremesa na mesa: Referência velada a OOXX, código chinês para ato sexual. Adequado para o tom editorial.

[5] Quem e o Ativo: 上面/下面. Gíria comum em romances BL para designar papel ativo e passivo na relação.

[6] "senhor tal": 先生. Duplo sentido. Pode ser "senhor", mas no contexto sugere "acompanhante de luxo".

[7] Templo Nampuo: 南普陀寺. Famoso templo budista em Xiamen. O narrador usa como piada para dizer que estava em abstinência.

27 de jul. de 2026

Tensei Kyuuketsuki-san - Capítulo 06

Capítulo 06 — A Cidade Portuária de Alrescha

“Então esta é Hanapecha.”

“É Alrescha. Gostou da cidade?”

“É bem bonita. O vento é um pouco salgado, mas é agradável.”

A brisa salgada era forte o bastante para ser sentida até da carroceria da carroça. Era o cheiro característico de uma região litorânea.

A vista da cidade a partir da carroça passava a sensação de um porto estrangeiro. O ar levemente antigo das construções também transmitia uma atmosfera agradável. Como ponto turístico, não havia nada a criticar.

… Teria sido uma boa ideia ter comentado algo sobre a situação da comida com o vovô Loligramps.

Por mais charmoso que fosse ter um lugar quieto onde eu pudesse dormir o quanto quisesse, se eu tivesse ficado lá, teria morrido de fome.

Por um acaso acabei deixando meu lugar de origem por causa de alguém que passou por ali… mas essa nova região parecia bem boa. Eu queria tirar um cochilo o mais rápido possível.

“Bem, então eu fico por aqui.”

“Ah… E-Espere um segundo, senhorita Arge.”

Quando comecei a descer da carroça, Zeno me chamou.

Sendo sincera, o nome “Arge” pelo qual venho sendo chamada nos últimos dias foi escolhido de forma bem porca.

Meu nome completo é Argento Vampear. Argento significa “prata” em italiano, e Vampear é “vampiro” em francês.

_(N.T.: Optei por escrever “vampear” para diferenciá-lo da palavra inglesa. É o problema clássico do japonês conseguir usar palavras estrangeiras para tudo. Pegue 吸血鬼 e ヴァンパイア como exemplo, embora no original do romance esteja escrito ヴァンピール. Sério, um dia ainda vou dar um tiro em alguém por causa de katakana…)_

Eu poderia ter usado o nome da minha vida passada, mas Kuon Ginji é definitivamente um nome masculino. Por dentro eu até podia me sentir um cara, mas fisicamente eu era uma garota, então acabei escolhendo um nome que soasse feminino.

“O que foi?”

“Por favor, leve isto e isto.”

Zeno-kun vasculhou o interior da carroça e me entregou uma capa preta com capuz e uma bolsa de couro. Quando peguei a bolsa, ela fez um tilintar. É bem pesada, será que tem ouro dentro?

“Pode não ser muito, mas use como fundos para sua viagem.”

“Ah, então é dinheiro… Pode mesmo, mesmo você sendo um comerciante?”

Eu não tinha pensado nesse problema, então a verdade é que fiquei extremamente grata pelo dinheiro… no entanto, para um comerciante, dinheiro deveria ser a coisa mais importante do mundo. Era mesmo ok ele entregar isso tão facilmente para alguém com um histórico tão suspeito?

“É porque você salvou minha vida. E também, enquanto estiver na cidade, tente manter o capuz. Senhorita Arge chama muita atenção, então assim você evita… sabe… ser importunada.”

Ah, isso realmente parece um saco.

Pelo que consigo perceber, não é exagero chamar minha aparência atual de beleza sem igual.

Julgando pelas reações dos Bandidos Terrier e do Zeno-kun, minha avaliação não parece errada. Por esse motivo, talvez seja importante cobrir o rosto. Eu não tenho interesse em homens. Agora, se eles me alimentassem e cuidassem de mim, aí já é outra história.

… Zeno-kun parecia ser do tipo dedicado.

Se eu me casasse com alguém assim, ajudar nos negócios dele parece cansativo.

Pra piorar, ele é mascate. Ou seja, a menos que se aposente, nunca vai ter chance de se estabelecer. Como alvo para encostar, ele não é perfeito. Que droga.

E, pra completar, a desconfortabilidade da carroceria da carroça também fez ele perder pontos.

Mesmo descontando esses pontos, não há como negar que Zeno-kun é uma boa pessoa. Ele fez tudo isso por mim.

“Uun… Me sinto meio mal com tudo isso.”

“Tudo bem. Até eu me sinto meio mal por ter ganhado um cavalo.”

Não, isso foi algo que você pegou dos Bandidos Terrier.

“Mesmo assim, não consigo aceitar tão de boa. Agora não tenho como te retribuir… que tal na próxima vez que nos encontrarmos?”

“Próxima vez?”

“Sim. Se nos encontrarmos de novo e Zeno-kun estiver em apuros, deixe eu te salvar.”

Em troca de ter salvado a vida dele, o que pedi foi que ele me alimentasse.

Já tinha recebido minha recompensa. Por isso considerei ele me trazer até aqui, me vestir e me dar dinheiro como algo separado daquele acordo.

Pode ter parecido natural para Zeno-kun, mas não conseguir retribuir a gentileza dele me deixa enjoada.

Eu posso ser extremamente preguiçosa, mas sou do tipo que quita suas dívidas direito.

Mesmo pensando nisso, tudo o que tenho é meu corpo. Até as roupas que estou usando não são minhas.

A única coisa com que posso pagar agora é uma promessa verbal.

Claro, uma promessa verbal continua sendo uma promessa. Se um dia nos encontrarmos de novo e eu tiver algo para pagar, eu pagaria com prazer. É esse o sentimento por trás dessa promessa.

Depois de fazer essa promessa, o melhor provavelmente é seguirmos caminhos separados por enquanto.

“… Se você coloca dessa forma, eu entendo.”

“Então eu vou indo. Muito obrigada. Por favor, contrate guarda-costas decentes da próxima vez.”

“Vou lembrar disso. Cuide-se, senhorita Arge!”

Ajustei bem o capuz e saltei da carroça.

Com um pouco de relutância, acelerei o passo e desapareci na multidão sem olhar para trás.

Bem, primeiro as coisas primeiro…

“… Vamos almoçar.”

Cochilos são ótimos e tudo, mas acabei de ganhar dinheiro, então vamos usá-lo com gratidão. Dinheiro só tem valor quando é usado, afinal.

Mercenary Goddess Vol.01 - Capítulo 07

Capítulo 07

"Fui forçado a vir para este mundo incompreensível... Além disso, devo liderar um exército que está claramente em desvantagem numérica para vencer esta guerra. Sou um homem, mas vocês querem que eu tenha um filho? Parem de agravar o sofrimento alheio." Yuichiro cerrou os dentes enquanto falava. Enquanto isso, no ar, a cauda de Izrael se contorcia de dor.

Yuichiro teve a impressão de que o homem não gostava de Izrael desde o início. Temeraire parecia desprezar Izrael.

As mãos de Noah, ligeiramente trêmulas, agarraram subitamente o braço de Yuichiro. "Solte-o."

"Por quê? Você também não quer ser rei."

"Eu não quero ser rei, mas..."

"Então por que eu deveria parar? Se eu concordar, significa que aceitarei que você se torne rei e que tenha um filho comigo. Você consegue fazer isso?"

Ele olhou fixamente para o rosto de Noah como se quisesse provocá-lo. Imediatamente, os lábios de Noah tremeram timidamente. Seu rosto estava marcado por hesitação e consternação. Olhando para ele, Yuichiro riu e gritou: "Se você não consegue, então cale a boca e veja-o ser morto!"

Imediatamente após ele dizer isso, Noah gritou: "Iz é meu amigo!"

Com isso, Noah abriu bem a boca e mordeu o braço de Yuichiro com força. A dor dos dentes perfurando a carne através do tecido fez com que Noah relaxasse rapidamente o aperto no corpo de Izrael. Mesmo depois de Izrael ter caído no chão, Noah continuava mordendo o braço de Yuichiro. "Solte-o."

Os caninos de Noah rasgaram a pele onde haviam cravado, fazendo com que o sangue escorresse lentamente para o tecido. Yuichiro repetiu, com os olhos arregalados ao ver o sangue vermelho se espalhando pelo tecido branco. "Solte-o."

Os lábios de Noah se entreabriram como se ele finalmente tivesse despertado quando Yuichiro repetiu a frase. Após um leve gesto de Yuichiro, Noah desabou no chão. Sua boca estava manchada com os resquícios do sangue de Yuichiro.

O bode assobiou uma pequena melodia. "Nunca vi uma deusa tentar matar uma joia no nosso primeiro encontro. E, em troca, a primeira deusa a ser mordida por um rei", brincou ele.

Yuichiro sentiu-se estranhamente relaxado ao ouvi-lo rir sem qualquer hesitação. Ele arregaçou as mangas para examinar a marca de mordida deixada por Noah. O ferimento não parecia profundo em comparação com a quantidade de sangue. Temeraire colocou delicadamente um pano branco sobre o ferimento enquanto examinava as pequenas marcas de dentes. "Eu vou enfaixar depois", disse Temeraire.

"Não me importo."  
— Não, por favor, deixe-me fazer isso.

Yuichiro suspirou, frustrado com a teimosia de Izrael, que não lhe permitia recusar. Enquanto isso, Izrael, que havia recobrado a consciência, tossia no chão. Ele cambaleou: "Ah... É a primeira vez que sou estrangulado por uma deusa." Ele repetia a mesma coisa que Goat. "A sétima deusa é meio moleca", disse Izrael baixinho, encarando Yuichiro como se tivesse esquecido que quase fora morto antes.

"Será que 'molecagem' é suficiente para descrever o que acabei de fazer?"

"Yuichiro, você pode me matar se quiser. Mas aí você nunca mais voltará para o mundo de onde veio." Seu tom não era ameaçador, mas sim direto.

"Há alguma maneira de voltar atrás?", perguntou Yuichiro, com o olhar fixo em Izrael.

"Se ainda assim quiser retornar, primeiro terá de cumprir o seu papel como deusa."

O papel da deusa seria as duas coisas que ele acabou de mencionar: "vitória" e "concepção". Era tão perturbador que Yuichiro sentiu náuseas. Então, murmurou como se estivesse rosnando enquanto engolia a saliva desagradável: "Eu não vou ser, né?"

"Urashima Tarô?"

"O que eu quis dizer é que, depois de décadas neste mundo, não haverá lugar para mim quando eu voltar ao meu mundo original." Considerando as circunstâncias em que ele saltou, provavelmente foi dado como desaparecido em ação no campo de batalha.

Izrael, por outro lado, acenou com o braço curto de um lado para o outro. "Acho que não", disse ele. "O eixo temporal deste mundo é diferente do seu. Dez anos neste mundo equivalem a apenas um ano no outro. Se quiser, posso criar uma nova *identidade* para você."

"Identidade?"

"No seu mundo, isso se chama *registro familiar*, certo?" Izrael inclinou o queixo para a direita. "Preparar um novo registro familiar é algo que entendo muito bem. Aliás, conheço muito bem."

"Você sabe muito sobre o meu mundo."

"Não. Mas, às vezes, Deus fala comigo."

Ao ouvir a palavra "Deus", Yuichiro franziu a testa. [Deusas, pérolas preciosas e Deus... Que tipo de crenças religiosas existem neste mundo?]

"Existe um Deus neste mundo?"

"É minha responsabilidade transmitir as palavras de Deus ao povo. Yuichiro também foi escolhida como uma Deusa por Deus."

Se existisse um Deus, Yuichiro o teria golpeado com toda a força, mas ele já estava cansado de amaldiçoar sua infeliz situação. Não lhe restava outra escolha senão fugir ou aceitar seu destino, pois não havia como reverter a situação. No momento, sua rota de fuga já estava bloqueada.

"Mesmo que eu agisse como a Deusa, como você desejava, não obteria nenhum mérito."

"Mérito?"

"Estou dizendo que é chato voltar para o seu mundo original e estar falido." Yuichiro puxou o colar do pescoço de Goat com a ponta dos dedos. "Uau", exclamou Goat, surpreso. O som de pedras se esfregando umas nas outras se sobrepôs ao ritmo de sua voz.

"Sou um mercenário. Se quiser que eu lute, terá que me pagar." Yuichiro acariciou as pedras na extremidade do colar com a ponta dos dedos, dizendo: "Isso deve bastar."

Izrael olhou para Yuichiro com espanto. "É mesmo? É só uma pedra."

"No meu mundo, isso vale dinheiro. Se eu vencer esta batalha, você pode me pagar com isso."

"Ah! Você está bancando a Deusa em troca de dinheiro?!" Noah exclamou, exasperado.

"É muito melhor do que uma criança correndo por aí dizendo que não quer ser rei", disse Yuichiro, indiferente, ao ver a fúria de Noah.

Noah cerrou os punhos em resposta às palavras frias de Yuichiro. "O que fazemos?" Yuichiro olhou para Noah, que estava prestes a chorar.

Temeraire assentiu levemente com a cabeça, e Goat pareceu estar se segurando para não rir, como de costume, provavelmente se esforçando para não rir da deusa ridícula. Izrael bufou e murmurou baixinho: "Você é tão incrível e descolada."

[Isso significa que ele concorda?]

Após algum tempo, Izrael aproximou-se sorrateiramente dos pés de Yuichiro e gentilmente o abraçou pelas panturrilhas. A pele de Yuichiro tremeu levemente, como se ele pressentisse um estranho destino que estava prestes a lhe sobrevir.

"Você é a melhor deusa de todas!"

Yuichiro riu involuntariamente ao ouvir a voz extasiada de Izrael. Além de um sorriso, ele não sabia o que mais dizer.

Anata No Miteiru Mukogawa – Capítulo 07

Capítulo 07

Fazia dez dias que eu não ia à Kanaria.

Como eu ia à lanchonete sem parar desde antes mesmo de notar o Kanto, com certeza era a primeira vez desde que virei cliente habitual.

Evitei o horário de pico e cheguei um pouco mais tarde.

Depois que passou para as mãos do Kanto, a loja não mudou a decoração. Parecia que ele ainda esperava que, um dia, o antigo dono voltasse.

Abri a porta, entrei e fui direto para o lugar onde sempre me sento quando estou sozinho.

O gerente me reconheceu na hora e disse:  
"Lá faz tempo que a gente não se vê."

"O trabalho está uma loucura. Um saco."

O Kanto não estava, mas mesmo assim inventei uma desculpa para não ter aparecido.

"Está tão ocupado assim?"

Uma voz grave veio de trás.

Me virei de susto. Eu nem tinha dado sinal, e hoje o Kanto estava ali parado.

"Com que cara de espanto é essa."

"Não é... é que o senhor sempre fica lá dentro e não sai, e agora está aqui fora."

"Eu saí porque vi você."

"Me viu?"

Impossível. Será que era verdade?

No olhar do Kanto eu estava refletido?

"Estava preocupado. Pensei se você não tinha ficado doente."

Fiquei feliz de verdade.

Não imaginei que o Kanto pensasse em mim.

Mesmo que fosse só por um segundo, mesmo que fosse só na posição de cliente, só de saber que ele pensou em mim sem ter o nome "Fukuhara" junto, eu já fiquei feliz.

"Está se alimentando direito? Você está com péssimo aspecto."

Tão feliz que as mãos chegaram a tremer.

"Estou comendo, sim. Só estou atolado de serviço, mas estou saudável. Ah, e já que vim até aqui hoje, me dá alguma coisa gostosa pra comer."

"Aqui, o cardápio."

Como o Kanto estava me atendendo, o gerente se afastou em silêncio.

Quando tive certeza de que só estávamos nós dois, abaixei a voz.

"Ei. Hoje à noite você está livre?"

O homem de poucas palavras não percebeu que era um convite.

"Como sempre."

"Mesmo tarde serve? Você consegue tirar um tempinho?"

"...Quer ir beber?"

Mesmo que eu dissesse que queria ir beber, ele não iria.

"Não. Não sei se você toparia ir até o meu apartamento. Tenho um DVD que quero ver, mas é um desperdício ver sozinho, então pensei em te chamar pra ver junto."

"É algum filme de terror?"

Ele riu, como quem está me provocando.

"Não. É o DVD do festival esportivo do terceiro ano do meu pupilo."

E foi aí que o rosto do Kanto endureceu.

Eu sabia que não conseguiria fazê-lo fazer aquela cara. Além disso, ele só é esperto quando o assunto é esse.

"Você vem ver comigo? Ou não quer ir no meu apartamento?"

Perguntei feito bobo.

Isso não ia ser motivo nenhum para ele não ir. Ele não liga pra mim.

"Não, se for na sua casa, tudo bem. Mas chegar muito tarde não é bom, certo?"

"Já é fim de semana. Se não der pra voltar, é só dormir lá. Eu ganho bem, meu apartamento é grande."

Vem.  
Vem.

Era o DVD que eu pedi de propósito por causa dele. Era a isca que eu preparei, mesquinha e cheia de ressentimento, porque sabia que só um convite meu não seria suficiente.

"...Tá. Hoje à noite então passa aqui pra me buscar no horário."

A resposta só podia ser uma, já que eu estava usando o Fukuhara, mas ainda assim soltei o ar aliviado.

"Fechou. Então vou pedir a tortilha de inhame e o frango ao shissô."

"E pra beber depois da refeição?"

"Já passou da hora do almoço, não?"

"Você é caso especial. Eu pago."

Eu sabia que "caso especial" era no sentido de cliente, mas ouvir aquilo da boca dele ainda me deixou contente.

"Então um café."

E ainda colocou a mão na minha cabeça com delicadeza. Desse jeito eu ia acabar criando esperança.

"É um chato, mas quando você não vem eu fico meio triste. Tem que aparecer pra eu ver seu rosto direito."

É cruel não saber de nada.

Ele foi embora com as costas retas, sem perceber que, por causa de uma frase tão simples, eu tive que morder o lábio pra não chorar.

Sem perceber que eu já não conseguia mais rir e dizer "O que você está falando, hein".

Sem perceber que ele me fez acreditar, nem que por um instante, que talvez eu tivesse mais chance do que pensava.

Ele nunca vai saber quanta coragem eu precisei juntar hoje só pra vir até aqui.

Pensei nisso e até deu um pouco de raiva, mas sabendo que ele está sofrendo por amor, não consigo odiá-lo.

Se eu estou sofrendo assim, com certeza o Kanto está sofrendo muito mais.

Pensar que ele está ferido me acalma um pouco. Essa é a prova de como eu sou ruim, e também a desculpa perfeita pra dizer que, por isso, meu amor nunca vai dar certo.

Quando fiquei sozinho, de vez em quando o gerente se aproximava e colocava um copo d'água na mesa.

"O Kanto está preocupado com você, viu."

Aqui também tinha alguém que não sabia do que eu sentia e me dizia coisas assim.

"Vocês dois são bem próximos, né."

Não me dá esperança.

"É que ele é cliente antigo. É tipo: finalmente esse cara apareceu no meu radar, sabe?"

Pra não criar expectativa demais, eu disse palavras que me colocavam no meu lugar e me machucavam.

"Aparecer no radar? É, ele tem isso mesmo. Não sei se digo que ele fala pouco demais ou que a visão dele é estreita demais."

"Ah, o gerente também acha?"

"Às vezes ele esquece de dizer algo porque acha que a outra pessoa já entendeu. Tirando isso, ele é muito competente em tudo."

"Ele é meio desligado, né."

"Pode ser. Ah, o que a gente conversou agora é segredo, tá?"

"Tá, tá."

Usei o Fukuhara como desculpa só pra vê-lo sozinho mais uma vez.

Mas dessa vez com certeza vai ser a última.

Se eu continuar usando o Fukuhara como isca, não vai dar em nada bom nem pro Kanto nem pro Fukuhara. Mas se eu perder essa isca, ele não vai querer me ver sozinho, então essa é a despedida.

Tudo bem.

Se eu vier até aqui ainda posso encontrá-lo, então posso ter tempo pra me valorizar.

Quem sabe, fazendo isso, um dia se abre outro caminho.

Mesmo que não seja amor, mesmo que seja esquecimento ou despedida. Acho que vou conseguir aceitar algo que não seja essa relação indefinida.

Por isso, só hoje à noite, deixa eu sonhar mais um pouco.

Sonhar que a pessoa de quem eu gosto vem brincar no meu apartamento.

Quando terminei o trabalho e estava saindo do escritório, o Fukada me chamou.

"O Fukuhara disse que está preocupado porque seu humor está instável?"

Que garoto esperto.

"Esse shiba é metido demais."

"Miyamoto."

"Eu sei com o que você está preocupado e vou pisar em cima dessa preocupação. A causa não é você nem o Fukuhara. E eu também sei que meu humor está instável."

"O motivo é..."

"Segredo. Agora eu estou na fase da puberdade."

"Miyamoto."

Eu sei.

Qualquer um desconfia quando um cara que sempre viveu fazendo o que quer, como se o mundo girasse em torno dele, começa a falar coisas sem sentido e a agir de forma esquisita.

"Está tudo bem. Eu também vou decidir por mim mesmo. Até você tomou suas decisões sozinho, não tomou?"

"Miyamoto, sobre isso..."

"O Fukuhara mora com a família, certo? No fim de semana chama o garoto pra ir no seu apartamento."

"Miyamoto!"

Hoje à noite, depois de passar um tempo agradável, eu vou recomeçar.

Conversar, rir um pouco, como amigos, conhecer mais um pouco do Kanto. Depois, por enquanto, vou reestabelecer essa situação e tentar me aproximar dele sem usar o Fukuhara como isca.

Agora eu ainda não tenho confiança pra lutar sozinho, mas sou eu. Se eu me esforçar, com certeza ainda consigo me dar bem com ele sem o Fukuhara.

Mesmo que seja só como amigos.

Pensando bem, se ele gostou do Fukuhara, significa que o Kanto pode gostar de homens, então minhas chances são de 1 a 2. Não, talvez uns 5%.

Vou pensar de forma otimista.

Ficar deprimido não combina comigo.

Se eu juntar todas as condições, com certeza vai ter uma resposta.

Eu gosto do Kanto. O Kanto gosta do Fukuhara, mas o Fukuhara já tem alguém. E o Kanto nem pensa em se declarar pro Fukuhara, então talvez ele desista mais fácil do que eu imagino.

Então dessa vez eu só preciso reconstruir minha relação com o Kanto.

Eu sou cliente antigo, então posso virar parceiro de bebida, e depois uma relação mais próxima.

"Cheguei pra te buscar."

De algum jeito levantei o ânimo e fui buscá-lo com o mesmo sorriso de sempre.

O Kanto estava de roupa comum. Para os meus olhos, que amam até o caminho de ida e volta, ele continuava tão elegante quanto antes.

"É longe?"

"Duas estações de trem. Perto o bastante pra não ser um problema ir trabalhar, e longe o bastante pra que, se me chamarem de noite, eu não consiga chegar na empresa na hora."

"Entendi."

"E você, Kanto?"

"Daqui deve dar uns 20 minutos de trem."

Não perguntei pra investigar. Era porque queria saber mais sobre ele.

"Mora sozinho? E sua família?"

"Sozinho. Não tenho família."

"Sua família mora longe?"

"...É."

"De onde você é?"

"Você tem irmãs, né? Só falta o pato."

"Falta o pato como?"

"É a feira."

"Que falta de educação. ...Bom, irmã eu tenho."

Eu estava nas nuvens.

Por estar andando ao lado dele.  
Por estar falando bobagem com ele.  
Por ele entrar no meu apartamento, que eu limpei com aspirador ontem.

Mas essa era só uma felicidade momentânea.

"É grande mesmo, né."

"Eu falei que ganho bem."

Dentro do apartamento, sentei ele no sofá e preparei o café na cafeteira pra servi-lo. Eu tinha me gabado de que ia fazer pra ele hoje.

No meio disso, coloquei num prato os sanduíches que comprei numa loja especializada que vende pra viagem, arrumei na mesa em forma de gota que eu tinha adorado quando comprei, e me sentei ao lado dele.

Entre mim e o Kanto, que já tinha tirado o casaco, havia uns 20 cm. Dava até pra sentir o calor do corpo do outro.

"Vamos comer enquanto assistimos."

Coloquei pra rodar o vídeo que consegui do Fukuhara pagando o preço da vergonha dos meus desenhos da época da escola.

Pelo jeito foi filmado pelos pais, porque no começo a imagem estava tremida e difícil de ver.

Mas parece que pegaram o jeito rápido, porque logo o Fukuhara mais novo que o de agora apareceu bem no centro da tela.

O perfil dele conversando com os amigos.

Parece que era gincana ou algo assim. Ele estava de gakuran comprido e com uma faixa na cabeça.

Era corrida.

O Fukuhara era bem rápido.

"Koji! Força!"

No meio do barulho dava pra ouvir a voz de uma mulher que devia ser a mãe do Fukuhara.

Parece que ouviu o chamado, porque o Fukuhara, sentado de joelhos no centro da tela, levantou o rosto, olhou para a câmera e acenou.

"Deve ser revezamento ou alguma coisa assim, né?"

Falei isso e virei o rosto pro lado. E foi aí que senti todas as esperanças que eu mesmo inventei desmoronarem.

Porque o Fukuhara já tem namorado, então talvez eu tenha uma chance?

Reconstruir a relação do zero, e um dia me aproximar dele?

Isso jamais vai acontecer.

A pessoa ao meu lado olhava fixamente para o Fukuhara na tela, inclinada pra frente, com os cotovelos na mesa e as mãos entrelaçadas cobrindo a boca.

O rosto dele só via ele.

Os olhos estavam cheios de um carinho que doía.

Tudo dizia que ele gostava do Fukuhara. Que ele amava o Fukuhara.

As palavras que eu disse antes não chegaram nem perto dos ouvidos dele.

No coração do Kanto só existe o Fukuhara.



A música animada do festival esportivo ecoava, os gritos da torcida eram ensurdecedores. Fukuhara se levantou e foi para o centro do estádio.

Como eu imaginei. Ele era o corredor do revezamento. E ainda por cima, o último.

Depois de um segundo mostrando alunos desconhecidos correndo sob aplausos estrondosos, a câmera voltou a focar apenas em Fukuhara, esperando a sua vez.

Por um instante, achei que aqueles eram os olhos de Kanto.

Mas eu não olhava para ele.

Mordendo o lábio para não chorar, eu mantinha os olhos grudados no perfil de Kanto.

Olha pra cá.  
Me deixa entrar no seu campo de visão.  
Só um pouquinho. Lembra que eu estou aqui.

Repetindo isso na cabeça, eu não desviava o olhar dele.

Mas até o fim daquele vídeo de família entediante, os olhos de Kanto não saíram da tela. O café que eu preparei já estava frio. O sanduíche que eu comprei, seco.

“…Quer que eu copie isso pra você?”

Só então ele virou o rosto na minha direção.

“Não, não precisa.”

Doeu.

“Você gosta muito do Fukuhara, né. Eu falei com você tantas vezes e você nem ligou.”

“É mesmo?”

Doeu demais.

“É.”

Meu peito doía.

“Eu pensei que alguém como eu jamais chamaria sua atenção.”

“Que absurdo. Você não é o tipo de pessoa que dá pra tirar os olhos.”

“Não precisa mentir. Se você gosta tanto dele, então é só se declarar.”

Aquela dor me transformou.

Transformou quem queria ser otimista, quem queria viver sendo fiel a si mesmo, em algo muito mais feio.

“Eu não vou fazer isso.”

“Por quê? Porque são dois homens?”

“…É.”

“E ser dois homens é errado? Existem tantas pessoas assim no mundo. Se você acha que todos eles são aberrações, isso é uma falta de respeito enorme.”

“…Não é isso que eu quis dizer.”

“Então o que é? Tenho um amigo que é gay e ele é um ótimo cara.”

Até o Fukuhara escolheu um homem. O Fukada.

Então por que você não diz que gosta? Por que não se declara e leva um fora logo? Não importa o quanto você goste dele, o Fukuhara já não pode mais ser seu. Você não percebe que esse sentimento não tem pra onde ir?

Igual ao meu.

“Miyamoto.”

“Eu também…”

Mas eu não consegui dizer.

Porque eu gostava dele. Porque eu sabia o quanto doía amar alguém e não ser correspondido. E eu não queria causar essa dor a ele.

“E se eu dissesse que sou igual a você? Você também ia me chamar de aberração?”

“Miyamoto?”

Se fosse isso, eu preferia me quebrar em pedaços.  
Se esse amor não desse certo, eu mesma encerraria.

Kanto não saberia que o Fukuhara já tinha alguém. Poderia continuar pensando nele à vontade.

“É. Eu também gosto de homens.”

Eu sorri.

“Eu sempre gostei só de homens.”

Com um rosto que não demonstrava sofrimento.

“E... agora eu gosto de você. Por isso eu te ajudei. Eu só queria ajudar alguém que está na mesma situação que eu. Mesmo que fosse um pouco.”

Kanto ficou completamente sem reação.

O que era de se esperar.

“Mas a partir de agora eu não vou mais te ajudar. Porque eu não aguento mais. Eu não vou te contar mais nada sobre o Fukuhara.”

Os olhos dele estavam em mim.
Só em mim.

Será que ele estava surpreso demais com a confissão e não conseguia pensar em mais nada? Será que, nesse momento, em vez do Fukuhara, eu era quem ocupava a cabeça dele?

“Se for brincadeira…”

“Quem faz uma brincadeira dessas? Eu tô falando sério. Ah, e eu sei que isso deve ser um incômodo pra você, então ignora. Só pensei que seria uma forma de retribuir tudo que você fez por mim.”

“O que você quer?”

“Dorme comigo. Só uma vez.”

O silêncio tomou conta do ambiente.

“Você gosta do Fukuhara, mas também tem desejo, não tem? Você mesmo disse que é selvagem. Então dorme comigo. Pode me usar como substituto do Fukuhara. Ou... é sua primeira vez com um homem?”

“E você... não é?”

“Eu? Eu sou diferente.”

Que patético.  
Superficial e patético.

Mentir de novo e de novo. Ficar encenando.

Mesmo assim, eu só queria tocá-lo na vida real. Nem que fosse só uma vez.

“Eu disse pra você dormir comigo porque eu gosto de você. E como é uma retribuição, não vai ter complicação depois. Não tem problema, certo? De qualquer forma você não pode ficar com o Fukuhara, então tanto faz com quem seja.”

“Não é a mesma coisa.”

As palavras dele doeram.

Mas eu não podia demonstrar que estava ferida.  
Porque se eu pesasse demais, ele ia fugir.

“Você é tão sério.”

Estendi a mão trêmula e toquei Kanto, ali do meu lado.

Como um homem seduz outro homem? Pena que eu não perguntei pro Fukada brincando. Com certeza era pra tocar ali, né?

“Só essa noite. Tenha pena de mim.”

As pernas dele eram musculosas e firmes, mesmo por cima da roupa.

“Você é diferente dele.”

“E daí? Eu sei disso. Só de ver você mais cedo eu já entendi o tipo de amor que você sente pelo Fukuhara.”

Eu nem chegava aos pés dele.

“Você percebeu…?”

“Claro. Não sou burra a esse ponto. Por isso que eu falei. Se não fosse isso, eu teria ficado quieta.”

“…É.”

Kanto baixou os olhos por um segundo.

Se não desse, era só me empurrar e ir embora.

Se fosse isso, eu choraria sem nem pensar.

Levar um fora. Chegar num ponto sem volta. Eu ia desabar e chorar. E então decidiria encerrar tudo.

Mas se ele aceitasse, nem que fosse por empatia, ou por pena, eu queria que ele me tocasse ao menos uma vez.

“Eu gosto de você. De um jeito completamente diferente do que eu gosto dele.”

“Que bom.”

E era verdade. Mesmo que fosse em segundo ou terceiro lugar, ouvir um “eu gosto de você” nessa situação me deixou genuinamente feliz.

“Sério?”

“Mesmo sabendo que é desse jeito?”

Mesmo sendo um amor que vem depois do outro. Quem não ficaria feliz ao ouvir isso da pessoa que ama?

“É verdade.”

A mão grande dele segurou a minha, que estava pousada na coxa dele.

O gesto inesperado me fez pular.

“Se você realmente gosta de mim, então eu vou corresponder a esse sentimento.”

Ele puxou meu braço com força e eu caí nos braços dele.

“A.”

Um homem que, no fundo, era gentil e bondoso.
Sério, de cara fechada, bruto, mas incapaz de pisar nos sentimentos dos outros.

Só por isso, eu já estava feliz.

Ele me abraçou. Me beijou. E isso me deixou tão feliz que quase chorei.

Eu sempre achei que Kanto não tinha intenção nenhuma de assumir o Kanaria.
Aquele bar foi criado pelo tio Baba, o antigo dono, e tinha coisas que não combinavam com o Kanto.

Mas a razão dele ter comprado provavelmente foi porque soube que o dono estava doente e precisava de dinheiro. E pensou que, se deixasse nas mãos de outra pessoa, o bar não continuaria igual.

Por isso, depois que comprou, ele não mudou nada. Por causa do tio Baba.

Eu me convenci de que um homem assim, mesmo sem amor, ainda poderia fazer sexo com alguém só por bondade. Ou então porque era tão experiente que se dizia “selvagem”.

Não podia me enganar.
Não podia esquecer o perfil de Kanto grudado naquela DVD.

Mesmo dizendo que gostava de mim, ele nunca me olhou daquele jeito.

Então aquela noite não seria entre dois amantes.

Depois de me abraçar com força e me beijar com intensidade no sofá, ele perguntou onde ficava o quarto e foi pra lá como se fosse uma obrigação.

Ele não disse nada. Sem sussurros. Sem justificativas. Só tirou a roupa e me empurrou na cama.

Ele ia acender a luz, mas eu segurei sua mão e neguei com a cabeça.

Não era porque eu tinha vergonha do meu corpo nu.  
Era porque eu podia me magoar e chorar. E eu não queria que ele visse minhas lágrimas.

A camisa foi erguida e dedos longos deslizaram por dentro.

Dedos que eu me perguntava se seriam quentes ou frios. Eram quentes.

“A...”

Os dedos tocaram meu peito.

Mesmo me dizendo pra agir como experiente, meu corpo, que já tinha estado com outros, mas nunca tinha sido tocado de volta, não aguentou.

“Ei, é sua primeira vez com um homem?”

Se eu ficasse em silêncio ia ficar pesado, então tentei bancar a experiente.

“Eu não tenho lubrificante nem camisinha. Tudo bem?”

Naquele momento parecia exatamente com o que eu tinha imaginado.

A porta para a sala, iluminada, parecia um mundo diferente.
E a sombra dele banhada por aquela luz.

“Vai doer, mas eu aguento. Só posso gritar. Eu não estou acostumada com dor.”

Meu peito vibrou ao pensar que ele estava na minha cama.

“Fica quieta.”

Só que ele não foi gentil.
Não, as palavras não foram gentis, mas as mãos sim.

Ele me tocava com cuidado, como se estivesse abraçando o Fukuhara.

Então mesmo sem curvas as pessoas ligam para o peito.  
Então mesmo sendo homem, mexer nos mamilos dá prazer.

Ele só me beijou uma única vez, no sofá. Depois não me beijou mais.

Em vez disso, os lábios dele percorreram minha barriga.

“Umm...”

A mão desceu e foi para o botão da calça.

Como eu não esperava que chegasse a isso, eu estava de calça skinny. Ela apertava tanto que já estava doendo de tão dura.

Então, quando ele me liberou por cima, a sensação mudou.

De uma dureza crescente, passou a reagir por conta própria.

“A...”

Quando a mão de Kanto tocou ali por cima da cueca, eu gemi.

“É mesmo... homem gosta quando tocam ali...”

“Fica quieta.”

Ele não queria ouvir minha voz?

Eu mesma apaguei a luz, mas por causa disso começou a me rondar a dúvida: será que a pessoa que ele estava abraçando não era eu?

E quando o prazer viesse e ele não conseguisse mais se controlar, talvez isso aparecesse no rosto dele.

Então era melhor mesmo não acender a luz.

“Difícil de tirar.”

Ele murmurou tentando tirar minha parte de baixo.
A calça skinny ficou presa na coxa.

“Eu tiro.”

Com medo de ele desistir por causa disso, eu tirei a calça às pressas. A cueca eu não tive coragem.

A mão dele voltou a tocar minhas pernas nuas.
Onde quer que tocasse, meu corpo inteiro sentia.

Eu achava que não era tão sensível assim.

“Umm...”

Kanto não tirou a roupa.
Continuou com a camisa quase preta e a calça cinza larga. Não tirou nada. Só me tocava.

“A... não...”

Aquilo parecia dizer que ele não queria. E doeu no meu peito.

“Kanto...”

Eu não sou mulher. Talvez eu devesse tirar a roupa dele, pensei, e levei a mão à camisa dele. Ele segurou.

“Não precisa.”

Ah. Doeu de novo no peito.

Ei, você vai fazer amor comigo, né?
Não vai ser só me dar prazer e acabou, né?

Eu queria perguntar, mas a voz não saiu.

“Kanto...”

Ele finalmente se deitou sobre mim, com um peso na medida certa.

A barra da camisa, que tinha voltado ao lugar, ele ergueu de novo com a boca.

Aquela cena por si só já dava um prazer como se estivesse me tocando.

Ele soltou a barra com a boca e foi direto para o meu peito, sugando o mamilo.

“A...”

Quente e úmido brincando com o bico do seio.

Ao mesmo tempo, a cueca foi puxada pra baixo e eu, sem querer, encolhi os joelhos.

Não pode.
Se eu fizer isso ele vai achar que estou recusando.

Pra não parecer que é minha primeira vez, eu preciso recebê-lo com mais experiência.

Mas a mão dele segurou meu membro e começou a se mover devagar, então meus joelhos, que iam se esticar, pararam no meio do caminho.

“A... a... a...”

Um arrepio subiu pela minha espinha.
A pele arrepiou do pescoço até a cabeça.

“Não...”

Meu corpo se contraía sozinho, sem parar.

“Umm...”

Kanto, tira a roupa também.
Deixa eu ver sua pele.
Vem pro mesmo lugar que eu.

Mesmo que seja mentira, deixa eu imaginar que estamos nos abraçando.

Se continuar assim, só vou pensar que estou sendo usada.

Estendi a mão pra ele de novo.
Dessa vez consegui alcançar o braço dele sem ser impedida.

O braço que eu achava magro era na verdade muito forte. Só agora percebi que a razão dele parecer ter braços que minha mão não alcança era porque ele era alto.

Mas não queria soltar o braço que custei a alcançar, então segurei o ombro dele.
Mesmo sem força, só isso já me acalmou um pouco.

“…Já vai.”

Ele murmurou baixo.

O que? Antes que eu pudesse perguntar, a mão que segurava meu membro acelerou.

“A!”

Fui engolida por uma onda que nenhum homem consegue resistir.

“Não...”

Mas espera, o Kanto nem tirou a camisa ainda.

“Não... para...”

Ele queria que só eu gozasse?
Ele não ia fazer amor comigo?

“Kanto!”

Não seja mecânico assim.
Olha pra mim.
Me possui.
Recebe meu sentimento.

Eu não vou pedir nada em troca. Eu sei que essa é a última vez.

“A... não!”

Mas a mão dele não parou.
Não fez nada do que eu pedi.
Só me levou ao limite, me forçou, me fez gozar sozinha, e acabou.

Enquanto o prazer tomava meu corpo inteiro, meu coração estava congelado.

Não era isso.
Não era isso que eu queria.
Não podia terminar assim.

Mas Kanto se afastou de mim, saiu do quarto, voltou do banheiro com uma toalha e cobriu a parte de baixo do meu corpo. Depois não se aproximou mais.

“...Eu vou embora. Descansa um pouco.”

“Ir embora... agora?”

Nesse estado?

“É. Eu não consigo ir além disso.”

Por quê?
Porque eu não sou o Fukuhara?

“É... tá.”

Se essa era a resposta, então tudo bem.
Se mesmo deitado em cima de mim ele não sentiu desejo, eu não podia pedir mais nada.

“Miyamoto.”

“O que?”

“...Copia aquele DVD pra mim. Se for você, eu posso pedir isso, né.”

Um homem cruel.

Me faz gozar e em troca me pede um favor? Eu disse que não ia mais fazer nada por ele.

“Tá. Na próxima eu levo no bar.”

Mas eu não consegui recusar.

Por mais que doesse, por mais que fosse triste, eu não consegui dizer não ao primeiro “pedido” que ele me fez.

Por mais patética que eu fosse...