18 de jun. de 2026

MSN - Capítulo 07.1

Capítulo 07.01

Paquerar Não Dá Medo, Medo é Perder

Yook me deixou na porta do meu condomínio. No caminho, ficamos conversando sobre assuntos aleatórios o tempo todo.

O que deveria ser algo completamente normal entre amigos ainda mais entre dois homens, para mim estava longe de ser normal.

Durante a volta inteira, meu coração bateu como uma bateria de escola de samba¹, e cada frase que eu dizia saía tremendo junto.

Eu não queria admitir que estava abalado por alguém que havia se declarado para mim. Na época da faculdade, nunca me senti assim com nenhuma das pessoas que confessaram gostar de mim.

Ou será que era porque eu estava enfrentando a solidão agora?

Talvez fosse isso que estivesse mudando a forma como eu me sentia quando estava com Yook.

Convencido de que meus gostos jamais haviam mudado, assim que nos separamos corri para o apartamento e comecei a revirar minhas coisas.

Tirei calendários de mulheres sensuais e revistas cheias de fotos provocantes para me estimular.

Essas mulheres são o meu tipo.

Elas são atraentes.

Os seios, as curvas, aquelas bundas empinadas...

Droga.

Eu não gosto de homens.

Essa sensação estranha devia ser apenas o clima do momento me confundindo.

Assim que cheguei a essa conclusão, guardei todo o material de volta e fui assobiando para o quarto.

— Uhuuuuu!

Agora sim.

Feliz.

Finalmente consegui me concentrar no trabalho.

Antes de qualquer coisa, eu estava praticamente sem dinheiro. Restavam apenas algumas moedas no bolso, e até meu estoque de macarrão instantâneo estava acabando.

Se continuasse sendo preguiçoso, não seria impossível morrer de fome em breve.

E pedir ajuda para minha família estava fora de cogitação.

Desde o começo eu havia dito que conseguiria viver dessa profissão.

Que um dia eu seria grande.

E olha só...

Grande eu fiquei.

Grande e pobre.



Sou o filho do meio entre três irmãos.

E também o único que saiu completamente dos trilhos da família.

Meu pai é diretor de escola.

Minha mãe é professora de Ciências do ensino fundamental.

Minha irmã mais velha virou professora de inglês.

Meu irmão mais novo está cursando licenciatura.

Então me expliquem:

de onde diabos surgiu esse compositor desgraçado?

Sou filho do vizinho por acaso?

Minha família queria que eu fosse servidor público.

Ou, no mínimo, que cursasse alguma faculdade que garantisse um emprego estável.

Até hoje eu não entendo essa lógica.

No fim, escolhi aquilo que amava e segui atrás do meu sonho.

E agora que cheguei tão longe, era impossível voltar para casa e pedir dinheiro.

Meu orgulho não permitia.

Então havia apenas uma solução:

Desenterrar músicas antigas, refazer as melodias, reescrever as letras e tentar vendê-las para alguma gravadora.

Eu compunha essas músicas desde a faculdade e nunca as havia mostrado a ninguém porque julgava que não tinham qualidade suficiente.

Mas, neste momento?

Que se dane a qualidade.

Meu estômago vinha primeiro.

Passei a noite inteira reescrevendo letras.

Sem comer.

Sem beber.

Sem sequer chegar perto da cama, com medo de dormir.

Quando terminei, já era meio-dia do dia seguinte.

Reuni os arquivos de áudio gravados de forma precária, anexei as letras e enviei tudo por e-mail para um produtor que conhecia.

Só então chegou a hora de dormir.

— Aaaah...

Toc toc toc.

Que porra?

Mal tinham se passado dez segundos desde que me joguei na cama quando alguém bateu na porta.

Arranquei alguns fios de cabelo de tanta raiva antes de marchar até a entrada.

Quando abri a porta e vi Yook carregando várias sacolas, fiquei ainda mais irritado.

— Por que veio agora? Estou com sono. Quero dormir...

Foi assim que comecei a conversa.

Ele franziu levemente a testa, tirou o boné e me observou de cima a baixo.

— Você ainda está com a mesma roupa. Nem tomou banho?

— Não. Também não dormi. Se tem alguma coisa pra dizer, fala logo. Estou tão cansado que minhas pálpebras estão tremendo.

Ele soltou uma risada baixa.

Então entrou no apartamento como se fosse dono do lugar, trancou a porta e foi direto para a cozinha.

— Já comeu?

Balancei a cabeça.

— Trouxe comida. Coma antes de dormir.

— Não quero. Quero dormir.

— Chayin.

— Estou com sono. Mais sono do que fome.

— Pare de fazer birra.

Eu queria me jogar no chão e começar a espernear.

Mas, vendo o olhar sério dele, me rendi e sentei à mesa.

Yook tirou uma marmita da sacola e colocou diante de mim.

— O que é isso?

— Arroz frito com camarão.

— Eu já disse que tenho preguiça de descascar camarão. Mesmo que só reste o rabo.

— Pedi para tirarem tudo. É só comer.

— E você está livre hoje? Por isso veio me ver?

Perguntei enquanto mexia na comida lentamente, incapaz de decidir se comia ou dormia.

— Estou livre todos os dias. Saí para fazer compras e passei aqui.

Depois acrescentou:

— Sente direito. Você está comendo deitado igual uma cobra.

— Mandão...

Você é só um amigo.

Não fique achando que tem privilégios especiais só porque disse que gosta de mim.

Foi isso que pensei.

Mas meu corpo me traiu completamente.

Sem perceber, sentei direito.

Droga.

Por que estou obedecendo?


Nota de Tradução

1:: A expressão tailandesa equivalente a "ใจสั่นเป็นกลองชุด" foi adaptada para "coração bateu como uma bateria de escola de samba", transmitindo a ideia de batimentos acelerados de forma natural em português.

Nyi - Capítulo 04

Capítulo 04

— Ko Z, não se atrase, ouviu? Não quero que ela tenha uma impressão errada de mim. Ela pode ficar confusa quando chegar. Isso já aconteceu antes, tá?

— Eu sei, eu sei. Para de roer as unhas desse jeito. Sei muito bem o que tenho que fazer. Vai cuidar das suas coisas. Você está nervoso demais...

— Então por que você mesmo não vai, já que está tão preocupado? — provocou Ma Cho.

— Ugh... Tenho uma aula para dar. Não posso faltar. Isso está me deixando tão inquieto...

A querida tia Swe de Nyi estava voltando dos Estados Unidos. Como ele tinha um compromisso em um centro de reabilitação administrado por uma ONG local, onde atuava como instrutor voluntário de capacitação profissional, não poderia recebê-la no aeroporto e me pediu para ir em seu lugar.

Ele adorava aquela mulher, mas realmente não tinha escolha.

A maioria dos alunos de sua turma eram pessoas que haviam sofrido abusos físicos e psicológicos por tráfico humano, escravidão sexual ou exploração como profissionais do sexo, e que tinham sido resgatadas pela ONG. O objetivo era ajudá-las a recuperar a autoestima e construir uma vida confortável e digna.

Nyi ensinava panificação, preparo de café, confeitaria, culinária e gestão.

Era extremamente profissional no que fazia.

Mesmo assim, nós o tratávamos como um novato.

Bem... eu o tratava assim.

Na verdade, eu o admirava muito.

Mas, para mim, ele continuava sendo apenas um garoto.

Só para mim.

Eu e Ma Cho o apoiávamos em tudo o que queria fazer.

Qualquer coisa.

Absolutamente qualquer coisa.

— Ko Z, entregue para ela tudo o que eu preparei. E não se esqueça de explicar por que não pude vir recebê-la, certo? Não deixe de falar isso. É muito importante. Certifique-se de que ela entenda, ouviu?

Ele continuava repetindo instruções sem parar.

O que entregar.

O que dizer.

Como dizer.

Que inferno.

— Pronto, pronto, Senhor Vovô. Você já explicou tudo. Ele vai conseguir resolver isso. Pare de ficar tão nervoso — disse Ma Cho.

— Está vendo, Ma Cho? Está vendo como ele fica irritante quando está assim? Senhor Vovô...

— Ah, qual é! Vai logo! Ppalliga! (빨리가 — depressa!)

Ele me empurrou em direção à porta.

Saí imediatamente e fui para o aeroporto.

Cheguei tão cedo que parecia ridículo.

Tudo graças ao Nyi.

Os presentes para a tia Swe incluíam um urso de pelúcia gigante, mais alto do que eu e três vezes maior que meu corpo.

E aquilo era apenas um dos presentes de boas-vindas.

Havia inúmeras bolsas e pacotes.

Pequenos.

Grandes.

Enormes.

Muito obrigado, Senhor Vovô.

Parecia um completo maluco.

Todo mundo que passava olhava para mim com uma expressão que dizia claramente:

"O que há de errado com esse cara?"

Empilhei todos os presentes em um canto do saguão de desembarque e me sentei em um banco próximo.

Enquanto esperava, observando as pessoas passarem, meu radar captou algo interessante.

Uma mulher.

Talvez tivesse uns vinte e cinco anos.

Sorri para ela.

Pareceu que ela sorriu de volta.

Normalmente, as garotas apenas desviavam o olhar, colocavam o cabelo atrás da orelha e ficavam tímidas.

Mas aquilo era diferente.

Eu tinha certeza.

Ela conversava com alguém ao seu lado, sorrindo bastante e assentindo de vez em quando.

Só de observá-la, tive a sensação de que aquela mademoiselle não era comum.

Era extraordinária.

Simples e elegante.

Refinada.

Inteligente.

Muito acima do meu nível.

Jovem, mas experiente.

Cheia de mistério.

Uau.

Eu mesmo fiquei impressionado comigo por estar pensando tudo aquilo.

Era como encontrar uma joia rara.

Um tesouro precioso.

Seu cabelo longo e escuro parecia carregar segredos.

Misterioso.

Hipnotizante.

Lindo.

— Com licença.

Toda aquela fantasia desapareceu quando ouvi uma voz ao meu lado.

Era um estrangeiro pedindo para se sentar.

Retirei minhas coisas do banco e sorri.

— Obrigado.

Ele se acomodou.



— Conhecido seu? — perguntou Ko Zaw Htay.

— Não.

— Ah... então por que ele estava sorrindo para você? Esses jovens de hoje...

Ele falou em tom de reprovação.

Às vezes, Ko Zaw Htay se irritava com muita facilidade.

Mas eu entendia.

Quando alguém se preocupa demais com uma pessoa querida, acaba ficando nervoso.

Tenho certeza de que aquele rapaz apenas sorriu de forma amigável.

Nada além disso.

Um sorriso educado.

Sem segundas intenções.

Qual era o problema?

Ele devia ter cerca de um metro e oitenta.

Pele morena.

Musculoso.

Elegante.

Bonito.

Muito atraente.

Diferente da maioria dos homens de hoje.

Tinha um ar refinado e viril.

Além disso, conversava com confiança com o estrangeiro ao seu lado.

Seus gestos e postura transmitiam a imagem de alguém instruído.

Simples.

Mas cheio de energia.

♪ Tin Tone ♪

O aviso de chegada do voo ecoou pelos alto-falantes.

— Vamos, Mahar. Eles chegaram.

Eu estava tão distraída pensando naquele homem que quase me esqueci do motivo de estar ali.

Mas tinha alguém para receber.

Afastei o pensamento.



Um perfume familiar passou pelo ar.

Olhei ao redor.

— Ei, Z!

— O quê? Dipar? Myat Noe? O que vocês estão fazendo aqui? Quem está chegando? Ou vocês estão indo viajar?

— Vamos para Bangkok! Compras! — responderam animados. — Espera... onde está Kaung Kaung?

— Está ocupado. O Senhor Vovô tem aula para dar. Como podem ver, estou aqui resolvendo os negócios dele com esse urso gigante.

— Hahaha! Ele fez isso de novo!

Os dois começaram a rir.

— Precisamos tirar uma foto disso!

— O quê? Por quê?

— Porque vocês vivem grudados um no outro. Mas isso aqui parece uma exposição de museu!

— É verdade!

Revirei os olhos.

Mas eles não estavam errados.

Raramente passávamos muito tempo separados.

— Afinal, por que ele mandou você vir aqui? — perguntou Dipar.

Enquanto isso, Myat Noe tirava fotos ao lado do urso.

— A tia Swe está voltando dos Estados Unidos. Vim recebê-la.

— Sério?!

Os dois responderam ao mesmo tempo.

— Sim.

— Espera aí. Ela é tia de quem? Sua ou do Kaung Kaung?

— Minha tia de verdade.

— Sério? Nós sempre pensamos que fosse tia dele!

Depois de rir mais um pouco, despediram-se.

— Foi bom ver você! Agora vamos para Bangkok fazer compras!

E desapareceram.

Olhei ao redor mais uma vez.

A mulher que eu observava já havia sumido.

Então avistei tia Swe.

Acenei para ela.

Ela veio em minha direção e a primeira coisa que perguntou foi:

— Onde está Kaung Kaung?

Claro.

Ela perguntou por ele.

Expliquei tudo.

Contei o motivo de sua ausência.

Entreguei os presentes.

E ela sorriu.

— Mesmo de longe, ele continua sabendo exatamente do que eu gosto. Eu o amo tanto.

Claro que ama.

Aquele garoto encantava todo mundo.

Foi exatamente isso que pensei.

Caminhamos até o estacionamento.

No meio do caminho, ela passou por mim.

Mas não me notou.

Estava ocupada conversando com um estrangeiro que parecia um grande empresário.

Bem...

Até mais.

Ou talvez...

Nunca mais.

Criei uma nova pasta em meu coração.

Talvez também um atalho na memória.

Quem sabe um dia essa pasta acabe indo para a lixeira.

Talvez.

Só talvez.

Mademoiselle...

Até nos encontrarmos novamente.

Ang Ang - Capítulo 17 🔞

Capítulo 17

— Eu queria ser médica.

A mão de Hwayoung deslizou com cuidado pelas nádegas de Gyuwon. Como o cabelo dele ainda estava molhado, Gyuwon ouvia a história com os olhos semicerrados.

De certa forma, Hwayoung combinava com a profissão. Ela era carinhosa e atenciosa, e sempre cuidava dele depois que tudo terminava. Também tinha um lado firme, que parecia adequado à vocação. Então por que acabara se tornando contadora?

Hwayoung soltou uma risadinha, como se tivesse entendido a dúvida dele.

— Combina tanto comigo, não acha? Nem sei o que fazer. Combina demais.

Depois de dizer isso, depositou um beijo leve nas costas de Gyuwon e continuou:

— Se eu fosse dentista, até alguém como você subiria naquela cadeira sem reclamar. Ficaria tão extasiado que acabaria rangendo todos os dentes, não é? E quando penso em cirurgia... sinceramente, só consigo imaginar proctologia. Considerei várias especialidades, mas nenhuma parecia certa. Achei que lidar com pessoas seria cansativo demais, então resolvi brincar com números.

Ela examinou cuidadosamente as nádegas dele, a região que havia sido estimulada antes e também o ombro onde o mordera. Só então se afastou.

— Se aparecesse um paciente como você, eu não conseguiria me controlar. Não tenho muita confiança na separação entre vida profissional e pessoal. E, acima de tudo, meu irmão...

Enquanto falava, Hwayoung observou o rosto de Gyuwon. Ele virou a cabeça, confuso. Ao vê-lo corar, ela pensou por um instante e sorriu.

— Oppa Gyuwon?

O rosto dele ficou ainda mais vermelho.

— Você não gosta quando eu te chamo de oppa?

Ela perguntou de propósito, mesmo sabendo que aquele não era o problema.

— Não...

A resposta saiu quase como um murmúrio.

Hwayoung caiu na gargalhada.

Nesse momento, alguém bateu à porta.

— Entre.

Enquanto Hwayoung caminhava tranquilamente até a entrada, Gyuwon vestiu as calças às pressas.

“Oppa Gyuwon”.

A forma como ela o chamara parecia estranhamente agradável. Carinhosa, delicada e ligeiramente provocadora.

Doce.

Tão doce que fazia suas orelhas e sua cabeça formigarem.

Tentou convencer a si mesmo de que estava tudo bem, embora não conseguisse esconder o rosto vermelho. Talvez não estivesse tão evidente. Além disso, sua pele bronzeada ajudaria a disfarçar.

Assim que abriu a porta, Hwayoung franziu a testa ao ver o gerente. Pelo momento exato em que aparecera, era óbvio que ele estava acompanhando as câmeras.

Coisas que antes ignorava — como segurança e privacidade — passaram a incomodá-la desde que começara um relacionamento com Gyuwon.

Decidiu internamente que nunca mais voltaria àquele lugar.

O gerente entregou rapidamente um vídeo a ela e perguntou, percebendo seu desagrado:

— Se não se importar... eu gostaria de conversar.

Ao lado dele estava Yunho, parecendo alguém que acabara de levar uma surra.

Hwayoung não sentiu a menor pena.

Ser espancado pelo gerente era muito melhor do que ser espancado por ela.

Ela saiu para o corredor, fechou a porta atrás de si e assentiu.

Era um gesto que significava “fale”, mas também deixava claro que ninguém entraria naquele quarto.

O gerente respirou fundo.

— Yunho tem algo para dizer.

Parecia que ele próprio não queria falar diante da expressão gelada de Hwayoung.

Incentivado pelo gerente, Yunho finalmente abriu a boca, o rosto completamente vermelho.

— É verdade que... eu gravei o vídeo da Hwayoung e enviei para o trabalho. Mas o Benz não fui eu.

A desconfiança apareceu imediatamente no rosto dela.

— É verdade! Eu tenho provas!

Ele parecia desesperado.

— Provas?

— É verdade — confirmou o gerente. — Naquele dia, Yunho estava fazendo um serviço para mim. Ele estava em viagem de negócios, e posso confirmar que saiu do local às nove da manhã. Então a pessoa do Benz deve ser outra.

Hwayoung alternou o olhar entre os dois.

Cem milhões de wones em reparos não eram pouca coisa.

Ela avaliou por um instante se aquilo não seria uma armação para encobrir o prejuízo.

Na verdade, já tinha chegado à conclusão antes mesmo de refletir muito.

Agora que sabia quem Yunho realmente era, a possibilidade de ele ter feito algo tão estúpido diminuía bastante.

— Você garante isso? — perguntou ao gerente.

Se ele demonstrasse qualquer hesitação, ela iria embora sem olhar para trás.

Mas ele assentiu imediatamente.

Havia um perseguidor.

E a situação estava tomando um rumo desagradável.

— Você já me seguiu alguma vez?

Yunho apontou para si mesmo.

— Eu?

Quando ela confirmou com um aceno, ele balançou a cabeça freneticamente.

Parecia genuinamente ofendido pela acusação.

Hwayoung sorriu.

— Certo. Vou cuidar disso. Quando eu pegar a pessoa, aviso você. Assim poderá recuperar o dinheiro do conserto do Benz.

Ela se curvou levemente e estava prestes a entrar quando o gerente a chamou.

— Hwayoung.

Ela parou e se virou.

— Sim?

— Não sei o que você pensa sobre isso... mas o clima anda estranho ultimamente. Recomendo que tome cuidado.

Ela inclinou a cabeça.

— O que quer dizer?

O gerente abaixou a voz.

— Estão espalhando rumores de que você encontrou um escravo. Não se esqueça do tipo de pessoa que você é neste mundo.

Hwayoung soltou uma risada curta.

— E que tipo de pessoa eu sou?

O gerente e Yunho trocaram olhares.

Os dois pareciam procurar as palavras certas.

Depois de hesitar bastante, Yunho respondeu:

— Um... ídolo?

A voz de Hwayoung quase falhou.

— Quantos anos você acha que eu tenho para me chamar de ídolo?!

Ela abriu a porta sem demonstrar o menor arrependimento.

Do outro lado, Gyuwon estava parado.

Ele lançou um olhar para Yunho e para o gerente antes de se afastar lentamente.

Assim que Hwayoung entrou, ele fechou a porta.

O silêncio se instalou por alguns segundos.

Foi ela quem o quebrou.

— Oppa Gyuwon, escutar atrás da porta é feio. Estou ficando envergonhada.

Ela falou em tom brincalhão.

Mas Gyuwon não sorriu.

Seu rosto frio e seco deixava claro que estava falando sério.

— Então existe outro perseguidor.

— Talvez.

Ela deu de ombros.

— Se deixarmos quieto, uma hora ele aparece sozinho.

Gyuwon arregalou os olhos.

— Não, não é isso.

— Hm?

— Você não está preocupada?

Hwayoung percebeu a expressão inquieta dele e abriu um sorriso suave.

— Estou.

A resposta simples o pegou desprevenido.

Ela continuou:

— Eu sou meio simplória por natureza. Não tenho imaginação suficiente para temer algo que não está diante dos meus olhos. Talvez porque eu gaste toda a minha imaginação em outras coisas.

Ela riu de forma despreocupada.

Mesmo assim, uma pequena inquietação permaneceu no coração de Gyuwon.

Pela primeira vez desde que a conhecera, ele sentiu um desconforto difícil de explicar.

Hwayoung ergueu os olhos para Gyuwon com um sorriso radiante.

Ela não deixou escapar a ansiedade sutil, a expectativa e a vergonha misturadas na expressão daquele rosto de traços marcantes e aparência fria. Como apenas ela era capaz de perceber aquela sombra escondida, o prazer se tornava ainda mais especial.

Sentia uma satisfação quase voyeurística ao enxergar o que existia no fundo de Kim Gyuwon.

Com um sorriso, mostrou-lhe um par de brincos de rubi.

— Gostou?

O olhar de Hwayoung passou brevemente pelo peito dele antes de desaparecer.

Parecia avaliá-lo.

Gyuwon sorriu sem jeito e assentiu, mas a verdade era que nem sequer havia observado os brincos direito.

Hwayoung soltou uma risadinha.

A timidez dele era divertida demais.

E, justamente por isso, decidiu provocá-lo um pouco mais.

— E este aqui? Ah... mas acho que vermelho combina mais.

Ela pegou um safira ao lado do rubi.

A cada joia que examinava, lançava olhares rápidos para o rosto cada vez mais constrangido de Gyuwon, que desviava o olhar com movimentos discretos.

Chegou até mesmo a pegar e largar um diamante antes de finalmente voltar ao rubi que queria desde o início.

Depois de algum tempo, Gyuwon falou cuidadosamente:

— Hwayoung... você é... mais travessa do que eu imaginava.

Ela riu baixinho.

Mas ele não acrescentou mais nada.

Apesar do enorme constrangimento, havia uma sensação estranhamente agradável misturada à vergonha, algo que ao mesmo tempo o torturava e o fazia feliz.

Já dentro do carro, Hwayoung murmurou:

— Você gosta quando eu implico com você.

Gyuwon acabou rindo.

Como se tivesse sido atraída pelo som daquela risada, Hwayoung riu também.

— E agora? Para onde estamos indo?

O sorriso desapareceu do rosto dele.

— Não acha que estamos seguindo pelo caminho errado?

Hwayoung, que observava a paisagem pela janela, comentou casualmente.

— Não olhe para trás.

— Já dei uma olhada.

Ela virou o rosto para ele.

— Estamos sendo seguidos.

Ao ouvir aquilo, Hwayoung franziu a testa por um instante.

Então sorriu.

— Ah, eu sei que sou bonita.

Gyuwon deixou escapar uma gargalhada.

A brincadeira dissipou parte da tensão que havia se acumulado em sua mente.

Mas as palavras seguintes quase o fizeram bater a cabeça no volante.

— Realmente é difícil ter um namorado bonito. E se alguém resolver roubar meu oppa lindo?

Sem coragem de perguntar quem exatamente era esse “namorado bonito”, Gyuwon apenas sorriu de maneira rígida.

Será que Hwayoung realmente o considerava bonito?

Depois de olhar rapidamente para o retrovisor — mais para verificar o próprio rosto do que o carro que os seguia — ele chegou a duvidar da visão dela.

— Com licença, Hwayoung...

Antes mesmo que terminasse a frase, ela respondeu:

— Minha visão é 1,8 nos dois olhos. E eu adoro esses seus olhos.

Gyuwon ficou sem palavras.

Ela prosseguiu, satisfeita:

— Tenho ótimo senso de observação. Também sou muito boa em perceber certas coisas. Veja só: descobri imediatamente que você era submisso.

Ela riu.

— Aliás... se aquele Grandeur preto está nos seguindo, ele me parece muito familiar.

O sorriso de Hwayoung se ampliou.

— Que reviravolta interessante.

Ela pegou o celular, pressionou alguns botões e levou o aparelho ao ouvido.

— Alô, irmãozinho?

Gyuwon teve um mau pressentimento.

E ele estava certo.

Era mesmo o irmão dela.

Completamente surpreso, ouviu Hwayoung dizer:

— Oppa, encoste o carro. Vamos conversar cara a cara.

Ela fez um sinal para Gyuwon.

Ele conduziu o veículo até o acostamento.

O Grandeur preto, que os seguia mantendo um carro de distância, parou logo atrás.

— Só um momento.

Após se desculpar com Gyuwon, Hwayoung saiu do carro em passos largos.

Ela bateu no vidro do Grandeur.

Quando o vidro baixou, surgiu o rosto de Yoon Kiyoung.

— Oi, Hwayoung.

O sorriso dele era visivelmente constrangido.

— O que está fazendo? Por que está me seguindo?

Kiyoung desviou o olhar.

— O pai está preocupado. Você sabe disso.

Mesmo aos vinte e sete anos, continuava sendo o caçula da família.

— Está tudo bem. Não sou mais uma criança. Além disso, vocês até colocaram um guarda-costas atrás de mim.

O sorriso luminoso de Hwayoung fez Kiyoung explodir.

— Esse guarda-costas e você...!

Ele parou no meio da frase.

Respirou fundo.

— Já chega.

— Nem consegue terminar o que quer dizer.

— Você...!

Mais uma vez, ele desistiu.

— Já chega.

— Pare de me seguir. Só está atrapalhando.

O rosto de Kiyoung se fechou imediatamente.

Hwayoung deu de ombros.

— Oppa, você já foi seguido alguma vez?

Quando ela perguntou, ele assentiu.

Então era ele quem vinha aparecendo atrás dela nos últimos dias.

Mas isso levantava outra questão.

Quem havia destruído o Benz?

Quem tinha rabiscado a porta da frente?

Sem contar os telefonemas estranhos.

Ela não comentara isso com Gyuwon, mas vinha recebendo ligações perturbadoras havia algum tempo.

As chamadas haviam parado apenas depois que trocara de número.

E foi justamente no dia da troca que conheceu Gyuwon.

Enquanto organizava mentalmente todas aquelas informações, Kiyoung perguntou com cautela:

— É algo sério?

— Não é nada com que você ou o pai precisem se preocupar.

Ela respondeu sorrindo.

Mas Kiyoung estendeu o braço pela janela e segurou sua mão.

Seu rosto estava sério.

— Não sou tão estúpido a ponto de incomodar você sem motivo. Apenas me diga. Vou ajudar da forma que quiser. Seja perseguição... ou abrir uma empresa.

— Lá vem você de novo com essa história de abrir empresa!

Hwayoung caiu na gargalhada.

— Eu sempre digo: mesmo que eu abra uma empresa, ninguém vai aparecer. E para um negócio dar certo, é preciso administrá-lo por pelo menos dez anos!

— Todo mundo consegue.

— Claro...

Ela bateu a porta do carro.

Tudo estaria bem se não fosse um detalhe.

Seu pai e seus irmãos acreditavam demais nela.

Existiam inúmeras pessoas brilhantes no mundo.

Colegas de universidade.

Pessoas que haviam estudado no exterior.

Especialistas em todas as áreas possíveis.

Mesmo assim, para a família, Hwayoung era a melhor.

Certa vez, quando tentou discutir isso seriamente, um dos irmãos respondeu:

— Mas eles são tão bonitos quanto você?

Depois daquela resposta, ela desistira completamente da conversa.

Não havia o que argumentar.

Para eles, o irmão caçula era simplesmente o melhor em tudo.

— Enfim, oppa...

Hwayoung interrompeu a frase.

Uma sombra caiu sobre ela.

Instintivamente virou a cabeça.

Mas, antes que pudesse reagir, alguém a agarrou.

Seu corpo girou.

Ela foi puxada para trás por braços fortes.

Quando ergueu os olhos, encontrou Gyuwon.

— Oppa?

Sem responder, ele segurou o pulso dela e a empurrou para longe.

Então disparou correndo atrás de alguém que fugia ao longe.

Ao mesmo tempo, Kiyoung e seus homens saíram do Grandeur.

— Hwayoung! O que aconteceu?!

— A senhorita está bem?!

Por alguns segundos, Hwayoung apenas encarou o líquido espalhado no chão diante dela.

Seu olhar subiu lentamente.

Então percebeu o buraco aberto na manga da própria roupa, exatamente onde o líquido havia respingado.

Seu rosto endureceu.

No instante seguinte, ela começou a correr.


Stand by Your Side - Capítulo 07

Capítulo 07 – A Pessoa que Dormia no Salão de Convivência

De manhã cedo, Jiang Chi trocou de roupa para correr e se preparou para sair. A cama em frente à sua ainda estava vazia, mas ele não pensou muito nisso e simplesmente foi embora.

Ao passar pelo salão de convivência, viu Gu Buxia encolhido em um canto do sofá. O casaco havia caído no chão, e ele estava todo enroscado, feito uma bolinha. Jiang Chi hesitou por um segundo, colocou os fones de ouvido e seguiu seu caminho.

No ar, porém, surgiu um ruído semelhante à interferência de uma estação de rádio. O som penetrou nos ouvidos de Gu Buxia, que se encolheu ainda mais, franzindo a testa como se estivesse preso em um pesadelo.

Jiang Chi já havia chegado à entrada do dormitório quando a imagem de Gu Buxia enroscado naquele sofá surgiu em sua mente sem ser convidada.

De repente, sentiu-se inquieto.

Após hesitar por alguns instantes, acabou voltando.

Ao retornar ao salão, tirou os fones e ficou parado ao lado do sofá, olhando de cima para baixo.

Depois de encarar o rosto adormecido por alguns segundos, abaixou-se, pegou o casaco caído no chão e o jogou sobre Gu Buxia com impaciência.

O casaco não o cobriu direito. Gu Buxia balançou a mão distraidamente, e a peça escorregou novamente.

Antes que tocasse o chão, Jiang Chi a agarrou por reflexo.

Seu corpo reagira mais rápido que seus pensamentos.

Ele encarou a própria mão com expressão fria e, irritado consigo mesmo, atirou o casaco diretamente sobre o rosto de Gu Buxia.

Assustado pelo movimento brusco, Gu Buxia se encolheu instantaneamente.

Jiang Chi franziu a testa e puxou o casaco para baixo, deixando seu rosto à mostra.

— Ei, Gu Buxia. Se vai dormir, dorme no quarto!

Deu um leve chute no sofá.

O ruído de interferência voltou a soar nos ouvidos de Gu Buxia, fazendo suor frio escorrer por seu corpo.

— Mmm... ah...

O gemido abafado chamou a atenção de Jiang Chi.

Algo não parecia certo.

Ele tocou o rosto do colega com as costas da mão.

— Ei, acorda...

Assim que o tocou, percebeu o problema.

Gu Buxia estava ardendo em febre.

Ele tentou acordá-lo, mas sem sucesso. Os murmúrios sonolentos apenas ficaram mais altos.

Com receio de que acabasse acordando os outros estudantes logo cedo, Jiang Chi decidiu levá-lo para o quarto.

Abaixou-se para ajudá-lo a levantar, mas foi agarrado de repente.

Quando tentou se reposicionar, Gu Buxia, ainda meio inconsciente, enterrou o rosto em seu peito.

O rapaz tremia.

Sem pensar, Jiang Chi deu leves tapinhas em suas costas.

Instantaneamente, o ruído perturbador desapareceu dos ouvidos de Gu Buxia.

Os tremores diminuíram.

Os murmúrios também.

Percebendo que ele parecia melhor, Jiang Chi o colocou nas costas, pegou o casaco e a mochila e voltou para o quarto.

Enquanto dormia, Gu Buxia pareceu sonhar com alguma coisa.

Seus braços começaram a se mover descontroladamente, e ele quase caiu.

— Francamente...

Jiang Chi o ajustou novamente nas costas.

— Mmm... ah...

A cabeça de Gu Buxia pendia ao lado de seu pescoço.

A respiração quente e os murmúrios inconscientes faziam cócegas em sua pele, provocando uma sensação estranha.

Jiang Chi tentou afastar a cabeça.

Mas, no instante em que se moveu, os braços ao redor de seu pescoço apertaram ainda mais.

— Gu Buxia... larga...

Nenhuma resposta.

O outro continuava profundamente adormecido.

Sem alternativa, Jiang Chi acelerou o passo.

Quando finalmente chegaram ao quarto, ele quase comemorou por não ter sido estrangulado no caminho.

Abriu a porta com dificuldade e entrou.

Foi direto até a cama e largou Gu Buxia sobre o colchão.

Nesse momento, a espada de madeira de pessegueiro acabou sendo puxada junto.

Tum!

— Mmm... ai...

A espada acertou sua cabeça em cheio.

Gu Buxia fez uma careta de dor.

Jiang Chi pendurou o casaco, guardou a mochila e colocou a espada de lado.

Ao se inclinar para verificar se ele estava bem, viu duas mãos se estendendo em sua direção.

Quis recuar.

Tarde demais.

Gu Buxia agarrou sua mão e a puxou para junto do rosto.

Então começou a esfregá-la na bochecha.

O frescor da pele alheia aliviou instantaneamente o calor da febre.

O ruído perturbador desapareceu completamente.

Por instinto, ele segurou aquela mão com toda a força.

À medida que a acariciava, sua expressão de sofrimento foi desaparecendo.

Pequenos murmúrios satisfeitos escapavam de seus lábios.

Jiang Chi sentiu-se extremamente desconfortável.

Tentou retirar a mão.

Falhou.

Tentou outra vez.

Falhou novamente.

Depois de várias tentativas frustradas, desistiu.

Suspirando, acomodou-se ao lado da cama e puxou o cobertor para cobrir Gu Buxia.

“Quando devo acordar esse sujeito?”

Ele hesitou.

Mas ao ver a expressão tranquila e satisfeita de Gu Buxia enquanto abraçava sua mão, acabou não tendo coragem de acordá-lo.

Gu Buxia dormiu por muito tempo.

A luz do sol atravessou a janela e iluminou o dormitório.

Sentado no chão, Jiang Chi adormeceu apoiado na lateral da cama.

Uma das mãos segurava um exemplar de Direito Penal – Parte Especial.

A outra permanecia erguida de forma desconfortável, presa entre os braços de Gu Buxia.

Depois de um sono particularmente agradável, Gu Buxia despertou esfregando o rosto contra aquela mão.

Abriu os olhos lentamente.

Havia até um sorriso em seus lábios.

Mas então percebeu algo.

Uma mão.

Segurada firmemente pelas suas duas mãos.

Seu rosto empalideceu.

Uma imagem assustadora atravessou sua mente.

Ele segurava uma mão decepada.

Uma voz rouca e ecoante sussurrava em seus ouvidos:

“Devolva minha mão... Não restou nada do meu corpo... Encontre o assassino...”

— AAAAAH!

Sonho e realidade se misturaram.

Apavorado, Gu Buxia soltou a mão e a arremessou para longe.

Jiang Chi despertou assustado.

No movimento, esbarrou na espada de madeira.

Ela voou em direção à sua cabeça.

Com reflexos rápidos, ele a interceptou no ar e a jogou para longe.

Massageando o pulso, dolorido após horas preso e depois violentamente arremessado, lançou um olhar irritado para Gu Buxia.

— Ah...

Percebendo o que havia acontecido, Gu Buxia ficou constrangido.

— Desculpa! Desculpa mesmo! Acho que tive um pesadelo. Pensei que estava segurando uma mão decepada.

— Uma mão decepada?

Jiang Chi balançou o pulso.

— Que tipo de sonho é esse? Você tem uma força absurda. Não consegui me soltar.

— Bem...

Gu Buxia tentou lembrar.

— Alguém queria apertar minha mão. Só que, assim que apertei, a mão se desprendeu do braço e a pessoa caiu morta no chão.

Enquanto ele narrava tudo com riqueza de detalhes, Jiang Chi apenas balançava a cabeça.

“Que tipo de coisa passa pela cabeça desse sujeito?”

De repente, Gu Buxia percebeu seu casaco cuidadosamente pendurado e a mochila guardada.

Olhou desconfiado para Jiang Chi.

Percebendo o olhar, ele explicou:

— Você estava gritando feito um louco lá fora logo cedo. Para não acordar todo mundo, tive que arrastar seu cadáver do salão até aqui.

Gu Buxia inclinou a cabeça.

Então começou a lembrar.

Recordou-se vagamente de ter sido sacudido enquanto estava sendo carregado.

Também se lembrou da sensação de estar nas costas de alguém.

Era tão reconfortante quanto quando seu avô o carregava na infância.

Lembrava-se até de ter murmurado “vovô” antes de voltar a dormir e abraçar quem o carregava.

— Ah! Então foi você quem me trouxe?

— Quem mais seria? — Jiang Chi respondeu arqueando uma sobrancelha.

Um sorriso bonito surgiu no rosto de Gu Buxia.

— Não imaginava que você fosse tão gentil. Obrigado.

Acostumado às provocações constantes entre eles, Jiang Chi ficou estranhamente sem jeito ao ouvir aquele agradecimento.

Levantou-se rapidamente e alongou o corpo.

Depois olhou as horas.

Limpou a garganta.

— A propósito... você estava com uma febre bem alta de manhã. Melhorou?

Gu Buxia tocou a própria testa.

A temperatura parecia normal.

— Acho que sim. Talvez eu tenha passado frio ontem à noite.

— Se voltou, por que não entrou no quarto para dormir?

— Ah...

Ele sorriu sem graça.

— Perdi a chave em algum lugar. Como já era tarde, achei que você estivesse dormindo e não quis incomodar. Pensei que daria para passar a noite no salão.

Fez uma pausa.

— Quem diria que parecia um freezer.

Depois da explicação, seus olhares se encontraram.

O quarto mergulhou num silêncio estranho.

Fora alguns ruídos vindos do lado de fora, tudo estava quieto demais.

Gu Buxia bateu levemente na própria cabeça para quebrar o clima.

— Ei... por que isso aqui está inchado?

Ao tocar o local, sentiu uma pontada de dor.

Jiang Chi não respondeu.

Apenas lançou um olhar para a espada de madeira e desviou os olhos.

Então começou a juntar suas coisas para sair.

— Ah!

Gu Buxia olhou as horas.

— Você está atrasado?

Passou a mão na nuca, constrangido.

— Foi mal. Por minha causa.

Jiang Chi virou-se, surpreso.

— Você sabe meu horário de aulas?

— Ora, nós estamos morando juntos há duas semanas.

Gu Buxia bocejou.

Acenou com a mão.

Depois se enrolou novamente no cobertor como um casulo.

— Vou dormir mais um pouco.

Com a mochila nas costas, Jiang Chi observou aquele “casulo humano”.

Sem perceber, um leve sorriso surgiu em seus lábios.

Enquanto seguia para a sala de aula, continuou lembrando daquela expressão adormecida.

Daquele rosto esfregando-se em sua mão.



1930 - Capítulo 09

Capítulo 09: Li Nian

Era preciso admitir: Jin Shian ficava muito bem vestido.

Certas coisas na elegância de uma pessoa são difíceis de mudar. Há um tipo de presença que nenhuma tendência da moda consegue moldar. Shian conseguia vestir roupas do século XXI e ainda assim transmitir a sofisticação dos anos 1930. Tinha uma excelente compleição física, postura impecável, cintura estreita que se prolongava em pernas longas e bem proporcionadas. Parecia um cavalheiro saído diretamente da tela de um filme antigo, caminhando passo a passo com firmeza e serenidade.

Até mesmo Zheng Meirong ficou chocada com a transformação.

— Presidente Jin...

— O que foi?

— Depois do acidente... seu senso de estilo parece ter melhorado de repente.

Shian sorriu discretamente.

— Tudo graças à orientação de Bai Yang.

...Ao ouvir aquilo, Bai Yang corou imediatamente.

Não, não era hora de corar.

Uma pessoa não podia continuar caindo no mesmo golpe repetidas vezes.

O que Bai Yang realmente precisava era conversar seriamente com Jin Shian sobre sua futura carreira artística.

— Afinal, quando você pretende cumprir sua promessa? Já faz um mês.

— Para que tanta pressa? Já pedi à Meirong que preparasse um relatório sobre as empresas de entretenimento do país. Mesmo que eu abra uma agência nova para você, ainda vamos precisar de um agente competente para administrá-la, não acha?

Curvado sobre a escrivaninha, Shian continuava escrevendo calmamente.

A ousadia daquele homem era impressionante.

Ele simplesmente mandara instalar uma segunda mesa de trabalho dentro do escritório do presidente, completa com pincéis, tinta, papel e pedra de tinta.

Quando Bai Yang o viu arregaçando as mangas para praticar caligrafia, quase desmaiou.

— Isso é exagerado demais! É muito fácil alguém desconfiar!

O antigo Jin Shian provavelmente nem sabia como segurar um pincel de caligrafia!

— E daí? — respondeu Shian tranquilamente. — Pelo que vejo na televisão, as pessoas de hoje ainda praticam caligrafia. Desde que eu não cometa erros básicos de bom senso, por que deveria imitar o antigo presidente Jin em tudo? É melhor ser eu mesmo. Quem teria coragem de reclamar?

— Sim, sim, você é incrível.

Bai Yang se deu por vencido.

Quando escrevia, Shian costumava abrir dois botões da camisa. A musculatura firme do peito aparecia discretamente sob a gola entreaberta.

Bai Yang observava aquela sensualidade involuntária com uma mistura de inveja e irritação.

Sentia-se atingido em cheio por uma onda de charme devastadora.

Na verdade, começou até a se preocupar.

Se Jin Shian resolvesse entrar na indústria do entretenimento daquele jeito, então ele, Bai Yang, estaria realmente acabado.

Tentando controlar o ciúme, perguntou:

— Como você sabe que eu preciso de um agente?

Shian levantou os olhos da mesa.

— Weibo.

Bai Yang sentiu que já não conseguia acompanhar o ritmo daquele presidente.

Algum tempo antes, Shian lhe perguntara do que ele gostava.

Bai Yang respondera que gostava de cantar.

Isso fez Shian lembrar-se de Lusheng.

— E o que você costuma cantar?

Parecia que ele queria uma apresentação ali mesmo.

Diante de seu patrocinador, Bai Yang precisava mostrar serviço.

Quebrou a cabeça tentando escolher uma música próxima da época de Shian para causar a melhor impressão possível.

"Noite de Xangai"? Não.

"Meu Pequeno Inimigo"? Que constrangedor.

"Perfume da Noite"? Nem lembrava mais a melodia.

Depois de muito pensar, acabou cantando "Tian Mimi" (Doce Mel).

Mesmo sendo uma música muito posterior à época de Shian.

Sem violão à mão, cantou à capela.

Shian ouviu tudo com um sorriso.

Na verdade, ele não era capaz de avaliar se Bai Yang cantava bem ou mal.

Mas conseguia perceber o quanto o rapaz estava envolvido na música.

Tão envolvido que, enquanto cantava, lágrimas começaram a surgir em seus olhos.

Sem entender o motivo, Shian rapidamente estendeu a mão para enxugar as lágrimas que se acumulavam nos cantos de seus olhos.

— Ficou bonito? — perguntou Bai Yang, com a voz embargada.

— Ficou. Muito bonito. Mas por que está chorando?

Bai Yang abaixou a cabeça.

— Minha mãe gostava muito dessa música.

— Está com saudade dela?

— ...Minha mãe faleceu há muito tempo.

Shian finalmente compreendeu.

Com ternura, afagou suas costas repetidas vezes.

E, finalmente, o tão esperado agente acabou aparecendo.

O tão esperado agente finalmente apareceu.

Shian revisou várias vezes os relatórios compilados por Zheng Meirong e, em seguida, convocou alguns gerentes de departamento para uma reunião.

Não era a primeira vez que o Grupo Hailong investia na indústria do entretenimento. Os executivos conheciam bem o setor e rapidamente recomendaram algumas grandes agências que estavam interessadas em receber novos investimentos.

— Também podemos abrir uma empresa nova — explicou Zheng Meirong. — Das que mencionamos agora há pouco, Xinlian, Fenghuang e Dingxin, todas permitem contratar profissionais experientes do mercado. Só que o custo será maior.

Shian folheava os documentos em silêncio.

— Pelos relatórios financeiros dos últimos anos, vejo que o grupo já possui uma agência artística. Por que ninguém a mencionou?

O ambiente mergulhou em silêncio.

Depois de alguns segundos, Zheng Meirong respondeu:

— ...Ela foi criada para Qin Nong.

Naturalmente, ela não mencionou que boa parte da equipe era composta por paparazzi enviados por Jin Shian para vigiar a atriz.

Shian não fazia ideia de quem era Qin Nong, mas decidiu seguir a conversa.

— Ela ainda está lá?

Zheng Meirong interpretou a pergunta de outra forma.

— Claro que não, presidente Jin.

Shian bateu levemente os dedos na mesa.

— Vejo que a empresa teve excelentes resultados no passado. Mas nos últimos dois anos o desempenho caiu bastante.

Zheng Meirong sentiu o couro cabeludo formigar.

— Bem... depois que Qin Nong saiu, o senhor perdeu o interesse pelo negócio. Considerando tudo, o fato de não ter retirado os investimentos já foi um milagre.

Na verdade, quem havia esquecido da existência daquela empresa não era Jin Shian.

Era ela.

Em silêncio, rezou para que o presidente não resolvesse responsabilizá-la.

Mas Shian parecia satisfeito.

— Entre começar algo novo e reencontrar velhos conhecidos, prefiro a segunda opção. Já que temos uma antiga parceria, devemos cuidar dos velhos amigos. Quem está administrando a empresa atualmente?

— Li Nian.

No dia seguinte, Li Nian foi convidado a comparecer à sede do Grupo Hailong.

Quando Shian entrou no escritório, encontrou-o sentado à espera.

Pela quantidade de pontas de cigarro alinhadas no cinzeiro, devia estar ali havia bastante tempo.

Shian observou a fileira perfeitamente organizada com interesse.

Então virou-se para Zheng Meirong.

— Peça para trocarem esse cinzeiro. Como podemos tratar o presidente Li com tamanha falta de consideração?

Li Nian levantou-se imediatamente e sorriu.

— Não precisa, não precisa. Fui eu quem teve preguiça de trocar.

Era um homem de estatura baixa.

A pele tinha um tom amarelado e cansado. Havia sombras escuras sob os olhos, como se passasse noites demais sem dormir ou se entregasse a excessos pouco saudáveis.

Mas seus olhos...

Seus olhos eram vivos.

Ágeis.

Afiados.

Cheios de inteligência.

Ao vê-los, Shian soube imediatamente que aquele homem era útil.

Depois que Zheng Meirong saiu, ele dispensou também os funcionários responsáveis pelo serviço de chá.

Li Nian voltou a se sentar.

— Faz um mês que você desapareceu. Pensei que finalmente tivesse desistido de Qin Nong. Mas agora vejo que encontrou um novo passatempo. Até uma mesa para praticar caligrafia apareceu no seu escritório.

Shian acomodou-se à sua frente.

— Vou ser sincero. Perdi a memória.

Li Nian não pareceu particularmente surpreso.

Apenas deu de ombros.

Aquilo agradou ainda mais Shian.

Ele tinha seus próprios motivos.

Havia muitas coisas naquele mundo que ainda desconhecia. Se procurasse novos parceiros, suas atitudes estranhas certamente despertariam suspeitas.

Com velhos conhecidos, porém, podia simplesmente dizer a verdade.

As pessoas tendiam a acreditar que alguém mudara depois de um acidente.

Jamais imaginariam que aquela pessoa era, na prática, outra.

Além disso, os relatórios mostravam que a Anlong Entertainment tivera resultados excelentes durante anos.

Li Nian claramente não era incompetente.

Acendendo outro cigarro, ele perguntou:

— Então era por isso que você sumiu. E por que me chamou?

— Quero que você transforme um novato em estrela.

Li Nian caiu na gargalhada.

— Eu sabia! Então você desistiu de Qin Nong porque encontrou um novo amor?

Shian sorriu sem graça.

— Estou falando sério. Nem sequer lembro quem é Qin Nong.

Li Nian o observou por alguns instantes e balançou a cabeça.

— Então ela teve sorte. Deveria acender incenso em agradecimento por você finalmente deixá-la em paz.

Sem saber o que seu antecessor havia feito à mulher, Shian sentiu certo constrangimento.

— Certo. Quem é o novato?

Shian abriu uma foto de Bai Yang no celular.

Era uma selfie dos dois.

Li Nian inclinou-se para olhar.

E imediatamente sorriu.

— Presidente Jin... mudou de gosto? Agora prefere homens?

As orelhas de Shian ficaram vermelhas.

— Não é isso.

— Claro, claro. Entendi perfeitamente.

O sorriso de Li Nian ficou ainda mais divertido.

— Esse garoto me parece familiar. O que ele quer fazer?

— Gosta de cantar.

Pensou por um instante.

— Na verdade, ele quer ser celebridade. Faça o que achar melhor.

Li Nian ficou observando a foto durante vários segundos.

Depois levantou os olhos.

— Nesse caso, você vai precisar gastar bastante dinheiro.

— Dinheiro não é problema. Você acha que ele não tem potencial?

Li Nian sorriu de maneira tranquila.

— Com um rosto desses? Se tivesse um mínimo de talento para cantar ou atuar, já estaria famoso há muito tempo. Não precisaria de você para me procurar.

Deu uma tragada.

— Não o conheço pessoalmente, mas pela minha experiência... esse garoto provavelmente é apenas um vaso bonito.

As palavras incomodaram Shian.

Mas ele não tinha argumentos para rebater.

Li Nian apagou a cinza do cigarro.

— Porém, na indústria do entretenimento, embora digam que fama depende do destino e sucesso depende da sorte...

Seu sorriso tornou-se significativo.

— No fim das contas, quase não existe nada que o dinheiro não consiga comprar.

Era exatamente essa frase que Shian queria ouvir.

— Quanto?

Li Nian apagou o cigarro.

— Cinquenta milhões como investimento inicial. O restante eu apresentarei conforme as necessidades surgirem.

Cinquenta milhões.

Shian fez uma rápida conta mental.

Para o Grupo Hailong, não era uma quantia absurda.

Mas a coragem de Li Nian impressionava.

Era um pedido gigantesco.

— E por que eu aprovaria cinquenta milhões?

Li Nian acendeu outro cigarro.

Através da fumaça, sorriu.

— Presidente Jin... acha mesmo que eu vou responder essa pergunta?

Shian também sorriu.

— Você é inteligente. Sabe exatamente quando deve dizer algo e quando deve permanecer em silêncio.

Li Nian soltou uma risada.

— Nos anos que nos conhecemos, você nunca me chamou de inteligente.

— O passado ficou para trás.

Shian olhou para o cinzeiro.

— Você não tem o hábito de alinhar as pontas de cigarro. Antes da minha chegada, organizou todas elas em fila para me mostrar que estava esperando há muito tempo.

Levantou os olhos.

— Eu gosto de pessoas que falam claramente.

Li Nian arregalou os olhos.

Então caiu na gargalhada.

— Impressionante. Você perdeu a memória e ganhou inteligência.

Continuou rindo.

— Certo. Já que chegamos até aqui, vou falar sem rodeios.

Quatro ou cinco anos antes, Jin Shian conhecera Qin Nong, então uma estudante universitária.

O relacionamento entre os dois seguira o roteiro clássico de um caso de patrocínio.

Para apoiá-la, Shian criara uma agência inteira dedicada exclusivamente à sua carreira.

Havia apenas uma artista na empresa.

Qin Nong.

E o agente responsável era Li Nian.

A jovem correspondia às expectativas.

Primeiro, ganhou popularidade ao interpretar a segunda protagonista de uma série de televisão.

Depois conquistou um prêmio importante de cinema.

E então sua carreira explodiu.

Quando se tornou famosa, sua relação com Li Nian começou a se deteriorar.

Ela passou a influenciar constantemente Jin Shian.

E ele, naturalmente, acreditava em tudo o que a namorada dizia.

O resultado foi previsível.

Qin Nong afastou Li Nian da empresa e abriu seu próprio estúdio.

Li Nian foi descartado.

E permaneceu três anos no esquecimento.

— Vou ser honesto — concluiu. — Se você me contratar, consigo transformar esse garoto numa estrela tão grande quanto Qin Nong. Disso não tenho dúvidas.

Seu olhar ficou mais frio.

— Mas Qin Nong me odeia. Depois de quatro ou cinco anos no topo, ela construiu conexões poderosas. Está no auge da carreira.

Ele soltou um anel de fumaça.

— Qualquer artista que eu lançar será alvo dela. E, considerando seu histórico com ela, a retaliação será ainda pior.

Fez uma pausa.

— Presidente Jin... ainda dá tempo de escolher outra pessoa.

Shian permaneceu em silêncio.

Por alguns instantes.

Então respondeu:

— Você tem certeza de que eu não vou trocar de agente.

Li Nian apenas sorriu.

Shian girou distraidamente um objeto decorativo sobre a mesa.

— Contei a você sobre minha perda de memória justamente porque não quero procurar mais ninguém.

Ergueu os olhos.

— E, pelo que você acabou de dizer, mesmo sem você, Qin Nong continuaria tentando atrapalhar qualquer artista ligado a mim.

Seu sorriso tornou-se leve.

— Nesse caso, sendo você o maior rival dela, não existe pessoa mais adequada para esse trabalho.

Li Nian bateu palmas devagar.

— Essa perda de memória realmente não foi um mau negócio. Conversar com você é muito mais fácil do que antigamente.

Então acrescentou:

— Só não entendo por que você fala de forma tão rebuscada agora.

Shian soltou uma risada resignada.

— O restante ficará a cargo da Meirong. Em outro dia você conhece Bai Yang.

Levantou-se.

— E, sinceramente, acho que ele não é tão inútil quanto você imagina.

— Espero que esteja certo.

Quando Li Nian deixou o edifício Hailong, o sol já começava a se pôr.

Durante três anos ele jamais abandonara a esperança.

Qin Nong havia destruído sua reputação.

Acusara-o de desviar dinheiro dos artistas.

Insinuara que ele se aproveitava das pessoas ao seu redor.

Na época, não tentou se defender.

Sabia que seria inútil.

Havia jovens demais sonhando em entrar no mundo do entretenimento.

Tudo o que precisava fazer era esperar.

E agora...

Ele estava de volta.

Até mesmo o patrocinador continuava sendo o mesmo.

Li Nian sentia que Jin Shian mudara completamente.

Parecia outra pessoa.

Mas isso não importava.

Também não importava se Jin Shian ainda desejava enfrentar Qin Nong.

Para Li Nian, Qin Nong não era nada.

Desde que ele próprio vivesse bem.

Desde que fosse bem-sucedido.

Desde que fosse feliz.

Então ela inevitavelmente seria infeliz.

E não havia prazer maior do que ver uma pessoa detestável se sentir miserável.

Com um sorriso satisfeito, Li Nian afundou o pé no acelerador.

E mergulhou de volta no mar de luzes e trânsito da cidade.




Honoo no mirage Vol. 03 - Capítulo 06

Capítulo 06: O Falcão do Norte

Naoe havia chegado a Yamagata praticamente na mesma época. Havia algum tempo que vinha viajando constantemente entre Tóquio e Yamagata, investigando a morte violenta e inexplicável de um suspeito envolvido em um caso de corrupção. Por fim, encontrara uma pista e a seguira até a cidade de Yamagata.

O escândalo girava em torno do financiamento e da compra de terrenos destinados à construção de um complexo turístico. O caso havia se transformado numa gigantesca rede de subornos que envolvia desde bancos até membros do governo. A origem dos pagamentos ilícitos era uma grande incorporadora imobiliária sediada em Sendai. Dois executivos da empresa, fortemente ligados à investigação, haviam morrido.

Trabalhando sozinho, Naoe infiltrara-se na promotoria usando percepção espiritual e hipnose. Utilizara todos os meios à sua disposição para reunir informações e descobrir a verdade. Finalmente, identificara alguém que parecia ter ligação com os «Yami-Sengoku»: Ueshima, um influente parlamentar do partido governista e representante da região de Yamagata, que mantinha relações estreitas com a incorporadora havia muitos anos e frequentemente intermediava favores para ela. Tudo indicava que também estava profundamente envolvido no caso atual.

Ueshima era o número dois de uma das facções mais poderosas do partido governista. Na verdade, era considerado um dos favoritos para assumir a presidência do partido nas eleições do outono.

Mas agora que o escândalo viera à tona...

(Ueshima provavelmente será quem mais cairá...)

Assassinatos cometidos para eliminar provas de corrupção.

Era assim que Naoe interpretava aquelas mortes estranhas.

Naturalmente, provocar a morte de alguém por mordidas de animais dentro da própria cama era um método extremamente incomum de assassinato quase impossível de imaginar.

Pelo menos, em circunstâncias normais.

Mas não se onryou estivessem envolvidos.

Não era impossível que Ueshima tivesse firmado algum acordo com um onshou dos «Yami-Sengoku» para eliminar os suspeitos de suborno. Afinal, sua candidatura à presidência e toda a sua carreira política estavam em jogo; não seria surpreendente que recorresse a qualquer meio para sobreviver à crise.

Depois de chegar a essa conclusão, Naoe passou cerca de uma semana seguindo Ueshima. O político retornara para sua residência em Yamagata e não fizera mais nenhum movimento significativo. Naoe monitorou minuciosamente todas as pessoas que entravam e saíam da mansão, usando sugestão hipnótica para coletar o máximo possível de informações.

Por fim, descobriu a identidade do onshou com quem Ueshima negociava e os termos do acordo.

O onshou era Mogami Yoshiaki.

E o acordo consistia em permitir que Mogami Yoshiaki utilizasse o corpo de Ueshima como receptáculo espiritual.

— Entendo. Então eles já começaram as invocações dos mortos.

Naoe falava ao celular com Ayako dentro de seu Cefiro, fumando um cigarro. Era o dia seguinte à chegada dela e de Takaya a Sendai. Tratava-se de uma das conversas regulares que mantinham para trocar informações.

Uma barreira havia sido erguida ao redor da mansão de Ueshima, bloqueando completamente qualquer «shinenha». Assim, Naoe dependia de escutas e dispositivos semelhantes para monitorar o que acontecia lá dentro. Havia instalado os aparelhos secretamente em pessoas que frequentavam a residência. Os sinais chegavam até seu hotel, mas ele preferira estacionar próximo à mansão para reagir imediatamente a qualquer eventualidade.

— Então aqueles desabamentos realmente parecem estar relacionados aos «Yami-Sengoku» — comentou Naoe, franzindo o cenho.

— E o Kokuryou-san me informou outra coisa —acrescentou Ayako. — Parece que os onshou estão aparecendo um após o outro pela cidade. Ainda preciso fazer uma análise espiritual mais detalhada, mas a «energia» da terra está muito estranha.

— Estranha? O «jike» mudou?

— Não sei se mudou exatamente. Só não parece natural. Não é como a energia normalmente gerada pelo acúmulo de pessoas e espíritos. É como se tivesse sido criada ou manipulada artificialmente. É uma sensação muito estranha.

— Energia manipulada...? Você ainda não encontrou nenhuma ligação entre isso e as invocações dos mortos?

— Ainda não tenho provas concretas. Mas acho que terei algo até nossa próxima conversa.

— Entendo. Isso me preocupa. Seja como for, nossa prioridade é capturar o onshou responsável pelas invocações e realizar o choubuku o mais rápido possível, antes que mais inocentes sejam feridos. Você consegue lidar com isso sozinha?

— Acho que sim.

— ...Então deixo isso com você.

Após encerrar o assunto, Naoe permaneceu alguns segundos em silêncio antes de perguntar:

— Como... está Kagetora-sama?

— Kagetora? Bem, ele se comportou durante o treinamento especial do Kokuryou-san. Está aprendendo meditação.

— Está indo bem?

— Bem...

Ayako soltou um gemido confuso.

— Ele certamente herdou o talento de Uesugi Kagetora, e o Kokuryou-san não poupou elogios. Mas parece que existe algum problema dentro dele.

O rosto de Naoe endureceu.

— Uma autossugestão?

— Ah, não. Não é isso. Acho que tem mais a ver com Ougi Takaya. Desde que chegou a Sendai, ele parece estranho, distraído. Escuta, Naoe... você nunca ouviu nada sobre Sendai? Algo relacionado a ele?

— Não...

Na verdade, embora conhecesse Uesugi Kagetora profundamente, Naoe não sabia quase nada sobre Ougi Takaya. O rapaz nunca falava de si mesmo e mantinha todos à distância.

(Embora eu tenha ouvido dizer que os pais dele se divorciaram há alguns anos...)

— Sabe, Naoe... ele é muito mais criança do que deixa transparecer. Vive afastando as pessoas, mas não acha que, no fundo, ele quer depender de alguém?

Os olhos de Naoe se arregalaram.

— Eu me pergunto... se ele será capaz de abrir o coração para alguém.

— Haruie...

— Naoe, eu realmente acho que você deveria estar ao lado dele.

Sua voz tornou-se firme.

— Para ele... para Ougi Takaya, nós somos apenas estranhos que apareceram de repente. Mas ainda podemos criar novos laços. Talvez Ougi Takaya não Uesugi Kagetora esteja começando a ver Naoe Nobutsuna como alguém de quem precisa.

— O que foi que deu em você de repente...

— Ele está sofrendo. De uma hora para outra disseram que ele é Uesugi Kagetora e o arrastaram para os «Yami-Sengoku». Ele já nem sabe quem é. É natural que esteja inseguro. Alguém precisa ficar ao lado dele. Ele é muito mais frágil do que parece. Muito mais vulnerável do que aquele garoto, Yuzuru.

— Haruie.

Por um instante, Ayako se calou.

Então confessou em voz baixa:

— Estou começando a achar que ele não é Kagetora.

Naoe piscou.

— Porque ele não sabe de nada! E sua personalidade é completamente diferente. Kagetora era gentil, educado, confiável, inteligente... era perfeito! Pelo menos para mim. Mas esse garoto é totalmente diferente. Como se fosse outra pessoa. E, no entanto... quando está sofrendo, ele tem exatamente o mesmo olhar que Kagetora tinha.

Uma expressão dolorosa atravessou o rosto de Naoe.

— Eu sei que você está tentando compensar seus erros com Kagetora, mas isso provavelmente machucaria essa criança. Quando vi vocês dois em Matsumoto, consegui enxergar a confiança que existia entre vocês há muito tempo, e isso me deixou feliz. Eu não quero que a história se repita.

— Haruie...

— Por favor, fique ao lado dele. Ao lado de Ougi Takaya. Ao lado desta criança que não é Kagetora... e ajude-o.

Naoe permaneceu em silêncio.

Por fim, respondeu em voz baixa, olhando para baixo:

— ...Eu vou.

A ligação foi encerrada.

Encostando-se no banco, Naoe fechou os olhos cansados.

"Eu não quero que a história se repita."

As palavras de Ayako continuaram ecoando em seus ouvidos.

(Não vou permitir que a história se repita...)

Como uma resposta silenciosa, repetiu aquelas palavras dentro de si.

Durante anos as gravara no coração.

Se algum dia tivesse a oportunidade de recomeçar, não permitiria que tudo acontecesse outra vez.

Não faria nada que causasse tristeza ou sofrimento àquela pessoa.

E, mesmo que precisasse enganar a si mesmo...

Não era difícil.

Suportar a dor da mentira era insignificante comparado ao sofrimento que lhe causara.

"Só a você jamais perdoarei, por toda a eternidade."

Aquela sentença de exílio, pronunciada trinta anos antes com o peso do sangue de Kagetora, continuava ressoando em seus ouvidos.

Mas agora era a voz de Ougi Takaya que repetia aquelas palavras.

Palavras que o dilaceravam.

Nos últimos dias, vinha acordando coberto de suor frio.

(Devo estar apenas cansado...)



Os dois se encararam por alguns instantes.

Olhares cautelosos, sempre em guarda.

— Acreditas mesmo que me deixarei enganar por ti? — murmurou Ashina Moriuji, enquanto os traços envelhecidos de seu receptáculo espiritual se contorciam.

Um sorriso astuto surgiu no rosto anguloso de Ueshima.

— Aproveitai a noite sem preocupações.

(Isso foi inesperado...)

Naoe, que ouvira toda a conversa através dos dispositivos de escuta instalados na mansão, ficou momentaneamente atônito.

(Ashina e Mogami trabalhando juntos...)

Ele já recebera notícias do retorno dos Ashina, mas jamais imaginara que uma aliança já tivesse sido formada.

E mais do que isso: estavam armando uma armadilha contra os Date.

(Eles realmente pretendem destruir os Date...)

E havia outra informação que chamara sua atenção.

(«Jike-kekkai»...?)

De repente, a porta de correr se abriu e vários homens saíram. Entre eles estava o homem vestido com trajes tradicionais japoneses que havia chegado mais cedo provavelmente Ashina Moriuji.

Naoe forçou a vista na escuridão.

Era um homem baixo, de meia-idade, rosto comprido e estreito, cabelos completamente brancos.

(Aquele homem é...)

Seu corpo deu um sobressalto.

(Não é o deputado Hirabayashi Mikio?)

Hirabayashi era líder da Facção Hirabayashi, o grupo político ao qual Ueshima pertencia. Ex-primeiro-ministro, continuava sendo uma das vozes mais influentes dentro do partido.

E aquele era o receptáculo de Ashina Moriuji.

Considerando essa relação, não era estranho que Hirabayashi e Ueshima mantivessem contato constante.

Mas possuir justamente indivíduos com tamanha influência política...

A possessão de Ueshima por Mogami certamente não fora uma coincidência.

Mas Ashina escolher alguém tão importante quanto Hirabayashi como receptáculo...

(O que exatamente eles estão planejando?)

Enquanto a BMW preta de Hirabayashi desaparecia na escuridão, uma voz feminina surgiu pelos fones de escuta.

— Teu convidado já retornou para casa?

Uma bela mulher de meia-idade surgiu do aposento interno.

Yoshiaki sorriu de canto ao se virar.

— Foi embora cedo demais. Talvez imagine que o tenhamos envenenado.

— Como se fizéssemos algo tão...

Yoshiaki recostou-se no assento de tatame e tragou longamente o cachimbo.

— Estes receptáculos que habitamos são insuportáveis. Ainda assim, embora sejam apenas velhos senis, seu poder em larga escala é muito mais útil do que qualquer «poder» bruto e inexperiente.

A fumaça subiu lentamente até o teto envelhecido.

— Um poder capaz de mover o mundo, não é?

— Já se passaram três anos desde que retornamos a este mundo. Finalmente, os preparativos estão completos.

— De fato. Levamos muito tempo para compreender a situação atual, mas parece que o mundo dos homens jamais muda.

Com a ponta do cachimbo, Yoshiaki desenhou um círculo no ar.

— Dinheiro e influência. As pessoas venderiam até a própria alma para proteger a si mesmas.

Ou, neste caso...

Seus corpos.

— Tolos.

— Sim. Tolos. Aqueles que esqueceram a guerra apodrecem afogados em seu egoísmo míope. Um governo formado por homens corruptos inevitavelmente se torna corrupto. É a ordem natural das coisas, Oyoshi.

A mulher lançou-lhe um olhar severo.

— Aniue... desejas realmente mergulhar este mundo novamente no caos da guerra?

— Não desejo a guerra. Não pretendo travá-la.

Fez uma pausa.

— Mas agora possuímos o poder para mover este mundo. Foi por isso que tomei este receptáculo.

Pelos Mogami.

Sua irmã mais nova, Yoshihime também conhecida como Ohigashi-no-Kata e mãe de Masamune estreitou os olhos.

— Não fales tão descuidadamente. Isso pode chegar aos ouvidos dele.

— Dele?

Os olhos de Yoshiaki brilharam de diversão.

— Então até a Princesa Demônio de Ouu o teme?

O rosto de Yoshihime endureceu.

— Eu o temo.

Baixou o olhar por um instante.

— Não consigo deixar de sentir que ele está trazendo algo terrível para esta terra do Nordeste.

— Isso não combina contigo, Yoshi.

Yoshiaki deu de ombros.

— E como está Kojirou? Quando Sendai cair em nossas mãos, penso em deixá-lo governar Yamagata em meu lugar. Em porte e presença, ele não é inferior a Masamune. Certamente se tornará um excelente comandante.

— Concordo.

Outra voz surgiu do interior do aposento.

Os dois se voltaram.

Sem que percebessem, um jovem esguio estava parado do outro lado da porta de papel.

Há quanto tempo ele estava ouvindo a conversa?

Yoshiaki e Yoshihime empalideceram imediatamente.

Mas o rapaz falou em tom suave e melodioso, como se nada tivesse ouvido:

— Não vos preocupeis, Mogami-dono. Kojirou-dono dos Date é um excelente guerreiro. Temos perfeito entendimento um com o outro.

Então seu sorriso se ampliou.

— Contudo, Mogami-dono... há ratos nesta sala.

— O quê...?!

O jovem aproximou-se calmamente.

Ergueu o pergaminho decorativo pendurado no tokonoma.

— Ah!

Yoshiaki soltou um grito abafado.

O jovem exibia um pequeno dispositivo entre os dedos.

— As orelhas de um grande rato.

Com um estalo seco, esmagou o microfone.

— Há um rato ali.

CRACK!

A transmissão foi interrompida por uma explosão de estática.

No mesmo instante, Naoe arrancou os fones dos ouvidos.

Um mau pressentimento o atravessou.

(Eles descobriram...?)

Então o carro estremeceu violentamente.

THUD!

A carroceria afundou.

(O quê?!)

Metal rangendo.

Uma força sobrenatural envolveu o veículo.

Um vento abrasador explodiu ao seu redor.

No instante seguinte—

BOOOOOOM!!

O Cefiro explodiu numa gigantesca coluna de fogo.

— Não fuja, seu «nue»!

A voz aguda veio acompanhada de uma esfera flamejante vermelha que saltou por cima da cerca.

O Cefiro queimava em chamas carmesim que alcançavam o céu.

Por um milagre, Naoe conseguira se lançar para fora do veículo antes da explosão.

Agachado no chão, pressionava o ombro direito.

(Esse é o «poder» deles?!)

Algo rugiu atrás dele.

Quando se virou, viu uma enorme boca formada por chamas vermelho-escuras avançando para devorá-lo.

Sua «nenpa» explodiu e despedaçou as chamas.

Mas então surgiram formas grotescas.

Massas ardentes com rostos humanos deformados incrustados no centro.

As bocas enormes se abriram.

Avançaram.

(«Kaki»...!)

Um deles atacou.

Saliva de fogo espalhou-se pelo ar.

Naoe lançou uma «nenpa».

O rosto flamejante explodiu em pedaços soltando um grito horrendo.

Mas imediatamente os fragmentos se reuniram.

O rosto retornou à forma original.

(O quê?!)

Os «kaki» eram aglomerados de ressentimento produzidos por pessoas mortas em incêndios.

Normalmente, eram apenas restos emocionais.

Se dispersados, desapareciam.

Mas aqueles não.

(Eles não são «kaki» comuns!)

Naoe destruiu um após outro.

Todos se recompunham.

Uma batalha sem fim.

Então compreendeu.

(Claro...!)

(Eles não são apenas emoções condensadas!)

Eram onryou.

Espíritos vingativos revestidos pelas emoções dos «kaki».

(Então só resta o «choubuku»!)

Naoe concentrou todo o seu poder.

As criaturas atacaram ao mesmo tempo.

As chamas estavam prestes a engoli-lo quando ele rugiu:

— (Bai)!

O ar congelou.

Os onryou revestidos de «kaki» ficaram completamente paralisados.

— Noumakusamanda bodanan baishiramandaya sowaka!

Sua voz ecoou como um trovão.

— Namu Tobatsu Bishamonten! Concedei-me vosso poder para esta subjugação demoníaca!

Abriu as mãos.

— CHOUBUKU!

Uma luz branca explodiu de suas palmas.

Os onryou foram despedaçados um após outro.

Seus gritos desapareceram junto com a luz.

Então—

Uma energia assassina surgiu atrás dele.

— ...!

Algo invisível o atingiu em cheio.

— Ugh!

Uma vontade esmagadora envolveu todo o seu corpo.

Naoe caiu sobre o asfalto.

(Quem...?)

Tentou concentrar sua «nenpa».

Mas sua visão estava turva.

Ainda assim...

Sentia aquela aura monstruosa.

(Está vindo!)

Um novo ataque atingiu-o pela frente.

Naoe ergueu imediatamente uma «goshinha».

Os poderes colidiram.

O ar rugiu.

Com ambas as mãos estendidas, sustentava a barreira ao limite de suas forças.

— ...!

Mesmo sob a pressão colossal, conseguiu se levantar.

Então reuniu toda a sua energia.

— GRAAAAAAH!!

BOOM! BOOM! BOOM!

Uma gigantesca rachadura abriu-se no solo.

Naoe aproveitou o instante em que o adversário vacilou.

Liberou toda a sua «nenpa».

Mas—

O golpe foi desviado.

Árvores e cercas incendiaram-se instantaneamente.

Uma barreira havia interceptado o ataque.

(Um poder desse nível... quem é esse sujeito?!)

— Guh!

Um terceiro ataque veio pelas costas.

Uma corrente invisível enrolou-se ao redor de seu corpo.

Afundava cada vez mais profundamente.

Dor.

Agonia.

(Então são dois...?)

Era como se relâmpagos percorressem cada nervo.

Naoe caiu.

E permaneceu imóvel.

O silêncio voltou à rua.

As árvores continuavam queimando.

Somente depois de confirmar que Naoe estava inconsciente, Mogami Yoshiaki aproximou-se de sua irmã.

— Um adversário assustador. Sem tua ajuda, eu teria corrido perigo.

— Aniue... quem era aquele homem?

O jovem mestiço aproximou-se deles.

Observou o corpo desacordado de Naoe.

Então soltou uma risada divertida.

— Hmph. Pensei que fosse apenas um rato grande entrando por alguma fresta.

Seu sorriso se ampliou.

— Mas parece ser um dos demônios de Uesugi.

— Uesugi?!

O rapaz respondeu ao olhar de Yoshiaki com uma expressão inocente.

— Este homem é Naoe Nobutsuna, um dos kanshousha dos Uesugi. Parece que o Yasha-shuu de Uesugi já penetrou o Nordeste.

— O Yasha-shuu dos Uesugi...

— Se for assim, provavelmente também já se infiltraram em Sendai.

Seu sorriso tornou-se angelical.

— Melhor ainda.

Olhou para Naoe.

— Tenho certeza de que seu «poder» nos será bastante útil.

Depois acrescentou:

— Preciso partir agora, mas gostaria de oferecer um pequeno presente a Mogami-dono.

— Um presente?

— Uma cela da qual nenhum rato conseguirá escapar.

Seu sorriso tornou-se cruel.

— Permiti que eu ajude a construí-la. Com o vosso poder, mantê-la será simples.

Os lábios se curvaram levemente.

— Dentro dela, o rato não poderá fazer absolutamente nada.

Os olhos do jovem brilharam de perversidade.

— E então, Mogami-dono...

— Tereis todo o tempo do mundo para interrogá-lo... e quebrá-lo.

Até mesmo Yoshiaki e Yoshihime ficaram tensos diante daquela crueldade.

Ignorando suas reações, o jovem soltou uma risada baixa.

As chamas refletiam-se em seus olhos.

Um brilho violeta, inquietante.

Nos olhos de Mori Ranmaru.