26 de jun. de 2026

Ang Ang - Capítulo 18

Capítulo 18

— Larga isso!

Hwa-young agarrou Gyuwon pelo braço e o puxou para longe. Em seguida, gritou para o irmão, que vinha correndo em pânico:

— Hyung, pegue esse desgraçado. Entendeu?!

Empurrou o homem que Gyuwon segurava na direção do irmão e voltou a arrastar Gyuwon consigo.

Não sabia dizer se era ácido sulfúrico ou ácido clorídrico, mas tinha certeza de que era um líquido corrosivo. Ela estava ilesa, porém havia buracos nos sapatos de Gyuwon.

Ajoelhando-se diante dele, Hwa-young retirou primeiro o sapato que ainda estava inteiro. As meias também haviam sido corroídas. Só quando as tirou completamente foi que Gyuwon soltou um gemido de dor.

— Hyung!

Ao ouvir o grito de Hwa-young, Ki-young entregou o agressor a um subordinado e correu até eles. Ao ver a pele do pé de Gyuwon escurecendo, gritou:

— Tragam o carro! Rápido!

Um dos homens saiu correndo, e, em poucos segundos, o Grandeur já estava parado à frente deles.

Hwa-young ajudou Gyuwon a entrar no banco de trás, sentou-se ao lado dele e bateu a porta.

— Hospital! O hospital mais próximo!

Enquanto o carro avançava em alta velocidade, ela perguntou:

— Não precisava lavar com água? Diluir o ácido?

— Eu... não sei...

Hwa-young mordeu o lábio.

— Achei que tinha que lavar imediatamente. Tem água aí? Qualquer coisa... água mineral!

O motorista entregou uma garrafa que estava no banco do passageiro. Hwa-young despejou a água cuidadosamente sobre a queimadura.

— Ugh...

Gyuwon reprimiu um gemido de dor.

Assim que chegaram ao pronto-socorro, uma enfermeira começou a dizer:

— O que aconteceu? Primeiro precisamos fazer a fich...

Hwa-young a interrompeu, segurando-a pelos ombros.

— Ácido clorídrico! Jogaram ácido clorídrico nele!

Ao ver o rosto completamente pálido da jovem, a enfermeira não perdeu tempo. Chamou imediatamente uma maca, e Gyuwon foi levado para atendimento.

Depois do exame, um médico ainda jovem explicou:

— A concentração do ácido não era muito alta. Vocês tiveram sorte. E lavar imediatamente com água foi a decisão correta. Mesmo assim, ele precisará ficar internado. As queimaduras são consideráveis, principalmente nas áreas onde o tecido encharcado permaneceu em contato com a pele.

Enquanto o médico falava, Gyuwon mal o escutava.

Sua atenção estava voltada para Hwa-young.

Ela permanecia imóvel, com o rosto completamente vazio. O ar ao redor dela parecia pesado demais.

Gyuwon apertou delicadamente a mão dela.

Precisava impedir que Hwa-young cometesse uma loucura.

— Hwa-young... Yoon Hwa-young.

Ela não reagiu.

Ele chamou mais algumas vezes.

Nada.

Por fim, abandonou a formalidade.

— Hwa-young.

Só então ela respondeu, num fio de voz:

— Sim...

Era evidente que tinha ouvido desde a primeira vez, apenas não queria responder.

Gyuwon suspirou.

— Estou bem. Sério. Então... não se preocupe.

Hwa-young cerrou os dentes.

— Se fosse eu no seu lugar... você ficaria tranquilo? Se eu tivesse sido queimada assim... você simplesmente não ligaria?

Gyuwon sorriu com suavidade.

— Claro que eu ficaria desesperado... Mas agora... só consigo agradecer por você não ter se machucado. De verdade.

Aquelas palavras eram tão gentis que lágrimas começaram a subir aos olhos de Hwa-young.

Ela engoliu em seco várias vezes antes de conseguir forçar um sorriso.

Ao vê-la sorrir, Gyuwon sorriu também, aliviado.

Naquele instante, alguém no pronto-socorro soltou um:

— Ai...

Gyuwon ergueu a cabeça.

Assim que seus olhos encontraram os das outras pessoas na sala, todos fingiram imediatamente estar ocupados olhando para outro lugar.

Uma criança que também o encarava acabou respirando errado enquanto chorava e começou a soluçar.

Os soluços ecoaram de forma estranhamente alta.

Gyuwon ficou constrangido.

Naquele dia, o pronto-socorro do hospital universitário permaneceu silencioso como nunca.

Quando Hwa-young saiu da emergência, ouviu uma enfermeira cochichar para outra:

— Entrou um gangster...

Gangster?

Ela franziu os lábios.

Que absurdo.


---

Yoon Ki-young estava numa situação extremamente delicada.

Segundo o relatório de seus subordinados, "o ácido não era muito concentrado".

Mas o fato de "o caçula estar completamente pálido" significava apenas uma coisa:

Hwa-young estava furiosa.

Será que ela realmente estava namorando aquele grandalhão de aparência assustadora?

Se estivesse...

Conhecendo seu temperamento, era bem capaz de arrancar a cabeça do agressor com um único golpe.

Afinal, Hwa-young sempre fora gentil com quem considerava seu.

Na verdade, Ki-young tinha sido o primeiro da família a se render completamente ao temperamento da irmã.

Se ela pedisse uma faca de sashimi, ele entregaria.

E ainda seguraria o pescoço do sujeito para facilitar.

O pai e o irmão mais velho sempre diziam:

— Nunca faça isso. Não é por você. É por ela. Você estaria condenando Hwa-young ao inferno.

Mas Ki-young pensava diferente.

Se ninguém descobrisse...

Tudo bem.

E, mesmo que ela realmente matasse alguém, bastava ele assumir toda a culpa.

Seria muito mais convincente um dos chefes da organização confessar o crime do que uma garota comum.

Além disso...

Ele próprio estava fervendo de raiva.

Aquele miserável tentara jogar ácido no rosto de Hwa-young.

No rosto dela.

Que tipo de lixo fazia uma coisa dessas?

Morrer seria pouco.

Se Hwa-young não estivesse se contendo, ele mesmo já teria acabado com aquilo.

Sem saber o que fazer, limitou-se a dar um tapa violento no homem e afundou no sofá.

Assim que apagava um cigarro, um subordinado já acendia outro.

Mesmo soltando longas baforadas de fumaça, sua mente continuava confusa.

Seu pai, Yoon Su-hyeop, que estava praticamente aposentado, e o irmão mais velho, Yoon Jin-young, também estavam furiosos ao saber que Hwa-young quase fora atacada.

O ambiente inteiro estava tomado por uma tensão sufocante.

Ki-young encarou o agressor.

— Você tem passaporte?

O homem empalideceu.

Nesse momento, a porta se abriu violentamente.

Hwa-young entrou.

Antes que qualquer um pudesse reagir, ela agarrou o sujeito pelo colarinho.

Apesar disso, não levantou o punho.

Percebendo isso, Ki-young fez um gesto para impedir que seus subordinados interferissem.

— Quero ouvir da sua própria boca. O que você tem contra mim?

O homem ficou olhando fixamente para Hwa-young.

Depois sorriu de leve.

— Faz tempo...

Ela franziu a testa.

Seu rosto estava tão deformado pelas pancadas que ela não conseguia reconhecê-lo.

Quem era ele?

Como Hwa-young permaneceu em silêncio, o homem continuou:

— Você conhece o senhor Koo Seong-jun, não conhece?

Ela assentiu.

— Sou um dos submissos dele... Já vi você algumas vezes.

Hwa-young ficou sem palavras.

Seong-jun era um Dominador completamente diferente dela.

Enquanto Hwa-young encontrava prazer na humilhação psicológica dos parceiros, Seong-jun apreciava infligir dor física.

Seus submissos costumavam ser profundamente masoquistas.

Raramente havia sexo em suas sessões.

E, quando havia, quase nunca era consensual ou convencional.

Às vezes ele violentava os parceiros.

Outras vezes, obrigava-os a fazer sexo com terceiros apenas para aumentar seu sofrimento.

Hwa-young ocasionalmente participava dessas sessões, normalmente apenas para quitar favores que devia a Seong-jun.

Ele parecia gostar de observá-la conduzir toda a cena.

Talvez aquele homem estivesse presente em alguma dessas ocasiões.

— Ah...

Ela fingiu reconhecê-lo.

Na verdade, não fazia ideia de quem fosse.

O que a deixava ainda mais confusa era outra coisa.

Por que um submisso de Seong-jun faria aquilo?

— Então... por que fez isso comigo?

O homem começou a rir.

Ria sinceramente da pergunta.

Hwa-young tornou a agarrá-lo pelo colarinho.

Seu rosto esfriou completamente.

— Estou perguntando por quê. Responda direito.

O homem rangeu os dentes.

— Porque você me estuprou.

Hwa-young o arremessou contra a parede.

— Eu? Eu estuprei... você?

— Sim.

— Não fale besteira!

Ela tentou desesperadamente vasculhar as próprias lembranças.

Jamais havia estuprado alguém.

Era absurdo.

Completamente absurdo.

— Eu estuprei você?! Quando?!

O homem respondeu imediatamente:

— Quantas vezes você acha que fez isso?

Ela ficou sem palavras.

— Do que você está falando? Explique direito. Quando? Como?

Ele gritou:

— Você sempre me estuprava!

Hwa-young o empurrou até ele cair novamente.

Depois sentou-se diante de Ki-young e tirou o celular do bolso.

A ligação foi atendida quase imediatamente.

— Ora, ora... quem é? Você anda me ligando demais ultimamente, querida...

A voz debochada de Seong-jun veio do outro lado.

— Cala a boca!

Ela respirou fundo.

Não sabia nem como explicar.

Levantou-se, deu um leve chute no homem caído e perguntou:

— Nome.

O sujeito voltou a rir.

— Buraco. Se você chamar assim... eu entendo.

Hwa-young sentiu que estava enlouquecendo.

Ignorando aquilo, voltou a falar com Seong-jun.

— Você tem um submisso que atende por "Buraco"?

— Ah... nosso lindo Buraco. O que houve? Resolveu brincar um pouco com ele?

Ainda sorrindo, Seong-jun zombou.

Mas, quando Hwa-young rosnou:

— O que significa essa história de que eu estuprei esse garoto?

A risada desapareceu.

— ...Do que você está falando? Estuprar? Que absurdo é esse?

Ela respirou fundo.

— Esse desgraçado jogou ácido em mim dizendo que eu o estuprei. Gyuwon acabou sendo hospitalizado no meu lugar. Estou à beira de enlouquecer.

Fez uma pausa.

— Ele insiste nessa história. Não faço ideia do que está dizendo. Quero enterrá-lo vivo. Posso?

A voz de Seong-jun ficou fria.

— Ele ainda é meu submisso... Se fizer alguma coisa com ele, eu também não vou pegar leve com você, Yoon Hwa-young.

Ela respondeu sem hesitar:

— Então devia ter cuidado melhor dos seus submissos.

No mundo deles, tocar num submisso significava desafiar diretamente seu Dominador.

Sempre que surgia um conflito desse tipo, o procedimento normal era conversar primeiro com o Dominador responsável.

Seong-jun soltou um longo suspiro.

— Primeiro ouça a versão dele. Vou mandar alguém buscá-lo. Deixe-o comigo. Eu mesmo vou investigar.

Hwa-young balançou a cabeça.

— Não.

Seu olhar estava gelado.

— Meu irmão está no hospital. Não vou entregar esse cara nem morta. Se você quiser protegê-lo, faça o que achar melhor.

Após alguns segundos de silêncio, Seong-jun respondeu:

— Então eu mesmo vou aí. Vamos resolver isso pessoalmente.


---

Quando Seong-jun chegou, já passava das nove da noite.

Vestindo um terno caríssimo que valorizava seu físico impecável, franziu a testa ao ver seu submisso jogado no chão, mas não fez nenhum comentário.

Sorriu educadamente.

— Boa noite, senhor. Quanto tempo. Irmãos.

Yoon Su-hyeop e seus filhos apenas assentiram.

Ninguém respondeu ao cumprimento.

Seong-jun apenas estalou a língua.

Conhecia aquela família havia muitos anos.

Sabia muito bem que todos colocavam Hwa-young acima de qualquer outra pessoa.

Não havia motivo para se ofender.

Quando voltou o olhar para Hwa-young, encontrou um rosto frio o bastante para congelar qualquer um.

Soltou outro longo suspiro.

Yoon Su-hyeop levantou-se.

— Já que terminou de cumprimentar todo mundo... venha falar comigo primeiro, Seong-jun.

Apesar da idade, seus olhos continuavam tão ferozes quanto no passado.

Seong-jun inclinou respeitosamente a cabeça.

Sem esconder o desagrado, Su-hyeop estalou a língua e saiu da sala, seguido pelos subordinados.

Logo depois, Yoon Jin-young também se levantou.

— Depois de falar com meu pai, venha beber comigo. Faz tempo que não conversamos.

Seu rosto era tão frio que parecia impossível saber se aquilo era um convite... ou uma convocação.

Ele saiu acompanhado de seus homens.

Por último, Ki-young passou por Seong-jun.

— Antes de ir embora, passe na minha sala também. Tenho algumas perguntas para fazer.

Quando ele também deixou o escritório, restaram apenas os envolvidos na história.

Só então Hwa-young abriu um sorriso sem humor.

— Você demorou.

My body was hijacked by a fujoshi - Capítulo 12

 Capítulo 12 :: Minha melhor amiga foi ficando cada vez mais ansiosa.

"Ei, ouvi dizer que Toriumi está de dieta."

 Jun lançou um olhar de soslaio para seu melhor amigo, que dizia algo rindo, antes de voltar a atenção para o caderno em suas mãos.

"Hum..."

"Você acha mesmo que eu consigo emagrecer? Até meu uniforme é feito sob medida, sabia?"

 Dito isso, Shota levou a mão à boca e riu.

Com a prova se aproximando, os dois decidiram estudar juntos na casa de Jun. No entanto, Shota não demonstrou nenhum interesse em abrir seu caderno ou livro didático, preferindo ler mangá na cama e brincar com o cabelo de Jun.

(Normalmente, nesta época do ano, eles estariam copiando minhas anotações freneticamente...)

 A vaga ansiedade de Jun foi exacerbada pela completa falta de interesse de seu melhor amigo em seu "presente" e "futuro".

 Shota se inclinou por trás de Jun, que estava estudando sentado de pernas cruzadas em uma mesa baixa, com uma expressão entediada.

"Ei, Jun-kun. Você está sendo frio."

 Enquanto deslizava a mão por baixo da barriga dele.

「…」

 Ao ver o silêncio de Jun, perguntei: "O que houve?"

"Você parece saber muito sobre o Sr. Toriumi. Vocês dois estavam conversando sobre isso outro dia. Era sobre os uniformes feitos sob medida..."

 Achando aquelas palavras estranhas, estiquei o pescoço e olhei para o rosto de Jun por trás.

 Seu olhar estava direcionado para o caderno, mas suas mãos não se moviam.

"Hã? Você está com ciúmes do Toriumi?"

"...Na verdade."

 Jun girou a lapiseira na mão e desviou o olhar novamente. Shota agarrou a barriga e desabou na cama, rolando de rir.

"É a Toriumi, sabe? Aquela gorda nojenta. Como é que ela ficou desse jeito? De jeito nenhum vou me meter com ela."

"Não diga coisas assim. Ela é uma garota perfeitamente legal. Achei que ela estivesse agindo de forma estranha ultimamente, mas ela está sendo ela mesma de sempre."

 Shota parou de rir abruptamente. Em seguida, sentou-se parcialmente e pareceu estar imerso em pensamentos.

"Continua tão desprezível como sempre, hein..." ele murmurou.

 

"Bem, de qualquer forma, esse cara está fora de questão."

 Shota falou em tom de exasperação, e Jun respondeu, acompanhando com os olhos as palavras que rabiscava em seu caderno.

"Considerando isso, você parece estar muito consciente da presença de Toriumi-san."

"Bem, você vê..." disse Shota, passando a língua pela orelha de Jun.

"Você está sendo muito inseguro(a) em relação a mim ♡"

"...Shota, estude..."

 Shota interrompeu as palavras de Jun cobrindo seus lábios com os dele. Jun sentiu-se enganado, mas a expectativa da intimidade que o aguardava em seguida dissipou essa sensação.

 E depois de terminarem de fazer amor, Jun é tomado por ansiedade e uma sensação de inquietação.

 É como fazer sexo sem qualquer envolvimento emocional.

 

 



 

 Assim que deu 6 da manhã, o alarme do seu smartphone começou a tocar com um som desagradável. Shota acordou sobressaltado e suspirou ao ver o teto branco ao qual finalmente estava se acostumando.

"Afinal, não era um sonho..."

 Três semanas se passaram desde que troquei de corpo com Toriumi. Todas as noites, eu ia para a cama esperando acordar e perceber que tudo não passara de um sonho, mas todas as manhãs, aquele teto branco me lembrava que meu desejo não se realizaria.

 Quando me sentei, a gordura da minha barriga formou camadas. Belisquei as três camadas alinhadas verticalmente.

"Meninas são fofas quando são um pouco gordinhas, mas essa não é assim."

 Enquanto eu suspirava, ouvi uma batida suave na porta. Ela se abriu um pouco e pude ouvir a voz de um menino.

"Vamos."

 Ali parado, vestindo um corta-vento, estava Soma, o irmão mais novo de Toriumi.

 

 Desde que Shota começou a frequentar a academia como Toriumi Miu, ele passou a fazer caminhadas matinais. Como ainda estava pouco iluminado pela manhã, os pais de Toriumi, preocupados com a segurança, insistiram para que Soma o acompanhasse sob o pretexto de ser seu guarda-costas.

"Por que eu?", protestou Soma, mas seus pais lhe ofereceram a perspectiva de um emprego de meio período e ele acabou aceitando. Parece que seus pais estão muito empenhados na "reabilitação" da filha.

 

"Ei, você está atrasado."

 Enquanto Shota caminhava pela margem do rio, Soma gradualmente começou a se distanciar dele. E isso aconteceu em menos de 15 minutos após terem começado a caminhar.

"Ai, estou tão cansada de ser gorda."

 Quando Shota desistiu, disseram-lhe que ele próprio havia provocado aquilo.

 Enquanto esperava que sua irmã o alcançasse, Soma contemplava a superfície do rio. Quando saiu de casa, o céu ainda estava escuro, mas gradualmente clareava. A luz refletia na superfície do rio, fazendo-o brilhar como escamas.

"Oh, é lindo."

 Shota finalmente alcançou e gritou.

 Na época em que eu estava no auge da minha forma física, com o corpo suficientemente tonificado apenas por atividades no clube e musculação, eu jamais imaginaria sair para correr ou caminhar de manhã cedo.

(Se não fosse por Chokai, provavelmente eu não teria conseguido ver essa paisagem.)

 Enquanto eu pensava nisso, Soma, que estava ao meu lado, disse baixinho.

"Se você não tivesse dito que ia fazer dieta, não teríamos visto essa cena."

 Shota olhou para Soma surpreso. O perfil bonito e tranquilo de Soma exibia um leve sorriso.

Shota apontou e riu.

"Haha, eu estava pensando exatamente a mesma coisa! Irmãos são incríveis!"

"Eca, que nojo."

 Enquanto Souma praguejava, seu cabelo contrastava fortemente com o cabelo preto como azeviche de Toriumi, que brilhava com um brilho translúcido sob o sol da manhã.

 

 Depois de caminhar por uma hora para chegar em casa, Shota foi para o vestiário. Pouco antes de tomar banho, subiu silenciosamente na barra. 67,4 quilos. Como fazia apenas duas semanas que havia começado a dieta, perder cerca de 5 quilos era considerado um bom progresso. Toriumi tem 168 centímetros de altura. Mamiya, o treinador que ele contratou, disse que sua meta era chegar aos 55 quilos.

"Como esperado, pessoas gordas perdem peso com facilidade."

 Segundo sua família, ele era originalmente uma criança com paladar exigente, que só comia doces e não comia vegetais. No entanto, após trocar de lugar com Shota, seu estilo de vida mudou drasticamente, e seu corpo mudou consideravelmente, não apenas seu peso.

 Primeiro, minha pele. Embora eu esteja restringindo carboidratos, estou seguindo uma dieta equilibrada no geral, então a acne que costumava ser frequente no meu rosto diminuiu. Além disso, estou dormindo mais, e minha pele e meu cabelo danificado estão gradualmente recuperando o brilho que se espera de uma estudante do ensino médio.

 Após registrar seu peso e percentual de gordura corporal, que acabara de medir, em um aplicativo de smartphone, Shota tomou um banho.

 

"Ei, já terminei meu banho!"

 Fui até a sala de estar com uma toalha no pescoço e o cabelo ainda molhado, quando meu irmão mais novo, que tomava café, me chamou com um gesto do dedo indicador. Eu o segui, e ele tirou a toalha do meu pescoço e sacudiu minha cabeça bruscamente.

"Ai! O que foi isso?!"

"O corredor fica molhado porque você nunca seca o cabelo, sua vadia feia!"

"Não, seja gentil."

 Quando Shota apronta, Soma fica furioso e não para o que está fazendo.

"Morra! Por que isso tinha que acontecer comigo!"

 Aparentemente já tendo se enxugado o suficiente, Soma pegou a toalha e caminhou em direção ao vestiário. Provavelmente, ele jogaria a toalha na máquina de lavar enquanto tomava seu próprio banho.

A mãe, que observava da cozinha, deu uma risadinha.

"Souma também está feliz."

 Shota inclinou a cabeça e olhou para sua mãe.

"Ela sempre foi tão apegada à mãe, não é? Mas desde que você se envolveu tanto com aquele Bowell, ela mudou completamente, e isso a magoou muito."

Dito isso, ela entregou a Shota uma tigela de salada que estava no balcão da cozinha.

"Tia, BL, BL"

 Embora não fosse um especialista, Shota apontou o erro, olhou na direção em que Soma havia caminhado e deu uma risadinha discreta.

"Ele não é um irmãozinho muito fofo?"

 Shota percebeu que, embora Toriumi fosse desprezado na escola, sua família se importava muito com ele, apesar de tudo.

(Se as coisas voltarem ao normal agora, minha família ficará arrasada...)

 Com esses sentimentos complexos o atormentando, Shota também começou a sentir um pouco de nostalgia de sua própria família.


Sotus - Capítulo 18

Capítulo 18

Regra número dezoito para os calouros: "Não façam os veteranos se preocuparem."

— Kongpob e Em, a cor de vocês é laranja. Peguem suas fichas e entrem no ônibus número três.

Kongpob e seu melhor amigo, Em, aguardavam Fang no pátio da Faculdade de Engenharia, onde os calouros haviam sido orientados a se reunir às seis da manhã para receber suas fichas de identificação.

No entanto, embora o horário oficial fosse quando o dia começava a clarear, eles chegaram enquanto o céu ainda estava completamente escuro. Desde as cinco da manhã, os estudantes do primeiro ano já ocupavam o gramado da faculdade, pois os veteranos haviam ameaçado deixar para trás quem chegasse atrasado.

No fim das contas, porém, os próprios veteranos não cumpriram o horário.

Assim, os calouros permaneceram sozinhos até as seis, animados com a perspectiva de passar dois dias e uma noite na praia, na província de Rayong.

Alguns estavam ainda mais felizes por não precisarem gastar nada, já que os veteranos haviam prometido arcar com todas as despesas da viagem. Por isso, tudo o que precisavam levar era uma mala com duas ou três trocas de roupa... e muita empolgação.

Mesmo assim, muitos não conseguiam deixar de desconfiar da generosidade dos veteranos.

Afinal, nada vinha de graça.

Aquela viagem à praia parecia qualquer coisa, menos um simples passeio. Havia algo nela que deixava claro que existia um objetivo oculto.

— P'Fang... você sabe se a próxima prova dos veteranos vai ser muito difícil? — perguntou Em, apreensivo.

Na verdade, o verdadeiro propósito daquela viagem era avaliar a organização e o trabalho em equipe dos calouros em um ambiente mais descontraído, sem que eles soubessem exatamente o que estava por vir.

Era natural que todos estivessem tensos. Desde o início das atividades de integração, a única preocupação dos novatos era imaginar qual seria a próxima provação imposta pelos veteranos — e se, desta vez, ao menos teriam a chance de aproveitar a praia.

Kongpob compartilhava da mesma suspeita.

Foi então que a voz alegre de Fang ecoou ao lado da porta do ônibus.

— Calouros, aproveitem bastante a viagem! E não, não haverá nenhuma prova difícil desta vez! Isso é só uma desculpa que os veteranos arrumaram para poder ir à praia também. Relaxem! Vamos todos nos divertir!

Depois de ouvir aquelas palavras, Kongpob e Em trocaram um olhar.

Ao redor deles, os murmúrios dos colegas aumentaram, indicando que muitos haviam decidido acreditar no que Fang dizia.

A atmosfera daquela manhã tornou-se leve, parecendo mais uma excursão entre amigos do que uma atividade da faculdade.

Na tela de LED na frente do ônibus surgiu o destino da viagem, iluminado em letras vermelhas:

Rayong.

Ainda assim, a sensação de que havia algum truque escondido continuava rondando os pensamentos de Kongpob.

A direção da faculdade autorizara a participação de todos os calouros, já que o passeio era considerado um dos maiores eventos da Engenharia.

Representantes de todos os cursos, diversos veteranos e professores responsáveis pela supervisão dos alunos seguiram juntos rumo ao litoral.

Ao todo, eram cerca de trezentas pessoas distribuídas em cinco ônibus.

Alguns integrantes da equipe de integração embarcaram junto dos calouros para participar das atividades. Além disso, dois carros extras, conduzidos por professores, acompanhavam a comitiva para atender qualquer emergência que exigisse o deslocamento até um hospital.

Os calouros foram divididos em grupos identificados por cores. Cada um recebeu uma ficha presa ao peito contendo seu nome e a cor correspondente ao grupo.

A primeira parada, porém, não foi a praia.

Os ônibus estacionaram em uma reserva natural, onde um especialista apresentou uma palestra sobre as plantas medicinais cultivadas na região.

Depois, todos receberam um tempo livre para observar as aves e apreciar a natureza ao redor.

A maioria dos calouros aproveitou para tirar inúmeras fotografias — tanto da paisagem quanto dos amigos — que certamente acabariam publicadas nas redes sociais.

Foi então que a voz de uma garota chamou a atenção de Kongpob.

— P'Arthit! Podemos tirar uma foto com você?

— Claro. Vou adorar.

Arthit abriu um sorriso caloroso enquanto um grupo de garotas o cercava para registrar a lembrança.

Kongpob não entendia exatamente por que tantos calouros faziam questão de fotografar os veteranos.

Talvez fosse para guardar uma recordação dos dias de integração.

Ou talvez porque, pela primeira vez, eles haviam abandonado as tradicionais camisetas pretas e vestiam roupas coloridas, típicas de um passeio à praia.

Quase todos usavam bermudas, chinelos, chapéus de palha e óculos escuros, transmitindo uma imagem completamente diferente daquela postura séria que mantinham durante as atividades de recepção.

Os integrantes da equipe de integração, sempre conhecidos por seus rostos impassíveis e expressões frias, agora pareciam pessoas totalmente diferentes.

Essa mudança despertava ainda mais curiosidade nos calouros, que os seguiam por toda parte como se fossem verdadeiras celebridades.

Naturalmente, os veteranos que não faziam parte da equipe de integração logo começaram a reclamar da situação.

E os próprios calouros também não perderam a oportunidade de comentar.

— Olha só as meninas! Até agora há pouco estavam morrendo de medo dos veteranos, e agora não desgrudam deles.

— Tanto faz. Quando chegarmos à praia vou tirar a camiseta. Aí elas vão ficar impressionadas com meus músculos.

— Músculos? Você quis dizer a sua barriga? A única coisa que salta dessa camiseta é essa pança enorme. Se tirar a roupa, vai espantar todas elas!

— E você, Kongpob? Aposto que elas iam querer ver você sem camisa.

Sentado em silêncio entre os colegas do grupo laranja, Kongpob observava os veteranos posando para fotos quando ouviu seu nome.

Ele apenas inclinou a cabeça.

— Não sei... Eu não gosto muito de entrar no mar.

Deu de ombros.

Era a pura verdade.

Para muita gente, ir à praia era sinônimo de mergulhar no mar.

Para Kongpob, eram coisas completamente diferentes.

Ele não entrava na água desde o ensino fundamental.

Ainda se lembrava da sensação pegajosa que o sal deixava na pele e do gosto salgado que parecia permanecer em sua boca por horas.

Por isso, quando chegassem à praia, sua intenção era apenas sentar perto da areia, apreciar a brisa do mar e contemplar a paisagem.

— Pensa melhor, Kongpob! Já estamos quase chegando! Viemos justamente para isso! Você precisa entrar no mar!

— E também precisamos roubar a atenção das garotas dos veteranos!

Os colegas do grupo laranja continuaram insistindo, sem que Kongpob compreendesse tanta determinação.

Mal sabiam eles que a razão era bastante simples.

Kongpob era o atual Lua da Universidade, e todos acreditavam que sua presença ajudaria a atrair a atenção das garotas para os calouros.

Afinal, no curso de Engenharia Industrial havia poucas alunas, e os veteranos já monopolizavam toda a atenção feminina.

— Imagina só as meninas na praia... Devem ficar lindas!

— Kongpob, você não pode deixar os veteranos roubarem toda a cena! Imagina: você cercado pelas garotas, nós do seu lado... e os veteranos olhando tudo, morrendo de inveja!

Os rapazes caíram na gargalhada diante da empolgação exagerada do colega e de sua imaginação fértil enquanto tentava convencer Kongpob a entrar na água.

Antes que ele pudesse responder, uma voz familiar surgiu atrás deles.

— Então vocês mal podem esperar para mergulhar no mar... estou certo?

Os rapazes ficaram paralisados quando se viraram e deram de cara com a expressão severa do homem atrás deles.

A camisa azul-viva que ele vestia contrastava intensamente com a escuridão estampada em seu semblante.

Era Arthit.

O líder da integração estava visivelmente furioso.

Kongpob não fazia ideia de havia quanto tempo ele estava ali, mas era evidente que ouvira comentários suficientes para entender do que estavam falando.

Arthit cruzou os braços e abriu um sorriso carregado de hostilidade.

— E não se preocupem... Eu mesmo vou organizar tudo exatamente do jeito que vocês querem.

O tom falsamente cordial fez todos empalidecerem.

Naquele momento, todos esperavam ouvir um castigo imediato, resignados a receber uma sentença dolorosa do líder da integração.

Mas isso não aconteceu.

Ao menos, não ali.

Depois de deixar aquela ameaça velada no ar, Arthit simplesmente virou as costas e voltou para junto de seu grupo, como se tivesse entregado o destino deles às mãos do acaso.

— A culpa é sua! Tudo isso aconteceu porque você não consegue ficar de boca fechada! — reclamou Em, apontando para o colega que insistia tanto em nadar no mar.

Kongpob soltou um suspiro de rendição.

Já imaginava que acabaria sendo obrigado a entrar no mar — justamente a última coisa que queria fazer.

Com certeza Arthit inventaria alguma atividade envolvendo nadar, exatamente como havia prometido. E, conhecendo-o, aquilo dificilmente seria agradável.

O que mais o incomodava era a estranha irritação que sentia.

Uma raiva que nem ele próprio conseguia explicar.

Balançando a cabeça para afastar aqueles pensamentos, Kongpob voltou para o ônibus, que logo partiu rumo ao próximo destino.

Depois de longas horas de viagem, o sol do início da tarde já castigava quem estava sentado ao lado das janelas.

Por fim, o ônibus estacionou diante de um tranquilo complexo à beira-mar.

O ar carregava o agradável aroma de sal e areia.

Ao descer do veículo com sua mala, Kongpob observou o lugar com curiosidade.

O complexo era formado por pequenos bangalôs distribuídos entre muitas árvores. Além dos alojamentos, havia um campo para atividades e um auditório.

As palmeiras projetavam sombras refrescantes, enquanto o som suave das ondas completava a atmosfera tranquila.

Assim que todos desembarcaram, os calouros foram reunidos no auditório para receber instruções sobre as regras que deveriam seguir durante toda a estadia.

Afinal, estar fora da universidade não significava que pudessem fazer o que bem entendessem.

Além das normas, os veteranos e os professores permaneceriam por perto durante todo o tempo, supervisionando as atividades para garantir que tudo transcorresse sem problemas.

Terminadas as orientações — que mais pareciam advertências —, os estudantes foram divididos em grupos de vinte pessoas para compartilhar cada bangalô.

As chaves ficaram sob responsabilidade dos representantes de cada grupo, e, em pequenos grupos de amigos, todos seguiram para os alojamentos correspondentes.

Depois de descansarem um pouco e recuperarem as energias, os calouros foram novamente chamados.

Dessa vez, seriam reorganizados em oito equipes, identificadas por cores, para participar de diversas provas preparadas pelos veteranos.

Para surpresa de todos, as atividades eram bastante simples.

Na verdade, eram brincadeiras conhecidas desde a infância.

Havia desafios de identificar objetos misteriosos com os olhos vendados, arremesso de bexigas cheias de tinta, corrida em um pé só e diversas outras atividades típicas de gincanas escolares.

Ninguém recebia punições cruéis ao perder.

Assim como Fang havia prometido.

O que realmente deixou os calouros intrigados foi o que aconteceu depois.

Encerradas as provas, os veteranos simplesmente se acomodaram à sombra das palmeiras próximas ao mar.

O grupo de Arthit, responsável pela integração, instalou-se confortavelmente ali.

Ao contrário do habitual, Arthit parecia estar de excelente humor.

Knot pegou o violão, enquanto Arthit começou a cantar.

Então, sob o olhar curioso de todos, ele se levantou e fez um gesto chamando alguém.

Seu convite tinha um alvo bastante específico.

As garotas.

— Senhoritas, venham se sentar aqui na sombra! Vamos tocar algumas músicas para vocês!

Arthit aproximou-se gentilmente de um grupo de alunas, deixando ainda mais evidente que o convite não incluía os rapazes.

Mesmo assim, vários calouros aproveitaram a sombra para descansar um pouco, aliviados por finalmente escapar do sol forte.

Depois de observar todos acomodados na areia, Arthit voltou sua atenção justamente para o grupo de calouros com quem havia conversado naquela manhã.

— E vocês? O que estão fazendo aqui? Não estavam loucos para entrar no mar?

Ele sorriu.

— Pois bem. Eu não vou impedir. Levantem-se. Vão nadar. Deixem as camisetas na areia.

Como líder da integração, sua palavra tinha força de ordem.

Seu tom não era ameaçador.

Mas seus olhos denunciavam perfeitamente que aquilo era vingança.

Assim que terminou de falar, Arthit voltou tranquilamente para seu lugar entre os veteranos.

Sentou-se ao lado das garotas e retomou a música como se nada tivesse acontecido.

Só então os calouros perceberam que haviam caído em uma armadilha.

Ninguém prestava atenção neles.

— Claro... Ele só tirou a gente daqui para monopolizar a atenção das garotas junto com o grupo dele. Aquele idiota não consegue passar um minuto sem mostrar que manda na gente só porque é veterano.

Kongpob ouviu o comentário do colega.

Seu olhar voltou para Arthit.

Ele sorria enquanto cantava.

As garotas batiam palmas ao redor dele.

E, sem perceber, a irritação dentro de Kongpob aumentava cada vez mais.

Depois de tentar ignorar aquilo por algum tempo, ele não conseguiu mais suportar.

Sem pensar nas consequências, caminhou decidido em direção ao grupo.

— Sou o 0062! Peço permissão para falar!

A voz firme do calouro ecoou pela praia.

Todos se viraram imediatamente.

Arthit interrompeu a música e desviou a atenção das garotas para Kongpob.

Ele não ficou surpreso ao ver o já conhecido "porta-voz dos calouros" tomando a frente mais uma vez.

O que chamou sua atenção foi outra coisa.

Kongpob estava genuinamente furioso.

Parecia prestes a perder a paciência.

Arthit soltou um suspiro impaciente e lançou-lhe um olhar frio.

— O que você quer?

— Acho injusto ficarmos debaixo desse sol enquanto vocês estão aqui, confortavelmente, na sombra, cantando.

Ao ouvir aquela reclamação, Arthit arqueou as sobrancelhas.

0062 já havia contestado suas ordens outras vezes, mas nunca com tanta raiva.

Naturalmente, Arthit também elevou o tom de voz, assumindo a postura rígida das reuniões de integração enquanto caminhava até ficar diante dele.

— Se você não consegue suportar algo tão simples, como pretende trabalhar no futuro? Nem todo emprego é em um escritório com ar-condicionado, 0062.

Kongpob não recuou.

— Eu consigo fazer qualquer coisa! Sei que algumas das atividades que você propõe são úteis, e concordo com isso. Mas esta não serve para nada. Você só está sendo injusto conosco.

As palavras atingiram Arthit em cheio.

Sua expressão endureceu.

Algo dentro dele pareceu despertar.

Um impulso irracional de responder na mesma intensidade.

— Entendo... Então você consegue fazer qualquer coisa?

Seu sorriso desapareceu.

— Nesse caso, vá sozinho para o mar e esfrie essa cabeça até perder toda essa arrogância. Essa lição serve para você?

A ordem foi dada com tanta firmeza que toda a praia mergulhou em silêncio.

Os olhares alternavam entre Arthit e Kongpob.

O calouro permaneceu imóvel por alguns segundos.

Então, sem dizer mais nada, virou-se e caminhou em direção ao mar.

Entrou na água.

Continuou andando.

Até mergulhar completamente.

Seu corpo parecia pesado.

Seu coração também.

Kongpob não entendia por que resolvera confrontar Arthit.

Na verdade, Arthit nem sequer estava fazendo algo diretamente contra ele.

A irritação havia crescido pouco a pouco, alimentada pelos comentários dos colegas.

Sem perceber, acabou tomando para si a inveja que eles sentiam.

Era injusto.

Sim.

Mas, ao vê-lo sorrindo e cantando alegremente, Kongpob simplesmente perdeu o controle.

E, antes que pudesse pensar melhor, já estava diante dele, despejando toda a frustração que carregava.

E, como era de se esperar, o resultado não foi nada bom.

Kongpob conseguiu apenas irritar Arthit e acabar recebendo um castigo.

Pensando melhor, aquela viagem teria sido a oportunidade perfeita para conversar com o líder da integração de maneira amigável, já que Arthit parecia especialmente receptivo com todos ao seu redor.

Mas a culpa por desperdiçar essa oportunidade era exclusivamente sua.

Arthit ficou muito bravo?

Kongpob passou a mão pelo rosto, lembrando-se do ódio que vira estampado no olhar dele.

Talvez realmente precisasse esfriar a cabeça, exatamente como Arthit havia dito.

Fechou os olhos e mergulhou na água fria do mar, tentando afogar junto dela toda a confusão que sentia.

Ele sabia nadar muito bem, por isso não teve dificuldade em permanecer submerso.

Ficou tanto tempo debaixo d'água que começou a sentir a falta de ar.

Quando finalmente se preparava para voltar à superfície, sentiu uma força inesperada puxá-lo para trás.

No instante seguinte, um grito ecoou bem perto de seus ouvidos.

— Kongpob! Respira! Por favor... abre os olhos!

A primeira coisa que Kongpob viu ao abrir os olhos foi o rosto completamente apavorado de Arthit.

Por alguns instantes, ele não entendeu o que estava acontecendo.

Abriu a boca para perguntar, mas logo se lembrou.

Sentiu o próprio corpo sendo arrastado para fora do mar.

Durante o resgate, acabara engolindo bastante água.

Assim, quando tentou falar, apenas tossiu violentamente e cuspiu a água salgada.

Ao ver aquilo, a expressão de Arthit finalmente perdeu um pouco do desespero.

Só então Kongpob percebeu que estava sendo cuidadosamente amparado nos braços dele.

— Graças a Deus você está bem, Kongpob! Não se preocupe, já chamamos as enfermeiras. Elas devem chegar a qualquer momento. Me diga... você teve uma cãibra? Foi picado por uma água-viva?

Ainda transtornado, Arthit começou a gritar para os colegas, exigindo que corressem para buscar a equipe médica.

Em meio àquela confusão, a voz de Kongpob saiu baixa e tranquila.

— Não precisa, P'Arthit... Eu estou bem.

O calouro tentou se levantar, mas permaneceu próximo, ainda apoiado por Arthit.

— Como assim está bem? Você estava se afogando!

— Eu só estava nadando.

— Então por que ficou tanto tempo debaixo d'água?

Kongpob respondeu com toda a sinceridade:

— Porque você disse que eu precisava esfriar a cabeça. Eu só estava obedecendo à sua ordem.

Suas palavras congelaram todos os presentes.

Alguns ficaram boquiabertos.

Outros, completamente horrorizados.

Arthit olhou ao redor.

Depois voltou os olhos para o rapaz que ainda segurava.

O pânico estampado em seu rosto deu lugar à culpa.

Então era isso que Kongpob queria dizer?

Que a culpa por ele quase ter se afogado era sua?

Só porque havia mandado o calouro entrar no mar para "esfriar a cabeça"?

Aquilo era um absurdo.

Quem imaginaria que alguém levaria aquela ordem ao pé da letra?

Aquele idiota era completamente maluco.

A ansiedade tomou conta de Arthit.

Seu corpo tremia.

As mãos fecharam-se em punhos.

— Você é um completo idiota? Se eu mandar você morrer, também vai obedecer? Usa essa cabeça!

Sua voz carregava inúmeras emoções ao mesmo tempo.

Raiva.

Medo.

Alívio.

Culpa.

Ele começou a falar cada vez mais depressa, quase resmungando consigo mesmo, até ser interrompido pela chegada de uma enfermeira acompanhada de Fang.

— O que aconteceu aqui?

— Não foi nada! Calouros, saiam daqui! As atividades de hoje estão encerradas!

A ordem foi imediata.

Os estudantes começaram a deixar a praia em pequenos grupos.

Logo depois, os veteranos também se dispersaram.

Em aproximou-se rapidamente de Kongpob para ajudá-lo a ficar de pé.

— O que aconteceu? Você está bem?

— Estou. Está tudo bem.

Em soltou um longo suspiro de alívio.

— Você faz ideia do quanto eu fiquei preocupado? Achei que estivesse se afogando. Eu falei para os outros que você estava tempo demais dentro da água... e o Arthit foi o primeiro a correr para te salvar.

Ao ouvir aquilo, Kongpob finalmente compreendeu toda a situação.

As imagens passaram novamente por sua mente.

O rosto desesperado de Arthit.

Sua voz trêmula.

O modo como o segurava com cuidado.

Naquele instante, Kongpob percebeu uma verdade da qual antes não tinha se dado conta.

Arthit realmente havia ficado preocupado com ele.

Bubble Tear - Capítulo 09

Capítulo 9 — O Amor de Kokut

Meu amor com Kokut era como o de um demônio que considerava Kalakuni sua sobremesa favorita.

Naquele dia... não me lembro exatamente de quantos anos tínhamos. Eu estava em cima de uma árvore alta, tremendo de medo. Não conseguia descer de jeito nenhum. Na verdade, eu nem havia subido para sempre ficar preso lá em cima, mas todos ao redor pareciam se divertir com a situação como se estivessem assistindo a um espetáculo.

A verdade é que bastava aquele maldito esquilo aparecer uma vez para eu perder a coragem por completo.

Eu não era o único que tinha medo dele.

Mas naquela noite, Kokut segurou minha mão e se ofereceu para ajudar. Coincidentemente, o esquilo parecia disposto a aprontar justamente naquele momento.

Assim que tentei me aproximar, o bichinho mostrou os dentes e saltou para longe com a leveza do vento.

O problema é que ele não apenas fugiu.

Também veio na minha direção.

Assustado, ergui os braços para proteger o rosto. Perdi o equilíbrio e despencuei da árvore.

Lembro-me apenas do grito que escapou da minha garganta.

Pela lógica da física, uma pessoa caindo de uma árvore de três metros de altura deveria atingir o chão com uma força considerável.

Mas...

Quando caí, quase não senti dor.

Porque alguém havia amortecido o impacto.

Kokut.

Ele usou o próprio corpo para me proteger.

Enquanto eu saí praticamente ileso, ele bateu a cabeça no chão e ficou coberto de sangue.

...

Sim.

Kokut ficou caído numa poça de sangue por minha causa.

De repente, a situação deixou de ser "salvar alguém preso numa árvore" e virou uma corrida para salvar uma vida.

Na época, fiquei apavorado.

Hoje, olhando para trás, ainda me lembro da expressão dele quando abriu os olhos e me encarou.

Parecia um anjo caído do céu.

Se eu contasse isso para qualquer pessoa, provavelmente diriam que eu estava exagerando.

Mas naquela época eu realmente pensei isso.

Todos estavam com medo de se aproximar dele. Eu também não ousava me mover, com receio de piorar seus ferimentos.

Enquanto Kokut era levado para o hospital, eu permaneci ali, atordoado.

Depois daquele dia, a história do "anjo que caiu do céu" se espalhou por toda a faculdade.

E foi assim que comecei a prestar atenção nele.

Kokut era alto, tinha aparência comum e mantinha o cabelo preso de forma descuidada porque tinha preguiça de ir ao barbeiro.

À primeira vista, não parecia nada especial.

Mas ele possuía algo que atraía as pessoas.

Gostava de festas, adorava estar cercado de amigos e parecia capaz de fazer amizade com qualquer um.

Era daí que vinha seu apelido.

Não importava se estivesse caminhando, esbarrando em alguém ou até sendo derrubado no chão.

Kokut sempre seguia em frente com um sorriso no rosto.

Kokut não era perfeito.

Era teimoso, impulsivo e raramente cumpria aquilo que prometia.

Hoje dizia uma coisa.

Amanhã dizia outra completamente diferente.

Muita gente o considerava alguém irresponsável, sem rumo ou sem grandes perspectivas para o futuro.

Mesmo assim, era impossível não gostar dele.

Porque, apesar de todos os defeitos, Kokut possuía uma bondade genuína.

Quando decidia ajudar alguém, fazia isso sem esperar nada em troca.

Quando se importava com alguém, fazia de verdade.

E talvez tenha sido exatamente isso que me conquistou.

O dia em que percebi que estava apaixonado por ele chegou sem aviso.

Não houve uma grande revelação.

Nenhum momento dramático.

Nenhuma música tocando ao fundo.

Apenas um dia comum.

Enquanto observava Kokut rir e conversar com os amigos, algo dentro de mim mudou.

Foi só então que percebi.

Eu gostava dele.

Gostava dele muito mais do que deveria gostar de um amigo.

No início tentei negar.

Tentei convencer a mim mesmo de que era apenas admiração.

Gratidão.

Ou qualquer outro sentimento.

Mas não adiantou.

Porque quanto mais tempo passava ao lado dele, mais difícil ficava ignorar o que sentia.

E então comecei a namorar Kokut.

Naquela época, eu acreditava sinceramente que ficaríamos juntos para sempre.

Acreditava que nenhum problema seria capaz de nos separar.

Acreditava que o amor era suficiente.

Mas a vida raramente segue o roteiro que imaginamos.

...

Quando tudo terminou, eu já estava cansado.

Cansado de esperar.

Cansado de acreditar.

Cansado de fingir que nada estava errado.

— Ainda existe alguma coisa que eu não vi? — perguntei.

Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.

— Vamos acabar com isso, Kokut.

Ele ficou em silêncio.

Parecia querer dizer alguma coisa.

Parecia querer explicar.

Parecia querer me convencer de que ainda me amava.

Da mesma forma que havia feito tantas vezes antes.

Mas, naquele momento, nenhuma palavra faria diferença.

Porque já não havia mais nada para salvar.

E eu também estava cansado demais para continuar tentando.

As lágrimas escorriam pelo rosto dele.

Ver Kokut chorando sempre foi algo raro.

Por isso a cena apertava meu coração.

Eu não o odiava.

Nunca odiei.

Mesmo depois de tudo.

Mesmo depois do término.

O problema era outro.

Eu simplesmente não o amava mais.

Então o abracei.

Abracei-o com cuidado.

Como quem tenta consolar alguém que está sofrendo.

Porque, naquele instante, ele parecia mais frágil do que jamais havia parecido.

Mas Kokut continuava sendo Kokut.

Depois de algum tempo, enxugou as lágrimas e tentou sorrir.

Um sorriso triste.

Mas ainda assim um sorriso.

— Você continua sendo cruel até o fim — disse ele.

Eu quase ri.

Porque aquilo parecia exatamente algo que ele diria.

— Desculpa, Kokut.

— Não. Quem deve pedir desculpas sou eu.

Balancei a cabeça.

— Não.

— Sim.

Ficamos discutindo por alguns segundos sobre quem deveria se desculpar.

Até que ele soltou uma risada fraca.

— Então me responde uma última coisa.

— O quê?

Kokut me encarou.

Como se estivesse reunindo coragem para fazer a pergunta.

— Você encontrou alguém melhor do que eu?

Respondi imediatamente.

— Não.

A expressão dele vacilou.

— Então por quê?

Fechei os olhos por um instante antes de responder.

— Porque eu deixei de te amar.

— Não tem nada a ver com outra pessoa.

— Não tem nada a ver com ciúmes.

— E também não tem nada a ver com você ser insuficiente.

— Apenas... acabou.

Kokut ficou em silêncio.

Depois sorriu novamente.

Dessa vez, um sorriso sincero.

O mesmo sorriso que um dia havia feito meu coração disparar.

— Você continua honesto demais.

E foi assim que nossa história terminou.

Não com gritos.

Não com traições.

Não com ódio.

Mas com duas pessoas que já não podiam seguir juntas.

...

Às vezes penso que nossa história parecia saída de um romance.

Um daqueles romances doces que fazem as pessoas acreditarem no amor.

Mas a verdade é que nós simplesmente nos encontramos cedo demais.

Porque, se eu tivesse conhecido Kokut naquela época, não haveria como dar certo.

Por outro lado...

Se o encontrasse agora...

Talvez ele fosse a pessoa certa.

A pessoa certa.

Mas no momento errado.

E talvez essa seja a forma mais dolorosa de amor que existe.

Manner of Death - Capítulo 33 (Fim)

CAPÍTULO 33

Depois de meses sob cuidados paliativos, meu pai faleceu pacificamente aos setenta anos.

Encarei a linha reta no monitor de ECG enquanto uma infinidade de sentimentos se misturava dentro de mim. O corpo do meu pai, que costumava ser alto e robusto, tornara-se esquelético devido ao câncer em estágio avançado. Ao vê-lo ali, daquele jeito, parecia que estava apenas dormindo.

Nem uma única lágrima foi derramada.

Ele se foi...

Era o último inimigo da minha vida anterior.

— Sinto muito pela sua perda, Tann.

O capitão Aem ofereceu suas condolências. Eu estava sentado em um banco em frente à delegacia. Virei-me e o cumprimentei respeitosamente. Ele assentiu antes de se sentar ao meu lado.

Quando soube que eu havia voltado para ficar ao lado da cama do meu pai moribundo, chamou-me para conversar. Por isso, passei na delegacia antes de seguir para o templo, onde ajudaria nos preparativos do funeral.

— Obrigado. Mas, para ser sincero, não me sinto tão triste assim. — Sorri de leve. — Tenho certeza de que o senhor entende o motivo.

— Bem, nunca pensei que veria a queda da família Sawangkul com meus próprios olhos.

O homem corpulento voltou o olhar para mim.

— Ah, e por falar nisso, não sou mais capitão. A partir de agora, você deverá me chamar de Inspetor Aem.

Meus olhos se arregalaram diante da notícia. Levantei a mão em uma saudação brincalhona.

— Sim, senhor. Parabéns.

O recém-promovido inspetor soltou uma risada.

— Na verdade, chamei você aqui para falar sobre o andamento do caso da Srta. Rungthiwa. Minha equipe conseguiu uma nova evidência obtida das gravações da câmera de vigilância recuperadas com um ex-segurança que trabalhava no condomínio de Janejira.

Ele fez uma breve pausa antes de continuar.

— Acontece que não havia nenhum defeito na câmera. O segurança recebeu dinheiro de Pert para destruir as imagens que poderiam provar que ele esteve com Janejira na noite do assassinato. Depois disso, o homem pediu demissão, então levou algum tempo até conseguirmos localizá-lo.

Endireitei-me no banco, ouvindo atentamente. Meu coração acelerou.

— Rungthiwa mentiu quando disse que foi visitar a irmã sozinha. As imagens mostram que ela chegou ao apartamento com Pert às sete da noite do dia dez de dezembro. Os dois entraram juntos no quarto de Jane, o que contradiz sua versão anterior de que encontrou Pert tentando encenar o enforcamento da vítima.

Ele cruzou os braços.

— Com essa evidência em mãos, Rungthiwa finalmente confessou. Ela e Pert mataram Jane porque ela pretendia expor o esquema de fraude envolvendo os fundos do empreendimento imobiliário.

— Isso é verdade? — exclamei, chocado. — Ela matou a própria irmã por causa disso?

— As irmãs sempre tiveram conflitos relacionados a propriedades e dinheiro. Pert e Janejira, apesar de parecerem estar em um relacionamento, vinham brigando constantemente por causa desses problemas. Além disso, Pert mantinha uma proximidade suspeita com Rungthiwa, o que levou Jane a querer se vingar dele expondo os crimes da irmã e destruindo sua reputação.

O inspetor suspirou.

— Na noite do assassinato, Pert e Rungthiwa foram até Jane para tentar negociar. Pelo visto, a conversa não terminou bem. Jane foi estrangulada até a morte, e eles tentaram encenar um suicídio. A causa da morte foi falsificada. Sem perceber, você, ao fingir ser o namorado de Jane, ajudou Pert a ser descartado como suspeito e a fugir da cena.

— Eu nunca quis que isso acontecesse. — Suspirei.

— Rungthiwa não manteve contato com Pert durante o período em que ele ficou escondido. Porém, quando ele reapareceu, provavelmente movido pela culpa ou por algum outro motivo, ela entrou em pânico. Temia que ele contasse tudo à polícia, então decidiu envenená-lo.

O inspetor Aem balançou a cabeça.

— Isso é tudo o que conseguimos reunir até agora. Quando tivermos mais informações, eu aviso. Ainda preciso entrevistar várias testemunhas, incluindo você, Tann.

— Ficarei feliz em ajudar sempre que precisarem. Meu negócio de aulas particulares em Bangkok é flexível, então posso vir quando for necessário. Não é como a escola em que eu trabalhava antes.

Levantei-me.

— Obrigado pela atualização, inspetor.

— E como está o Dr. Bunn? — perguntou Aem. — Soube que ele foi para os Estados Unidos. Você acha que poderá voltar para depor como testemunha?

— Vou transmitir sua mensagem a ele. Estamos morando juntos agora, então avisarei assim que receber alguma intimação.

O inspetor me observou por alguns instantes.

— Inacreditável. Vocês dois estão mesmo namorando. Sempre achei que o Dr. Bunn fosse hétero. Quer dizer, ele teve uma namorada por anos. Nunca imaginei que fosse gay.

Dei uma risada.

— Isso não deveria ser tão surpreendente. Afinal, é preciso ser um para reconhecer outro.

Aem soltou um riso breve.

— Acho que você tem razão.

— Agora, se me dá licença, preciso ir ao funeral.

— Claro. Conversamos outra hora. Mas, se eu estivesse no seu lugar, não apareceria por lá. Você é um dos motivos pelos quais a família Sawangkul chegou a esse estado. Seus parentes provavelmente não ficarão felizes em vê-lo.

— Vou ser rápido. Apesar de tudo, meu pai me criou. Preciso prestar minhas últimas homenagens.

Despedi-me do inspetor e caminhei em direção ao carro.

Ao entrar, senti como se um enorme peso tivesse sido retirado dos meus ombros.

Pert nunca havia mencionado Rungthiwa para mim. Nem sequer havia citado seu nome. Quando me contou o que aconteceu, fez parecer que tinha agido sozinho. Talvez quisesse reduzir os problemas ao mínimo possível. Ou talvez estivesse tentando protegê-la de qualquer suspeita.

Mesmo que a natureza do relacionamento deles continuasse envolta em mistério, eu tinha certeza de que mantinham um caso naquela época. Isso não seria nada incomum para alguém como Pert. Eu sequer conhecia a maioria das mulheres com quem ele saía.

Ainda assim, jamais imaginei que suas escolhas resultariam em tantas mortes trágicas.

Graças a Deus, eu não sou como ele.

Quando amo alguém, cuido apenas dessa pessoa.

Só tenho olhos para ela.

Em breve, quando estiver pronto...

Você será meu para sempre, Bunn.


Eu não costumava me incomodar com pequenas coisas. Mas, quando me importava de verdade com alguém, acabava pensando nessa pessoa sempre que tinha um momento livre.

E naquele instante eu estava irritado.

O homem de quem eu gostava simplesmente havia desaparecido.

Um dia inteiro se passou sem que ele respondesse às minhas mensagens ou retornasse minhas ligações.

Aquilo já tinha acontecido antes, quando esqueci meu celular na van do departamento. Assim que recuperei o aparelho, liguei imediatamente para Tann.

Mas agora era diferente.

No segundo dia sem notícias, minha irritação começou a dar lugar à preocupação.

Será que alguma coisa tinha acontecido com ele?

Assim que voltei do hospital, liguei para meu irmão.

— Ah, o Tann? — respondeu Boon, com a maior tranquilidade do mundo. — Vi ele há dois dias embaixo do prédio, com alguns alunos.

— E depois? — aproximei o telefone do rosto. — Não consigo falar com ele de jeito nenhum. Preciso da sua ajuda. Onde ele está? Será que voltou para casa? Aconteceu alguma coisa? Por favor, tente entrar em contato com ele.

— Calma. Talvez o celular tenha quebrado ou ele esteja sem internet.

Sua despreocupação me irritou.

— Já faz dois dias, pelo amor de Deus!

— Tudo bem, vou tentar falar com ele. Mas provavelmente não é nada. Você acabou de sair do trabalho?

Suspirei pesadamente.

— Sim. Acabei de chegar em casa.

— Tem planos para esta noite? Que tal visitar um observatório?

Franzi a testa.

— Observatório? Em Nova Iorque?

— Isso mesmo. Você já foi ao Empire State Building, mas esse é ainda mais alto. Comprei um ingresso para você. Está no seu e-mail. Vá lá tirar algumas fotos para mim. Talvez eu leve minha família algum dia.

— O quê?!

Fiquei completamente confuso.

Olhei para o relógio.

Cinco e meia da tarde.

— Mas eu já estou em casa.

— Apenas vá. O ingresso foi caro.

— Não vou a lugar nenhum enquanto não souber onde está o meu namorado.

— Ele não desapareceu. Confie em mim. Vá apreciar a vista. Considere isso uma ordem. Vou ficar bravo se você não for.

Aquilo estava ficando cada vez mais estranho.

Boon deveria estar tão preocupado quanto eu. Em vez disso, insistia para que eu visitasse um observatório, como se esperasse que eu encontrasse alguma coisa lá.

Ou alguém.

— Boon, fala sério. O que vocês estão aprontando?

— Apenas vá, está bem? Não se preocupe tanto. Tenho que desligar. Um paciente está me esperando na sala de cirurgia. Tchau!

E desligou.

Na minha cara.

Fiquei encarando a tela do telefone.

Apesar da confusão, uma sensação começou a crescer dentro de mim.

Boon sabia onde Tann estava.

Talvez fosse justamente por isso que ele permanecia tão tranquilo.

E se o motivo de eu não conseguir falar com Tann fosse porque ele estava viajando?

Meu coração acelerou.

Centenas de possibilidades passaram pela minha cabeça.

Será?

Bem...

Só havia uma maneira de descobrir.

Abri meu e-mail pessoal e encontrei a mensagem enviada por Boon.

O assunto dizia:

"VOCÊ PRECISA IR."

Meu palpite era simples.

Tann e Boon estavam tramando alguma coisa.

E havia uma grande chance de que Tann estivesse me esperando naquele observatório.

É melhor ele rezar para que eu não o encontre.

Porque, quando eu encontrar, vou puxar suas orelhas até que toda Nova Iorque ouça seus gritos.

Momentos felizes sempre pareciam passar rápido demais.

Quando comecei a me adaptar à pós-graduação, percebi que estava gostando cada vez mais da rotina acadêmica. Fiz amizade com alguns colegas de turma, que frequentemente me convidavam para sair. Alguns residentes também passaram a pedir meus conselhos, e até uma professora de medicina, uma americana mais velha, me convidou para sair certa vez. Recusei educadamente, é claro.

Sem que eu percebesse, cinco meses se passaram.

Eu já estava acostumado ao ritmo frenético da cidade e ao mar de pessoas que me cercava toda vez que saía do metrô. Conferi o mapa no celular mais uma vez e segui para o meu destino.

Meu horário de entrada era às sete da noite.

A primeira coisa que senti ao chegar foi o vento gelado cortando meu rosto. Apertei o casaco contra o corpo enquanto observava os arredores.

Manhattan brilhava sob as luzes dos arranha-céus.

Aproximei-me da área envidraçada e contemplei a paisagem. Meus olhos se fixaram no espetáculo luminoso do Empire State Building.

Peguei o celular e abri a câmera para tirar algumas fotos.

Boon tinha razão.

A vista era realmente impressionante.

Enviei cinco fotos para ele e fiquei aguardando enquanto eram carregadas.

Foi então que alguém tocou meu ombro.

Achei que a pessoa quisesse ocupar o lugar onde eu estava observando a paisagem. Por isso, pedi desculpas e me preparei para sair.

Mas, ao me virar, congelei.

O homem atrás de mim era provavelmente americano. Tinha cabelos castanhos escuros, usava um terno preto elegante e segurava um pequeno buquê de rosas brancas.

Apontei para mim mesmo.

— Para mim?

— Um cavalheiro pediu que eu entregasse isto a você.

Ele estendeu o buquê.

— Um asiático muito bonito. Vocês se conhecem? Ele está logo ali.

O homem apontou para algum lugar atrás dele.

Tentei seguir a direção indicada, mas a multidão bloqueava minha visão.

Confuso, aceitei as flores.

Meu coração começou a bater tão forte que parecia querer escapar do peito.

O desconhecido sorriu levemente e se afastou.

Olhei novamente para o buquê.

Entre as rosas havia um pequeno cartão azul.

Retirei-o cuidadosamente e li a mensagem escrita em uma caligrafia que eu conhecia muito bem:

“Um desconhecido morreu de desgosto. Por favor, venha examinar este pobre rapaz, doutor.”

Uma risada escapou antes que eu pudesse contê-la.

Mesmo já suspeitando do que estava acontecendo, não consegui impedir a onda de emoção que tomou conta de mim.

Afastei-me da varanda e comecei a caminhar entre os turistas, ficando na ponta dos pés sempre que possível para procurar o responsável por aquilo.

Não me deixe colocar as mãos em você, Tann.

Vou puxar suas orelhas.

Por que ele não me contou que estava vindo?

Eu realmente não gostei dessa brincadeira.

Que surpresa absurda.

Será que ele achou mesmo que eu ficaria facilmente impressionado?

Então avistei um homem usando uma jaqueta marrom e calças cinza enquanto admirava a vista do Central Park.

Não tinha certeza absoluta de que era ele.

Mas a altura.

O corte de cabelo.

A postura.

Tudo parecia inconfundível.

Fui direto em sua direção e estendi a mão para tocar suas costas.

— Bunn.

Congelei.

A voz de Tann não vinha do homem à minha frente.

O desconhecido se virou para mim com uma expressão confusa.

Meus olhos se arregalaram.

Virei rapidamente a cabeça para a direita.

E lá estava ele.

Tann caminhava em minha direção com um sorriso divertido.

— Desculpe! — falei imediatamente ao homem errado antes de me afastar.

Tann aproximou-se.

— Como pôde fazer isso comigo? Cumprimentando outro homem desse jeito?

— Foi um engano!

Pela primeira vez em muito tempo, não soube como agir.

Eu deveria correr para abraçá-lo?

Ficar bravo?

Ou simplesmente sorrir?

As emoções se embaralharam dentro de mim.

Fiquei parado, encarando-o.

Com uma blusa preta de gola alta e um casaco de veludo cinza, ele parecia diferente.

E absurdamente bonito.

— Tudo bem. Eu perdoo você. — Tann parou diante de mim. — Gostou das flores?

Olhei para o pequeno buquê em minhas mãos.

— Como você chegou aqui? E por que não me contou?

— Porque era uma surpresa.

Ele segurou minhas mãos.

— Surpresa? — reclamei. — Então você estava viajando esse tempo todo? Poderia pelo menos ter me avisado! Achei que algo horrível tivesse acontecido. Liguei para Boon desesperado e descobri que ele era seu cúmplice! Por que me fez passar por isso?

Tann fingiu estar ofendido.

— Já terminou de reclamar?

— Está dizendo que eu não tenho razão?

Levantei o buquê.

— E por que mandou um estranho entregar isso?

— Porque queria que você me procurasse. Não foi emocionante?

A confiança dele começou a vacilar.

— Ei... agora não tenho certeza se você está feliz ou furioso.

Mantive o rosto sério por mais alguns segundos apenas para vê-lo nervoso.

Então sorri.

Um sorriso enorme.

— Sabe de uma coisa? Você mereceu passar por esse susto.

— Aaah!

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Tann me puxou para um abraço apertado.

Caí na gargalhada.

— Quantas vezes você já fez isso comigo? — reclamou ele. — Você sempre consegue me assustar. Achei que meu plano tinha fracassado.

— Seu plano foi ótimo. Você realmente me surpreendeu.

Enterrei o rosto em seu peito e fechei os olhos.

Eu não percebera o quanto sentia falta dele até aquele momento.

— Sério?

Sua voz saiu aliviada.

— Isso é um alívio.

Ele passou os dedos pelos meus cabelos.

Como sempre.

Era impossível não gostar quando ele fazia isso.

Afastei-me um pouco para observar seu rosto.

Meu namorado estava ali.

Bonito.

Saudável.

Sorrindo para mim.

— Então... onde está esse “desconhecido” que morreu de desgosto?

Tann apontou para si mesmo.

— Aqui.

Depois inclinou a cabeça.

— Consegue descobrir como ele morreu, doutor?

Levantei o dedo indicador e o deslizei lentamente pela região entre suas clavículas, simulando o trajeto de um bisturi.

Antes que eu pudesse continuar, Tann segurou meu pulso.

Então abriu cuidadosamente minha mão.

Foi nesse instante que vi.

Um anel.

Brilhando sob as luzes da cidade.

Minha respiração falhou no instante em que o anel deslizou pelo meu dedo.

Por alguns segundos, fiquei incapaz de pensar.

Ou falar.

Ou sequer respirar direito.

Minhas mãos tremiam levemente.

— Isso pode parecer engraçado — disse Tann com uma risada tímida —, mas a primeira pessoa que experimentou esse anel foi o Dr. Boonlert. Vocês dois têm praticamente o mesmo tamanho de mão, então imaginei que serviria em você também.

Ele riu ao recordar.

— Você precisava ver a reação dele. Cobriu a boca, fingiu chorar e começou a agir como se estivesse assistindo ao momento mais emocionante da vida dele. Eu não conseguia parar de rir.

Baixei os olhos para o anel.

Era simples.

Elegante.

Perfeito.

Durante muito tempo, imaginei que um dia usaria uma aliança ao lado de uma mulher. Casaria, teria filhos e daria aos meus pais a vida que eles esperavam que eu tivesse.

Uma vida considerada normal.

Uma vida que a sociedade aceitaria sem questionamentos.

Mas, depois que aceitei quem eu realmente era, abandonei aquela fantasia.

Nunca mais me permiti pensar em casamento.

Por isso aquele momento parecia tão irreal.

Tann segurou minhas mãos.

Seu olhar estava firme.

Sincero.

— Você vai ficar comigo para sempre?

Meu coração disparou.

Pisquem várias vezes sem conseguir responder.

Eu jamais imaginara que ele faria algo assim.

— O que é isso? — foi tudo o que consegui perguntar.

Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi o quão ridícula havia sido minha resposta.

Tann ergueu uma sobrancelha.

— É um anel.

Sorri, sem graça.

— Eu sei que é um anel.

— Então pare de me interromper.

Ele apertou minhas mãos.

— É um anel para você. Quero que todo mundo saiba que você está comprometido.

Ergueu a mão esquerda.

Um anel idêntico brilhava em seu dedo.

— E também não quero passar o resto da vida espantando pretendentes.

Seu sorriso ficou mais largo.

— Assim como você não precisa mais se preocupar com minhas alunas tentando me roubar de você.

Naquele instante, percebi exatamente o que queria fazer.

Segurei sua nuca.

Puxei-o para perto.

E o beijei.

Tann respondeu imediatamente, envolvendo minha cintura com os braços e aprofundando o beijo.

Ao nosso redor, Nova Iorque continuava viva.

Pessoas caminhavam.

Conversavam.

Tiravam fotos.

Mas eu não conseguia prestar atenção em mais nada.

Naquela cidade, demonstrações públicas de afeto eram comuns. Diferente da Tailândia, onde algo assim ainda atraía olhares e julgamentos.

Mesmo assim, eu não me importava.

A única coisa que importava era ele.

O gosto de seus lábios.

O calor de suas mãos.

A sensação de finalmente tê-lo comigo outra vez.

Nos beijamos por longos minutos.

Até que uma voz irritada surgiu bem ao nosso lado.

— Arrumem um quarto!

Afastei-me imediatamente.

Uma mulher encarava nós dois com expressão indignada, claramente tentando apreciar a vista que estávamos bloqueando.

Limpei os lábios com o dorso da mão, constrangido.

Tann parecia divertir-se.

— Você precisa ir a algum lugar depois daqui?

Balancei a cabeça.

— Não. Mas estava pensando que a cama king size do seu hotel deve ser grande demais para uma pessoa só.

— Você não é mais criança. Não consegue dormir sozinho?

Revirei os olhos.

— Mudando de assunto... onde conseguiu dinheiro para uma passagem internacional? Seu negócio está indo tão bem assim ou alguém emprestou dinheiro para você?

Os cantos de sua boca se curvaram em um sorriso malicioso.

— Podemos discutir isso na minha cama king size.

— O que você tem com essa maldita cama?

— Muitas intenções.

— Eu imaginei.

---

O quarto do hotel era tão impressionante quanto Tann havia prometido.

Localizado nos andares mais altos do prédio, a poucas quadras da Times Square, oferecia uma vista espetacular da cidade.

Não era enorme.

Mas era elegante.

Sofisticado.

Confortável.

Aproximei-me da janela panorâmica e observei as luzes coloridas que se espalhavam por Manhattan.

Tann havia se recusado a revelar quanto custava aquela suíte.

Naturalmente, isso apenas despertou ainda mais minha curiosidade.

Acabei descobrindo o valor perguntando discretamente aos funcionários da recepção.

Quando quero saber alguma coisa, ninguém consegue me impedir.

Especialmente não Tann.

Eu estava admirando a vista quando senti suas mãos envolverem minha cintura.

Num único movimento, ele me virou para encará-lo.

Seus olhos estavam cheios de desejo.

Um desejo que ele vinha segurando há meses.

Lentamente, ele me empurrou contra o vidro.

Minhas costas tocaram a superfície fria da janela.

Tann ergueu meu queixo.

Eu entreabri os lábios.

O beijo veio imediatamente.

Forte.

Intenso.

Impaciente.

Como se ele estivesse contando os dias para aquele momento.

Talvez estivesse.

Quando finalmente nos afastamos, eu estava sem fôlego.

— Senti muito a sua falta, Bunn.

Seu polegar acariciou minha bochecha.

Sorri.

— Você já ouviu falar daquele casal que resolveu fazer sexo encostado numa janela de vidro e acabou despencando porque ela quebrou?

Tann ficou me encarando.

Então começou a rir.

Muito.

— Você está tentando estragar o clima?

— Estou apenas dizendo que talvez devêssemos escolher um lugar menos perigoso.

Passei os braços ao redor de seu pescoço.

— Além disso, preciso tomar banho primeiro.

Inclinei-me para perto.

— Depois podemos continuar essa conversa na sua famosa cama king size.

O olhar de Tann escureceu imediatamente.

— Não tenho certeza se consigo esperar tanto.

— Vai sobreviver.

Ou pelo menos espero que sim.

Ele soltou uma risada resignada.

Mas continuou me observando como se eu fosse a única pessoa existente naquele quarto.

E, para ser sincero...

Eu estava fazendo exatamente a mesma coisa.

Quando abri os olhos, senti aquela agradável exaustão que só surge depois de uma noite bem dormida.

Ou quase bem dormida.

Fiquei sentado por alguns segundos, tentando reunir energia para me levantar. Então afastei o cobertor e saí da cama.

Peguei o roupão branco do hotel, que havia sido abandonado no chão na noite anterior, e o vesti antes de caminhar até a enorme janela do quarto.

Afastei as cortinas.

A luz dourada da manhã inundou o ambiente.

Manhattan despertava lentamente sob meus olhos.

Observada daquela altura, a cidade parecia diferente. Menos caótica. Quase tranquila.

Sorri.

Era sábado.

Pela primeira vez em muito tempo, eu não precisava correr para o hospital logo ao amanhecer.

Atrás de mim, ouvi um resmungo abafado.

Tann puxou o cobertor sobre a cabeça para fugir da luz do sol e voltou a se encolher na cama.

Ri baixinho.

Voltei minha atenção para a paisagem.

Sem perceber, um sorriso surgiu em meu rosto.

Eu estava feliz.

Simplesmente feliz.

Tann havia me contado que pretendia abrir um cursinho próprio em breve. Estava economizando dinheiro para conseguir me visitar algumas vezes durante minha permanência nos Estados Unidos.

Por sorte, sua aparência chamou a atenção de um olheiro nas redes sociais.

Desde então, ele vinha fazendo alguns trabalhos como modelo para lojas virtuais e campanhas fotográficas.

Não porque sonhasse em ser famoso.

Mas porque o pagamento era bom.

Seu verdadeiro objetivo continuava sendo o mesmo.

Ser professor.

Construir sua escola.

Ensinar.

Tann também prometeu que, quando eu voltasse para a Tailândia, encontraríamos um lugar melhor para morar.

Naturalmente, eu o lembrei de manter os pés no chão.

Alguém precisava ser a voz da razão naquela relação.

Enquanto pensava no futuro que construiríamos juntos, algo chamou minha atenção.

Um vulto.

Uma sombra.

Algo passou rapidamente diante da minha visão.

Por um instante, achei que estivesse imaginando coisas.

Mas então ouvi gritos.

Muitos gritos.

Corri até a varanda.

Destranquei a porta e saí.

As vozes vinham lá de baixo.

Aproximei-me da sacada e olhei para a rua.

Meu sangue gelou.

Um homem estava caído no chão.

Nu.

Imóvel.

Seu corpo encontrava-se de bruços.

Os tornozelos estavam dobrados em ângulos impossíveis, com fragmentos ósseos atravessando a pele.

Sangue escorria de seu nariz e de suas orelhas, formando uma poça escura ao redor da cabeça.

A morte havia sido instantânea.

Meu cérebro começou a trabalhar automaticamente.

Era um hábito impossível de abandonar.

Observei a posição do corpo.

A distribuição dos ferimentos.

O ponto de impacto.

Tudo.

Pela aparência dos danos, o homem provavelmente havia caído com os pés voltados para baixo.

A força do impacto destruiu ambos os tornozelos antes de se propagar pelo restante do corpo.

A base do crânio sofreu uma fratura fatal.

Era isso que explicava o sangramento pelas orelhas e pelo nariz.

Não havia qualquer dúvida.

Ele morreu no mesmo instante em que atingiu o chão.

Continuei observando.

Algo não parecia certo.

O local onde o corpo havia caído ficava muito próximo ao prédio.

Próximo demais.

Se ele tivesse se lançado voluntariamente da sacada, seria esperado que o corpo tivesse percorrido uma distância maior antes de atingir o solo.

Mas não foi o que aconteceu.

Franzi a testa.

Então ergui o olhar para os andares superiores.

A pergunta mais importante surgiu imediatamente.

Aquele homem havia pulado?

Ou alguém o empurrou?

Naturalmente, caberia à equipe forense responder essa pergunta.

O cadáver contaria sua história.

As lesões.

Os vestígios.

As evidências.

Tudo falaria por ele.

E quando a investigação terminasse, os fatos revelariam a verdade.

Mas, se você me perguntasse naquele momento...

Se me pedisse uma opinião baseada apenas na experiência e no instinto...

Eu daria uma resposta sem hesitar.

Na minha opinião...

Aquilo não foi suicídio.

Foi assassinato.



FIM