18 de jun. de 2026

MSN - Capítulo 07.1

Capítulo 07.01

Paquerar Não Dá Medo, Medo é Perder

Yook me deixou na porta do meu condomínio. No caminho, ficamos conversando sobre assuntos aleatórios o tempo todo.

O que deveria ser algo completamente normal entre amigos ainda mais entre dois homens, para mim estava longe de ser normal.

Durante a volta inteira, meu coração bateu como uma bateria de escola de samba¹, e cada frase que eu dizia saía tremendo junto.

Eu não queria admitir que estava abalado por alguém que havia se declarado para mim. Na época da faculdade, nunca me senti assim com nenhuma das pessoas que confessaram gostar de mim.

Ou será que era porque eu estava enfrentando a solidão agora?

Talvez fosse isso que estivesse mudando a forma como eu me sentia quando estava com Yook.

Convencido de que meus gostos jamais haviam mudado, assim que nos separamos corri para o apartamento e comecei a revirar minhas coisas.

Tirei calendários de mulheres sensuais e revistas cheias de fotos provocantes para me estimular.

Essas mulheres são o meu tipo.

Elas são atraentes.

Os seios, as curvas, aquelas bundas empinadas...

Droga.

Eu não gosto de homens.

Essa sensação estranha devia ser apenas o clima do momento me confundindo.

Assim que cheguei a essa conclusão, guardei todo o material de volta e fui assobiando para o quarto.

— Uhuuuuu!

Agora sim.

Feliz.

Finalmente consegui me concentrar no trabalho.

Antes de qualquer coisa, eu estava praticamente sem dinheiro. Restavam apenas algumas moedas no bolso, e até meu estoque de macarrão instantâneo estava acabando.

Se continuasse sendo preguiçoso, não seria impossível morrer de fome em breve.

E pedir ajuda para minha família estava fora de cogitação.

Desde o começo eu havia dito que conseguiria viver dessa profissão.

Que um dia eu seria grande.

E olha só...

Grande eu fiquei.

Grande e pobre.



Sou o filho do meio entre três irmãos.

E também o único que saiu completamente dos trilhos da família.

Meu pai é diretor de escola.

Minha mãe é professora de Ciências do ensino fundamental.

Minha irmã mais velha virou professora de inglês.

Meu irmão mais novo está cursando licenciatura.

Então me expliquem:

de onde diabos surgiu esse compositor desgraçado?

Sou filho do vizinho por acaso?

Minha família queria que eu fosse servidor público.

Ou, no mínimo, que cursasse alguma faculdade que garantisse um emprego estável.

Até hoje eu não entendo essa lógica.

No fim, escolhi aquilo que amava e segui atrás do meu sonho.

E agora que cheguei tão longe, era impossível voltar para casa e pedir dinheiro.

Meu orgulho não permitia.

Então havia apenas uma solução:

Desenterrar músicas antigas, refazer as melodias, reescrever as letras e tentar vendê-las para alguma gravadora.

Eu compunha essas músicas desde a faculdade e nunca as havia mostrado a ninguém porque julgava que não tinham qualidade suficiente.

Mas, neste momento?

Que se dane a qualidade.

Meu estômago vinha primeiro.

Passei a noite inteira reescrevendo letras.

Sem comer.

Sem beber.

Sem sequer chegar perto da cama, com medo de dormir.

Quando terminei, já era meio-dia do dia seguinte.

Reuni os arquivos de áudio gravados de forma precária, anexei as letras e enviei tudo por e-mail para um produtor que conhecia.

Só então chegou a hora de dormir.

— Aaaah...

Toc toc toc.

Que porra?

Mal tinham se passado dez segundos desde que me joguei na cama quando alguém bateu na porta.

Arranquei alguns fios de cabelo de tanta raiva antes de marchar até a entrada.

Quando abri a porta e vi Yook carregando várias sacolas, fiquei ainda mais irritado.

— Por que veio agora? Estou com sono. Quero dormir...

Foi assim que comecei a conversa.

Ele franziu levemente a testa, tirou o boné e me observou de cima a baixo.

— Você ainda está com a mesma roupa. Nem tomou banho?

— Não. Também não dormi. Se tem alguma coisa pra dizer, fala logo. Estou tão cansado que minhas pálpebras estão tremendo.

Ele soltou uma risada baixa.

Então entrou no apartamento como se fosse dono do lugar, trancou a porta e foi direto para a cozinha.

— Já comeu?

Balancei a cabeça.

— Trouxe comida. Coma antes de dormir.

— Não quero. Quero dormir.

— Chayin.

— Estou com sono. Mais sono do que fome.

— Pare de fazer birra.

Eu queria me jogar no chão e começar a espernear.

Mas, vendo o olhar sério dele, me rendi e sentei à mesa.

Yook tirou uma marmita da sacola e colocou diante de mim.

— O que é isso?

— Arroz frito com camarão.

— Eu já disse que tenho preguiça de descascar camarão. Mesmo que só reste o rabo.

— Pedi para tirarem tudo. É só comer.

— E você está livre hoje? Por isso veio me ver?

Perguntei enquanto mexia na comida lentamente, incapaz de decidir se comia ou dormia.

— Estou livre todos os dias. Saí para fazer compras e passei aqui.

Depois acrescentou:

— Sente direito. Você está comendo deitado igual uma cobra.

— Mandão...

Você é só um amigo.

Não fique achando que tem privilégios especiais só porque disse que gosta de mim.

Foi isso que pensei.

Mas meu corpo me traiu completamente.

Sem perceber, sentei direito.

Droga.

Por que estou obedecendo?


Nota de Tradução

1:: A expressão tailandesa equivalente a "ใจสั่นเป็นกลองชุด" foi adaptada para "coração bateu como uma bateria de escola de samba", transmitindo a ideia de batimentos acelerados de forma natural em português.

Nyi - Capítulo 04

Capítulo 04

— Ko Z, não se atrase, ouviu? Não quero que ela tenha uma impressão errada de mim. Ela pode ficar confusa quando chegar. Isso já aconteceu antes, tá?

— Eu sei, eu sei. Para de roer as unhas desse jeito. Sei muito bem o que tenho que fazer. Vai cuidar das suas coisas. Você está nervoso demais...

— Então por que você mesmo não vai, já que está tão preocupado? — provocou Ma Cho.

— Ugh... Tenho uma aula para dar. Não posso faltar. Isso está me deixando tão inquieto...

A querida tia Swe de Nyi estava voltando dos Estados Unidos. Como ele tinha um compromisso em um centro de reabilitação administrado por uma ONG local, onde atuava como instrutor voluntário de capacitação profissional, não poderia recebê-la no aeroporto e me pediu para ir em seu lugar.

Ele adorava aquela mulher, mas realmente não tinha escolha.

A maioria dos alunos de sua turma eram pessoas que haviam sofrido abusos físicos e psicológicos por tráfico humano, escravidão sexual ou exploração como profissionais do sexo, e que tinham sido resgatadas pela ONG. O objetivo era ajudá-las a recuperar a autoestima e construir uma vida confortável e digna.

Nyi ensinava panificação, preparo de café, confeitaria, culinária e gestão.

Era extremamente profissional no que fazia.

Mesmo assim, nós o tratávamos como um novato.

Bem... eu o tratava assim.

Na verdade, eu o admirava muito.

Mas, para mim, ele continuava sendo apenas um garoto.

Só para mim.

Eu e Ma Cho o apoiávamos em tudo o que queria fazer.

Qualquer coisa.

Absolutamente qualquer coisa.

— Ko Z, entregue para ela tudo o que eu preparei. E não se esqueça de explicar por que não pude vir recebê-la, certo? Não deixe de falar isso. É muito importante. Certifique-se de que ela entenda, ouviu?

Ele continuava repetindo instruções sem parar.

O que entregar.

O que dizer.

Como dizer.

Que inferno.

— Pronto, pronto, Senhor Vovô. Você já explicou tudo. Ele vai conseguir resolver isso. Pare de ficar tão nervoso — disse Ma Cho.

— Está vendo, Ma Cho? Está vendo como ele fica irritante quando está assim? Senhor Vovô...

— Ah, qual é! Vai logo! Ppalliga! (빨리가 — depressa!)

Ele me empurrou em direção à porta.

Saí imediatamente e fui para o aeroporto.

Cheguei tão cedo que parecia ridículo.

Tudo graças ao Nyi.

Os presentes para a tia Swe incluíam um urso de pelúcia gigante, mais alto do que eu e três vezes maior que meu corpo.

E aquilo era apenas um dos presentes de boas-vindas.

Havia inúmeras bolsas e pacotes.

Pequenos.

Grandes.

Enormes.

Muito obrigado, Senhor Vovô.

Parecia um completo maluco.

Todo mundo que passava olhava para mim com uma expressão que dizia claramente:

"O que há de errado com esse cara?"

Empilhei todos os presentes em um canto do saguão de desembarque e me sentei em um banco próximo.

Enquanto esperava, observando as pessoas passarem, meu radar captou algo interessante.

Uma mulher.

Talvez tivesse uns vinte e cinco anos.

Sorri para ela.

Pareceu que ela sorriu de volta.

Normalmente, as garotas apenas desviavam o olhar, colocavam o cabelo atrás da orelha e ficavam tímidas.

Mas aquilo era diferente.

Eu tinha certeza.

Ela conversava com alguém ao seu lado, sorrindo bastante e assentindo de vez em quando.

Só de observá-la, tive a sensação de que aquela mademoiselle não era comum.

Era extraordinária.

Simples e elegante.

Refinada.

Inteligente.

Muito acima do meu nível.

Jovem, mas experiente.

Cheia de mistério.

Uau.

Eu mesmo fiquei impressionado comigo por estar pensando tudo aquilo.

Era como encontrar uma joia rara.

Um tesouro precioso.

Seu cabelo longo e escuro parecia carregar segredos.

Misterioso.

Hipnotizante.

Lindo.

— Com licença.

Toda aquela fantasia desapareceu quando ouvi uma voz ao meu lado.

Era um estrangeiro pedindo para se sentar.

Retirei minhas coisas do banco e sorri.

— Obrigado.

Ele se acomodou.



— Conhecido seu? — perguntou Ko Zaw Htay.

— Não.

— Ah... então por que ele estava sorrindo para você? Esses jovens de hoje...

Ele falou em tom de reprovação.

Às vezes, Ko Zaw Htay se irritava com muita facilidade.

Mas eu entendia.

Quando alguém se preocupa demais com uma pessoa querida, acaba ficando nervoso.

Tenho certeza de que aquele rapaz apenas sorriu de forma amigável.

Nada além disso.

Um sorriso educado.

Sem segundas intenções.

Qual era o problema?

Ele devia ter cerca de um metro e oitenta.

Pele morena.

Musculoso.

Elegante.

Bonito.

Muito atraente.

Diferente da maioria dos homens de hoje.

Tinha um ar refinado e viril.

Além disso, conversava com confiança com o estrangeiro ao seu lado.

Seus gestos e postura transmitiam a imagem de alguém instruído.

Simples.

Mas cheio de energia.

♪ Tin Tone ♪

O aviso de chegada do voo ecoou pelos alto-falantes.

— Vamos, Mahar. Eles chegaram.

Eu estava tão distraída pensando naquele homem que quase me esqueci do motivo de estar ali.

Mas tinha alguém para receber.

Afastei o pensamento.



Um perfume familiar passou pelo ar.

Olhei ao redor.

— Ei, Z!

— O quê? Dipar? Myat Noe? O que vocês estão fazendo aqui? Quem está chegando? Ou vocês estão indo viajar?

— Vamos para Bangkok! Compras! — responderam animados. — Espera... onde está Kaung Kaung?

— Está ocupado. O Senhor Vovô tem aula para dar. Como podem ver, estou aqui resolvendo os negócios dele com esse urso gigante.

— Hahaha! Ele fez isso de novo!

Os dois começaram a rir.

— Precisamos tirar uma foto disso!

— O quê? Por quê?

— Porque vocês vivem grudados um no outro. Mas isso aqui parece uma exposição de museu!

— É verdade!

Revirei os olhos.

Mas eles não estavam errados.

Raramente passávamos muito tempo separados.

— Afinal, por que ele mandou você vir aqui? — perguntou Dipar.

Enquanto isso, Myat Noe tirava fotos ao lado do urso.

— A tia Swe está voltando dos Estados Unidos. Vim recebê-la.

— Sério?!

Os dois responderam ao mesmo tempo.

— Sim.

— Espera aí. Ela é tia de quem? Sua ou do Kaung Kaung?

— Minha tia de verdade.

— Sério? Nós sempre pensamos que fosse tia dele!

Depois de rir mais um pouco, despediram-se.

— Foi bom ver você! Agora vamos para Bangkok fazer compras!

E desapareceram.

Olhei ao redor mais uma vez.

A mulher que eu observava já havia sumido.

Então avistei tia Swe.

Acenei para ela.

Ela veio em minha direção e a primeira coisa que perguntou foi:

— Onde está Kaung Kaung?

Claro.

Ela perguntou por ele.

Expliquei tudo.

Contei o motivo de sua ausência.

Entreguei os presentes.

E ela sorriu.

— Mesmo de longe, ele continua sabendo exatamente do que eu gosto. Eu o amo tanto.

Claro que ama.

Aquele garoto encantava todo mundo.

Foi exatamente isso que pensei.

Caminhamos até o estacionamento.

No meio do caminho, ela passou por mim.

Mas não me notou.

Estava ocupada conversando com um estrangeiro que parecia um grande empresário.

Bem...

Até mais.

Ou talvez...

Nunca mais.

Criei uma nova pasta em meu coração.

Talvez também um atalho na memória.

Quem sabe um dia essa pasta acabe indo para a lixeira.

Talvez.

Só talvez.

Mademoiselle...

Até nos encontrarmos novamente.

Ang Ang - Capítulo 17 🔞

Capítulo 17

— Eu queria ser médica.

A mão de Hwayoung deslizou com cuidado pelas nádegas de Gyuwon. Como o cabelo dele ainda estava molhado, Gyuwon ouvia a história com os olhos semicerrados.

De certa forma, Hwayoung combinava com a profissão. Ela era carinhosa e atenciosa, e sempre cuidava dele depois que tudo terminava. Também tinha um lado firme, que parecia adequado à vocação. Então por que acabara se tornando contadora?

Hwayoung soltou uma risadinha, como se tivesse entendido a dúvida dele.

— Combina tanto comigo, não acha? Nem sei o que fazer. Combina demais.

Depois de dizer isso, depositou um beijo leve nas costas de Gyuwon e continuou:

— Se eu fosse dentista, até alguém como você subiria naquela cadeira sem reclamar. Ficaria tão extasiado que acabaria rangendo todos os dentes, não é? E quando penso em cirurgia... sinceramente, só consigo imaginar proctologia. Considerei várias especialidades, mas nenhuma parecia certa. Achei que lidar com pessoas seria cansativo demais, então resolvi brincar com números.

Ela examinou cuidadosamente as nádegas dele, a região que havia sido estimulada antes e também o ombro onde o mordera. Só então se afastou.

— Se aparecesse um paciente como você, eu não conseguiria me controlar. Não tenho muita confiança na separação entre vida profissional e pessoal. E, acima de tudo, meu irmão...

Enquanto falava, Hwayoung observou o rosto de Gyuwon. Ele virou a cabeça, confuso. Ao vê-lo corar, ela pensou por um instante e sorriu.

— Oppa Gyuwon?

O rosto dele ficou ainda mais vermelho.

— Você não gosta quando eu te chamo de oppa?

Ela perguntou de propósito, mesmo sabendo que aquele não era o problema.

— Não...

A resposta saiu quase como um murmúrio.

Hwayoung caiu na gargalhada.

Nesse momento, alguém bateu à porta.

— Entre.

Enquanto Hwayoung caminhava tranquilamente até a entrada, Gyuwon vestiu as calças às pressas.

“Oppa Gyuwon”.

A forma como ela o chamara parecia estranhamente agradável. Carinhosa, delicada e ligeiramente provocadora.

Doce.

Tão doce que fazia suas orelhas e sua cabeça formigarem.

Tentou convencer a si mesmo de que estava tudo bem, embora não conseguisse esconder o rosto vermelho. Talvez não estivesse tão evidente. Além disso, sua pele bronzeada ajudaria a disfarçar.

Assim que abriu a porta, Hwayoung franziu a testa ao ver o gerente. Pelo momento exato em que aparecera, era óbvio que ele estava acompanhando as câmeras.

Coisas que antes ignorava — como segurança e privacidade — passaram a incomodá-la desde que começara um relacionamento com Gyuwon.

Decidiu internamente que nunca mais voltaria àquele lugar.

O gerente entregou rapidamente um vídeo a ela e perguntou, percebendo seu desagrado:

— Se não se importar... eu gostaria de conversar.

Ao lado dele estava Yunho, parecendo alguém que acabara de levar uma surra.

Hwayoung não sentiu a menor pena.

Ser espancado pelo gerente era muito melhor do que ser espancado por ela.

Ela saiu para o corredor, fechou a porta atrás de si e assentiu.

Era um gesto que significava “fale”, mas também deixava claro que ninguém entraria naquele quarto.

O gerente respirou fundo.

— Yunho tem algo para dizer.

Parecia que ele próprio não queria falar diante da expressão gelada de Hwayoung.

Incentivado pelo gerente, Yunho finalmente abriu a boca, o rosto completamente vermelho.

— É verdade que... eu gravei o vídeo da Hwayoung e enviei para o trabalho. Mas o Benz não fui eu.

A desconfiança apareceu imediatamente no rosto dela.

— É verdade! Eu tenho provas!

Ele parecia desesperado.

— Provas?

— É verdade — confirmou o gerente. — Naquele dia, Yunho estava fazendo um serviço para mim. Ele estava em viagem de negócios, e posso confirmar que saiu do local às nove da manhã. Então a pessoa do Benz deve ser outra.

Hwayoung alternou o olhar entre os dois.

Cem milhões de wones em reparos não eram pouca coisa.

Ela avaliou por um instante se aquilo não seria uma armação para encobrir o prejuízo.

Na verdade, já tinha chegado à conclusão antes mesmo de refletir muito.

Agora que sabia quem Yunho realmente era, a possibilidade de ele ter feito algo tão estúpido diminuía bastante.

— Você garante isso? — perguntou ao gerente.

Se ele demonstrasse qualquer hesitação, ela iria embora sem olhar para trás.

Mas ele assentiu imediatamente.

Havia um perseguidor.

E a situação estava tomando um rumo desagradável.

— Você já me seguiu alguma vez?

Yunho apontou para si mesmo.

— Eu?

Quando ela confirmou com um aceno, ele balançou a cabeça freneticamente.

Parecia genuinamente ofendido pela acusação.

Hwayoung sorriu.

— Certo. Vou cuidar disso. Quando eu pegar a pessoa, aviso você. Assim poderá recuperar o dinheiro do conserto do Benz.

Ela se curvou levemente e estava prestes a entrar quando o gerente a chamou.

— Hwayoung.

Ela parou e se virou.

— Sim?

— Não sei o que você pensa sobre isso... mas o clima anda estranho ultimamente. Recomendo que tome cuidado.

Ela inclinou a cabeça.

— O que quer dizer?

O gerente abaixou a voz.

— Estão espalhando rumores de que você encontrou um escravo. Não se esqueça do tipo de pessoa que você é neste mundo.

Hwayoung soltou uma risada curta.

— E que tipo de pessoa eu sou?

O gerente e Yunho trocaram olhares.

Os dois pareciam procurar as palavras certas.

Depois de hesitar bastante, Yunho respondeu:

— Um... ídolo?

A voz de Hwayoung quase falhou.

— Quantos anos você acha que eu tenho para me chamar de ídolo?!

Ela abriu a porta sem demonstrar o menor arrependimento.

Do outro lado, Gyuwon estava parado.

Ele lançou um olhar para Yunho e para o gerente antes de se afastar lentamente.

Assim que Hwayoung entrou, ele fechou a porta.

O silêncio se instalou por alguns segundos.

Foi ela quem o quebrou.

— Oppa Gyuwon, escutar atrás da porta é feio. Estou ficando envergonhada.

Ela falou em tom brincalhão.

Mas Gyuwon não sorriu.

Seu rosto frio e seco deixava claro que estava falando sério.

— Então existe outro perseguidor.

— Talvez.

Ela deu de ombros.

— Se deixarmos quieto, uma hora ele aparece sozinho.

Gyuwon arregalou os olhos.

— Não, não é isso.

— Hm?

— Você não está preocupada?

Hwayoung percebeu a expressão inquieta dele e abriu um sorriso suave.

— Estou.

A resposta simples o pegou desprevenido.

Ela continuou:

— Eu sou meio simplória por natureza. Não tenho imaginação suficiente para temer algo que não está diante dos meus olhos. Talvez porque eu gaste toda a minha imaginação em outras coisas.

Ela riu de forma despreocupada.

Mesmo assim, uma pequena inquietação permaneceu no coração de Gyuwon.

Pela primeira vez desde que a conhecera, ele sentiu um desconforto difícil de explicar.

Hwayoung ergueu os olhos para Gyuwon com um sorriso radiante.

Ela não deixou escapar a ansiedade sutil, a expectativa e a vergonha misturadas na expressão daquele rosto de traços marcantes e aparência fria. Como apenas ela era capaz de perceber aquela sombra escondida, o prazer se tornava ainda mais especial.

Sentia uma satisfação quase voyeurística ao enxergar o que existia no fundo de Kim Gyuwon.

Com um sorriso, mostrou-lhe um par de brincos de rubi.

— Gostou?

O olhar de Hwayoung passou brevemente pelo peito dele antes de desaparecer.

Parecia avaliá-lo.

Gyuwon sorriu sem jeito e assentiu, mas a verdade era que nem sequer havia observado os brincos direito.

Hwayoung soltou uma risadinha.

A timidez dele era divertida demais.

E, justamente por isso, decidiu provocá-lo um pouco mais.

— E este aqui? Ah... mas acho que vermelho combina mais.

Ela pegou um safira ao lado do rubi.

A cada joia que examinava, lançava olhares rápidos para o rosto cada vez mais constrangido de Gyuwon, que desviava o olhar com movimentos discretos.

Chegou até mesmo a pegar e largar um diamante antes de finalmente voltar ao rubi que queria desde o início.

Depois de algum tempo, Gyuwon falou cuidadosamente:

— Hwayoung... você é... mais travessa do que eu imaginava.

Ela riu baixinho.

Mas ele não acrescentou mais nada.

Apesar do enorme constrangimento, havia uma sensação estranhamente agradável misturada à vergonha, algo que ao mesmo tempo o torturava e o fazia feliz.

Já dentro do carro, Hwayoung murmurou:

— Você gosta quando eu implico com você.

Gyuwon acabou rindo.

Como se tivesse sido atraída pelo som daquela risada, Hwayoung riu também.

— E agora? Para onde estamos indo?

O sorriso desapareceu do rosto dele.

— Não acha que estamos seguindo pelo caminho errado?

Hwayoung, que observava a paisagem pela janela, comentou casualmente.

— Não olhe para trás.

— Já dei uma olhada.

Ela virou o rosto para ele.

— Estamos sendo seguidos.

Ao ouvir aquilo, Hwayoung franziu a testa por um instante.

Então sorriu.

— Ah, eu sei que sou bonita.

Gyuwon deixou escapar uma gargalhada.

A brincadeira dissipou parte da tensão que havia se acumulado em sua mente.

Mas as palavras seguintes quase o fizeram bater a cabeça no volante.

— Realmente é difícil ter um namorado bonito. E se alguém resolver roubar meu oppa lindo?

Sem coragem de perguntar quem exatamente era esse “namorado bonito”, Gyuwon apenas sorriu de maneira rígida.

Será que Hwayoung realmente o considerava bonito?

Depois de olhar rapidamente para o retrovisor — mais para verificar o próprio rosto do que o carro que os seguia — ele chegou a duvidar da visão dela.

— Com licença, Hwayoung...

Antes mesmo que terminasse a frase, ela respondeu:

— Minha visão é 1,8 nos dois olhos. E eu adoro esses seus olhos.

Gyuwon ficou sem palavras.

Ela prosseguiu, satisfeita:

— Tenho ótimo senso de observação. Também sou muito boa em perceber certas coisas. Veja só: descobri imediatamente que você era submisso.

Ela riu.

— Aliás... se aquele Grandeur preto está nos seguindo, ele me parece muito familiar.

O sorriso de Hwayoung se ampliou.

— Que reviravolta interessante.

Ela pegou o celular, pressionou alguns botões e levou o aparelho ao ouvido.

— Alô, irmãozinho?

Gyuwon teve um mau pressentimento.

E ele estava certo.

Era mesmo o irmão dela.

Completamente surpreso, ouviu Hwayoung dizer:

— Oppa, encoste o carro. Vamos conversar cara a cara.

Ela fez um sinal para Gyuwon.

Ele conduziu o veículo até o acostamento.

O Grandeur preto, que os seguia mantendo um carro de distância, parou logo atrás.

— Só um momento.

Após se desculpar com Gyuwon, Hwayoung saiu do carro em passos largos.

Ela bateu no vidro do Grandeur.

Quando o vidro baixou, surgiu o rosto de Yoon Kiyoung.

— Oi, Hwayoung.

O sorriso dele era visivelmente constrangido.

— O que está fazendo? Por que está me seguindo?

Kiyoung desviou o olhar.

— O pai está preocupado. Você sabe disso.

Mesmo aos vinte e sete anos, continuava sendo o caçula da família.

— Está tudo bem. Não sou mais uma criança. Além disso, vocês até colocaram um guarda-costas atrás de mim.

O sorriso luminoso de Hwayoung fez Kiyoung explodir.

— Esse guarda-costas e você...!

Ele parou no meio da frase.

Respirou fundo.

— Já chega.

— Nem consegue terminar o que quer dizer.

— Você...!

Mais uma vez, ele desistiu.

— Já chega.

— Pare de me seguir. Só está atrapalhando.

O rosto de Kiyoung se fechou imediatamente.

Hwayoung deu de ombros.

— Oppa, você já foi seguido alguma vez?

Quando ela perguntou, ele assentiu.

Então era ele quem vinha aparecendo atrás dela nos últimos dias.

Mas isso levantava outra questão.

Quem havia destruído o Benz?

Quem tinha rabiscado a porta da frente?

Sem contar os telefonemas estranhos.

Ela não comentara isso com Gyuwon, mas vinha recebendo ligações perturbadoras havia algum tempo.

As chamadas haviam parado apenas depois que trocara de número.

E foi justamente no dia da troca que conheceu Gyuwon.

Enquanto organizava mentalmente todas aquelas informações, Kiyoung perguntou com cautela:

— É algo sério?

— Não é nada com que você ou o pai precisem se preocupar.

Ela respondeu sorrindo.

Mas Kiyoung estendeu o braço pela janela e segurou sua mão.

Seu rosto estava sério.

— Não sou tão estúpido a ponto de incomodar você sem motivo. Apenas me diga. Vou ajudar da forma que quiser. Seja perseguição... ou abrir uma empresa.

— Lá vem você de novo com essa história de abrir empresa!

Hwayoung caiu na gargalhada.

— Eu sempre digo: mesmo que eu abra uma empresa, ninguém vai aparecer. E para um negócio dar certo, é preciso administrá-lo por pelo menos dez anos!

— Todo mundo consegue.

— Claro...

Ela bateu a porta do carro.

Tudo estaria bem se não fosse um detalhe.

Seu pai e seus irmãos acreditavam demais nela.

Existiam inúmeras pessoas brilhantes no mundo.

Colegas de universidade.

Pessoas que haviam estudado no exterior.

Especialistas em todas as áreas possíveis.

Mesmo assim, para a família, Hwayoung era a melhor.

Certa vez, quando tentou discutir isso seriamente, um dos irmãos respondeu:

— Mas eles são tão bonitos quanto você?

Depois daquela resposta, ela desistira completamente da conversa.

Não havia o que argumentar.

Para eles, o irmão caçula era simplesmente o melhor em tudo.

— Enfim, oppa...

Hwayoung interrompeu a frase.

Uma sombra caiu sobre ela.

Instintivamente virou a cabeça.

Mas, antes que pudesse reagir, alguém a agarrou.

Seu corpo girou.

Ela foi puxada para trás por braços fortes.

Quando ergueu os olhos, encontrou Gyuwon.

— Oppa?

Sem responder, ele segurou o pulso dela e a empurrou para longe.

Então disparou correndo atrás de alguém que fugia ao longe.

Ao mesmo tempo, Kiyoung e seus homens saíram do Grandeur.

— Hwayoung! O que aconteceu?!

— A senhorita está bem?!

Por alguns segundos, Hwayoung apenas encarou o líquido espalhado no chão diante dela.

Seu olhar subiu lentamente.

Então percebeu o buraco aberto na manga da própria roupa, exatamente onde o líquido havia respingado.

Seu rosto endureceu.

No instante seguinte, ela começou a correr.


Stand by Your Side - Capítulo 07

Capítulo 07 – A Pessoa que Dormia no Salão de Convivência

De manhã cedo, Jiang Chi trocou de roupa para correr e se preparou para sair. A cama em frente à sua ainda estava vazia, mas ele não pensou muito nisso e simplesmente foi embora.

Ao passar pelo salão de convivência, viu Gu Buxia encolhido em um canto do sofá. O casaco havia caído no chão, e ele estava todo enroscado, feito uma bolinha. Jiang Chi hesitou por um segundo, colocou os fones de ouvido e seguiu seu caminho.

No ar, porém, surgiu um ruído semelhante à interferência de uma estação de rádio. O som penetrou nos ouvidos de Gu Buxia, que se encolheu ainda mais, franzindo a testa como se estivesse preso em um pesadelo.

Jiang Chi já havia chegado à entrada do dormitório quando a imagem de Gu Buxia enroscado naquele sofá surgiu em sua mente sem ser convidada.

De repente, sentiu-se inquieto.

Após hesitar por alguns instantes, acabou voltando.

Ao retornar ao salão, tirou os fones e ficou parado ao lado do sofá, olhando de cima para baixo.

Depois de encarar o rosto adormecido por alguns segundos, abaixou-se, pegou o casaco caído no chão e o jogou sobre Gu Buxia com impaciência.

O casaco não o cobriu direito. Gu Buxia balançou a mão distraidamente, e a peça escorregou novamente.

Antes que tocasse o chão, Jiang Chi a agarrou por reflexo.

Seu corpo reagira mais rápido que seus pensamentos.

Ele encarou a própria mão com expressão fria e, irritado consigo mesmo, atirou o casaco diretamente sobre o rosto de Gu Buxia.

Assustado pelo movimento brusco, Gu Buxia se encolheu instantaneamente.

Jiang Chi franziu a testa e puxou o casaco para baixo, deixando seu rosto à mostra.

— Ei, Gu Buxia. Se vai dormir, dorme no quarto!

Deu um leve chute no sofá.

O ruído de interferência voltou a soar nos ouvidos de Gu Buxia, fazendo suor frio escorrer por seu corpo.

— Mmm... ah...

O gemido abafado chamou a atenção de Jiang Chi.

Algo não parecia certo.

Ele tocou o rosto do colega com as costas da mão.

— Ei, acorda...

Assim que o tocou, percebeu o problema.

Gu Buxia estava ardendo em febre.

Ele tentou acordá-lo, mas sem sucesso. Os murmúrios sonolentos apenas ficaram mais altos.

Com receio de que acabasse acordando os outros estudantes logo cedo, Jiang Chi decidiu levá-lo para o quarto.

Abaixou-se para ajudá-lo a levantar, mas foi agarrado de repente.

Quando tentou se reposicionar, Gu Buxia, ainda meio inconsciente, enterrou o rosto em seu peito.

O rapaz tremia.

Sem pensar, Jiang Chi deu leves tapinhas em suas costas.

Instantaneamente, o ruído perturbador desapareceu dos ouvidos de Gu Buxia.

Os tremores diminuíram.

Os murmúrios também.

Percebendo que ele parecia melhor, Jiang Chi o colocou nas costas, pegou o casaco e a mochila e voltou para o quarto.

Enquanto dormia, Gu Buxia pareceu sonhar com alguma coisa.

Seus braços começaram a se mover descontroladamente, e ele quase caiu.

— Francamente...

Jiang Chi o ajustou novamente nas costas.

— Mmm... ah...

A cabeça de Gu Buxia pendia ao lado de seu pescoço.

A respiração quente e os murmúrios inconscientes faziam cócegas em sua pele, provocando uma sensação estranha.

Jiang Chi tentou afastar a cabeça.

Mas, no instante em que se moveu, os braços ao redor de seu pescoço apertaram ainda mais.

— Gu Buxia... larga...

Nenhuma resposta.

O outro continuava profundamente adormecido.

Sem alternativa, Jiang Chi acelerou o passo.

Quando finalmente chegaram ao quarto, ele quase comemorou por não ter sido estrangulado no caminho.

Abriu a porta com dificuldade e entrou.

Foi direto até a cama e largou Gu Buxia sobre o colchão.

Nesse momento, a espada de madeira de pessegueiro acabou sendo puxada junto.

Tum!

— Mmm... ai...

A espada acertou sua cabeça em cheio.

Gu Buxia fez uma careta de dor.

Jiang Chi pendurou o casaco, guardou a mochila e colocou a espada de lado.

Ao se inclinar para verificar se ele estava bem, viu duas mãos se estendendo em sua direção.

Quis recuar.

Tarde demais.

Gu Buxia agarrou sua mão e a puxou para junto do rosto.

Então começou a esfregá-la na bochecha.

O frescor da pele alheia aliviou instantaneamente o calor da febre.

O ruído perturbador desapareceu completamente.

Por instinto, ele segurou aquela mão com toda a força.

À medida que a acariciava, sua expressão de sofrimento foi desaparecendo.

Pequenos murmúrios satisfeitos escapavam de seus lábios.

Jiang Chi sentiu-se extremamente desconfortável.

Tentou retirar a mão.

Falhou.

Tentou outra vez.

Falhou novamente.

Depois de várias tentativas frustradas, desistiu.

Suspirando, acomodou-se ao lado da cama e puxou o cobertor para cobrir Gu Buxia.

“Quando devo acordar esse sujeito?”

Ele hesitou.

Mas ao ver a expressão tranquila e satisfeita de Gu Buxia enquanto abraçava sua mão, acabou não tendo coragem de acordá-lo.

Gu Buxia dormiu por muito tempo.

A luz do sol atravessou a janela e iluminou o dormitório.

Sentado no chão, Jiang Chi adormeceu apoiado na lateral da cama.

Uma das mãos segurava um exemplar de Direito Penal – Parte Especial.

A outra permanecia erguida de forma desconfortável, presa entre os braços de Gu Buxia.

Depois de um sono particularmente agradável, Gu Buxia despertou esfregando o rosto contra aquela mão.

Abriu os olhos lentamente.

Havia até um sorriso em seus lábios.

Mas então percebeu algo.

Uma mão.

Segurada firmemente pelas suas duas mãos.

Seu rosto empalideceu.

Uma imagem assustadora atravessou sua mente.

Ele segurava uma mão decepada.

Uma voz rouca e ecoante sussurrava em seus ouvidos:

“Devolva minha mão... Não restou nada do meu corpo... Encontre o assassino...”

— AAAAAH!

Sonho e realidade se misturaram.

Apavorado, Gu Buxia soltou a mão e a arremessou para longe.

Jiang Chi despertou assustado.

No movimento, esbarrou na espada de madeira.

Ela voou em direção à sua cabeça.

Com reflexos rápidos, ele a interceptou no ar e a jogou para longe.

Massageando o pulso, dolorido após horas preso e depois violentamente arremessado, lançou um olhar irritado para Gu Buxia.

— Ah...

Percebendo o que havia acontecido, Gu Buxia ficou constrangido.

— Desculpa! Desculpa mesmo! Acho que tive um pesadelo. Pensei que estava segurando uma mão decepada.

— Uma mão decepada?

Jiang Chi balançou o pulso.

— Que tipo de sonho é esse? Você tem uma força absurda. Não consegui me soltar.

— Bem...

Gu Buxia tentou lembrar.

— Alguém queria apertar minha mão. Só que, assim que apertei, a mão se desprendeu do braço e a pessoa caiu morta no chão.

Enquanto ele narrava tudo com riqueza de detalhes, Jiang Chi apenas balançava a cabeça.

“Que tipo de coisa passa pela cabeça desse sujeito?”

De repente, Gu Buxia percebeu seu casaco cuidadosamente pendurado e a mochila guardada.

Olhou desconfiado para Jiang Chi.

Percebendo o olhar, ele explicou:

— Você estava gritando feito um louco lá fora logo cedo. Para não acordar todo mundo, tive que arrastar seu cadáver do salão até aqui.

Gu Buxia inclinou a cabeça.

Então começou a lembrar.

Recordou-se vagamente de ter sido sacudido enquanto estava sendo carregado.

Também se lembrou da sensação de estar nas costas de alguém.

Era tão reconfortante quanto quando seu avô o carregava na infância.

Lembrava-se até de ter murmurado “vovô” antes de voltar a dormir e abraçar quem o carregava.

— Ah! Então foi você quem me trouxe?

— Quem mais seria? — Jiang Chi respondeu arqueando uma sobrancelha.

Um sorriso bonito surgiu no rosto de Gu Buxia.

— Não imaginava que você fosse tão gentil. Obrigado.

Acostumado às provocações constantes entre eles, Jiang Chi ficou estranhamente sem jeito ao ouvir aquele agradecimento.

Levantou-se rapidamente e alongou o corpo.

Depois olhou as horas.

Limpou a garganta.

— A propósito... você estava com uma febre bem alta de manhã. Melhorou?

Gu Buxia tocou a própria testa.

A temperatura parecia normal.

— Acho que sim. Talvez eu tenha passado frio ontem à noite.

— Se voltou, por que não entrou no quarto para dormir?

— Ah...

Ele sorriu sem graça.

— Perdi a chave em algum lugar. Como já era tarde, achei que você estivesse dormindo e não quis incomodar. Pensei que daria para passar a noite no salão.

Fez uma pausa.

— Quem diria que parecia um freezer.

Depois da explicação, seus olhares se encontraram.

O quarto mergulhou num silêncio estranho.

Fora alguns ruídos vindos do lado de fora, tudo estava quieto demais.

Gu Buxia bateu levemente na própria cabeça para quebrar o clima.

— Ei... por que isso aqui está inchado?

Ao tocar o local, sentiu uma pontada de dor.

Jiang Chi não respondeu.

Apenas lançou um olhar para a espada de madeira e desviou os olhos.

Então começou a juntar suas coisas para sair.

— Ah!

Gu Buxia olhou as horas.

— Você está atrasado?

Passou a mão na nuca, constrangido.

— Foi mal. Por minha causa.

Jiang Chi virou-se, surpreso.

— Você sabe meu horário de aulas?

— Ora, nós estamos morando juntos há duas semanas.

Gu Buxia bocejou.

Acenou com a mão.

Depois se enrolou novamente no cobertor como um casulo.

— Vou dormir mais um pouco.

Com a mochila nas costas, Jiang Chi observou aquele “casulo humano”.

Sem perceber, um leve sorriso surgiu em seus lábios.

Enquanto seguia para a sala de aula, continuou lembrando daquela expressão adormecida.

Daquele rosto esfregando-se em sua mão.



1930 - Capítulo 09

Capítulo 09: Li Nian

Era preciso admitir: Jin Shian ficava muito bem vestido.

Certas coisas na elegância de uma pessoa são difíceis de mudar. Há um tipo de presença que nenhuma tendência da moda consegue moldar. Shian conseguia vestir roupas do século XXI e ainda assim transmitir a sofisticação dos anos 1930. Tinha uma excelente compleição física, postura impecável, cintura estreita que se prolongava em pernas longas e bem proporcionadas. Parecia um cavalheiro saído diretamente da tela de um filme antigo, caminhando passo a passo com firmeza e serenidade.

Até mesmo Zheng Meirong ficou chocada com a transformação.

— Presidente Jin...

— O que foi?

— Depois do acidente... seu senso de estilo parece ter melhorado de repente.

Shian sorriu discretamente.

— Tudo graças à orientação de Bai Yang.

...Ao ouvir aquilo, Bai Yang corou imediatamente.

Não, não era hora de corar.

Uma pessoa não podia continuar caindo no mesmo golpe repetidas vezes.

O que Bai Yang realmente precisava era conversar seriamente com Jin Shian sobre sua futura carreira artística.

— Afinal, quando você pretende cumprir sua promessa? Já faz um mês.

— Para que tanta pressa? Já pedi à Meirong que preparasse um relatório sobre as empresas de entretenimento do país. Mesmo que eu abra uma agência nova para você, ainda vamos precisar de um agente competente para administrá-la, não acha?

Curvado sobre a escrivaninha, Shian continuava escrevendo calmamente.

A ousadia daquele homem era impressionante.

Ele simplesmente mandara instalar uma segunda mesa de trabalho dentro do escritório do presidente, completa com pincéis, tinta, papel e pedra de tinta.

Quando Bai Yang o viu arregaçando as mangas para praticar caligrafia, quase desmaiou.

— Isso é exagerado demais! É muito fácil alguém desconfiar!

O antigo Jin Shian provavelmente nem sabia como segurar um pincel de caligrafia!

— E daí? — respondeu Shian tranquilamente. — Pelo que vejo na televisão, as pessoas de hoje ainda praticam caligrafia. Desde que eu não cometa erros básicos de bom senso, por que deveria imitar o antigo presidente Jin em tudo? É melhor ser eu mesmo. Quem teria coragem de reclamar?

— Sim, sim, você é incrível.

Bai Yang se deu por vencido.

Quando escrevia, Shian costumava abrir dois botões da camisa. A musculatura firme do peito aparecia discretamente sob a gola entreaberta.

Bai Yang observava aquela sensualidade involuntária com uma mistura de inveja e irritação.

Sentia-se atingido em cheio por uma onda de charme devastadora.

Na verdade, começou até a se preocupar.

Se Jin Shian resolvesse entrar na indústria do entretenimento daquele jeito, então ele, Bai Yang, estaria realmente acabado.

Tentando controlar o ciúme, perguntou:

— Como você sabe que eu preciso de um agente?

Shian levantou os olhos da mesa.

— Weibo.

Bai Yang sentiu que já não conseguia acompanhar o ritmo daquele presidente.

Algum tempo antes, Shian lhe perguntara do que ele gostava.

Bai Yang respondera que gostava de cantar.

Isso fez Shian lembrar-se de Lusheng.

— E o que você costuma cantar?

Parecia que ele queria uma apresentação ali mesmo.

Diante de seu patrocinador, Bai Yang precisava mostrar serviço.

Quebrou a cabeça tentando escolher uma música próxima da época de Shian para causar a melhor impressão possível.

"Noite de Xangai"? Não.

"Meu Pequeno Inimigo"? Que constrangedor.

"Perfume da Noite"? Nem lembrava mais a melodia.

Depois de muito pensar, acabou cantando "Tian Mimi" (Doce Mel).

Mesmo sendo uma música muito posterior à época de Shian.

Sem violão à mão, cantou à capela.

Shian ouviu tudo com um sorriso.

Na verdade, ele não era capaz de avaliar se Bai Yang cantava bem ou mal.

Mas conseguia perceber o quanto o rapaz estava envolvido na música.

Tão envolvido que, enquanto cantava, lágrimas começaram a surgir em seus olhos.

Sem entender o motivo, Shian rapidamente estendeu a mão para enxugar as lágrimas que se acumulavam nos cantos de seus olhos.

— Ficou bonito? — perguntou Bai Yang, com a voz embargada.

— Ficou. Muito bonito. Mas por que está chorando?

Bai Yang abaixou a cabeça.

— Minha mãe gostava muito dessa música.

— Está com saudade dela?

— ...Minha mãe faleceu há muito tempo.

Shian finalmente compreendeu.

Com ternura, afagou suas costas repetidas vezes.

E, finalmente, o tão esperado agente acabou aparecendo.

O tão esperado agente finalmente apareceu.

Shian revisou várias vezes os relatórios compilados por Zheng Meirong e, em seguida, convocou alguns gerentes de departamento para uma reunião.

Não era a primeira vez que o Grupo Hailong investia na indústria do entretenimento. Os executivos conheciam bem o setor e rapidamente recomendaram algumas grandes agências que estavam interessadas em receber novos investimentos.

— Também podemos abrir uma empresa nova — explicou Zheng Meirong. — Das que mencionamos agora há pouco, Xinlian, Fenghuang e Dingxin, todas permitem contratar profissionais experientes do mercado. Só que o custo será maior.

Shian folheava os documentos em silêncio.

— Pelos relatórios financeiros dos últimos anos, vejo que o grupo já possui uma agência artística. Por que ninguém a mencionou?

O ambiente mergulhou em silêncio.

Depois de alguns segundos, Zheng Meirong respondeu:

— ...Ela foi criada para Qin Nong.

Naturalmente, ela não mencionou que boa parte da equipe era composta por paparazzi enviados por Jin Shian para vigiar a atriz.

Shian não fazia ideia de quem era Qin Nong, mas decidiu seguir a conversa.

— Ela ainda está lá?

Zheng Meirong interpretou a pergunta de outra forma.

— Claro que não, presidente Jin.

Shian bateu levemente os dedos na mesa.

— Vejo que a empresa teve excelentes resultados no passado. Mas nos últimos dois anos o desempenho caiu bastante.

Zheng Meirong sentiu o couro cabeludo formigar.

— Bem... depois que Qin Nong saiu, o senhor perdeu o interesse pelo negócio. Considerando tudo, o fato de não ter retirado os investimentos já foi um milagre.

Na verdade, quem havia esquecido da existência daquela empresa não era Jin Shian.

Era ela.

Em silêncio, rezou para que o presidente não resolvesse responsabilizá-la.

Mas Shian parecia satisfeito.

— Entre começar algo novo e reencontrar velhos conhecidos, prefiro a segunda opção. Já que temos uma antiga parceria, devemos cuidar dos velhos amigos. Quem está administrando a empresa atualmente?

— Li Nian.

No dia seguinte, Li Nian foi convidado a comparecer à sede do Grupo Hailong.

Quando Shian entrou no escritório, encontrou-o sentado à espera.

Pela quantidade de pontas de cigarro alinhadas no cinzeiro, devia estar ali havia bastante tempo.

Shian observou a fileira perfeitamente organizada com interesse.

Então virou-se para Zheng Meirong.

— Peça para trocarem esse cinzeiro. Como podemos tratar o presidente Li com tamanha falta de consideração?

Li Nian levantou-se imediatamente e sorriu.

— Não precisa, não precisa. Fui eu quem teve preguiça de trocar.

Era um homem de estatura baixa.

A pele tinha um tom amarelado e cansado. Havia sombras escuras sob os olhos, como se passasse noites demais sem dormir ou se entregasse a excessos pouco saudáveis.

Mas seus olhos...

Seus olhos eram vivos.

Ágeis.

Afiados.

Cheios de inteligência.

Ao vê-los, Shian soube imediatamente que aquele homem era útil.

Depois que Zheng Meirong saiu, ele dispensou também os funcionários responsáveis pelo serviço de chá.

Li Nian voltou a se sentar.

— Faz um mês que você desapareceu. Pensei que finalmente tivesse desistido de Qin Nong. Mas agora vejo que encontrou um novo passatempo. Até uma mesa para praticar caligrafia apareceu no seu escritório.

Shian acomodou-se à sua frente.

— Vou ser sincero. Perdi a memória.

Li Nian não pareceu particularmente surpreso.

Apenas deu de ombros.

Aquilo agradou ainda mais Shian.

Ele tinha seus próprios motivos.

Havia muitas coisas naquele mundo que ainda desconhecia. Se procurasse novos parceiros, suas atitudes estranhas certamente despertariam suspeitas.

Com velhos conhecidos, porém, podia simplesmente dizer a verdade.

As pessoas tendiam a acreditar que alguém mudara depois de um acidente.

Jamais imaginariam que aquela pessoa era, na prática, outra.

Além disso, os relatórios mostravam que a Anlong Entertainment tivera resultados excelentes durante anos.

Li Nian claramente não era incompetente.

Acendendo outro cigarro, ele perguntou:

— Então era por isso que você sumiu. E por que me chamou?

— Quero que você transforme um novato em estrela.

Li Nian caiu na gargalhada.

— Eu sabia! Então você desistiu de Qin Nong porque encontrou um novo amor?

Shian sorriu sem graça.

— Estou falando sério. Nem sequer lembro quem é Qin Nong.

Li Nian o observou por alguns instantes e balançou a cabeça.

— Então ela teve sorte. Deveria acender incenso em agradecimento por você finalmente deixá-la em paz.

Sem saber o que seu antecessor havia feito à mulher, Shian sentiu certo constrangimento.

— Certo. Quem é o novato?

Shian abriu uma foto de Bai Yang no celular.

Era uma selfie dos dois.

Li Nian inclinou-se para olhar.

E imediatamente sorriu.

— Presidente Jin... mudou de gosto? Agora prefere homens?

As orelhas de Shian ficaram vermelhas.

— Não é isso.

— Claro, claro. Entendi perfeitamente.

O sorriso de Li Nian ficou ainda mais divertido.

— Esse garoto me parece familiar. O que ele quer fazer?

— Gosta de cantar.

Pensou por um instante.

— Na verdade, ele quer ser celebridade. Faça o que achar melhor.

Li Nian ficou observando a foto durante vários segundos.

Depois levantou os olhos.

— Nesse caso, você vai precisar gastar bastante dinheiro.

— Dinheiro não é problema. Você acha que ele não tem potencial?

Li Nian sorriu de maneira tranquila.

— Com um rosto desses? Se tivesse um mínimo de talento para cantar ou atuar, já estaria famoso há muito tempo. Não precisaria de você para me procurar.

Deu uma tragada.

— Não o conheço pessoalmente, mas pela minha experiência... esse garoto provavelmente é apenas um vaso bonito.

As palavras incomodaram Shian.

Mas ele não tinha argumentos para rebater.

Li Nian apagou a cinza do cigarro.

— Porém, na indústria do entretenimento, embora digam que fama depende do destino e sucesso depende da sorte...

Seu sorriso tornou-se significativo.

— No fim das contas, quase não existe nada que o dinheiro não consiga comprar.

Era exatamente essa frase que Shian queria ouvir.

— Quanto?

Li Nian apagou o cigarro.

— Cinquenta milhões como investimento inicial. O restante eu apresentarei conforme as necessidades surgirem.

Cinquenta milhões.

Shian fez uma rápida conta mental.

Para o Grupo Hailong, não era uma quantia absurda.

Mas a coragem de Li Nian impressionava.

Era um pedido gigantesco.

— E por que eu aprovaria cinquenta milhões?

Li Nian acendeu outro cigarro.

Através da fumaça, sorriu.

— Presidente Jin... acha mesmo que eu vou responder essa pergunta?

Shian também sorriu.

— Você é inteligente. Sabe exatamente quando deve dizer algo e quando deve permanecer em silêncio.

Li Nian soltou uma risada.

— Nos anos que nos conhecemos, você nunca me chamou de inteligente.

— O passado ficou para trás.

Shian olhou para o cinzeiro.

— Você não tem o hábito de alinhar as pontas de cigarro. Antes da minha chegada, organizou todas elas em fila para me mostrar que estava esperando há muito tempo.

Levantou os olhos.

— Eu gosto de pessoas que falam claramente.

Li Nian arregalou os olhos.

Então caiu na gargalhada.

— Impressionante. Você perdeu a memória e ganhou inteligência.

Continuou rindo.

— Certo. Já que chegamos até aqui, vou falar sem rodeios.

Quatro ou cinco anos antes, Jin Shian conhecera Qin Nong, então uma estudante universitária.

O relacionamento entre os dois seguira o roteiro clássico de um caso de patrocínio.

Para apoiá-la, Shian criara uma agência inteira dedicada exclusivamente à sua carreira.

Havia apenas uma artista na empresa.

Qin Nong.

E o agente responsável era Li Nian.

A jovem correspondia às expectativas.

Primeiro, ganhou popularidade ao interpretar a segunda protagonista de uma série de televisão.

Depois conquistou um prêmio importante de cinema.

E então sua carreira explodiu.

Quando se tornou famosa, sua relação com Li Nian começou a se deteriorar.

Ela passou a influenciar constantemente Jin Shian.

E ele, naturalmente, acreditava em tudo o que a namorada dizia.

O resultado foi previsível.

Qin Nong afastou Li Nian da empresa e abriu seu próprio estúdio.

Li Nian foi descartado.

E permaneceu três anos no esquecimento.

— Vou ser honesto — concluiu. — Se você me contratar, consigo transformar esse garoto numa estrela tão grande quanto Qin Nong. Disso não tenho dúvidas.

Seu olhar ficou mais frio.

— Mas Qin Nong me odeia. Depois de quatro ou cinco anos no topo, ela construiu conexões poderosas. Está no auge da carreira.

Ele soltou um anel de fumaça.

— Qualquer artista que eu lançar será alvo dela. E, considerando seu histórico com ela, a retaliação será ainda pior.

Fez uma pausa.

— Presidente Jin... ainda dá tempo de escolher outra pessoa.

Shian permaneceu em silêncio.

Por alguns instantes.

Então respondeu:

— Você tem certeza de que eu não vou trocar de agente.

Li Nian apenas sorriu.

Shian girou distraidamente um objeto decorativo sobre a mesa.

— Contei a você sobre minha perda de memória justamente porque não quero procurar mais ninguém.

Ergueu os olhos.

— E, pelo que você acabou de dizer, mesmo sem você, Qin Nong continuaria tentando atrapalhar qualquer artista ligado a mim.

Seu sorriso tornou-se leve.

— Nesse caso, sendo você o maior rival dela, não existe pessoa mais adequada para esse trabalho.

Li Nian bateu palmas devagar.

— Essa perda de memória realmente não foi um mau negócio. Conversar com você é muito mais fácil do que antigamente.

Então acrescentou:

— Só não entendo por que você fala de forma tão rebuscada agora.

Shian soltou uma risada resignada.

— O restante ficará a cargo da Meirong. Em outro dia você conhece Bai Yang.

Levantou-se.

— E, sinceramente, acho que ele não é tão inútil quanto você imagina.

— Espero que esteja certo.

Quando Li Nian deixou o edifício Hailong, o sol já começava a se pôr.

Durante três anos ele jamais abandonara a esperança.

Qin Nong havia destruído sua reputação.

Acusara-o de desviar dinheiro dos artistas.

Insinuara que ele se aproveitava das pessoas ao seu redor.

Na época, não tentou se defender.

Sabia que seria inútil.

Havia jovens demais sonhando em entrar no mundo do entretenimento.

Tudo o que precisava fazer era esperar.

E agora...

Ele estava de volta.

Até mesmo o patrocinador continuava sendo o mesmo.

Li Nian sentia que Jin Shian mudara completamente.

Parecia outra pessoa.

Mas isso não importava.

Também não importava se Jin Shian ainda desejava enfrentar Qin Nong.

Para Li Nian, Qin Nong não era nada.

Desde que ele próprio vivesse bem.

Desde que fosse bem-sucedido.

Desde que fosse feliz.

Então ela inevitavelmente seria infeliz.

E não havia prazer maior do que ver uma pessoa detestável se sentir miserável.

Com um sorriso satisfeito, Li Nian afundou o pé no acelerador.

E mergulhou de volta no mar de luzes e trânsito da cidade.




17 de jun. de 2026

The Trash Wants to Live — Capítulo 17

Capítulo 17

Eu era o neto mais velho, mas não exatamente o mais velho entre todos os netos.

Originalmente, essa posição deveria pertencer a Ki Sung Yoon, porém seu avô, Ki Jae Mu, o ignorava deliberadamente.

Por mais inútil que Ki Yoon Jae fosse, ele nunca manchou o nome da Sungwoon. Já Ki Sung Yoon era praticamente íntimo das páginas dos jornais.

As notícias o mencionavam apenas como “Sr. A”, mas qualquer pessoa minimamente informada logo dizia:

— Ah, foi o Ki Sung Yoon de novo.

O pai dele, Ki Young Woo, havia conquistado a antipatia de Ki Jae Mu por ultrapassar constantemente os limites da autoridade do filho mais velho.

O próprio Ki Jae Mu era o primogênito entre seus irmãos e precisou derrotá-los para assumir a presidência do grupo. Talvez as atitudes de Ki Young Woo lhe lembrassem as de seus irmãos mais novos.

De qualquer forma, eu não estava me sentindo bem.

Fiquei irritado ao ver aquele inconveniente do Ki Sung Yoon, mas fiquei ainda mais irritado ao perceber que ele havia colocado os olhos no que era meu.

— Hyung...

Hyun Seo se aproximou chorando e me abraçou com força.

Ele havia tentado proteger a irmã de um valentão. Devia ter sido difícil.

Fiquei orgulhoso por ele não ter usado seus poderes, mesmo estando agitado. Se tivesse usado, aquilo não teria terminado apenas em uma pequena confusão.

Jung Yi Joon e Kwon Jae Hyuk haviam se levantado e encaravam Ki Sung Yoon como se estivessem esperando apenas o primeiro movimento dele.

No caso de Kwon Jae Hyuk, aquilo era esperado. Mas o fato de Jung Yi Joon não ter avançado imediatamente contra alguém que claramente tinha problemas comigo parecia ser consideração para não me colocar numa situação complicada.

Pensar nisso me comoveu um pouco.

— Yoon Jae-gun. Isto é seu?

— Heut...

Ki Sung Yoon sorriu enquanto apertava o braço de Ha Eun Seo.

Não dava para saber se doía de verdade ou se ela estava apenas assustada, mas Ha Eun Seo chorava e tremia sem parar.

Essa era a maior fraqueza de sua habilidade de furtividade.

Ela não conseguia permanecer invisível enquanto estivesse tocando alguém.

Deveria ter conseguido fugir de Ki Sung Yoon, mas pareceu hesitar e acabou não escapando.

Enquanto acariciava os cabelos de Ha Hyun Seo, senti a raiva crescer diante das palavras seguintes de Ki Sung Yoon.

— Posso brincar com ela? Eu gosto dela, mas parece que ela não é barata. Já que seus subordinados não sabem reconhecer seus superiores, vou precisar educá-los.

Os olhos de Ki Sung Yoon estavam arregalados enquanto ele ria.

Ha Eun Seo era preciosa demais para ser deixada nas mãos de um lixo que exibia seus gostos nojentos tão abertamente.

Afastei Ha Hyun Seo, que continuava agarrado à minha cintura, e caminhei até Ki Sung Yoon.

— Hyung.

Segurei o pulso que prendia o braço de Ha Eun Seo.

Mantendo-o firmemente no lugar, aproximei meu rosto do dele e sussurrei:

— Vai educá-los? Por quê? Eles estão indo muito bem.

— O quê?

— Ah, é verdade. Tudo isto é meu. Eu sou o sucessor. Existe alguém acima de mim além dos adultos?

— Seu...

— Ela é preciosa demais para desperdiçar tempo com algo inferior a mim. Algo que nem sequer está no meu nível.

— Seu filho da puta!

Mantive o sorriso enquanto o encarava com desprezo.

Bêbado e claramente alterado, Ki Sung Yoon ficou furioso.

Ele soltou Ha Eun Seo e agarrou minha gola.

Mas, com a mente embriagada, tudo o que conseguiu fazer foi cuspir palavrões.

Nem sequer era capaz de rebater minhas palavras.

Enquanto o ouvia, decidi encerrar aquela confusão antes que chegasse aos ouvidos de Ki Jae Mu.

— Tal pai, tal filho. Está tentando cobiçar o que pertence aos outros sem saber qual é o seu lugar? Um imprestável que nunca está satisfeito com o que já tem.

— Seu desgraçado!

— Ki Sung Yoon. A matéria publicada em 9 de dezembro era sobre você, não era?

Juntei mentalmente as informações que havia visto no jornal com os rumores que circulavam sobre ele.

Então sorri.

— Meu tio deve ter sofrido bastante. Aquela empresa jornalística não tem nenhuma proximidade com a Sungwoon. Deve ter custado uma fortuna esconder seu nome.

Observei a expressão dele endurecer.

— Mas o que mais ele poderia fazer? Se o vovô descobrisse, você estaria acabado. Seu pai precisou gastar rios de dinheiro para salvar o filho mais velho, aquele que sonha em roubar a posição do sucessor. Estou errado?

— V-você... como sabe disso...

— O que será que meu tio está pensando? Se ele quer tirar de mim a posição de sucessor, não basta usar alguém tão medíocre quanto você. Como pretende transformar em sucessor um sujeito que não entende a própria situação e continua repetindo os mesmos erros mesmo depois de virar notícia?

A força desapareceu da mão que segurava minha gola.

Ki Sung Yoon parecia completamente atordoado.

Afastei sua mão e ajeitei minhas roupas.

Estavam amarrotadas, mas ainda apresentáveis.

— Caia na real. Como consegue agir assim diante do vovô? Você realmente perdeu o juízo.

Seu rosto ficou vermelho de vergonha e raiva.

Mantendo o sorriso, puxei Ha Eun Seo para longe dele e acenei para Ki Hyun Joo, que observava tudo à distância.

Ela suspirou e se aproximou.

— Vou embora.

— Já? Tudo bem.

Ela concordou imediatamente.

Parecia ter concluído que eu acabaria criando um problema ainda maior com Ki Sung Yoon se permanecêssemos ali.

Ha Eun Seo já havia parado de tremer.

Enquanto saíamos do salão, fiz um gesto para Jung Yi Joon.

— O quê?

— Ei. Derruba aquilo.

Jung Yi Joon entendeu na hora.

Alguns segundos depois, sorriu e acenou discretamente com a mão.

Um estrondo enorme ecoou pelo salão.

— Ai! Porra! O que foi isso?!

A voz furiosa de Ki Sung Yoon veio logo em seguida.

Quando olhei para trás, vi-o caído em cima da torre de taças de champanhe que Ki Jae Mu havia mandado montar para ostentar.

Naturalmente, o rosto de Ki Jae Mu endureceu.

Já a expressão de Ki Young Woo empalideceu ao ver o desastre causado pelo filho.

Graças a isso, Jung Yi Joon e eu deixamos o salão segurando o riso.


O carro já estava esperando quando saímos.

Depois de entrar, perguntei a Jung Yi Joon:

— O que aconteceu antes?

— Ah, aquilo? Não foi nada demais.

— O que foi?

Ele pensou um pouco antes de responder.

— Nada importante. Aquele maluco do Ki Sung Yoon passou por lá e começou a dar em cima da Ha Eun Seo. Como ela é tímida, não respondeu. Aí ele ficou irritado porque achou que ela estava ignorando ele.

— E depois?

— Quando o garoto tentou proteger a irmã, aquele louco mandou ele sumir e empurrou sua testa com um dedo. Ha Eun Seo entrou na frente do irmão. Depois disso, Kwon Jae Hyuk e eu dissemos para ele deixar as crianças em paz.

A partir daí, Ki Sung Yoon continuou importunando Ha Eun Seo.

Perguntava por que ela o ignorava se sabia falar.

Quando tentou segurá-la novamente, ela afastou sua mão.

Depois, aconteceu exatamente o que eu havia visto.

— Entendi...

Jung Yi Joon acrescentou:

— Ah, antes disso, quando Kwon Jae Hyuk tentou interferir, Ki Sung Yoon disse que um plebeu imundo não devia se meter.

— O quê?

Aquilo era absurdo.

Como ele ousava insultar as pessoas que estavam do meu lado?

Antes eu estava irritado por ele tratar uma garota daquela forma.

Agora sentia que tinha sido até gentil demais.

Como alguém incapaz de ficar sóbrio podia se achar superior por causa da própria origem?

A raiva voltou com força.

— E você?

— Hã?

— Ele não falou nada para você?

— Ah... comigo não aconteceu nada. Kwon Jae Hyuk ficou me puxando para longe o tempo todo.

Parecia que Jung Yi Joon também havia ouvido alguma coisa, mas não queria comentar.

Não insisti.

Mesmo assim, quanto mais eu pensava, mais odiava aquele idiota do Ki Sung Yoon.

Talvez eu tivesse sido gentil demais.

Por causa da presença de Ki Jae Mu, resolvi tudo discretamente.

Agora me arrependia.

Mas havia outra coisa me incomodando.

Por que Ha Eun Seo tinha tanto medo das pessoas?

Não era medo de uma pessoa específica.

Era medo de homens.

Com Ki Hyun Joo, uma mulher, ela conversava normalmente.

Tudo indicava que sofria de androfobia.

Ha Hyun Seo era o único homem com quem conseguia falar sem tremer.

Na verdade, era difícil até enxergá-lo como um homem da mesma forma que os adultos.

Talvez por isso ela não tivesse medo dele.

Eu precisava descobrir o que havia acontecido no passado.

Quando o Ki Yoon Jae original morreu...

Talvez o esfaqueamento de Ha Eun Seo estivesse relacionado à sua androfobia.

Quando o medo se acumula durante muito tempo e continua sendo reprimido, inevitavelmente chega um momento em que explode.

Sem se importar com as consequências.

No romance original não havia nada indicando que Ki Yoon Jae via Ha Eun Seo como uma mulher ou tivesse feito algo com ela.

Mas isso não significava muita coisa.

Talvez simplesmente nunca tivesse sido mencionado.

Além disso, mesmo que não tivesse feito nada diretamente, o ressentimento dela podia ter crescido por ele obrigá-la a roubar segredos de empresas concorrentes.

A androfobia de Ha Eun Seo...

E tudo o que Ki Yoon Jae fez...

Talvez tivessem contribuído para sua morte.

Deveria perguntar a Ki Hyun Joo?

Ela estava cooperando bastante ultimamente.

Mas eu ainda não sabia se podia confiar nela completamente.

Por outro lado...

Se não perguntasse a ela, a quem perguntaria?


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8 de abr. de 2026

I’m an Old Man but also a Saint — Capítulo 10

Capítulo 10

O dia da estreia pública do santo foi, para nossa irritação, agraciado com um clima perfeito.
Se existe algo como um céu azul sem nuvens, é este.

Eu havia descansado da purificação por vários dias para acumular energia sagrada, dormi bastante na noite anterior, e mesmo assim, o sol da manhã estava tão forte que precisei semicerrar os olhos.
Depois de dar um grande bocejo, fiz a barba e peguei minhas roupas.

Hoje, eu não estaria usando o uniforme habitual de cavaleiro da marinha. Em vez disso, tive que vestir um traje formal de cerimônia.

Era da mesma cor azul-marinho, mas com bordados dourados e uma capa forrada de vermelho com mais bordados combinando. Havia cordões e borlas douradas, além de uma espada lindamente embainhada. Quando eu terminasse de vestir tudo, provavelmente estaria brilhando como uma boneca decorada.

Até um senhor de idade pode ficar elegante de roupa formal, eu acho.

Espero que isso me ajude a me misturar melhor com a multidão.

Vesti a camisa, depois as calças e, por fim, o casaco, antes de me concentrar nos acessórios. Como não tinha ideia de como o look final deveria ficar, não fazia ideia de onde metade daquelas coisas deveria ir.

E para piorar tudo, eu nunca tinha usado uma espada na cintura antes.

Na aldeia, eu ia caçar com frequência, mas usava arco e lança. A única faca que eu carregava era uma pequena presa às minhas costas, e isso não é exatamente a mesma coisa que uma espada.

Enquanto eu arrumava os acessórios na cama, tentando decidir o que fazer, Veerant apareceu.

Ele já estava vestido com traje formal, o que o deixava 20% mais deslumbrante do que o normal.

Mesmo sem poder sagrado, ele irradiava uma luz própria.

Ao lado de Emilia, com suas vestes brancas e puras, ele provavelmente pareceria ainda mais divino.

"Posso te ajudar com isso?", ofereceu ele.

"Ah, é, sim... por favor", respondi, percebendo de repente que estava encarando-o. Desviei o olhar, sentindo-me um pouco envergonhada.

Quando uma pessoa bonita se veste bem, ela exerce um tipo estranho de magnetismo.

Durante a cerimônia de hoje, provavelmente a maior parte da atenção estará voltada para Veerant e Emilia. Posso praticamente imaginar todos os olhares atraídos para eles, como mariposas atraídas pela chama.

Como um cara comum ali do lado deles, seria um alívio não ser o centro das atenções. Eu só podia esperar que eles continuassem monopolizando os holofotes.

Enquanto eu estava perdido nesses pensamentos irrelevantes, Veerant rapidamente começou a trabalhar na minha roupa. Ele prendeu os cordões trançados no meu ombro, colocou os pingentes decorativos e fechou o fecho dourado da capa. Afinal, o fecho dourado servia para prender a capa.

Mesmo observando-o atentamente, duvidei que conseguiria me vestir assim sozinho.

Tomara que não haja uma próxima vez.

Assim que todos os acessórios estavam no lugar e a espada pendurada na minha cintura, Veerant estendeu a mão para o meu cabelo.

Eu já tinha verificado se o cabelo estava despenteado, mas aparentemente isso não foi suficiente.

"Tecnicamente, isso é algo que um cabeleireiro profissional deveria fazer", disse ele, enquanto escovava meu cabelo e aplicava um produto modelador.

Imagino que usar o uniforme dos cavaleiros pessoais do Santo significava que eu também tinha que me vestir como tal.

Deve ser um transtorno.

A maneira delicada e cuidadosa com que Veerant arrumou meu cabelo foi surpreendentemente reconfortante, e logo suas mãos se afastaram.

No espelho, vi uma versão de mim mesmo que parecia cerca de 50% mais apresentável.

Graças às roupas e ao cabelo, passei de um velho acabado para pelo menos um homem apresentável.

De longe, eu poderia até ser confundido com um cavaleiro.

O poder da roupa formal é verdadeiramente notável.

Enquanto agradecia a Veerant, ouvi o som de aplausos estrondosos vindos de fora.

Chegou a hora do desfile começar.

O desfile começou com uma banda marcial, seguida por fileiras de cavaleiros em uniformes brancos. Eles se pareciam muito com o uniforme que Veerant costumava usar, provavelmente com a única diferença de que estas eram versões formais.

Embora suas vestimentas não fossem tão ornamentadas quanto as nossas, o tecido branco brilhante era quase ofuscante sob a luz do sol.

Em seguida, vinham os cavaleiros pessoais do santo, vestidos com as mesmas roupas formais azul-marinho que eu usava.

Na frente ia Zildo, o antigo chefe dos cavaleiros do antigo Santo. Todos os cavaleiros, exceto eu e Veerant, estavam montados a cavalo, formando uma formação protetora ao redor da carruagem.

Não pude deixar de me perguntar quanta prática eles precisaram para sincronizar seus movimentos com tanta perfeição.

Esses caras são realmente impressionantes.

Enquanto eu admirava a habilidade deles, a carruagem em que estávamos começou a se mover lentamente.

Diante de mim, Emilia enrijeceu, seus ombros tremendo levemente enquanto ela apertava as mãos no colo.

Ela estava visivelmente nervosa.

"Você está bem?", perguntei.

"Sim—Zeph-sama, estou bem... Só um pouco nervosa."

"Não se esforce demais. Apenas sorria e acene, isso deve ser o suficiente. ...Embora, eu imagine que os cavaleiros assustadores possam te repreender por isso."

"...Não estou zangado. Estou apenas surpreso que tais palavras tenham vindo de você, Zeph."

"Viu? Assustador, né?" Dei de ombros ao ver a carranca de Veerant, o que fez Emilia rir baixinho.

Sua tiara dourada tilintava, captando a luz do sol e fazendo seu traje branco imaculado brilhar como se ela própria irradiasse luz.

A cor havia retornado às suas bochechas pálidas, e seu sorriso era tão encantador que a multidão abaixo ficou em silêncio extasiado.

...É realmente um mistério por que Deus me escolheu para ser a santa em vez dela.

Após dar uma volta completa ao redor da capital, a carruagem finalmente chegou de volta à praça em frente ao templo.

A praça ficava a meio caminho da grande avenida que partia diretamente do templo. Grandes colunas de pedra, cada uma larga o suficiente para duas pessoas abraçarem, alinhavam-se no perímetro, e entalhes intrincados decoravam suas superfícies.

Mas o elemento mais marcante da praça era, sem dúvida, a torre de alabastro no seu centro.

Era uma torre de três andares com um design tão elegante que parecia saído de um conto de fadas, com seu topo cônico aparentemente recortado. Até mesmo o telhado comportava pelo menos vinte pessoas, dando uma ideia da imensidão da estrutura.

No topo da torre erguia-se uma estátua branca radiante da divindade, com o olhar voltado para o céu.

Diante daquela estátua, Emilia ajoelhou-se enquanto doze cavaleiros, incluindo eu, formavam um círculo protetor ao seu redor, e o solene ritual teve início.

Na praça silenciosa, a voz de Emilia ecoou, clara e melodiosa como o toque de um sino.

Até o vento parecia escutar, hipnotizado pelas palavras sagradas que ela proferia.

Apesar da grande multidão, a praça permaneceu estranhamente silenciosa enquanto eu também recitava suavemente os versos sagrados, entrelaçando meu poder sagrado.

Imaginei-a como uma teia de aranha, com fios estendendo-se em todas as direções, e então tecendo mais fios através deles. Repetindo esse processo, teci uma rede delicada, derramando nela generosamente meu poder sagrado, cobrindo toda a capital sem deixar uma única brecha.

Com tudo pronto, o ritual chegou ao fim.

Uma prece aos deuses.
A purificação da capital.
E a bênção do povo.

Realizei tudo de uma vez, o que me deixou completamente sem energia sagrada. Mas parece que tudo correu bem.

Olhando para a praça, pude ver que tudo brilhava como se estivesse banhado por uma luz suave, a bênção fazendo sua mágica.

Graças a isso, as pessoas estariam protegidas de monstros e provavelmente permaneceriam livres de doenças ou ferimentos por algum tempo.

Quando Emilia se levantou lentamente, uma estrondosa salva de palmas e vivas irrompeu da multidão.

Ela se virou para mim com um sorriso de alívio, e eu não pude deixar de sorrir de volta.

Ela estivera tensa o tempo todo, mas parecia que tudo tinha corrido sem problemas.

Seguindo o exemplo dela, avancei até a beira da torre e olhei para o mar de gente.

"Viva o Santo!"

Os aplausos e vivas da multidão irromperam como ondas, espalhando-se em ondulações pela praça.

Rostos cheios de entusiasmo, corados de alegria e sorrisos de orelha a orelha.

Pessoas, pessoas, pessoas, todas elas envoltas na luz cintilante da bênção, acenando e balançando de felicidade.

Os aplausos eram tão altos que pareciam fazer o chão tremer, ecoando nos meus ouvidos como um tambor.

—Espere, o quê?

Em meio ao turbilhão de entusiasmo, notei algo estranho por puro acaso.

Uma pequena lacuna na bênção que deveria ter coberto tudo como uma rede.

Como uma mancha de tinta derramada em uma página branca, ou um buraco em uma peça de roupa.

A sensação era sinistra, perturbadora e, instintivamente, me encheu de pavor.

No instante em que voltei minha atenção para aquele lugar estranho, algo saltou dali.

E estava indo direto para Emilia, que sorria e acenava inocentemente.

Sem pensar, meu corpo se moveu.

Agarrei o braço de Emilia e puxei-a para perto, protegendo-a com meu corpo.

Nesse mesmo instante, uma dor aguda irradiou pelas minhas costas, seguida por uma sensação de queimação em vez de dor.

Seja lá o que tenha sido lançado, perfurou minha capa e uniforme, penetrando profundamente em minha carne.

Se tivesse atingido Emilia, ela certamente não teria saído ilesa.

"...!"

"Santo-sama!"

Emilia deu um suspiro de espanto, e Veerant gritou alarmado.

Mesmo eu tendo pedido para ele me chamar pelo nome, e ele finalmente tendo começado a fazer isso recentemente, acho que o pânico o fez esquecer.

Lancei-lhe um olhar, dizendo-lhe silenciosamente para ficar onde estava, e soltei Emilia delicadamente.

Ela estava tremendo, com o rosto pálido como um lençol, mas parecia que não havia se machucado.

Aquela presença sinistra havia desaparecido, e parecia que o perigo tinha passado.

Essa foi por pouco.

"Estou bem. Continue sorrindo", sussurrei com um sorriso forçado, antes de me virar silenciosamente.

Ninguém poderia saber que o santo havia sido alvo de um ataque durante a cerimônia pública.

Ninguém podia ver o sangue derramado neste lugar sagrado.

Endireitei as costas e caminhei calmamente até desaparecer da vista da multidão.

Só então minhas pernas cederam e eu desabei, com o corpo todo dormente devido à lesão que se espalhou pelas minhas costas.

Eu não conseguia mais ficar de pé.

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Today's Dinner is the Hero Vol.02 - Capitulo 08

Capítulo 08 : O Gênio Número Um do Mundo Demoníaco

Agradeci ao Raizen e me dirigi até o Azel.

O Azel, sentado no sofá, batia palmas ao lado dele silenciosamente, um jeito bem indireto de dizer "senta aqui".

Como isso acontece todo dia, já estou acostumado. Pelo que percebo, ele provavelmente tem algum motivo para não me chamar normalmente.

"Posso fazer a pausa com você hoje também?"
"Tanto faz. Não precisa perguntar toda vez, é só sentar e descansar à vontade. Fufu, fufufu. Fu fu fu."

Quando me sentei ao lado do Azel, que batia palmas, ele sorriu satisfeito, claramente contente, e começou a cantarolar animado.

Parece que hoje ele está de bom humor.

Na minha visão, o Azel está de bom humor na maioria das vezes, e isso me deixa feliz também.

Posso até ser repreendido, mas ele é adorável como um filhote de cachorro. Meu coração de amante de animais se agita.

"Pois é. Então vamos tomar um chá juntos."

Com o coração leve, tirei três biscoitos da cesta e entreguei ao Azel. Um deles é para o Raizen.

"Hoje vendi mais do que o normal. Então só sobrou um."
"Que droga... É mesmo... Seus doces estão fazendo sucesso, isso é bom."

Apesar da notícia boa, por algum motivo o Azel pareceu visivelmente abatido, contradizendo suas próprias palavras.

O Azel sempre compra uma reserva e tudo o que sobra.

Como ele é meu dono e eu sou seu gado, parece que ele se responsabiliza por essas coisas também.

Eu tomo cuidado para não fazer doces demais, mas se não encontrar ninguém para vender, acaba sobrando.

Então é uma ajuda enorme ele comprar o que sobra.

Naturalmente, quem mais come meus doces é o Azel, então quero fazer os doces que ele mais gosta.

Claro que não há outro motivo para isso, certo?

É só que, de alguma forma, acabo pensando nos doces imaginando o Azel dizendo que estão gostosos.

"Grrrr... Se eu comprar por dez vezes o preço... Não, mas ele gosta de trabalhar, que hábito estranho... Então se eu comprar tudo, seria uma mesada legítima...? Não, não, se ele juntar dinheiro, outros demônios vão desconfiar... Eu também não posso aprovar ele se tornar independente..."

"O que foi, Azel?"
"Isso, não é como se eu fosse prendê-lo, tá? É porque ele é meu gado, não posso deixar minhas coisas se tornarem independentes...!"
"Azel, com quem você está se explicando? E quem você vai prender?"
"Ah!"

Chamei o Azel, que estava murmurando palavras misteriosas enquanto fitava o biscoito que recebera com um olhar fixo, mas ao mesmo tempo vago.

Ah, finalmente ele parece ter voltado a si. Ele estava falando em comprar tudo e em coisas legítimas, talvez fosse sobre trabalho.

"N-n-nada não!" ele disse, claramente nervoso, e sem acrescentar mais nada, guardou um dos biscoitos com magia de invocação.

Ao ver isso, me lembrei novamente. É... como eu queria essa magia de invocação.

Não dá para colocar seres vivos, mas com isso não precisaria carregar a cesta por aí. É muito conveniente.

Não para o tempo, mas como não há seres vivos ou seja, fungos ou bactérias a deterioração é mais lenta. A temperatura também se mantém constante em temperatura ambiente. O espaço depende da quantidade de poder mágico.

Aliás, essas informações eu descobri há pouco, na base da força aérea.

Quando Gad soube que eu aprenderia magia com Olga, ele e os outros dois vieram me contar tudo, tipo "ei, ouve só isso!".

Pareciam crianças loucas para contar algo que sabiam.

Os demônios podem não ter muito senso de leitura do ambiente ou tato, mas basicamente são sinceros e falam logo o que pensam, seja bom ou ruim.

Para mim, que tendo a interpretar as coisas ao pé da letra, eles foram como uma maravilhosa enciclopédia humana que me ajudou muito.

Mas vamos voltar ao assunto.

Com tudo isso, para aprender magia de invocação, comecei a cutucar o braço do Azel.

"Azel, Azel."
"Ahf!?"
"Se possível, você poderia liberar um pouco a coleira de selamento mágico? Eu quero aprender magia de invocação."
"O quê! Isso é...! Hum... não... Ughhh... tudo bem, só por hoje, viu? Aprende logo."

Eu não sabia se ele deixaria, mas depois de alguma hesitação, ele permitiu surpreendentemente fácil.

Quando Azel cutucou a gema presa na minha coleira, fez um som como de um sino tilintando.

Com uma expressão de quem não estava nada satisfeito, ele disse que assim eu poderia usar um pouco de poder mágico.

Depois, ergueu o dedo indicador e o balançou como se estivesse me ensinando algo importante.

"Beleza? Com magia de invocação, pra fazer algo aparecer, você pensa 'queria que aparecesse aquilo' e estala os dedos ou faz qualquer gesto. Pra guardar alguma coisa, você toca no objeto e pensa 'vou guardar isso'. Tá, tenta aí."
"Entendo. Certo... Não deu."

Mais um gênio nato.

Eu resolvi tentar ingenuamente, do jeito que ele mandou, tocando na cesta enquanto pensava em guardá-la.

Mas, como era de se esperar, a cesta continuava ali. É. Falta de prática.

Azel pareceu tão confuso que dava vontade de gritar "Como assim não conseguiu!?", totalmente sem entender.

E então começou a inspecionar minha mão de um lado para o outro. Não é a mão que é diferente, é o potencial.

Eu sou um herói, mas não sou um isekai cheat que consegue fazer tudo instantaneamente por causa de bônus.

Sou completamente normal.

Se forçar a dizer, tenho um pouco mais de potencial e só tive um crescimento mais rápido que os outros.

Estudei e treinei neste mundo com muito esforço árduo. Sou aquele tipo de herói sem talento que consegue tudo na base do esforço.

Se for para citar algo incomum... hum... deixa ver... Ah, sim.

Ser facilmente querido por monstros e demônios sugadores de sangue não é por causa do meu sangue, mas sim por causa da minha natureza.

... É. Só isso mesmo. Não há muitas coisas boas.

"Sharu-san... As artes marciais e a esgrima do Rei Demônio são frutos de um esforço incansável. Mas quando se trata de magia, ele é do tipo que sempre se virou com talento, então é melhor ignorar o que ele diz. Qualquer magia nova, se for magia, ele domina em segundos. Sério."
"Eu sabia."
"Ei, não ignora o que eu tô falando!"

Enquanto estava sentado no assento oposto, o Raizen falou com uma expressão conformada.

Clink, uma xícara de chá perfumado foi colocada na frente de cada um, e eu concordei balançando a cabeça.

O Azel continuava segurando minha mão que ele inspecionava e protestou contra a declaração de ignorá-lo.

O Azel, claramente ofendido, recebeu um olhar desconfiado do Raizen.

"Atributo das trevas, que tem boa compatibilidade com o poder das trevas do mundo demoníaco, e uma quantidade imensa de poder mágico. Além disso, tem olhos mágicos que funcionam sem truques. Graças a isso, não tive absolutamente nada a ensinar a ele sobre magia."

O Raizen, com um tom de cansado, provavelmente era do tipo oposto, um estudioso exemplar.

Azel virou o rosto, emburrado. Parece que ele percebeu que não sabe ensinar algo que nunca aprendeu formalmente.

Ao vê-los, achei que pareciam pai e filho, e fiquei um pouco enternecido.

O mundo demoníaco é realmente tranquilo.