22 de jun. de 2026

My Brother's Spring - Capítulo 07

Capítulo 07

Mães sempre gostam de ouvir elogios sobre os próprios filhos.

Especialmente quando um ator tão bonito quanto Xiao Cheng, com um olhar sincero, elogiava seus dois filhos. Isso a deixava ainda mais satisfeita.

Por isso, a mãe de Wei não se importou nem um pouco em entregar todas as informações sobre Wei Zizhen de bandeja¹, saindo dali extremamente feliz.

Afinal, não era apenas idolatria de fã?

Tendo passado décadas ao lado do marido no mundo dos negócios, ela acreditava possuir um olhar bastante apurado para julgar pessoas.

Xiao Cheng era um jovem bonito, educado e sensato. Apesar de falar pouco, cada frase que dizia era agradável de ouvir. Sua postura e aparência também eram impecáveis; bastava olhar para perceber que não parecia ser alguém de má índole.

Observando o quarto de Wei Zizhen, coberto de pôsteres e fotos promocionais de Xiao Cheng, ela concluiu que não havia problema algum naquilo.

Isso mesmo, problema nenhum!

Era muito melhor do que deixar Wei Zizhen andando por aí com aquele grupo de moleques encrenqueiros.

Ao pensar nisso, a mãe de Wei passou a gostar ainda mais de Xiao Cheng.

...

Wei Zizhen sentia-se um pouco solitário.

Porque seus amigos não estavam dando atenção a ele.

Olhando para a pasta contendo o projeto sobre sua mesa e conferindo as horas, decidiu primeiro ir ao refeitório encher a barriga antes de voltar ao trabalho.

A Weicheng oferecia benefícios excelentes: café da manhã, almoço e alojamento incluídos. Em datas comemorativas, a empresa também organizava eventos e distribuía prêmios.

Embora horas extras fossem frequentes, a empresa também fornecia jantar e ceia nesses dias.

O refeitório terceirizado da Weicheng era famoso. Funcionários de outras empresas do mesmo prédio frequentemente subiam até lá para comer era barato, farto e saboroso.

Benefícios tão bons eram raros até mesmo em toda a cidade B, por isso os funcionários trabalhavam com bastante dedicação.

Claro, essas políticas de bem-estar não tinham sido criadas pela cabeça de Wei Zizhen.

Quem pensou em tudo isso foi seu irmão mais velho.

Seu irmão biológico, Wei Ziming, praticamente ensinou o irmãozinho incompetente passo a passo a administrar uma empresa. Além disso, transferiu vários funcionários talentosos para ajudá-lo.

Na época, Wei Zizhen sequer havia se formado na universidade. Era um completo novato e não entendia nada de gestão. Sem benefícios atrativos e salários competitivos, certamente não conseguiria manter bons funcionários.

Seu irmão mais velho realmente se preocupou demais com ele.

Mas essa preocupação já havia diminuído bastante.

Afinal, Wei Zizhen era irmão de Wei Ziming. Seu talento era excelente e, atualmente, mesmo que fosse deixado à própria sorte, dificilmente causaria algum desastre.

Mantendo uma expressão indiferente, Wei Zizhen entrou no refeitório.

Após cumprimentar com um aceno os funcionários que olharam em sua direção, pegou alguns pequenos bolos de creme e sentou-se em um canto.

Isso mesmo.

O presidente "peixe-salgado"² Wei Zizhen não era apenas um fã otaku³ ingênuo e apaixonado por seu ídolo.

Ele também era completamente viciado em doces.

Essa característica era incrivelmente feminina.

Sem admitir que possuía qualquer traço de "garota", Wei Zizhen continuou devorando seu prato de sobremesas com uma expressão fria e elegante. Em seguida, foi até a área de bebidas buscar um milk-shake de baunilha.

Você já viu uma garota tão fria, bonita e incrivelmente charmosa assim?

Wei Zizhen soltou uma risadinha.

Talvez por já ser hora do almoço, seus amigos finalmente terminaram o trabalho e começaram a aparecer no grupo de mensagens um após o outro.

Cueca Gigante da Sala ao Lado:
Ai meu Deus, Wei Zizhen! Então você finalmente vai partir para o ataque??

Não Existe Gente Boa na Europa:
Lembro de alguém dizendo que sua admiração por Xiao Cheng era totalmente pura e inocente.

Cachorro Inútil:
Garoto, quer que eu compre uns suplementos para os rins pra você??⁴

Pepino-do-Mar:
+1 para o Cachorro. Papai está preocupado com você, filho.

Wei Zizhen olhou para as mensagens e pousou calmamente o copo cheio de milk-shake sobre a mesa.

ZizhenZhenZhen:
VOCÊS SÃO MUITO VULGARES!!!

ZizhenZhenZhen:
Existe alguma coisa nessa cabeça de vocês além de pensamentos pervertidos?!

ZizhenZhenZhen:
Quantas vezes preciso repetir? Meu deus masculino só pode ser admirado à distância, não profanado!⁵

Não Existe Gente Boa na Europa:
🙄🙄

Cachorro Inútil:
Ah, para! Você não queria "pegar" o Xiao Cheng? Então por que disse que ele seria seu?

Vulgares!

Wei Zizhen ergueu os olhos para observar o ambiente ao redor.

Terminou o milk-shake de uma vez só e deixou o refeitório mantendo sua imagem impecável de executivo inalcançável.

Ao mesmo tempo, baixou os olhos com uma expressão séria, como se estivesse refletindo sobre assuntos importantes, enquanto digitava furiosamente no celular.

ZizhenZhenZhen:
Quem diabos disse que eu quero transar com o Xiao Cheng?!

Pepino-do-Mar:
Se não quer transar com ele, então quer fazer o quê?

ZizhenZhenZhen:
Criança inocente... eu posso sustentar ele!⁶

Cueca Gigante da Sala ao Lado:
??? ??? ???

De volta ao escritório, Wei Zizhen se encolheu no sofá e contou aos amigos sobre o projeto que seu irmão havia lhe entregado.

Também declarou, extremamente animado, que acreditava que um plano elaborado pessoalmente por Wei Ziming tinha pelo menos sessenta por cento de chance de sucesso.

Todos conheciam as capacidades de Wei Ziming.

Portanto, ninguém duvidou dessa afirmação.



Notas

¹ "entrega alguém de bandeja" (卖了个干净) — expressão chinesa usada de forma humorística para indicar que a mãe contou tudo sobre o filho, sem esconder nada.

² Peixe-salgado (咸鱼) — gíria chinesa para alguém acomodado, sem grandes ambições, mas não necessariamente incompetente.

³ Otaku (死宅) — pessoa extremamente caseira e obcecada por hobbies específicos, semelhante ao uso japonês do termo.

⁴ Suplemento para os rins (肾宝) — referência humorística a produtos chineses associados ao aumento da vitalidade masculina e desempenho sexual.

⁵ "Só pode ser admirado à distância, não profanado" (只可远观不可亵玩) — adaptação de uma famosa frase da literatura chinesa sobre algo belo e puro que deve ser contemplado, não possuído.

⁶ "Posso sustentar ele" (养他) — expressão comum em romances chineses. Significa assumir financeiramente os cuidados de alguém, como um "patrocinador" ou "provedor", e não necessariamente envolve relacionamento amoroso. Aqui é usada de forma cômica para demonstrar a idolatria extrema de Wei Zizhen.


A Round Trip To Love Vol. 04 - Capítulo 11

 Capítulo 11

Uma freada brusca interrompeu o carro, e todas as minhas lembranças foram arrancadas de uma vez.

Enquanto esfregava a testa que havia batido no banco da frente, reclamei:

— Xiaolu, você dirige cada vez mais como uma maluca! Parece que, nesses dois anos, o Shen Chao não conseguiu te educar direito...

— Qin Lang, você continua exatamente o mesmo! — Shen Chao me agarrou pelo colarinho e começou a me arrastar para fora do carro. — Chegamos! Anda logo e vem comer alguma coisa! Quando sua boca estiver ocupada, você para de falar besteira!

Fazia quase dois anos que eu não voltava. Tudo parecia novo para mim.

Pedi tantos pratos que até o garçom não aguentou mais e nos lembrou gentilmente:

— Senhor, esses pratos já são mais do que suficientes para três pessoas.

— Não, não é suficiente! — balancei a cabeça enquanto observava a reação de Shen Chao. — Afinal, alguém aqui vai pagar a conta... Para me fazer calar a boca, é preciso pagar um preço.

A mesa ficou coberta de comida, o suficiente para alimentar umas dez pessoas.

Shen Chao não parava de colocar comida no meu prato. Parecia determinado a não me deixar sair dali enquanto eu não acabasse com tudo.

Lancei um olhar suplicante para Su Xiaolu.

Ela simplesmente pegou um espelhinho, começou a arrumar as sobrancelhas e retocar a maquiagem, fingindo que eu não existia.

— Seu pestinha, como foram esses dois anos? — perguntou Shen Chao.

Talvez ele tenha concluído que me fazer morrer de tanto comer e ainda ter de pagar um caixão não seria um bom negócio. Então recostou-se na cadeira e finalmente decidiu me poupar.

— Muito bem! Comi bem, vivi bem e aprendi bastante coisa! — respondi rapidamente, largando os hashis e soltando um suspiro de alívio.

— E... no amor?

Ele se inclinou para a frente.

— Muito bem também. Tinha um monte de garotas correndo atrás de mim.

Continuei sorrindo despreocupadamente.

Mas ele continuava me encarando.

Sem pensar muito, tirei um álbum de fotografias.

— Olha só! Essas são as garotas que conheci no Japão. Essa aqui não parece um pouco com a sua Eriko? O corpo dela é fantástico. E essa outra...

Comecei a apresentar minhas "conquistas" dos últimos dois anos, página após página.

Mas, surpreendentemente, Shen Chao, que sempre teve um olhar apurado para garotas bonitas, apenas folheava as páginas às pressas.

Claramente estava fingindo interesse.

Ah...

Homens apaixonados são um caso perdido.

Bastava olhar para ele para perceber que Su Xiaolu o tinha completamente na palma da mão.

— Cara, você regrediu muito.

Suspirei e puxei o álbum de volta.

Shen Chao hesitou por um momento antes de dizer:

— Qin Lang... há algum tempo eu encontrei Xiao Chen.

— Ah, é? — respondi enquanto guardava o álbum. — Como ele está? Da próxima vez que o vir, mande lembranças por mim.

— Ele está bem. Parecia estar bem mesmo. Ah, e havia um homem ao lado dele... sobrenome Lu, eu acho. Os dois pareciam bem próximos.

Sobrenome Lu?

Não me diga que Lu Feng tinha voltado.

Desapareceu por seis anos e agora retornou para reatar o romance?

E ainda conseguiu fazer Xiao Chen parecer tão feliz?

Esse sujeito realmente era um herói entre os homens.

Minha admiração.

Quando tivesse oportunidade, precisaria pedir umas aulas para ele.

— Qin Lang — disse Su Xiaolu, que até então apenas observava nossa conversa sorrindo. — Então quando você vai visitar Yi Chen?

— Quando tiver tempo.

Sorri.

— Estou bem ocupado desta vez.

Espreguicei-me longamente.

— Certo, obrigado pelo jantar. Já está tarde e eu também estou cansado. Vou descansar primeiro. Outro dia marcamos algo e conversamos melhor. Não precisam me acompanhar, eu pego um táxi sozinho.

— Mas, Qin Lang...

Shen Chao ainda queria dizer alguma coisa.

Su Xiaolu o puxou imediatamente.

— Tudo bem. Vá descansar primeiro. Depois eu te ligo.

— Xiaolu, você está cada vez mais compreensiva. Não é só o Shen Chao... até eu estou quase me apaixonando por você.

Pisquei para ela.

Depois saí, parei um táxi e entrei.



"Ocupado?"

Assim que escapei dos olhares deles, soltei uma risada amarga.

Sim.

Eu estava ocupado.

Mas não aqui.

No Japão.

Quando a empresa estava atolada de trabalho, forcei meu pai a me dar quinze dias de férias.

Disse que queria voltar para Xiamen para visitar minha mãe.

Mas Deus sabe por que eu realmente tinha voltado.

Eu estava enlouquecendo de saudade.

Quando aquelas lindas garotas japonesas, coradas e tímidas, me diziam:

"Qin Lang, eu te amo."

Eu sempre as abraçava impulsivamente.

E logo depois as soltava, decepcionado.

Porque não era aquela frase.

Nem era aquela pessoa.

Quem disse que o tempo cura tudo estava falando a maior besteira do mundo.

Eu só queria correr até ele e trocar aqueles dois anos da minha vida por dinheiro vivo.

As garotas da empresa já haviam desistido completamente de mim.

Porque quase todo mundo sabia que o filho sorridente do presidente da empresa, Qin Lang, era na verdade um jovem sofrendo de uma paixão incurável.

Quando não estava trabalhando, a coisa que mais fazia era procurar CDs raros e esgotados.

Depois os enviava, um por um, para uma cidade da China chamada Xiamen.

Quando encontrei Su Xiaolu mais cedo, não tive coragem de perguntar se Yi Chen havia recebido aqueles CDs.

Porque eu já havia dito a ela:

"Se ele quiser rejeitá-los, mesmo que jogue tudo no lixo, por favor não me conte."

Eu já não tinha mais coragem de encarar a verdade.

— Quem realmente regrediu fui eu, Shen Chao...

Murmurei baixinho para a janela do táxi.


Quando eu estudava em Xiamen¹, achava aquela cidade tranquila demais.

Para alguém tão agitado quanto eu, tudo o que eu queria era voar para algum lugar mais movimentado.

Mas agora, depois de voltar da agitação luxuosa de Tóquio, aquele lugar me parecia estranhamente acolhedor.

Su Xiaolu e Shen Chao tiraram bastante tempo para passear comigo pela Estrada da Ilha, dirigindo sem rumo, tirando fotos e se divertindo.

Mas, por trás de toda aquela animação, havia uma tristeza cada vez mais difícil de esconder.

Su Xiaolu já tinha me perguntado inúmeras vezes:

— Qin Lang, quando você vai visitar Yi Chen?

Eu sempre respondia com risadas:

— Calma, ainda não é hora.

Até que ela finalmente desistiu de perguntar.

Limitava-se a observar meu olhar perdido e suspirar baixinho.

Eu não tinha coragem de ir.

Nem sequer tinha coragem de perguntar qual seria a reação dele ao descobrir que eu havia voltado.

Será que ele ainda estava bravo comigo por causa de Xiao Chen?

Será que ainda não tinha me perdoado pela forma grosseira como o tratei naquela ocasião?

Quando percebi, metade das minhas férias já havia passado.

E eu continuava apenas rondando as proximidades da Universidade de Xiamen.




Naquele dia, Shen Chao acompanhou Su Xiaolu a uma entrevista.

Nosso encontro, marcado para as quatro da tarde, foi adiado para as seis.

Enquanto dizia ao telefone:

— Relaxa, cara. Não é a primeira vez que fico sozinho por aqui. Vá cuidar da sua esposa.

Olhei ao redor e empurrei a porta de uma cafeteria chamada Maya, decidido a matar aquelas duas horas.

Meu café ainda nem havia chegado quando alguém tocou levemente meu ombro.

Então ouvi uma voz incrédula:

— Qin Lang?

Virei a cabeça imediatamente.

— Xiao Chen?! É você?

— Quando você voltou? Eu nem sabia!

Ele sorria.

Aquele sorriso mostrava claramente que havia deixado para trás toda a escuridão de antigamente.

— Meu irmão sabe que você voltou? Ele não comentou nada.

Sorri sem graça.

Ainda não sabia como responder.

Mas uma voz nada amigável surgiu ao lado dele:

— Xiao Chen, quem é esse cara?

Quem eu sou?

Precisa mesmo de uma apresentação especial?

Virei a cabeça.

Ao lado de Xiao Chen estava um homem bonito, de testa franzida, me encarando como se eu fosse um criminoso.

Droga.

Por que está me olhando assim?

Yi Chen me encarava daquele jeito e eu até relevava.

Mas quem era esse sujeito para entrar na brincadeira?

Bati na mesa e me preparei para levantar.

Então, de repente, tudo fez sentido.

Ah...

Então esse era ele.




Meu rosto mudou instantaneamente.

— Hehe...

Abri um sorriso cheio de afeto.

A mão que antes estava prestes a bater na mesa agora deslizou suavemente até a mão de Xiao Chen.

— Xiao Chen, como você tem passado nesses dois anos? Eu senti muito a sua falta.

Como esperado.

O homem ao lado dele imediatamente ficou furioso.

Os olhos quase soltavam fogo.

Sua expressão ficou tão sombria que parecia querer arrancar minha mão ali mesmo.

Ah...

Que falta de autocontrole.

E ainda por cima tão agressivo.

Será que ele não sabia que precisava ser gentil diante da pessoa amada?

Eu tinha admirado esse lendário Lu Feng por tanto tempo...

Agora parecia que apenas Xiao Chen, com seu coração puro, era capaz de gostar de alguém assim.



— Sério? — Xiao Chen sorriu.

Claramente já tinha percebido minhas intenções.

— Daqui a alguns dias vou visitar Yi Chen. Pode deixar que vou repetir cada uma dessas palavras para ele.

Antes mesmo de terminar a frase, retirei minha mão.

Ao mesmo tempo, a expressão de Lu Feng finalmente relaxou.

E ele passou a me observar com um sorriso de pura satisfação.

Que droga.

Desde quando Xiao Chen tinha ficado tão malicioso?

Ainda bem que, dois anos atrás, ele era gentil e educado.

Caso contrário, eu teria sido torturado vivo pelos dois irmãos.




Xiao Chen suspirou.

— Qin Lang... quando tiver tempo, vá ver Yi Chen.

Seu semblante ficou sério.

— Depois que você foi embora, ele passou por momentos muito difíceis. Emagreceu bastante.

Olhei para as mãos dos dois.

Estavam entrelaçadas firmemente.

Uma dor enorme subiu pelo meu peito.

— Obrigado, Xiao Chen.

Levantei-me.

— Eu vou.

Ele assentiu.

Lu Feng me lançou um último olhar antes de arrastar Xiao Chen para longe.

Ainda consegui ouvi-lo resmungando:

— Então era esse garoto...? Sério mesmo?




Droga.

Eu sou tão ruim assim?

Se eu realmente quisesse disputar Xiao Chen com você, duvido que estivesse tão tranquilo agora.

Continue me provocando e eu conto todos os detalhes das vezes em que abracei Xiao Chen naquela época.

Cuspi no chão, irritado.

Mas, ao mesmo tempo...

Ver Xiao Chen feliz me deixou genuinamente feliz.

O jeito protetor de Lu Feng mostrava que desta vez ele realmente o valorizava.

Se até Lu Feng pôde ser perdoado...

Então eu...




De repente, uma onda de impulso tomou conta de mim.

Eu precisava ver Yi Chen.

Precisava vê-lo imediatamente.

Joguei dinheiro sobre a mesa e saí correndo da cafeteria.


Era justamente o horário em que a última aula da tarde havia terminado.

Os estudantes circulavam pelo campus com expressões de alívio estampadas no rosto.

Ao vê-los, não pude deixar de sorrir.

Afinal, poucos anos atrás eu também fazia parte daquele grupo.

Em frente ao prédio do curso de Arquitetura havia bem menos movimento.

Talvez porque estudantes de arquitetura, acostumados a desenhar até quase desmaiar, não tivessem muita noção de horário para sair da aula.

Olhei para o relógio.

Não sabia se Yi Chen ainda estava na sala.

Liguei o som do carro.

A voz de Wheesung cantando "It Is Real" ecoou pelos alto-falantes.

Imediatamente me lembrei da primeira vez que fui procurá-lo ali.

Entre os dois CDs que eu havia levado para ele naquela ocasião estava justamente aquela música.

Apaguei o cigarro na mão.

Abri a porta do carro e me preparei para descer.

As luzes da sala ainda estavam acesas.

Talvez ele ainda fosse como dois anos atrás.

Talvez ainda estivesse usando aquele boné de aba longa, ouvindo rock pesado nos fones enquanto balançava a cabeça e desenhava projetos.

Meu coração estava cheio de expectativa.

Mas, no instante em que estava prestes a sair do carro, vi uma cena que nunca mais queria ver na vida.



Yi Chen saiu do prédio.

No rosto havia um sorriso tão brilhante que até a luz do sol parecia perder o brilho diante dele.

Depois de mais de um ano sem vê-lo, parecia um pouco mais alto.

O cabelo estava mais comprido.

A franja caía sobre um rosto bonito e magro.

E aquele sorriso...

Era incrivelmente atraente.

Mas não era direcionado a mim.

Ele sorria para uma garota ao seu lado.

Uma garota igualmente animada, bonita e de corpo escultural.




O sangue pareceu congelar.

Metade do meu corpo já estava para fora do carro.

Rapidamente me encolhi de volta para dentro.

Observei, abatido, enquanto os dois conversavam cada vez mais próximos.

Não pode ser...

Esse idiota não era completamente desligado para mulheres?

Quanto tempo eu fiquei fora?

E ele já arranjou alguém?




— Yi Chen, olha só você. Até tinta ficou na sua testa de tanto desenhar!

Maldição.

Por que eu tinha uma audição tão boa?

Mesmo através do vidro conseguia ouvir a voz melosa da garota.

— Não se mexa. Vou limpar para você.

Meu Deus.

Você me deu coragem graças ao encontro com Xiao Chen só para eu presenciar isso?

Eu devia ter ficado sentado naquela cafeteria tomando café.

Mesmo que me matassem, eu não teria vindo aqui sofrer desse jeito.




Não olhe.

Não olhe.

Aguente firme.

Continuei repetindo isso para mim mesmo.

Mas, ao mesmo tempo, abria os olhos discretamente para espiar.



Sua atrevida...

É só uma mancha de tinta.

Precisa esfregar durante uma hora inteira?

Já não tocou o suficiente?

E você, Yi Chen!

Que expressão é essa?

Afaste a mão dela logo!




— Obrigado, Jingjing...

Os pequenos dentes caninos apareceram quando ele sorriu.

E parecia até satisfeito.

— E obrigado por tudo que você fez nestes últimos dias. Deve ter sido cansativo.

— Não foi nada.

A garota parecia radiante.

— Fico feliz em poder ajudar você.




Chega.

Chega!

Que cena romântica insuportável!




Pelo visto eu não tinha apenas regredido.

Meu QI inteiro devia ter desaparecido.

Passei quase dois anos sendo um completo idiota.

Os CDs que escolhi cuidadosamente.

As noites de saudade.

As lembranças que nunca consegui esquecer.

Tudo explodiu diante dos meus olhos, transformando-se em cinzas.



Durante aqueles longos dias em Tóquio, houve dor.

Houve insegurança.

Houve noites inteiras sem conseguir dormir.

Mas nunca houve verdadeiro desespero.

Porque eu sempre soube que Yi Chen me amava.

Achei que nossos problemas não tinham relação com amor.

Achei que, depois de algum tempo separados, tudo se resolveria.

Mas agora...

Se eu ainda conseguisse continuar olhando sem que meu coração parasse de bater...

Talvez eu tivesse apenas me enganado o tempo todo.



Ainda conseguia lembrar.

Naquela época, bastava tocar nele de leve para que corasse e ficasse completamente perdido.

Agora?

Uma garota podia passar as mãos nele à vontade.

E ele permanecia perfeitamente tranquilo.




Cheng Yi Chen.

Você evoluiu rápido demais.




Continuei observando.

Os dedos cerrados machucavam minhas próprias palmas.

Mas a dor não era suficiente.




Na época em que o conheci, inúmeras garotas já o cercavam.

Onde quer que fôssemos, não faltavam pessoas olhando para ele.

Talvez até mais do que olhavam para mim.

Mas eu insistia em acreditar que era diferente.

Que eu era especial para ele.





Pelo visto, superestimei a minha importância.

Por que ele deveria permanecer parado, esperando por mim como um fóssil, depois que desapareci sem dar notícias por dois anos?

Histórias de reencontros milagrosos aconteciam com Lu Feng e Xiao Chen.

Nós éramos diferentes.

Eu era Qin Lang.

Ele era Yi Chen.




Nesse momento, os olhos de Yi Chen passaram pelo meu carro.

Seu sorriso congelou.

Como se tivesse percebido alguma coisa.

Lentamente, começou a olhar na direção do veículo.




Bufei friamente.

Lancei um olhar gelado para a garota ainda sorrindo ao lado dele.

Então pisei no acelerador.

O carro passou por eles sem parar nem por um segundo.


Foi apenas durante o jantar que Su Xiaolu e Shen Chao finalmente perceberam que havia algo errado comigo.

Os dois trocaram olhares.

Depois de alguns instantes, Su Xiaolu resolveu falar:

— Qin Lang, você está bem? Por que não come nada?


Não comi?

Fiquei surpreso.

Olhei para o prato.

O peixe à minha frente havia sido tão massacrado pelos meus talheres que mal dava para reconhecer o que era.

Parecia pior do que uma couve-flor esmagada.



— Não estou com fome.

Sorri.

Comer?

Que nada.

Eu já estava cheio de raiva.


— Você viu Yi Chen hoje?

Shen Chao ignorou completamente os olhares desesperados de Su Xiaolu tentando fazê-lo ficar quieto.

Levantou-se e começou a me sacudir.


— Vi.

Abri um sorriso exagerado.

— Não só vi ele, como também conheci a namorada dele. Um corpão daqueles. Em duas palavras: perfeita.


— Namorada?

Su Xiaolu franziu a testa.

— De onde você tirou essa história? Qin Lang, para de falar bobagem.



— Acho que ela se chama Jingjing. Os dois pareciam tão apaixonados que estavam quase se abraçando enquanto caminhavam. Você não sabia?

Dei de ombros.

— Xiaolu, você é a veterana dele e mesmo assim não presta atenção nenhuma à vida amorosa do seu colega.


— Jingjing?

Ela pareceu pensar.

— Aquela garota da turma deles que toca teclado muito bem?


— Ah, então ainda compartilham os mesmos interesses!

Bati palmas teatralmente.

— Que combinação perfeita!




— Qin Lang. Venha comigo.

Ela me encarou por um longo momento.

Então me puxou pelo braço.



— Ei, o que foi?

Continuei sorrindo.

— Estamos em público. Se você ficar me puxando assim, o Shen Chao pode ficar com ciúmes.



— Cala a boca!

Ela gritou.

Foi a primeira vez que a ouvi gritar comigo.

A voz foi tão alta que até Shen Chao levou um susto.


— Você foi embora por quase dois anos!

Os olhos dela estavam vermelhos de indignação.

— Deixou Yi Chen sozinho aqui sem se importar com nada. E agora volta falando esse tipo de coisa?

— Qin Lang... você não era assim.


Meu sorriso desapareceu lentamente.

Fiquei olhando para o chão sem dizer nada.


— Venha comigo.

Ela me puxou novamente.

— Vou te levar para ver Yi Chen.


— Não precisa, Xiaolu.

Finalmente soltei sua mão com delicadeza.

Levantei a cabeça.


— Eu vou sozinho.

Respirei fundo.


— Existem algumas coisas...

Minha voz ficou baixa.

— ...que já deveriam ter sido esclarecidas há muito tempo.


Su Xiaolu me encarou em silêncio.

Parecia querer dizer alguma coisa.

Mas acabou apenas assentindo.




Naquele momento, eu finalmente havia tomado uma decisão.

Por mais doloroso que fosse.

Por mais que eu tivesse medo da resposta.

Eu precisava encontrá-lo.

Precisava olhar nos olhos dele.

Precisava descobrir se aqueles dois anos de saudade tinham significado alguma coisa.

Ou se eu realmente havia sido apenas um idiota preso ao passado.



Com isso, terminei a refeição rapidamente.

O gosto da comida era completamente inexistente.

Tudo o que eu conseguia sentir era a ansiedade apertando meu peito.



Naquela noite...

Eu finalmente iria encontrar Cheng Yi Chen.


Nota do Tradutor:
1. 厦大 (Xiàdà) é a forma abreviada de Universidade de Xiamen, uma das universidades mais prestigiadas da China.

Honoo no mirage vol. 03 - Capítulo 07

Capítulo 7: A Captura da Capital Demoníaca


Quando recuperou a consciência, percebeu que estava em um armazém escuro.

O ar era úmido e gelado. Um cheiro de mofo invadia suas narinas. O luar atravessava uma pequena janela próxima ao teto.

Seus braços estavam suspensos acima da cabeça. Ao erguer os olhos, viu que seus pulsos estavam presos por algemas acorrentadas a uma viga. Ao que parecia, havia sido capturado.

(Fui derrotado, é...?)

Estalando a língua levemente, Naoe concentrou sua vontade para quebrar as algemas. Seu Nendouryoku deveria atravessar facilmente os grilhões, mas—

(...?)

Nada aconteceu.

Naoe ergueu a cabeça. Não havia nada de extraordinário nas correntes. Concentrou-se novamente. Ainda assim, não sentiu as algemas afrouxarem. Não sentiu absolutamente nada.

Impaciente, voltou sua atenção para uma pilha de caixas diante dele. Concentrou a vontade para destruí-las, mas elas nem sequer tremeram.

Naoe ficou atônito.

Ele não conseguia mais usar seus poderes.

O choque do raio teria causado algum dano? Ou seria outra coisa? Algo estava absorvendo sua força espiritual, produzindo praticamente o mesmo resultado que a ausência dela?

Então...

(Uma Kyuuryoku-Kekkai...?)

A barreira especial usada recentemente por Mori Ranmaru em Matsumoto.

Não era algo que pudesse ser criado sem enorme poder espiritual. Era impossível para alguém que não fosse um Onshou do Yami-Sengoku de primeira classe.

Haveria alguém entre os Mogami capaz de criar uma Kyuuryoku-Kekkai?

Ou poderia ser...

Um pensamento terrível atravessou sua mente.

(Não me diga... Mori Ranmaru...?)

Naoe inspirou bruscamente.

(Então Oda está por trás dos Mogami?)

Se fosse verdade, esta batalha não era apenas entre Mogami e Date.

Se Oda já havia se aproximado dos onshou do Nordeste, então os Date estavam claramente em desvantagem numérica. E, usando os Mogami como pretexto para destruir os Date, Oda provavelmente atacaria Sendai logo depois.

Os Mogami e os Ashina haviam se apoderado de políticos influentes.

E Oda os seguia como uma sombra.

(Isso não vai se resolver tão facilmente.)

Ele lutou para se libertar, mas as correntes permaneceram firmes.

Debateu-se inutilmente, conseguindo apenas fazer as algemas afundarem ainda mais na carne dos pulsos.

Sua frustração aumentava.

(Maldição...!)

Rangeu os dentes.

Nesse momento, o som da pesada porta do armazém se abrindo o fez levantar a cabeça.

A lâmpada pendurada no teto se acendeu.

Um jovem entrou.

Possuía um rosto inteligente e aparentava ter a mesma idade de Takaya.

Um único olhar foi suficiente para que Naoe percebesse as duas almas habitando aquele corpo.

(Ele está possuído...?)

— Kojirou. O rato finalmente despertou.

Uma voz feminina surgiu atrás do rapaz.

Logo em seguida, um homem e uma mulher de meia-idade apareceram.

Naoe lançou um olhar afiado aos três.

A mulher de aparência severa falou primeiro:

— Então realmente estás incapaz de te mover. Tu, dos Uesugi. Como te sentes ao ser capturado?

— ...

— Um comandante como tu recorrendo a truques tão miseráveis. Se desejavas atacar o inimigo, deverias fazê-lo de frente.

— Não digas isso, Yoshi — respondeu o homem robusto. — Reunir informações também é uma arte da guerra. Somos nós que deveríamos ter sido mais cuidadosos. Como diz o ditado, até as paredes têm ouvidos.

Era Mogami Yoshiaki, ocupando o corpo do deputado Ueshima.

— Ainda assim, irrita-me que ele tenha nos ouvido — respondeu Yoshihime.

— O que vocês estão tramando? — perguntou Naoe em voz baixa e controlada. — O que pretendem conseguir possuindo políticos como Ueshima e Hirabayashi?

— Mesmo que soubesses, o que poderias fazer?

Naoe engoliu a resposta enquanto Yoshiaki se aproximava.

— Nada. Tu és um Kanshousha, mas um Kanshousha incapaz de usar seus poderes não passa disto. Ou pretendes tirar tua própria vida e roubar outro corpo?

— ...

— Ainda assim, nós te capturaríamos antes disso e, por meio da sugestão espiritual, te transformaríamos em um dos nossos Nue.

Yoshiaki ergueu o queixo de Naoe.

— Os onshou do Yami-Sengoku já ouviram muito sobre o Yasha-shuu dos Uesugi. Vossa choubuku já enviou Asano e Shibata para o outro mundo, não foi? Não conheço vosso propósito, mas certamente fazem jus ao nome de Yasha.

Naoe o encarou ferozmente.

— Teu nome é Naoe Nobutsuna, correto? Irmão adotivo de Naoe Kanetsugu, o principal conselheiro de Uesugi Kagekatsu?

Yoshiaki sorriu como um falcão.

— Somos gratos a ele. Na Batalha de Dewa, durante o Sekigahara do Nordeste, foi um adversário à nossa altura. Lutou magnificamente. Kagekatsu-dono foi afortunado por ter um comandante tão sábio ao seu lado.

O sorriso desapareceu.

— Mas não é um nome que gostamos de ouvir.

— O que pretendem fazer comigo?

— Fazer-te esquecer seria simples, mas temos utilidade para teu poder.

— Então diga logo! O que vocês estão planejando? Aquela estrutura estranha em Sendai é obra de vocês, não é? Para que serve? O que pretendem fazer com Sendai?

Yoshiaki olhou para ele com desprezo.

— Então percebeste. Sim. Já que desejas saber, eu te contarei.

— Aniue!

— Não importa, Yoshi. Ele jamais retornará aos companheiros.

O rosto de Naoe endureceu.

Yoshiaki continuou calmamente:

— Nestes três anos desde que despertamos de nosso sono eterno, dedicamos enorme esforço para compreender a forma atual deste mundo...

— Nestes três anos desde que despertamos de nosso sono eterno, dedicamos enorme esforço para compreender a forma atual deste mundo.

Yoshiaki falava com serenidade, como se estivesse recordando algo distante.

— O que vimos e ouvimos ultrapassou completamente tudo aquilo que nossa linguagem era capaz de expressar. As pessoas vivem cercadas por abundância. Existem incontáveis bens produzidos não de cerâmica ou ferro, mas de materiais que jamais vimos em nossa época. Todas as tecnologias utilizam algo que, para nós, parece pura feitiçaria.

Ele ergueu os olhos.

— Quanto mais aprendíamos, mais percebíamos a grandiosidade desta sociedade. Um reino glorioso que jamais poderíamos ter imaginado no período em que vivemos. Um país assim, penso eu, não poderia ser conquistado nem mesmo pelos homens, mas apenas pelos deuses.

Naoe permaneceu em silêncio.

— Desejei conhecer este mundo mais profundamente. Para isso, possuí diversos receptáculos e aprendi muito sobre esta sociedade ao longo de apenas três anos. Porém, antes mesmo de compreender plenamente sua estrutura, percebi algo.

O olhar de Yoshiaki tornou-se severo.

— Este país não é a Terra Pura dos deuses.

Era verdade.

Comparado ao Período Sengoku, onde a realidade era composta por batalhas incessantes, o Japão moderno parecia um paraíso.

A morte não fazia mais parte do cotidiano.

Os direitos das pessoas eram protegidos.

Todos possuíam garantias que os antigos jamais poderiam imaginar.

E, ainda assim...

— Por que aqueles que reconhecem o valor da vida parecem esmagados pelo próprio peso de viver? — perguntou Yoshiaki.

Seu olhar permaneceu fixo no vazio.

— Esta sociedade é uma criatura gigantesca. Ela possui propósito e movimento. Contudo, aqueles que a governam dançam conforme a vontade dos outros, incapazes até mesmo de perceber os próprios passos.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Quando se abre a tampa desta sociedade, encontra-se apenas uma busca interminável por prazer. Neste mundo onde finalmente se pode viver sem a constante sombra da morte... não quero acreditar que este seja o resultado.

Naoe observou-o em silêncio.

Então Yoshiaki sorriu levemente.

— A capital deste país é a antiga Edo. Hoje chamada de Tóquio, não é?

— ...?

— Tudo está concentrado naquela cidade. E acredito que ela esteja prestes a explodir.

Naoe franziu a testa.

— Existem aqueles que defendem a transferência da capital.

Um arrepio percorreu o corpo de Naoe.

(Transferência da capital...?)

Era uma proposta real discutida por acadêmicos e políticos.

Alguns defendiam mover completamente a capital.

Outros sugeriam dividir suas funções administrativas entre várias regiões.

Havia ainda quem propusesse transferir apenas as instituições centrais do governo.

Yoshiaki parecia estar falando exatamente disso.

— É verdade que tudo está excessivamente concentrado em Tóquio. Em breve, ela se tornará uma cidade sem futuro. Um lugar repleto de pessoas errantes e decadentes. Um lugar que corrompe os espíritos.

Seu olhar tornou-se frio.

— Um governo assentado em tal local inevitavelmente corromperá esta era de paz.

— ...!

— Em breve, Tóquio será abandonada e a capital será transferida. E ninguém além de nós poderá tornar isso realidade.

Yoshiaki abriu os braços.

— Nós, os Mogami, tomaremos o verdadeiro poder deste governo e remodelaremos as ilhas japonesas para corrigir a distorção desta sociedade com nossas próprias mãos.

Naoe ficou sem palavras.

Yoshiaki prosseguiu:

— E sabes qual é a cidade mais adequada para tornar-se a nova capital?

Um brilho surgiu em seus olhos.

— Uma cidade pouco vulnerável a desastres. Rica em água. Cercada por vastas terras baratas. Situada a apenas uma hora de Tóquio graças aos modernos meios de transporte. E dotada de aeroporto internacional.

Ele sorriu.

— Existe apenas uma cidade que satisfaz todos esses requisitos.

Sua voz ecoou pelo armazém.

— Sendai!

— Então era por isso...!

Yoshiaki assentiu.

— Exatamente. Por isso tomaremos Sendai.

Seu sorriso se ampliou.

— Quando a possuirmos, ela se tornará a nova capital deste país. Yamagata servirá como centro urbano complementar. Sendai já é o coração do Nordeste; possui estrutura suficiente para suportar a transferência da capital imediatamente.

Naoe finalmente compreendeu.

— Então foi por isso que vocês possuíram Ueshima e os outros! Pretendem usar sua influência política para transformar a transferência da capital em realidade!

Ambição ardia nos olhos de Yoshiaki.

— Exatamente.

Ele colocou a mão sobre o peito.

— As origens deste homem no Nordeste nos favorecem. Quanto mais ele promover a transferência da capital, mais influência ganhará.

Seu sorriso tornou-se sombrio.

— O conhecimento e o poder de nossos receptáculos nos permitirão mover o Japão.

Ele ergueu a cabeça orgulhosamente.

— Sendai será nosso castelo.

Sua voz tornou-se firme.

— E transformar nosso castelo na capital significa governar todo o país.

— E transformar nosso castelo na capital significa governar todo o país.

Naoe cerrou os punhos.

— ...!

— Por essa razão, preciso tomar Sendai, expulsar Masamune e os Date e manter aquela cidade na palma da minha mão.

Yoshiaki falava como se descrevesse algo inevitável.

— Seis meses. Não precisaremos de mais do que isso para transformá-la na capital. Mostraremos aos seus habitantes quem é o verdadeiro senhor desta terra.

Seu olhar endureceu.

— A capital deve ser um lugar virtuoso, puro tanto espiritual quanto moralmente. Não demonstrarei misericórdia aos onryou que se opuserem a mim.

Naoe o encarou.

— Foi para isso que vocês criaram a barreira em Sendai? Para purificar a terra?

— Sim, isso também faz parte do plano, mas há algo ainda mais importante.

Os olhos de Yoshiaki se estreitaram.

— A barreira manipulará a consciência dos habitantes de Sendai.

— O quê?!

— Uma transferência de capital exige um esforço sem precedentes. Por mais influente que alguém seja, o poder de alguns poucos políticos não basta para moldar a opinião pública.

Ele cruzou os braços.

— Em Sendai encontram-se filiais de inúmeras grandes empresas. Pessoas de todo o país são enviadas para trabalhar lá. Trata-se de uma rede conectada a todas as regiões do Japão.

Seu sorriso voltou.

— Em nome do país dos Mogami, transformarei cada homem, mulher e criança em guerreiros da causa da transferência da capital.

O sangue de Naoe gelou.

— Vocês pretendem fazer lavagem cerebral neles?!

— Esse é o propósito da Jike-Kekkai.

A resposta veio de Yoshihime, que estava atrás deles.

— As energias dos vivos e dos espíritos dentro da barreira serão manipuladas artificialmente por nós. Todos serão hipnotizados ao mesmo tempo.

Ela explicou calmamente:

— Gravaremos uma sugestão diretamente na energia da terra, a Jike, permitindo hipnotizar grandes quantidades de pessoas em áreas vastíssimas. É essa fundação que estamos construindo agora em Sendai.

— Vocês enlouqueceram?!

Yoshiaki soltou uma risada desdenhosa.

— E por que nos daríamos a tanto trabalho se não estivéssemos falando sério?

Naoe ficou sem palavras.

Yoshiaki continuou:

— Este homem chamado Ueshima aceitou minha ajuda em troca do assassinato de alguém que lhe oferecia subornos. Se eu o tivesse transformado em meu receptáculo mais cedo, provavelmente teria exigido de mim o cargo de próximo Primeiro-Ministro.

Naoe sentiu repulsa.

Yoshiaki, porém, parecia divertir-se.

— Deixei os preparativos de Sendai nas mãos de meu filho, Yoshiyasu. Como comandante, ele é limitado. Porém, em habilidades espirituais, é excepcional.

Um brilho perigoso surgiu em seus olhos.

— Ele domina o Kinrin no Hou... os feitiços Dakiniten de sugestão hipnótica.

(Dakiniten-hou!)

O coração de Naoe afundou.

Esses feitiços utilizavam raposas espirituais capazes de induzir hipnose.

Não existiam técnicas mais eficazes para lavagem cerebral em larga escala.

Se utilizadas em seu potencial máximo, poderiam influenciar uma cidade inteira.

Ou, no pior cenário...

Um país inteiro.

Naoe rangeu os dentes.

Yoshiaki percebeu seu desespero e pareceu satisfeito.

— Nossas raposas despedaçarão qualquer um que se oponha a nós, exatamente como fizeram com aquele tolo anteriormente.

Ele se aproximou.

— Range os dentes o quanto quiseres. Não há nada que possas fazer.

Sua voz tornou-se sombria.

— Nós, os Mogami, conquistaremos tanto o Yami-Sengoku quanto este mundo.

Então apontou para o chão.

— Recomendo que permaneças quieto e observes.

— Seu...

— Este porão está dentro de uma Kyuuryoku-Kekkai. Date Kojirou manterá a barreira ativa.

Naoe voltou o olhar para o jovem.

— Não tens esperança de igualar seus poderes. Portanto, abandona qualquer sonho de fuga.

O choque atravessou Naoe.

(Ele é Date Kojirou...?)

O rapaz permaneceu em silêncio, olhando para o chão.

Sem demonstrar qualquer emoção.

Yoshiaki sorriu de forma sinistra.

— Em breve, juntar-te-ás a nós na conquista de Sendai.

Os olhos de Naoe se arregalaram.

— Serás transformado em um de nossos comandantes.

Yoshiaki soltou uma gargalhada.

Empurrando Yoshihime e Kojirou à sua frente, saiu do armazém.

Por um breve instante, Naoe teve a impressão de que Kojirou queria lhe dizer alguma coisa.

Mas não houve tempo.

A porta se fechou.

A escuridão voltou a dominar o porão.

Naoe permaneceu imóvel.

Atordoado.

Os Mogami pretendiam infiltrar-se no núcleo do Japão moderno.

Tomar o poder real.

Controlar o governo.

Controlar o país.

Não estavam tentando realizar os sonhos inacabados de suas vidas passadas através do Yami-Sengoku.

Queriam governar a sociedade moderna quatrocentos anos depois de suas mortes.

(Que loucura absurda...)

A lavagem cerebral coletiva dos habitantes de Sendai começaria assim que a barreira estivesse concluída.

As pessoas passariam a venerar Mogami Yoshiaki sem sequer perceber que algo estava errado.

Obedeceriam a qualquer ordem.

Lutariam.

Matariam.

Destruiriam.

Tudo em nome da transferência da capital.

E, se ele expandisse sua influência através de outros receptáculos possuídos por onryou...

O pior cenário tornou-se evidente.

(Se não tomarmos cuidado... todo o Japão cairá nas mãos dos Mogami!)

Eles não podiam permitir que uma insanidade dessas acontecesse.

A tomada do Japão por onryou mortos há quatrocentos anos não era algo que pudesse ser tratado como uma simples brincadeira.

A qualquer custo, precisavam impedir que o Yami-Sengoku emergisse para o mundo real.

Naoe reuniu toda a força que possuía e tentou novamente se libertar das algemas.

Inútil.

As correntes não cederam nem um milímetro.

Mesmo assim, ele continuou lutando.

A pele dos pulsos já estava rasgada.

O sangue escorria.

Mas ele não parava.

Precisava escapar.

Precisava avisar os outros.

Caso contrário...

(O que devo fazer...?)

O grito ecoou dentro de sua mente.

(Kagetora-sama!)




Alguém havia observado toda aquela sequência de acontecimentos escondido entre os arbustos densos atrás do armazém.

Mori Ranmaru.

Seus lábios se curvaram lentamente em um sorriso frio.

— Está ficando interessante.

Virou-se e começou a caminhar.

O luar refletido em sua pele tornava seu rosto ainda mais pálido.

A noite iluminada pela lua em Dewa Yamagata estava impregnada por uma sensação sinistra.

Uma atmosfera de malícia pairava sobre a terra.

E o frio que percorria o ar parecia anunciar que algo terrível estava prestes a acontecer.

Já fazia dois dias que Ayako não tinha notícias de Naoe.

Sua preocupação aumentava a cada hora.

Na noite em que Takaya retornou da mansão de Masamune, Ayako finalmente cedeu à inquietação e entrou em Yamagata para investigar.

Seu rosto empalideceu terrivelmente ao ouvir rumores sobre a misteriosa explosão de um carro que parecia ser o Cefiro de Naoe em um bairro residencial da cidade de Yamagata.

Era praticamente certo que algo havia acontecido com ele.

Mas Ayako não podia abandonar suas próprias responsabilidades para procurá-lo.

Ela já havia percebido a existência da barreira dos Mogami e, por enquanto, concentrava todos os seus esforços em dispersar os espíritos atraídos pelas chamadas "plataformas".

Nem mesmo o choubuku era suficiente.

Os espíritos dispersados logo voltavam a se reunir, obrigando-a a repetir o mesmo trabalho incessantemente.

E havia algo pior.

Não eram apenas almas que eram atraídas para aqueles locais.

Também surgiam tsukumogami, capazes de formar enormes massas monstruosas de energia espiritual.

Enquanto isso, apesar de seus pedidos, Kagetora ainda não demonstrava qualquer sinal de recuperar seus poderes.

Sozinha, Ayako se exauria tentando conter os espíritos.

Sem conseguir mais assistir àquilo em silêncio, Kokuryou disse:

— Se estás tão cansada, ajudarei a partir de amanhã.

— Ah... está tudo bem. Estou bem.

— Se continuares te forçando assim, acabarás adoecendo.

Kokuryou sentou-se na sala de tatame e serviu chá de cevada.

— Deverias chamar teu colega restante.

— Não! Nem pensar!

A resposta foi tão imediata que fez Kokuryou erguer uma sobrancelha.

Ayako cruzou os braços, irritada.

— Não consigo lidar com um sujeito egoísta e imprevisível como Nagahide. Então nem pense em me dizer para pedir ajuda a ele!

— Não estás em posição de ser tão orgulhosa.

O comentário atingiu o alvo.

Ayako ficou sem resposta.

Emburrada, murmurou:

— ...Vou tentar uma vez.

— De qualquer forma, já que dispersaste os espíritos, o acúmulo de poder nos pontos da barreira foi reduzido. A maldição está sendo enfraquecida.

— Parece que ela usa a energia dos espíritos como fonte de poder. Então deve estar sendo fragmentada...

A Jike-Kekkai erguida ao redor de Sendai era uma espécie de barreira amaldiçoada.

Mais especificamente, uma barreira hipnótica.

Ela era capaz de manipular a energia espiritual da terra — a Jike — para controlar mentalmente as pessoas em seu interior.

Mas através de suas percepções espirituais, Ayako havia descoberto algo alarmante.

A área real da barreira era quatro ou cinco vezes maior do que parecia.

De alguma forma, as chamadas "plataformas" espalhadas pelo centro de Sendai estavam transformando toda a barreira circular em uma gigantesca plataforma de manipulação espiritual.

Ayako falou com expressão sombria:

— Se realmente foram os Date que entraram em contato com Kagetora, então acho que podemos confiar que o responsável pela barreira é Mogami.

Ela continuou:

— Há sinais de que os Date estão tentando impedir as invocações dos mortos. Por enquanto, parecem estar adotando uma postura totalmente defensiva.

Então suspirou.

— Mas não sei se continuarão assim quando descobrirem que nós estamos envolvidos.

Kokuryou refletiu por um instante.

— Os Date deixaram aquele jovem monge partir sem perceber quem ele realmente era?

— Acho que sim.

Ayako hesitou.

— O que me preocupa é outra coisa.

— O quê?

— Kagetora disse que também encontrou Kousaka.

As sobrancelhas de Kokuryou se franziram.

— Kousaka Danjou dos Takeda? O comandante do Castelo de Kaizu em Kawanakajima?

— Exatamente.

Kokuryou soltou uma risada baixa.

— Que sensação estranha. Bem, já é extraordinário o suficiente estarmos vivendo na mesma época que Masamune.

Ele balançou a cabeça.

— Se eu não soubesse de toda essa história, teria gostado de conversar com ele pelo menos uma vez.

Ayako permaneceu séria.

— Kousaka deveria ter reconhecido a maldição da Jike-Kekkai há muito tempo.

Seu tom tornou-se mais firme.

— Mas não faço ideia do que ele pretende fazer a respeito.

Ela cerrou os punhos.

— De qualquer forma, precisamos encontrar uma maneira de desfazer essa barreira.

Seu olhar dirigiu-se ao corredor interno.

— Sozinha, meu poder não é suficiente para neutralizar a maldição.

Sua voz enfraqueceu.

— Se ao menos Kagetora pudesse usar seus poderes como fez em Matsumoto...

Ela não terminou a frase.

Seu olhar se voltou para os aposentos internos onde Takaya estava.

Kokuryou cruzou os braços pensativamente.

— A mãe daquele jovem monge vive em Sendai...

Ele suspirou.

— É compreensível que esteja sofrendo.

Então se levantou.

— Muito bem. Vou tentar conversar com ele.


Takaya estava no edifício principal do templo.

Sentado sozinho, observava distraidamente a estátua de Dainichi Nyorai no altar.

Estava perdido em pensamentos.

Mãe...

A palavra ecoava silenciosamente dentro de sua mente.

Mas jamais alcançaria Sawako.

A Sawako que, ao vê-lo inesperadamente em Sendai quando ele deveria estar em Matsumoto, correu até ele em choque.

— Quando você chegou? Eu teria ido vê-lo se tivesse me avisado.

Takaya não respondeu.

Ao vê-lo, um sorriso discreto de alívio iluminou o rosto arredondado de Sawako.

Ela observou seu filho já adulto.

— Você está ótimo.

Sawako ergueu os olhos para ele.

Agora Takaya precisava olhar para baixo para vê-la.

Foi nesse momento que percebeu algo pela primeira vez.

Sua mãe era tão pequena...

Mas aquele sorriso...

Aquele sorriso era exatamente o mesmo.

O mesmo sorriso que ele vira quando criança, no jardim de rosas-musgo.

Nada havia mudado.

— E a Miya? Ela está bem? Já deve estar no segundo ano do ginásio agora.

Sawako sorriu.

— Será que ela gostaria de ter uma irmã mais velha?

Takaya apenas a observou em silêncio.

— Deixe-me ouvir sua voz, Takaya.

Seu nome.

Pronunciado por sua mãe.

De um jeito que ninguém mais conseguia reproduzir.

Mais gentil.

Mais caloroso.

Mais carinhoso.

— Takaya?

As mãos dele se fecharam em punhos.

Ao lado de Sawako, uma pequena criança puxou sua roupa.

— Mamãe, quem é ele?

Surpresa, Sawako desviou o olhar.

— Shunsuke. Este jovem é...

— Ninguém que você conheça.

Sawako congelou.

Ayako e Kokuryou também olharam para Takaya, surpresos.

— Sou apenas alguém de passagem.

Sua voz era fria.

— Somos completos estranhos. Não nos conhecemos.

— Takaya...

— Foi você quem cortou os laços conosco.

Os olhos de Sawako se arregalaram.

— Foi você quem fugiu sozinha.

Aquelas palavras a atingiram em cheio.

Até o próprio Takaya não conseguia acreditar no que estava dizendo.

Mas as palavras continuavam saindo.

— Por que está tão surpresa?

Seu tom ficou mais duro.

— Não foi como se eu tivesse vindo aqui para ver você.

Ele sorriu amargamente.

— Não precisa fingir.

Seu olhar tornou-se acusador.

— Você está irritada, não está?

Sawako empalideceu.

— Mesmo sorrindo, está pensando: "O que ele está fazendo aqui?"

Takaya apertou os dentes.

— Você não queria mais olhar para o filho que abandonou.

— Takaya!

Ayako puxou seu braço em advertência.

Mas ele continuou.

— Porque eu sou filho daquele inútil que fez você sofrer!

As palavras explodiram como uma bomba.

Sem olhar para trás, Takaya virou-se e começou a caminhar.

Ayako correu atrás dele.

Mas ele já havia desaparecido na multidão.

Enquanto atravessava o fluxo de pedestres, sentia os olhos feridos de Sawako em suas costas.

Ele era quem estava causando toda aquela cena.

Por quê?

Por que tinha dito aquelas coisas?

Ele nem sequer guardava ressentimento contra ela.

Nunca a culpou.

Nunca pensou que tivesse sido abandonado.

Sawako havia sofrido demais.

Suportado demais.

Por isso ele jamais a condenara por ter partido.

Ela tinha o direito de buscar sua própria felicidade.

Ninguém podia tirar isso dela.

Nem mesmo seu filho.

(Eu entendo...)

Ele entendia.

Então por que aquelas palavras haviam saído?

(Que direito eu tenho de culpá-la agora?!)


---

Mais tarde, sentado sozinho sobre os tatames do templo, Takaya fitava o teto.

Deveria estar feliz.

Feliz por ter visto sua mãe sorrindo.

Que filho desejaria algo além da felicidade da própria mãe?

(Sou apenas uma criança mimada.)

Suspirou profundamente.

(E se eu fosse Kagetora...?)

Nesse momento, uma voz surgiu atrás dele.

— Bela noite de luar, não acha?

Takaya virou-se.

A porta deslizante estava aberta.

Kokuryou havia entrado.

— Veja.

Ele apontou para o exterior.

— A lua está exatamente acima dos caquizeiros.

Uma brisa suave soprava.

— O Festival Tanabata de Sendai está se aproximando.

Takaya lançou-lhe um olhar desconfiado.

— Veio me dar um sermão?

Kokuryou sorriu levemente.

— Vejo que começaste a praticar susokukan.

— Como se eu fosse capaz de algo assim.

Takaya bufou.

— Não sou um sábio taoísta nem nada do tipo.

— É aí que te subestimas.

Kokuryou sentou-se diante da imagem de Dainichi Nyorai.

— Ainda não percebeste teu próprio poder.

Takaya franziu a testa.

— Meu... poder?

Kokuryou juntou as mãos em oração.

— Existe algo chamado Poder da Virtude.

Seu olhar voltou-se para Takaya.

— É o poder acumulado por um peregrino ao completar uma jornada.

Ele continuou:

— Em contraste, existe o Poder da Oração, a proteção concedida pelos Budas.

A voz do monge tornou-se solene.

— Quando ambos entram em equilíbrio, surge um poder ainda maior.

— O Poder Divino.

Takaya escutava atentamente.

— E, mesmo sem ter concluído jornada alguma, parece que já carregas dentro de ti esse Poder da Virtude.

O jovem permaneceu em silêncio.

Kokuryou então o encarou diretamente.

— Devemos falar sobre o outro você.

Takaya sentiu o coração acelerar.

— Kagetora...

— Sim.

Kokuryou assentiu.

— Dentro de tua alma existe uma presença que carrega um imenso Poder da Virtude.

Sua voz tornou-se suave.

— Se desejasses verdadeiramente, serias capaz de trazê-lo à tona.

Então acrescentou:

— Mas és tu quem o mantém selado.




— Mas és tu quem o mantém selado.

— Não estou selando nada!

A resposta de Takaya veio imediata.

Cheia de irritação.

— Estou tentando trazê-lo para fora! Mas quando realmente preciso dele, não consigo usar nada! A culpa não é minha!

Levantou a voz.

— É Kagetora quem está me impedindo!

— Não.

A resposta de Kokuryou foi firme.

— És tu, Ougi Takaya.

As palavras o atingiram como um golpe.

Takaya ficou imóvel.

— Posso compreender tua inexperiência.

Kokuryou manteve o olhar fixo nele.

— Mas foste tu quem selou teus próprios poderes.

— ...!

— Finges enxergar, mas desvias os olhos do teu próprio coração.

A voz do monge tornou-se severa.

— Finges compreender sem realmente compreender.

Takaya apertou os punhos.

— E é por isso que feres pessoas que não precisavam ser feridas.

O rosto de Sawako surgiu instantaneamente em sua mente.

— Aqueles que realmente compreendem não machucam os outros com tanta facilidade.

— ...

— Tu apenas finges conhecer a ti mesmo.

O olhar de Kokuryou tornou-se penetrante.

— Na verdade, não compreendes absolutamente nada.

O silêncio pesou sobre o templo.

— Não sabes sequer uma única coisa.

Takaya explodiu.

— ENTÃO EU SOU APENAS UMA CRIANÇA!

Sua voz ecoou pelos corredores.

— Se eu não entendo nada, e daí?!

Levantou-se abruptamente.

— O que você espera de mim?!

Seu peito subia e descia violentamente.

— Como eu poderia saber?!

Kokuryou permaneceu imóvel.

— Não me importo se não entendo!

Takaya apontou para si mesmo.

— O verdadeiro eu... ou qualquer coisa parecida!

Sua voz começou a falhar.

— Se eu soubesse quem eu realmente sou...

Ele apertou os dentes.

— O que exatamente você quer que eu faça?!

Por um momento, a expressão de Kokuryou suavizou-se.

Parecia que Takaya havia finalmente alcançado o cerne da questão.

— Estás dizendo...

Takaya respirou fundo.

— Que Kagetora é o verdadeiro eu?

Seu olhar tremia.

— Que Kagetora está usando o rosto de Ougi Takaya?

A dor em sua voz era evidente.

— Que eu não sou eu mesmo?

Ele abaixou a cabeça.

— Não importa o quanto tente lembrar...

Sua voz ficou quase inaudível.

— As memórias não vêm.

Kokuryou permaneceu em silêncio.

— Não posso ser um substituto de Kagetora.

As mãos de Takaya tremiam.

— É impossível!

Sua voz quebrou.

— Impossível carregar quatrocentos anos de história nas costas!

— Jovem monge...

Takaya abaixou ainda mais a cabeça.

Os ombros tremiam.

O reencontro com sua mãe havia quebrado algo dentro dele.

Tudo aquilo que guardara por tanto tempo finalmente estava transbordando.

— Porque eu...

Sua voz saiu rouca.

— Eu não sou filho dela...

Kokuryou arregalou os olhos.

As palavras pareciam arrancadas à força do fundo de sua alma.

— Sou apenas um estranho que roubou o corpo do filho dela.

O silêncio tornou-se pesado.

— Os pais dos kanshousha mudam repetidamente.

Takaya apertou os punhos.

— Qualquer pessoa serve, desde que possamos tomar outro corpo.

Sua voz tremia.

— Mesmo que esses pais acreditem sinceramente estar criando seus próprios filhos.

Ele mordeu o lábio.

— Somos nós que os traímos.

Uma lágrima escorreu.

— Somos nós que mentimos para eles.

Sua respiração tornou-se irregular.

— Eu não tenho o direito de querer ouvir um pedido de desculpas dela.

A dor estampava-se em seu rosto.

— Não tenho direito algum.

Kokuryou observava em silêncio.

— Sou eu quem deveria pedir desculpas.

Takaya abaixou a cabeça.

— Porque fui eu quem a enganou desde o dia em que nasci.

As lágrimas continuavam caindo.

— Então por que dói tanto?

Sua voz quase desapareceu.

— Por que machuca desse jeito?

Os dedos afundaram nos joelhos.

— Por que você teve que nos deixar?

O sofrimento contido por anos finalmente transbordava.

— Por que precisou buscar apenas a própria felicidade?

Sua voz tornou-se um sussurro.

— Por que sinto tanto ressentimento da minha própria mãe?

— Jovem monge...

Takaya fechou os olhos.

Os lábios tremiam.

Seu rosto estava distorcido pela dor.

— Se tudo o que posso fazer é aceitar que sou Kagetora...

Ele respirou profundamente.

— Se tudo o que posso fazer é me tornar Kagetora pelo bem deles...

Abriu os olhos.

— Então farei isso.

Kokuryou permaneceu em silêncio.

Mas Takaya continuou.

— Só que, nesse caso...

Sua voz vacilou.

— Eu provavelmente me tornarei apenas mais um estranho para minha mãe.

O vento noturno atravessou o templo.

Os ombros dele tremiam.

— Pelo menos...

Ele fechou os olhos novamente.

— Se eu tivesse as memórias de Kagetora...

Uma lágrima caiu sobre o tatame.

— Talvez não precisasse me sentir assim.

O silêncio dominou o local.

Kokuryou observou o jovem sem dizer uma palavra.

A lua pairava acima dos caquizeiros.

Uma brisa fria agitava o jardim.


---

Nas sombras do jardim, alguém observava tudo.

A mesma mulher da noite anterior.

Porém, a consciência que habitava seu corpo não era a dela.

(Então estes são os famosos Yasha-shuu dos Uesugi dos quais meu pai falava...)

Um sorriso desagradável surgiu em seus lábios.

A presença que a possuía era Mogami Yoshiyasu.

(Se eu derrotá-lo...)

Os olhos da mulher brilharam.

(Até meu pai reconhecerá minha capacidade como general.)

Mostrando os dentes num sorriso feroz, Mogami Yoshiyasu fixou o olhar em Uesugi Kagetora.