29 de jun. de 2026

Villain - Capítulo 03

Capítulo 03 – Vamos nos Conhecer

“Não, por favor… não faz nada com a Kaew, por favor, Khun Fa.”

“Vai me implorar agora! Por que quando roubou o Don de mim você não se tocou!!” A moça de vestido vermelho curto agarrou o cabelo da outra mulher, de aparência mais recatada. O ódio nos olhos dela parecia que ia saltar da órbita. Os lábios vermelhos-fogo tremiam enquanto ela guardava todos os palavrões só para dentro.

“Kaew não, Kaew não quis roubar o Khun Don de você, não.”

“Não quis? Como você ousa dizer que não quis!! Ficou dando mole, se oferecendo pra ele desse jeito… sua sem-vergonha!!” Quem parecia mais forte puxou com força até a vítima tropeçar no chão. O corpo frágil chorava até tremer de medo da fúria da mulher na frente, que podia matá-la a qualquer momento.

“Kaew… hic… Kaew…”

“Fa!! O que você tá fazendo?!” E então o mocinho de cavalo branco apareceu voando pra ajudar. O rapaz correu e envolveu o corpo frágil da mulher nos braços. O rosto furioso não desgrudou da moça de lábios vermelhos.

“Eu só ia dar uma lição nela. Essa vagabunda roubou você de mim!!”

“Ninguém me roubou de você. A nossa história acabou. Volta pra casa e não volta mais aqui.”

“Don, mas você disse que me amava. Como pode fazer isso? Como pode escolher essa mulher safada?”

“A mulher safada que você fala é a minha esposa, legalmente. Vai embora antes que eu mande alguém te arrastar pra fora!!” Depois das palavras do rapaz, a moça ficou ainda mais furiosa. Ela saiu pisando duro, de mau humor, rangendo os dentes vermelhos esperando o dia da vingança… O estranho é que ninguém percebeu o olhar trêmulo de mágoa dela…

.

“Uhuu!! Que delícia! Tem que ser um protagonista esperto assim mesmo.” O tapa na coxa da Tia Wan me fez tirar os olhos da tigela de miojo pra olhar a cena na TV que eu já tava aguentando há um tempão. Olhei pra TV e só consegui balançar a cabeça pra toda aquela maldade. É por causa de novela assim que a sociedade fica assim. Quem chegou primeiro vira vilão mesmo sem ter feito nada de errado. É só vestir roupa curta, pintar a boca de vermelho e sair atrás do mocinho gritando, fazendo coisa idiota como se não tivesse cérebro. Experimenta botar uma freira careca pra pedir o marido de volta. A mocinha é que ia virar vilã.

“Eu não acho nada esperto, tia. Aquela tal Fa é bem mais bonita.” Falei só a verdade, mas ganhei um olhar de reprovação da Tia Wan como se ela fosse tomar minha tigela de miojo de volta… Não faz isso, tia. É a primeira comida que entra na minha barriga depois daquele canjão de peixe.

“Você não entende, Khun Poch. Essa aí é má, quer o protagonista a qualquer custo.”

“Mas pelo que ouvi, eles eram namorados antes, não eram?”

“Ay, não era não. Essa vilã tá se iludindo. Khun Poch, não discute com a tia. Eu vi todos os episódios.”

“………” No fim eu nem discuti. Não discuti porque doeu demais pra falar. Só consegui dar um sorriso sem graça e aceitar meu destino. Parece que eu tô na mesma situação daquela personagem de boca vermelha.

“Khun Poch quer mais uma tigela? Parece que tá com fome. A tia falou pra esperar o almoço com os senhores e você não quis.”

“Tia… e se em vez de pintar a boca de vermelho e gritar, ela se vestisse direito? Alguém ia ter pena da vilã?” A Tia Wan franziu a testa, confusa. Deve estar se perguntando o que deu em mim hoje pra estar tão interessado em novela. A Tia Wan é a empregada da casa há muito tempo. Cuida de quase tudo aqui, e antes incluía cuidar de mim também. Antes de ir pra Inglaterra eu cozinhava pra ela e comia com ela quase todo dia. Se tinha algum problema que dava pra contar, eu contava pra ela.

“Ninguém liga pra essas vilãs, Khun Poch. No fim é sempre o protagonista com a mocinha.” Assenti de leve, como se entendesse essa verdade da vida… É bom ouvir a Tia Wan falar assim. Assim eu já sei que mesmo se eu for bom como um anjo, ninguém vai ver a cabeça de um vilão como eu. Pelo menos quando eu fizer alguma coisa sem querer, não vou precisar perder tempo me sentindo culpado.

“E tia, se no fim a vilã conseguisse ficar com o protagonista, como seria?”

“Ay, não existe novela que termine assim, Khun Poch.”

Por que não existe… Eu, Poch, vou ser o primeiro a terminar essa história sem ninguém lembrar da mocinha.

“De que vocês estão falando?” …Ops. Fala da mocinha e ela aparece na hora.

“Ah, Em. Tava assistindo novela com a Tia Wan. Acabou de passar a cena em que a mocinha inocente apanha… tadinha.” Nem eu sei que expressão eu tava usando pra olhar pra Em. O rosto dela murchou como se estivesse tensa com o meu olhar.

“Então vocês dois conversem aí, viu? A tia não vai atrapalhar. Vou ajudar o Mon a cortar a grama no quintal.” Assenti pra Tia Wan, que parecia saber a hora de me dar a chance de conhecer melhor a esposa do amigo… E pra ela me conhecer melhor também.

“Não sabia que você curtia novela.”

“Normalmente não curto muito. Mas acho que vou ter que estudar pra usar na vida real.” Tentei olhar nos olhos dela pra desmascarar quem ela é de verdade. Mas no fim só vi uma mistura de Aff Thaksorn com Kob Suwanan no olhar.

“Você é engraçado, né, Poch.” Logo você vai ver se é engraçado ou se vai ter vontade de chorar.

“E a Em veio fazer o quê aqui?”

“Eu vim preparar o almoço.”

“Hm… Casou nem faz um dia e já tá sendo uma esposa exemplar, hein.” Em travou um pouco, mas continuou pegando as coisas na cozinha como se não tivesse ouvido. Analisei ela da cabeça aos pés pela primeira vez desde que nos vimos. Tenho que admitir: essa mulher é bonita por fora, impecável. Rosto limpo, jeito educado de família tradicional. Não é à toa que o tio Bowon enlouqueceu e pegou ela de nora… Mas eu ainda acredito na minha teoria: não existe mulher decente que aceite casar por dinheiro.

“Eu só tô fazendo minha obrigação.” Levantei a sobrancelha e assenti com a resposta. Agora a Em não olhava pra mim, estava ocupada lavando uma cesta grande de verduras.

“Deixa eu ajudar.” Estendi a mão pra Em de forma amigável. Ela sorriu de leve e abriu espaço pra eu lidar com as verduras que faltavam na pia.

“Obrigada.”

“De nada. Afinal, a gente mora na mesma casa… compartilha as coisas!” Apertei os dentes sem querer na última frase… Humpf. Agora mesmo se eu xingasse a Em na cara dela ia ser inútil. Essa mulher finge ser indefesa e se faz de desentendida o tempo todo. Mas logo a gente vai ver até quando ela consegue ser inocente.

“Poch tem alguma comida preferida? Outro dia a Em faz pra você.”

“Não precisa. Eu como qualquer coisa.”

“Como assim? A mãe me encarregou da comida da casa. Tenho que cuidar de todo mundo igual. Fala logo o que você gosta.”

“Tudo que o Tem gosta… eu gosto também.” Lancei um olhar de canto pra quem ouvia. Em fingia cortar a carne na tábua como se não estivesse nem aí.

“Vocês dois parecem bem próximos, né.”

“Eu conheço o Tem melhor do que ele mesmo. Desde que cheguei aqui só ele se importou comigo… Tenho que agradecer a ele por me achar importante. Só não sei se, depois do casamento, ele vai achar eu ou a Em mais importante.” Não sei o que a Em tava pensando, mas pela cara deu pra ver que ela já começou a levar minhas palavras a sério.

“Ah… Poch mora aqui há muito tempo? Posso perguntar como veio parar aqui?” Fiquei em silêncio porque não queria responder essa pergunta idiota que desviava do assunto. Mesmo que pudesse aproximar eu e a Em. Experimenta ser perguntado sobre uma memória dolorosa da sua vida e você vai ver como dói responder cada vez…

“E a Em vai ficar aqui por quanto tempo? Pensou direito antes de ficar aqui?” Um clima frio tomou conta da cozinha. Sorri de canto pro olhar atônito da Em… Já começou a cair a ficha, né?

“Por que o Poch pergunta isso?” Foi a primeira vez que Em parou tudo e me encarou. Tentei ler o rosto dela, mas era além do que eu conseguia decifrar agora. O que aqueles olhos redondos e parados queriam me dizer?

“Só curiosidade. Por que decidiu casar com alguém que não te ama… Como teve coragem?”

“Eu acho que o Poch já sabe a resposta. Eu aceitei porque era necessário.”

“E quando essa ‘necessidade’ vai acabar…” Comecei a circular em volta da Em com um olhar de nojo sem nem perceber. O olhar assustado da Em já estava me dando vantagem nesse jogo.

“Poch… A... Acho melhor eu fazer sozinha.” A voz da Em falhou quando peguei a faca na tábua. Meus olhos ficaram grudados no fio da lâmina, feliz… Não ouviu errado. Eu estava feliz olhando pra faca mais do que pra cara dela.

“Grava isso, Em… Algumas coisas já têm um dono. Mesmo que a Em consiga pegar… o dono vai voltar pra tomar de volta.” _Thack!!_ Deixei todo o peso da mão e finquei a faca na tábua até a Em pular. Todo o ódio que eu sentia passei pelo olhar que dei pra ela. Os olhos redondos tremiam como se fossem encher de lágrimas… Que pena que daqui pra frente eu vou virar um psicopata na cabeça da esposa do amigo.

“O… O que você quer dizer, Poch?”

“Hm… Obrigado por deixar o Tem ficar comigo ontem à noite.” Esse sorriso maldoso talvez não seja adequado pra uma mulher, que é mãe. Mas quem tá na minha posição não tem muitas opções de ser bonzinho. Se eu tiver que ser mau pra sobreviver, qual é o problema, né…

“Poch tá fazendo o quê?”

Ahhh, pelo amor de Deus. Eu queria rir em dez idiomas. Que coincidência perfeita pro protagonista aparecer na hora certa. Isso não é replay da novela de agora há pouco, né… Ah, ou na verdade não é coincidência. Ele só veio cuidar da esposa, fazer o almoço pra ela comer… E para de olhar pra ela com essa cara de preocupado, por favor. Vou vomitar! Que pena o miojo.

“Não tô fazendo nada. Só zoando a Em um pouco… Viu? Só mexi um pouquinho e ela tá tremendo toda.” Me afastei da Em, mas o Tem ainda não parava de olhar pra ela com preocupação.

“Em, não liga pra ele. O Poch gosta de zoar com essas besteiras. Faz isso com a Ta direto.” Parece que a Em relaxou com a mentira do Tem. Ela olhou pra mim com um olhar amigável, aliviada, nada a ver com alguns segundos atrás… Com essa cara, nem parece que terminou o jardim de infância. Não me diga que é tão ingênua a ponto de acreditar em qualquer merda fácil assim… Se eu disser que ela é burra, ainda vou ter pena da raiz da palavra.

“Desculpa por te assustar, Em… Depois a gente brinca de novo, tá?”

60%

Passei pelo Tem fazendo nossos ombros roçarem de propósito. Andei mais devagar que o normal por causa dos passos dele atrás de mim. Só pelo olhar de bronca dele já sei que ele não vai deixar barato sem me interrogar. Os passos seguiram atrás de mim até o terceiro andar, meu esconderijo silencioso… De qualquer forma, obrigado, Khun Som, por me exilar num lugar bom desses.

“O que você tá querendo fazer?” A voz fria e irritada fez minha mão parar antes de abrir a porta. Virei pra olhar pra ele com um olhar malicioso, bem mais esperto que o olhar bravo dele.

“Não tô fazendo nada. Só conversei com a Em, normal.”

“Já te falei, Poch. Não se complica. Tá bom assim. Não mexe com a Em. Não enfia ideia maluca na cabeça de ninguém!” Aquela voz dura despedaçou ainda mais meu coração que já estava quebrado. Quanto mais eu ouvia, mais via que ele não tava nem aí pra mim.

“Aquelas coisas malucas que você faz comigo toda noite?”

“Poch!!” O Tem abriu a porta do quarto antes que eu reagisse. Me empurrou com força até eu cair no chão do quarto. Depois bateu a porta com um _bang_ que fez meu coração pular de susto. O olhar dele mudou por um segundo quando me viu tentando me recompor. Depois voltou a ser duro de novo.

“Por quê? Falei algo errado?” Me apoiei na beira da cama. O Tem ainda me olhava com aquele mesmo olhar, sem nunca saber como eu me sentia. Foi rápido demais pra tudo mudar assim. Assim que voltei, o Tem que eu conhecia sumiu… O que eu fiz de errado? Ele falou pra ser amigo, eu fui. E essa dor toda que eu tô sentindo por causa de ‘amigo’ agora, ele já pensou em se responsabilizar por isso?

“Com você… eu só queria tentar.”

“Ah… Tentou várias vezes, né?”

“Poch!!”

Ele veio e me agarrou pela gola até eu sair do chão. Os olhos bravos dele tremiam de leve. Aproveitei a brecha e encostei minha boca na dele pra engolir nossa respiração ofegante. Ele respondeu fácil. As mãos começaram a apertar de leve meu pescoço por instinto. A respiração acelerada ficou cada vez mais alta, só nós dois ouvindo. As mãos do Tem começaram a explorar minha pele. A excitação fez ele me empurrar pra cair na cama. As duas bocas começaram a morder e marcar o corpo um do outro.

E tudo acabou.

Acabou só nisso.

Do nada, o Tem se jogou pra longe de mim como se estivesse irritado. Sentei de joelhos do lado dele com um vazio tão grande que quase não consegui segurar. Por que ele faz essa cara como se fazer isso comigo fosse um crime? Porque se sente culpado por casar com uma mulher que conheceu há três dias? Ou porque tá pensando em me jogar fora, igual todo mundo faz comigo?

“Por quê, Tem… Por quê… hic… É porque você ama a Em… hic… Porque se sente culpado por ela?” Nem sabia quando comecei a chorar. Quando vi, já estava soluçando sem conseguir falar direito.

“Eu te peço. Não tenta fazer algo que não vai te fazer bem. Eu casei. Você fica na sua.”

“E ontem à noite por que veio me procurar! Pra fazer o quê, porra?!” Peguei um travesseiro e bati na cabeça dele com força. Mas além de não se abalar, ele ainda segurou minhas duas mãos com tanta força que doeu… Mas como as palavras dele doeram ainda mais.

“Porque eu tenho pena de você. Pena de você não ter ninguém… Me escuta, olha pra mim, Poch… Porque daqui pra frente você vai ter que viver sozinho!”

Por que dói assim?

Dói mais do que eu imaginava.

Dói mesmo eu já esperando que ia ser assim.

“Não acredito em você, Tem… Não vai acabar assim. Você vai ver!” Fui eu quem saiu do quarto. Passei as mãos no rosto pra enxugar as lágrimas de qualquer jeito, enquanto os planos se empilhavam na minha cabeça sem serem convidados. Comecei a entender a vilã do vestido curto e boca vermelha. Entendi por que ela ficava furiosa como se tivesse perdido a cabeça. Com base no amor e na disputa… tudo é possível.

Se quer que eu seja mais mau ainda… então tenta.

Zombie Hunter - Capítulo 05

Capítulo 05: A Trainee vs. A Trainer

“Vamos para outro lugar?”

O som do sino veio logo depois que Nevils desviou o olhar do anel no meu dedo. Só aí notei que havia um tom zombeteiro ali.

“Tente não ficar nervoso” — ele disse sem olhar para mim, a voz abafada.

“Por que não?”

Ele não respondeu. Só puxou a rédea e olhou para o outro lado, como se escolhesse o destino. Fez meu coração disparar sem motivo.

Não entendi a atitude dele, nem mesmo sabendo que sou novato e que só estou aqui porque ele me forçou a isso. Toda vez que ele olha para mim, não é como se estivesse olhando para algo que deveria estar ali. É como se estivesse me obrigando a ser só um número a mais, só para ele poder fingir que está treinando mais alguém além daquele garoto trainee que ele tanto adora. Como se eu fosse só um boneco de treino para ele, mesmo.

Será que ele está me provocando?

“Sério, Nevils. Eu nem sabia que você tinha um discípulo que trabalhava aqui. E pelo jeito, nem é de hoje.” No fim, não consegui engolir a curiosidade e joguei a pergunta.

Nevils parou de repente, virou o rosto e me encarou.

“Não, mas agora tem.”

“Como assim?”

“Significa que não vou deixar você fazer nada sozinho.”

“Você falou isso com todos eles?” — perguntei, lembrando dos olhares que todos me lançaram antes.

Ele me olhou de cima a baixo antes de responder:

“Você está aqui embaixo só como um estagiário, mas fez coisas que colocam meu discípulo em risco. Ele só tem 18 anos. É fácil eu te acusar de ter vindo com más intenções. Peço que vá embora da fazenda agora mesmo. Chame um carro e volte para o estábulo do seu senhor, que é o lugar certo para você. Se continuar aqui, não posso garantir que consiga manter meu aluno seguro por muito tempo. Posso matá-lo aqui mesmo, com minhas próprias mãos.”

Oh, isso é pior do que eu pensei. Ele está me chamando de alguma espécie de monstro.

Mas eu não sou inocente... só fiz o que precisava para sobreviver.

“Eu nem vou te deixar sair vivo.”

Quando soltei isso, Nevils arregalou os olhos. Ele estava em pé no único lugar onde a luz batia mais forte que em qualquer lugar que eu já tivesse visto, antes de soltar uma risada contida e, então, a voz saiu baixa:

“Quero deixar seu corpo em paz antes de te matar.”

Ele fez meu corpo inteiro tremer, mas ainda conseguiu mastigar a comida calmamente e falar de volta.

Na verdade, não deveria ser você quem responde por ele. Quem trouxe os problemas para a minha fazenda foi um garoto de família nobre que eu não sabia de onde tinha vindo!

“Também acho. Nem eu quero te matar mesmo” — respondi, soltando um riso forçado.

“Então é bem simples. Vai embora. Hoje eu vou te deixar ficar mais um dia.”

Nevils me obrigou a montar atrás dele, me deixando com a boca cheia do cheiro do casaco dele, sem que eu pudesse recusar o cavalo que ele já tinha pegado. Do caminho, e então ele foi embora como se nada tivesse acontecido.

Nevils me levou a um campo de tiro que ficava a pouca distância do haras dessa cidade. Fiquei aliviado por não precisar pegar uma carruagem. O campo de tiro parecia o de uma cidade normal, porque era um campo de tiro comum mesmo, como os que eu costumava ver na TV.

Nevils entrou para falar com um xerife que cuidava do campo, um homem magro e alto. Pelo jeito, ele estava relatando que tinha vindo sem avisar. Aquele xerife era atencioso e até ofereceu uma xícara de café.

“Quer que eu fique aqui até você terminar?”

“Sim, mas o prefeito me pediu para deixá-lo treinar com munição de verdade porque a cidade está se preparando para o desfile.” — disse Nevils.

O xerife concordou em informar o responsável assim que tivesse oportunidade.

Aquele xerife também acenou com a cabeça como se entendesse o significado do que Nevils queria dizer: que ele também teria o mesmo treinamento que o filho dele.

“Então vamos para a sala de tiro.”

“Não precisa correr. O prefeito mandou eu ser o seu supervisor.”

“Ah, deixe o senhor ser meu guia então.”

Nevils assentiu. Eu olhei para o cavalo que tinha saído sem cerimônia e agora tinha voltado para ouvir a ordem dele.

“Bem apropriado. Hoje eu tenho duas pistolas para você escolher: uma de ação simples e uma de ação dupla.”

Sem perder tempo, o xerife nos levou até uma mesa que tinha várias caixas de armas organizadas. Ele pegou uma de ação simples para mostrar, depois pegou outra e começou a explicar sobre a segunda caixa.

Ele entrou numa sala que parecia um escritório, pegou umas caixas de munição e, depois de carregar as armas, virou-se e me chamou para segui-lo até a área de tiro ao lado.

Entrei na área de tiro e, do lado, tinha uma sala com vidro blindado que fazia com que o som dos tiros não me incomodasse tanto. Era só um vidro comum, mas o fato de estar ali já me deixava um pouco mais tranquilo. Apesar de ser a primeira vez que eu segurava uma arma de verdade, senti que estava pegando o jeito rápido, como se já tivesse nascido com isso.

Só que o jeito dele segurar a arma era idêntico ao meu. As mãos que ele me ensinava vinham com uma força que eu não esperava, quase me esmagando. Eu não tinha o que fazer a não ser aceitar o toque do garoto. Além do cheiro do casaco dele, que lembrava os homens da cavalaria com quem eu costumava andar, me fez sentir uma familiaridade estranha, como se eu tivesse conhecido aquele toque na vida passada.

Que filho da mãe! Não quero voltar pra lá de jeito nenhum!

“Abra um pouco as pernas.”

Até o fim da frase, Nevils já tinha me feito ficar na posição certa.

“Respira.” Eu disse baixinho, com o corpo encostado nas costas dele, enquanto ele segurava minha arma.

“Respira junto comigo.” Ele ordenou. Meus dedos tocaram o gatilho.

“Vai atirar em outro alvo, não nesse. Quando eu mandar.”

Nevils abaixou a cabeça e ajeitou meu braço quando o primeiro carregador acabou e ele trocou por outro. Então começou a explicar:

“O que você segura na mão é uma HK45. É uma pistola semiautomática com magazine. Tem recuo leve, não muito forte. Mas se a arma esquentar demais, o cano pode travar. Essa arma pode ser usada de dois modos: ação simples e ação dupla. Já a que está na mesa é uma HK33, uma carabina para uso em selva. A coronha parece de plástico. É uma arma de cano longo, de assalto. A diferença principal dessa carabina é que você precisa decorar cada detalhe e saber como usar.”

Olhei para o garoto que me explicava tudo aquilo. Disse a ele que não sabia nada sobre armas e que nem tinha prestado atenção direito. Que eu nem sabia que os braços dele eram daquele jeito, nem que as costas dele eram tão largas. Também não sabia se ele estava me chamando de burro ou não. Nem lembro mais o que ele falou.

“Você entendeu o que eu falei até agora?”

O jeito que ele me perguntou fez meu rosto corar. Apertei os lábios, tentando manter a expressão séria.

“Entendeu? Se sim, atira. Acertar não é necessário. Só lembra?”

“Se é assim, o que eu faço?” — perguntei, olhando para o garoto sem entender nada.

Olhei para a arma que ainda estava na minha mão e então encarei a cara dele.

“É... HK... é...”

Nevils respirou fundo, visivelmente irritado, antes de soltar o ar e usar o dedo para levantar meu queixo.

“E esse?”

“Ah... HK...”

Lembra desse, pelo menos, né?

Nevils me olhou sem saber se ria ou não. Não tive como saber de onde vinha aquele olhar. Era um olhar de provocação, mas que eu não conseguia ignorar. Não me importo com o que dizem sobre mim nesse lugar. Mas digo: não tenho nenhuma imagem para manter em uma cidade assim, ainda mais depois de tudo.

Sorte que o Nevils não deu importância para aquilo. Mudou de assunto como se nada tivesse acontecido.

“Isso aqui já foi usado pelo pessoal da cavalaria. Agora eles não usam mais. Você pode ficar com um se quiser.”

Eu pegaria um daqueles três revólveres sem nem pensar duas vezes. O formato parecia comum, igual aos outros. Já o cabo era diferente, meio rústico, como se tivesse sido feito por um artesão daqui mesmo. Mas era o tipo de arma que combina com o punho de alguém como eu. Peguei um sem hesitar, antes que ele se arrependesse e pegasse de volta.

“Vamos treinar com alvos móveis primeiro. Se conseguir acertar, te deixo usar um de verdade com munição. Depois te levo para treinar com alvos fixos, mais adequado.”

Assenti, concordando, já que não tinha nada que eu pudesse dizer contra uma ordem daquelas.

“Levanta. Aponta para aquele alvo. Fique ereto. Braço esquerdo deve estar a um palmo do corpo. Não curve o ombro.” — ele explicou.

Fiz o que ele mandou sem reclamar, antes que ele falasse mais alguma coisa.

“Aperte com a mão esquerda o mais forte que conseguir. Dobre os dedos um pouco. Inspire fundo e prenda a respiração, solte o ar devagar junto com o tiro. Mão direita só usa para puxar o gatilho.”

Falou o quê, meu amigo?

“Pode explicar de novo usando palavras que um plebeu como eu entenda?” — franzi a testa para ele.

Nevils suspirou, fundo. Veio até mim e ajustou meu braço com a mão, fazendo com que eu entendesse o que ele queria dizer.

“Se fizer assim, o tiro não vai sair torto.”

“Não treinei desse jeito antes. O primeiro dia já começa assim, é complicado pra caramba.”

“Se continuar assim.” — ele repetiu, sem perder a calma.

Ok. Entendi que ele só queria me ver passar vergonha na frente dele primeiro. Deixa eu ver o que esse xerife aí consegue fazer.

“Isso aí tá bom. Segura firme. Puxa o gatilho com calma, sem pressa.”

Mesmo assim, não vou conseguir acertar nem se me matar. Já atirei uma vez e errei feio. A sensação de derrota ainda não tinha passado.

“Eu disse que se errasse não ia ser bom pra você!” — Nevils disse, ríspido, me fazendo engolir o orgulho e tentar de novo.

“Você só vai acertar se ouvir minha voz até o fim, entendeu?”

Nevils se aproximou sem avisar. Pegou minha mão por trás, corrigindo minha postura.

“Ainda não. Mira bem na base. Você ainda nem está com a postura certa para atirar. Mesmo assim, se acertar alguma coisa, já é sorte. Não faça isso pela primeira vez.”

Eu queria enfiar a coronha da arma na boca daquele xerife metido a besta. Tinha cara de pau para falar isso!

Respirei fundo mais uma vez. Apontei e atirei. Mesmo errando, já era esperado que eu fosse alto demais para controlar o recuo. Mas assim que o tiro saiu, Nevils já se meteu no meio e me interrompeu na mesma hora.

“Não precisa se apressar, moleque.”

Eu engoli seco, com medo. Mas o jeito que ele falava, embora bruto, tinha um tom de quem realmente se importava, mesmo sem demonstrar nenhum traço de emoção no rosto. Só parecia alguém que não recebeu treinamento militar. Um pouco.

“Acabou de atirar pela primeira vez. Errar é normal. Não é que eu tenha te subestimado. É que eu não acredito que você vá acertar de primeira. Nem eu acertava quando comecei.”

“Não tem jeito mesmo?”

“Tem. Mira no alvo daquele manequim ali.” — eu sorri de canto.

Nevils riu mais ainda ao me ouvir. Depois empurrou minha cabeça para longe do ombro dele e pegou outro carregador da mesa, enfiou na arma e recarregou com um movimento firme, antes de levantar o braço e apontar para o alvo.

“Calma, firme, separa as pernas. A arma tem que estar alinhada com o ombro.” — ele disse como se estivesse recitando uma lição decorada.

Pude ver o pulso dele firme, e falei baixinho:

“Não é assim?”

Assim que terminei de falar, ele puxou o gatilho e nem se deu ao trabalho de olhar para o alvo. A bala acertou bem no meio do manequim de pano. O mais importante é que o ponto final de cada tiro dele também acertava.

Eu abri a boca, sem conseguir fechar. Enquanto ele atirava sem nem olhar, com a mão esquerda no bolso, o braço direito estendido. A postura perfeita do último tiro ainda estava cravada na minha mente.

Como faz isso?!

“Não faz essa cara, garoto.” — a voz do Nevils soou acima da minha cabeça, com um riso contido. Eu só consegui encará-lo, sem nem conseguir negar que ele era bom mesmo.

“Esse aqui também usa HK33.”

“Só fala e não atira, vai ficar olhando até quando? Bora, seu mole. Faz logo. Eu não tô de brincadeira.”

Fiquei calado ouvindo as ordens que ele soltava sem nem olhar para mim. A voz dele tinha um tom de quem mandava sem precisar levantar o volume. Eu só consegui obedecer, pressionando o gatilho com os dedos que tremiam de nervoso.

“Quase acerta, só errou por pouco.” — Nevils disse, sorrindo, e balançou a cabeça em sinal de aprovação.

“Não. Ainda não sou bom o suficiente pra atirar assim.”

“Não é tão simples assim.”

“Eu só sou um funcionário contratado pelos seus superiores. Se acontecer alguma coisa com você, eu vou ter que responder junto com eles. E se você morrer, eles vão me culpar também. Não esquece que minha vida depende de manter a sua inteira.” — retruquei.

Nevils olhou para um lado, como se refletisse, mas não disse nada. Só soltou um suspiro pesado, vindo de algum lugar fundo do peito.

“Chega. Não quero mais.” — larguei a arma.

“Volta para a estufa. Se não vai atirar, não tem motivo para ficar aqui. Não vou ficar parado vendo você se exibir na frente do meu pessoal com essa cara de quem não sabe segurar uma arma.”

“Não.”

“Eu mandei voltar.”

“Eu falei que não vou!”

“Isso é uma ordem.”

Ah, que droga. Não tem como vencer.

Eu estava prestes a retrucar quando ele veio para cima. Nevils não me deu tempo de reagir. A mão dele veio rápida, agarrou meu pulso com força antes que eu pudesse me afastar. Fui puxado de volta sem cerimônia, e o peso do corpo dele me prendeu contra a bancada. Não deu tempo de pensar, muito menos de sacar a pistola que ele tinha me entregado antes. Eu só consegui sentir o hálito dele perto do meu ouvido, quente e irritado, enquanto ele trancava meu pulso com uma das mãos e usava a outra para segurar meu queixo.

_Pá!_

“Ei! O que pensa que está fazendo?!” — gritei, tentando me soltar, mas Nevils foi rápido. Ele me prendeu com o corpo inteiro contra a bancada, usando o joelho para travar minha perna. Não consegui me mexer, e o pior é que ele estava segurando meu queixo com tanta força que doía.

Eu nunca imaginei que fosse acabar desse jeito. Sempre achei que fosse só treinamento, mas isso aqui já tinha passado do limite faz tempo. E o pior de tudo é que, por mais que eu odiasse admitir, uma parte de mim não queria que ele parasse. Era como se meu corpo respondesse sozinho à presença dele, como se reconhecesse uma autoridade que eu mesmo não entendia.

“Você não tem ideia do perigo que corre ficando perto de mim. Acha mesmo que consegue sair daqui sozinho? Se eu quiser, posso te quebrar agora e ninguém vai perguntar nada. Essa cidade inteira pertence aos meus superiores, e você é só mais um recruta idiota que eles mandaram pra cá.” — a voz dele saiu baixa, quase um rosnado, antes de apertar ainda mais o meu queixo.

O silêncio que se instalou depois daquilo me fez sentir um frio na espinha que eu não conseguia explicar.

“Y-Ya... já chega, solta!” — tentei empurrar o peito dele antes que ele fizesse algo pior.

Mas a mão dele não cedeu. Quanto mais eu empurrava, mais ele pressionava. E ele nem parecia estar fazendo esforço.

“Eu devia te ensinar uma lição, já que você não sabe qual é o seu lugar.”

Naquele instante, ele soltou um grunhido abafado. Quase não acreditei quando a mão dele subiu e apertou meu ombro, como se fosse me esmagar. Todo o peso do corpo dele caiu sobre mim, e num único movimento ele me prendeu contra a bancada. Mesmo sem usar força total, eu não conseguia me mexer. Além de segurar meu queixo, a outra mão dele travou meu pulso com tanta força que parecia que ia quebrar. O homem que eu conhecia como calmo e frio agora me encarava com um olhar que eu nunca tinha visto antes. Como se eu fosse o inimigo dele.

“Y-Ya... já chega, solta de uma vez!” — tentei falar com a voz trêmula, torcendo para que ele parasse antes que eu perdesse o controle e fizesse alguma burrice por impulso.

Nevils ficou me encarando por alguns segundos antes de, finalmente, soltar meu queixo e me empurrar de leve, como se eu fosse só um inseto irritante.

“Lembra do que eu te falei da última vez?” — ele disse, e então empurrou meu ombro sem nem me olhar. “Levanta. E volta a mirar no alvo da sua frente.”

Ai... que droga.

O cheiro de pólvora dos tiros que Nevils disparou antes ainda pairava no ar. Engoli em seco e ergui a arma, mesmo com as mãos tremendo. Era horário de folga, mas o pessoal do campo de tiro tinha saído para almoçar, me deixando sozinho com ele naquele lugar abafado.

Respirei fundo antes de subir a arma, tentando ignorar a dor latejante no queixo. Antes disso, percebi que tinha um homem parado perto da porta, olhando para mim com um sorriso no rosto, como se estivesse se divertindo com a bronca que eu levei do treinador. Usava um colete tático por cima da camisa e um coldre no quadril. Não parecia ser daqui. Talvez fosse algum segurança particular ou alguém da cidade vizinha vindo só para praticar.

“Vai atirar ou não?”

Ele tirou os olhos da arma e me encarou de novo antes de dizer, com um tom de quem estava se divertindo:

“Vai pro campo de treinamento da academia?”

“Vou pra onde?”

“É lá que os novatos como você treinam com munição real antes de serem mandados pra campo.”

“Então é lá que eu vou ficar mesmo.”

O que ele falou depois disso eu não consegui entender direito, porque o som do tiro ecoou alto demais no campo vazio. Só sei que ele pegou a arma da mesa, verificou o carregador e apontou para o alvo sem nem piscar.

“Isso.” — ele disse, baixo. — “Agora tenta de novo. Só que dessa vez, mira de verdade.”

“Quem mandou você ficar parado aí feito um idiota? Acha que vai aprender alguma coisa só olhando? Mira no centro do alvo e puxa o gatilho.” — disse, desviando o olhar da mira para me encarar. — “Ou vai ficar aí plantado o dia inteiro?”

Ele fez um gesto com a cabeça para eu me aproximar antes de sair andando na minha frente.

Olhei para ele, sem entender direito. O que ele queria dizer com aquilo? Ele ia me ajudar ou só estava tirando sarro da minha cara de novo?

Não tive tempo de pensar. Ele já tinha sumido de vista, e eu fiquei ali, parado, com a arma na mão e o coração batendo tão forte que parecia que ia sair pela boca.

“Fica quieto. Já te falei para não fazer barulho enquanto estou ensinando.”

“Não foi você que me mandou atirar?” — retruquei, irritado. A essa altura eu já não tinha mais medo nenhum de encarar ele.

“Se você continuar assim, vai acabar fazendo eu te deixar sozinho aqui de novo.”

“Não precisa.” — resmunguei.

Ele não disse mais nada. Só saiu andando do campo, me deixando ali sozinho com o som dos disparos ecoando no silêncio. A tensão que eu sentia antes sumiu, dando lugar a um cansaço absurdo.

Eu queria poder voltar atrás só para evitar tudo isso. Treinar até cair era melhor do que ficar parado aqui, aguentando esse silêncio esmagador. Só que, por mais que eu tentasse, não conseguia me mexer. Era como se meu corpo tivesse travado.

O cachorro late ao longe.

Depois de um tempo parado, ouvi passos voltando na minha direção. Quando ergui a cabeça, vi Nevils com uma expressão que eu não soube identificar. Ele quase não falava nada, só me observava.

“Vai ficar aí parado feito um idiota?”

Nevils me encarou por alguns segundos antes de caminhar até a bancada e pegar a caixa de munição que estava ali, jogando-a na minha direção sem cuidado nenhum.

“Pega suas coisas.”

“Pegar o quê?” — perguntei, confuso, ainda sentado no chão.

“Você não vai dormir aqui.”

“Não vou a lugar nenhum até você me dizer para onde quer que eu vá.” — rebati, sem conseguir disfarçar o cansaço. Ele me olhou como se eu fosse uma criança teimosa, e então suspirou fundo, como se estivesse se segurando para não me dar um tiro ali mesmo ou me deixar naquele buraco para sempre.

“Droga. Você acha que tem escolha nessa porcaria de lugar?”

A resposta dele me fez engolir seco. O jeito como ele falou não deixou espaço para discussão.

“Então para onde eu vou?”

“Para o meu quarto.”

“Que quarto?”

“É melhor você dormir no quarto do que ficar aqui… na casa do seu treinador.”

Quando ele respondeu, meu coração quase parou. Não acreditei no que estava ouvindo, e a ideia de dividir o mesmo teto com ele me deixou com um nó na garganta.

“Você quer o quê com isso?” — perguntei, sem conseguir esconder o nervosismo.

“Manter você sob vigilância.”

“Isso tem alguma coisa a ver com eu ter que dormir na sua casa?” — retruquei, cruzando os braços. Deixei claro que não estava nem um pouco a fim de ir para lá, nem que fosse por um minuto. Quanto mais perto dele eu ficava, mais eu sentia que ia acabar mal todos os dias.

Mas Nevils não disse nada além daquela ordem seca.

“Eu te dou dez minutos. Pega suas coisas e volta para o estábulo. Se eu voltar e você ainda estiver aqui, vou ter que te contar o que acontece com quem me desobedece.”

Assim que terminou de falar, ele saiu do campo de tiro sem nem olhar para trás, me deixando ali parado, de queixo caído.

Que filho da mãe desgraçado!


*Pistola HK45C*: É uma pistola semiautomática calibre.45 ACP, com comprimento do cano de 3,94 polegadas. Capacidade do carregador: 8+1 ou 10+1 tiros. É compacta, leve e fácil de manusear. Costuma ser usada como arma secundária por unidades militares ou forças especiais americanas.[1]

*Fuzil de assalto HK33*: Também chamado de HK33A2, é um fuzil de assalto calibre 5.56×45mm NATO. O Exército Real Tailandês o designa como "Fuzil Tipo 11". É uma arma para combate de infantaria, semelhante ao M16. Tem cano de 0,223 polegadas de diâmetro e comprimento de 36,22 polegadas. É leve, com baixo recuo e alta precisão, sendo adotado pelo Exército Real Tailandês em 1968. Foi fabricado na Alemanha.[2]


Sotus - Capítulo 19

Capítulo 19

Regra nº 19 para os calouros: "A engrenagem tem um significado importante."¹

— Então, o que você acha, Kongpob?

— Kongpob?

— Está me ouvindo?

Kongpob voltou a prestar atenção na conversa dos amigos. Eles estavam reunidos em um dos bangalôs à beira-mar, discutindo a apresentação que fariam naquela noite.

Fragmentos da conversa chegavam aos seus ouvidos de forma desconexa. Seus amigos o incluíam nos planos, e ele apenas assentia, sem realmente entender do que estavam falando. Em determinado momento, alguém lhe fez uma pergunta. Sem perceber qual era, Kongpob notou que todos voltaram os olhos para ele, aguardando sua resposta.

— Sim, eu ouvi. — Ele sorriu, tentando afastar os próprios pensamentos. — Concordo.

Assim que recebeu sua confirmação, May tratou de avisar o restante do grupo, completamente alheia ao fato de que Kongpob não fazia ideia do que acabara de aprovar.

Sua mente estava ocupada demais para pensar em qualquer outra coisa.

Tudo o que havia acontecido naquele dia deixara marcas profundas, não apenas no coração dos calouros, mas também no daquela pessoa...

A pessoa em quem ele não conseguia parar de pensar.

Arthit estava bravo com ele.

Não do jeito habitual.

Sendo sincero consigo mesmo, Arthit parecia viver irritado com ele. Mas, daquela vez, era diferente.

E Kongpob sabia muito bem o motivo.

Quanto mais pensava no que havia acontecido durante o dia, mais vontade tinha de bater em si mesmo. Agira por impulso, sem medir as consequências. Tudo o que queria era aliviar o calor sufocante das próprias emoções mergulhando na água fria.

Só que sua imprudência acabara fazendo muita gente se preocupar.

Principalmente a mesma pessoa que lhe dera a ordem de entrar no mar.

A mesma pessoa que correu primeiro para socorrê-lo, acreditando que ele estivesse em perigo.

Kongpob ainda conseguia recordar perfeitamente o rosto severo de Arthit, sua voz carregada de ansiedade e aqueles olhos assustados, tão próximos do seu.

Naquele instante, Kongpob teve certeza de que Arthit realmente se preocupava com ele.

Mas, quando Arthit percebeu que tudo não passara de uma enorme imprudência causada pela estupidez de Kongpob, foi como se tivesse levado um soco no rosto.

Toda a preocupação que demonstrara foi reduzida a motivo de chacota.

E essa preocupação transformou-se em pura raiva.

Kongpob queria se desculpar.

Queria muito.

O problema era que não sabia o que dizer.

Não havia desculpa capaz de justificar o que fizera.

Mesmo assim, saiu andando pelo resort na esperança de encontrar Arthit. Talvez, se conseguisse falar com ele a sós...

Mas Arthit não estava em lugar algum.

Depois de quase uma hora caminhando sem rumo, acabou sendo arrastado pelos amigos de volta ao grupo.

Sem alternativa, desistiu de procurá-lo e seguiu os demais calouros até o refeitório, carregando um peso sufocante no peito.

Sua cabeça estava um caos.

Os pensamentos rodopiavam sem parar, atormentando-o.

Kongpob soltou um longo suspiro, expirando com força, como se pudesse expulsar toda aquela angústia junto com o ar.

Naquela noite haveria uma apresentação preparada pelos calouros.

Depois de todas as atividades organizadas pelos veteranos, era natural que Arthit estivesse presente, já que era o líder do trote.

Kongpob tinha certeza de que aquela seria a última prova imposta aos calouros.

E estava decidido a dar o melhor de si.

Queria provar ao líder do trote que era digno de ser chamado de estudante da Faculdade de Engenharia.

E, acima de tudo...

Esperava que, ao ver seu esforço, Arthit aceitasse ouvi-lo.


---

Depois do jantar, todos os calouros receberam a instrução de se reunir no auditório principal.

Todos os anos era realizada ali uma cerimônia que reunia estudantes do primeiro ao quarto ano.

O evento começou com um discurso de um representante do quarto ano, Dear.

Em seguida, alguns alunos tocaram músicas acompanhadas de violão, arrancando aplausos calorosos dos calouros.

As meninas eram, de longe, as que gritavam mais alto.

Depois de algumas canções populares, o grupo de animação do segundo ano subiu ao palco para apresentar uma esquete cômica, cheia de piadas e atuações exageradas.

Eles haviam adiantado sua apresentação porque os alunos do terceiro ano ainda não estavam prontos.

Assim, quando terminaram...

Era a vez dos veteranos responsáveis pelo trote.

Só que eles continuavam se preparando.

Sem outra alternativa, decidiram adiantar a apresentação dos calouros.

Kongpob entrou no palco para interpretar seu papel.

Felizmente, não era nada difícil.

A peça havia sido escrita por May e retratava o primeiro dia de um estudante na universidade: conhecer novos amigos, reencontrar antigos colegas, participar da primeira reunião e aprender alguns dos conselhos transmitidos pelos veteranos.

Kongpob sequer era o protagonista.

Na verdade, tinha apenas três falas.

Sua participação também era curta.

Depois da primeira entrada em cena, afastou-se para um canto enquanto aguardava o momento de voltar ao palco.

Foi então que aproveitou para olhar ao redor.

Entre os veteranos do terceiro ano que assistiam à apresentação...

Ele finalmente encontrou o rosto que procurara o dia inteiro.

Arthit.

Alguns calouros estavam levando materiais para a apresentação dos veteranos, e Kongpob aproveitou para ajudá-los.

Sentiu um enorme alívio ao ver Arthit ali.

Apenas vê-lo já parecia aliviar um pouco o peso em seu coração.

"Não vou perder esta chance."

Era sua oportunidade de pedir desculpas.

Tomando coragem, caminhou em direção ao líder do trote.

Mas, de repente...

Um arrepio percorreu sua espinha.

Seus passos congelaram no mesmo instante em que ouviu um calouro dizer, no palco:

— Está vendo esta engrenagem? Este símbolo representa o orgulho de um estudante de Engenharia. Então me diga... se eu não entregar a minha para você... o que pretende fazer?

— Eu vou tomá-la de você!

Kongpob virou a cabeça imediatamente.

Seu rosto perdeu toda a cor.

Aquela cena...

Era a reconstituição exata da primeira discussão que ele tivera com Arthit.

Até mesmo a frase provocativa que dissera naquele dia, desrespeitando completamente um veterano, estava sendo reproduzida.

Sem entender o que estava acontecendo, correu até May, que organizava a apresentação nos bastidores.

— May! Por que vocês colocaram essa cena na peça?

Ela piscou, surpresa.

— Esqueceu? Eu perguntei se havia algum problema em incluir essa parte. Você disse que estava tudo bem.

Kongpob ficou sem fala.

Então se lembrou.

Devia ter sido justamente naquele momento em que sua cabeça estava longe dali.

Respondera automaticamente...

Sem saber com o que estava concordando.

E o pior...

Arthit estava assistindo a tudo.

A apresentação continuou.

E o desespero de Kongpob só aumentava.

A peça continuou.

— E como pretende tirar a minha engrenagem?

— Vou fazer de você minha esposa. Dizem que entre amantes tudo é compartilhado. Se você for meu, sua engrenagem também será minha!

O auditório explodiu em gargalhadas e aplausos.

Aquela frase já havia se tornado famosa entre os calouros.

Mas, para a pessoa que realmente a dissera...

Não havia absolutamente nada de engraçado.

Kongpob sentia o rosto arder de vergonha.

Só então percebeu o quanto, desde o primeiro encontro, havia se esforçado para provocar Arthit.

Se tivesse falado daquela maneira com qualquer outro veterano, provavelmente teria levado uma surra.

Além disso...

Ele nem sequer se lembrava de que suas palavras haviam soado tão insinuantes.

Mesmo depois de tudo aquilo, Arthit nunca procurou humilhá-lo diante dos outros.

Era verdade que o líder do trote lhe aplicara castigos severos, mas Kongpob agora entendia que aquilo jamais fora por simples vingança.

Por trás de cada punição havia um motivo.

Tudo o que Arthit fazia tinha uma razão.

E foi justamente isso que fez Kongpob desejar conhecê-lo melhor.

Queria saber tudo sobre ele.

Mais do que qualquer outra pessoa.

Sempre que descobria que existiam lados de Arthit que desconhecia...

Sentia uma estranha pontada no peito.

E, quando via Arthit sorrindo ou sendo gentil com outras pessoas, uma sensação difícil de explicar tomava conta dele.

Era...

Ciúme.

Ciúme de pessoas que podiam conversar normalmente com Arthit.

Porque, entre os dois, nunca existira uma conversa de verdade.

Kongpob queria recomeçar.

Mas...

Ainda haveria tempo?

Será que Arthit conseguiria esquecer toda a impressão ruim que ele havia causado?

Ele esperava que sim.

Precisava pedir desculpas.

Precisava que Arthit aceitasse seu arrependimento.

E, quem sabe...

Um dia...

Os dois pudessem se tornar próximos.

Mas esse pequeno desejo desapareceu no instante seguinte.

Ao mesmo tempo em que olhava para o palco...

Viu Arthit avançar furioso em direção a ele.

Sem hesitar, o líder do trote subiu ao palco e interrompeu a apresentação.

Sua voz ecoou pelo auditório exatamente como fazia durante as reuniões dos calouros.

— O que há de tão engraçado, calouros? Porque eu não estou achando graça nenhuma!

O silêncio foi imediato.

— Vocês são muito corajosos para apresentar uma peça dessas. Acham mesmo que merecem receber as engrenagens depois disso?

Seu olhar percorreu os estudantes que ainda estavam no palco.

Era frio.

Cortante.

— Vocês... saiam daí. Agora!

Os calouros desceram às pressas.

Todo o auditório mergulhou num silêncio sufocante.

May, autora da peça, estava completamente pálida.

Na verdade, o final da apresentação mostraria os alunos rebeldes compreendendo os verdadeiros motivos por trás das punições dos veteranos e agradecendo por terem sido orientados.

Mas Arthit interrompera tudo antes desse momento.

O objetivo da peça acabara sendo completamente mal interpretado.

Então ele gritou novamente.

— Todos... fechem os olhos! Cabeças abaixadas! Agora!

Nenhum calouro ousou desobedecer.

Todos abaixaram a cabeça até quase encostarem a testa no chão.

Nesse instante...

As luzes do auditório se apagaram.

A escuridão tomou conta do ambiente.

O medo voltou imediatamente.

Será que perderiam o direito de receber as engrenagens?

Ou seriam submetidos a mais uma prova cruel como a batalha pela bandeira?

Ninguém sabia.

O silêncio parecia interminável.

Cada segundo aumentava a tensão.

Então...

Uma contagem regressiva começou a ecoar pelos alto-falantes.

Logo depois...

O projetor foi ligado.

Na tela apareceu um vídeo.

As primeiras imagens mostravam os alunos do terceiro ano enfrentando exatamente os mesmos treinamentos físicos pelos quais os calouros haviam passado.

Depois surgiram os estudantes do segundo ano.

O grupo de animação ensaiando os hinos da universidade.

O grupo de primeiros socorros correndo de um lado para o outro para atender os estudantes durante as atividades físicas.

Por fim...

Apareceram os próprios calouros.

As imagens da conquista da bandeira.

O momento em que receberam as pulseiras brancas amarradas pelos veteranos como votos de boa sorte.

Cada cena despertava lembranças.

Momentos de esforço.

Companheirismo.

Sacrifício.

União.

O vídeo durou apenas cerca de dez minutos.

Mas foi suficiente para emocionar todos os presentes.

Quando terminou...

A tela ficou preta por alguns segundos.

Então surgiu outra imagem.

Os integrantes do grupo responsável pelo trote estavam sentados em um banco de pedra diante do prédio principal da Faculdade de Engenharia.

No centro deles...

Estava Arthit.

Sua expressão parecia estranhamente perdida.

Como se não soubesse muito bem o que fazer.

Ele olhou para a câmera.

— Ei... já está gravando?

Alguém respondeu atrás da câmera:

— Está! Fala logo!

— Hã? Por que eu?

— Porque você é o líder!

Todos riram.

Arthit fez uma careta.

Pigarreou discretamente.

E começou a falar.

Sua voz voltou a ser firme.

A mesma voz do líder do trote.

— Calouros... vocês provavelmente sabem que todas as provas pelas quais passaram durante esses últimos três meses foram preparadas por nós, alunos do terceiro ano.

Ele fez uma pequena pausa.

— Durante todo esse tempo acompanhamos o crescimento de cada um de vocês.

— O verdadeiro objetivo do trote... sempre foi ensinar o significado da união.

— E acreditamos que vocês conseguiram aprender isso.

Se, em algum momento...

Nós machucamos vocês...

Ou ferimos seus sentimentos...

Gostaríamos de pedir desculpas.

O auditório permaneceu completamente em silêncio.

Então Arthit ergueu os olhos e encarou diretamente a câmera.

Era como se estivesse olhando nos olhos de cada calouro.

— Assim como vocês sempre precisaram pedir nossa permissão para fazer muitas coisas...

Agora...

Somos nós que queremos pedir a de vocês.

Respirou fundo.

E perguntou:

— Calouros... vocês nos permitem ser seus veteranos?

Aquelas palavras fizeram o auditório inteiro mergulhar no mais absoluto silêncio.

Naquele instante...

Todos compreenderam.

Ser veterano nunca significou mandar.

Nunca significou possuir autoridade apenas por ter entrado antes.

A verdadeira relação entre veteranos e calouros era construída pela aceitação mútua.

Pelo respeito.

Pela confiança.

Pela união.

A voz de Arthit voltou a soar pelos alto-falantes.

— Se a resposta for "sim"... estaremos esperando por vocês na praia.

A tela se apagou.

Sem precisar dizer uma única palavra...

Todos os calouros se levantaram ao mesmo tempo.

E correram em direção à praia.

Assim que chegaram à praia, os calouros pararam, completamente maravilhados.

Diante deles havia um caminho iluminado por centenas de pequenas velas protegidas por copos de vidro. A luz tremeluzente refletia na areia e criava uma atmosfera quase mágica.

Os estudantes dos quatro anos da Faculdade de Engenharia estavam alinhados dos dois lados daquele caminho, aguardando silenciosamente a chegada da nova geração.

À frente de todos...

Havia apenas uma pessoa.

Arthit.

Ele permaneceu parado, com a postura firme, mas sem a rigidez que costumava demonstrar durante o trote. Seu olhar percorreu cada um dos calouros antes de falar em voz alta:

— Calouros! No fim deste caminho estão as engrenagens! Agora chegou a hora de eu cumprir meu último dever como líder do trote... conduzir vocês até elas!

Ao terminar, Arthit caminhou até a areia e sentou-se ao lado dos demais veteranos responsáveis pelo trote e dos integrantes da equipe de animação.

Então todos fizeram o mesmo movimento.

Sentaram-se frente a frente e entrelaçaram os braços, segurando os cotovelos uns dos outros, formando uma ponte humana.

Era o chamado "ponte viva".

Por ela, cada calouro atravessaria simbolicamente o caminho até se tornar um verdadeiro estudante da Faculdade de Engenharia.

Enquanto isso, o hino da faculdade começou a ecoar pela praia.

A cerimônia ganhou uma solenidade que emocionou todos os presentes.

Cada calouro era acompanhado por dois veteranos ao atravessar a ponte.

Embora ela tivesse apenas alguns metros de comprimento, cada passo parecia carregar um peso enorme.

Todos sabiam que estavam apoiando o próprio corpo sobre os braços unidos de seus veteranos.

Especialmente sobre o primeiro deles.

Aquele que recebia o maior impacto de cada pessoa que passava.

Mesmo assim...

Ninguém reclamava.

Todos compreendiam o significado daquele gesto.

Quando chegou sua vez, Kongpob parou diante da ponte.

Seu olhar encontrou Arthit.

Em voz tão baixa que quase foi engolida pelo vento do mar, murmurou:

— Me desculpe... P'Arthit.

Arthit ergueu os olhos por um breve instante.

Ao reconhecer Kongpob...

Desviou imediatamente o olhar.

Como se ele não existisse.

As palavras de desculpa desapareceram junto com a brisa.

Kongpob compreendeu.

Naquele momento não era a hora.

Mesmo assim, atravessou a ponte em silêncio.

Guiado pelos veteranos, caminhou até o final do caminho iluminado, onde outra pessoa o aguardava.

Era Dear.

O antigo líder do trote.

Em suas mãos estavam as engrenagens da nova turma.

Cada uma delas trazia gravado o símbolo da Faculdade de Engenharia e o número da geração correspondente.

Assim que Kongpob se aproximou, Dear levantou uma delas.

— Calouro. Qual é o seu nome?

— Kongpob.

Dear sorriu.

— Ouvi dizer que foi você quem sugeriu agradecer ao Arthit no dia da disputa pela bandeira. É verdade?

Kongpob ficou surpreso com a pergunta.

Ainda assim, respondeu honestamente:

— Sim.

— Foi uma excelente ideia.

Dear deu um leve tapinha em seu ombro.

— Me diga... você gostaria de ser o próximo líder do trote?

Kongpob arregalou os olhos.

— Eu?

— Sim.

Você ainda tem tempo para pensar.

Só precisará decidir quando estiver terminando o segundo ano.

Mas, por enquanto...

Vamos considerar essa vaga reservada para você.

O que acha?

A proposta pegou Kongpob completamente desprevenido.

Ele sequer entendia por que Dear o havia escolhido.

Antes que pudesse fazer qualquer pergunta...

Dear colocou delicadamente a engrenagem em sua mão.

— Tome.

Este é o símbolo da Faculdade de Engenharia.

A engrenagem possui muitos significados.

Cuide bem dela.

Kongpob ouviu atentamente enquanto Dear lhe explicava o verdadeiro valor daquele símbolo.

Era mais do que um simples acessório.

Era um ensinamento passado de geração em geração.

Depois de agradecer respeitosamente, Kongpob deu lugar ao próximo calouro.

Quando todos receberam suas engrenagens...

Veteranos e calouros cantaram juntos os hinos da Faculdade de Engenharia e da universidade.

Com aquilo...

A cerimônia do trote finalmente chegou ao fim.

Logo depois começou a comemoração.

Os alunos do terceiro ano haviam preparado uma festa para dar boas-vindas oficialmente à nova geração.

Havia karaokê.

Comida.

E, claro...

Cerveja.

Os amigos de Kongpob tentaram arrastá-lo para beber com eles.

Mas ele recusou.

Ainda havia uma coisa que precisava fazer.

Precisava conversar com Arthit.

Precisava resolver tudo entre eles.

Só que...

Arthit havia desaparecido.

Durante toda a cerimônia, seus olhares se cruzaram algumas vezes.

Entretanto, assim que tudo terminou, Arthit sumiu em meio à multidão.

Kongpob procurou por toda parte.

Na mesa dos veteranos.

Na praia.

Entre os grupos espalhados pela festa.

Nada.

Começou até a lamentar não possuir o número de telefone de Arthit.

Talvez pudesse pedir o contato a alguém...

Foi justamente quando pensava nisso que avistou uma silhueta caminhando sozinha em direção aos bangalôs.

Era Arthit.

Kongpob correu atrás dele.

Então percebeu algo.

O braço esquerdo de Arthit estava enfaixado.

Era justamente o braço que ficara na ponta da ponte viva, sustentando o peso de todos os calouros.

Seu coração apertou.

Claro...

Ele havia se machucado.

Mesmo suportando tudo sem demonstrar dor durante a cerimônia, agora Arthit massageava discretamente o braço.

Sem pensar duas vezes, Kongpob acelerou os passos.

— P'Arthit! Preciso falar com você!

Arthit parou no meio da escada.

Não respondeu.

Nem sequer se virou.

Apenas permaneceu imóvel.

Esperando que Kongpob dissesse o que queria.

Kongpob respirou fundo.

E falou aquilo que guardava desde cedo.

— Quero pedir desculpas.

As palavras saíram diretamente do coração.

Kongpob realmente queria que Arthit entendesse o quanto estava arrependido.

Sem perceber, seus olhos se encheram de expectativa.

Arthit, porém, manteve a mesma expressão fria de sempre.

— Pedir desculpas? Pelo quê?

— Por todas as vezes em que fiz você ficar bravo.

Arthit lançou-lhe um olhar breve antes de perguntar:

— Se você sabia que isso me irritava... por que continuou fazendo?

A pergunta era simples.

Mas atingiu Kongpob em cheio.

Ele permaneceu calado.

Nem ele próprio sabia responder.

Por que sempre fazia questão de provocar Arthit?

Por que gostava tanto de vê-lo irritado?

E, se era assim...

Por que agora desejava desesperadamente ser perdoado?

— Eu... — começou, sem conseguir completar a frase.

Arthit soltou um longo suspiro.

Parecia realmente cansado.

— Esquece isso.

Estou cansado de ficar brigando com você.

Depois de dizer aquilo, virou-se e caminhou de volta para a festa dos veteranos.

Kongpob permaneceu parado na areia.

Sentia como se algo muito importante tivesse escapado de suas mãos.

Era justo.

Durante três meses só fizera provocar Arthit.

Era natural que ele não quisesse mais perder tempo com alguém como ele.

A pessoa que, sem perceber, havia ocupado um espaço enorme em sua vida...

Agora o rejeitava.

Em apenas três meses, Kongpob havia passado a guardar cada lembrança envolvendo Arthit.

Cada discussão.

Cada encontro.

Cada pequeno momento.

Arthit havia se tornado sua motivação.

A razão de muitos de seus sorrisos.

Alguém que surgira inesperadamente em sua vida e que ele desejava conhecer melhor do que qualquer outra pessoa.

Nunca sentira aquilo por ninguém.

E agora...

Tudo parecia ter chegado ao fim.

Com o encerramento do trote, talvez nunca mais tivesse uma oportunidade de conversar com Arthit.

Kongpob abaixou a cabeça.

Guardou aquele sentimento no fundo do peito.

Estava prestes a voltar para a praia quando sentiu algo gelado tocar seu pescoço.

Assustado, virou-se imediatamente.

Diante dele...

Estava Arthit.

Na mão, uma lata de cerveja bem gelada.

— Quer?

Ainda atordoado, Kongpob aceitou a lata.

Arthit sentou-se tranquilamente na areia, abriu a própria cerveja e deu um gole.

Sem conseguir esconder a surpresa, Kongpob perguntou:

— Achei que você não quisesse mais falar comigo.

Arthit deu outro gole antes de responder.

— Eu nunca disse isso.

O que eu disse foi que não queria mais brigar com você.

Se quer conversar...

Então sente aí.

Ou mudou de ideia?

— Não!

Quero conversar!

Kongpob respondeu depressa, sentando-se ao lado dele.

Por um instante, ficou apenas observando o mar.

A brisa era agradável.

O céu estava completamente estrelado.

O clima transmitia uma estranha sensação de paz.

Depois de alguns segundos de silêncio, Kongpob finalmente fez a pergunta que desejava havia muito tempo.

— P'Arthit...

Por que você decidiu se tornar o líder do trote?

A resposta veio sem qualquer hesitação.

— Porque me obrigaram.

Kongpob quase engasgou com a cerveja.

Arthit continuou naturalmente:

— P'Tum era o líder quando eu era calouro.

Foi ele quem me escolheu para substituí-lo.

Na verdade...

Eu nunca quis esse cargo.

Ser líder do trote significa carregar muitas responsabilidades.

E eu sempre tive um temperamento difícil.

No primeiro dia das reuniões, quando agarrei você pela gola da camisa...

Quase perdi minha posição.

Kongpob arregalou os olhos.

Arthit continuou:

— Eu deveria apenas ter chamado sua atenção.

Nunca poderia ter encostado em você.

Meus amigos assumiram parte da culpa por não terem me impedido.

Como manda a tradição...

Quando um membro erra, todos dividem a responsabilidade.

Por isso, P'Dear resolveu deixar passar.

Como era minha primeira falha...

Recebemos apenas vinte voltas de punição no estádio.

Kongpob nunca soubera disso.

Naquele instante compreendeu que tudo acontecera por sua causa.

Baixou a cabeça.

— Me desculpe...

Arthit deu de ombros.

— Já passou.

Além disso...

Você também recebeu punição por causa da sua insolência.

Depois disso, ficou olhando para o mar em silêncio.

Kongpob aproveitou para mudar de assunto.

— Você lembra da aposta da competição Lua e Estrela?

Arthit assentiu.

— Lembro.

Já decidiu o que vai pedir?

— Sim.

Você está livre no próximo sábado?

— Estou.

— Quero sair para comprar algumas coisas.

Você pode ir comigo?

Arthit piscou, surpreso.

Durante dois meses imaginara que Kongpob pediria algo absurdo para humilhá-lo.

Mas...

Era só isso.

— Tudo bem.

Um enorme sorriso surgiu no rosto de Kongpob.

— Então me passa seu número.

Eu também vou te dar o meu.

Enquanto Kongpob pegava o celular, Arthit olhou para sua mão esquerda.

Franziu a testa.

— Quando pretende tirar isso?

— Tirar o quê?

Arthit apontou.

A pulseira branca ainda estava presa ao pulso de Kongpob.

— O que ela tem?

Eu gosto dela.

Kongpob sorriu suavemente.

Seus olhos brilhavam de um jeito estranho.

Arthit não conseguiu sustentar aquele olhar.

Sentiu o rosto esquentar.

E desviou os olhos.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa...

Uma voz ecoou atrás deles.

— Arthit! Onde diabos você se meteu? Volta logo! Todo mundo está esperando!

Arthit levantou-se imediatamente.

— Já estou indo!

— Espere, P'Arthit!

Kongpob também ficou de pé.

— Tenho uma coisa para você.

— O quê?

— Me dá sua mão.

Arthit fez uma expressão claramente contrariada.

Mesmo assim...

Estendeu a palma.

Kongpob colocou a mão no bolso.

Retirou um pequeno objeto.

E o depositou cuidadosamente na mão de Arthit.

Arthit olhou.

Era a engrenagem que Kongpob acabara de receber.

— Está devolvendo isso para mim?!

A voz saiu mais alta do que pretendia.

Por um instante, acreditou que Kongpob estivesse zombando dele outra vez.

Mas Kongpob balançou a cabeça.

— Não.

Não estou devolvendo.

Só quero que você cuide dela para mim.

Arthit ficou completamente confuso.

— Eu?

Por quê?

Kongpob pareceu ainda mais surpreso.

— Você...

Não sabe o verdadeiro significado da engrenagem?

Achei que soubesse.

Se quiser entender...

Pergunte ao P'Dear.

Arthit ficou sem reação.

Logo naquele momento seus amigos voltaram a chamá-lo.

Sem tempo para insistir, apenas guardou a engrenagem no bolso e foi embora, ainda confuso.

Mais tarde, já sentado com os veteranos, decidiu perguntar diretamente a Dear:

— P'Dear...

Qual é o verdadeiro significado da engrenagem?

Dear deu uma risada.

— Que pergunta estranha.

Já ficou bêbado tão rápido assim, Arthit?

Depois respondeu:

— A engrenagem representa a união da Faculdade de Engenharia.

É o símbolo do nosso orgulho.

Por isso não é fácil conquistá-la.

Arthit fez uma careta.

Aquilo ele já sabia.

Achava que Kongpob apenas brincara com ele outra vez.

Então Dear completou:

— Mas existe outra coisa...

A engrenagem representa o nosso coração.

O coração funciona como uma engrenagem.

Por isso...

Quando você entrega sua engrenagem para outra pessoa...

É o mesmo que entregar o seu coração.

Arthit quase cuspiu toda a cerveja.

Engasgou violentamente.

Dear bateu em suas costas.

— Devagar!

Você ficou completamente vermelho.

Está bêbado mesmo.

Arthit não respondeu.

Apenas limpou os lábios.

Levou lentamente a mão até o bolso.

Sentiu a pequena engrenagem que Kongpob lhe entregara.

Seu coração começou a bater de forma estranhamente acelerada.

"...Então era esse o verdadeiro significado..."

A engrenagem que Kongpob havia colocado em suas mãos...

Era o coração de Kongpob.


Notas de tradução

¹ Engrenagem: nas Faculdades de Engenharia da Tailândia, a engrenagem é o principal símbolo do curso. Recebê-la representa o reconhecimento oficial do estudante como membro da faculdade. Além disso, existe um significado simbólico mais íntimo: entregar sua engrenagem a alguém pode representar confiar-lhe o próprio coração, o que explica a reação de Arthit ao descobrir seu verdadeiro significado.

Ma Please - Capítulo 03

Capítulo 03

— Se desobedecer o p’, sabe o que vai acontecer — foi a frase que o P’Prood disse com voz firme antes de sair dirigindo.

Fui deixado na frente do 7-Eleven onde trabalho, mas como já tinha passado duas horas do meu horário, e meu corpo não estava em condições de aguentar o trampo, liguei a contragosto para a gerente pedindo folga. Ela reclamou um pouco, mas quando disse que estava doente não insistiu mais. Só mandou tomar remédio e descansar.

Cada passo que eu dava doía pra caralho. Ainda bem que faltei. Senão teria que responder por que estava andando todo estranho. Andei mancando até o alojamento, aguentando uma dor insuportável. Essa primeira vez em que eu fiquei por cima enquanto o desgraçado do P’Prood só ficou sentado de boa curtindo o momento... e o dele não é pequeno. Cada estocada me deixava sem ar!

Hã? O quê? Fui forçado e não reclamei? Ah... isso é verdade. No começo eu não queria, mas o desgraçado do P’Prood é bom demais, me fez ceder. A dor virou prazer sem eu nem perceber quando. Além disso, sou homem. Chorar não ia fazer aquele desgraçado se responsabilizar. Vou considerar como caridade. E se não fosse pelo vídeo sacana que ele gravou, eu até perdoaria.

Porque... fazer sexo pela primeira vez com um cara do nível ‘Ma Prood’, alguém como eu até que teve sorte, né. Hehe.

Tomei dois comprimidos de paracetamol, tomei banho e fui direto pra cama. Estava com o corpo todo dolorido. Fechei os olhos e o rosto bonito de alguém ficou girando na minha cabeça...

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.  
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Faltei quatro dias de aula porque estava com febre. Hoje ainda não estou 100%, mas tenho apresentação de mini projeto com o professor à tarde, então precisei arrastar esse corpo até a faculdade.

— Seu desgraçado, Plueeeeem!!! — Gritaram meu nome por trás. Quando virei, vi o Khun Tik vindo com o pessoal do Prem. Eles vieram e cada um me deu um tapa na cabeça, antes de me encarar sem piscar.

— Por que tão me olhando?

— Você ainda pergunta! Onde você se meteu, hein?! Fui no seu alojamento e você não estava, no trabalho também não. Achei que tinha morrido, seu merda! — Khun Tik berrou, fazendo os colegas do meu departamento que estavam na mesa de pedra perto olharem curiosos, sem entender por que um aluno de outra faculdade estava gritando na frente do prédio da Engenharia da Computação.

— Eu estava dormindo no alojamento. Estava meio doente.

— No alojamento?! A gente bateu na porta até a mão quase quebrar, nenhum cachorro abriu! — Khun Prem retrucou.

Abrir pra vocês atrapalharem meu sono, é? -_-_ Quando estou doente não gosto que ninguém me encha.

— Seu desgraçado, perdi tempo indo te procurar até no prédio da Medicina. — Khun Fren reclamou, antes de abrir o MacBook Air para checar o trabalho que íamos apresentar à tarde.

Falando em prédio da Medicina - _ também fico triste de não poder mais ir lá. Se eu aparecer, viro protagonista de GV na certa. Mas se fosse só por mim, não ligaria. Não sou de viver pela opinião ou julgamento dos outros. O que eu temo... é só manchar a reputação da minha família. Como o Khun Tik vive me chamando de mendigo de sobrenome grande. Ele deve estar se perguntando de que lado da família real, dos ricos, dos donos de empresas gigantes eu sou. Mas eu só digo que meu pai deve ser um parente distante daquele povo.

Sendo que na verdade minha mãe tem o título de M.R.V., é pediatra no hospital da filial principal onde meu pai manda e desmanda como administrador. Meu pai é cirurgião, enquanto minha irmã está no último ano de Medicina na mesma universidade que eu. Mas os externos quase nunca ficam no campus, por isso eu nunca me preocupei em aparecer no prédio da Medicina. Mas agora preciso pensar duas vezes antes de chegar perto daquele prédio.

— Pluem, sua cara tá pálida. Ainda não melhorou não, cara? — Khun Kim perguntou, preocupado. Assenti e continuei olhando os slides da minha apresentação.

— Quer comer alguma coisa? Vou comprar pra você.

— Então compra um chá de crisântemo pra mim, Khun Kim.

“E vocês, querem alguma coisa?”

Todo mundo foi pedindo até o Khun Kim reclamar que não ia lembrar de tudo. Khun Fren pegou um papel para anotar os pedidos. Li os slides mais um pouco, ajustei as partes que não precisavam ser apresentadas, antes de ficar ouvindo o Khun Prem reclamar do P’Prood, que ultimamente anda estranho.

— Meu irmão tá de saco cheio, não sei o que deu nele. Fica de mau humor o dia todo, vive descontando em mim. Eu já falei pro meu pai pra não deixar ele fazer Medicina. Olha aí, tá ficando doido cada dia mais. — Khun Prem falava enquanto apontava com a cabeça para o P’Prood, que acabava de descer do carro luxuoso, marca diferente a cada dia.

Aquele desgraçado do P’Prood é rico pra caralho. O pai dele é nível magnata, a mãe é filha de um grande banqueiro. A aura de playboy gruda nele. Mas essa aura não apareceu nem um pouco no Khun Prem.

— E nesses três, quatro dias ele vive vindo na nossa faculdade. Fico me perguntando se as meninas daqui são tão top assim pra ele vir todo dia. Daqui a pouco ele vem me encher o saco de novo -_- Sacoo.

Nem terminou de falar e as pernas longas do P’Prood já trouxeram aquele corpo cheio de músculos pra cá. Cabelo raspado estilo skinhead somado ao rosto bonito meio emburrado fez as meninas que passavam nem terem coragem de cumprimentar. Os caras do Prem fizeram o wai e se entreolharam, apreensivos. Quanto a mim, continuei tentando entender os slides na parte que eu tinha que explicar.

— Vou sentar aqui com vocês.

Abri espaço um pouco antes do P’Prood sentar do meu lado. — Prem, compra comida pra mim.

“Ué! Você veio até aqui só pra me mandar comprar comida pra você?! Que palhaçada é essa?”

“Problema?”

Khun Prem fez bico. — Tá, tá bom. O que o p’ quer comer?

“Traz qualquer coisa aí. Algo que seja gostoso pro meu paladar.”

“Como se você comesse fácil igual gente normal, né. Merda, vive mandando em mim. Fren, vem comigo.”

“Ei! Então eu vou também. Vou ajudar o Kim a carregar as coisas.”

E aí Khun Tik, Khun Prem e Khun Fren saíram todos. Fiquei focado nos slides, quase querendo entrar dentro do meu notebook velho porque o P’Prood não parava de me encarar, como se quisesse achar a senha da loteria no meu rosto. Digitei um conteúdo novo para não me perder na hora de explicar. Fale com linguagem minha, mas formal. A máquina estava lenta porque a RAM é do tamanho de uma unha, condizente com o preço que também não foi alto. Mas esse note eu troquei pelo meu iPhone, tá! Não subestima ele não!

“Não atende o telefone, desliga na minha cara. Quer que o país inteiro te veja gemendo, é?” Fiz ouvido de mercador, igual nos primeiros dois dias em que fingi não ouvir o celular. Aquele desgraçado do P’Prood ligou mais de trezentas vezes. Sério. Ligou pra quê, não sei. Ligou até a bateria do iPhone acabar, e eu nem pensei em carregar. Deixei desligado mesmo. Irritante.

“Não tive tempo de atender.”

“Diz que não sabe! Como quer que eu te chame?”

“Não estou bem, não deu pra atender. O P’Prood quer alguma coisa?”

O que mais você quer de mim? Queria perguntar de verdade. Não ir no seu prédio, eu já não vou. Ainda vem na minha cara pra quê? Tá de sacanagem, seu desgraçado?!

“Não tá bem como?”

Fiquei quieto, lendo os slides. Mas o P’Prood fechou meu notebook na cara dura. Aqueles olhos bonitos me encararam firmes até eu quase quebrar a pose.

“Melhorou?”

“....”

“Pluem! Tô perguntando, por que não responde!”

“Melhorei! O que o P’Prood quer tanto comigo?!”

P’Prood me olhou fixo, talvez porque eu tenha levantado a voz. Mas isso é pouco perto do que ele fez comigo. Eu nem reclamei de nada. Ainda fica enchendo meu saco. Se não levasse um chute na cara já podia agradecer por ter feito muita caridade!

“Hoje à noite vai comigo.”

“Não vou.”

“Pluem acha que pode me recusar?”

Suspirei, já de saco cheio da ameaça que não me afeta em nada. “Tenho que trabalhar, p’.”

“Que horas acaba o trabalho? Vou te buscar.”

“Três da manhã. Mas tenho que entrar no outro trampo depois.”

“Então três da manhã te espero na frente do 7-Eleven de sempre. Vou te buscar.”

“Tá.”

P’Prood sorriu satisfeito, a mão longa acariciou minha mão de leve. — E o celular que te dei, trouxe?

“Deixei carregando no quarto.”

“Hmm... da próxima vez que eu ligar e você não atender, você sabe o que vou fazer.”

“Tá.”

“Sabe que não pode ser teimoso comigo, né.”

“Sei. Já posso voltar pro meu trabalho?”

“Hmm.”

Abri o notebook e voltei pros slides, enquanto o P’Prood ficava só me olhando. Irritante, mas não quis falar nada. O trabalho que tenho que apresentar é mais importante porque essa nota é bruta, não divide. Se eu errar, perco trinta pontos na lata.

Demorou um pouco até o pessoal do Prem voltar. P’Prood ficou conversando com eles de bom humor enquanto comia o omelete que o Khun Prem comprou. Khun Prem arregalou os olhos e tirou foto do P’Prood dizendo que ia mostrar pra mãe que o irmão topou comer omelete. Que exagero, na minha opinião. Minha água de crisântemo foi roubada na cara dura. Não reclamei porque o Khun Tik estava olhando pra mim e pro P’Prood com curiosidade, aqueles olhos castanhos grandes cheios de fofoca.

“Já comeu?” P’Prood virou pra me perguntar, enquanto os outros conversavam baixo. Só o Khun Tik, que não tinha nada pra fazer igual os outros, ficou prestando atenção em mim e no P’Prood descaradamente.

“Já.”

“Pluem gosta de chá de crisântemo?”

“Não é que goste.”

“Então gosta de quê?”

“Não gosto de nada em especial.”

“Tem certeza?”

Olhei pro rosto bonito do P’Prood em silêncio, deixando claro com o olhar que estava de saco cheio das perguntas, porque precisava focar nos slides. Mas acabei ficando vermelho quando o P’Prood se aproximou e sussurrou no meu ouvido: “Não é que gosta da... minha não? Vi que o Pluem bebeu tudo, sem deixar uma gota.”

‘Desgraçado!’ Mexi a boca sem emitir som, mas o P’Prood deve ter entendido o que eu disse, porque aquele rosto bonito ficou sério na hora.

“Vai se dar mal.”

“P’Proooooood, tem alguma coisa com meu amigo?” Khun Kim perguntou rindo. — Não pega pesado com o Pluem não, p’. Olha ele, tá todo vermelho. Mas mesmo quieto assim, o Pluem te idolatra muito, viu. Hehe.

“Calado você não morre, sabia, Khun Kim?” Retruquei na hora. Khun Kim ficou boquiaberto, apontou pra mim como se fosse me dar um tapa, mas eu já guardei as coisas e levantei.

“Vou esperar na sala.”

“Uééé, Pluem, ei! Tá bravo? Tô brincando!!! Plueeem!” A voz do Khun Kim ficou pra trás, mas não olhei. Não estava bravo com ninguém. Só queria ficar quieto, me concentrar pra apresentação que começa em uma hora.

.  
.  
.

Terminei o trabalho, enchi a barriga e fui sentar na frente do 7-Eleven esperando o P’Prood, que ligou dizendo que em cinco minutos chegava e pediu pra eu comprar pão e chá com leite pra ele. Fiz o que mandou. Fiquei olhando os carros passarem, dois ou três, e a BMW preta do P’Prood parou na minha frente.

“Entra.”

Fui sentar no banco do carona e entreguei o pão e o chá com leite. P’Prood pegou, sorriu pra mim de leve.

“Acabei de sair da aula.” Disse só isso e dirigiu. Não perguntei pra onde íamos, porque não me importava tanto. Só me importava que o P’Prood me deixasse de volta a tempo pro trabalho.

Fiquei quieto o caminho todo. P’Prood também parecia não ter nada pra falar comigo. O carro luxuoso entrou no estacionamento de um condomínio chique com mais de vinte andares. Segui o P’Prood até o elevador. Ele apertou o 35º andar e ficou do meu lado, comendo o pão.

“Decorou o caminho, né?”

“Sim.”

“Bom... da próxima vez que eu chamar, você já sabe vir sozinho.”

Fiquei quieto enquanto olhava os números subindo rápido até o elevador parar no 35º. Meu ouvido zumbiu um pouco. Saí do elevador meio tonto. Se der um terremoto de 8 graus, esse desgraçado do P’Prood não escapa não. Quem manda morar tão alto assim, não vai morar no céu logo - -_

O apê do P’Prood não é diferente dos outros condomínios de luxo. Tem tudo. Sala, quarto, cozinha, banheiro, tudo separado claramente. Vi a cozinha que parece ser o único cômodo pouco usado. Os utensílios pareciam novos, sem uso. Olhando pra cara do dono, não consigo imaginar o P’Prood de avental rosa com estampa de urso. Diferente da sala, que parece ser o cômodo mais usado. Uma estante embutida na parede do chão ao teto, cheia de livros. Do lado, uma mesa de computador bagunçada com papéis, o monitor cheio de post-its. Depois, uma mesa de vidro grande que imagino que ele use pra estudar, porque tinha apostilas e livros espalhados. No centro, um home theater, TV LCD de 60 polegadas na frente de um sofá preto enorme. Parece macio, confortável. Dá pra dormir ali melhor que na cama do meu alojamento - -_

“Faz alguma coisa pra comer.” P’Prood mandou.

“Só sei fazer miojo.”

“Coisa sem nutriente.”

“Se não comer, faz você mesmo. Senão sai pra comer fora.”

“Hoje estou cansado. Não quero sair.”

P’Prood parecia cansado mesmo, porque foi direto se jogar no sofá. Fui ver o P’Prood deitado de bruços igual criança. “Pode ser miojo? É o que eu sei fazer.”

“Uhum.”

Fui pra parte da cozinha, que nem dá pra chamar de cômodo, porque só tem um balcão separando do resto. Abri a geladeira e vi que estava cheia de coisas frescas. Comida congelada também lotava o freezer. Voltei pra ver o P’Prood, que agora assistia documentário sobre cobras.

“Quer arroz com manjericão e ovo frito? Eu esquento pra você.”

“Miojo mesmo. Coloca verdura e carne de porco pra mim.”

Com ele dizendo isso, voltei a procurar miojo. Boca fala que é sem nutriente, mas o P’Prood tem mais miojo estocado que no meu alojamento. Preparei o miojo, meu prato especial. Primeiro escaldei a verdura, piquei e cozinhei a carne, depois coloquei dois ovos, e por fim joguei a água na tigela com o miojo. Eu não cozinho o macarrão antes não, porque se cozinhar fica mole demais e feio. Pronto, chamei o P’Prood pra comer, e ele comeu quieto. Terminou, bebeu a água que preparei e voltou pro documentário.

“P’Prood, já posso ir?”

Depois de lavar a louça não tinha mais o que fazer. Fiquei massageando as pernas do P’Prood um tempo. Olhei a hora e já estava quase na hora do trabalho.

“Ainda não.”

“Daqui a pouco tenho que trabalhar.”

“Não deixei ir.”

“Tem mais alguma coisa pra fazer?”

“Me dá banho.”

P’Prood sorriu satisfeito ao ver minha cara. “Não vai fazer?”

“Não é demais?”

“O quê que é demais? Esposa dando banho no... marido.” P’Prood abaixou a cabeça, a palavra marido jogada na minha cara. “Tem algo de estranho?”

“....”

“Ou não vai fazer... mas acho que... Pluem não tem escolha, né. Já que virou esposa do marido... desgraçado! Desse aqui.”

Escolhi ficar quieto, porque realmente não tinha escolha. P’Prood devia estar bravo pelo que aconteceu mais cedo, mas as palavras nojentas dele já mereciam, não?

O banheiro é do tamanho do meu quarto. Tem uma banheira enorme no canto esquerdo, box de vidro no canto direito, plantas ornamentais em vasos chiques no meio. P’Prood entrou na banheira que preparei, com pose de rei mandando no escravo, que sou eu, com propriedade. Esfreguei as costas forte demais e levei bronca. Puxei o cabelo dele de leve na hora de lavar e levei esporro. Não posso fazer nada, quem mandou ficar aleijado? Se não tem capacidade de tomar banho sozinho, merece apanhar um pouco assim mesmo.

“Faz pra mim.” P’Prood saiu da água, sentou na borda da banheira, as pernas longas e brancas como leite levemente abertas. Olhei pra aquela coisa perigosa que quase me matou de dor quatro dias atrás, apreensivo. Agora ela apontava pra mim, ameaçando igual ao olhar do dono.

“Pluem, rápido. Senão não te levo.”

“Tá.”

“Sem usar as mãos.”

Me senti mal com o que o P’Prood fez, mas o que eu podia dizer? Alguém como eu teria direito de exigir alguma coisa? Usei minha boca pra ajudar o P’Prood, que agora segurava meu rosto e mexia o quadril no próprio ritmo. O rosto bonito se ergueu, os dentes morderam o lábio com força. Não demorou muito e o corpo do P’Prood tremeu duas, três vezes antes de soltar o líquido quente na minha boca. Chupei forte e engoli sem escolha, porque o P’Prood não saiu. Ouvi o som dele gemendo, o rosto bonito contorcido de prazer.

“Pluem... chega... solta...” O rosto do P’Prood parecia em agonia. Saiu devagar de mim antes de me puxar pra sentar no colo e me beijar de leve.

“Muito bem... daqui a pouco te levo.”

Assenti, antes de me afastar do P’Prood, cujos lábios já roçavam meu pescoço.

“Tá com raiva de mim...?”

“Não.”

“Nojo?”

“Talvez.”

As sobrancelhas grossas se franziram antes de ele apertar meu braço com força. “Mentira!”

“Pensa o que quiser.”

“Sai pra fora!” P’Prood gritou, me empurrou e entrou no box.

Esperei o P’Prood por uns vinte minutos, até ele sair do quarto com camiseta e shorts de basquete que, se outro homem usasse, não ficaria tão bem quanto no Ma Prood. Só isso já exala uma aura de beleza acima de qualquer mortal.

“Toma, usa.”

Cinco notas de mil foram estendidas pra mim, que olhei sem entender por que o P’Prood estava me dando.

“Pra que isso... não quero.”

“Tá sem dinheiro, não tá?”

“Mas isso não tem nada a ver com o P’Prood. Eu me viro.”

“Tá trabalhando que nem um condenado sem tempo pra descansar e ainda banca o orgulhoso.”

“Mas eu tô sobrevivendo. Guarda seu dinheiro, p’.”

“Não seja teimoso comigo... Pluem sabe que eu não gosto.”

Só de ver a cara... já sei o quanto o P’Prood está irritado. Ma Prood, o cara que as mulheres da universidade inteira sonham, não é só pela beleza que faz elas quererem ficar sob os cuidados desse homem. É por esse hábito de distribuir dinheiro e presentes. O boato de que as mulheres chamam ele de ‘Seu Prood’ deve ser verdade!

“Pluem te pergunta de verdade, P’Prood, o que mais você quer? Mandei não ir no seu prédio, já não vou. O que mais o P’Prood quer de mim?”

“Para de drama comigo, pode?”

Isso é drama? Isso é ser dramático? Minha dúvida não foi respondida e ainda levei bronca. Esse desgraçado do P’Prood deve estar querendo levar um chute pra acordar, né?!

“E o que o P’Prood quer?!”

“Levanta a voz de novo.”

“Desculpa.”

“Que horas o Pluem sai do trabalho? Vou te buscar.” Além de ignorar o que eu falo, o P’Prood ainda adora mudar de assunto do nada. Parece que ele acha que é o centro do universo, que todos os seres vivos têm que orbitar ao redor dele.

“Seis da manhã.”

“E que horas você dorme? Não, não deixo trabalhar.”

“Que que é isso, P’Prood?”

“Falei que não deixa trabalhar, não deixa. Não sei de nada. Pede demissão hoje.”

“Preciso de dinheiro! Se eu pedir demissão, vou viver de quê!”

“Eu te banco.”

“O p’ tá doido?! Não quero. Por que o p’ ia me bancar?”

“Chega! Falei que não deixa trabalhar, não deixa!”

Fiquei calado na hora com o grito do P’Prood, que foi mais forte que quando me expulsou do banheiro. Aquele rosto bonito estava pronto pra me chutar se eu ainda ousasse retrucar. Então só pude ficar quieto e assentir, sem escolha.

“Hoje dorme aqui. Não vou te levar. Tô cansado.”

Decidiu tudo sozinho de novo, antes de me deixar parado no meio da sala. E o P’Prood foi sentar pra ler na mesa de trabalho como se nada tivesse acontecido.

“Pluem vai tomar banho. Para de complicar. Amanhã tenho prova, não tenho tempo pra ficar te aturando.”

“Então vou de táxi mesmo. Melhor não incomodar o P’Prood.”

P’Prood virou com cara de bravo pra mim, o rosto bonito com óculos de armação preta no nariz alto fazia ele ficar ainda mais atraente. É, não importa a hora, eu ainda fico babando pela aparência desse homem, né -_- Que droga.

“Escolhe: ou faz o que eu mando na boa ou quer ir pra aula se arrastando amanhã.”

Claro que escolhi obedecer o P’Prood. Quem é doido de querer ir pra aula se arrastando? Só de ter levado aquela vez já fiquei todo dolorido, perdi aula por causa da febre ainda por cima.

...P’Prood sorriu satisfeito antes de mandar eu pegar toalha e roupa pra trocar no guarda-roupa do quarto. Peguei uma camiseta, mas calça não tinha nenhuma que servisse... a cintura era grande demais. Ainda bem que achei uma cueca tamanho único, nova, na gaveta de baixo. Peguei tudo e fui tomar banho rápido, senão o P’Prood ia reclamar de novo. Quanto à calça, depois a gente vê. Talvez eu tenha que amarrar alguma coisa na cintura.

Tomei banho e fui procurar o P’Prood, que estava lendo com cara séria na mesa. A camiseta do P’Prood que achei que seria a menor, mas quando vesti a gola quase caiu no ombro e ainda era comprida, cobrindo metade da coxa.

“P’Prood, vou dormir no sofá.”

P’Prood tirou os olhos do livro e me olhou dos pés à cabeça. — Vai dormir no quarto.

“Mas dá pra eu dormir no sofá.”

“Pluem!”

“Não quero incomodar o P’Prood.”

“Se não quer me incomodar, faz o que eu mando. Vai dormir. Vou estudar.”

Vendo que o P’Prood estava prestes a vir me estrangular, só pude assentir. P’Prood é muito bonito mesmo, mas outra coisa tão famosa quanto a fama de galinha é a fama de violento. Não ouso testar o pé número quarenta e tantos dele. Dá pra ver que ele pode quebrar minhas costelas se eu continuar arrumando problema. É, dormir na cama é bom também. Pulei e quase afundei no colchão. A cama dura do meu alojamento não chega nem perto.

Agora passa da meia-noite. Ainda não consegui dormir e o P’Prood não dá sinal de que vai entrar no quarto. Hoje também não fui trabalhar. Normalmente nessa hora eu estaria em pé firme atrás do caixa atendendo clientes. Ficar deitado à toa aqui é anormal pra mim. Pedir demissão eu também não vou fazer, só assenti pra ele parar de pensar em me bater. É, se eu sair do emprego, vou comer o quê, usar o quê? Descansei pra juntar força, quem sabe amanhã eu ache uma saída pro problema e um jeito de fugir do P’Prood de vez.

............................................Continua...............................................