Eu era o neto mais velho, mas não exatamente o mais velho entre todos os netos.
Originalmente, essa posição deveria pertencer a Ki Sung Yoon, porém seu avô, Ki Jae Mu, o ignorava deliberadamente.
Por mais inútil que Ki Yoon Jae fosse, ele nunca manchou o nome da Sungwoon. Já Ki Sung Yoon era praticamente íntimo das páginas dos jornais.
As notícias o mencionavam apenas como “Sr. A”, mas qualquer pessoa minimamente informada logo dizia:
— Ah, foi o Ki Sung Yoon de novo.
O pai dele, Ki Young Woo, havia conquistado a antipatia de Ki Jae Mu por ultrapassar constantemente os limites da autoridade do filho mais velho.
O próprio Ki Jae Mu era o primogênito entre seus irmãos e precisou derrotá-los para assumir a presidência do grupo. Talvez as atitudes de Ki Young Woo lhe lembrassem as de seus irmãos mais novos.
De qualquer forma, eu não estava me sentindo bem.
Fiquei irritado ao ver aquele inconveniente do Ki Sung Yoon, mas fiquei ainda mais irritado ao perceber que ele havia colocado os olhos no que era meu.
— Hyung...
Hyun Seo se aproximou chorando e me abraçou com força.
Ele havia tentado proteger a irmã de um valentão. Devia ter sido difícil.
Fiquei orgulhoso por ele não ter usado seus poderes, mesmo estando agitado. Se tivesse usado, aquilo não teria terminado apenas em uma pequena confusão.
Jung Yi Joon e Kwon Jae Hyuk haviam se levantado e encaravam Ki Sung Yoon como se estivessem esperando apenas o primeiro movimento dele.
No caso de Kwon Jae Hyuk, aquilo era esperado. Mas o fato de Jung Yi Joon não ter avançado imediatamente contra alguém que claramente tinha problemas comigo parecia ser consideração para não me colocar numa situação complicada.
Pensar nisso me comoveu um pouco.
— Yoon Jae-gun. Isto é seu?
— Heut...
Ki Sung Yoon sorriu enquanto apertava o braço de Ha Eun Seo.
Não dava para saber se doía de verdade ou se ela estava apenas assustada, mas Ha Eun Seo chorava e tremia sem parar.
Essa era a maior fraqueza de sua habilidade de furtividade.
Ela não conseguia permanecer invisível enquanto estivesse tocando alguém.
Deveria ter conseguido fugir de Ki Sung Yoon, mas pareceu hesitar e acabou não escapando.
Enquanto acariciava os cabelos de Ha Hyun Seo, senti a raiva crescer diante das palavras seguintes de Ki Sung Yoon.
— Posso brincar com ela? Eu gosto dela, mas parece que ela não é barata. Já que seus subordinados não sabem reconhecer seus superiores, vou precisar educá-los.
Os olhos de Ki Sung Yoon estavam arregalados enquanto ele ria.
Ha Eun Seo era preciosa demais para ser deixada nas mãos de um lixo que exibia seus gostos nojentos tão abertamente.
Afastei Ha Hyun Seo, que continuava agarrado à minha cintura, e caminhei até Ki Sung Yoon.
— Hyung.
Segurei o pulso que prendia o braço de Ha Eun Seo.
Mantendo-o firmemente no lugar, aproximei meu rosto do dele e sussurrei:
— Vai educá-los? Por quê? Eles estão indo muito bem.
— O quê?
— Ah, é verdade. Tudo isto é meu. Eu sou o sucessor. Existe alguém acima de mim além dos adultos?
— Seu...
— Ela é preciosa demais para desperdiçar tempo com algo inferior a mim. Algo que nem sequer está no meu nível.
— Seu filho da puta!
Mantive o sorriso enquanto o encarava com desprezo.
Bêbado e claramente alterado, Ki Sung Yoon ficou furioso.
Ele soltou Ha Eun Seo e agarrou minha gola.
Mas, com a mente embriagada, tudo o que conseguiu fazer foi cuspir palavrões.
Nem sequer era capaz de rebater minhas palavras.
Enquanto o ouvia, decidi encerrar aquela confusão antes que chegasse aos ouvidos de Ki Jae Mu.
— Tal pai, tal filho. Está tentando cobiçar o que pertence aos outros sem saber qual é o seu lugar? Um imprestável que nunca está satisfeito com o que já tem.
— Seu desgraçado!
— Ki Sung Yoon. A matéria publicada em 9 de dezembro era sobre você, não era?
Juntei mentalmente as informações que havia visto no jornal com os rumores que circulavam sobre ele.
Então sorri.
— Meu tio deve ter sofrido bastante. Aquela empresa jornalística não tem nenhuma proximidade com a Sungwoon. Deve ter custado uma fortuna esconder seu nome.
Observei a expressão dele endurecer.
— Mas o que mais ele poderia fazer? Se o vovô descobrisse, você estaria acabado. Seu pai precisou gastar rios de dinheiro para salvar o filho mais velho, aquele que sonha em roubar a posição do sucessor. Estou errado?
— V-você... como sabe disso...
— O que será que meu tio está pensando? Se ele quer tirar de mim a posição de sucessor, não basta usar alguém tão medíocre quanto você. Como pretende transformar em sucessor um sujeito que não entende a própria situação e continua repetindo os mesmos erros mesmo depois de virar notícia?
A força desapareceu da mão que segurava minha gola.
Ki Sung Yoon parecia completamente atordoado.
Afastei sua mão e ajeitei minhas roupas.
Estavam amarrotadas, mas ainda apresentáveis.
— Caia na real. Como consegue agir assim diante do vovô? Você realmente perdeu o juízo.
Seu rosto ficou vermelho de vergonha e raiva.
Mantendo o sorriso, puxei Ha Eun Seo para longe dele e acenei para Ki Hyun Joo, que observava tudo à distância.
Ela suspirou e se aproximou.
— Vou embora.
— Já? Tudo bem.
Ela concordou imediatamente.
Parecia ter concluído que eu acabaria criando um problema ainda maior com Ki Sung Yoon se permanecêssemos ali.
Ha Eun Seo já havia parado de tremer.
Enquanto saíamos do salão, fiz um gesto para Jung Yi Joon.
— O quê?
— Ei. Derruba aquilo.
Jung Yi Joon entendeu na hora.
Alguns segundos depois, sorriu e acenou discretamente com a mão.
Um estrondo enorme ecoou pelo salão.
— Ai! Porra! O que foi isso?!
A voz furiosa de Ki Sung Yoon veio logo em seguida.
Quando olhei para trás, vi-o caído em cima da torre de taças de champanhe que Ki Jae Mu havia mandado montar para ostentar.
Naturalmente, o rosto de Ki Jae Mu endureceu.
Já a expressão de Ki Young Woo empalideceu ao ver o desastre causado pelo filho.
Graças a isso, Jung Yi Joon e eu deixamos o salão segurando o riso.
Depois de entrar, perguntei a Jung Yi Joon:
— O que aconteceu antes?
— Ah, aquilo? Não foi nada demais.
— O que foi?
Ele pensou um pouco antes de responder.
— Nada importante. Aquele maluco do Ki Sung Yoon passou por lá e começou a dar em cima da Ha Eun Seo. Como ela é tímida, não respondeu. Aí ele ficou irritado porque achou que ela estava ignorando ele.
— E depois?
— Quando o garoto tentou proteger a irmã, aquele louco mandou ele sumir e empurrou sua testa com um dedo. Ha Eun Seo entrou na frente do irmão. Depois disso, Kwon Jae Hyuk e eu dissemos para ele deixar as crianças em paz.
A partir daí, Ki Sung Yoon continuou importunando Ha Eun Seo.
Perguntava por que ela o ignorava se sabia falar.
Quando tentou segurá-la novamente, ela afastou sua mão.
Depois, aconteceu exatamente o que eu havia visto.
— Entendi...
Jung Yi Joon acrescentou:
— Ah, antes disso, quando Kwon Jae Hyuk tentou interferir, Ki Sung Yoon disse que um plebeu imundo não devia se meter.
— O quê?
Aquilo era absurdo.
Como ele ousava insultar as pessoas que estavam do meu lado?
Antes eu estava irritado por ele tratar uma garota daquela forma.
Agora sentia que tinha sido até gentil demais.
Como alguém incapaz de ficar sóbrio podia se achar superior por causa da própria origem?
A raiva voltou com força.
— E você?
— Hã?
— Ele não falou nada para você?
— Ah... comigo não aconteceu nada. Kwon Jae Hyuk ficou me puxando para longe o tempo todo.
Parecia que Jung Yi Joon também havia ouvido alguma coisa, mas não queria comentar.
Não insisti.
Mesmo assim, quanto mais eu pensava, mais odiava aquele idiota do Ki Sung Yoon.
Talvez eu tivesse sido gentil demais.
Por causa da presença de Ki Jae Mu, resolvi tudo discretamente.
Agora me arrependia.
Mas havia outra coisa me incomodando.
Por que Ha Eun Seo tinha tanto medo das pessoas?
Não era medo de uma pessoa específica.
Era medo de homens.
Com Ki Hyun Joo, uma mulher, ela conversava normalmente.
Tudo indicava que sofria de androfobia.
Ha Hyun Seo era o único homem com quem conseguia falar sem tremer.
Na verdade, era difícil até enxergá-lo como um homem da mesma forma que os adultos.
Talvez por isso ela não tivesse medo dele.
Eu precisava descobrir o que havia acontecido no passado.
Quando o Ki Yoon Jae original morreu...
Talvez o esfaqueamento de Ha Eun Seo estivesse relacionado à sua androfobia.
Quando o medo se acumula durante muito tempo e continua sendo reprimido, inevitavelmente chega um momento em que explode.
Sem se importar com as consequências.
No romance original não havia nada indicando que Ki Yoon Jae via Ha Eun Seo como uma mulher ou tivesse feito algo com ela.
Mas isso não significava muita coisa.
Talvez simplesmente nunca tivesse sido mencionado.
Além disso, mesmo que não tivesse feito nada diretamente, o ressentimento dela podia ter crescido por ele obrigá-la a roubar segredos de empresas concorrentes.
A androfobia de Ha Eun Seo...
E tudo o que Ki Yoon Jae fez...
Talvez tivessem contribuído para sua morte.
Deveria perguntar a Ki Hyun Joo?
Ela estava cooperando bastante ultimamente.
Mas eu ainda não sabia se podia confiar nela completamente.
Por outro lado...
Se não perguntasse a ela, a quem perguntaria?
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