Capítulo 08: Voz Fantasma
Numa noite abafada de início de outono, o salão principal do templo estava iluminado. No incensário sobre o altar dos deuses, a fumaça dos incensos se enrolava no ar. Sobre a mesa estavam taças de vinho para oferenda, instrumentos rituais e papel-moeda de oferenda.
Gu Butao vestia as roupas de taoísta. Com os olhos bem fechados, balançava com força o sino ritual. Ao lado, fiéis tensos buscavam ajuda.
O som do sino cortava o espaço, guiando as almas perdidas a seguirem o chamado. Num salão sem vento, a chama das velas sobre o altar de repente tremeluziu. O sino parou. Gu Butao se concentrou para ouvir.
Lá fora do templo, um trovão rasgou o céu limpo.
Gu Butao havia assumido o templo há pouco tempo, mas desde pequena acompanhava o avô e tinha anos de experiência como assistente do irmão mais velho do mestre. Foi sua primeira vez conduzindo um ritual sozinha, e já o fazia com muita destreza.
Por ser jovem, alguns fiéis duvidavam se ela daria conta do cargo de líder do templo. Mas ela já estava provando seu valor com competência.
Enquanto Gu Butao conduzia o ritual, Gu Buxia tomava banho feliz, cantarolando. Lá fora do dormitório também soou um estrondo de trovão. Dentro do box, um ruído fraco, parecido com chiado de rádio sintonizando, surgiu.
Um calafrio silencioso o atingiu. Mesmo com a água morna caindo, Gu Buxia tremeu inteiro. Estranhou e aumentou a temperatura da água.
Continuou cantarolando. O som da água batendo parecia isolá-lo do mundo. Ele se entregou à própria canção.
De repente, entre o som puro da água, pareceu ouvir vagamente vozes humanas, como se viessem de uma estação de rádio.
Para confirmar se não tinha ouvido errado, Gu Buxia parou de cantar e fechou o chuveiro para escutar.
Plic —
Plic —
Plic —
O banheiro ficou em silêncio total. Só restou o som das gotas caindo, ecoando baixinho.
“Eu não aceito... Eu não quero ir pro inferno!”
“Eu quero justiça... eu quero vingança...”
Desta vez ouviu claramente as palavras misturadas ao chiado. Gu Buxia esticou a cabeça procurando a origem do som. De repente, outro calafrio percorreu seu corpo e arrepiou tudo.
Ele se secou às pressas e vestiu a roupa de qualquer jeito.
“Quem foi o sem-noção que deixou uma radionovela tão alta?!” Olhou para todos os lados e, não achando a fonte do som, reclamou em voz alta.
Pouco depois desistiu de procurar. Mas ao sair do banheiro, o chiado e as vozes ficaram ainda mais claros. O rosto dele mudou.
“Eu quero reclamar... tomei choque por causa de vazamento...”
“Eu... tô... com... frio... ah...”
A voz ressentida era tão nítida que parecia falar direto no ouvido dele. Assim que caiu a ficha, Gu Buxia ficou com o rosto duro, correu de volta pro quarto, jogou as coisas no chão e pegou o celular às pressas. Com os dedos tremendo, destravou a tela e ligou para Gu Butao.
Agachou-se no chão e se encolheu. Com a mão esquerda puxou por costume o amuleto do pescoço. Nesse puxão, percebeu que o cordão tinha arrebentado em algum momento.
Gu Butao tinha acabado de atender os fiéis e, ao ouvir o telefone tocar, atendeu enquanto varria.
— O que houve —
— Irmã, o selo quebrou? — Gu Buxia perguntou ansioso.
Ao ouvir isso, o cabo de vassoura de Gu Butao caiu no chão.
— Quebrou... quebrou... quebrou?! — ela entrou em pânico.
— Ontem quando voltei tive febre. Aí hoje comecei a ouvir umas vozes estranhas no ouvido, um falatório... e... — a mão de Gu Buxia afrouxou e o amuleto caiu no meio das roupas. — Meu amuleto também arrebentou... — ele arregalou os olhos e tentou achar o amuleto no meio das roupas.
Gu Butao correu até o altar. Na pressa até derrubou uma cadeira, mas não ligou. Vasculhou rápido e achou o talismã de Gu Buxia.
Ao confirmar que só uma pontinha tinha queimado e não havia mais nada, ela o recolocou com culpa.
— Você disse que está ouvindo as vozes deles?
Gu Buxia abaixou a cabeça, segurando firme o amuleto quebrado. O pesadelo da infância tinha voltado. Assentiu, apavorado e sem saber o que fazer, sem ousar olhar para os lados.
Do outro lado da linha só se ouvia a respiração ofegante. Gu Butao estava preocupada.
— Você... se acalma. — De repente parou. Respirou fundo e estabilizou a voz. — O avô dizia que quem assumisse o templo teria que ajudar a resolver os casos. Nós sabemos que você tem medo, então eu me ofereci: "eu faço, eu faço". Ontem à noite eu queimei meu talismã. Agora eu consigo ouvir e ver e conversar com eles.
Gu Buxia levou a mão ao peito e ouviu com atenção. Depois de ouvir aquele desabafo rápido, não entendeu nada.
— E daí? Você queimou o seu, eu selei o meu. O irmão mais velho não reforçou meu selo?
No ouvido dele o chiado de rádio voltou. Ele tremeu de medo.
— Eu queimei meu talismã e quebrei o selo, mas...
— Mas o quê, fala direito! — vendo Gu Butao enrolar, ele ficou irritado de tão nervoso.
— Eu... sem querer queimei um pouquinho do seu talismã. Foi só um pouquinho mesmo. Achei que não ia dar nada... De qualquer forma, você aguenta. Pensa que é só um podcast de histórias de terror. Pelo menos agora você só ouve, não vê... — Gu Butao pensava em como remediar enquanto tentava acalmá-lo. — Ah, a irmã vai dar um jeito. Espera, espera!
Gu Buxia ficou desesperado. Antes de conseguir perguntar mais, a ligação caiu. Ele arregalou os olhos e ligou de novo.
[O número discado está fora da área de cobertura. Tente mais tarde]
Uma voz conhecida. Gu Buxia desligou, furioso.
De repente, ele tremeu inteiro. O chiado de sintonia voltou no ar. Ele esfregou os braços. As vozes fantasma soaram nítidas de novo.
“Quem me trouxe pra um lugar desses...”
“Eu quero justiça, eu quero vingança...”
“Me ajuda a pedir indenização pra escola...”
“Meu túmulo está alagado, tô com tanto frio...”
“Você consegue me ouvir?”
“Você pode passar o recado por mim?”
“Ou você consegue me ver?”
Aquelas vozes terríveis ecoavam no vazio, se sobrepondo. Vozes de homem e mulher, jovens e idosos. Gu Buxia contou umas três ou quatro “vozes fantasma” diferentes grudadas nele. Falavam perto e longe, ora animadas ora apressadas. Ele respirou fundo e se forçou a ignorar.
Por algum motivo, aquelas vozes não ficavam 24 horas. Se ignorasse, mais tarde sumiam sozinhas. Na infância ele sobrevivia assim, até o avô selar o dom dele.
Naquela noite Gu Buxia sofreu muito. Pode-se dizer que rastejou até a cama. Ao deitar, se cobriu inteiro com o cobertor e ficou tremendo.
As vozes ecoavam. Mesmo através do cobertor, as falas estavam claras.
Gu Buxia fechou os olhos com força. Tinha medo de ver alguma cena horrível se desse mole, tipo alguém deitado na cama olhando pra ele.
As vozes reais, o frio e o medo tomaram conta do coração. O cérebro captou tudo e começou a imaginar cenas de terror sozinho. Ele quase chorou de medo.
Clac —
De repente ouviu a porta abrir. Gu Buxia quase pulou da cama de susto. Segurou o cobertor e prendeu a respiração.
Os passos entraram e ficaram circulando só numa parte do quarto. Quando percebeu que era Jiang Chi voltando do trabalho, suspirou aliviado.
“Ouviu? Esse pirralho ouviu, né?”
“Me ajuda... eu fui injustiçado...”
“Frio... huuu... tô morrendo de frio...”
As vozes fantasma continuavam barulhentas. A cabeça de Gu Buxia latejava. Ele se forçou a prestar atenção nos sons de Jiang Chi: passos, pegando coisas, arrastando a cadeira, folheando livro. Qualquer coisa para distrair das vozes apavorantes.
Ficou assim um tempo. Até que, finalmente, ficou quieto. A temperatura ao redor normalizou. Com os nervos relaxando, ele apagou de sono.
Jiang Chi olhou para a cama do outro lado.
Desde que ele chegou, o volume sob o cobertor não parava de se mexer. Só agora tinha parado.
Não sabia se Gu Buxia tinha acabado de dormir ou se estava dormindo mal. Pensou em ir ver se ele estava passando mal, mas agora parecia que estava tudo bem.
— Até pra dormir tem que chamar atenção. — Jiang Chi balançou a cabeça e voltou a estudar.
Naquela noite, depois que Gu Butao desligou, ela não achou solução. Gu Buxia teve que continuar vivendo com o selo quebrado num cantinho.
Pra ele foi um inferno.
Desde pequeno ele tinha pavor de fantasmas. Agora, toda vez que o chiado começava, morria de medo. E o pior: o som não escolhia hora nem lugar, e isso deu muita dor de cabeça pra ele.
De dia a escola estava cheia de gente, mas na verdade era um lugar que atraía coisa ruim. “Fantasmas” gostam do calor humano, têm apego à vida que tinham. Por isso ficam onde tem muita gente, especialmente em lugares cheios de dia e silenciosos e frios à noite.
O avô sempre contava isso quando ele era criança. Gu Buxia sabia muito bem.
Mesmo querendo fugir da escola, não sabia pra onde ir. Por enquanto só podia aguentar até Gu Butao achar uma solução.
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