22 de jul. de 2022

Bubble Tea - Capitulo 04

Capítulo 04: O cliente novo

Essa manhã o cliente chegou cedo de novo.

Eu já tinha limpado a loja, arrumado as mesas e ligado a chaleira. Até pensei que não ia ter ninguém hoje. Sem P'Chai, sem Phum, sem ninguém mesmo. Só eu e as folhas que o vento trouxe pra dentro.

"Bom dia, P'Chai" 

"É o Nai, não é?" 

Esse dia parecia que ia ser longo. Porque eu tinha que ficar sozinho o dia todo na loja e estudar.

"A verdade é que hoje eu não vou tomar Bubble Tea, tá? Porque é uma coisa que vicia. Mas eu vim aqui pra recomendar uma marca pra você. É de uma província do norte. Eles plantam o chá deles lá. Dizem que é o melhor chá da Tailândia. Só que é caro, só tem na capital."

"Então eu não vou comprar" 

"Oi?" O garoto riu surpreso de eu recusar na cara dura. Aí ele se aproximou do balcão com um sorriso malicioso. "Não precisa comprar hoje. Eu só vim trazer uma amostra pra você provar. De graça, pra fazer propaganda mesmo."

"Bubble Tea com sabor de quê, P'Chai?"

"Sabor Nai, P'Chai" 

"Sabor Nai?"

"Sabor Nai, não é doce"

"Sabor Nai, P'Chai" 

O cliente me olhou de cima a baixo. Esse dia ele estava com uma camisa polo azul. Dava pra ver que não era qualquer um, porque tinha o logo da escola. Eu não consegui tirar os olhos da etiqueta do nome dele.

"Sabor Nai é sabor de amor, né? Brincadeira, P'Chai. Eu só queria te conhecer melhor" 

"Sabor Nai é bom, né? Só que eu não sou bom em falar com cliente. E eu sou péssimo em fazer propaganda"

Eles pediram, eu anotei o pedido e fui preparar. Mas antes de virar pra fazer, o cliente me parou de novo. Ele pegou o celular e tirou uma foto da minha cara com a xícara na mão. E ainda me pediu pra sorrir.

"Um... P'Chai, você tem um rosto bonito. Mas não combina com essa cara séria. Dá um sorriso aí. P'Chai, sorri pro cliente, sorri"

Eu fiquei sem graça. Eu nunca fui bom com foto. E ainda mais com ele pedindo. Fiquei parado, sem saber se ria ou chorava. 

"É porque eu quero postar e ver se vai ter cliente novo ou não" Ele disse com uma cara de quem não tava mentindo. "É verdade..."

"Oi?" 

O cliente percebeu que eu tava desconfortável e parou.

"Desculpa" 

"Sim, desculpa" Ele falou e já foi logo pegando o celular pra mostrar a foto que tinha tirado. Na foto eu tava sério, de braço cruzado e com cara de quem queria matar alguém. Mas os olhos tavam bonitos. 
Eu já ia reclamar, mas ele falou primeiro. "Ficou lindo, P'Chai"

Eu só consegui olhar pra baixo. Eu não sabia lidar com elogio. 

Eu coloquei a água pra ferver. O cheiro do chá começou a subir. Eu estava mexendo as pérolas na panela quando ele falou de novo. Eu não sabia se ele tava falando sério ou só me provocando. Mas uma coisa eu sabia: ele não ia embora tão cedo.

Pra ser sincero, eu não gosto muito de conversar enquanto trabalho. Mas com ele era diferente. Cada palavra que ele dizia me deixava nervoso. E ainda por cima ele ficava me olhando.

Eu me virei pra pegar o copo e quase derrubei tudo. Porque ele tava muito perto. E eu não tava acostumado.

"Calma, não precisa ter pressa. Usa mais leite, tá?" 

A mãe da Naree veio. E com ela veio uma energia que me deixou mais nervoso ainda. Porque a Naree era cliente fixa. E ela sempre pedia o dobro. Por isso eu ganhava mais gorjeta dela do que dos outros.

E ela não veio sozinha. Veio com uma amiga.

A mãe da Naree olhou pra mim e pra ele e deu um sorrisinho maroto. Aquilo me deixou com mais vergonha ainda.

"Hoje tem promoção de 1 leve 2, né? Então me dá dois copos, por favor. Não precisa ser doce" 

Eu assenti com a cabeça e comecei a preparar. Mas não conseguia parar de pensar no que o cliente novo tinha dito. E na foto. 

Durante o horário de pico a loja ficou cheia. Gente entrando e saindo, pedido pra cá, pedido pra lá. Eu fiquei correndo de um lado pro outro. Mas mesmo no meio da bagunça, eu sentia o olhar dele em mim.

Porque eu sou lerdo mesmo... O trabalho de atendente não é pra mim. Tem muita gente que pede e eu esqueço. Tem gente que paga e eu não dou o troco certo. Eu só acerto 1% dos pedidos, o resto eu erro tudo.

O cliente me ajudava de vez em quando. Mas nem por isso eu ficava menos nervoso. Pelo contrário, eu ficava mais.

Eu respirei fundo... e segui trabalhando!

Eu tava tão concentrado em fazer os pedidos que nem vi quando ele foi embora. Só percebi quando o lugar já tava vazio e só tinha sobrado ele. Ele ficou sentado lá até o final.

"Vai embora junto comigo, P'Chai? Já tá tarde. Todo mundo já foi pra casa. Só falta você."

Eu fiquei bravo.

Bravo, bravo e muito bravo.

Bravo com o P'Chai, com o Phum e comigo por não ter prestado atenção!

"P'Chai... Nai" A voz dele me chamou de mansinho. E me fez virar na hora. O que era aquilo? Era carinho? Ou era pena... Não sei direito.

Eu tava com tanta raiva que quase joguei o pano na cara dele. Mas na última hora eu me segurei. Na hora que eu olhei nos olhos dele, eu esqueci tudo. Esqueci a raiva, esqueci o cansaço. Só conseguia pensar em como ele tava bonito.

"P'Chai, para. Nai"

As lágrimas começaram a cair sem eu perceber. E eu não consegui segurar. Pessoas começaram a olhar. Eu me virei pra não deixar ninguém ver e fui correndo pra dentro. Eu não queria que ninguém visse. Chorei, chorei muito.

Eu limpei a bagunça. Peguei a vassoura e fui varrer. Na cabeça só passava uma coisa: eu não presto pra nada. Nem pra atender, nem pra fazer amizade. Só sirvo pra estragar tudo mesmo.

Eu olhei pra porta de novo.

E o cliente ainda tava lá, esperando.

Ele tava com uma cara de quem não sabia se devia ir embora ou ficar. Ele abriu a boca como se fosse falar alguma coisa.

"Pit, vamos?" 

"Nai não quer" 

"Oi?" 

Eu desviei o olhar. E antes de falar qualquer coisa eu já sabia o que ele ia dizer. Que não queria mais... 

Oxente, será que ele tá bravo comigo também? 

"Você não vai pra casa?" 

... Eu fiquei olhando pro chão sem saber o que responder. Se eu falasse ia chorar de novo. E eu já tinha chorado demais hoje. 

Ou será que eu devia ir. Porque se eu não for, eu vou ficar sozinho. 

"Fica tranquilo, eu te levo. A gente não precisa conversar se você não quiser" Ele disse com a voz mais doce do mundo. Hoje ele tava sendo gentil demais. Tão gentil que até doía.

Eu não respondi. Só peguei a mochila e fui. 

"Não precisa ficar com raiva de mim, tá? Quando a gente tem um dia ruim, a gente desabafa. Eu prometo que não vou falar nada" 

"Eu já disse que não vou mais te irritar, P'Chai" 

"Sim, a gente já combinou isso, né P'Chai"

Ele começou a andar na minha frente e eu fui atrás. E assim, em silêncio, a gente foi embora.

"Vai embora e vai direto pra casa, tá? Todo mundo já tá dormindo. Só a sua mãe tá acordada ainda" 

Eu assenti.

Raiva, raiva demais. E vontade de chorar de novo.

"Não fica bravo comigo não, tá? Volta logo. Eu vou te esperar" Ele disse antes de virar e ir embora.

"Não vou esperar seu P'Chai, não" Eu gritei de volta. Mas a voz falhou.

Eu fiquei ali, parado na calçada olhando ele ir embora. 

Ele não olhou pra trás.

E eu fiquei com um aperto tão grande no peito.

Eu não queria que o P'Chai ficasse bravo comigo. 
Eu não queria que o P'Chai se decepcionasse comigo. 
Mas parece que já é tarde demais.

  

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