2 de mar. de 2026

ER-Minute Heart - Capitulo 02.1

Capítulo 02 – Conhecer

— Aonde o P’Puen vai e com quem? — a voz doce de Ratchaya soou pelo telefone naquela sexta-feira à tarde, depois que o namorado ligou para avisar que estava saindo.

Pawat apoiou o celular entre o ombro e a orelha enquanto tirava o jaleco e o jogava no armário do descanso médico, ao lado do pronto-socorro.
— Vou jantar com o Jiw, ué.

Empurrou a porta metálica já enferrujada com o quadril e saiu pelo corredor, ainda bem humorado demais para perceber o tom da voz dela, que começava a se elevar.

— Mas hoje você tinha combinado de ir ao cinema comigo, não tinha?

A mão que girava a maçaneta congelou no ar. O chaveiro escapou de seus dedos e caiu no chão com um estrondo metálico.

— Cinema?

— Não vai me dizer que esqueceu, vai?

— Eu… não… claro que não! Quem esqueceria um encontro com você? Daqui a meia hora a gente se vê. Beijo.

O jovem médico enfiou o telefone no bolso, levou as duas mãos às têmporas e esfregou com força. Como resolver aquilo? De repente, uma mão surgiu à sua frente segurando o chaveiro — um Doraemon sorridente de expressão exagerada.

— Isso é seu, doutor Puen?

O rapaz que o devolvia tinha um rosto tão redondo e expressivo quanto o personagem pendurado ali.

— Valeu.

Pawat suspirou e voltou pelo caminho movimentado do pronto-socorro. Já passava das seis. Provavelmente Wit e Nuchanun o esperavam no restaurante de sempre, mesa farta como sempre. Não queria faltar ainda mais sendo ele quem marcara, mas… não havia escolha.

Discou.

— E aí, Puen? Onde você está? Eu e a Aum não vamos te esperar pra sempre.

A voz de Wit soava animada, o que só aumentava o peso na consciência dele.

— Desculpa… tô com dor de barriga. Acho que não vou conseguir ir. Pede desculpa pra Aum por mim.

A resposta grave do amigo foi interrompida por uma voz feminina, doce e irritada ao mesmo tempo:

— Vai levar a Nong New aonde, senhor Pawat?

Os pelos da nuca dele se arrepiaram.

— Aonde? Do que você tá falando, Aum? E o que a New tem a ver com isso? Eu tô mesmo passando mal!

Ele conseguia imaginar os lábios finos de Nuchanun comprimidos em desaprovação. Ela odiava mentiras. E não era a primeira vez que ele faltava por esse motivo.

Mas a resposta veio cortante:

— Eu já estaria brava só por você faltar. Mas por que mentir pra eu te odiar também? Não pense que eu não sei aonde você vai. Escuta aqui! Você me prometeu. Se eu não te vir hoje à noite, pode esquecer nossa amizade. Entre mim e aquela garota, escolha.

A ligação caiu.

Pawat ficou imóvel alguns segundos, imaginando a amiga devolvendo o celular a Wit e explodindo em fúria. Guardou o telefone no bolso e, pela primeira vez em muito tempo, desejou sinceramente que o mundo acabasse.


[___]

— Vai querer ver esse? — Pawat franziu o cenho diante do enorme pôster de um romance meloso. Só pelo título já dava arrepio. — Você sabe que eu não gosto desse tipo de filme…

— Mas eu gosto. E você vai ver comigo. Nada de dormir, nada de cara entediada, entendeu?

Ratchaya ergueu o queixo com teimosia adorável e o cutucou no peito.

Entre a mãe e as duas mulheres que conhecia melhor Nuchanun e Ratchaya, ele sabia bem que cada uma tinha personalidade distinta. Ratchaya era delicada como modelo, cabelos longos ondulados até o meio das costas, traços suaves… e um temperamento mimado típico de filha única.

Para ele, aquilo não era defeito. Mulheres eram assim, pensava só variava a intensidade. Ele sobrevivera a coisas piores.

Mas aquele filme… era demais.

— Mas…

— Sem “mas”. Você está pagando por ter esquecido nosso encontro.

— Eu cancelei com meus amigos pra vir com você.

— E ainda tem coragem de dizer “cancelei” quando foi você que esqueceu?

Ela retrucou com precisão mortal.

No fim, ele se rendeu.

— Tá bom, tá bom… Ainda temos tempo antes da sessão. Quer jantar? Comprar alguma coisa? O que você quiser.

Ela sorriu de modo astuto.

— Prepare sua carteira, P’Puen.


[___]

Mais tarde, preso no trânsito, Pawat tamborilava os dedos no volante do BMW preto.

O encontro terminara pior que o esperado. Ele dormira no meio do filme. E o comentário infeliz “Quando vi com a Aum também dormi e ela não reclamou” foi o golpe final.

Nem podia ligar para a namorada. Nem para os amigos.

O trânsito voltou a andar lentamente. Mais adiante, viu um acidente: um carro esmagado contra um poste, ambulância da fundação de resgate com sirene ligada, curiosos ao redor.

Sem hesitar, estacionou e saiu.

Sangue no asfalto. Um tênis rasgado. A experiência no pronto-socorro lhe dizia o suficiente: com tanto sangue assim, as chances eram mínimas.

Mesmo assim, avançou.

— Doutor, já é tarde demais — disse um socorrista.

— Não!

Mas o corpo já estava envolto em pano branco.

Uma mulher de meia-idade, coberta de sangue e sujeira, chorava e se agarrava ao corpo.

— Ele não morreu! Não é verdade!

Pawat recuou, o peito ardendo.

E se tivesse chegado antes?

Olhou para o céu escuro.

De repente, um clarão de faróis.

— Doutor Puen, cuidado!!!

Tudo ficou negro.


[___]

Quando abriu os olhos, estava sentado… e o chão não parecia duro.

— Está bem?

Uma voz grave ao lado.

Braços fortes o envolviam pela cintura.

— O que aconteceu? — perguntou Pawat, atordoado.

— Eu é que pergunto! Você saiu andando distraído pro meio da rua! Quase foi atropelado!

Ele finalmente percebeu: estava sentado no colo do rapaz.

Levantou-se num salto.

O jovem agora de camiseta e jeans, sem o uniforme de resgate parecia bem diferente. Mais jovem. Quase da idade que aparentava.

— Obrigado por me salvar.

— Não precisa agradecer! Agora levanta… minha perna tá com cãibra. Você é mais pesado do que parece!

Pawat pigarreou, desconcertado.

Olhou ao redor: condomínios luxuosos, nada que combinasse com aquele garoto.

— O que você faz aqui?

— E o senhor, doutor?

Ele suspirou.

— Eu estava passando de carro.

— Eu também. De moto.

A resposta parecia ensaiada, mas Pawat não insistiu.

— Vou indo.

— Espera.

O rapaz segurou seu pulso.

O contato o fez estremecer. Ao erguer os olhos, encontrou um par de olhos negros profundos.

Por um segundo, ouviu novamente o som de trovão na memória. Viu mãos pequenas, frias, manchadas de sangue, tentando alcançar algo. E aqueles olhos intensos como estrelas que jamais se apagam.

Ele sacudiu a cabeça.

Era a segunda vez, em poucos dias, que sentia como se fosse enfeitiçado por aquele olhar.

— Você já jantou?

Ele mesmo não entendia por que perguntara.

Só sabia que queria conhecer aquele garoto. Queria descobrir o que se escondia por trás daqueles olhos.

Porque eram iguais.

Iguais aos olhos que ele jamais conseguira esquecer.


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