29 de jun. de 2026

Dear Benjamin - Capítulo 03

 Capítulo 03

— Onde foi que nós nos conhecemos?

— Bem... há uma semana você comprou um buquê na minha floricultura.

Isaac respondeu de imediato.

O olhar sombrio de Félix era tão penetrante que parecia querer enxergar através dele. Depois de alguns instantes, porém, ele apenas murmurou:

— Que decepção...

Ao ser finalmente solto, Isaac esfregou a mandíbula dolorida enquanto ouvia:

— Faça outro buquê para mim.

Como o florista permaneceu calado, Félix mudou o tom de voz.

— Peço desculpas se fui um pouco radical. Fiquei surpreso com o que Tony disse... Parecia que você já me conhecia. É raro uma pessoa comum saber quem eu sou.

Isaac arqueou uma sobrancelha.

— Você achou que eu fosse do FBI? Ou da CIA? Sério?

— Bem... você parece diferente. Para começar, é florista, mas não consegue montar um buquê decente. Deixa tudo nas próprias mudas, parece desastrado com as mãos...

Depois de despejar todas aquelas críticas sem cerimônia, Félix o analisou da cabeça aos pés.

— E também não ficou com medo quando a arma estava apontada para a sua cabeça. Você não se mexeu. Nem hesitou.

Isaac soltou um longo suspiro.

Havia muitas respostas presas na garganta.

— Então... a que conclusão você chegou? Que um florista como eu talvez tenha servido nas forças especiais?

— Não sei... Talvez.

Era uma resposta desconfortável.

Isaac apenas deu de ombros.

— É que... não consigo entender como você consegue ser tão ruim nisso. Tento encontrar uma explicação lógica, mas minha cabeça insiste em me levar para outro lugar... Talvez seja apenas vontade minha de acreditar que existe alguma ligação entre nós além desta.

— Sou apenas um florista comum... que, por acaso, não leva jeito para embrulhar buquês.

— É isso que meus olhos dizem.

Apoiado sobre o balcão, Félix sorriu de olhos fechados.

Era um sorriso fascinante.

Daqueles que a televisão chamaria de "um sorriso de um milhão de dólares".

Qualquer pessoa seria facilmente cativada por ele.

Foi justamente naquele instante que Isaac ficou ainda mais nervoso.

Meu Deus... estou realmente assustado.

Mas aquele não era exatamente o plano desde o começo?

Seria impossível aproximar-se de Félix dizendo que conhecia sua verdadeira identidade. Também não tinha coragem de revelar tudo o que lembrava.

Por isso decidiu tornar-se, antes de tudo, um homem comum.

Um cidadão qualquer.

Dono de uma pequena floricultura organizada em uma movimentada rua comercial.

A imagem perfeita de um comerciante que jamais desejaria cruzar o caminho do famoso traficante de armas.

No fim, nem precisou dar o primeiro passo.

Foi Félix quem entrou na loja justamente quando Isaac estava fechando.

Ele até mostrou a placa de "Fechado", dizendo que já era tarde e pedindo que fosse embora.

Que motivo Félix teria para desconfiar?

Isaac nunca tentou segurá-lo.

Nunca agiu de maneira suspeita.

Mesmo assim...

Félix era inteligente.

Quanto mais Isaac tremesse de medo e falasse naturalmente sobre sua rotina, mais Félix observaria, ouviria e tiraria suas próprias conclusões.

Mais cedo ou mais tarde...

Ele perceberia.

— Não digo que eu seja excelente, mas faço o melhor que posso.

Isaac decidiu manter uma conversa normal.

— Eu gosto muito do meu trabalho.

As sobrancelhas de Félix franziram de repente.

Então ele repetiu a mesma ordem de antes:

— Faça um buquê para mim.

— Você não acabou de dizer que detesta a maneira como embrulho as flores?

Isaac sorriu, embora estivesse completamente exausto.

— Você não faz o menor sentido.

— Um florista não aprende a montar um buquê perfeito apenas desejando isso. Precisa praticar.

— É...

— Mas desta vez escolha uma flor mais nobre. Não é para um encontro.

Depois dessas palavras, Félix apoiou casualmente o queixo sobre o braço que descansava no balcão.

Parecia, literalmente, um cliente comum esperando seu pedido ficar pronto.

Sem alternativa, Isaac caminhou até os vasos.

— Este balcão é uma bagunça. Você simplesmente joga tudo aqui conforme chega, não é?

Ainda apoiando o rosto na mão, Félix estendeu a outra e mexeu distraidamente nos papéis espalhados.

Cartões e bilhetes estavam espalhados por toda parte, como se a gaveta tivesse vomitado seu conteúdo.

Foi então que seus olhos encontraram uma caligrafia elegante.

"Querido Benjamin."

A voz de Félix ecoou pela loja.

Assim como da última vez...

Tudo começara por causa de um cartão.

Abandonando as flores, Isaac correu até o balcão, pegou rapidamente o cartão e o guardou dentro da gaveta.

— Nossa... você escreve com muita delicadeza.

— ...

— Tem um relacionamento à distância?

— Não.

— Então por que escreve cartas assim?

Os olhos de Félix brilhavam de curiosidade.

Isaac permaneceu em silêncio.

Deu apenas um leve encolher de ombros antes de voltar para as flores.

Mesmo de costas, continuava sentindo o olhar intenso de Félix.

— Benjamin... esse seu querido Benjamin... é seu amante?

— Que cor você prefere? Rosa ou bege?

— Você tem um nome bem másculo... mas talvez seja um Beta. Benjamin é um homem... essas cartas... fazer algo tão gay...

— Se quiser um arranjo elegante, acho que bege com amarelo é a melhor combinação.

— Você não é um Ômega... é?

Naquele instante, Isaac percebeu que provavelmente havia dado todas as respostas erradas.

Sua mão parou a poucos centímetros das flores.

Com uma voz fria, Félix murmurou:

— Ômegas me deixam nervoso.

Aquelas palavras gelaram completamente o ambiente.

Isaac decidiu ignorá-las mais uma vez.

— Felizmente, as copas-de-leite estão lindas e bem frescas hoje. Vou fazer um buquê principalmente com elas, tudo bem?

Depois disso, as perguntas — que já se pareciam muito com um interrogatório invasivo — finalmente cessaram.

Mesmo assim...

Uma serenidade assustadora tomou conta da floricultura.

Quando Isaac terminou o arranjo, Félix o observou por alguns segundos.

— Realmente ficou um desastre. Agora duvido ainda mais da sua identidade...

Pegou o buquê.

— Sabe de uma coisa? Da próxima vez vou levar só as flores. Ainda nos vasos.

Em seguida, jogou duas notas de cem dólares sobre o balcão.

— É dinheiro demais.

Isaac empurrou as notas de volta.

— Se não gostou da embalagem, basta me pagar cinquenta.

Ele realmente não queria aceitar aquele dinheiro.

Félix, porém, bateu as notas com força sobre o balcão.

— Eu fiz o pedido. Pago quanto eu quiser. Mesmo que tenha ficado ruim, você merece ser recompensado pelo trabalho.

— As copas-de-leite não custam duzentos dólares.

— Não importa quanto custem as flores. Considere o restante uma gorjeta.

Com o buquê nas mãos, Félix simplesmente virou as costas.

Não se despediu.

Nem disse mais uma palavra.

A porta se abriu.

O sino tilintou.

E ele desapareceu.

Como Tony também já havia ido embora, um silêncio absoluto tomou conta da loja.

Os ombros tensos de Isaac finalmente relaxaram.

Mais uma vez, parecia que seus pulmões imploravam por uma quantidade de ar que ele não conseguia inspirar.

Respirava com dificuldade.

Será que tudo isso é apenas um sonho...?

Mas as duas notas de cem dólares sobre o balcão provavam que aquilo era completamente real.

O homem chamado Félix Felice era como uma pedra lançada violentamente contra a vida tranquila de Isaac.

A pedra atingira a superfície calma da água.

E as ondas provocadas por aquele impacto continuavam se espalhando, sem parar.

Se eu nunca mais o tivesse encontrado...

Se ao menos....




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