Paquerar Não Dá Medo, Medo é Perder
Yook me deixou na porta do meu condomínio. No caminho, ficamos conversando sobre assuntos aleatórios o tempo todo.
O que deveria ser algo completamente normal entre amigos ainda mais entre dois homens, para mim estava longe de ser normal.
Durante a volta inteira, meu coração bateu como uma bateria de escola de samba¹, e cada frase que eu dizia saía tremendo junto.
Eu não queria admitir que estava abalado por alguém que havia se declarado para mim. Na época da faculdade, nunca me senti assim com nenhuma das pessoas que confessaram gostar de mim.
Ou será que era porque eu estava enfrentando a solidão agora?
Talvez fosse isso que estivesse mudando a forma como eu me sentia quando estava com Yook.
Convencido de que meus gostos jamais haviam mudado, assim que nos separamos corri para o apartamento e comecei a revirar minhas coisas.
Tirei calendários de mulheres sensuais e revistas cheias de fotos provocantes para me estimular.
Essas mulheres são o meu tipo.
Elas são atraentes.
Os seios, as curvas, aquelas bundas empinadas...
Droga.
Eu não gosto de homens.
Essa sensação estranha devia ser apenas o clima do momento me confundindo.
Assim que cheguei a essa conclusão, guardei todo o material de volta e fui assobiando para o quarto.
— Uhuuuuu!
Agora sim.
Feliz.
Finalmente consegui me concentrar no trabalho.
Antes de qualquer coisa, eu estava praticamente sem dinheiro. Restavam apenas algumas moedas no bolso, e até meu estoque de macarrão instantâneo estava acabando.
Se continuasse sendo preguiçoso, não seria impossível morrer de fome em breve.
E pedir ajuda para minha família estava fora de cogitação.
Desde o começo eu havia dito que conseguiria viver dessa profissão.
Que um dia eu seria grande.
E olha só...
Grande eu fiquei.
Grande e pobre.
Sou o filho do meio entre três irmãos.
E também o único que saiu completamente dos trilhos da família.
Meu pai é diretor de escola.
Minha mãe é professora de Ciências do ensino fundamental.
Minha irmã mais velha virou professora de inglês.
Meu irmão mais novo está cursando licenciatura.
Então me expliquem:
de onde diabos surgiu esse compositor desgraçado?
Sou filho do vizinho por acaso?
Minha família queria que eu fosse servidor público.
Ou, no mínimo, que cursasse alguma faculdade que garantisse um emprego estável.
Até hoje eu não entendo essa lógica.
No fim, escolhi aquilo que amava e segui atrás do meu sonho.
E agora que cheguei tão longe, era impossível voltar para casa e pedir dinheiro.
Meu orgulho não permitia.
Então havia apenas uma solução:
Desenterrar músicas antigas, refazer as melodias, reescrever as letras e tentar vendê-las para alguma gravadora.
Eu compunha essas músicas desde a faculdade e nunca as havia mostrado a ninguém porque julgava que não tinham qualidade suficiente.
Mas, neste momento?
Que se dane a qualidade.
Meu estômago vinha primeiro.
Passei a noite inteira reescrevendo letras.
Sem comer.
Sem beber.
Sem sequer chegar perto da cama, com medo de dormir.
Quando terminei, já era meio-dia do dia seguinte.
Reuni os arquivos de áudio gravados de forma precária, anexei as letras e enviei tudo por e-mail para um produtor que conhecia.
Só então chegou a hora de dormir.
— Aaaah...
Toc toc toc.
Que porra?
Mal tinham se passado dez segundos desde que me joguei na cama quando alguém bateu na porta.
Arranquei alguns fios de cabelo de tanta raiva antes de marchar até a entrada.
Quando abri a porta e vi Yook carregando várias sacolas, fiquei ainda mais irritado.
— Por que veio agora? Estou com sono. Quero dormir...
Foi assim que comecei a conversa.
Ele franziu levemente a testa, tirou o boné e me observou de cima a baixo.
— Você ainda está com a mesma roupa. Nem tomou banho?
— Não. Também não dormi. Se tem alguma coisa pra dizer, fala logo. Estou tão cansado que minhas pálpebras estão tremendo.
Ele soltou uma risada baixa.
Então entrou no apartamento como se fosse dono do lugar, trancou a porta e foi direto para a cozinha.
— Já comeu?
Balancei a cabeça.
— Trouxe comida. Coma antes de dormir.
— Não quero. Quero dormir.
— Chayin.
— Estou com sono. Mais sono do que fome.
— Pare de fazer birra.
Eu queria me jogar no chão e começar a espernear.
Mas, vendo o olhar sério dele, me rendi e sentei à mesa.
Yook tirou uma marmita da sacola e colocou diante de mim.
— O que é isso?
— Arroz frito com camarão.
— Eu já disse que tenho preguiça de descascar camarão. Mesmo que só reste o rabo.
— Pedi para tirarem tudo. É só comer.
— E você está livre hoje? Por isso veio me ver?
Perguntei enquanto mexia na comida lentamente, incapaz de decidir se comia ou dormia.
— Estou livre todos os dias. Saí para fazer compras e passei aqui.
Depois acrescentou:
— Sente direito. Você está comendo deitado igual uma cobra.
— Mandão...
Você é só um amigo.
Não fique achando que tem privilégios especiais só porque disse que gosta de mim.
Foi isso que pensei.
Mas meu corpo me traiu completamente.
Sem perceber, sentei direito.
Droga.
Por que estou obedecendo?
Nota de Tradução
1:: A expressão tailandesa equivalente a "ใจสั่นเป็นกลองชุด" foi adaptada para "coração bateu como uma bateria de escola de samba", transmitindo a ideia de batimentos acelerados de forma natural em português.
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