29 de jun. de 2026

Sotus - Capítulo 19

Capítulo 19

Regra nº 19 para os calouros: "A engrenagem tem um significado importante."¹

— Então, o que você acha, Kongpob?

— Kongpob?

— Está me ouvindo?

Kongpob voltou a prestar atenção na conversa dos amigos. Eles estavam reunidos em um dos bangalôs à beira-mar, discutindo a apresentação que fariam naquela noite.

Fragmentos da conversa chegavam aos seus ouvidos de forma desconexa. Seus amigos o incluíam nos planos, e ele apenas assentia, sem realmente entender do que estavam falando. Em determinado momento, alguém lhe fez uma pergunta. Sem perceber qual era, Kongpob notou que todos voltaram os olhos para ele, aguardando sua resposta.

— Sim, eu ouvi. — Ele sorriu, tentando afastar os próprios pensamentos. — Concordo.

Assim que recebeu sua confirmação, May tratou de avisar o restante do grupo, completamente alheia ao fato de que Kongpob não fazia ideia do que acabara de aprovar.

Sua mente estava ocupada demais para pensar em qualquer outra coisa.

Tudo o que havia acontecido naquele dia deixara marcas profundas, não apenas no coração dos calouros, mas também no daquela pessoa...

A pessoa em quem ele não conseguia parar de pensar.

Arthit estava bravo com ele.

Não do jeito habitual.

Sendo sincero consigo mesmo, Arthit parecia viver irritado com ele. Mas, daquela vez, era diferente.

E Kongpob sabia muito bem o motivo.

Quanto mais pensava no que havia acontecido durante o dia, mais vontade tinha de bater em si mesmo. Agira por impulso, sem medir as consequências. Tudo o que queria era aliviar o calor sufocante das próprias emoções mergulhando na água fria.

Só que sua imprudência acabara fazendo muita gente se preocupar.

Principalmente a mesma pessoa que lhe dera a ordem de entrar no mar.

A mesma pessoa que correu primeiro para socorrê-lo, acreditando que ele estivesse em perigo.

Kongpob ainda conseguia recordar perfeitamente o rosto severo de Arthit, sua voz carregada de ansiedade e aqueles olhos assustados, tão próximos do seu.

Naquele instante, Kongpob teve certeza de que Arthit realmente se preocupava com ele.

Mas, quando Arthit percebeu que tudo não passara de uma enorme imprudência causada pela estupidez de Kongpob, foi como se tivesse levado um soco no rosto.

Toda a preocupação que demonstrara foi reduzida a motivo de chacota.

E essa preocupação transformou-se em pura raiva.

Kongpob queria se desculpar.

Queria muito.

O problema era que não sabia o que dizer.

Não havia desculpa capaz de justificar o que fizera.

Mesmo assim, saiu andando pelo resort na esperança de encontrar Arthit. Talvez, se conseguisse falar com ele a sós...

Mas Arthit não estava em lugar algum.

Depois de quase uma hora caminhando sem rumo, acabou sendo arrastado pelos amigos de volta ao grupo.

Sem alternativa, desistiu de procurá-lo e seguiu os demais calouros até o refeitório, carregando um peso sufocante no peito.

Sua cabeça estava um caos.

Os pensamentos rodopiavam sem parar, atormentando-o.

Kongpob soltou um longo suspiro, expirando com força, como se pudesse expulsar toda aquela angústia junto com o ar.

Naquela noite haveria uma apresentação preparada pelos calouros.

Depois de todas as atividades organizadas pelos veteranos, era natural que Arthit estivesse presente, já que era o líder do trote.

Kongpob tinha certeza de que aquela seria a última prova imposta aos calouros.

E estava decidido a dar o melhor de si.

Queria provar ao líder do trote que era digno de ser chamado de estudante da Faculdade de Engenharia.

E, acima de tudo...

Esperava que, ao ver seu esforço, Arthit aceitasse ouvi-lo.


---

Depois do jantar, todos os calouros receberam a instrução de se reunir no auditório principal.

Todos os anos era realizada ali uma cerimônia que reunia estudantes do primeiro ao quarto ano.

O evento começou com um discurso de um representante do quarto ano, Dear.

Em seguida, alguns alunos tocaram músicas acompanhadas de violão, arrancando aplausos calorosos dos calouros.

As meninas eram, de longe, as que gritavam mais alto.

Depois de algumas canções populares, o grupo de animação do segundo ano subiu ao palco para apresentar uma esquete cômica, cheia de piadas e atuações exageradas.

Eles haviam adiantado sua apresentação porque os alunos do terceiro ano ainda não estavam prontos.

Assim, quando terminaram...

Era a vez dos veteranos responsáveis pelo trote.

Só que eles continuavam se preparando.

Sem outra alternativa, decidiram adiantar a apresentação dos calouros.

Kongpob entrou no palco para interpretar seu papel.

Felizmente, não era nada difícil.

A peça havia sido escrita por May e retratava o primeiro dia de um estudante na universidade: conhecer novos amigos, reencontrar antigos colegas, participar da primeira reunião e aprender alguns dos conselhos transmitidos pelos veteranos.

Kongpob sequer era o protagonista.

Na verdade, tinha apenas três falas.

Sua participação também era curta.

Depois da primeira entrada em cena, afastou-se para um canto enquanto aguardava o momento de voltar ao palco.

Foi então que aproveitou para olhar ao redor.

Entre os veteranos do terceiro ano que assistiam à apresentação...

Ele finalmente encontrou o rosto que procurara o dia inteiro.

Arthit.

Alguns calouros estavam levando materiais para a apresentação dos veteranos, e Kongpob aproveitou para ajudá-los.

Sentiu um enorme alívio ao ver Arthit ali.

Apenas vê-lo já parecia aliviar um pouco o peso em seu coração.

"Não vou perder esta chance."

Era sua oportunidade de pedir desculpas.

Tomando coragem, caminhou em direção ao líder do trote.

Mas, de repente...

Um arrepio percorreu sua espinha.

Seus passos congelaram no mesmo instante em que ouviu um calouro dizer, no palco:

— Está vendo esta engrenagem? Este símbolo representa o orgulho de um estudante de Engenharia. Então me diga... se eu não entregar a minha para você... o que pretende fazer?

— Eu vou tomá-la de você!

Kongpob virou a cabeça imediatamente.

Seu rosto perdeu toda a cor.

Aquela cena...

Era a reconstituição exata da primeira discussão que ele tivera com Arthit.

Até mesmo a frase provocativa que dissera naquele dia, desrespeitando completamente um veterano, estava sendo reproduzida.

Sem entender o que estava acontecendo, correu até May, que organizava a apresentação nos bastidores.

— May! Por que vocês colocaram essa cena na peça?

Ela piscou, surpresa.

— Esqueceu? Eu perguntei se havia algum problema em incluir essa parte. Você disse que estava tudo bem.

Kongpob ficou sem fala.

Então se lembrou.

Devia ter sido justamente naquele momento em que sua cabeça estava longe dali.

Respondera automaticamente...

Sem saber com o que estava concordando.

E o pior...

Arthit estava assistindo a tudo.

A apresentação continuou.

E o desespero de Kongpob só aumentava.

A peça continuou.

— E como pretende tirar a minha engrenagem?

— Vou fazer de você minha esposa. Dizem que entre amantes tudo é compartilhado. Se você for meu, sua engrenagem também será minha!

O auditório explodiu em gargalhadas e aplausos.

Aquela frase já havia se tornado famosa entre os calouros.

Mas, para a pessoa que realmente a dissera...

Não havia absolutamente nada de engraçado.

Kongpob sentia o rosto arder de vergonha.

Só então percebeu o quanto, desde o primeiro encontro, havia se esforçado para provocar Arthit.

Se tivesse falado daquela maneira com qualquer outro veterano, provavelmente teria levado uma surra.

Além disso...

Ele nem sequer se lembrava de que suas palavras haviam soado tão insinuantes.

Mesmo depois de tudo aquilo, Arthit nunca procurou humilhá-lo diante dos outros.

Era verdade que o líder do trote lhe aplicara castigos severos, mas Kongpob agora entendia que aquilo jamais fora por simples vingança.

Por trás de cada punição havia um motivo.

Tudo o que Arthit fazia tinha uma razão.

E foi justamente isso que fez Kongpob desejar conhecê-lo melhor.

Queria saber tudo sobre ele.

Mais do que qualquer outra pessoa.

Sempre que descobria que existiam lados de Arthit que desconhecia...

Sentia uma estranha pontada no peito.

E, quando via Arthit sorrindo ou sendo gentil com outras pessoas, uma sensação difícil de explicar tomava conta dele.

Era...

Ciúme.

Ciúme de pessoas que podiam conversar normalmente com Arthit.

Porque, entre os dois, nunca existira uma conversa de verdade.

Kongpob queria recomeçar.

Mas...

Ainda haveria tempo?

Será que Arthit conseguiria esquecer toda a impressão ruim que ele havia causado?

Ele esperava que sim.

Precisava pedir desculpas.

Precisava que Arthit aceitasse seu arrependimento.

E, quem sabe...

Um dia...

Os dois pudessem se tornar próximos.

Mas esse pequeno desejo desapareceu no instante seguinte.

Ao mesmo tempo em que olhava para o palco...

Viu Arthit avançar furioso em direção a ele.

Sem hesitar, o líder do trote subiu ao palco e interrompeu a apresentação.

Sua voz ecoou pelo auditório exatamente como fazia durante as reuniões dos calouros.

— O que há de tão engraçado, calouros? Porque eu não estou achando graça nenhuma!

O silêncio foi imediato.

— Vocês são muito corajosos para apresentar uma peça dessas. Acham mesmo que merecem receber as engrenagens depois disso?

Seu olhar percorreu os estudantes que ainda estavam no palco.

Era frio.

Cortante.

— Vocês... saiam daí. Agora!

Os calouros desceram às pressas.

Todo o auditório mergulhou num silêncio sufocante.

May, autora da peça, estava completamente pálida.

Na verdade, o final da apresentação mostraria os alunos rebeldes compreendendo os verdadeiros motivos por trás das punições dos veteranos e agradecendo por terem sido orientados.

Mas Arthit interrompera tudo antes desse momento.

O objetivo da peça acabara sendo completamente mal interpretado.

Então ele gritou novamente.

— Todos... fechem os olhos! Cabeças abaixadas! Agora!

Nenhum calouro ousou desobedecer.

Todos abaixaram a cabeça até quase encostarem a testa no chão.

Nesse instante...

As luzes do auditório se apagaram.

A escuridão tomou conta do ambiente.

O medo voltou imediatamente.

Será que perderiam o direito de receber as engrenagens?

Ou seriam submetidos a mais uma prova cruel como a batalha pela bandeira?

Ninguém sabia.

O silêncio parecia interminável.

Cada segundo aumentava a tensão.

Então...

Uma contagem regressiva começou a ecoar pelos alto-falantes.

Logo depois...

O projetor foi ligado.

Na tela apareceu um vídeo.

As primeiras imagens mostravam os alunos do terceiro ano enfrentando exatamente os mesmos treinamentos físicos pelos quais os calouros haviam passado.

Depois surgiram os estudantes do segundo ano.

O grupo de animação ensaiando os hinos da universidade.

O grupo de primeiros socorros correndo de um lado para o outro para atender os estudantes durante as atividades físicas.

Por fim...

Apareceram os próprios calouros.

As imagens da conquista da bandeira.

O momento em que receberam as pulseiras brancas amarradas pelos veteranos como votos de boa sorte.

Cada cena despertava lembranças.

Momentos de esforço.

Companheirismo.

Sacrifício.

União.

O vídeo durou apenas cerca de dez minutos.

Mas foi suficiente para emocionar todos os presentes.

Quando terminou...

A tela ficou preta por alguns segundos.

Então surgiu outra imagem.

Os integrantes do grupo responsável pelo trote estavam sentados em um banco de pedra diante do prédio principal da Faculdade de Engenharia.

No centro deles...

Estava Arthit.

Sua expressão parecia estranhamente perdida.

Como se não soubesse muito bem o que fazer.

Ele olhou para a câmera.

— Ei... já está gravando?

Alguém respondeu atrás da câmera:

— Está! Fala logo!

— Hã? Por que eu?

— Porque você é o líder!

Todos riram.

Arthit fez uma careta.

Pigarreou discretamente.

E começou a falar.

Sua voz voltou a ser firme.

A mesma voz do líder do trote.

— Calouros... vocês provavelmente sabem que todas as provas pelas quais passaram durante esses últimos três meses foram preparadas por nós, alunos do terceiro ano.

Ele fez uma pequena pausa.

— Durante todo esse tempo acompanhamos o crescimento de cada um de vocês.

— O verdadeiro objetivo do trote... sempre foi ensinar o significado da união.

— E acreditamos que vocês conseguiram aprender isso.

Se, em algum momento...

Nós machucamos vocês...

Ou ferimos seus sentimentos...

Gostaríamos de pedir desculpas.

O auditório permaneceu completamente em silêncio.

Então Arthit ergueu os olhos e encarou diretamente a câmera.

Era como se estivesse olhando nos olhos de cada calouro.

— Assim como vocês sempre precisaram pedir nossa permissão para fazer muitas coisas...

Agora...

Somos nós que queremos pedir a de vocês.

Respirou fundo.

E perguntou:

— Calouros... vocês nos permitem ser seus veteranos?

Aquelas palavras fizeram o auditório inteiro mergulhar no mais absoluto silêncio.

Naquele instante...

Todos compreenderam.

Ser veterano nunca significou mandar.

Nunca significou possuir autoridade apenas por ter entrado antes.

A verdadeira relação entre veteranos e calouros era construída pela aceitação mútua.

Pelo respeito.

Pela confiança.

Pela união.

A voz de Arthit voltou a soar pelos alto-falantes.

— Se a resposta for "sim"... estaremos esperando por vocês na praia.

A tela se apagou.

Sem precisar dizer uma única palavra...

Todos os calouros se levantaram ao mesmo tempo.

E correram em direção à praia.

Assim que chegaram à praia, os calouros pararam, completamente maravilhados.

Diante deles havia um caminho iluminado por centenas de pequenas velas protegidas por copos de vidro. A luz tremeluzente refletia na areia e criava uma atmosfera quase mágica.

Os estudantes dos quatro anos da Faculdade de Engenharia estavam alinhados dos dois lados daquele caminho, aguardando silenciosamente a chegada da nova geração.

À frente de todos...

Havia apenas uma pessoa.

Arthit.

Ele permaneceu parado, com a postura firme, mas sem a rigidez que costumava demonstrar durante o trote. Seu olhar percorreu cada um dos calouros antes de falar em voz alta:

— Calouros! No fim deste caminho estão as engrenagens! Agora chegou a hora de eu cumprir meu último dever como líder do trote... conduzir vocês até elas!

Ao terminar, Arthit caminhou até a areia e sentou-se ao lado dos demais veteranos responsáveis pelo trote e dos integrantes da equipe de animação.

Então todos fizeram o mesmo movimento.

Sentaram-se frente a frente e entrelaçaram os braços, segurando os cotovelos uns dos outros, formando uma ponte humana.

Era o chamado "ponte viva".

Por ela, cada calouro atravessaria simbolicamente o caminho até se tornar um verdadeiro estudante da Faculdade de Engenharia.

Enquanto isso, o hino da faculdade começou a ecoar pela praia.

A cerimônia ganhou uma solenidade que emocionou todos os presentes.

Cada calouro era acompanhado por dois veteranos ao atravessar a ponte.

Embora ela tivesse apenas alguns metros de comprimento, cada passo parecia carregar um peso enorme.

Todos sabiam que estavam apoiando o próprio corpo sobre os braços unidos de seus veteranos.

Especialmente sobre o primeiro deles.

Aquele que recebia o maior impacto de cada pessoa que passava.

Mesmo assim...

Ninguém reclamava.

Todos compreendiam o significado daquele gesto.

Quando chegou sua vez, Kongpob parou diante da ponte.

Seu olhar encontrou Arthit.

Em voz tão baixa que quase foi engolida pelo vento do mar, murmurou:

— Me desculpe... P'Arthit.

Arthit ergueu os olhos por um breve instante.

Ao reconhecer Kongpob...

Desviou imediatamente o olhar.

Como se ele não existisse.

As palavras de desculpa desapareceram junto com a brisa.

Kongpob compreendeu.

Naquele momento não era a hora.

Mesmo assim, atravessou a ponte em silêncio.

Guiado pelos veteranos, caminhou até o final do caminho iluminado, onde outra pessoa o aguardava.

Era Dear.

O antigo líder do trote.

Em suas mãos estavam as engrenagens da nova turma.

Cada uma delas trazia gravado o símbolo da Faculdade de Engenharia e o número da geração correspondente.

Assim que Kongpob se aproximou, Dear levantou uma delas.

— Calouro. Qual é o seu nome?

— Kongpob.

Dear sorriu.

— Ouvi dizer que foi você quem sugeriu agradecer ao Arthit no dia da disputa pela bandeira. É verdade?

Kongpob ficou surpreso com a pergunta.

Ainda assim, respondeu honestamente:

— Sim.

— Foi uma excelente ideia.

Dear deu um leve tapinha em seu ombro.

— Me diga... você gostaria de ser o próximo líder do trote?

Kongpob arregalou os olhos.

— Eu?

— Sim.

Você ainda tem tempo para pensar.

Só precisará decidir quando estiver terminando o segundo ano.

Mas, por enquanto...

Vamos considerar essa vaga reservada para você.

O que acha?

A proposta pegou Kongpob completamente desprevenido.

Ele sequer entendia por que Dear o havia escolhido.

Antes que pudesse fazer qualquer pergunta...

Dear colocou delicadamente a engrenagem em sua mão.

— Tome.

Este é o símbolo da Faculdade de Engenharia.

A engrenagem possui muitos significados.

Cuide bem dela.

Kongpob ouviu atentamente enquanto Dear lhe explicava o verdadeiro valor daquele símbolo.

Era mais do que um simples acessório.

Era um ensinamento passado de geração em geração.

Depois de agradecer respeitosamente, Kongpob deu lugar ao próximo calouro.

Quando todos receberam suas engrenagens...

Veteranos e calouros cantaram juntos os hinos da Faculdade de Engenharia e da universidade.

Com aquilo...

A cerimônia do trote finalmente chegou ao fim.

Logo depois começou a comemoração.

Os alunos do terceiro ano haviam preparado uma festa para dar boas-vindas oficialmente à nova geração.

Havia karaokê.

Comida.

E, claro...

Cerveja.

Os amigos de Kongpob tentaram arrastá-lo para beber com eles.

Mas ele recusou.

Ainda havia uma coisa que precisava fazer.

Precisava conversar com Arthit.

Precisava resolver tudo entre eles.

Só que...

Arthit havia desaparecido.

Durante toda a cerimônia, seus olhares se cruzaram algumas vezes.

Entretanto, assim que tudo terminou, Arthit sumiu em meio à multidão.

Kongpob procurou por toda parte.

Na mesa dos veteranos.

Na praia.

Entre os grupos espalhados pela festa.

Nada.

Começou até a lamentar não possuir o número de telefone de Arthit.

Talvez pudesse pedir o contato a alguém...

Foi justamente quando pensava nisso que avistou uma silhueta caminhando sozinha em direção aos bangalôs.

Era Arthit.

Kongpob correu atrás dele.

Então percebeu algo.

O braço esquerdo de Arthit estava enfaixado.

Era justamente o braço que ficara na ponta da ponte viva, sustentando o peso de todos os calouros.

Seu coração apertou.

Claro...

Ele havia se machucado.

Mesmo suportando tudo sem demonstrar dor durante a cerimônia, agora Arthit massageava discretamente o braço.

Sem pensar duas vezes, Kongpob acelerou os passos.

— P'Arthit! Preciso falar com você!

Arthit parou no meio da escada.

Não respondeu.

Nem sequer se virou.

Apenas permaneceu imóvel.

Esperando que Kongpob dissesse o que queria.

Kongpob respirou fundo.

E falou aquilo que guardava desde cedo.

— Quero pedir desculpas.

As palavras saíram diretamente do coração.

Kongpob realmente queria que Arthit entendesse o quanto estava arrependido.

Sem perceber, seus olhos se encheram de expectativa.

Arthit, porém, manteve a mesma expressão fria de sempre.

— Pedir desculpas? Pelo quê?

— Por todas as vezes em que fiz você ficar bravo.

Arthit lançou-lhe um olhar breve antes de perguntar:

— Se você sabia que isso me irritava... por que continuou fazendo?

A pergunta era simples.

Mas atingiu Kongpob em cheio.

Ele permaneceu calado.

Nem ele próprio sabia responder.

Por que sempre fazia questão de provocar Arthit?

Por que gostava tanto de vê-lo irritado?

E, se era assim...

Por que agora desejava desesperadamente ser perdoado?

— Eu... — começou, sem conseguir completar a frase.

Arthit soltou um longo suspiro.

Parecia realmente cansado.

— Esquece isso.

Estou cansado de ficar brigando com você.

Depois de dizer aquilo, virou-se e caminhou de volta para a festa dos veteranos.

Kongpob permaneceu parado na areia.

Sentia como se algo muito importante tivesse escapado de suas mãos.

Era justo.

Durante três meses só fizera provocar Arthit.

Era natural que ele não quisesse mais perder tempo com alguém como ele.

A pessoa que, sem perceber, havia ocupado um espaço enorme em sua vida...

Agora o rejeitava.

Em apenas três meses, Kongpob havia passado a guardar cada lembrança envolvendo Arthit.

Cada discussão.

Cada encontro.

Cada pequeno momento.

Arthit havia se tornado sua motivação.

A razão de muitos de seus sorrisos.

Alguém que surgira inesperadamente em sua vida e que ele desejava conhecer melhor do que qualquer outra pessoa.

Nunca sentira aquilo por ninguém.

E agora...

Tudo parecia ter chegado ao fim.

Com o encerramento do trote, talvez nunca mais tivesse uma oportunidade de conversar com Arthit.

Kongpob abaixou a cabeça.

Guardou aquele sentimento no fundo do peito.

Estava prestes a voltar para a praia quando sentiu algo gelado tocar seu pescoço.

Assustado, virou-se imediatamente.

Diante dele...

Estava Arthit.

Na mão, uma lata de cerveja bem gelada.

— Quer?

Ainda atordoado, Kongpob aceitou a lata.

Arthit sentou-se tranquilamente na areia, abriu a própria cerveja e deu um gole.

Sem conseguir esconder a surpresa, Kongpob perguntou:

— Achei que você não quisesse mais falar comigo.

Arthit deu outro gole antes de responder.

— Eu nunca disse isso.

O que eu disse foi que não queria mais brigar com você.

Se quer conversar...

Então sente aí.

Ou mudou de ideia?

— Não!

Quero conversar!

Kongpob respondeu depressa, sentando-se ao lado dele.

Por um instante, ficou apenas observando o mar.

A brisa era agradável.

O céu estava completamente estrelado.

O clima transmitia uma estranha sensação de paz.

Depois de alguns segundos de silêncio, Kongpob finalmente fez a pergunta que desejava havia muito tempo.

— P'Arthit...

Por que você decidiu se tornar o líder do trote?

A resposta veio sem qualquer hesitação.

— Porque me obrigaram.

Kongpob quase engasgou com a cerveja.

Arthit continuou naturalmente:

— P'Tum era o líder quando eu era calouro.

Foi ele quem me escolheu para substituí-lo.

Na verdade...

Eu nunca quis esse cargo.

Ser líder do trote significa carregar muitas responsabilidades.

E eu sempre tive um temperamento difícil.

No primeiro dia das reuniões, quando agarrei você pela gola da camisa...

Quase perdi minha posição.

Kongpob arregalou os olhos.

Arthit continuou:

— Eu deveria apenas ter chamado sua atenção.

Nunca poderia ter encostado em você.

Meus amigos assumiram parte da culpa por não terem me impedido.

Como manda a tradição...

Quando um membro erra, todos dividem a responsabilidade.

Por isso, P'Dear resolveu deixar passar.

Como era minha primeira falha...

Recebemos apenas vinte voltas de punição no estádio.

Kongpob nunca soubera disso.

Naquele instante compreendeu que tudo acontecera por sua causa.

Baixou a cabeça.

— Me desculpe...

Arthit deu de ombros.

— Já passou.

Além disso...

Você também recebeu punição por causa da sua insolência.

Depois disso, ficou olhando para o mar em silêncio.

Kongpob aproveitou para mudar de assunto.

— Você lembra da aposta da competição Lua e Estrela?

Arthit assentiu.

— Lembro.

Já decidiu o que vai pedir?

— Sim.

Você está livre no próximo sábado?

— Estou.

— Quero sair para comprar algumas coisas.

Você pode ir comigo?

Arthit piscou, surpreso.

Durante dois meses imaginara que Kongpob pediria algo absurdo para humilhá-lo.

Mas...

Era só isso.

— Tudo bem.

Um enorme sorriso surgiu no rosto de Kongpob.

— Então me passa seu número.

Eu também vou te dar o meu.

Enquanto Kongpob pegava o celular, Arthit olhou para sua mão esquerda.

Franziu a testa.

— Quando pretende tirar isso?

— Tirar o quê?

Arthit apontou.

A pulseira branca ainda estava presa ao pulso de Kongpob.

— O que ela tem?

Eu gosto dela.

Kongpob sorriu suavemente.

Seus olhos brilhavam de um jeito estranho.

Arthit não conseguiu sustentar aquele olhar.

Sentiu o rosto esquentar.

E desviou os olhos.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa...

Uma voz ecoou atrás deles.

— Arthit! Onde diabos você se meteu? Volta logo! Todo mundo está esperando!

Arthit levantou-se imediatamente.

— Já estou indo!

— Espere, P'Arthit!

Kongpob também ficou de pé.

— Tenho uma coisa para você.

— O quê?

— Me dá sua mão.

Arthit fez uma expressão claramente contrariada.

Mesmo assim...

Estendeu a palma.

Kongpob colocou a mão no bolso.

Retirou um pequeno objeto.

E o depositou cuidadosamente na mão de Arthit.

Arthit olhou.

Era a engrenagem que Kongpob acabara de receber.

— Está devolvendo isso para mim?!

A voz saiu mais alta do que pretendia.

Por um instante, acreditou que Kongpob estivesse zombando dele outra vez.

Mas Kongpob balançou a cabeça.

— Não.

Não estou devolvendo.

Só quero que você cuide dela para mim.

Arthit ficou completamente confuso.

— Eu?

Por quê?

Kongpob pareceu ainda mais surpreso.

— Você...

Não sabe o verdadeiro significado da engrenagem?

Achei que soubesse.

Se quiser entender...

Pergunte ao P'Dear.

Arthit ficou sem reação.

Logo naquele momento seus amigos voltaram a chamá-lo.

Sem tempo para insistir, apenas guardou a engrenagem no bolso e foi embora, ainda confuso.

Mais tarde, já sentado com os veteranos, decidiu perguntar diretamente a Dear:

— P'Dear...

Qual é o verdadeiro significado da engrenagem?

Dear deu uma risada.

— Que pergunta estranha.

Já ficou bêbado tão rápido assim, Arthit?

Depois respondeu:

— A engrenagem representa a união da Faculdade de Engenharia.

É o símbolo do nosso orgulho.

Por isso não é fácil conquistá-la.

Arthit fez uma careta.

Aquilo ele já sabia.

Achava que Kongpob apenas brincara com ele outra vez.

Então Dear completou:

— Mas existe outra coisa...

A engrenagem representa o nosso coração.

O coração funciona como uma engrenagem.

Por isso...

Quando você entrega sua engrenagem para outra pessoa...

É o mesmo que entregar o seu coração.

Arthit quase cuspiu toda a cerveja.

Engasgou violentamente.

Dear bateu em suas costas.

— Devagar!

Você ficou completamente vermelho.

Está bêbado mesmo.

Arthit não respondeu.

Apenas limpou os lábios.

Levou lentamente a mão até o bolso.

Sentiu a pequena engrenagem que Kongpob lhe entregara.

Seu coração começou a bater de forma estranhamente acelerada.

"...Então era esse o verdadeiro significado..."

A engrenagem que Kongpob havia colocado em suas mãos...

Era o coração de Kongpob.


Notas de tradução

¹ Engrenagem: nas Faculdades de Engenharia da Tailândia, a engrenagem é o principal símbolo do curso. Recebê-la representa o reconhecimento oficial do estudante como membro da faculdade. Além disso, existe um significado simbólico mais íntimo: entregar sua engrenagem a alguém pode representar confiar-lhe o próprio coração, o que explica a reação de Arthit ao descobrir seu verdadeiro significado.

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