29 de jun. de 2026

Zombie Hunter - Capítulo 05

Capítulo 05: A Trainee vs. A Trainer

“Vamos para outro lugar?”

O som do sino veio logo depois que Nevils desviou o olhar do anel no meu dedo. Só aí notei que havia um tom zombeteiro ali.

“Tente não ficar nervoso” — ele disse sem olhar para mim, a voz abafada.

“Por que não?”

Ele não respondeu. Só puxou a rédea e olhou para o outro lado, como se escolhesse o destino. Fez meu coração disparar sem motivo.

Não entendi a atitude dele, nem mesmo sabendo que sou novato e que só estou aqui porque ele me forçou a isso. Toda vez que ele olha para mim, não é como se estivesse olhando para algo que deveria estar ali. É como se estivesse me obrigando a ser só um número a mais, só para ele poder fingir que está treinando mais alguém além daquele garoto trainee que ele tanto adora. Como se eu fosse só um boneco de treino para ele, mesmo.

Será que ele está me provocando?

“Sério, Nevils. Eu nem sabia que você tinha um discípulo que trabalhava aqui. E pelo jeito, nem é de hoje.” No fim, não consegui engolir a curiosidade e joguei a pergunta.

Nevils parou de repente, virou o rosto e me encarou.

“Não, mas agora tem.”

“Como assim?”

“Significa que não vou deixar você fazer nada sozinho.”

“Você falou isso com todos eles?” — perguntei, lembrando dos olhares que todos me lançaram antes.

Ele me olhou de cima a baixo antes de responder:

“Você está aqui embaixo só como um estagiário, mas fez coisas que colocam meu discípulo em risco. Ele só tem 18 anos. É fácil eu te acusar de ter vindo com más intenções. Peço que vá embora da fazenda agora mesmo. Chame um carro e volte para o estábulo do seu senhor, que é o lugar certo para você. Se continuar aqui, não posso garantir que consiga manter meu aluno seguro por muito tempo. Posso matá-lo aqui mesmo, com minhas próprias mãos.”

Oh, isso é pior do que eu pensei. Ele está me chamando de alguma espécie de monstro.

Mas eu não sou inocente... só fiz o que precisava para sobreviver.

“Eu nem vou te deixar sair vivo.”

Quando soltei isso, Nevils arregalou os olhos. Ele estava em pé no único lugar onde a luz batia mais forte que em qualquer lugar que eu já tivesse visto, antes de soltar uma risada contida e, então, a voz saiu baixa:

“Quero deixar seu corpo em paz antes de te matar.”

Ele fez meu corpo inteiro tremer, mas ainda conseguiu mastigar a comida calmamente e falar de volta.

Na verdade, não deveria ser você quem responde por ele. Quem trouxe os problemas para a minha fazenda foi um garoto de família nobre que eu não sabia de onde tinha vindo!

“Também acho. Nem eu quero te matar mesmo” — respondi, soltando um riso forçado.

“Então é bem simples. Vai embora. Hoje eu vou te deixar ficar mais um dia.”

Nevils me obrigou a montar atrás dele, me deixando com a boca cheia do cheiro do casaco dele, sem que eu pudesse recusar o cavalo que ele já tinha pegado. Do caminho, e então ele foi embora como se nada tivesse acontecido.

Nevils me levou a um campo de tiro que ficava a pouca distância do haras dessa cidade. Fiquei aliviado por não precisar pegar uma carruagem. O campo de tiro parecia o de uma cidade normal, porque era um campo de tiro comum mesmo, como os que eu costumava ver na TV.

Nevils entrou para falar com um xerife que cuidava do campo, um homem magro e alto. Pelo jeito, ele estava relatando que tinha vindo sem avisar. Aquele xerife era atencioso e até ofereceu uma xícara de café.

“Quer que eu fique aqui até você terminar?”

“Sim, mas o prefeito me pediu para deixá-lo treinar com munição de verdade porque a cidade está se preparando para o desfile.” — disse Nevils.

O xerife concordou em informar o responsável assim que tivesse oportunidade.

Aquele xerife também acenou com a cabeça como se entendesse o significado do que Nevils queria dizer: que ele também teria o mesmo treinamento que o filho dele.

“Então vamos para a sala de tiro.”

“Não precisa correr. O prefeito mandou eu ser o seu supervisor.”

“Ah, deixe o senhor ser meu guia então.”

Nevils assentiu. Eu olhei para o cavalo que tinha saído sem cerimônia e agora tinha voltado para ouvir a ordem dele.

“Bem apropriado. Hoje eu tenho duas pistolas para você escolher: uma de ação simples e uma de ação dupla.”

Sem perder tempo, o xerife nos levou até uma mesa que tinha várias caixas de armas organizadas. Ele pegou uma de ação simples para mostrar, depois pegou outra e começou a explicar sobre a segunda caixa.

Ele entrou numa sala que parecia um escritório, pegou umas caixas de munição e, depois de carregar as armas, virou-se e me chamou para segui-lo até a área de tiro ao lado.

Entrei na área de tiro e, do lado, tinha uma sala com vidro blindado que fazia com que o som dos tiros não me incomodasse tanto. Era só um vidro comum, mas o fato de estar ali já me deixava um pouco mais tranquilo. Apesar de ser a primeira vez que eu segurava uma arma de verdade, senti que estava pegando o jeito rápido, como se já tivesse nascido com isso.

Só que o jeito dele segurar a arma era idêntico ao meu. As mãos que ele me ensinava vinham com uma força que eu não esperava, quase me esmagando. Eu não tinha o que fazer a não ser aceitar o toque do garoto. Além do cheiro do casaco dele, que lembrava os homens da cavalaria com quem eu costumava andar, me fez sentir uma familiaridade estranha, como se eu tivesse conhecido aquele toque na vida passada.

Que filho da mãe! Não quero voltar pra lá de jeito nenhum!

“Abra um pouco as pernas.”

Até o fim da frase, Nevils já tinha me feito ficar na posição certa.

“Respira.” Eu disse baixinho, com o corpo encostado nas costas dele, enquanto ele segurava minha arma.

“Respira junto comigo.” Ele ordenou. Meus dedos tocaram o gatilho.

“Vai atirar em outro alvo, não nesse. Quando eu mandar.”

Nevils abaixou a cabeça e ajeitou meu braço quando o primeiro carregador acabou e ele trocou por outro. Então começou a explicar:

“O que você segura na mão é uma HK45. É uma pistola semiautomática com magazine. Tem recuo leve, não muito forte. Mas se a arma esquentar demais, o cano pode travar. Essa arma pode ser usada de dois modos: ação simples e ação dupla. Já a que está na mesa é uma HK33, uma carabina para uso em selva. A coronha parece de plástico. É uma arma de cano longo, de assalto. A diferença principal dessa carabina é que você precisa decorar cada detalhe e saber como usar.”

Olhei para o garoto que me explicava tudo aquilo. Disse a ele que não sabia nada sobre armas e que nem tinha prestado atenção direito. Que eu nem sabia que os braços dele eram daquele jeito, nem que as costas dele eram tão largas. Também não sabia se ele estava me chamando de burro ou não. Nem lembro mais o que ele falou.

“Você entendeu o que eu falei até agora?”

O jeito que ele me perguntou fez meu rosto corar. Apertei os lábios, tentando manter a expressão séria.

“Entendeu? Se sim, atira. Acertar não é necessário. Só lembra?”

“Se é assim, o que eu faço?” — perguntei, olhando para o garoto sem entender nada.

Olhei para a arma que ainda estava na minha mão e então encarei a cara dele.

“É... HK... é...”

Nevils respirou fundo, visivelmente irritado, antes de soltar o ar e usar o dedo para levantar meu queixo.

“E esse?”

“Ah... HK...”

Lembra desse, pelo menos, né?

Nevils me olhou sem saber se ria ou não. Não tive como saber de onde vinha aquele olhar. Era um olhar de provocação, mas que eu não conseguia ignorar. Não me importo com o que dizem sobre mim nesse lugar. Mas digo: não tenho nenhuma imagem para manter em uma cidade assim, ainda mais depois de tudo.

Sorte que o Nevils não deu importância para aquilo. Mudou de assunto como se nada tivesse acontecido.

“Isso aqui já foi usado pelo pessoal da cavalaria. Agora eles não usam mais. Você pode ficar com um se quiser.”

Eu pegaria um daqueles três revólveres sem nem pensar duas vezes. O formato parecia comum, igual aos outros. Já o cabo era diferente, meio rústico, como se tivesse sido feito por um artesão daqui mesmo. Mas era o tipo de arma que combina com o punho de alguém como eu. Peguei um sem hesitar, antes que ele se arrependesse e pegasse de volta.

“Vamos treinar com alvos móveis primeiro. Se conseguir acertar, te deixo usar um de verdade com munição. Depois te levo para treinar com alvos fixos, mais adequado.”

Assenti, concordando, já que não tinha nada que eu pudesse dizer contra uma ordem daquelas.

“Levanta. Aponta para aquele alvo. Fique ereto. Braço esquerdo deve estar a um palmo do corpo. Não curve o ombro.” — ele explicou.

Fiz o que ele mandou sem reclamar, antes que ele falasse mais alguma coisa.

“Aperte com a mão esquerda o mais forte que conseguir. Dobre os dedos um pouco. Inspire fundo e prenda a respiração, solte o ar devagar junto com o tiro. Mão direita só usa para puxar o gatilho.”

Falou o quê, meu amigo?

“Pode explicar de novo usando palavras que um plebeu como eu entenda?” — franzi a testa para ele.

Nevils suspirou, fundo. Veio até mim e ajustou meu braço com a mão, fazendo com que eu entendesse o que ele queria dizer.

“Se fizer assim, o tiro não vai sair torto.”

“Não treinei desse jeito antes. O primeiro dia já começa assim, é complicado pra caramba.”

“Se continuar assim.” — ele repetiu, sem perder a calma.

Ok. Entendi que ele só queria me ver passar vergonha na frente dele primeiro. Deixa eu ver o que esse xerife aí consegue fazer.

“Isso aí tá bom. Segura firme. Puxa o gatilho com calma, sem pressa.”

Mesmo assim, não vou conseguir acertar nem se me matar. Já atirei uma vez e errei feio. A sensação de derrota ainda não tinha passado.

“Eu disse que se errasse não ia ser bom pra você!” — Nevils disse, ríspido, me fazendo engolir o orgulho e tentar de novo.

“Você só vai acertar se ouvir minha voz até o fim, entendeu?”

Nevils se aproximou sem avisar. Pegou minha mão por trás, corrigindo minha postura.

“Ainda não. Mira bem na base. Você ainda nem está com a postura certa para atirar. Mesmo assim, se acertar alguma coisa, já é sorte. Não faça isso pela primeira vez.”

Eu queria enfiar a coronha da arma na boca daquele xerife metido a besta. Tinha cara de pau para falar isso!

Respirei fundo mais uma vez. Apontei e atirei. Mesmo errando, já era esperado que eu fosse alto demais para controlar o recuo. Mas assim que o tiro saiu, Nevils já se meteu no meio e me interrompeu na mesma hora.

“Não precisa se apressar, moleque.”

Eu engoli seco, com medo. Mas o jeito que ele falava, embora bruto, tinha um tom de quem realmente se importava, mesmo sem demonstrar nenhum traço de emoção no rosto. Só parecia alguém que não recebeu treinamento militar. Um pouco.

“Acabou de atirar pela primeira vez. Errar é normal. Não é que eu tenha te subestimado. É que eu não acredito que você vá acertar de primeira. Nem eu acertava quando comecei.”

“Não tem jeito mesmo?”

“Tem. Mira no alvo daquele manequim ali.” — eu sorri de canto.

Nevils riu mais ainda ao me ouvir. Depois empurrou minha cabeça para longe do ombro dele e pegou outro carregador da mesa, enfiou na arma e recarregou com um movimento firme, antes de levantar o braço e apontar para o alvo.

“Calma, firme, separa as pernas. A arma tem que estar alinhada com o ombro.” — ele disse como se estivesse recitando uma lição decorada.

Pude ver o pulso dele firme, e falei baixinho:

“Não é assim?”

Assim que terminei de falar, ele puxou o gatilho e nem se deu ao trabalho de olhar para o alvo. A bala acertou bem no meio do manequim de pano. O mais importante é que o ponto final de cada tiro dele também acertava.

Eu abri a boca, sem conseguir fechar. Enquanto ele atirava sem nem olhar, com a mão esquerda no bolso, o braço direito estendido. A postura perfeita do último tiro ainda estava cravada na minha mente.

Como faz isso?!

“Não faz essa cara, garoto.” — a voz do Nevils soou acima da minha cabeça, com um riso contido. Eu só consegui encará-lo, sem nem conseguir negar que ele era bom mesmo.

“Esse aqui também usa HK33.”

“Só fala e não atira, vai ficar olhando até quando? Bora, seu mole. Faz logo. Eu não tô de brincadeira.”

Fiquei calado ouvindo as ordens que ele soltava sem nem olhar para mim. A voz dele tinha um tom de quem mandava sem precisar levantar o volume. Eu só consegui obedecer, pressionando o gatilho com os dedos que tremiam de nervoso.

“Quase acerta, só errou por pouco.” — Nevils disse, sorrindo, e balançou a cabeça em sinal de aprovação.

“Não. Ainda não sou bom o suficiente pra atirar assim.”

“Não é tão simples assim.”

“Eu só sou um funcionário contratado pelos seus superiores. Se acontecer alguma coisa com você, eu vou ter que responder junto com eles. E se você morrer, eles vão me culpar também. Não esquece que minha vida depende de manter a sua inteira.” — retruquei.

Nevils olhou para um lado, como se refletisse, mas não disse nada. Só soltou um suspiro pesado, vindo de algum lugar fundo do peito.

“Chega. Não quero mais.” — larguei a arma.

“Volta para a estufa. Se não vai atirar, não tem motivo para ficar aqui. Não vou ficar parado vendo você se exibir na frente do meu pessoal com essa cara de quem não sabe segurar uma arma.”

“Não.”

“Eu mandei voltar.”

“Eu falei que não vou!”

“Isso é uma ordem.”

Ah, que droga. Não tem como vencer.

Eu estava prestes a retrucar quando ele veio para cima. Nevils não me deu tempo de reagir. A mão dele veio rápida, agarrou meu pulso com força antes que eu pudesse me afastar. Fui puxado de volta sem cerimônia, e o peso do corpo dele me prendeu contra a bancada. Não deu tempo de pensar, muito menos de sacar a pistola que ele tinha me entregado antes. Eu só consegui sentir o hálito dele perto do meu ouvido, quente e irritado, enquanto ele trancava meu pulso com uma das mãos e usava a outra para segurar meu queixo.

_Pá!_

“Ei! O que pensa que está fazendo?!” — gritei, tentando me soltar, mas Nevils foi rápido. Ele me prendeu com o corpo inteiro contra a bancada, usando o joelho para travar minha perna. Não consegui me mexer, e o pior é que ele estava segurando meu queixo com tanta força que doía.

Eu nunca imaginei que fosse acabar desse jeito. Sempre achei que fosse só treinamento, mas isso aqui já tinha passado do limite faz tempo. E o pior de tudo é que, por mais que eu odiasse admitir, uma parte de mim não queria que ele parasse. Era como se meu corpo respondesse sozinho à presença dele, como se reconhecesse uma autoridade que eu mesmo não entendia.

“Você não tem ideia do perigo que corre ficando perto de mim. Acha mesmo que consegue sair daqui sozinho? Se eu quiser, posso te quebrar agora e ninguém vai perguntar nada. Essa cidade inteira pertence aos meus superiores, e você é só mais um recruta idiota que eles mandaram pra cá.” — a voz dele saiu baixa, quase um rosnado, antes de apertar ainda mais o meu queixo.

O silêncio que se instalou depois daquilo me fez sentir um frio na espinha que eu não conseguia explicar.

“Y-Ya... já chega, solta!” — tentei empurrar o peito dele antes que ele fizesse algo pior.

Mas a mão dele não cedeu. Quanto mais eu empurrava, mais ele pressionava. E ele nem parecia estar fazendo esforço.

“Eu devia te ensinar uma lição, já que você não sabe qual é o seu lugar.”

Naquele instante, ele soltou um grunhido abafado. Quase não acreditei quando a mão dele subiu e apertou meu ombro, como se fosse me esmagar. Todo o peso do corpo dele caiu sobre mim, e num único movimento ele me prendeu contra a bancada. Mesmo sem usar força total, eu não conseguia me mexer. Além de segurar meu queixo, a outra mão dele travou meu pulso com tanta força que parecia que ia quebrar. O homem que eu conhecia como calmo e frio agora me encarava com um olhar que eu nunca tinha visto antes. Como se eu fosse o inimigo dele.

“Y-Ya... já chega, solta de uma vez!” — tentei falar com a voz trêmula, torcendo para que ele parasse antes que eu perdesse o controle e fizesse alguma burrice por impulso.

Nevils ficou me encarando por alguns segundos antes de, finalmente, soltar meu queixo e me empurrar de leve, como se eu fosse só um inseto irritante.

“Lembra do que eu te falei da última vez?” — ele disse, e então empurrou meu ombro sem nem me olhar. “Levanta. E volta a mirar no alvo da sua frente.”

Ai... que droga.

O cheiro de pólvora dos tiros que Nevils disparou antes ainda pairava no ar. Engoli em seco e ergui a arma, mesmo com as mãos tremendo. Era horário de folga, mas o pessoal do campo de tiro tinha saído para almoçar, me deixando sozinho com ele naquele lugar abafado.

Respirei fundo antes de subir a arma, tentando ignorar a dor latejante no queixo. Antes disso, percebi que tinha um homem parado perto da porta, olhando para mim com um sorriso no rosto, como se estivesse se divertindo com a bronca que eu levei do treinador. Usava um colete tático por cima da camisa e um coldre no quadril. Não parecia ser daqui. Talvez fosse algum segurança particular ou alguém da cidade vizinha vindo só para praticar.

“Vai atirar ou não?”

Ele tirou os olhos da arma e me encarou de novo antes de dizer, com um tom de quem estava se divertindo:

“Vai pro campo de treinamento da academia?”

“Vou pra onde?”

“É lá que os novatos como você treinam com munição real antes de serem mandados pra campo.”

“Então é lá que eu vou ficar mesmo.”

O que ele falou depois disso eu não consegui entender direito, porque o som do tiro ecoou alto demais no campo vazio. Só sei que ele pegou a arma da mesa, verificou o carregador e apontou para o alvo sem nem piscar.

“Isso.” — ele disse, baixo. — “Agora tenta de novo. Só que dessa vez, mira de verdade.”

“Quem mandou você ficar parado aí feito um idiota? Acha que vai aprender alguma coisa só olhando? Mira no centro do alvo e puxa o gatilho.” — disse, desviando o olhar da mira para me encarar. — “Ou vai ficar aí plantado o dia inteiro?”

Ele fez um gesto com a cabeça para eu me aproximar antes de sair andando na minha frente.

Olhei para ele, sem entender direito. O que ele queria dizer com aquilo? Ele ia me ajudar ou só estava tirando sarro da minha cara de novo?

Não tive tempo de pensar. Ele já tinha sumido de vista, e eu fiquei ali, parado, com a arma na mão e o coração batendo tão forte que parecia que ia sair pela boca.

“Fica quieto. Já te falei para não fazer barulho enquanto estou ensinando.”

“Não foi você que me mandou atirar?” — retruquei, irritado. A essa altura eu já não tinha mais medo nenhum de encarar ele.

“Se você continuar assim, vai acabar fazendo eu te deixar sozinho aqui de novo.”

“Não precisa.” — resmunguei.

Ele não disse mais nada. Só saiu andando do campo, me deixando ali sozinho com o som dos disparos ecoando no silêncio. A tensão que eu sentia antes sumiu, dando lugar a um cansaço absurdo.

Eu queria poder voltar atrás só para evitar tudo isso. Treinar até cair era melhor do que ficar parado aqui, aguentando esse silêncio esmagador. Só que, por mais que eu tentasse, não conseguia me mexer. Era como se meu corpo tivesse travado.

O cachorro late ao longe.

Depois de um tempo parado, ouvi passos voltando na minha direção. Quando ergui a cabeça, vi Nevils com uma expressão que eu não soube identificar. Ele quase não falava nada, só me observava.

“Vai ficar aí parado feito um idiota?”

Nevils me encarou por alguns segundos antes de caminhar até a bancada e pegar a caixa de munição que estava ali, jogando-a na minha direção sem cuidado nenhum.

“Pega suas coisas.”

“Pegar o quê?” — perguntei, confuso, ainda sentado no chão.

“Você não vai dormir aqui.”

“Não vou a lugar nenhum até você me dizer para onde quer que eu vá.” — rebati, sem conseguir disfarçar o cansaço. Ele me olhou como se eu fosse uma criança teimosa, e então suspirou fundo, como se estivesse se segurando para não me dar um tiro ali mesmo ou me deixar naquele buraco para sempre.

“Droga. Você acha que tem escolha nessa porcaria de lugar?”

A resposta dele me fez engolir seco. O jeito como ele falou não deixou espaço para discussão.

“Então para onde eu vou?”

“Para o meu quarto.”

“Que quarto?”

“É melhor você dormir no quarto do que ficar aqui… na casa do seu treinador.”

Quando ele respondeu, meu coração quase parou. Não acreditei no que estava ouvindo, e a ideia de dividir o mesmo teto com ele me deixou com um nó na garganta.

“Você quer o quê com isso?” — perguntei, sem conseguir esconder o nervosismo.

“Manter você sob vigilância.”

“Isso tem alguma coisa a ver com eu ter que dormir na sua casa?” — retruquei, cruzando os braços. Deixei claro que não estava nem um pouco a fim de ir para lá, nem que fosse por um minuto. Quanto mais perto dele eu ficava, mais eu sentia que ia acabar mal todos os dias.

Mas Nevils não disse nada além daquela ordem seca.

“Eu te dou dez minutos. Pega suas coisas e volta para o estábulo. Se eu voltar e você ainda estiver aqui, vou ter que te contar o que acontece com quem me desobedece.”

Assim que terminou de falar, ele saiu do campo de tiro sem nem olhar para trás, me deixando ali parado, de queixo caído.

Que filho da mãe desgraçado!


*Pistola HK45C*: É uma pistola semiautomática calibre.45 ACP, com comprimento do cano de 3,94 polegadas. Capacidade do carregador: 8+1 ou 10+1 tiros. É compacta, leve e fácil de manusear. Costuma ser usada como arma secundária por unidades militares ou forças especiais americanas.[1]

*Fuzil de assalto HK33*: Também chamado de HK33A2, é um fuzil de assalto calibre 5.56×45mm NATO. O Exército Real Tailandês o designa como "Fuzil Tipo 11". É uma arma para combate de infantaria, semelhante ao M16. Tem cano de 0,223 polegadas de diâmetro e comprimento de 36,22 polegadas. É leve, com baixo recuo e alta precisão, sendo adotado pelo Exército Real Tailandês em 1968. Foi fabricado na Alemanha.[2]


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