Capítulo 03 – Vamos nos Conhecer
“Não, por favor… não faz nada com a Kaew, por favor, Khun Fa.”
“Vai me implorar agora! Por que quando roubou o Don de mim você não se tocou!!” A moça de vestido vermelho curto agarrou o cabelo da outra mulher, de aparência mais recatada. O ódio nos olhos dela parecia que ia saltar da órbita. Os lábios vermelhos-fogo tremiam enquanto ela guardava todos os palavrões só para dentro.
“Kaew não, Kaew não quis roubar o Khun Don de você, não.”
“Não quis? Como você ousa dizer que não quis!! Ficou dando mole, se oferecendo pra ele desse jeito… sua sem-vergonha!!” Quem parecia mais forte puxou com força até a vítima tropeçar no chão. O corpo frágil chorava até tremer de medo da fúria da mulher na frente, que podia matá-la a qualquer momento.
“Kaew… hic… Kaew…”
“Fa!! O que você tá fazendo?!” E então o mocinho de cavalo branco apareceu voando pra ajudar. O rapaz correu e envolveu o corpo frágil da mulher nos braços. O rosto furioso não desgrudou da moça de lábios vermelhos.
“Eu só ia dar uma lição nela. Essa vagabunda roubou você de mim!!”
“Ninguém me roubou de você. A nossa história acabou. Volta pra casa e não volta mais aqui.”
“Don, mas você disse que me amava. Como pode fazer isso? Como pode escolher essa mulher safada?”
“A mulher safada que você fala é a minha esposa, legalmente. Vai embora antes que eu mande alguém te arrastar pra fora!!” Depois das palavras do rapaz, a moça ficou ainda mais furiosa. Ela saiu pisando duro, de mau humor, rangendo os dentes vermelhos esperando o dia da vingança… O estranho é que ninguém percebeu o olhar trêmulo de mágoa dela…
.
“Uhuu!! Que delícia! Tem que ser um protagonista esperto assim mesmo.” O tapa na coxa da Tia Wan me fez tirar os olhos da tigela de miojo pra olhar a cena na TV que eu já tava aguentando há um tempão. Olhei pra TV e só consegui balançar a cabeça pra toda aquela maldade. É por causa de novela assim que a sociedade fica assim. Quem chegou primeiro vira vilão mesmo sem ter feito nada de errado. É só vestir roupa curta, pintar a boca de vermelho e sair atrás do mocinho gritando, fazendo coisa idiota como se não tivesse cérebro. Experimenta botar uma freira careca pra pedir o marido de volta. A mocinha é que ia virar vilã.
“Eu não acho nada esperto, tia. Aquela tal Fa é bem mais bonita.” Falei só a verdade, mas ganhei um olhar de reprovação da Tia Wan como se ela fosse tomar minha tigela de miojo de volta… Não faz isso, tia. É a primeira comida que entra na minha barriga depois daquele canjão de peixe.
“Você não entende, Khun Poch. Essa aí é má, quer o protagonista a qualquer custo.”
“Mas pelo que ouvi, eles eram namorados antes, não eram?”
“Ay, não era não. Essa vilã tá se iludindo. Khun Poch, não discute com a tia. Eu vi todos os episódios.”
“………” No fim eu nem discuti. Não discuti porque doeu demais pra falar. Só consegui dar um sorriso sem graça e aceitar meu destino. Parece que eu tô na mesma situação daquela personagem de boca vermelha.
“Khun Poch quer mais uma tigela? Parece que tá com fome. A tia falou pra esperar o almoço com os senhores e você não quis.”
“Tia… e se em vez de pintar a boca de vermelho e gritar, ela se vestisse direito? Alguém ia ter pena da vilã?” A Tia Wan franziu a testa, confusa. Deve estar se perguntando o que deu em mim hoje pra estar tão interessado em novela. A Tia Wan é a empregada da casa há muito tempo. Cuida de quase tudo aqui, e antes incluía cuidar de mim também. Antes de ir pra Inglaterra eu cozinhava pra ela e comia com ela quase todo dia. Se tinha algum problema que dava pra contar, eu contava pra ela.
“Ninguém liga pra essas vilãs, Khun Poch. No fim é sempre o protagonista com a mocinha.” Assenti de leve, como se entendesse essa verdade da vida… É bom ouvir a Tia Wan falar assim. Assim eu já sei que mesmo se eu for bom como um anjo, ninguém vai ver a cabeça de um vilão como eu. Pelo menos quando eu fizer alguma coisa sem querer, não vou precisar perder tempo me sentindo culpado.
“E tia, se no fim a vilã conseguisse ficar com o protagonista, como seria?”
“Ay, não existe novela que termine assim, Khun Poch.”
Por que não existe… Eu, Poch, vou ser o primeiro a terminar essa história sem ninguém lembrar da mocinha.
“De que vocês estão falando?” …Ops. Fala da mocinha e ela aparece na hora.
“Ah, Em. Tava assistindo novela com a Tia Wan. Acabou de passar a cena em que a mocinha inocente apanha… tadinha.” Nem eu sei que expressão eu tava usando pra olhar pra Em. O rosto dela murchou como se estivesse tensa com o meu olhar.
“Então vocês dois conversem aí, viu? A tia não vai atrapalhar. Vou ajudar o Mon a cortar a grama no quintal.” Assenti pra Tia Wan, que parecia saber a hora de me dar a chance de conhecer melhor a esposa do amigo… E pra ela me conhecer melhor também.
“Não sabia que você curtia novela.”
“Normalmente não curto muito. Mas acho que vou ter que estudar pra usar na vida real.” Tentei olhar nos olhos dela pra desmascarar quem ela é de verdade. Mas no fim só vi uma mistura de Aff Thaksorn com Kob Suwanan no olhar.
“Você é engraçado, né, Poch.” Logo você vai ver se é engraçado ou se vai ter vontade de chorar.
“E a Em veio fazer o quê aqui?”
“Eu vim preparar o almoço.”
“Hm… Casou nem faz um dia e já tá sendo uma esposa exemplar, hein.” Em travou um pouco, mas continuou pegando as coisas na cozinha como se não tivesse ouvido. Analisei ela da cabeça aos pés pela primeira vez desde que nos vimos. Tenho que admitir: essa mulher é bonita por fora, impecável. Rosto limpo, jeito educado de família tradicional. Não é à toa que o tio Bowon enlouqueceu e pegou ela de nora… Mas eu ainda acredito na minha teoria: não existe mulher decente que aceite casar por dinheiro.
“Eu só tô fazendo minha obrigação.” Levantei a sobrancelha e assenti com a resposta. Agora a Em não olhava pra mim, estava ocupada lavando uma cesta grande de verduras.
“Deixa eu ajudar.” Estendi a mão pra Em de forma amigável. Ela sorriu de leve e abriu espaço pra eu lidar com as verduras que faltavam na pia.
“Obrigada.”
“De nada. Afinal, a gente mora na mesma casa… compartilha as coisas!” Apertei os dentes sem querer na última frase… Humpf. Agora mesmo se eu xingasse a Em na cara dela ia ser inútil. Essa mulher finge ser indefesa e se faz de desentendida o tempo todo. Mas logo a gente vai ver até quando ela consegue ser inocente.
“Poch tem alguma comida preferida? Outro dia a Em faz pra você.”
“Não precisa. Eu como qualquer coisa.”
“Como assim? A mãe me encarregou da comida da casa. Tenho que cuidar de todo mundo igual. Fala logo o que você gosta.”
“Tudo que o Tem gosta… eu gosto também.” Lancei um olhar de canto pra quem ouvia. Em fingia cortar a carne na tábua como se não estivesse nem aí.
“Vocês dois parecem bem próximos, né.”
“Eu conheço o Tem melhor do que ele mesmo. Desde que cheguei aqui só ele se importou comigo… Tenho que agradecer a ele por me achar importante. Só não sei se, depois do casamento, ele vai achar eu ou a Em mais importante.” Não sei o que a Em tava pensando, mas pela cara deu pra ver que ela já começou a levar minhas palavras a sério.
“Ah… Poch mora aqui há muito tempo? Posso perguntar como veio parar aqui?” Fiquei em silêncio porque não queria responder essa pergunta idiota que desviava do assunto. Mesmo que pudesse aproximar eu e a Em. Experimenta ser perguntado sobre uma memória dolorosa da sua vida e você vai ver como dói responder cada vez…
“E a Em vai ficar aqui por quanto tempo? Pensou direito antes de ficar aqui?” Um clima frio tomou conta da cozinha. Sorri de canto pro olhar atônito da Em… Já começou a cair a ficha, né?
“Por que o Poch pergunta isso?” Foi a primeira vez que Em parou tudo e me encarou. Tentei ler o rosto dela, mas era além do que eu conseguia decifrar agora. O que aqueles olhos redondos e parados queriam me dizer?
“Só curiosidade. Por que decidiu casar com alguém que não te ama… Como teve coragem?”
“Eu acho que o Poch já sabe a resposta. Eu aceitei porque era necessário.”
“E quando essa ‘necessidade’ vai acabar…” Comecei a circular em volta da Em com um olhar de nojo sem nem perceber. O olhar assustado da Em já estava me dando vantagem nesse jogo.
“Poch… A... Acho melhor eu fazer sozinha.” A voz da Em falhou quando peguei a faca na tábua. Meus olhos ficaram grudados no fio da lâmina, feliz… Não ouviu errado. Eu estava feliz olhando pra faca mais do que pra cara dela.
“Grava isso, Em… Algumas coisas já têm um dono. Mesmo que a Em consiga pegar… o dono vai voltar pra tomar de volta.” _Thack!!_ Deixei todo o peso da mão e finquei a faca na tábua até a Em pular. Todo o ódio que eu sentia passei pelo olhar que dei pra ela. Os olhos redondos tremiam como se fossem encher de lágrimas… Que pena que daqui pra frente eu vou virar um psicopata na cabeça da esposa do amigo.
“O… O que você quer dizer, Poch?”
“Hm… Obrigado por deixar o Tem ficar comigo ontem à noite.” Esse sorriso maldoso talvez não seja adequado pra uma mulher, que é mãe. Mas quem tá na minha posição não tem muitas opções de ser bonzinho. Se eu tiver que ser mau pra sobreviver, qual é o problema, né…
“Poch tá fazendo o quê?”
Ahhh, pelo amor de Deus. Eu queria rir em dez idiomas. Que coincidência perfeita pro protagonista aparecer na hora certa. Isso não é replay da novela de agora há pouco, né… Ah, ou na verdade não é coincidência. Ele só veio cuidar da esposa, fazer o almoço pra ela comer… E para de olhar pra ela com essa cara de preocupado, por favor. Vou vomitar! Que pena o miojo.
“Não tô fazendo nada. Só zoando a Em um pouco… Viu? Só mexi um pouquinho e ela tá tremendo toda.” Me afastei da Em, mas o Tem ainda não parava de olhar pra ela com preocupação.
“Em, não liga pra ele. O Poch gosta de zoar com essas besteiras. Faz isso com a Ta direto.” Parece que a Em relaxou com a mentira do Tem. Ela olhou pra mim com um olhar amigável, aliviada, nada a ver com alguns segundos atrás… Com essa cara, nem parece que terminou o jardim de infância. Não me diga que é tão ingênua a ponto de acreditar em qualquer merda fácil assim… Se eu disser que ela é burra, ainda vou ter pena da raiz da palavra.
“Desculpa por te assustar, Em… Depois a gente brinca de novo, tá?”
60%
Passei pelo Tem fazendo nossos ombros roçarem de propósito. Andei mais devagar que o normal por causa dos passos dele atrás de mim. Só pelo olhar de bronca dele já sei que ele não vai deixar barato sem me interrogar. Os passos seguiram atrás de mim até o terceiro andar, meu esconderijo silencioso… De qualquer forma, obrigado, Khun Som, por me exilar num lugar bom desses.
“O que você tá querendo fazer?” A voz fria e irritada fez minha mão parar antes de abrir a porta. Virei pra olhar pra ele com um olhar malicioso, bem mais esperto que o olhar bravo dele.
“Não tô fazendo nada. Só conversei com a Em, normal.”
“Já te falei, Poch. Não se complica. Tá bom assim. Não mexe com a Em. Não enfia ideia maluca na cabeça de ninguém!” Aquela voz dura despedaçou ainda mais meu coração que já estava quebrado. Quanto mais eu ouvia, mais via que ele não tava nem aí pra mim.
“Aquelas coisas malucas que você faz comigo toda noite?”
“Poch!!” O Tem abriu a porta do quarto antes que eu reagisse. Me empurrou com força até eu cair no chão do quarto. Depois bateu a porta com um _bang_ que fez meu coração pular de susto. O olhar dele mudou por um segundo quando me viu tentando me recompor. Depois voltou a ser duro de novo.
“Por quê? Falei algo errado?” Me apoiei na beira da cama. O Tem ainda me olhava com aquele mesmo olhar, sem nunca saber como eu me sentia. Foi rápido demais pra tudo mudar assim. Assim que voltei, o Tem que eu conhecia sumiu… O que eu fiz de errado? Ele falou pra ser amigo, eu fui. E essa dor toda que eu tô sentindo por causa de ‘amigo’ agora, ele já pensou em se responsabilizar por isso?
“Com você… eu só queria tentar.”
“Ah… Tentou várias vezes, né?”
“Poch!!”
Ele veio e me agarrou pela gola até eu sair do chão. Os olhos bravos dele tremiam de leve. Aproveitei a brecha e encostei minha boca na dele pra engolir nossa respiração ofegante. Ele respondeu fácil. As mãos começaram a apertar de leve meu pescoço por instinto. A respiração acelerada ficou cada vez mais alta, só nós dois ouvindo. As mãos do Tem começaram a explorar minha pele. A excitação fez ele me empurrar pra cair na cama. As duas bocas começaram a morder e marcar o corpo um do outro.
E tudo acabou.
Acabou só nisso.
Do nada, o Tem se jogou pra longe de mim como se estivesse irritado. Sentei de joelhos do lado dele com um vazio tão grande que quase não consegui segurar. Por que ele faz essa cara como se fazer isso comigo fosse um crime? Porque se sente culpado por casar com uma mulher que conheceu há três dias? Ou porque tá pensando em me jogar fora, igual todo mundo faz comigo?
“Por quê, Tem… Por quê… hic… É porque você ama a Em… hic… Porque se sente culpado por ela?” Nem sabia quando comecei a chorar. Quando vi, já estava soluçando sem conseguir falar direito.
“Eu te peço. Não tenta fazer algo que não vai te fazer bem. Eu casei. Você fica na sua.”
“E ontem à noite por que veio me procurar! Pra fazer o quê, porra?!” Peguei um travesseiro e bati na cabeça dele com força. Mas além de não se abalar, ele ainda segurou minhas duas mãos com tanta força que doeu… Mas como as palavras dele doeram ainda mais.
“Porque eu tenho pena de você. Pena de você não ter ninguém… Me escuta, olha pra mim, Poch… Porque daqui pra frente você vai ter que viver sozinho!”
Por que dói assim?
Dói mais do que eu imaginava.
Dói mesmo eu já esperando que ia ser assim.
“Não acredito em você, Tem… Não vai acabar assim. Você vai ver!” Fui eu quem saiu do quarto. Passei as mãos no rosto pra enxugar as lágrimas de qualquer jeito, enquanto os planos se empilhavam na minha cabeça sem serem convidados. Comecei a entender a vilã do vestido curto e boca vermelha. Entendi por que ela ficava furiosa como se tivesse perdido a cabeça. Com base no amor e na disputa… tudo é possível.
Se quer que eu seja mais mau ainda… então tenta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por comentar!! _ (: 3 」∠) _
Por favor Leia as regras
+ Sem spam
+ Sem insultos
Seja feliz!
Volte em breve (˘ ³˘)