De manhã cedo, Jiang Chi trocou de roupa para correr e se preparou para sair. A cama em frente à sua ainda estava vazia, mas ele não pensou muito nisso e simplesmente foi embora.
Ao passar pelo salão de convivência, viu Gu Buxia encolhido em um canto do sofá. O casaco havia caído no chão, e ele estava todo enroscado, feito uma bolinha. Jiang Chi hesitou por um segundo, colocou os fones de ouvido e seguiu seu caminho.
No ar, porém, surgiu um ruído semelhante à interferência de uma estação de rádio. O som penetrou nos ouvidos de Gu Buxia, que se encolheu ainda mais, franzindo a testa como se estivesse preso em um pesadelo.
Jiang Chi já havia chegado à entrada do dormitório quando a imagem de Gu Buxia enroscado naquele sofá surgiu em sua mente sem ser convidada.
De repente, sentiu-se inquieto.
Após hesitar por alguns instantes, acabou voltando.
Ao retornar ao salão, tirou os fones e ficou parado ao lado do sofá, olhando de cima para baixo.
Depois de encarar o rosto adormecido por alguns segundos, abaixou-se, pegou o casaco caído no chão e o jogou sobre Gu Buxia com impaciência.
O casaco não o cobriu direito. Gu Buxia balançou a mão distraidamente, e a peça escorregou novamente.
Antes que tocasse o chão, Jiang Chi a agarrou por reflexo.
Seu corpo reagira mais rápido que seus pensamentos.
Ele encarou a própria mão com expressão fria e, irritado consigo mesmo, atirou o casaco diretamente sobre o rosto de Gu Buxia.
Assustado pelo movimento brusco, Gu Buxia se encolheu instantaneamente.
Jiang Chi franziu a testa e puxou o casaco para baixo, deixando seu rosto à mostra.
— Ei, Gu Buxia. Se vai dormir, dorme no quarto!
Deu um leve chute no sofá.
O ruído de interferência voltou a soar nos ouvidos de Gu Buxia, fazendo suor frio escorrer por seu corpo.
— Mmm... ah...
O gemido abafado chamou a atenção de Jiang Chi.
Algo não parecia certo.
Ele tocou o rosto do colega com as costas da mão.
— Ei, acorda...
Assim que o tocou, percebeu o problema.
Gu Buxia estava ardendo em febre.
Ele tentou acordá-lo, mas sem sucesso. Os murmúrios sonolentos apenas ficaram mais altos.
Com receio de que acabasse acordando os outros estudantes logo cedo, Jiang Chi decidiu levá-lo para o quarto.
Abaixou-se para ajudá-lo a levantar, mas foi agarrado de repente.
Quando tentou se reposicionar, Gu Buxia, ainda meio inconsciente, enterrou o rosto em seu peito.
O rapaz tremia.
Sem pensar, Jiang Chi deu leves tapinhas em suas costas.
Instantaneamente, o ruído perturbador desapareceu dos ouvidos de Gu Buxia.
Os tremores diminuíram.
Os murmúrios também.
Percebendo que ele parecia melhor, Jiang Chi o colocou nas costas, pegou o casaco e a mochila e voltou para o quarto.
Enquanto dormia, Gu Buxia pareceu sonhar com alguma coisa.
Seus braços começaram a se mover descontroladamente, e ele quase caiu.
— Francamente...
Jiang Chi o ajustou novamente nas costas.
— Mmm... ah...
A cabeça de Gu Buxia pendia ao lado de seu pescoço.
A respiração quente e os murmúrios inconscientes faziam cócegas em sua pele, provocando uma sensação estranha.
Jiang Chi tentou afastar a cabeça.
Mas, no instante em que se moveu, os braços ao redor de seu pescoço apertaram ainda mais.
— Gu Buxia... larga...
Nenhuma resposta.
O outro continuava profundamente adormecido.
Sem alternativa, Jiang Chi acelerou o passo.
Quando finalmente chegaram ao quarto, ele quase comemorou por não ter sido estrangulado no caminho.
Abriu a porta com dificuldade e entrou.
Foi direto até a cama e largou Gu Buxia sobre o colchão.
Nesse momento, a espada de madeira de pessegueiro acabou sendo puxada junto.
Tum!
— Mmm... ai...
A espada acertou sua cabeça em cheio.
Gu Buxia fez uma careta de dor.
Jiang Chi pendurou o casaco, guardou a mochila e colocou a espada de lado.
Ao se inclinar para verificar se ele estava bem, viu duas mãos se estendendo em sua direção.
Quis recuar.
Tarde demais.
Gu Buxia agarrou sua mão e a puxou para junto do rosto.
Então começou a esfregá-la na bochecha.
O frescor da pele alheia aliviou instantaneamente o calor da febre.
O ruído perturbador desapareceu completamente.
Por instinto, ele segurou aquela mão com toda a força.
À medida que a acariciava, sua expressão de sofrimento foi desaparecendo.
Pequenos murmúrios satisfeitos escapavam de seus lábios.
Jiang Chi sentiu-se extremamente desconfortável.
Tentou retirar a mão.
Falhou.
Tentou outra vez.
Falhou novamente.
Depois de várias tentativas frustradas, desistiu.
Suspirando, acomodou-se ao lado da cama e puxou o cobertor para cobrir Gu Buxia.
“Quando devo acordar esse sujeito?”
Ele hesitou.
Mas ao ver a expressão tranquila e satisfeita de Gu Buxia enquanto abraçava sua mão, acabou não tendo coragem de acordá-lo.
Gu Buxia dormiu por muito tempo.
A luz do sol atravessou a janela e iluminou o dormitório.
Sentado no chão, Jiang Chi adormeceu apoiado na lateral da cama.
Uma das mãos segurava um exemplar de Direito Penal – Parte Especial.
A outra permanecia erguida de forma desconfortável, presa entre os braços de Gu Buxia.
Depois de um sono particularmente agradável, Gu Buxia despertou esfregando o rosto contra aquela mão.
Abriu os olhos lentamente.
Havia até um sorriso em seus lábios.
Mas então percebeu algo.
Uma mão.
Segurada firmemente pelas suas duas mãos.
Seu rosto empalideceu.
Uma imagem assustadora atravessou sua mente.
Ele segurava uma mão decepada.
Uma voz rouca e ecoante sussurrava em seus ouvidos:
“Devolva minha mão... Não restou nada do meu corpo... Encontre o assassino...”
— AAAAAH!
Sonho e realidade se misturaram.
Apavorado, Gu Buxia soltou a mão e a arremessou para longe.
Jiang Chi despertou assustado.
No movimento, esbarrou na espada de madeira.
Ela voou em direção à sua cabeça.
Com reflexos rápidos, ele a interceptou no ar e a jogou para longe.
Massageando o pulso, dolorido após horas preso e depois violentamente arremessado, lançou um olhar irritado para Gu Buxia.
— Ah...
Percebendo o que havia acontecido, Gu Buxia ficou constrangido.
— Desculpa! Desculpa mesmo! Acho que tive um pesadelo. Pensei que estava segurando uma mão decepada.
— Uma mão decepada?
Jiang Chi balançou o pulso.
— Que tipo de sonho é esse? Você tem uma força absurda. Não consegui me soltar.
— Bem...
Gu Buxia tentou lembrar.
— Alguém queria apertar minha mão. Só que, assim que apertei, a mão se desprendeu do braço e a pessoa caiu morta no chão.
Enquanto ele narrava tudo com riqueza de detalhes, Jiang Chi apenas balançava a cabeça.
“Que tipo de coisa passa pela cabeça desse sujeito?”
De repente, Gu Buxia percebeu seu casaco cuidadosamente pendurado e a mochila guardada.
Olhou desconfiado para Jiang Chi.
Percebendo o olhar, ele explicou:
— Você estava gritando feito um louco lá fora logo cedo. Para não acordar todo mundo, tive que arrastar seu cadáver do salão até aqui.
Gu Buxia inclinou a cabeça.
Então começou a lembrar.
Recordou-se vagamente de ter sido sacudido enquanto estava sendo carregado.
Também se lembrou da sensação de estar nas costas de alguém.
Era tão reconfortante quanto quando seu avô o carregava na infância.
Lembrava-se até de ter murmurado “vovô” antes de voltar a dormir e abraçar quem o carregava.
— Ah! Então foi você quem me trouxe?
— Quem mais seria? — Jiang Chi respondeu arqueando uma sobrancelha.
Um sorriso bonito surgiu no rosto de Gu Buxia.
— Não imaginava que você fosse tão gentil. Obrigado.
Acostumado às provocações constantes entre eles, Jiang Chi ficou estranhamente sem jeito ao ouvir aquele agradecimento.
Levantou-se rapidamente e alongou o corpo.
Depois olhou as horas.
Limpou a garganta.
— A propósito... você estava com uma febre bem alta de manhã. Melhorou?
Gu Buxia tocou a própria testa.
A temperatura parecia normal.
— Acho que sim. Talvez eu tenha passado frio ontem à noite.
— Se voltou, por que não entrou no quarto para dormir?
— Ah...
Ele sorriu sem graça.
— Perdi a chave em algum lugar. Como já era tarde, achei que você estivesse dormindo e não quis incomodar. Pensei que daria para passar a noite no salão.
Fez uma pausa.
— Quem diria que parecia um freezer.
Depois da explicação, seus olhares se encontraram.
O quarto mergulhou num silêncio estranho.
Fora alguns ruídos vindos do lado de fora, tudo estava quieto demais.
Gu Buxia bateu levemente na própria cabeça para quebrar o clima.
— Ei... por que isso aqui está inchado?
Ao tocar o local, sentiu uma pontada de dor.
Jiang Chi não respondeu.
Apenas lançou um olhar para a espada de madeira e desviou os olhos.
Então começou a juntar suas coisas para sair.
— Ah!
Gu Buxia olhou as horas.
— Você está atrasado?
Passou a mão na nuca, constrangido.
— Foi mal. Por minha causa.
Jiang Chi virou-se, surpreso.
— Você sabe meu horário de aulas?
— Ora, nós estamos morando juntos há duas semanas.
Gu Buxia bocejou.
Acenou com a mão.
Depois se enrolou novamente no cobertor como um casulo.
— Vou dormir mais um pouco.
Com a mochila nas costas, Jiang Chi observou aquele “casulo humano”.
Sem perceber, um leve sorriso surgiu em seus lábios.
Enquanto seguia para a sala de aula, continuou lembrando daquela expressão adormecida.
Daquele rosto esfregando-se em sua mão.
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