Capítulo 17
— Eu queria ser médica.
A mão de Hwayoung deslizou com cuidado pelas nádegas de Gyuwon. Como o cabelo dele ainda estava molhado, Gyuwon ouvia a história com os olhos semicerrados.
De certa forma, Hwayoung combinava com a profissão. Ela era carinhosa e atenciosa, e sempre cuidava dele depois que tudo terminava. Também tinha um lado firme, que parecia adequado à vocação. Então por que acabara se tornando contadora?
Hwayoung soltou uma risadinha, como se tivesse entendido a dúvida dele.
— Combina tanto comigo, não acha? Nem sei o que fazer. Combina demais.
Depois de dizer isso, depositou um beijo leve nas costas de Gyuwon e continuou:
— Se eu fosse dentista, até alguém como você subiria naquela cadeira sem reclamar. Ficaria tão extasiado que acabaria rangendo todos os dentes, não é? E quando penso em cirurgia... sinceramente, só consigo imaginar proctologia. Considerei várias especialidades, mas nenhuma parecia certa. Achei que lidar com pessoas seria cansativo demais, então resolvi brincar com números.
Ela examinou cuidadosamente as nádegas dele, a região que havia sido estimulada antes e também o ombro onde o mordera. Só então se afastou.
— Se aparecesse um paciente como você, eu não conseguiria me controlar. Não tenho muita confiança na separação entre vida profissional e pessoal. E, acima de tudo, meu irmão...
Enquanto falava, Hwayoung observou o rosto de Gyuwon. Ele virou a cabeça, confuso. Ao vê-lo corar, ela pensou por um instante e sorriu.
— Oppa Gyuwon?
O rosto dele ficou ainda mais vermelho.
— Você não gosta quando eu te chamo de oppa?
Ela perguntou de propósito, mesmo sabendo que aquele não era o problema.
— Não...
A resposta saiu quase como um murmúrio.
Hwayoung caiu na gargalhada.
Nesse momento, alguém bateu à porta.
— Entre.
Enquanto Hwayoung caminhava tranquilamente até a entrada, Gyuwon vestiu as calças às pressas.
“Oppa Gyuwon”.
A forma como ela o chamara parecia estranhamente agradável. Carinhosa, delicada e ligeiramente provocadora.
Doce.
Tão doce que fazia suas orelhas e sua cabeça formigarem.
Tentou convencer a si mesmo de que estava tudo bem, embora não conseguisse esconder o rosto vermelho. Talvez não estivesse tão evidente. Além disso, sua pele bronzeada ajudaria a disfarçar.
Assim que abriu a porta, Hwayoung franziu a testa ao ver o gerente. Pelo momento exato em que aparecera, era óbvio que ele estava acompanhando as câmeras.
Coisas que antes ignorava — como segurança e privacidade — passaram a incomodá-la desde que começara um relacionamento com Gyuwon.
Decidiu internamente que nunca mais voltaria àquele lugar.
O gerente entregou rapidamente um vídeo a ela e perguntou, percebendo seu desagrado:
— Se não se importar... eu gostaria de conversar.
Ao lado dele estava Yunho, parecendo alguém que acabara de levar uma surra.
Hwayoung não sentiu a menor pena.
Ser espancado pelo gerente era muito melhor do que ser espancado por ela.
Ela saiu para o corredor, fechou a porta atrás de si e assentiu.
Era um gesto que significava “fale”, mas também deixava claro que ninguém entraria naquele quarto.
O gerente respirou fundo.
— Yunho tem algo para dizer.
Parecia que ele próprio não queria falar diante da expressão gelada de Hwayoung.
Incentivado pelo gerente, Yunho finalmente abriu a boca, o rosto completamente vermelho.
— É verdade que... eu gravei o vídeo da Hwayoung e enviei para o trabalho. Mas o Benz não fui eu.
A desconfiança apareceu imediatamente no rosto dela.
— É verdade! Eu tenho provas!
Ele parecia desesperado.
— Provas?
— É verdade — confirmou o gerente. — Naquele dia, Yunho estava fazendo um serviço para mim. Ele estava em viagem de negócios, e posso confirmar que saiu do local às nove da manhã. Então a pessoa do Benz deve ser outra.
Hwayoung alternou o olhar entre os dois.
Cem milhões de wones em reparos não eram pouca coisa.
Ela avaliou por um instante se aquilo não seria uma armação para encobrir o prejuízo.
Na verdade, já tinha chegado à conclusão antes mesmo de refletir muito.
Agora que sabia quem Yunho realmente era, a possibilidade de ele ter feito algo tão estúpido diminuía bastante.
— Você garante isso? — perguntou ao gerente.
Se ele demonstrasse qualquer hesitação, ela iria embora sem olhar para trás.
Mas ele assentiu imediatamente.
Havia um perseguidor.
E a situação estava tomando um rumo desagradável.
— Você já me seguiu alguma vez?
Yunho apontou para si mesmo.
— Eu?
Quando ela confirmou com um aceno, ele balançou a cabeça freneticamente.
Parecia genuinamente ofendido pela acusação.
Hwayoung sorriu.
— Certo. Vou cuidar disso. Quando eu pegar a pessoa, aviso você. Assim poderá recuperar o dinheiro do conserto do Benz.
Ela se curvou levemente e estava prestes a entrar quando o gerente a chamou.
— Hwayoung.
Ela parou e se virou.
— Sim?
— Não sei o que você pensa sobre isso... mas o clima anda estranho ultimamente. Recomendo que tome cuidado.
Ela inclinou a cabeça.
— O que quer dizer?
O gerente abaixou a voz.
— Estão espalhando rumores de que você encontrou um escravo. Não se esqueça do tipo de pessoa que você é neste mundo.
Hwayoung soltou uma risada curta.
— E que tipo de pessoa eu sou?
O gerente e Yunho trocaram olhares.
Os dois pareciam procurar as palavras certas.
Depois de hesitar bastante, Yunho respondeu:
— Um... ídolo?
A voz de Hwayoung quase falhou.
— Quantos anos você acha que eu tenho para me chamar de ídolo?!
Ela abriu a porta sem demonstrar o menor arrependimento.
Do outro lado, Gyuwon estava parado.
Ele lançou um olhar para Yunho e para o gerente antes de se afastar lentamente.
Assim que Hwayoung entrou, ele fechou a porta.
O silêncio se instalou por alguns segundos.
Foi ela quem o quebrou.
— Oppa Gyuwon, escutar atrás da porta é feio. Estou ficando envergonhada.
Ela falou em tom brincalhão.
Mas Gyuwon não sorriu.
Seu rosto frio e seco deixava claro que estava falando sério.
— Então existe outro perseguidor.
— Talvez.
Ela deu de ombros.
— Se deixarmos quieto, uma hora ele aparece sozinho.
Gyuwon arregalou os olhos.
— Não, não é isso.
— Hm?
— Você não está preocupada?
Hwayoung percebeu a expressão inquieta dele e abriu um sorriso suave.
— Estou.
A resposta simples o pegou desprevenido.
Ela continuou:
— Eu sou meio simplória por natureza. Não tenho imaginação suficiente para temer algo que não está diante dos meus olhos. Talvez porque eu gaste toda a minha imaginação em outras coisas.
Ela riu de forma despreocupada.
Mesmo assim, uma pequena inquietação permaneceu no coração de Gyuwon.
Pela primeira vez desde que a conhecera, ele sentiu um desconforto difícil de explicar.
Hwayoung ergueu os olhos para Gyuwon com um sorriso radiante.
Ela não deixou escapar a ansiedade sutil, a expectativa e a vergonha misturadas na expressão daquele rosto de traços marcantes e aparência fria. Como apenas ela era capaz de perceber aquela sombra escondida, o prazer se tornava ainda mais especial.
Sentia uma satisfação quase voyeurística ao enxergar o que existia no fundo de Kim Gyuwon.
Com um sorriso, mostrou-lhe um par de brincos de rubi.
— Gostou?
O olhar de Hwayoung passou brevemente pelo peito dele antes de desaparecer.
Parecia avaliá-lo.
Gyuwon sorriu sem jeito e assentiu, mas a verdade era que nem sequer havia observado os brincos direito.
Hwayoung soltou uma risadinha.
A timidez dele era divertida demais.
E, justamente por isso, decidiu provocá-lo um pouco mais.
— E este aqui? Ah... mas acho que vermelho combina mais.
Ela pegou um safira ao lado do rubi.
A cada joia que examinava, lançava olhares rápidos para o rosto cada vez mais constrangido de Gyuwon, que desviava o olhar com movimentos discretos.
Chegou até mesmo a pegar e largar um diamante antes de finalmente voltar ao rubi que queria desde o início.
Depois de algum tempo, Gyuwon falou cuidadosamente:
— Hwayoung... você é... mais travessa do que eu imaginava.
Ela riu baixinho.
Mas ele não acrescentou mais nada.
Apesar do enorme constrangimento, havia uma sensação estranhamente agradável misturada à vergonha, algo que ao mesmo tempo o torturava e o fazia feliz.
Já dentro do carro, Hwayoung murmurou:
— Você gosta quando eu implico com você.
Gyuwon acabou rindo.
Como se tivesse sido atraída pelo som daquela risada, Hwayoung riu também.
— E agora? Para onde estamos indo?
O sorriso desapareceu do rosto dele.
— Não acha que estamos seguindo pelo caminho errado?
Hwayoung, que observava a paisagem pela janela, comentou casualmente.
— Não olhe para trás.
— Já dei uma olhada.
Ela virou o rosto para ele.
— Estamos sendo seguidos.
Ao ouvir aquilo, Hwayoung franziu a testa por um instante.
Então sorriu.
— Ah, eu sei que sou bonita.
Gyuwon deixou escapar uma gargalhada.
A brincadeira dissipou parte da tensão que havia se acumulado em sua mente.
Mas as palavras seguintes quase o fizeram bater a cabeça no volante.
— Realmente é difícil ter um namorado bonito. E se alguém resolver roubar meu oppa lindo?
Sem coragem de perguntar quem exatamente era esse “namorado bonito”, Gyuwon apenas sorriu de maneira rígida.
Será que Hwayoung realmente o considerava bonito?
Depois de olhar rapidamente para o retrovisor — mais para verificar o próprio rosto do que o carro que os seguia — ele chegou a duvidar da visão dela.
— Com licença, Hwayoung...
Antes mesmo que terminasse a frase, ela respondeu:
— Minha visão é 1,8 nos dois olhos. E eu adoro esses seus olhos.
Gyuwon ficou sem palavras.
Ela prosseguiu, satisfeita:
— Tenho ótimo senso de observação. Também sou muito boa em perceber certas coisas. Veja só: descobri imediatamente que você era submisso.
Ela riu.
— Aliás... se aquele Grandeur preto está nos seguindo, ele me parece muito familiar.
O sorriso de Hwayoung se ampliou.
— Que reviravolta interessante.
Ela pegou o celular, pressionou alguns botões e levou o aparelho ao ouvido.
— Alô, irmãozinho?
Gyuwon teve um mau pressentimento.
E ele estava certo.
Era mesmo o irmão dela.
Completamente surpreso, ouviu Hwayoung dizer:
— Oppa, encoste o carro. Vamos conversar cara a cara.
Ela fez um sinal para Gyuwon.
Ele conduziu o veículo até o acostamento.
O Grandeur preto, que os seguia mantendo um carro de distância, parou logo atrás.
— Só um momento.
Após se desculpar com Gyuwon, Hwayoung saiu do carro em passos largos.
Ela bateu no vidro do Grandeur.
Quando o vidro baixou, surgiu o rosto de Yoon Kiyoung.
— Oi, Hwayoung.
O sorriso dele era visivelmente constrangido.
— O que está fazendo? Por que está me seguindo?
Kiyoung desviou o olhar.
— O pai está preocupado. Você sabe disso.
Mesmo aos vinte e sete anos, continuava sendo o caçula da família.
— Está tudo bem. Não sou mais uma criança. Além disso, vocês até colocaram um guarda-costas atrás de mim.
O sorriso luminoso de Hwayoung fez Kiyoung explodir.
— Esse guarda-costas e você...!
Ele parou no meio da frase.
Respirou fundo.
— Já chega.
— Nem consegue terminar o que quer dizer.
— Você...!
Mais uma vez, ele desistiu.
— Já chega.
— Pare de me seguir. Só está atrapalhando.
O rosto de Kiyoung se fechou imediatamente.
Hwayoung deu de ombros.
— Oppa, você já foi seguido alguma vez?
Quando ela perguntou, ele assentiu.
Então era ele quem vinha aparecendo atrás dela nos últimos dias.
Mas isso levantava outra questão.
Quem havia destruído o Benz?
Quem tinha rabiscado a porta da frente?
Sem contar os telefonemas estranhos.
Ela não comentara isso com Gyuwon, mas vinha recebendo ligações perturbadoras havia algum tempo.
As chamadas haviam parado apenas depois que trocara de número.
E foi justamente no dia da troca que conheceu Gyuwon.
Enquanto organizava mentalmente todas aquelas informações, Kiyoung perguntou com cautela:
— É algo sério?
— Não é nada com que você ou o pai precisem se preocupar.
Ela respondeu sorrindo.
Mas Kiyoung estendeu o braço pela janela e segurou sua mão.
Seu rosto estava sério.
— Não sou tão estúpido a ponto de incomodar você sem motivo. Apenas me diga. Vou ajudar da forma que quiser. Seja perseguição... ou abrir uma empresa.
— Lá vem você de novo com essa história de abrir empresa!
Hwayoung caiu na gargalhada.
— Eu sempre digo: mesmo que eu abra uma empresa, ninguém vai aparecer. E para um negócio dar certo, é preciso administrá-lo por pelo menos dez anos!
— Todo mundo consegue.
— Claro...
Ela bateu a porta do carro.
Tudo estaria bem se não fosse um detalhe.
Seu pai e seus irmãos acreditavam demais nela.
Existiam inúmeras pessoas brilhantes no mundo.
Colegas de universidade.
Pessoas que haviam estudado no exterior.
Especialistas em todas as áreas possíveis.
Mesmo assim, para a família, Hwayoung era a melhor.
Certa vez, quando tentou discutir isso seriamente, um dos irmãos respondeu:
— Mas eles são tão bonitos quanto você?
Depois daquela resposta, ela desistira completamente da conversa.
Não havia o que argumentar.
Para eles, o irmão caçula era simplesmente o melhor em tudo.
— Enfim, oppa...
Hwayoung interrompeu a frase.
Uma sombra caiu sobre ela.
Instintivamente virou a cabeça.
Mas, antes que pudesse reagir, alguém a agarrou.
Seu corpo girou.
Ela foi puxada para trás por braços fortes.
Quando ergueu os olhos, encontrou Gyuwon.
— Oppa?
Sem responder, ele segurou o pulso dela e a empurrou para longe.
Então disparou correndo atrás de alguém que fugia ao longe.
Ao mesmo tempo, Kiyoung e seus homens saíram do Grandeur.
— Hwayoung! O que aconteceu?!
— A senhorita está bem?!
Por alguns segundos, Hwayoung apenas encarou o líquido espalhado no chão diante dela.
Seu olhar subiu lentamente.
Então percebeu o buraco aberto na manga da própria roupa, exatamente onde o líquido havia respingado.
Seu rosto endureceu.
No instante seguinte, ela começou a correr.
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