3 de ago. de 2026

Art Adore En - Capítulo 05

Capítulo 05  :: O dia em que doeu


P'Nong disse que hoje eu deveria descansar em casa e não sair para lugar nenhum. Ele disse que já tinha resolvido tudo no hospital. Um milhão de baht é muito dinheiro para um estudante como eu pagar. Mesmo que eu ganhasse na loteria, não conseguiria juntar tudo de uma vez.
Hoje é o dia em que preciso ir ao hospital para fazer o exame final antes de receber alta. É o dia em que vou saber se consigo ver de novo ou não. E também é o dia em que a dívida vai ficar mais clara.

"Alô?"
Já tinha acabado de acordar e meu irmão não estava. Deve ter ido comprar café da manhã e as coisas que faltavam. Eu sei, porque ele me mandou mensagem no Line dizendo que já estava a caminho.
"Irmão... está aí?" Tive que falar baixo porque doía a garganta. Voltei a deitar na cama e esperei ele voltar correndo me abraçar.
Clic... A porta se abriu. Dentro do quarto estava escuro porque as cortinas estavam fechadas. Só entrou um pouco de luz da fresta da porta.
"Não faz barulho... O irmão ainda está dormindo." Respondeu baixinho e entrou no quarto.
"O que é isso?" Ele colocou as sacolas na mesa de cabeceira. Percebi pelo cheiro que tinha comida de restaurante caro. E tinha o cheiro do perfume que ele sempre usa.
Eu não respondi. Só fingi que ainda estava dormindo. Na verdade o coração estava doendo de medo.
"Irmão está com dor? Vou chamar o médico?" Falou com a voz preocupada.
"Não estou com dor."
"Isso é bom... Irmão dormiu bem ontem? P' teve que ir resolver umas coisas no hospital, por isso não pôde ficar aqui. Desculpa." Tem cheiro de shampoo.
Eu não respondi e continuei fingindo dormir... o coração estava acelerado sem motivo... hoje é o dia da verdade. Não posso deixar ele ver que estou com medo.
"Então... vou no banho." Ele falou e levantou para ir ao banheiro e o som da água saindo veio em seguida.
"Irmão." Chamei baixinho e ele desligou o chuveiro na hora.
O irmão saiu do banheiro com a toalha enrolada na cintura. Pingava água.
"Irmão vai limpar o corpo pra mim, certo?"
"Já ia fazer isso mesmo." Ele respondeu e se aproximou.

O tempo passou devagar até a hora em que tínhamos que sair. Ele não me deixou ir de jeito nenhum. Insistiu para me levar no colo até o carro. Todo o caminho ele ficou segurando minha mão com força.
"Irmão..." Ele apertou minha mão com mais força quando ouviu minha voz. Mas não disse nada. O rosto dele estava sério. Diferente do irmão que sempre sorri e brinca comigo.
"Chegamos." O carro parou na frente do hospital. Tem muita gente. Tem médico, enfermeiro, paciente. O cheiro de remédio e álcool invadiu meu nariz assim que entrei.
O irmão me pegou no colo de novo. A sensação de estar nos braços dele era estranha. Não era como antes. Antes era confortável. Agora meu coração apertava.
"Não vai doer... o irmão está aqui."
"Irmão não vai me deixar, né?"
"Claro que não."
"Mesmo que eu não consiga ver?"
"Mesmo assim." A voz dele saiu firme, mas a mão que segurava a minha tremia.
Não sei há quanto tempo fiquei esperando. Só sei que quando chamaram meu nome, o coração quase saiu pela boca.
"Irmão, tenho medo." Falei com a voz embargada.
"Shhh... não chora. O irmão está aqui." Ele me beijou na testa. Pela primeira vez em muito tempo.
O médico fez vários exames. Luz forte nos olhos. Máquinas fazendo barulho. E perguntas que eu não conseguia responder direito.
O irmão ficou do meu lado o tempo todo. Segurando minha mão. Sem soltar nem um segundo.
Quando terminou, fomos para a sala do médico. O silêncio ali dentro era pesado.
"O resultado saiu." O médico olhou para nós dois. "A cirurgia deu certo. Ele vai voltar a enxergar. Mas vai demorar um pouco. E vai precisar de fisioterapia ocular."
Naquele momento eu não escutei mais nada. Só senti o aperto da mão do irmão e a lágrima quente caindo no meu rosto.
"Obrigado, doutor." A voz do irmão falhou.
Saímos do consultório. O irmão continuava calado. Só me levou até o carro e dirigiu sem falar nada.
"Irmão está bravo comigo?"
"Por quê eu estaria?"
"Porque eu causei todo esse problema."
"Não fala isso." Ele bateu forte no volante. "Você não pediu pra ficar assim."
Ficamos em silêncio o resto do caminho.
Quando chegamos em casa, ele me carregou de novo até o quarto e me deitou na cama com cuidado.
"Descansa. O irmão vai fazer comida."
"Irmão..."
"Hmm?"
"Obrigado."
Ele parou na porta. Não se virou. Só respondeu baixinho:
"Para de agradecer." E saiu fechando a porta devagar.

Fiquei olhando para o teto escuro. Pela primeira vez em 5 dias... a dor não estava só nos olhos. Estava no peito.
Medo de que mesmo enxergando de novo, eu tivesse perdido a coisa mais importante.

21:00 h
Os amigos vieram me visitar em casa. Aou, Up e os outros. Trouxeram comida e ficaram dizendo que eu estava com boa cara. Porque fazia muito tempo que não nos víamos. E também porque ficaram sabendo que a cirurgia tinha dado certo.
"Vem comer alguma coisa, fica só deitado aí."
O P'Tun sentou do meu lado na cama. Pegou um garfo e assoprou a comida antes de levar na minha boca. Era arroz com frango, ovo frito e sopa. E tinha também a sobremesa que eu mais gosto.
O Aou disse que isso era para eu recuperar as forças. E que eu tinha que comer tudo para ficar forte logo.
"Come, Tun..." Eu disse para o amigo.
"P'Tun não está com fome... espera ele comer depois." Ele respondeu e continuou me dando comida.
"P'Tun não precisa fazer isso... eu mesmo posso comer." "Calado... não fala muito. Fica quieto e come." "Tun... não precisa ficar bravo. Eu só estou preocupado." As palavras dos amigos me fizeram rir.
"Então... vamos contar para ele que viramos um trio? 3P, fechou?" O Up falou rindo e os outros riram junto.
...que amigos chatos...
"Tá... tá." Eu ri e eles riram comigo e ficaram me fazendo cócegas. Eu ri tanto.
"P... P... Tun!" Eu chamei enquanto ria e o P'Tun me abraçou por trás. O corpo dele ainda estava quente.
"Não! Tun!" O P'Tun tapou minha boca e riu também.
"Olha como ele é manhoso quando está com dor." O P'Pai disse e me cutucou na bochecha até doer.
"Não é que eu seja manhoso, é que dói." Respondi sem jeito.
"Os amigos não têm coração, né? Vão ficar rindo da minha desgraça." Eu fiz cara de bravo.
O Aou pegou minha mão que estava fora do cobertor e apertou. Estava quente, doce, salgada. Tinha gosto de tudo.
"P' Tun, os amigos estão falando que você está estranho esses dias. Fica calado e só olha para ele." O Up falou baixinho para o P'Tun ouvir.
"O quê?" O P'Tun fingiu que não ouviu.
"Estranho como?"
"Estranho... tipo... ou quer brigar com a enfermeira ou fica..." O Up não terminou.
"Tun... você quer brigar comigo ou o quê?" Eu virei para ele e perguntei.
"Quieto." Ele respondeu com a voz baixa e me puxou para mais perto. "Fica quieto e come."
Eu obedeci. Porque a voz dele estava diferente. E porque o coração estava batendo muito forte.

"...não precisa ter medo de ser um peso pra mim." Ele disse de repente, tão baixo que só eu escutei.
"Eu nunca pensei isso."
"Mentira." Ele apertou minha mão. "Eu vejo no seu olhar."
Fiquei em silêncio. Porque era verdade. Eu tinha medo. Medo de que quando eu voltasse a enxergar, ele não quisesse mais olhar para mim.
"Olha pra mim." Ele pediu.
Eu não respondi.
"Por favor."
Devagar eu virei o rosto na direção da voz dele. Mesmo sem enxergar direito, eu sabia onde ele estava.
Os dedos dele encostaram de leve na minha bochecha. Frio.
"Quando você abrir os olhos de novo, a primeira coisa que vai ver é a minha cara. Fechou?"
"Fechou." Eu respondi com a voz falhando.
"Isso mesmo. Menino obediente." Ele riu baixinho e encostou a testa na minha.

Depois disso os amigos ficaram mais um pouco e foram embora. O quarto ficou quieto de novo. Só tinha o som da respiração dele e a minha.
"P'Tun vai dormir aqui hoje?"
"Sim. Vou dormir no sofá."
"Não. Dorme aqui na cama."
Ele não respondeu. Só deitou do meu lado, por cima do cobertor. Sem me tocar.
Fiquei quieto. Sentindo o calor do corpo dele perto do meu.
"P'Tun..."
"Hmm?"
"Se eu não enxergar mais... você vai continuar do meu lado?"
Ele demorou para responder. Tanto que pensei que tinha dormido.
"Vou." A resposta veio simples. "Mesmo que você me mande embora."
O coração apertou. Uma lágrima escorreu. Dessa vez não de dor. De alívio.
"Boa noite, Tun."
"Boa noite, Talay."

Fechei os olhos. Pela primeira vez em 5 dias... eu não tinha medo do amanhã.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por comentar!! _ (: 3 」∠) _

Por favor Leia as regras

+ Sem spam
+ Sem insultos
Seja feliz!

Volte em breve (˘ ³˘)