Capítulo 01
"Ai" O som baixo escapou dos lábios dele, conforme a dor no corpo se tornava nítida. Abriu os olhos devagar. Abriu apenas uma fresta para se acostumar com a luz do quarto. Pensou que devia estar em um hospital, já que o cheiro desinfetante era muito forte e precisava ser atendido por um médico. Mas quando virou o rosto, encontrou um homem de expressão estranha o observando.
"Senhor..." Ele chamou, com a voz rouca por causa da dor de garganta. A voz que respondeu, no entanto, fez seu sangue gelar. Quando ergueu o olhar e viu o rosto do outro, sentiu o mundo desabar. "Isso não pode estar acontecendo!"
"Ei, será que você foi atingido por um raio e ficou assim?" A voz do homem estava tensa, misturada à dor que percorria o próprio corpo.
"Senhor... senhorzinho, o senhor acordou. Graças a Deus. O senhor me assustou. Espere, vou chamar o médico agora mesmo." A enfermeira de meia-idade que estava ao lado da cama se levantou apressada. O jovem na cama apenas piscou, confuso, porque a mulher o chamava de senhorzinho.
"Ah... com licença. Quem é o senhor? Por que me chama de senhorzinho?" Ele perguntou com voz trêmula, enquanto tentava se apoiar para se sentar. Sentia como se tivesse sido atropelado por um caminhão.
"Senhorzinho, por favor não fale assim. O senhor está me assustando."
"Eu não estou brincando... Eu realmente não sei quem eu sou."
"Senhorzinho... este é o senhor mesmo. O senhor é o filho do chefe. Por favor, não diga que não se lembra." A enfermeira começou a chorar, olhando para ele como se tivesse visto um fantasma. Durante todos os anos que trabalhou ali, nunca tinha visto o senhorzinho agir assim.
"E se... e se eu for outra pessoa? Ou tiver amnésia?" Ele se forçou a sentar. A enfermeira imediatamente correu para ajeitar os travesseiros atrás dele. O rosto estava pálido e só restava confusão. Antes que pudesse dizer mais, a porta do quarto se abriu e um médico entrou. A enfermeira logo o informou sobre o estado do senhorzinho.
"Senhor... eu... estou bem. Só não me lembro de mais nada", disse, olhando para o homem que devia ser o médico. Era mais jovem do que imaginava.
"Então qual é o seu nome?" O médico perguntou de forma direta.
"Dr. Parit", ele respondeu.
"É normal, devido ao acidente, que o paciente perca a memória temporariamente. Vamos fazer alguns exames primeiro", disse o médico, antes de olhar para a enfermeira e dizer que chamaria o chefe. Depois saiu, seguido pela enfermeira.
O quarto ficou silencioso novamente. Ele se encostou na cabeceira, enquanto a realidade do que tinha acontecido começava a cair sobre ele. A dor no corpo era suportável, comparada à confusão na cabeça. Ele levantou a mão e tocou o próprio rosto. Era um rosto jovem, de no máximo 25 anos. Mais novo que ele.
Ele suspirou fundo. "Se não sou eu, então quem sou?" Murmurou para si mesmo. Lembrou do momento do acidente, de estar voltando para casa tarde da noite. Uma luz forte. E depois, escuridão.
Toc, toc, toc.
"Senhor, a senhora está aqui com o senhor. A senhora quer ver o senhor", disse a enfermeira ao voltar, sem tempo nem de respirar direito. Antes que ele pudesse responder, uma mulher de meia-idade entrou apressada, os olhos vermelhos de tanto chorar. Ao ver a cena, imediatamente correu para abraçá-lo.
"Como assim? Por que ficou assim? Meu filho!" A mãe chorou, antes de dizer com voz trêmula.
"É culpa minha por não ter tempo para você. Se eu soubesse que você seria assim por minha causa..." A mãe o abraçou com força, como se tivesse medo de perdê-lo de novo.
"Você... você é o médico do senhorzinho, certo? Fale com ele sobre a amnésia. Quando o senhorzinho não se lembra nem da própria mãe, o coração de uma mãe dói", disse a enfermeira ao sair, deixando os dois sozinhos.
"Peço desculpas por este assunto. Se não conseguir, peço desculpas de verdade. Mas agora que o senhor não se lembra, é uma oportunidade de reconstruir a relação entre mãe e filho, não é?" Ele disse com voz baixa, enquanto pensava na situação. Por outro lado, sabia que enquanto estivesse no corpo do filho de outra pessoa, teria de se submeter a essa pessoa mais velha.
"Eu agradeço e vou tentar não decepcionar a senhora", disse depois de um silêncio. A mãe e o pai saíram do quarto imediatamente, sem dar tempo de dizer mais nada. Pelo jeito do pai, ele sabia que a relação entre eles estava cada vez pior.
"Não... senhor, o senhor se enganou. Era eu quem devia pedir desculpas ao senhorzinho. O senhorzinho nunca fez nada de errado", a enfermeira voltou para consolar, com o coração apertado ao ver a cena.
"Não me chame mais assim. Eu não me lembro de nada. Me chame de... não sei qual nome usar. Podemos conversar sobre o que aconteceu comigo?"
Depois disso, ele pediu o celular do suposto filho. O nome na tela era Wariwut, apelido Wut. O pai era um empresário influente. A mãe e o pai haviam se casado por interesse. Os dois não se amavam. A relação entre mãe e filho era fria. Ele entrou na faculdade por obrigação, mas na verdade estava envolvido com uma gangue. Tinha fama de brigão e mulherengo. O dinheiro era gasto com festas e mulheres. Depois de ouvir tudo, ele não conseguia entender por que o antigo Wut havia se tornado assim. Era um problema.
Depois de ouvir a história toda, ele pediu para ficar sozinho um pouco. A realidade de que havia acordado no corpo de outra pessoa ainda não tinha caído. Pegou o celular e abriu as redes sociais. Tinha mensagens do LINE, do Twitter, do IG e uma notificação de um app bancário. Quando abriu, quase teve um ataque do coração ao ver o saldo na conta. Era o maior valor que já tinha visto na vida. Além disso, havia mensagens de garotas que ele nem conhecia. No LINE havia um grupo chamado "Os amigos do Wut". Havia B, A, Ati, Nat. Cada um parecia ser filho de gente rica. Quando entrou no IG, escolheu uma foto para postar só para testar se ainda sabia usar. O celular vibrou com curtidas e comentários. Ele não entendia nada da vida que levava antes, mas resolveu sair do hospital e buscar informações sobre Wut de outro grupo. A última coisa que se lembrava era... o filho do chefe. Não sabia se ainda estava vivo. Enquanto pensava nisso, a enfermeira entrou de novo.
"Senhorzinho, por que não vai ver seu pai?" A enfermeira disse e saiu para ir até a sala dele verificar os exames.
"Por favor, me deixe descansar um pouco", ele respondeu e sorriu levemente.
"Se o senhor não se sente bem, descanse primeiro. Se precisar de algo, é só chamar que eu vou tentar ajudar o máximo que puder", a enfermeira disse com preocupação e saiu do quarto.
"É que... eu tenho um irmão mais novo esperando em casa. Mas ele foi para lá agora e está sozinho, sem ninguém para cuidar. Não tenho para onde ir. Se eu disser que vou voltar para casa, quem vai cuidar dele?" Ele disse, olhando para baixo, sem conseguir esconder a tristeza porque a situação do suposto filho era muito diferente da sua.
"Então você quer dizer que vai morar com a senhora de verdade?" A enfermeira perguntou com voz carregada de preocupação.
"Não é isso. Eu preciso fazer os dois aceitarem", ele respondeu com voz firme, decidido a encontrar uma forma de resolver a vida de ambos.
"Não tem como o senhor fazer isso sozinho. O senhorzinho já cresceu", a enfermeira disse e foi até a cozinha preparar algo para o senhorzinho comer.
"E cadê o quarto do senhorzinho?" A enfermeira perguntou.
"É no XXX, senhor", ele respondeu e pensou que precisava ligar para o pai que criava o irmão primeiro. Pelo menos os dois haviam se prometido "voltar". Se voltasse agora, não saberia o que fazer...
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