PRÓLOGO
Depois de tudo que passei, achei que a felicidade tinha me abandonado de vez. Se não fosse pela responsabilidade de cuidar do meu irmão mais novo, que acabara de concluir o ensino médio e estava prestes a ingressar na faculdade, eu já teria desistido de mim mesmo há muito tempo.
Meu pai, a quem eu amava, morrera em um acidente de trabalho. Na época eu ainda estava no ensino médio. Para sustentar a mim e ao meu irmão, tive de abandonar os estudos e começar a trabalhar como carregador no mercado, nas madrugadas.
"Ei, irmão. Você ainda não vai para casa? Já está tarde."
"Vou sim. Só estou terminando de guardar as coisas aqui. Você vai na frente. Me espera lá em casa."
"Mas irmão, ontem você disse a mesma coisa e só chegou de madrugada. Se continuar assim vai ficar doente."
O garoto insistia em me aconselhar, apesar do cansaço na voz. Desde a morte do nosso pai, ele amadurecera muito. Quando éramos crianças, eu cuidava dele. Agora os papéis haviam se invertido. Era ele quem cuidava de mim, me dizia para comer, para descansar.
Mas como eu poderia parar? Se eu parasse, quem pagaria as contas? Quem pagaria a faculdade dele?
"Não se preocupe comigo. Hoje é o último dia que vou trabalhar até tarde. A partir de amanhã vou procurar um emprego durante o dia, para poder ficar em casa com você à noite", disse, sorrindo e bagunçando o cabelo dele.
"É verdade? Promete?"
"Prometo."
Ele suspirou, ainda preocupado, e me abraçou antes de ir embora.
Quando ficou sozinho, olhei para a rua vazia. O mercado já havia fechado. Só restavam eu e as caixas. O corpo doía, mas a dor maior estava no peito.
"Eu vou dar um jeito para nós dois", pensei. Se eu não aguentasse, quem cuidaria do meu irmão?
Mas não era tão simples quanto eu imaginava.
Eu não podia largar aquele emprego ainda. A dívida do hospital do meu pai não estava paga. Eu caminhava apressado pela calçada escura, com a mochila nas costas, quando ouvi passos atrás de mim.
Virei-me de repente.
Eram três homens grandes, com aparência ameaçadora.
"Perdi!"
Antes que eu pudesse reagir, um deles me agarrou pelos ombros e me jogou contra a parede. O som do impacto se misturou à minha respiração ofegante.
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