CAPÍTULO 22 – “STAND BY ME”
Eu estava exausto naquele dia. Trabalho, concurso, ensaios… e, como se não bastasse, meus pensamentos insistiam em girar em torno de P’Kin. Não era apenas o corpo que doía minha mente também parecia sobrecarregada.
Depois de terminar tudo o que precisava, arrastei-me até o quarto. Meu rosto devia estar pálido como o de um morto. Deitei no sofá com a intenção de descansar só um pouco antes do banho. Planejava ensaiar dez vezes antes de dormir.
Mas o cansaço venceu.
Adormeci sem perceber.
Em meio ao sono, senti meu corpo ser erguido.
— Hã… o que está acontecendo…?
Abri os olhos assustado. Meu coração disparou, e um pequeno grito escapou antes que eu pudesse me conter.
Era P’Phu.
Ele me segurava com cuidado, aproximando-me do peito.
— P’Phi… — murmurei, ainda sonolento, sem resistir. Eu sabia que ele me levaria para a cama. Não queria que eu dormisse no sofá e pegasse frio.
— Você acordou? Eu te chamei antes, mas não respondia.
A voz dele era suave. Foi a primeira vez que entrou no meu quarto ou melhor, no que agora era oficialmente meu quarto.
— Já acordei… obrigado, Phi — respondi, envergonhado.
Levantei-me rápido demais, tentando organizar as palavras e também a bagunça do quarto.
— Vá tomar um banho e descanse direito — disse ele.
— Krab… Ah, mas aconteceu alguma coisa? Por que você veio até aqui?
— Passei para ver como estava a loja e aproveitei para te visitar. Hoje você parecia cansado. E quando cheguei, estava dormindo no sofá… parecia exausto.
Corei.
— O ensaio foi puxado… — admiti, constrangido. O quarto estava desarrumado. Que vergonha.
Ele suspirou, parecendo culpado.
— Eu devia ter te dado folga. Um trabalho assim realmente esgota. Não acredito que deixei você nesse estado.
Balancei a cabeça.
— Não é culpa sua, Phi. Eu já estava doente há dois dias. Não queria que os outros funcionários pensassem coisas erradas.
— Você pode tirar licença médica. Todos ficaram preocupados. Amanhã não precisa ir. Já pedi para outro funcionário te substituir. Volte só na segunda-feira. Não quero que trabalhe tão duro.
— E-eu não posso… Se eu faltar, meu salário será descontado…
— Não seja bobo — respondeu, firme, mas gentil. — Não vou descontar nada. Volte na segunda. Eu não faço isso só por você, faço pela loja também.
Ele era o presidente do segundo ano… e também o dono da loja.
— Mas…
— Sem discussão.
Não consegui argumentar mais.
— Certo… então vou descansar — murmurei, encostando a cabeça no ombro dele. O sono ainda pesava.
Ele acariciou meus cabelos como sempre fazia.
— Descanse. Não pense demais. Vai ficar tudo bem.
Quando ele se afastou para guardar o violão no estojo, percebi seus dedos inchados e avermelhados pela pressão constante das cordas.
Um aperto de culpa atravessou meu peito.
Quando ele se preparou para ir embora, senti um impulso estranho. Não sabia o que dizer… mas estendi a mão e segurei a manga de sua camisa.
— P’Phi… obrigado. De verdade.
Ele parou.
Seus olhos escureceram por um instante. Algo mudou na expressão dele.
Tarde demais.
De repente, fui puxado para dentro de seus braços.
O abraço era firme. Forte demais.
Meu corpo enrijeceu, mas não lutei imediatamente. Era P’Phu. Ele nunca ultrapassaria limites… certo?
— Phi… — sussurrei, tentando me afastar.
Mas ele não soltou.
As mãos dele seguraram meu rosto. Seu rosto se aproximou do meu… e então seus lábios tocaram os meus.
Fiquei paralisado.
Quando voltei a mim, tentei empurrá-lo, mas ele aprofundou o beijo. Seus lábios se moveram com intensidade. Sua língua invadiu minha boca antes que eu pudesse protestar.
Um som fraco escapou de mim.
O beijo era experiente. Ardente. Quase desesperado.
Eu não queria aquilo.
Mas também não consegui impedir que meu corpo reagisse.
Era errado.
Eu não podia brincar com o coração de ninguém muito menos com o dele.
Quando finalmente reuni forças, apertei seus ombros e o empurrei.
Ele se afastou, respirando pesado.
— Little boy… me desculpe — murmurou, vendo a expressão de decepção no meu rosto.
Respirei fundo.
— Eu é que deveria pedir desculpas… Eu não posso corresponder aos seus sentimentos.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Não é assim. Sou eu quem não consegue controlar o que sente.
O silêncio que se seguiu era denso.
Carregado.
Porque ambos sabíamos que, depois daquele beijo, nada seria exatamente igual.
— Tudo bem… — Ai’Tong acenou para os veteranos, avisando onde estávamos. Corri os olhos pelo grupo, mas ali só estavam três: P’Phu, P’Cho e P’Tee. Nem sinal de P’Kin ou P’Liz.
Estranho… Mesmo dizendo a mim mesmo que não queria vê-los juntos, no fundo eu desejava encontrar P’Kin. Talvez fosse apenas o resquício do sonho da noite passada. Embora eu negasse qualquer relação entre nós, algo ainda me prendia a ele. E agora ele simplesmente havia sumido ontem disse que viria me ver competir, mas não apareceu. Além disso, o arroz com coco e o porco grelhado que eu tinha preparado também desapareceram. Tudo aquilo me deixou com um gosto amargo.
— N’Thai, vai demorar muito? A P’Tee atrasou um pouco — disse P’Phu com a gentileza de sempre, agindo como se nada tivesse acontecido na noite anterior.
— Ah, Phu, nós também acabamos de chegar. — Cumprimentei os veteranos com uma leve reverência. P’Tee carregava o violão e parecia incrivelmente charmoso.
— Ai’Phu me ligou cedo demais. Estou com dor de estômago, então me atrasei um pouco — explicou P’Tee, no tom despreocupado de sempre, embora eu percebesse um cansaço sutil em seu rosto.
— Quem mandou viver comendo sem cuidado? — provocou P’Cho, que normalmente era calado, mas naquele dia resolveu implicar. — Estou só lembrando você de parar de exagerar.
— Cala a boca. Quando você fala, só sai ofensa.
— Claro. Minha boca foi feita especialmente para te ofender.
— Idiota!
— Vocês dois não têm vergonha de discutir na frente dos calouros? — repreendeu P’Phu, arrancando risos dos outros veteranos. Na verdade, P’Cho era quieto, mas entre os mais próximos tornava-se falante.
— Certo, chega de implicância, Ai’Cho. Hoje é o dia de N’Thai. Vamos treinar — disse P’Tee, olhando para mim com um sorriso encorajador. Ele parecia ter energia inesgotável.
— Hum… Tudo bem. Phi não vai tomar café antes?
— Não precisa. Já estou atrasado. Depois do treino eu como. Tenho aula às dez. E você, N’Thai, já comeu?
— Já.
— Ótimo. Vamos treinar perto da piscina, é mais tranquilo lá.
Concordei. Seguimos juntos até o lago do campus — P’Phu, P’Cho e P’Tee à frente. Ai’Tong ficou para tomar café, pois tinha aula às nove.
— N’Thai… você ainda está pensando no que aconteceu ontem? Está tão pálido — perguntou P’Phu enquanto caminhávamos lado a lado.
— Não, Phi. Foi só um pesadelo. Não consegui dormir direito, mas não tem nada a ver com ontem. — Forcei um sorriso para tranquilizá-lo. Com P’Phu era diferente; eu conseguia deixar as coisas para trás com facilidade. Ele sempre fora sincero comigo, e por isso eu não precisava me preocupar.
— Eu é que deveria pedir desculpas. Sou eu quem não consegue corresponder aos seus sentimentos.
— Little boy, não diga isso. Eu que não soube controlar meus sentimentos. Prometo que não vou repetir aquele erro.
— Phi, você realmente acha que isso te faz bem? Se estiver te machucando, talvez seja melhor se afastar. Eu não quero que sofra por minha causa. A vida não é um drama coreano em que sempre existe alguém perfeito esperando para retribuir o amor. Se você continuar ao meu lado, pode acabar se ferindo ainda mais.
— Little boy… não diga isso. Eu sei o que sinto. Às vezes posso perder o controle porque gosto de você, mas, se você estiver feliz, isso já é suficiente para mim. — Ele sorriu com suavidade. — E uma coisa eu garanto: nunca vou obrigar você a nada. Se um dia eu ultrapassar os limites, a culpa será minha. O tempo cura quase tudo. Talvez eu me canse… ou talvez seja você quem comece a aceitar meus sentimentos.
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Naquela noite sonhei outra vez. Acordei com lágrimas escorrendo pelo rosto. Não me lembrava do sonho, apenas tinha certeza de que era sobre P’Kin e de que não fora nada bom.
Levantei às cinco da manhã para treinar canto. Depois preparei mingau e tentei me distrair com pequenas tarefas, para afastar a tristeza.
Às sete em ponto, tomei café com o mingau de porco que fizera. O aroma quente trouxe um breve conforto. Mas, ao provar a primeira colher, algo me ocorreu: na noite anterior eu dormira sem trancar a porta. Mesmo assim, P’Kin não viera ao meu quarto. E o arroz doce com coco e o porco grelhado que preparei também não estavam mais na mesa.
Fui para a faculdade como de costume. Combinei de encontrar Ai’Tong, P’Tee e P’Phu. Não sabia se era cansaço ou excesso de pensamentos, mas naquele dia eu me sentia completamente desanimado até ouvir Ai’Tong me chamar.
— Ei, por que essa cara de enterro? Encontrou um fantasma ontem à noite? — provocou, sem nem me cumprimentar direito.
— Dormi tarde e acordei cedo. Estou tão horrível assim?
— Um pouco pálido, mas a maquiagem resolve. O importante é não parecer acabado por dentro. Acabado por dentro.
— “Acabado por dentro”? Isso existe? — rebati, indignado.
— Vai olhar sua cara no espelho. Fui o primeiro a te ver hoje. Você está com uma expressão terrível.
— Para de falar besteira. Só estou com sono.
— Seja como for… que horas você vai encontrar P’Phu?
— Agora. Mas é estranho… eles ainda não chegaram. Normalmente tomamos café juntos.
Ai’Tong estreitou os olhos, olhando por cima do meu ombro.
— Ah… é ele.
— E a próxima apresentação será do representante de Engenharia Aeronáutica, Thai Padung. Ele cantará ao som de violão a música Baleia Encalhada!
A voz do MC ecoou pelo auditório, arrancando gritos animados da plateia. Ai’Tong e eu trocamos um olhar rápido. Pelo visto, houve um equívoco anunciaram que eu me apresentaria sozinho.
Já era tarde demais para corrigir qualquer coisa. Eu precisava subir ao palco de qualquer forma. Só torcia para que a equipe mantivesse a música de apoio; sem acompanhamento, eu pareceria um idiota parado sob os holofotes.
Quando dei o primeiro passo em direção ao palco, senti um braço envolver meus ombros com suavidade. O calor daquele corpo e o perfume familiar fizeram meu coração disparar. Meu fôlego falhou.
— Calma, little boy…
Aquela voz grave a mesma que eu desejara ouvir a manhã inteira soou ao meu lado. Antes que eu pudesse reagir, meus dedos já estavam entrelaçados aos dele. P’Kin.
Sua mão envolveu a minha com firmeza. Pouco antes de chegarmos ao centro do palco, ele a soltou, como se nada tivesse acontecido. Fiquei atordoado. Era como se sua simples presença tivesse dissipado toda a confusão, a ansiedade e o medo que me consumiam minutos antes.
P’Kin caminhava ao meu lado com um violão nas mãos. Eu não sabia que ele tocava. Mas naquele momento, não duvidei nem por um segundo.
Os gritos da plateia aumentaram certamente dirigidos a ele. P’Kin mantinha a expressão serena. Esforcei-me para sorrir também. Quando nos acomodamos, o burburinho diminuiu, dando lugar ao silêncio expectante.
O som do violão preencheu o auditório. A melodia era a mesma que eu havia ensaiado com P’Tee. Sorri, reconhecendo o talento de P’Kin extraordinário, como sempre.
Antes de começar a cantar, olhei para ele por um breve instante. Eu estava feliz por ele ter vindo. Ainda assim, havia uma sombra discreta em seu olhar. Respirei fundo e me concentrei.
> Há uma baleia que nada sozinha,
o peito mais apertado que antes.
Ela tenta seguir o rastro do amor,
mas, no fim, acaba encalhada quando a maré sobe.
A apresentação transcorreu sem falhas. Ao final, fomos recebidos por uma salva de palmas calorosa. Inclinei-me em agradecimento ao lado de P’Kin.
Assim que descemos do palco, ele se afastou sem dizer uma palavra. Não olhou para trás. Não se despediu. Apenas caminhou até desaparecer entre as cortinas.
Ai’Tong se aproximou para me parabenizar, mas confesso que mal ouvi o que ele disse. Meus pensamentos ainda estavam presos àquela figura alta que havia sumido como um sonho.
---
— Ele foi ao banheiro de novo. Está cada vez mais pálido. Tenho medo de que não consiga se apresentar — informou P’Cho.
Meu coração apertou. Talvez a indisposição de P’Tee estivesse piorando.
— Então deixe que eu suba ao palco no lugar dele — sugeriu P’Phu, sério.
— Não dá. Se você se apresentar, vão dizer que está favorecendo o N’Thai. Ainda mais porque ele está concorrendo. As pessoas vão falar — retrucou P’Cho.
— E o que você pretende fazer? — P’Phu me perguntou, aflito.
Eu não queria que aquilo se tornasse um problema maior. Muito menos que prejudicasse alguém.
— Está tudo bem, Phi. Vou avisar a P’Gib para deixar o karaokê preparado como plano B.
No fundo, eu sabia que tomaria essa decisão ao ver o estado de P’Tee.
— É a melhor saída — concordou P’Cho. — Eu vou verificar como ele está.
— Se acontecer qualquer coisa, me avise imediatamente — disse P’Phu antes de sair apressado em busca de P’Tee.
Respirei fundo e fui falar com P’Gib, líder das líderes de torcida naquele ano. Por sorte, um amigo já havia me orientado: qualquer problema deveria ser comunicado à organização para que tivessem um plano emergencial.
P’Gib ouviu com atenção. Não ficou irritada — apenas pediu que eu a informasse com antecedência se precisasse cantar sozinho.
Quando voltei aos bastidores, vi Ai’Tong andando de um lado para o outro, inquieto.
— Thai, P’Tee não está nada bem. P’Cho disse que ele não consegue subir ao palco — contou, aflito.
Meu peito apertou.
— Ele veio mesmo doente só para me ajudar… Deveria ter ido ao médico.
— E agora? Vai cantar sozinho como antes?
— Sim. Já confirmei com P’Gib. Por favor, peça ao P’Phu que leve P’Tee ao hospital. E diga a ele para não se preocupar comigo.
Ai’Tong assentiu.
— Então use seu charme para ganhar esse concurso. Volto já.
Observei enquanto ele saía correndo.
No fim das contas, não posso ser egoísta a ponto de obrigar alguém doente a permanecer no palco por minha causa. Às vezes, a única pessoa em quem podemos realmente confiar somos nós mesmos.
Faltavam poucos minutos para minha vez novamente. A condição de P’Tee piorava, e P’Cho e P’Phu precisaram levá-lo ao hospital. Ai’Tong permaneceu ao meu lado, batendo de leve em meus ombros e murmurando palavras de incentivo.
Respirei fundo.
Se fosse para enfrentar aquilo sozinho… então que fosse.
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