27 de fev. de 2026

Dry Drowning - Capítulo 20

Capítulo 20



Kyle, que sorria até então, interrompeu o riso ao perceber o olhar de Ian um olhar que parecia duvidar de seu caráter e compôs uma expressão injustiçada.

— A nossa Shucream nem sabe o que é “Shetier”.

Ian o encarou como se aquilo não tivesse a menor relevância, e Kyle, como se estivesse esperando por essa reação, continuou:

— Ela mal consegue escrever o próprio nome. Ensinar o nome do príncipe seria crueldade, não acha?

Soava como um disparate, mas, raramente, havia algo próximo da verdade ali. Já haviam tentado ensiná-la ao menos a escrever se não falava, talvez pudesse aprender pelas letras, mas a iniciativa fora interrompida por Victorian. Mesmo ele, que o tratava como a um irmão mais novo e lhe ensinava tudo com paciência, desistira em apenas um mês. Por mais que repetissem, Shu não memorizava sequer palavras simples. Parecia não ter vontade de aprender.

“Entendeu?” — perguntavam. E ele apenas sorria: “Hi”. Era de se imaginar quantas vezes alguém já não perdera a paciência.

Talvez ao ouvir a voz de Kyle, Shu assentiu energicamente e correu para apanhar um graveto caído ali perto. Pelo menos o próprio nome ele precisava saber escrever insistira Victorian e, a duras penas, ela conseguira decorar ao menos um caractere.

Com o som áspero do graveto riscando a terra, Shu se agachou e começou a escrever.

Um único som. Uma sílaba. Sem sobrenome.

— Mm!

Orgulhosa por conseguir escrever o único nome que sabia, abriu um sorriso radiante e virou a cabeça bruscamente na direção de Ian. Ele, que não conseguia sequer escrever o próprio nome, limitou-se a encarar aquela caligrafia trêmula que também não sabia ler.

Ao lado do nome de Shu, a palavra “cream” surgiu num instante. Kyle, sacudindo as mãos sujas de terra como se nada tivesse feito, proclamou:

— Viu? Ele já fica satisfeito com isso. E você duvidou da minha generosidade por não querer dar dever de casa à toa, não foi?

Era só provocação, embora falasse como se fosse algo grandioso. Ian desviou o olhar, como se não valesse a pena responder. Já Shu, que escutava atentamente os sofismas de Kyle, parecia concordar em parte.

É por isso que te tratam como boba.

Ian deu um leve toque na testa dele com a ponta do dedo. Shu arregalou os olhos. Quando ele a fitou de cima, como quem pergunta “o que foi?”, ele apenas inclinou a cabeça, confuso e levemente ofendido. Kyle não perdeu a cena e estendeu o graveto a Ian.

Ian o encarou como se perguntasse por que aquilo estava sendo entregue a ele. Kyle sorriu enviesado.

— Mas e se vocês nem sabem o nome um do outro? Escreve você mesmo. Seu nome.

— …

— Não é nada difícil. Até Shucream consegue decorar, não é?

O problema era que o dono do nome “não tão difícil” não o conhecia.

Ian alternou o olhar entre o graveto agora em sua mão e Shu, que o observava com olhos brilhantes. Não conteve o suspiro. O que estava fazendo ali? Não queria se envolver em trivialidades, mas o olhar insistente dela era impossível de ignorar.

Por mais que o encarasse assim, as letras que desconhecia não surgiriam magicamente.

Pensou em largar o graveto e ir embora, mas teve a sensação de que Shu o seguiria como um filhote. Reconsiderou.

De todo modo, naquele país ele era estrangeiro. Mandaram que escrevesse o nome não que fosse em Shetier. Chegando a essa conclusão, Ian se agachou e traçou uma longa linha diagonal logo abaixo do nome de Shu.

Eu escrevo no idioma que eu quiser.

— …

Mas ele não avançou além do “I”. Após alguns segundos fitando o chão, desenhou um círculo à esquerda da letra. Depois outro círculo ao lado. Em seguida, um traço que se projetava lateralmente. E, por fim, uma linha angulosa descendente.

Shu, ainda agachado, observava fascinado o nome escrito em hangul como se tentasse gravar na memória aquelas formas arredondadas e angulosas que representavam “Ian”. A expressão de Kyle, também voltado para o chão, tornou-se estranhamente ambígua. Leu várias vezes, como se tivesse presenciado algo incomum, e quando abriu a boca para falar.

— Se já voltou, apresente o relatório primeiro à chefia.

A voz firme veio de trás, e os três voltaram-se quase ao mesmo tempo. O homem que se aproximava pela entrada era um rosto conhecido.

Cabelos azuis presos no alto. O sinal sagrado traçado na testa. Traços bem definidos e uma expressão impassível, como se nem uma lâmina pudesse desalinhá-la.

Era Claude, o vice-comandante que, no dia da procissão, conduzira Ian a cavalo até a vila.

— Ora, se não é o Claude. O quê? Veio correndo do treino da manhã porque sentiu minha falta? Isso já é meio perturbador.

— Devo responder?

— Ah, agora nem nega mais?

Falavam com rapidez, como velhos conhecidos — embora não no melhor dos sentidos. Enquanto Kyle exibia um entusiasmo escorregadio, Claude caminhava com calma, respondendo como quem instrui alguém lento de entendimento.

— O treino começa às oito em ponto. Eu sempre chego cinco minutos antes. Não tem nada a ver com você.

— Sério?

Kyle continuava sorrindo. Shu, acostumado àquela atmosfera, inclinou a cabeça em cumprimento a Claude e puxou discretamente a manga de Ian.

Vamos escrever nomes juntos!

O pedido estava todo em seu olhar, mas o clima entre os dois homens esfriava rapidamente. Ian já ouvira menções aos nomes deles, mas era a primeira vez que os via lado a lado.

— Já devo ter dito isso mil vezes. Até um vira-lata retardado tem memória melhor que a sua.

Na Ordem, a rivalidade entre os dois era pública. Kyle, escravo de seus próprios impulsos, e Claude, um aristocrata rigoroso. Só pelas inclinações opostas, já eram incompatíveis. Ambos integrantes da elite, frequentemente designados às mesmas missões pelo Grão-Duque e, sempre que se encontravam, colidiam. Nenhum dos dois tinha o hábito de medir palavras. Transformar a Ordem num campo minado parecia quase um passatempo.

— O quê?

Kyle fez um rosto chocado.

Não era alguém que se abalasse com tão pouco. Ian suspeitou que viria algo absurdo e veio.

— Peça desculpas ao cachorro!

Parecia uma piada. Mas piorou:

— Claude, esse é o seu problema. Tenha mais consideração pelos sentimentos alheios. Compará-los a mim? Já pensou como eles ficariam magoados? O Alexander, que criam na frente da taverna, é inteligentíssimo!

— …

— Que expressão é essa? Não me diga que… toquei numa ferida? Bem, para ir à taverna, é preciso ter amigos… Foi mal. Essa foi minha.

— O erro foi meu por falar com você.

Claude se afastou, ignorando o dilúvio de provocações como quem corta ruído com uma lâmina. Se Kyle nascera com o dom de revirar o estômago alheio, Claude era especialista em ignorar disparates.

Aproximou-se então de Ian.

— Recebi ontem o relatório sobre o mal-entendido com alguns de nossos cavaleiros.

“Mal-entendido” talvez fosse brando demais. Ainda assim, Ian apenas assentiu após um instante. Não pretendia discutir. Em qualquer época, quem destoa é rejeitado.

— Era algo que eu deveria ter supervisionado.

Mentira. Era impossível que desconhecesse o tumulto causado por Fred durante mais de uma semana. Ian preparava-se para assentir novamente.

— Não supervisei.

— …Era uma provocação? Ou franqueza?

— Se deseja punição aos envolvidos, basta dizer. Incluirei o instigador e todos os que se omitiram.

Se Ian concordasse, parecia pronto para abrir um julgamento ali mesmo. Por que aquilo, uma semana depois? Ele não sabia. Mas sua resposta já estava decidida.

Ergueu lentamente a mão.

— …E apontou para si mesmo.

Claude permaneceu em silêncio. Só podia haver uma razão para aquilo.

As sobrancelhas se ergueram por um instante. Entrara há pouco na Ordem e já se deixara acuar por alguém como Fred? Corajoso.

— …Muito bem. Inclua-me também.

Ele também fora omisso. Se houvesse punição, que fosse justa.

Ian abaixou a mão. Já entendia que tipo de homem Claude era. Não tinha idade para fofocas pelas costas.

Fez um gesto indicando que não era necessário e virou-se.

Ali não encontraria o homem que procurava. E era esse seu único objetivo. Melhor voltar ao quarto.

— Ian.

Pensando bem, ele deveria ter fugido naquele momento.

Sem fazer perguntas. Sem querer saber de nada. Se tivesse simplesmente corrido, sem olhar para trás sem revisitar o homem que matara talvez, desta vez, pudesse ter encontrado a morte tranquila que desejava.

As memórias perdidas poderiam ter sido apenas um lampejo final.

Mas Ian não percebeu.

Virou-se ao ouvir aquela voz de articulação rígida. Por trás do rosto impassível de Claude, emoções indecifráveis passaram brevemente.

— O comandante deseja vê-lo.

Era um convite.

E também, um prenúncio.

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