Capítulo 18
Não posso usar uma agência privada.
Eu não confiava em um lugar assim porque poderia haver vazamento de informações. Cheguei em casa e fiquei pensando nisso por um tempo.
Os seres humanos são contraditórios. No início, eu me sentia deslocado, como se estivesse usando roupas que não eram minhas, mas conforme fui me acostumando com esse estilo de vida, meu nível de conforto também aumentou.
Agora, a mansão me parecia mais familiar do que a casinha minúscula em Dal-dong onde eu morava antes.
Depois de me separar do grupo e voltar para o quarto, aproveitei um banho demorado no banheiro privativo. Normalmente eu tomaria um banho rápido e iria dormir, mas queria ficar um pouco na água quente porque me sentia sujo depois de encontrar o Ki Sung Yoon.
“Essa é a vantagem de ser o Ki Yoon Jae.”
Ri, joguei uma bomba de banho na água e fiz ondinhas com o dedo, deixando a água turva. Essa banheira foi feita para que duas, três pessoas entrassem e ainda assim ficassem confortáveis.
Era um estilo de vida que eu jamais imaginaria antes de possuir esse corpo. Na casinha minúscula onde eu morava não havia espaço nem para banheira. Mal cabia uma bacia. Um banho decente só era possível em banheiro público.
Mesmo ganhando dinheiro com bicos, era difícil justificar gastar 6.000 won¹ por dia só para se lavar. Com 6.000 won você comprava uma refeição. Era mais sensato comer bem do que tomar banho.
Aprox. R$ 25
“…Por que o Ki Yoon Jae ficou tão perverso?”
Uma casa espaçosa.
Um quarto aconchegante.
Comida deliciosa.
Fortuna.
Uma vida que todos sonhavam ter.
Uma vida que qualquer um chamaria de luxo.
“…Mas ele não recebe nenhum afeto.”
Percebi isso nos meses em que vivi como Ki Yoon Jae: ninguém demonstrava afeto por ele. Não. A Ki Hyun Joo parecia me tratar com um certo carinho, mas...
O que eu quero dizer é amor de família — o amor dos pais, o amor de um avô...
Ki Yoon Jae não tinha nenhum responsável legal.
Eu ainda tenho 16 anos.
Embora estivesse prestes a completar 17, o Ki Yoon Jae ainda era muito novo. Eu tinha 23, mas ele era bem mais jovem.
Meses depois de me tornar o Ki Yoon Jae, meu pai não entrou em contato comigo nenhuma vez. Se ligar fosse difícil, ele poderia ter mandado uma mensagem no KakaoTalk, mas nunca fui procurado. Não havia nenhum sinal de comunicação, nem mesmo antes de eu assumir o corpo do Ki Yoon Jae.
Será que isso pode ser chamado de família...?
A família que eu conhecia não era nada parecida com essa. Eu também cresci sem um responsável. No entanto, pessoas como meus pais adotivos e o diretor do orfanato me ajudaram a me tornar alguém decente.
Já para o Ki Yoon Jae... não havia ninguém.
“Se foi por isso que você ficou perverso...”
Ele era digno de pena. Claro, isso não justificava de repente tudo o que ele fez no romance.
Tomei banho para clarear a mente, mas meus pensamentos ficaram ainda mais confusos. Saí da banheira, me sequei e vesti o roupão. Depois saí do banheiro e me deitei na cama ainda de roupão.
Será que posso dormir assim mesmo?
Ninguém está olhando de qualquer forma... Decidi dormir de roupão, sem pijama, e me cobri com o edredom pensando que não teria problema se eu estivesse um pouco desleixado...
Toc, toc.
Alguém bateu na porta.
Olhei para o relógio. Já passava das 11.
A essa hora?
Quem diabos seria? Levantei e pedi para entrar. A porta se abriu.
“Hyung...”
Na porta estava o Ha Hyun Seo, abraçado a um travesseiro quase do meu tamanho. Ele não entrou. Ficou hesitando na soleira.
“Oh, Hyun Seo? Aconteceu alguma coisa?”
“Hyung...”
Hesitante, ele se aproximou. Parou ao lado da cama e sussurrou:
“Podemos... dormir juntos?”
Olhando para mim com a cabeça levemente inclinada, o Ha Hyun Seo parecia um cachorrinho... quer dizer, um filhotinho.
Senti o olhar dele fixo em mim.
Ele não vai arrancar meu pescoço, vai...?
Meu silêncio deixou o rosto dele emburrado. Eu estava matutando sobre o pedido.
“Claro que pode.”
Ai, minha boca falou sozinha. E com isso o rosto do Ha Hyun Seo se iluminou.
Já que não podia voltar atrás, levantei o edredom e o Ha Hyun Seo subiu na minha cama. Era uma cama queen size, não era apertada, então não havia problema nenhum em dois dormirem juntos.
“Hehe...”
O Ha Hyun Seo se aninhou nos meus braços, e o cabelo dele roçou no meu peito, que estava aparecendo pela abertura do roupão.
Hum... acho que está tudo bem.
Ele é só uma criança, e nós dois somos garotos. Não achei que mostrar um pouco da pele seria um problema.
“Uau... Hyung. Sua pele é muito branca.”
“É mesmo?”
“Quando te vi pela primeira vez, pensei que um anjo tinha descido do céu.”
O Ha Hyun Seo disse, envergonhado, que eu era muito branco e bonito. Agradeci o elogio, mas foi meio constrangedor ele me comparar a um anjo.
Ah? Agora que lembrei...
Não havia outra pessoa que saberia mais sobre a fobia de homens da Ha Eun Seo? Não havia ninguém melhor para perguntar do que o Ha Hyun Seo, que conviveu com ela por muito tempo.
Pensei um pouco em como formular a pergunta para não magoar o Ha Hyun Seo.
“Hyun Seo.”
“Sim, Hyung.”
“Como vocês viviam antes de me conhecer?”
“No orfanato?”
“Não, antes disso...”
Me perguntei se ele conseguiria falar sobre os pais. O Ha Hyun Seo hesitou por um momento, mas não pareceu se importar com a pergunta. Depois de pensar um pouco, começou a contar sobre ele.
“Na verdade, eu não lembro muito dos meus pais...”
O Ha Hyun Seo ainda era novo, mas quando era bem pequeno ele morou com os pais. Os pais dele eram pessoas comuns, e a Ha Eun Seo não era tímida enquanto eles estavam vivos.
“Depois, quando eu tinha 5 anos... meus pais morreram em um acidente.”
O Ha Hyun Seo e a Ha Eun Seo tinham 4 anos de diferença, então ela tinha 9 anos na época. Mais nova do que o Ha Hyun Seo de agora. Mesmo assim, ela precisou proteger o irmão mais novo com aquela idade.
Pelo jeito que ela ainda tinha medo de mim, mas tentava proteger o Ha Hyun Seo, parecia que ela tinha um senso de responsabilidade muito forte por ele.
“Minha irmã disse que nosso tio materno seria nosso responsável. Foi depois disso que ele apareceu.”
“Seu tio?”
“Sim, mas só o vimos pela primeira vez no funeral. Nunca tínhamos nos encontrado antes.”
O tio materno seria o responsável, mas os dois irmãos acabaram no orfanato? Fiquei me perguntando que diabos tinha acontecido.
“Então acabamos morando com nosso tio materno...”
O tio materno não parecia ser uma boa pessoa. Não que ele tivesse um gênio ruim ou algo assim, mas estranhamente a irmã dele, a Ha Eun Seo, dizia que sentia medo. Por isso, a Ha Eun Seo sempre tentava ficar junto do Ha Hyun Seo. Assim que ouvi isso, consegui concluir mais ou menos que a causa da fobia da Ha Eun Seo vinha dele.
Filho da mãe...
Era só um palpite, mas não havia outra explicação para a fobia dela, já que, como o Ha Hyun Seo disse, ela era uma pessoa alegre no passado.
Pessoas que abusam de crianças merecem ser exterminadas. Perguntei ao Ha Hyun Seo, rangendo os dentes por dentro:
“Então, onde está seu tio materno agora?”
“Na prisão.”
“Prisão?”
Perguntei surpreso, e o Ha Hyun Seo assentiu.
“Minha irmã disse... que o tio feriu gravemente um transeunte.”
“Nosso tio era alcoólatra.”
O Ha Hyun Seo sussurrou como se estivesse contando um segredo.
“Ouvi dizer que ele bebeu, brigou com um transeunte e acabou partindo para a violência.”
Vou ter que investigar isso.
Preciso descobrir o tempo da pena dele e se ele já voltou para a sociedade, caso já tenha cumprido.
Embora a Ha Eun Seo não fosse famosa agora — já que pessoas com dons ainda eram vistas apenas como mutantes com poderes estranhos —, era natural que ela se tornasse famosa quando o mundo mudasse.
Ela foi escolhida pessoalmente pelo sucessor da Sungwoon. Mesmo que não chegasse ao nível de celebridade, o rosto dela era bem bonito.
Quando alguém fica famoso, oportunistas sempre aparecem. Até relações que já morreram são reativadas para uma "reconciliação".
E no caso de laços de sangue, seria pior ainda. Não seria normal.
O tio materno do Ha Hyun Seo nunca trabalhou. Então de onde vinha o dinheiro para as despesas? Talvez fosse o seguro ou os bens que os pais dos dois deixaram.
Acho que preciso descobrir isso também. Quando o dinheiro acabar, ele não vai atrás do dinheiro que os irmãos ganham na Sungwoon? Se eu me antecipar e reivindicar a guarda dos irmãos, ainda menores de idade, posso acabar complicando as coisas para a Sungwoon. Talvez a situação piore.
Pensando nisso, disse a mim mesmo que precisava descobrir logo, enquanto consolava o Ha Hyun Seo.
“Deve ter sido difícil para você.”
Não houve resposta. A criança estava encolhida nos meus braços.
Será que já dormiu?
Fiquei o mais imóvel possível para não acordar o Ha Hyun Seo.
E aos poucos, eu também adormeci.
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