CAPÍTULO ESPECIAL
Minha mãe costumava dizer que as ruas ao redor da cidade eram assustadoras à noite, pois ficavam cheias de bandidos que assaltavam quem passava por elas.
Eu nunca havia acreditado nela... até hoje.
Minha aula com o professor Tann terminou às oito e quarenta e cinco da noite. Resolvi pegar o anel viário porque queria comprar algo para minha mãe no supermercado antes de voltar para casa. O ar estava gelado, penetrando até os meus ossos, principalmente quando as rajadas de vento atingiam meu rosto enquanto eu pilotava minha motocicleta. Reduzi a velocidade para amenizar a força do vento e desejei que todos os uniformes escolares do Norte incluíssem calças compridas.
Logo depois, vi a silhueta de um grupo de pessoas paradas na beira da estrada ao lado de suas motocicletas. Olhei pelo espelho retrovisor, preparando-me para virar à direita. Quando tornei a olhar para a pista, um dos homens avançou na minha direção empunhando um grande bastão de madeira.
— Aaah!
Soltei um grito de surpresa e ergui os braços para bloquear o golpe. Depois disso, tudo aconteceu rápido demais para que eu conseguisse entender. Quando percebi, estava caído à beira da estrada, enquanto minha motocicleta jazia a alguns metros de distância. Sentei-me rapidamente, sentindo uma dor intensa percorrer todo o meu corpo. Olhei para os lados em pânico.
— Aham, temos um estudante aqui.
Ouvi alguém dizer atrás de mim. Virei a cabeça e encontrei um homem vestindo camiseta preta e calça jeans. Ele passou por cima de mim, e tentei me levantar, mas parei ao ver outro sujeito se colocar à minha frente: era o mesmo que havia me acertado com o bastão.
— Por que fez essa cara, pirralho?
Fiquei boquiaberto, sentindo meu corpo começar a tremer de medo.
— Eu não fiz nada!
— Aff. Vi você tirando sarro de mim lá atrás.
Os lábios dele se curvaram em um sorriso debochado. Seu rosto me parecia familiar, como se eu o conhecesse de algum lugar.
— O... o que você quer? — perguntei, hesitante, enquanto pensava nos meus pais. Será que eu voltaria para casa com vida?
— Bela moto.
O homem apontou o bastão para minha motocicleta caída.
— Que tal deixarmos ela sob os nossos cuidados?
Encarei-o. A motocicleta era um presente da minha mãe, comprado com o dinheiro suado que ela ganhava vendendo Khao Tom Mud. Por que eu a entregaria a um estranho?
— Não.
Os delinquentes caíram na gargalhada. Olhei ao redor, semicerrando os olhos na tentativa de contar quantos homens estavam escondidos na escuridão. Pelo que consegui perceber, havia três deles.
— Ei, olha só isso. Você tem coragem, não é? Qualquer outro já teria enfiado o rabo entre as pernas e fugido.
— Bem, vou ficar com ela de qualquer jeito.
O homem com o bastão agarrou meu colarinho e me puxou para cima. Em seguida, ergueu a arma improvisada, pronto para me golpear outra vez. Instintivamente, levantei os braços para me proteger e fechei os olhos, esperando a dor.
— Ei, Kang!
Uma voz rouca ecoou pela estrada, fazendo o louco do bastão interromper o golpe no meio do movimento. Abri os olhos com cautela.
— Que porra você está fazendo?!
Kang virou-se para a direção da voz, claramente irritado.
— Foi esse filho da puta que começou!
— Que merda você está falando? Ele não disse uma palavra.
Um homem de porte robusto, vestindo uma camiseta escura, entrou no meu campo de visão. Seu rosto permanecia parcialmente escondido pela escuridão, lembrando uma sombra. Não havia luz suficiente para distinguir suas feições com clareza.
— Deixe ele ir.
Kang resmungou, contrariado, mas soltou meu uniforme com relutância.
Foi então que entendi por que seu rosto parecia tão familiar. Eu já o tinha visto na escola. Imaginei que fosse um aluno de alguma série abaixo da minha.
— Por que está aqui, Thad?
— O Sr. Black quer falar com a gente. Agora! — gritou o novato, com firmeza.
— Tá, eu ouvi.
Kang voltou-se para mim e apontou o bastão para o meu rosto.
— Se contar alguma coisa para a polícia, você vai se arrepender.
Esperei até que os gângsteres montassem em suas motocicletas e fossem embora um a um antes de tentar me levantar.
Por um breve instante, consegui ver melhor o homem que havia acabado de chegar, o líder da gangue. Seu rosto transmitia autoridade, e sua presença era intimidadora. Usava um corte de cabelo social e, para falar a verdade, era mais bonito do que os outros três. Ainda assim, tive a impressão de que era muito mais perigoso do que todos eles juntos.
Mancando, caminhei até minha motocicleta caída à beira da estrada. Para minha sorte, ela não havia sofrido nenhum dano sério.
Mas uma coisa era certa:
Eu nunca mais passaria por aquela estrada à noite.
— Ai, ai, ai! Senhorita, por favor, você está me machucando! — gritei, praticamente me debatendo enquanto a enfermeira da Emergência limpava minhas feridas com um cotonete. Parecia que ele estava embebido em ácido, de tanto que ardia.
— Você deveria ter vindo antes, rapazinho. O acidente aconteceu ontem à noite, não foi? — disse ela. Como se quisesse me dar uma lição, esfregou a ferida com ainda mais força.
— Aaaai! Desculpe! Eu... não sabia que ia doer tanto, então fui dormir.
Senti lágrimas se acumularem no canto dos olhos.
— Olhe só para você. Já nem dá para distinguir o que é sujeira e o que é sangue seco. Que tal limparmos tudo de uma vez?
Pela expressão dela, parecia até que estava se divertindo. Só me restava torcer para que estivesse brincando.
Tentei me distrair observando o movimento da sala. Vi uma médica de baixa estatura conversando com um paciente, uma enfermeira coletando sangue de uma senhora idosa e um homem entrando às pressas na Emergência.
Ergui um pouco a cabeça na maca e vi uma enfermeira correndo atrás dele.
— Dr. Bunn! Dr. Bunn!
Então ele era médico, pensei. Era por isso que parecia tão atraente. Havia algo nele completamente diferente da médica que havia me examinado.
— O quê? Ele veio trabalhar mesmo assim? — comentou a enfermeira que cuidava dos meus ferimentos, claramente surpresa.
Virei-me para ela.
— Ele é médico assistente?
— Não. É médico-legista. Achei que estivesse doente, então não esperava vê-lo por aqui hoje.
Ela começou a cobrir minhas feridas com gaze. Soltei um suspiro de alívio quando aquela tortura finalmente terminou.
— Daqui a pouco você vai conhecê-lo. É ele quem vai emitir o seu atestado médico.
— Vou conhecê-lo? Sério?
Por que eu estava tão animado? Nem eu conseguia entender.
A enfermeira riu.
— Fique quietinho. Vou encaixar você antes do próximo paciente, já que ele ainda vai demorar para chegar.
Nunca imaginei que aquele seria o dia em que conheceria o homem que se tornaria minha maior inspiração.
Eu não era uma pessoa muito confiante, mas sempre sonhei em ajudar quem precisava. Aos meus olhos, ele representava exatamente o tipo de pessoa que eu queria me tornar: alguém de caráter admirável, maduro, prudente, respeitoso e extremamente competente.
Como alguém podia reunir tantas qualidades?
— Qual é o seu nome, doutor? O senhor sabe que é muito bonito?
Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi que jamais deveria tê-las dito.
Mesmo assim, agradeci às estrelas quando o Dr. Bunn respondeu e me disse seu nome.
Fingi sair do cursinho, tentando parecer casual. De vez em quando, olhava discretamente para o líder da gangue, que caminhava em direção à motocicleta estacionada em frente à escola.
Assim que ele ligou o veículo e saiu, corri para a minha moto, saltei no banco, dei a partida e parti logo atrás dele.
Mantive uma distância segura para não levantar suspeitas.
Achei que ele fosse para algum bar frequentado por gângsteres e valentões, mas, em vez disso, seguiu até uma pequena casa no meio da cidade.
Estacionei minha motocicleta na entrada de um beco e me inclinei para observar.
Vi o homem descer da moto, abrir o portão e entrar no terreno. Em seguida, entrou em um pequeno carro vermelho, já bastante velho, que estava estacionado ali.
Esperei até que ele saísse com o carro.
— Aonde você vai...? — murmurei para mim mesmo.
Sem hesitar, subi novamente na motocicleta e comecei a segui-lo.
Felizmente, o carro era de um vermelho chamativo e tão antigo que jamais conseguiria acompanhar a velocidade da minha moto.
Isso me permitiu manter uma boa distância sem perdê-lo de vista.
À medida que avançávamos, os prédios foram ficando cada vez mais escassos.
Eu não fazia ideia de para onde ele estava indo.
Estávamos quase entrando em outro distrito, e o sol da tarde já começava a desaparecer no horizonte.
De repente, o carro vermelho parou à beira da estrada.
Rapidamente entrei com a moto em uma viela e a escondi antes de sair, andando sorrateiramente.
De longe, vi o líder da gangue caminhar até um carro estacionado próximo dali.
Ele ficou encarando uma casa de telhado azul, completamente imóvel, com uma expressão de choque.
Logo em seguida, correu de volta ao próprio carro, entrou e dirigiu até outra viela.
Saí do esconderijo, totalmente confuso com sua atitude.
Então olhei para a mesma casa.
E compreendi imediatamente o motivo daquele olhar.
Quatro homens vestidos de preto bloqueavam o portão.
Conversavam entre si com expressões sérias e ameaçadoras.
Um deles segurava alguma coisa na mão.
No início, não consegui distinguir.
Mas, quando ele se levantou...
Meu sangue gelou.
Era uma arma.
Naquele instante, um dos homens olhou diretamente para mim.
Meu coração quase saltou pela boca.
Desviei o olhar imediatamente e comecei a recuar em direção à minha motocicleta.
Merda...
Eu nunca deveria ter vindo até aqui.
Enquanto procurava o caminho de volta, alguém agarrou meu colarinho por trás e me puxou violentamente para dentro de um arbusto.
Soltei um grito de susto.
Antes que pudesse gritar novamente, uma mão cobriu minha boca.
Então ouvi uma voz baixa e firme:
— Fique quieto... se quiser continuar vivo.
Meu corpo inteiro congelou.
Fechei a boca imediatamente.
Quando virei a cabeça, encontrei o rosto frio e impassível do homem que me puxara.
Era o líder da gangue.
Ele observava atentamente a movimentação do outro lado do arbusto.
— Quem... quem são aquelas pessoas? — perguntei em um sussurro, assim que ele retirou a mão da minha boca.
Ele me lançou um olhar frio.
Sob a luz do entardecer, pude notar melhor seu rosto.
Era bonito.
Sua pele bronzeada denunciava o tempo que passava trabalhando sob o sol.
— Eu é que deveria perguntar. Quem é você... e por que está me seguindo?
Abri a boca para responder.
Mas ele levou um dedo aos próprios lábios, mandando-me ficar em silêncio.
Tentei olhar através das folhas do arbusto.
Não consegui enxergar praticamente nada.
Não fazia ideia de como ele conseguia acompanhar tudo dali.
— Venha comigo.
Sem esperar resposta, segurou meu braço e me puxou.
Atravessamos o jardim de uma casa e corremos até a viela onde seu carro estava escondido atrás de uma árvore.
— Entre.
— Hã?
Mesmo completamente desnorteado, obedeci e sentei no banco do passageiro.
Ele abaixou parcialmente o vidro da janela e voltou a observar a casa de telhado azul.
Em seguida, pegou o celular e fez uma ligação.
— Sr. Black... cheguei, mas os homens de Zom também estão aqui.
Fez uma breve pausa.
— Mal consegui entrar na viela a tempo. Ainda bem que não vim de moto.
Outra pausa.
— Isso está muito pior do que imaginei. Paul vai encontrar sua mãe com certeza. Os homens de Zom estão revistando todas as casas da região. Nesta aqui, há pelo menos quatro bloqueando a entrada.
Ele suspirou profundamente.
— Não faço ideia de como descobriram que ela estava escondida aqui. Não consegui chegar antes. Me desculpe.
Meus olhos se arregalaram.
O líder da gangue estava falando com...
o Sr. Black.
— Por que eu brincaria com uma coisa dessas? Isso é sério. Estou escondido dentro do carro agora. Se acontecer alguma coisa, eu ligo de novo.
Ele encerrou a chamada e virou-se para mim.
Sem qualquer aviso, agarrou meu colarinho e me puxou para perto.
— Eu vi você na escola do professor Tann. Se eu não estivesse com tanta pressa, teria acabado com você naquela estrada. Então me diga... por que estava me seguindo?
Engoli em seco.
Mesmo tremendo, a curiosidade falou mais alto.
— Quem... quem é o Sr. Black?
Ele franziu a testa.
— Aqui quem faz as perguntas sou eu.
Apertou ainda mais meu colarinho.
— Responda. Por que estava me seguindo? Se não falar, vou fazer você se arrepender.
Respirei fundo.
Eu tinha medo.
Muito medo.
Mas havia algo mais forte.
Minha curiosidade.
— Quero saber para quem você trabalha... quem é o Sr. Black... e se ele tem alguma ligação com o desaparecimento do Dr. Bunnakit.
Ele me encarou por alguns segundos.
Depois soltou meu uniforme e me empurrou de volta para o banco.
— Eu devia ter deixado você morrer ali mesmo. Só salvei sua vida porque você ficou correndo igual a uma barata tonta e virou um alvo fácil. Se aqueles homens seguirem você até aqui e descobrirem que estamos juntos, estaremos ferrados.
Olhei para ele nervosamente.
— Por que precisamos nos esconder?
Ele respirou fundo, claramente irritado.
Estava prestes a responder quando dois homens surgiram na entrada da viela.
Um deles segurava uma arma.
Meu corpo inteiro enrijeceu.
Afundei no banco para tentar desaparecer.
— Merda...
Sem perder um segundo, ele ligou o carro.
Pisou fundo no acelerador.
Como a viela era estreita demais, o para-choque raspou violentamente na mangueira de uma casa.
Agarrei a alça acima da janela e fechei os olhos.
Esperava ouvir disparos.
Esperava ouvir o vidro se estilhaçando.
Mas nada aconteceu.
Quando tornei a abrir os olhos, já estávamos quase alcançando a avenida principal.
As luzes da cidade começavam a se acender.
Foi então que me lembrei.
— Minha moto!
Virei-me desesperado.
— Como vou buscá-la?
— Esqueça.
A resposta veio seca.
— Mas como vou para a escola amanhã?
Ele soltou um palavrão.
— Você causou tudo isso. Se voltar lá agora, morre.
Passou a mão pelos cabelos, claramente frustrado.
— Agora nem consigo terminar meu trabalho. Meu chefe vai me matar.
Olhei para ele.
— Seu chefe é o homem que você encontrou antes? O professor Tann?
Ele fez uma curva tão brusca que quase bati a cabeça na janela.
— Não é ele.
Depois lançou um olhar ameaçador.
— Continue fazendo perguntas... e eu corto sua cabeça fora.
Decidi ficar calado.
Passei o resto da viagem observando-o discretamente.
Na verdade...
Ele era bonito.
O que realmente assustava não era seu rosto.
Era sua postura.
Seu jeito de falar.
Sua presença.
Se sorrisse um pouco...
Provavelmente seria ainda mais bonito.
De repente, nossos olhares se cruzaram.
Desviei imediatamente para a janela.
O que eu estava pensando?
Meu objetivo era descobrir o paradeiro do Dr. Bunn.
— Para onde você está me levando? — perguntei.
— Você sabe coisas demais.
Ele respondeu sem tirar os olhos da estrada.
— Vou levá-lo ao meu chefe. Ele decidirá o que fazer com você.
Meu coração afundou.
Estou ferrado...
Olhei discretamente para a maçaneta da porta.
Será que eu conseguiria pular do carro?
Antes que tomasse qualquer decisão, o celular dele tocou.
— O quê?... Como assim?
Sua voz mudou completamente.
Parecia preocupado.
— Me diga onde você está! Estou indo agora!
Silêncio.
— Não faça isso sozinho!
A ligação caiu.
Ele tentou ligar novamente.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Sem sucesso.
Por fim, arremessou o celular no porta-copos.
— Droga...
Aquilo me surpreendeu.
Era a primeira vez que eu o via realmente abalado.
Resolvi dizer alguma coisa.
— Tente se acalmar...
Ele nem respondeu.
Depois de alguns segundos, perguntou:
— Onde você mora?
— Em Nai Viang...
— Então me mostre o caminho.
Fez uma pausa.
— Ou desça agora e volte a pé.
Fiquei completamente surpreso.
Ele... ia me levar para casa?
Continuei indicando o caminho.
Quando entramos na área central da cidade, mostrei minha casa.
Era uma residência simples, de dois andares.
Na cerca havia uma placa grande anunciando o Khao Tom Mud preparado pela minha mãe.
Quando o carro parou, permaneci imóvel.
Não fazia ideia de como explicaria o desaparecimento da motocicleta.
— O que está esperando?
A voz ríspida dele me trouxe de volta à realidade.
— Desça logo. Está desperdiçando meu tempo.
Saí rapidamente.
Fiquei parado diante do portão, observando o velho carro vermelho desaparecer rua abaixo.
Naquele momento, senti um enorme vazio.
Minha mochila.
Meus livros.
Minha carteira.
Tudo continuava dentro da motocicleta.
Foi então que ouvi a voz da minha mãe.
— Sorrawit! Você voltou!
Fechei os olhos.
Precisava inventar uma desculpa.
Mas nenhuma parecia convincente.
Respirei fundo.
Sorri do jeito mais natural que consegui.
— Voltei, mãe.
Eu sabia que era apenas uma questão de tempo até minha mãe descobrir que Kor nunca havia pegado minha motocicleta emprestada. Por isso, precisava recuperá-la naquele mesmo dia.
Depois que ela me deixou na escola naquela manhã, procurei meu amigo Pea e implorei para que me levasse até o lugar onde eu havia deixado a moto.
— Tudo bem. Se não for muito longe, eu levo você.
Suspirei aliviado.
Após a cerimônia matinal, fui para a minha sala, o terceiro ano, Classe Um, conhecida como a Classe dos Superdotados.
Eu era um dos melhores alunos porque estava decidido a entrar na Faculdade de Medicina. Estudava com afinco em todas as disciplinas para me preparar para o vestibular. Como era alto, meu lugar ficava no fundo da sala.
Depois de me sentar, fiquei olhando pela janela, pensando no Dr. Bunnakit e imaginando se Thad já havia conseguido se reconciliar com o Sr. Black, seu chefe tão importante.
Minha rotina escolar raramente tinha surpresas.
Mas, naquele dia, fui completamente pego de surpresa.
Enquanto caminhava com Pea em direção ao estacionamento, avistei minha motocicleta parada bem em frente ao prédio.
— Ei!
Gritei tão alto que Pea se assustou.
— É a minha moto!
— Então você não precisa mais da minha carona?
Corri até ela.
Conferi a placa.
Depois o adesivo de tigre na lateral.
Era realmente a minha.
— Quem trouxe você para cá...?
Só existia uma pessoa que sabia onde ela estava.
E também a quem ela pertencia.
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Minha mãe sempre dizia que, quando alguém nos ajuda, devemos retribuir a gentileza.
Passei em casa, peguei alguns Khao Tom Mud feitos por ela e os coloquei em uma sacola.
Depois fui até a casa de Thad.
A pequena residência continuava simples e envelhecida.
A motocicleta dele não estava lá.
Apenas o velho carro vermelho permanecia estacionado, agora com marcas de arranhões no para-choque dianteiro.
Nunca imaginei que o líder de uma gangue pudesse fazer algo tão gentil.
Por trás daquela aparência intimidadora existia alguém muito mais bondoso do que deixava transparecer.
Talvez toda aquela dureza fosse apenas uma fachada.
Resolvi esperá-lo até as seis horas.
Se ele não aparecesse, deixaria a sacola pendurada no portão.
Sentei-me na motocicleta, peguei o celular e comecei a navegar pelas redes sociais.
Foi então que uma manchete chamou minha atenção.
"Tutor famoso é preso por sequestrar um patologista e é suspeito de envolvimento em homicídio."
A fotografia abaixo da notícia mostrava o professor Tann.
Meu coração disparou.
Era difícil acreditar que ele realmente tivesse cometido algo assim.
Então os rumores sobre sua ligação com os gângsteres eram verdadeiros.
E aquele patologista...
Só podia ser o Dr. Bunnakit.
Esperei ansiosamente a página carregar, justamente quando minha internet resolveu ficar lenta.
Quando finalmente consegui ler a notícia, senti um enorme alívio.
O Dr. Bunn estava vivo.
Levantei os braços automaticamente.
— O Dr. Bunn voltou!
— O que você está fazendo aqui?
Uma voz grave me fez congelar.
Virei-me.
Thad estava parado ali, segurando uma sacola de compras.
Gaguejei antes de estender a sacola de doces.
— Eu... vim agradecer por devolver minha motocicleta.
Ele apenas olhou para a sacola.
Depois continuou andando em direção à porta de casa.
Como se eu nem existisse.
Fiquei indignado.
Aproximei-me rapidamente.
Segurei seu braço.
— Por favor... aceite.
Thad puxou o braço com força.
Virou-se.
Levantou a mão.
Instintivamente fechei os olhos e ergui os braços para proteger o rosto.
Vai doer...
Mas o golpe nunca veio.
Em vez disso...
Senti uma mão pousar suavemente sobre minha cabeça.
Abri os olhos lentamente.
Thad me observava com a mesma expressão séria de sempre.
— Obrigado.
Sua voz continuava firme e curta.
Mesmo assim...
Havia uma delicadeza que eu nunca tinha percebido antes.
Ele pegou a sacola da minha mão e entrou em casa.
Fiquei parado por um longo tempo.
Meu peito parecia aquecido.
Cobri a boca com a mão.
Meu rosto queimava.
Como alguém podia ser tão fofo...?
Eu nunca imaginei que alguém pudesse superar o Dr. Bunnakit.
Mas aquele líder de gangue...
Estava conseguindo.
Eu sabia muito pouco sobre Thad.
Era dois anos mais velho que eu.
Estudava Mecânica em uma escola técnica.
Só isso.
Não fazia ideia de como havia entrado para uma gangue.
Nem se realmente trabalhava para o professor Tann.
Mas queria descobrir tudo sobre ele.
Não era apenas porque ele era bonito.
Era porque, por trás daquele jeito intimidador, escondia uma gentileza que parecia completamente incompatível com sua imagem.
No dia seguinte, em vez de visitar o Dr. Bunn no hospital, fui esperá-lo na saída do prédio de Mecânica Industrial da escola técnica.
O ambiente ali era completamente diferente do meu colégio.
Os estudantes pareciam muito mais maduros.
Quando se formassem, já estariam preparados para trabalhar.
Enquanto isso, eu ainda passaria anos na universidade antes de conseguir exercer a profissão que sonhava.
Arrumei o uniforme e fiquei olhando para o interior do prédio.
Desta vez eu não cometeria o mesmo erro.
Precisava pedir o telefone dele.
Ou pelo menos seu contato no LINE.
Na última vez, deixei essa oportunidade escapar.
Enquanto esperava, uma voz feminina chamou minha atenção.
— Ei, garoto... está esperando alguém?
Virei-me, um pouco surpreso.
Era uma jovem usando o uniforme da escola técnica: camisa de mangas compridas, gravata cinza e saia acima dos joelhos.
Ela era muito bonita.
— Um amigo — respondi timidamente.
Ela sorriu.
— Sério? Eu também estou esperando meu namorado. A aula atrasou hoje.
Olhou para o relógio de pulso antes de apontar para um banco de mármore próximo.
— Vamos esperar ali?
— Claro...
Sentei-me ao lado dela.
Ela pegou o celular e passou a mexer na tela em silêncio.
Fiz o mesmo, aproveitando para acompanhar as últimas notícias sobre o professor Tann.
Menos de cinco minutos depois, ouvi vozes animadas saindo do prédio.
Levantei-me imediatamente.
Mas a garota foi mais rápida.
Correu até o rapaz que acabara de sair, abraçou seu braço com força e começou a conversar com um sorriso radiante.
Meu corpo inteiro congelou.
Era Thad.
Por alguns segundos, fiquei incapaz de respirar.
Então... ele tinha namorada.
Cerrei os punhos.
Engoli em seco.
Às vezes eu me esquecia de que pessoas bonitas dificilmente estavam sozinhas.
E alguém como Thad...
Bonito.
Forte.
Confiável.
Naturalmente teria uma garota bonita ao seu lado.
Ela combinava muito mais com ele do que um estudante magrelo como eu.
Enquanto eu permanecia imóvel, Thad ergueu os olhos.
Nossos olhares se encontraram por um breve instante.
Rapidamente abaixei a cabeça.
Depois me virei.
E fui embora.
Naquela noite, tentei estudar.
Mas não consegui.
Primeiro, perdi a concentração por causa do desaparecimento do Dr. Bunn.
Agora...
Descobrir que Thad tinha uma namorada era ainda pior.
Deitei-me na cama e encarei o teto.
Se eu contasse aquilo aos meus amigos, certamente diriam que eu tinha enlouquecido.
Fechei os olhos.
Então uma dúvida voltou à minha mente.
Se ele tinha namorada...
Por que trouxe minha motocicleta de volta?
Por que acariciou minha cabeça daquele jeito?
Cobri o rosto com as mãos.
Eu realmente não entendia.
No fim...
Cheguei a uma conclusão.
Precisava conversar com Thad.
Olhei para o relógio.
Eram oito e quarenta e cinco da noite.
Minha mãe provavelmente estava nos fundos da casa preparando os ingredientes do Khao Tom Mud.
Meu pai devia estar assistindo ao noticiário na sala.
Saí do quarto o mais silenciosamente possível.
Desci as escadas.
Passei atrás do sofá sem chamar a atenção do meu pai.
Abri a porta devagar.
Assim que saí, corri para a motocicleta, liguei o motor e acelerei rumo à casa de Thad.
Quando cheguei...
Tudo estava escuro.
A motocicleta dele não estava lá.
Respirei fundo.
Restava apenas um lugar onde eu poderia encontrá-lo.
A estrada de cintura que contornava a cidade.
A mesma onde eu quase fui espancado.
Prometi a mim mesmo que jamais voltaria ali.
Mas...
Meu coração falou mais alto que o medo.
Segui até o local.
Não havia sinal de Thad.
Nem dos outros membros da gangue.
Soltei um longo suspiro.
Será que eu teria de esperar até amanhã?
Como fui idiota...
Tive tantas oportunidades de pedir o telefone dele.
E nunca pedi.
Nesse instante, meu celular começou a tocar.
Era minha mãe.
Atendi imediatamente.
— Oi, mãe.
— Onde você está, It? — perguntou ela, claramente irritada.
— Saí rapidinho. Já estou voltando.
— Então ande logo. Seu amigo, Thad, está aqui em casa esperando por você.
Fiquei completamente sem reação.
— O... o quê?
— Não ficou surdo, ficou? Venha para casa agora!
Ela desligou antes que eu pudesse responder.
Fiquei olhando para a tela do celular por alguns segundos.
Thad...
Foi até a minha casa?
Sem perder tempo, liguei a motocicleta novamente.
Casa... aí vou eu!
Levei pouco mais de dez minutos para voltar para casa.
Nunca uma viagem pareceu tão longa.
Assim que entrei, encontrei Thad sentado na sala, conversando tranquilamente com meu pai.
Ele interrompeu a conversa e voltou o olhar para mim.
Vestia uma camiseta preta e uma calça esportiva azul-marinho.
Respirei fundo, tentando controlar o nervosismo.
— Olha quem chegou. — Meu pai sorriu. — Seu amigo já estava criando raízes aqui de tanto esperar. Leve-o para o seu quarto.
Assenti em silêncio.
Thad levantou-se naturalmente e caminhou até a escada, como se já soubesse o caminho.
Passei por ele, subi os degraus e o conduzi até meu quarto.
Assim que entramos, fechei a porta e a tranquei.
Virei-me para encará-lo.
— O que você está fazendo aq...
Antes que terminasse a frase, senti um soco atingir minha bochecha.
Cambaleei para trás até cair sentado na cama.
Levei a mão ao rosto, completamente atordoado.
— Por que você está me evitando? — perguntou Thad, com um olhar frio.
Piscando algumas vezes, respondi:
— Quando foi que eu fiz isso?
— Hoje.
Sua resposta foi imediata.
— Depois que me viu, saiu correndo. Não pense que eu não percebi.
Fiquei ainda mais confuso.
— Você veio até aqui por causa disso?
— E por que me bateu?
Thad franziu a testa.
— Não é óbvio?
Silêncio.
Abri a boca algumas vezes, mas nenhuma resposta saía.
Óbvio?
O que havia de óbvio?
Depois de alguns segundos, Thad soltou um longo suspiro.
— Esquece.
Levantei-me lentamente.
Ainda massageando a bochecha dolorida, tomei coragem.
— Eu fui embora... porque vi você com aquela garota.
Ele permaneceu em silêncio.
Continuei:
— Achei que ela fosse sua namorada.
Minha voz saiu mais baixa.
— Então pensei... que não fazia sentido continuar ali.
Thad continuou olhando para mim.
Então perguntou calmamente:
— Você gosta de mim?
Senti meu cérebro parar de funcionar.
Meu coração disparou.
Minha garganta secou.
Depois de alguns segundos, consegui responder:
— Acho... que sim.
Meu rosto queimava de vergonha.
Foi então que aconteceu algo que eu jamais imaginei.
Thad sorriu.
Era um sorriso discreto.
Quase imperceptível.
Mesmo assim...
Foi suficiente para fazer meu coração perder completamente o ritmo.
Ele deu um passo à frente.
Depois outro.
Até parar bem diante de mim.
Instintivamente recuei, encostando as costas na porta.
— Então...
Ele inclinou levemente o rosto.
— Você gosta mesmo de mim?
Fechei os olhos com força.
— Talvez...
Respirei fundo.
— Talvez sim!
Uma risada baixa escapou dos lábios dele.
— Você fica engraçado quando cora.
Em seguida, beliscou de leve minha bochecha.
— Eu me lembro de você desde a noite em que alguns dos meus homens tentaram bater em você.
Abri os olhos.
Ele continuou:
— Disseram que você estava investigando quem era meu chefe.
— Desde então, fiquei de olho em você.
Sorri sem jeito.
Mas o sorriso desapareceu quando ele completou:
— Se você descobrisse alguma coisa importante... nós poderíamos ter matado você.
Engoli em seco.
— Você está falando sério?
Ele assentiu.
— Mas, por algum motivo...
Fez uma breve pausa.
— Mesmo sendo um pirralho intrometido...
— Você é fofo.
Meu rosto ficou ainda mais quente.
Antes que ele pudesse se afastar, envolvi sua cintura com os braços.
Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— E aquela garota?
Perguntei rapidamente.
— Minha prima.
Piscou.
— Ela está namorando um amigo meu.
Fiquei completamente imóvel.
Depois comecei a rir sozinho.
Todo aquele sofrimento...
Por nada.
Olhei novamente para Thad.
— Então...
— Você não tem namorada?
— Não.
Sorri de orelha a orelha.
— Então isso significa...
Respirei fundo.
— Que você pode namorar comigo.
Thad riu.
— Você ao menos sabe meu nome de verdade?
— Sei!
Respondi imediatamente.
— Thad!
Ele balançou a cabeça, divertido.
— Esse é só o apelido.
— Eu ainda não sei seu nome verdadeiro... sua idade... seu aniversário... seu telefone... nem para quem você trabalha.
Sorri.
— Mas posso descobrir tudo isso aos poucos.
Ele voltou a ficar sério.
— E quando descobrir...
Seu olhar tornou-se intenso.
— Vai contar tudo para a polícia?
Balancei a cabeça imediatamente.
— Claro que não!
Sorri sem pensar.
— Se você for preso... eu vou ficar sem namorado.
Por alguns segundos, ele apenas me observou.
Depois segurou meu colarinho.
Afastou-me delicadamente.
E disse:
— Lembre-se do que acabou de falar.
Sua voz voltou a ficar firme.
— Se algum dia você descobrir alguma coisa sobre mim...
— E resolver contar para a polícia...
— Sendo meu namorado ou não...
— Eu mato você.
Estranhamente...
A ameaça não me assustou.
Ao contrário.
Fez meu coração bater ainda mais forte.
Saí da Emergência e caminhei até minha motocicleta com um sorriso no rosto.
Embora não tivesse conseguido encontrar o Dr. Bunn, as enfermeiras confirmaram que ele já havia voltado ao trabalho.
Isso, por si só, já bastava para me deixar feliz.
Thad estava sentado na minha motocicleta, esperando por mim.
Vestia uma camisa cinza de mangas curtas e já estava pronto para ir para a escola técnica.
Nos últimos dias, nossa rotina havia se tornado sempre a mesma.
Eu o levava para a escola pela manhã e o buscava no fim da tarde.
Naquele dia, porém, eu pretendia passar primeiro no hospital para entregar ao Dr. Bunn um pacote de Khao Tom Mud preparado pela minha mãe.
Thad, naturalmente, não demonstrou o menor entusiasmo com a ideia.
— Conseguiu encontrá-lo? — perguntou.
Balancei a cabeça.
— A enfermeira disse que ele ainda não tinha chegado. Como não queria que você se atrasasse para a aula, resolvi ir embora.
Subi na motocicleta e coloquei o capacete.
— Vamos.
Thad montou na garupa.
Quando liguei o motor, ele aproximou o rosto do meu ouvido e disse, no tom mais casual do mundo:
— Liguei para o professor Tann. Enquanto estiveram desaparecidos, ele transou com o Dr. Bunn.
Quase engasguei.
— Informação demais!
Na mesma hora, toda a imagem impecável que eu tinha do Dr. Bunn foi por água abaixo.
Sem querer, comecei a imaginar coisas que definitivamente não deveria imaginar.
Antes que minha imaginação fosse longe demais, senti um tapa leve no capacete.
Thad.
Ele provavelmente já sabia exatamente o que estava passando pela minha cabeça.
Dois dias antes, eu havia confessado que admirava o Dr. Bunn e que comecei a investigar os gângsteres porque queria impressioná-lo.
Thad jamais esqueceria aquilo.
— Fique longe dele.
Sua voz soou firme.
— Ele já tem alguém.
Fez uma breve pausa antes de completar:
— Você não precisa mais ficar vindo ao hospital.
— Mas...
Outro tapa no capacete.
— Chega.
Sorri sem graça.
— Tá bom...
Faltavam menos de quinze minutos para o início da cerimônia de hasteamento da bandeira.
Acelerei a motocicleta.
Precisava deixar Thad na escola técnica antes de seguir para o meu colégio.
Enquanto o vento frio da manhã batia em meu rosto, percebi o quanto minha vida havia mudado.
Nunca imaginei que encontraria alguém com quem pudesse compartilhar minhas alegrias, meus medos e minhas tristezas.
Também não me importava com os olhares tortos das pessoas quando descobriam que eu estava namorando outro homem.
Para mim, isso nunca foi importante.
Homem ou mulher...
Nada disso fazia diferença.
O que realmente importava era estar ao lado de alguém que iluminasse meu coração e me fizesse feliz.
Apertei um pouco mais o acelerador.
Agora eu tinha um novo objetivo.
Entrar na Faculdade de Medicina.
Queria cuidar dos pacientes.
Ajudar minha família.
E proteger as pessoas que eu amava.
Sorri sozinho.
Desculpe, Dr. Bunnakit...
Mas vou precisar desistir de você.
Afinal... meu coração acabou sendo roubado por um gângster.
Nota de tradução¹
Teste de Quota: sistema de ingresso em universidades públicas da Tailândia por cotas regionais ou institucionais.
Khao Tom Mud (ข้าวต้มมัด): doce tradicional tailandês feito com arroz glutinoso, banana e leite de coco, embrulhado em folhas de bananeira e cozido no vapor.
Em muitas obras tailandesas, personagens ligados ao submundo utilizam apelidos em vez de seus nomes verdadeiros. Por isso, "Thad" é tratado como um codinome até o final deste capítulo especial.