29 de jun. de 2026

Manner of Death - Capítulo Especial

CAPÍTULO ESPECIAL 

Minha mãe costumava dizer que as ruas ao redor da cidade eram assustadoras à noite, pois ficavam cheias de bandidos que assaltavam quem passava por elas.

Eu nunca havia acreditado nela... até hoje.

Minha aula com o professor Tann terminou às oito e quarenta e cinco da noite. Resolvi pegar o anel viário porque queria comprar algo para minha mãe no supermercado antes de voltar para casa. O ar estava gelado, penetrando até os meus ossos, principalmente quando as rajadas de vento atingiam meu rosto enquanto eu pilotava minha motocicleta. Reduzi a velocidade para amenizar a força do vento e desejei que todos os uniformes escolares do Norte incluíssem calças compridas.

Logo depois, vi a silhueta de um grupo de pessoas paradas na beira da estrada ao lado de suas motocicletas. Olhei pelo espelho retrovisor, preparando-me para virar à direita. Quando tornei a olhar para a pista, um dos homens avançou na minha direção empunhando um grande bastão de madeira.

— Aaah!

Soltei um grito de surpresa e ergui os braços para bloquear o golpe. Depois disso, tudo aconteceu rápido demais para que eu conseguisse entender. Quando percebi, estava caído à beira da estrada, enquanto minha motocicleta jazia a alguns metros de distância. Sentei-me rapidamente, sentindo uma dor intensa percorrer todo o meu corpo. Olhei para os lados em pânico.

— Aham, temos um estudante aqui.

Ouvi alguém dizer atrás de mim. Virei a cabeça e encontrei um homem vestindo camiseta preta e calça jeans. Ele passou por cima de mim, e tentei me levantar, mas parei ao ver outro sujeito se colocar à minha frente: era o mesmo que havia me acertado com o bastão.

— Por que fez essa cara, pirralho?

Fiquei boquiaberto, sentindo meu corpo começar a tremer de medo.

— Eu não fiz nada!

— Aff. Vi você tirando sarro de mim lá atrás.

Os lábios dele se curvaram em um sorriso debochado. Seu rosto me parecia familiar, como se eu o conhecesse de algum lugar.

— O... o que você quer? — perguntei, hesitante, enquanto pensava nos meus pais. Será que eu voltaria para casa com vida?

— Bela moto.

O homem apontou o bastão para minha motocicleta caída.

— Que tal deixarmos ela sob os nossos cuidados?

Encarei-o. A motocicleta era um presente da minha mãe, comprado com o dinheiro suado que ela ganhava vendendo Khao Tom Mud. Por que eu a entregaria a um estranho?

— Não.

Os delinquentes caíram na gargalhada. Olhei ao redor, semicerrando os olhos na tentativa de contar quantos homens estavam escondidos na escuridão. Pelo que consegui perceber, havia três deles.

— Ei, olha só isso. Você tem coragem, não é? Qualquer outro já teria enfiado o rabo entre as pernas e fugido.

— Bem, vou ficar com ela de qualquer jeito.

O homem com o bastão agarrou meu colarinho e me puxou para cima. Em seguida, ergueu a arma improvisada, pronto para me golpear outra vez. Instintivamente, levantei os braços para me proteger e fechei os olhos, esperando a dor.

— Ei, Kang!

Uma voz rouca ecoou pela estrada, fazendo o louco do bastão interromper o golpe no meio do movimento. Abri os olhos com cautela.

— Que porra você está fazendo?!

Kang virou-se para a direção da voz, claramente irritado.

— Foi esse filho da puta que começou!

— Que merda você está falando? Ele não disse uma palavra.

Um homem de porte robusto, vestindo uma camiseta escura, entrou no meu campo de visão. Seu rosto permanecia parcialmente escondido pela escuridão, lembrando uma sombra. Não havia luz suficiente para distinguir suas feições com clareza.

— Deixe ele ir.

Kang resmungou, contrariado, mas soltou meu uniforme com relutância.

Foi então que entendi por que seu rosto parecia tão familiar. Eu já o tinha visto na escola. Imaginei que fosse um aluno de alguma série abaixo da minha.

— Por que está aqui, Thad?

— O Sr. Black quer falar com a gente. Agora! — gritou o novato, com firmeza.

— Tá, eu ouvi.

Kang voltou-se para mim e apontou o bastão para o meu rosto.

— Se contar alguma coisa para a polícia, você vai se arrepender.

Esperei até que os gângsteres montassem em suas motocicletas e fossem embora um a um antes de tentar me levantar.

Por um breve instante, consegui ver melhor o homem que havia acabado de chegar, o líder da gangue. Seu rosto transmitia autoridade, e sua presença era intimidadora. Usava um corte de cabelo social e, para falar a verdade, era mais bonito do que os outros três. Ainda assim, tive a impressão de que era muito mais perigoso do que todos eles juntos.

Mancando, caminhei até minha motocicleta caída à beira da estrada. Para minha sorte, ela não havia sofrido nenhum dano sério.

Mas uma coisa era certa:

Eu nunca mais passaria por aquela estrada à noite.

— Ai, ai, ai! Senhorita, por favor, você está me machucando! — gritei, praticamente me debatendo enquanto a enfermeira da Emergência limpava minhas feridas com um cotonete. Parecia que ele estava embebido em ácido, de tanto que ardia.

— Você deveria ter vindo antes, rapazinho. O acidente aconteceu ontem à noite, não foi? — disse ela. Como se quisesse me dar uma lição, esfregou a ferida com ainda mais força.

— Aaaai! Desculpe! Eu... não sabia que ia doer tanto, então fui dormir.

Senti lágrimas se acumularem no canto dos olhos.

— Olhe só para você. Já nem dá para distinguir o que é sujeira e o que é sangue seco. Que tal limparmos tudo de uma vez?

Pela expressão dela, parecia até que estava se divertindo. Só me restava torcer para que estivesse brincando.

Tentei me distrair observando o movimento da sala. Vi uma médica de baixa estatura conversando com um paciente, uma enfermeira coletando sangue de uma senhora idosa e um homem entrando às pressas na Emergência.

Ergui um pouco a cabeça na maca e vi uma enfermeira correndo atrás dele.

— Dr. Bunn! Dr. Bunn!

Então ele era médico, pensei. Era por isso que parecia tão atraente. Havia algo nele completamente diferente da médica que havia me examinado.

— O quê? Ele veio trabalhar mesmo assim? — comentou a enfermeira que cuidava dos meus ferimentos, claramente surpresa.

Virei-me para ela.

— Ele é médico assistente?

— Não. É médico-legista. Achei que estivesse doente, então não esperava vê-lo por aqui hoje.

Ela começou a cobrir minhas feridas com gaze. Soltei um suspiro de alívio quando aquela tortura finalmente terminou.

— Daqui a pouco você vai conhecê-lo. É ele quem vai emitir o seu atestado médico.

— Vou conhecê-lo? Sério?

Por que eu estava tão animado? Nem eu conseguia entender.

A enfermeira riu.

— Fique quietinho. Vou encaixar você antes do próximo paciente, já que ele ainda vai demorar para chegar.

Nunca imaginei que aquele seria o dia em que conheceria o homem que se tornaria minha maior inspiração.

Eu não era uma pessoa muito confiante, mas sempre sonhei em ajudar quem precisava. Aos meus olhos, ele representava exatamente o tipo de pessoa que eu queria me tornar: alguém de caráter admirável, maduro, prudente, respeitoso e extremamente competente.

Como alguém podia reunir tantas qualidades?

— Qual é o seu nome, doutor? O senhor sabe que é muito bonito?

Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi que jamais deveria tê-las dito.

Mesmo assim, agradeci às estrelas quando o Dr. Bunn respondeu e me disse seu nome.

Fingi sair do cursinho, tentando parecer casual. De vez em quando, olhava discretamente para o líder da gangue, que caminhava em direção à motocicleta estacionada em frente à escola.

Assim que ele ligou o veículo e saiu, corri para a minha moto, saltei no banco, dei a partida e parti logo atrás dele.

Mantive uma distância segura para não levantar suspeitas.

Achei que ele fosse para algum bar frequentado por gângsteres e valentões, mas, em vez disso, seguiu até uma pequena casa no meio da cidade.

Estacionei minha motocicleta na entrada de um beco e me inclinei para observar.

Vi o homem descer da moto, abrir o portão e entrar no terreno. Em seguida, entrou em um pequeno carro vermelho, já bastante velho, que estava estacionado ali.

Esperei até que ele saísse com o carro.

— Aonde você vai...? — murmurei para mim mesmo.

Sem hesitar, subi novamente na motocicleta e comecei a segui-lo.

Felizmente, o carro era de um vermelho chamativo e tão antigo que jamais conseguiria acompanhar a velocidade da minha moto.

Isso me permitiu manter uma boa distância sem perdê-lo de vista.

À medida que avançávamos, os prédios foram ficando cada vez mais escassos.

Eu não fazia ideia de para onde ele estava indo.

Estávamos quase entrando em outro distrito, e o sol da tarde já começava a desaparecer no horizonte.

De repente, o carro vermelho parou à beira da estrada.

Rapidamente entrei com a moto em uma viela e a escondi antes de sair, andando sorrateiramente.

De longe, vi o líder da gangue caminhar até um carro estacionado próximo dali.

Ele ficou encarando uma casa de telhado azul, completamente imóvel, com uma expressão de choque.

Logo em seguida, correu de volta ao próprio carro, entrou e dirigiu até outra viela.

Saí do esconderijo, totalmente confuso com sua atitude.

Então olhei para a mesma casa.

E compreendi imediatamente o motivo daquele olhar.

Quatro homens vestidos de preto bloqueavam o portão.

Conversavam entre si com expressões sérias e ameaçadoras.

Um deles segurava alguma coisa na mão.

No início, não consegui distinguir.

Mas, quando ele se levantou...

Meu sangue gelou.

Era uma arma.

Naquele instante, um dos homens olhou diretamente para mim.

Meu coração quase saltou pela boca.

Desviei o olhar imediatamente e comecei a recuar em direção à minha motocicleta.

Merda...

Eu nunca deveria ter vindo até aqui.

Enquanto procurava o caminho de volta, alguém agarrou meu colarinho por trás e me puxou violentamente para dentro de um arbusto.

Soltei um grito de susto.

Antes que pudesse gritar novamente, uma mão cobriu minha boca.

Então ouvi uma voz baixa e firme:

— Fique quieto... se quiser continuar vivo.

Meu corpo inteiro congelou.

Fechei a boca imediatamente.

Quando virei a cabeça, encontrei o rosto frio e impassível do homem que me puxara.

Era o líder da gangue.

Ele observava atentamente a movimentação do outro lado do arbusto.

— Quem... quem são aquelas pessoas? — perguntei em um sussurro, assim que ele retirou a mão da minha boca.

Ele me lançou um olhar frio.

Sob a luz do entardecer, pude notar melhor seu rosto.

Era bonito.

Sua pele bronzeada denunciava o tempo que passava trabalhando sob o sol.

— Eu é que deveria perguntar. Quem é você... e por que está me seguindo?

Abri a boca para responder.

Mas ele levou um dedo aos próprios lábios, mandando-me ficar em silêncio.

Tentei olhar através das folhas do arbusto.

Não consegui enxergar praticamente nada.

Não fazia ideia de como ele conseguia acompanhar tudo dali.

— Venha comigo.

Sem esperar resposta, segurou meu braço e me puxou.

Atravessamos o jardim de uma casa e corremos até a viela onde seu carro estava escondido atrás de uma árvore.

— Entre.

— Hã?

Mesmo completamente desnorteado, obedeci e sentei no banco do passageiro.

Ele abaixou parcialmente o vidro da janela e voltou a observar a casa de telhado azul.

Em seguida, pegou o celular e fez uma ligação.

— Sr. Black... cheguei, mas os homens de Zom também estão aqui.

Fez uma breve pausa.

— Mal consegui entrar na viela a tempo. Ainda bem que não vim de moto.

Outra pausa.

— Isso está muito pior do que imaginei. Paul vai encontrar sua mãe com certeza. Os homens de Zom estão revistando todas as casas da região. Nesta aqui, há pelo menos quatro bloqueando a entrada.

Ele suspirou profundamente.

— Não faço ideia de como descobriram que ela estava escondida aqui. Não consegui chegar antes. Me desculpe.

Meus olhos se arregalaram.

O líder da gangue estava falando com...

o Sr. Black.

— Por que eu brincaria com uma coisa dessas? Isso é sério. Estou escondido dentro do carro agora. Se acontecer alguma coisa, eu ligo de novo.

Ele encerrou a chamada e virou-se para mim.

Sem qualquer aviso, agarrou meu colarinho e me puxou para perto.

— Eu vi você na escola do professor Tann. Se eu não estivesse com tanta pressa, teria acabado com você naquela estrada. Então me diga... por que estava me seguindo?

Engoli em seco.

Mesmo tremendo, a curiosidade falou mais alto.

— Quem... quem é o Sr. Black?

Ele franziu a testa.

— Aqui quem faz as perguntas sou eu.

Apertou ainda mais meu colarinho.

— Responda. Por que estava me seguindo? Se não falar, vou fazer você se arrepender.

Respirei fundo.

Eu tinha medo.

Muito medo.

Mas havia algo mais forte.

Minha curiosidade.

— Quero saber para quem você trabalha... quem é o Sr. Black... e se ele tem alguma ligação com o desaparecimento do Dr. Bunnakit.

Ele me encarou por alguns segundos.

Depois soltou meu uniforme e me empurrou de volta para o banco.

— Eu devia ter deixado você morrer ali mesmo. Só salvei sua vida porque você ficou correndo igual a uma barata tonta e virou um alvo fácil. Se aqueles homens seguirem você até aqui e descobrirem que estamos juntos, estaremos ferrados.

Olhei para ele nervosamente.

— Por que precisamos nos esconder?

Ele respirou fundo, claramente irritado.

Estava prestes a responder quando dois homens surgiram na entrada da viela.

Um deles segurava uma arma.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

Afundei no banco para tentar desaparecer.

— Merda...

Sem perder um segundo, ele ligou o carro.

Pisou fundo no acelerador.

Como a viela era estreita demais, o para-choque raspou violentamente na mangueira de uma casa.

Agarrei a alça acima da janela e fechei os olhos.

Esperava ouvir disparos.

Esperava ouvir o vidro se estilhaçando.

Mas nada aconteceu.

Quando tornei a abrir os olhos, já estávamos quase alcançando a avenida principal.

As luzes da cidade começavam a se acender.

Foi então que me lembrei.

— Minha moto!

Virei-me desesperado.

— Como vou buscá-la?

— Esqueça.

A resposta veio seca.

— Mas como vou para a escola amanhã?

Ele soltou um palavrão.

— Você causou tudo isso. Se voltar lá agora, morre.

Passou a mão pelos cabelos, claramente frustrado.

— Agora nem consigo terminar meu trabalho. Meu chefe vai me matar.

Olhei para ele.

— Seu chefe é o homem que você encontrou antes? O professor Tann?

Ele fez uma curva tão brusca que quase bati a cabeça na janela.

— Não é ele.

Depois lançou um olhar ameaçador.

— Continue fazendo perguntas... e eu corto sua cabeça fora.

Decidi ficar calado.

Passei o resto da viagem observando-o discretamente.

Na verdade...

Ele era bonito.

O que realmente assustava não era seu rosto.

Era sua postura.

Seu jeito de falar.

Sua presença.

Se sorrisse um pouco...

Provavelmente seria ainda mais bonito.

De repente, nossos olhares se cruzaram.

Desviei imediatamente para a janela.

O que eu estava pensando?

Meu objetivo era descobrir o paradeiro do Dr. Bunn.

— Para onde você está me levando? — perguntei.

— Você sabe coisas demais.

Ele respondeu sem tirar os olhos da estrada.

— Vou levá-lo ao meu chefe. Ele decidirá o que fazer com você.

Meu coração afundou.

Estou ferrado...

Olhei discretamente para a maçaneta da porta.

Será que eu conseguiria pular do carro?

Antes que tomasse qualquer decisão, o celular dele tocou.

— O quê?... Como assim?

Sua voz mudou completamente.

Parecia preocupado.

— Me diga onde você está! Estou indo agora!

Silêncio.

— Não faça isso sozinho!

A ligação caiu.

Ele tentou ligar novamente.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Sem sucesso.

Por fim, arremessou o celular no porta-copos.

— Droga...

Aquilo me surpreendeu.

Era a primeira vez que eu o via realmente abalado.

Resolvi dizer alguma coisa.

— Tente se acalmar...

Ele nem respondeu.

Depois de alguns segundos, perguntou:

— Onde você mora?

— Em Nai Viang...

— Então me mostre o caminho.

Fez uma pausa.

— Ou desça agora e volte a pé.

Fiquei completamente surpreso.

Ele... ia me levar para casa?

Continuei indicando o caminho.

Quando entramos na área central da cidade, mostrei minha casa.

Era uma residência simples, de dois andares.

Na cerca havia uma placa grande anunciando o Khao Tom Mud preparado pela minha mãe.

Quando o carro parou, permaneci imóvel.

Não fazia ideia de como explicaria o desaparecimento da motocicleta.

— O que está esperando?

A voz ríspida dele me trouxe de volta à realidade.

— Desça logo. Está desperdiçando meu tempo.

Saí rapidamente.

Fiquei parado diante do portão, observando o velho carro vermelho desaparecer rua abaixo.

Naquele momento, senti um enorme vazio.

Minha mochila.

Meus livros.

Minha carteira.

Tudo continuava dentro da motocicleta.

Foi então que ouvi a voz da minha mãe.

— Sorrawit! Você voltou!

Fechei os olhos.

Precisava inventar uma desculpa.

Mas nenhuma parecia convincente.

Respirei fundo.

Sorri do jeito mais natural que consegui.

— Voltei, mãe.


Eu sabia que era apenas uma questão de tempo até minha mãe descobrir que Kor nunca havia pegado minha motocicleta emprestada. Por isso, precisava recuperá-la naquele mesmo dia.

Depois que ela me deixou na escola naquela manhã, procurei meu amigo Pea e implorei para que me levasse até o lugar onde eu havia deixado a moto.

— Tudo bem. Se não for muito longe, eu levo você.

Suspirei aliviado.

Após a cerimônia matinal, fui para a minha sala, o terceiro ano, Classe Um, conhecida como a Classe dos Superdotados.

Eu era um dos melhores alunos porque estava decidido a entrar na Faculdade de Medicina. Estudava com afinco em todas as disciplinas para me preparar para o vestibular. Como era alto, meu lugar ficava no fundo da sala.

Depois de me sentar, fiquei olhando pela janela, pensando no Dr. Bunnakit e imaginando se Thad já havia conseguido se reconciliar com o Sr. Black, seu chefe tão importante.

Minha rotina escolar raramente tinha surpresas.

Mas, naquele dia, fui completamente pego de surpresa.

Enquanto caminhava com Pea em direção ao estacionamento, avistei minha motocicleta parada bem em frente ao prédio.

— Ei!

Gritei tão alto que Pea se assustou.

— É a minha moto!

— Então você não precisa mais da minha carona?

Corri até ela.

Conferi a placa.

Depois o adesivo de tigre na lateral.

Era realmente a minha.

— Quem trouxe você para cá...?

Só existia uma pessoa que sabia onde ela estava.

E também a quem ela pertencia.


---

Minha mãe sempre dizia que, quando alguém nos ajuda, devemos retribuir a gentileza.

Passei em casa, peguei alguns Khao Tom Mud feitos por ela e os coloquei em uma sacola.

Depois fui até a casa de Thad.

A pequena residência continuava simples e envelhecida.

A motocicleta dele não estava lá.

Apenas o velho carro vermelho permanecia estacionado, agora com marcas de arranhões no para-choque dianteiro.

Nunca imaginei que o líder de uma gangue pudesse fazer algo tão gentil.

Por trás daquela aparência intimidadora existia alguém muito mais bondoso do que deixava transparecer.

Talvez toda aquela dureza fosse apenas uma fachada.

Resolvi esperá-lo até as seis horas.

Se ele não aparecesse, deixaria a sacola pendurada no portão.

Sentei-me na motocicleta, peguei o celular e comecei a navegar pelas redes sociais.

Foi então que uma manchete chamou minha atenção.

"Tutor famoso é preso por sequestrar um patologista e é suspeito de envolvimento em homicídio."

A fotografia abaixo da notícia mostrava o professor Tann.

Meu coração disparou.

Era difícil acreditar que ele realmente tivesse cometido algo assim.

Então os rumores sobre sua ligação com os gângsteres eram verdadeiros.

E aquele patologista...

Só podia ser o Dr. Bunnakit.

Esperei ansiosamente a página carregar, justamente quando minha internet resolveu ficar lenta.

Quando finalmente consegui ler a notícia, senti um enorme alívio.

O Dr. Bunn estava vivo.

Levantei os braços automaticamente.

— O Dr. Bunn voltou!

— O que você está fazendo aqui?

Uma voz grave me fez congelar.

Virei-me.

Thad estava parado ali, segurando uma sacola de compras.

Gaguejei antes de estender a sacola de doces.

— Eu... vim agradecer por devolver minha motocicleta.

Ele apenas olhou para a sacola.

Depois continuou andando em direção à porta de casa.

Como se eu nem existisse.

Fiquei indignado.

Aproximei-me rapidamente.

Segurei seu braço.

— Por favor... aceite.

Thad puxou o braço com força.

Virou-se.

Levantou a mão.

Instintivamente fechei os olhos e ergui os braços para proteger o rosto.

Vai doer...

Mas o golpe nunca veio.

Em vez disso...

Senti uma mão pousar suavemente sobre minha cabeça.

Abri os olhos lentamente.

Thad me observava com a mesma expressão séria de sempre.

— Obrigado.

Sua voz continuava firme e curta.

Mesmo assim...

Havia uma delicadeza que eu nunca tinha percebido antes.

Ele pegou a sacola da minha mão e entrou em casa.

Fiquei parado por um longo tempo.

Meu peito parecia aquecido.

Cobri a boca com a mão.

Meu rosto queimava.

Como alguém podia ser tão fofo...?

Eu nunca imaginei que alguém pudesse superar o Dr. Bunnakit.

Mas aquele líder de gangue...

Estava conseguindo.


Eu sabia muito pouco sobre Thad.

Era dois anos mais velho que eu.

Estudava Mecânica em uma escola técnica.

Só isso.

Não fazia ideia de como havia entrado para uma gangue.

Nem se realmente trabalhava para o professor Tann.

Mas queria descobrir tudo sobre ele.

Não era apenas porque ele era bonito.

Era porque, por trás daquele jeito intimidador, escondia uma gentileza que parecia completamente incompatível com sua imagem.

No dia seguinte, em vez de visitar o Dr. Bunn no hospital, fui esperá-lo na saída do prédio de Mecânica Industrial da escola técnica.

O ambiente ali era completamente diferente do meu colégio.

Os estudantes pareciam muito mais maduros.

Quando se formassem, já estariam preparados para trabalhar.

Enquanto isso, eu ainda passaria anos na universidade antes de conseguir exercer a profissão que sonhava.

Arrumei o uniforme e fiquei olhando para o interior do prédio.

Desta vez eu não cometeria o mesmo erro.

Precisava pedir o telefone dele.

Ou pelo menos seu contato no LINE.

Na última vez, deixei essa oportunidade escapar.

Enquanto esperava, uma voz feminina chamou minha atenção.

— Ei, garoto... está esperando alguém?

Virei-me, um pouco surpreso.

Era uma jovem usando o uniforme da escola técnica: camisa de mangas compridas, gravata cinza e saia acima dos joelhos.

Ela era muito bonita.

— Um amigo — respondi timidamente.

Ela sorriu.

— Sério? Eu também estou esperando meu namorado. A aula atrasou hoje.

Olhou para o relógio de pulso antes de apontar para um banco de mármore próximo.

— Vamos esperar ali?

— Claro...

Sentei-me ao lado dela.

Ela pegou o celular e passou a mexer na tela em silêncio.

Fiz o mesmo, aproveitando para acompanhar as últimas notícias sobre o professor Tann.

Menos de cinco minutos depois, ouvi vozes animadas saindo do prédio.

Levantei-me imediatamente.

Mas a garota foi mais rápida.

Correu até o rapaz que acabara de sair, abraçou seu braço com força e começou a conversar com um sorriso radiante.

Meu corpo inteiro congelou.

Era Thad.

Por alguns segundos, fiquei incapaz de respirar.

Então... ele tinha namorada.

Cerrei os punhos.

Engoli em seco.

Às vezes eu me esquecia de que pessoas bonitas dificilmente estavam sozinhas.

E alguém como Thad...

Bonito.

Forte.

Confiável.

Naturalmente teria uma garota bonita ao seu lado.

Ela combinava muito mais com ele do que um estudante magrelo como eu.

Enquanto eu permanecia imóvel, Thad ergueu os olhos.

Nossos olhares se encontraram por um breve instante.

Rapidamente abaixei a cabeça.

Depois me virei.

E fui embora.


Naquela noite, tentei estudar.

Mas não consegui.

Primeiro, perdi a concentração por causa do desaparecimento do Dr. Bunn.

Agora...

Descobrir que Thad tinha uma namorada era ainda pior.

Deitei-me na cama e encarei o teto.

Se eu contasse aquilo aos meus amigos, certamente diriam que eu tinha enlouquecido.

Fechei os olhos.

Então uma dúvida voltou à minha mente.

Se ele tinha namorada...

Por que trouxe minha motocicleta de volta?

Por que acariciou minha cabeça daquele jeito?

Cobri o rosto com as mãos.

Eu realmente não entendia.

No fim...

Cheguei a uma conclusão.

Precisava conversar com Thad.

Olhei para o relógio.

Eram oito e quarenta e cinco da noite.

Minha mãe provavelmente estava nos fundos da casa preparando os ingredientes do Khao Tom Mud.

Meu pai devia estar assistindo ao noticiário na sala.

Saí do quarto o mais silenciosamente possível.

Desci as escadas.

Passei atrás do sofá sem chamar a atenção do meu pai.

Abri a porta devagar.

Assim que saí, corri para a motocicleta, liguei o motor e acelerei rumo à casa de Thad.

Quando cheguei...

Tudo estava escuro.

A motocicleta dele não estava lá.

Respirei fundo.

Restava apenas um lugar onde eu poderia encontrá-lo.

A estrada de cintura que contornava a cidade.

A mesma onde eu quase fui espancado.

Prometi a mim mesmo que jamais voltaria ali.

Mas...

Meu coração falou mais alto que o medo.

Segui até o local.

Não havia sinal de Thad.

Nem dos outros membros da gangue.

Soltei um longo suspiro.

Será que eu teria de esperar até amanhã?

Como fui idiota...

Tive tantas oportunidades de pedir o telefone dele.

E nunca pedi.

Nesse instante, meu celular começou a tocar.

Era minha mãe.

Atendi imediatamente.

— Oi, mãe.

— Onde você está, It? — perguntou ela, claramente irritada.

— Saí rapidinho. Já estou voltando.

— Então ande logo. Seu amigo, Thad, está aqui em casa esperando por você.

Fiquei completamente sem reação.

— O... o quê?

— Não ficou surdo, ficou? Venha para casa agora!

Ela desligou antes que eu pudesse responder.

Fiquei olhando para a tela do celular por alguns segundos.

Thad...

Foi até a minha casa?

Sem perder tempo, liguei a motocicleta novamente.

Casa... aí vou eu!

Levei pouco mais de dez minutos para voltar para casa.

Nunca uma viagem pareceu tão longa.

Assim que entrei, encontrei Thad sentado na sala, conversando tranquilamente com meu pai.

Ele interrompeu a conversa e voltou o olhar para mim.

Vestia uma camiseta preta e uma calça esportiva azul-marinho.

Respirei fundo, tentando controlar o nervosismo.

— Olha quem chegou. — Meu pai sorriu. — Seu amigo já estava criando raízes aqui de tanto esperar. Leve-o para o seu quarto.

Assenti em silêncio.

Thad levantou-se naturalmente e caminhou até a escada, como se já soubesse o caminho.

Passei por ele, subi os degraus e o conduzi até meu quarto.

Assim que entramos, fechei a porta e a tranquei.

Virei-me para encará-lo.

— O que você está fazendo aq...

Antes que terminasse a frase, senti um soco atingir minha bochecha.

Cambaleei para trás até cair sentado na cama.

Levei a mão ao rosto, completamente atordoado.

— Por que você está me evitando? — perguntou Thad, com um olhar frio.

Piscando algumas vezes, respondi:

— Quando foi que eu fiz isso?

— Hoje.

Sua resposta foi imediata.

— Depois que me viu, saiu correndo. Não pense que eu não percebi.

Fiquei ainda mais confuso.

— Você veio até aqui por causa disso?

— E por que me bateu?

Thad franziu a testa.

— Não é óbvio?

Silêncio.

Abri a boca algumas vezes, mas nenhuma resposta saía.

Óbvio?

O que havia de óbvio?

Depois de alguns segundos, Thad soltou um longo suspiro.

— Esquece.

Levantei-me lentamente.

Ainda massageando a bochecha dolorida, tomei coragem.

— Eu fui embora... porque vi você com aquela garota.

Ele permaneceu em silêncio.

Continuei:

— Achei que ela fosse sua namorada.

Minha voz saiu mais baixa.

— Então pensei... que não fazia sentido continuar ali.

Thad continuou olhando para mim.

Então perguntou calmamente:

— Você gosta de mim?

Senti meu cérebro parar de funcionar.

Meu coração disparou.

Minha garganta secou.

Depois de alguns segundos, consegui responder:

— Acho... que sim.

Meu rosto queimava de vergonha.

Foi então que aconteceu algo que eu jamais imaginei.

Thad sorriu.

Era um sorriso discreto.

Quase imperceptível.

Mesmo assim...

Foi suficiente para fazer meu coração perder completamente o ritmo.

Ele deu um passo à frente.

Depois outro.

Até parar bem diante de mim.

Instintivamente recuei, encostando as costas na porta.

— Então...

Ele inclinou levemente o rosto.

— Você gosta mesmo de mim?

Fechei os olhos com força.

— Talvez...

Respirei fundo.

— Talvez sim!

Uma risada baixa escapou dos lábios dele.

— Você fica engraçado quando cora.

Em seguida, beliscou de leve minha bochecha.

— Eu me lembro de você desde a noite em que alguns dos meus homens tentaram bater em você.

Abri os olhos.

Ele continuou:

— Disseram que você estava investigando quem era meu chefe.

— Desde então, fiquei de olho em você.

Sorri sem jeito.

Mas o sorriso desapareceu quando ele completou:

— Se você descobrisse alguma coisa importante... nós poderíamos ter matado você.

Engoli em seco.

— Você está falando sério?

Ele assentiu.

— Mas, por algum motivo...

Fez uma breve pausa.

— Mesmo sendo um pirralho intrometido...

— Você é fofo.

Meu rosto ficou ainda mais quente.

Antes que ele pudesse se afastar, envolvi sua cintura com os braços.

Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— E aquela garota?

Perguntei rapidamente.

— Minha prima.

Piscou.

— Ela está namorando um amigo meu.

Fiquei completamente imóvel.

Depois comecei a rir sozinho.

Todo aquele sofrimento...

Por nada.

Olhei novamente para Thad.

— Então...

— Você não tem namorada?

— Não.

Sorri de orelha a orelha.

— Então isso significa...

Respirei fundo.

— Que você pode namorar comigo.

Thad riu.

— Você ao menos sabe meu nome de verdade?

— Sei!

Respondi imediatamente.

— Thad!

Ele balançou a cabeça, divertido.

— Esse é só o apelido.

— Eu ainda não sei seu nome verdadeiro... sua idade... seu aniversário... seu telefone... nem para quem você trabalha.

Sorri.

— Mas posso descobrir tudo isso aos poucos.

Ele voltou a ficar sério.

— E quando descobrir...

Seu olhar tornou-se intenso.

— Vai contar tudo para a polícia?

Balancei a cabeça imediatamente.

— Claro que não!

Sorri sem pensar.

— Se você for preso... eu vou ficar sem namorado.

Por alguns segundos, ele apenas me observou.

Depois segurou meu colarinho.

Afastou-me delicadamente.

E disse:

— Lembre-se do que acabou de falar.

Sua voz voltou a ficar firme.

— Se algum dia você descobrir alguma coisa sobre mim...

— E resolver contar para a polícia...

— Sendo meu namorado ou não...

— Eu mato você.

Estranhamente...

A ameaça não me assustou.

Ao contrário.

Fez meu coração bater ainda mais forte.

Saí da Emergência e caminhei até minha motocicleta com um sorriso no rosto.

Embora não tivesse conseguido encontrar o Dr. Bunn, as enfermeiras confirmaram que ele já havia voltado ao trabalho.

Isso, por si só, já bastava para me deixar feliz.

Thad estava sentado na minha motocicleta, esperando por mim.

Vestia uma camisa cinza de mangas curtas e já estava pronto para ir para a escola técnica.

Nos últimos dias, nossa rotina havia se tornado sempre a mesma.

Eu o levava para a escola pela manhã e o buscava no fim da tarde.

Naquele dia, porém, eu pretendia passar primeiro no hospital para entregar ao Dr. Bunn um pacote de Khao Tom Mud preparado pela minha mãe.

Thad, naturalmente, não demonstrou o menor entusiasmo com a ideia.

— Conseguiu encontrá-lo? — perguntou.

Balancei a cabeça.

— A enfermeira disse que ele ainda não tinha chegado. Como não queria que você se atrasasse para a aula, resolvi ir embora.

Subi na motocicleta e coloquei o capacete.

— Vamos.

Thad montou na garupa.

Quando liguei o motor, ele aproximou o rosto do meu ouvido e disse, no tom mais casual do mundo:

— Liguei para o professor Tann. Enquanto estiveram desaparecidos, ele transou com o Dr. Bunn.

Quase engasguei.

— Informação demais!

Na mesma hora, toda a imagem impecável que eu tinha do Dr. Bunn foi por água abaixo.

Sem querer, comecei a imaginar coisas que definitivamente não deveria imaginar.

Antes que minha imaginação fosse longe demais, senti um tapa leve no capacete.

Thad.

Ele provavelmente já sabia exatamente o que estava passando pela minha cabeça.

Dois dias antes, eu havia confessado que admirava o Dr. Bunn e que comecei a investigar os gângsteres porque queria impressioná-lo.

Thad jamais esqueceria aquilo.

— Fique longe dele.

Sua voz soou firme.

— Ele já tem alguém.

Fez uma breve pausa antes de completar:

— Você não precisa mais ficar vindo ao hospital.

— Mas...

Outro tapa no capacete.

— Chega.

Sorri sem graça.

— Tá bom...

Faltavam menos de quinze minutos para o início da cerimônia de hasteamento da bandeira.

Acelerei a motocicleta.

Precisava deixar Thad na escola técnica antes de seguir para o meu colégio.

Enquanto o vento frio da manhã batia em meu rosto, percebi o quanto minha vida havia mudado.

Nunca imaginei que encontraria alguém com quem pudesse compartilhar minhas alegrias, meus medos e minhas tristezas.

Também não me importava com os olhares tortos das pessoas quando descobriam que eu estava namorando outro homem.

Para mim, isso nunca foi importante.

Homem ou mulher...

Nada disso fazia diferença.

O que realmente importava era estar ao lado de alguém que iluminasse meu coração e me fizesse feliz.

Apertei um pouco mais o acelerador.

Agora eu tinha um novo objetivo.

Entrar na Faculdade de Medicina.

Queria cuidar dos pacientes.

Ajudar minha família.

E proteger as pessoas que eu amava.

Sorri sozinho.

Desculpe, Dr. Bunnakit...

Mas vou precisar desistir de você.

Afinal... meu coração acabou sendo roubado por um gângster.


Nota de tradução¹

Teste de Quota: sistema de ingresso em universidades públicas da Tailândia por cotas regionais ou institucionais.

Khao Tom Mud (ข้าวต้มมัด): doce tradicional tailandês feito com arroz glutinoso, banana e leite de coco, embrulhado em folhas de bananeira e cozido no vapor.

Em muitas obras tailandesas, personagens ligados ao submundo utilizam apelidos em vez de seus nomes verdadeiros. Por isso, "Thad" é tratado como um codinome até o final deste capítulo especial.


After Brushing Face - Capítulo 09

Capítulo 09: Tesouro

Após várias missões juntos, o esquadrão havia aprendido a se coordenar bem. A única frustração de Zhang Zhiyin era não ter tido a chance de praticar sua habilidade de gelo. Os três núcleos de cristal que haviam obtido em missões foram usados para aprimorar a Mutação de Precisão como disfarce. Agora, sua habilidade de Precisão havia atingido o Nível Um, enquanto sua habilidade de gelo permanecia no estágio iniciante. As pequenas bolas de gelo que ele criava só podiam ser derretidas para obter água potável e não tinham poder ofensivo real.

Cerca de dez dias depois, eles receberam outra missão. Os zumbis na área sudoeste da base estavam inquietos, e eles deveriam investigar a causa.

O grupo embarcou no veículo de patrulha do esquadrão e seguiu em direção ao destino. Como o local do incidente ficava relativamente perto da base e era frequentemente evacuado, não havia muitos zumbis vagando por ali. Mas sempre que encontravam alguns, as criaturas estavam anormalmente frenéticas, investindo contra eles como se tivessem sido injetadas com estimulantes, com força e velocidade muito superiores ao normal.

Zhang Zhiyin e Li Shuifeng posicionaram-se respectivamente à esquerda e à direita, responsáveis por verificar anormalidades ao longo do percurso.

Zhang Zhiyin lembrou-se subitamente de que, no jogo, havia completado uma missão secundária muito importante em algum lugar por ali. Quem lhe deu a missão era o responsável pelo distrito oeste da Base Um na época. A descrição da missão dizia que, nos primeiros dias do apocalipse, seu irmão mais velho liderara um esquadrão em uma missão na qual toda a equipe foi dizimada, e seu irmão também morreu. Por anos, ele não conseguiu superar o assunto e esperava que o jogador pudesse investigar o local e procurar pistas daquela época.

Zhang Zhiyin ainda se lembrava de que, no fim, nenhuma pista foi encontrada. A única coisa recuperada foi um colar de metal com uma cabeça de águia bem peculiar. Quando o colar foi devolvido, o oficial ficou extremamente emocionado, dizendo que de fato era o colar pessoal de seu irmão, e recompensou o jogador generosamente.

Pensando nisso, Zhang Zhiyin lançou um olhar casual para a esquerda, apenas para avistar algo refletido no espelho retrovisor —

O capitão, sentado no banco do passageiro da frente, desabotoou casualmente dois botões da gola da camisa, revelando um peitoral musculoso e, pendurado nele, um colar de metal peculiar em forma de cabeça de águia.

Zhang Zhiyin: “...”

Capitão do esquadrão... missão na área sudoeste da base... equipe inteira dizimada... colar com cabeça de águia...

Não pode ser uma coincidência tão grande assim, certo?

“Capitão”, disse Zhang Zhiyin, olhando para o homem, “sinto que algo está errado. Devemos voltar por hoje e retornar mais tarde com equipamentos melhores e mais alguns esquadrões?”

O capitão hesitou por um instante. Depois de sobreviver a inúmeras missões, grandes e pequenas, os instintos de um usuário de habilidade de Nível Três o faziam pressentir vagamente o perigo. Mas ele não conseguia identificar a origem daquela sensação, e voltar de mãos vazias assim seria difícil de explicar.

“Vamos dar uma olhada mais a fundo primeiro.”

Mal as palavras haviam saído de sua boca quando Li Shuifeng disse de repente: "Olhe ali. Pode ser aquilo que estamos procurando."

Eles viram uma planta com cerca de metade da altura de uma pessoa, encimada por um fruto do tamanho de um punho que brilhava com uma fraca luz azul. Todos os zumbis mantiveram-se a pelo menos dez metros de distância da planta, sem ousar aproximar-se dela.

Desde o início do apocalipse, animais, plantas e até mesmo alguns objetos comuns sofreram mutações. Alguns se tornaram altamente agressivos, enquanto outros podiam ser usados por humanos e possuíam efeitos estranhos.

“Vou verificar com a Velha Ma e o Dahu. O resto de vocês fique no veículo. Se sentirem algo errado, recuem imediatamente.”

Assim como no jogo, cada pessoa neste Mundo do Amanhã poderia possuir diversas "habilidades de vida" especiais e aprimorar sua proficiência com o uso constante. A habilidade de vida da Velha Ma era particularmente incomum: Identificação. Em seu nível atual, ela já conseguia determinar os atributos ou efeitos de alguns itens de nível inferior.

De repente, a Velha Ma gritou em choque.

"Isso pode dar aos usuários de habilidades mutantes comuns uma segunda habilidade relacionada à água! Meu Deus!"

A expressão do capitão mudou instantaneamente. Ele pegou uma caixa de armazenamento e colocou cuidadosamente a fruta azul dentro. A coisa era milagrosa demais e importante demais. Caso algo desse errado, ele precisava arriscar e trazê-la de volta à base imediatamente.

No instante em que ele colheu a fruta, os zumbis que antes vagavam por perto sem ousar se aproximar, de repente, avançaram em sua direção de todos os lados.

O sexto sentido do capitão o fez girar instantaneamente, desviando por pouco de uma garra verde e ressecada, afiada como uma lâmina. Em algum momento atrás dele, surgiu um zumbi azul-esverdeado imponente, com quase dois metros de altura.

Após apenas três trocas de golpes, o capitão já sentia suas forças se esvaindo. Cuspiu para o lado e praguejou asperamente: "É um zumbi venenoso. Cuidado com as garras. Droga, ele também pode ter mutação de velocidade."

Huzi e a Velha Ma estavam inicialmente eliminando os zumbis menores ao redor. Ao verem isso, correram imediatamente de volta para ajudar o capitão, que estava em combate com o zumbi venenoso. Os outros dois usuários de habilidades que guardavam o veículo também pularam, tentando abrir uma rota de fuga para os três.

"O nível deles é muito superior ao nosso! Não podemos causar nenhum dano!", gritou Huzi em desespero.

O capitão, um mutante do tipo força, brandiu sua lâmina de aço especialmente fabricada contra o zumbi venenoso, mas a sensação era como golpear uma placa de ferro. No máximo, deixou leves arranhões brancos.

"Corram para o veículo e tentem se livrar dele!", rugiu o capitão.

Mas, no fundo, ele sabia que as chances de sucesso eram mínimas. O zumbi venenoso era muito mais rápido, muito além da sua capacidade de reação.

O esquadrão era composto por apenas sete pessoas. Zhang Zhiyin e Li Shuifeng, ambos usuários da Mutação de Precisão, possuíam apenas a capacidade de combate de pessoas comuns, portanto, só podiam confiar em suas habilidades e permanecer no veículo atirando.

Mas foi inútil. A remoção da fruta azul pareceu ter eliminado algum tipo de restrição na área. Um grande número de zumbis, escondidos sem saber onde, começou a surgir, como se algo ali os estivesse atraindo.

Os dois companheiros de equipe que haviam saído para ajudar foram rapidamente separados pela horda. O capitão e os outros lutaram para chegar ao veículo, mas seus esforços pareciam completamente inúteis.

Armado, Zhang Zhiyin correu para o banco do motorista e dirigiu direto para o capitão. O veículo havia sido especialmente modificado e atropelou vários zumbis de nível baixo pelo caminho.

Após uma batalha feroz, o número de zumbis mais fracos havia diminuído significativamente, mas o preço que pagaram foi enorme.

Os dois companheiros de equipe que haviam saído para ajudar já não estavam em lugar nenhum. Huzi havia perdido um braço para o zumbi venenoso, enquanto a Velha Ma e o capitão também estavam feridos.

Felizmente, eles estavam a apenas três passos da porta do veículo.

“Estamos saindo para apoiá-los. Não conseguimos um bom ângulo de tiro daqui”, disse Zhang Zhiyin apressadamente a Li Shuifeng enquanto saltava com sua arma.

“Pode ir em frente. Eu ficarei de olho no veículo”, respondeu Li Shuifeng calmamente.

Ele manteve a calma o tempo todo. Calmo do começo ao fim.

Zhang Zhiyin usou sua arma para eliminar os zumbis de nível baixo perto da porta do veículo, enquanto atirava no zumbi venenoso sempre que possível. Durante a limpeza, seu braço direito e sua perna direita foram mordidos, mas a dor e os ferimentos ainda eram suportáveis.

Aproveitando a oportunidade, a Velha Ma correu em direção ao veículo. Huzi e o capitão lutaram enquanto recuavam em direção ao carro.

Então, de repente, a Velha Ma parou de se mexer.

Uma mão verde e ressequida, afiada como uma lâmina, retirou-se de trás do seu peito, espalhando sangue vermelho no ar.

O corpo da Velha Ma desabou lentamente, seus olhos ainda fixos na porta aberta do veículo.

Dahu soltou um uivo rouco.

“Capitão, vá! Eu vou segurar esse monstro!”

Naquele instante, Zhang Zhiyin percebeu o que Dahu pretendia fazer.

Dahu era do elemento madeira. Usuários de madeira possuíam uma habilidade de controle que queimava a força vital para criar vinhas da vida capazes de aprisionar inimigos muito mais fortes do que eles. No jogo, "queimar a vida" apenas reduzia os PVs. Mas neste mundo, queimar a força vital poderia realmente significar queimar a própria vida.

Pela primeira vez, Zhang Zhiyin odiou sua própria inutilidade. Odiou sua própria mentalidade fechada. Ele viu seus companheiros de equipe caírem diante dele, e não havia nada que ele pudesse fazer.

Vinhas verdes, cheias de vitalidade, brotaram do peito de Dahu, estendendo-se rapidamente e se enrolando ao redor do zumbi venenoso. O monstro as atacou com suas garras afiadas, mas não conseguiu se libertar imediatamente. Ele se debateu furiosamente, rugindo de raiva.

O capitão não hesitou mais e correu em direção a Zhang Zhiyin.

Nesse meio tempo, outra onda de zumbis menores se aglomerou ao redor da porta do veículo. Zhang Zhiyin não teve escolha a não ser atirar desesperadamente enquanto estendia a mão para ajudar o capitão.

A um passo de distância, o capitão congelou subitamente.

Exatamente como a Velha Ma antes dele.

Uma coloração azul-esbranquiçada e mortal espalhou-se por seu rosto. Seus membros enrijeceram rapidamente. O veneno do zumbi havia feito efeito. Depois de lutar contra ele por tanto tempo, o capitão já estava infectado.

O capitão viu seu próprio estado refletido nos olhos de Zhang Zhiyin. Aos poucos, com grande esforço, retirou a caixa contendo a fruta azul e a entregou a Zhang Zhiyin.

Seus olhos negros estavam cheios de confiança e esperança.

Lentamente e com dificuldade, ele disse palavra por palavra:

“Levem isso de volta para a base... Se o segredo desta fruta puder ser descoberto... se ela puder ser produzida em massa... então todos os usuários de habilidades comuns poderiam ganhar uma segunda habilidade... A humanidade teria uma chance muito maior... de resistir ao apocalipse... e reconstruir a civilização...”

Após dizer isso, o capitão caiu lentamente para trás, como se seu último desejo tivesse sido realizado.

Em certo momento, os cipós já haviam desaparecido. O zumbi venenoso seguiu o rastro e avançou rapidamente em direção ao veículo. Os zumbis menores ao redor também se aproximaram.

Zhang Zhiyin lançou um último olhar para o colar com a cabeça de águia, que se destacava em sua aparência. Sem hesitar, entrou no veículo.

O veículo modificado ficava muito alto em relação ao solo. Sua perna esquerda conseguiu entrar, mas a direita ainda estava pendurada para fora. O movimento repuxou a ferida em sua perna e, de repente, ele não conseguiu reunir forças.

Nesse instante, Li Shuifeng apareceu na porta do veículo.

"Me ajude a subir!" Zhang Zhiyin rapidamente estendeu a mão em sua direção.

Li Shuifeng também estendeu a mão.

Mas, em vez de agarrá-lo, ele arrancou das mãos a pequena caixa que continha a fruta azul, à qual o capitão havia confiado sua vida a Zhang Zhiyin.

Então ele levantou a perna direita, com uma expressão perfeitamente calma, e sem a menor hesitação chutou Zhang Zhiyin para fora do veículo.

Do lado de fora do veículo, uma matilha de zumbis o encarava com desejo.

Mesmo ao cair com força no chão, os olhos de Zhang Zhiyin ainda estavam cheios de incredulidade.


Li Shuifeng foi embora.

Pelo retrovisor, ele observou seu último companheiro de equipe ser cercado por zumbis e desaparecer gradualmente de vista.

Finalmente, lentamente, muito lentamente, ele sorriu.

Ao lado de sua mão esquerda havia uma pequena caixa sem nada de especial.



Return to 1988 - Capítulo 05

Capítulo 5 — A Mamadeira

Naquele dia, o pequeno Bai Luochuan estava usando uma roupa nova. Na cabeça, usava um gorro de lã com um pompom fofo na ponta, que balançava de um lado para o outro sempre que ele virava a cabeça. Sentado sozinho, segurava uma grande tangerina vermelha e ria alegremente. Quando seus olhos se curvavam em um sorriso, pareciam duas luas crescentes, deixando-o ainda mais adorável.

Mi Yang, deitado ao lado, mexeu as mãozinhas e logo foi pego por Cheng Qing, que o colocou perto de Bai Luochuan.

— Yangyang também acordou! Venha brincar com o irmãozinho. O gege veio te visitar de novo. Está feliz?

Mi Yang piscou algumas vezes e estendeu os bracinhos para que o pegassem no colo.

Em vez disso, colocaram uma tangerina em suas mãos.

A senhora Bai sorriu.

— Demos uma igualzinha à do irmãozinho. Gostou?

Mi Yang abaixou a cabeça e olhou para a fruta.

O aroma cítrico invadiu seu nariz.

Tudo bem... isso também serve.

Ele ainda não conseguia comer tangerina, mas segurá-la e sentir seu perfume já era suficiente. A casca era fria ao toque, e o cheiro fresco fez com que lembrasse do sabor doce e levemente ácido dos gomos.

Sem perceber, estalou os lábios.

A senhora Bai observava os dois bebês, mas seu olhar permanecia mais tempo em Mi Yang.

— Os olhos do Yangyang parecem duas uvas pretas. Os cílios também são compridos. No começo achei que fosse uma menina. Não é à toa que dizem que os filhos puxam a mãe. Ele é tão bonito quanto você.

Cheng Qing corou discretamente.

— Imagina... O Luochuan é que é bonito. Tem a pele tão branca, igual à irmã Luo.

Mi Yang também virou a cabeça para olhar o pequeno mestre Bai.

Era verdade.

Desde pequeno, Bai Luochuan era absurdamente branco.

Não importava quanto sol tomasse; no máximo ficava um pouco avermelhado.

Mi Yang lembrou-se de um acampamento que fizeram anos depois.

Naquele dia, Bai Luochuan reclamava do calor nas montanhas e insistiu em levá-lo para nadar no rio. Quando tirou a camiseta, sua pele parecia praticamente brilhar sob o sol.

Além da pele clara, tinha músculos definidos, firmes e elegantes.

Na época, Mi Yang havia sentido uma inveja enorme.

Talvez percebendo que estava sendo observado, o pequeno Bai Luochuan virou a cabeça para ele.

Mas perdeu o equilíbrio.

Seu corpinho tombou para frente, quase caindo sobre Mi Yang.

Mi Yang reagiu por puro instinto.

Jogou a cabeça para trás com todas as forças.

Pela experiência de ontem... esse pequeno mestre Bai vai morder minha bochecha de novo!

Sua previsão estava correta.

Infelizmente, prever não significava conseguir escapar.

No instante seguinte, Bai Luochuan caiu na gargalhada enquanto mordiscava uma das bochechas de Mi Yang, deixando uma bela marca de saliva.

Mi Yang começou a espernear.

Agitou braços e pernas desesperadamente.

— Aaah... aaah!

Tentava chamar os adultos.

Mas as duas mães apenas observavam a cena sorrindo.

Cheng Qing ria tanto que seus olhos se transformaram em meias-luas.

A senhora Bai chegou até a pedir que o soldado voltasse para buscar uma câmera fotográfica.

Mi Yang desistiu completamente.

Ficou deitado com uma expressão de quem havia perdido toda a esperança da vida, permitindo que Bai Luochuan continuasse babando em sua bochecha.

Depois de brincar bastante, o pequeno Bai finalmente mudou de interesse.

Empurrou a tangerina de um lado para o outro e ainda chamou Mi Yang:

— Ah!

Mi Yang:

"..."

Virou imediatamente para Cheng Qing e estendeu os braços.

Quero lavar o rosto primeiro! Está todo coberto da saliva desse garoto!

Felizmente, Cheng Qing já conhecia alguns de seus hábitos.

Pegou um lenço e limpou cuidadosamente seu rostinho.

Depois que voltou a ser um bebê limpinho e cheirosinho, colocou os dois novamente lado a lado.

Dessa vez, Mi Yang colaborou.

Assim que foi colocado perto de Bai Luochuan, empurrou sua própria tangerina para ele brincar também.

Era melhor garantir a própria segurança.

Vendo os dois brincarem tão felizes, Cheng Qing sorriu.

— Eu estava preocupada porque Yangyang nunca tinha brincado com outras crianças. Achei que levaria muito tempo para eles se entrosarem. Mas olha só... em poucos minutos já estão tão amigos.

A senhora Bai também parecia satisfeita.

Ela acompanharia o marido durante alguns meses naquela base militar.

Para os adultos, enfrentar dificuldades não era problema.

Mas criar um filho praticamente sozinha era outra história.

Encontrar um companheirinho para Luochuan era muito melhor do que ela havia imaginado.

Ao olhar para Mi Yang, seus olhos se encheram de carinho.

Ao meio-dia, a senhora Bai precisou resolver alguns assuntos.

Já estava prestes a levar o filho embora quando Cheng Qing a convenceu:

— Irmã Luo, somos praticamente as únicas esposas de militares aqui. Mesmo se levar o Luochuan para casa, quem vai cuidar dele será o Xiao Zhao. Se você confiar em mim, deixe-o aqui. O Xiao Zhao pode ficar para ajudar. Já cuido do Yangyang mesmo, cuidar de mais um bebê não faz diferença.

Xiao Zhao era o soldado responsável pela segurança de Bai Jingrong.

Embora ajudasse bastante, ainda era um homem.

A senhora Bai realmente não ficava totalmente tranquila deixando um bebê sob seus cuidados.

Ao ouvir a proposta de Cheng Qing, sorriu.

— Não vou atrapalhar você?

— Que nada! Só preciso preparar o almoço do pai do Yangyang. Não dá trabalho nenhum.

A senhora Bai sorriu.

— Então vou deixar o Luochuan sob seus cuidados.

Ela deixou Xiao Zhao para ajudar e prometeu voltar durante a tarde.

Cheng Qing estendeu uma pequena manta no chão, cercou os dois bebês com almofadas para evitar que rolassem para fora e sentou-se ao lado tricotando um suéter.

Seu semblante era tranquilo.

De vez em quando ainda fazia alguma gracinha para divertir os pequenos.

Quem parecia nervoso era Xiao Zhao.

Consultando o relógio, perguntou:

— Cunhada, já não está na hora deles comerem um pouco de purê de frutas?

Mi Yang também começava a sentir fome.

Ergueu a cabeça e olhou para a mãe com olhos suplicantes.

Cheng Qing assentiu.

— Está bem. Vou preparar.

Xiao Zhao abriu a bolsa que carregava.

— Eu trouxe. Sempre saio com alguns lanchinhos para o pequeno mestre. Hoje é maçã.

— Ótimo. Então cuide deles enquanto preparo a mamadeira do Yangyang.

— Pode deixar.

Logo em seguida, Xiao Zhao tirou um babador amarelo-claro e amarrou no pescoço de Bai Luochuan.

O pequeno mestre parecia saber exatamente o que aquilo significava.

Sentou-se direitinho.

Colocou as mãozinhas rechonchudas sobre a barriga.

Seus grandes olhos brilhantes acompanharam cada movimento do soldado.

Quando viu surgir sua lancheira com desenhos animados, seus olhos iluminaram-se ainda mais.

Estendeu as mãozinhas.

Depois bateu na própria barriga.

— Ya!

Dentro da lancheira havia uma maçã e uma colherzinha.

Depois de cortar a fruta ao meio, Xiao Zhao ofereceu um pouco também para Mi Yang.

Mas Cheng Qing recusou sorrindo, erguendo a mamadeira.

— Não precisa. O Yangyang ainda não pode comer muito. Ele vai tomar leite.

Assim, Xiao Zhao começou a alimentar Bai Luochuan com purê de maçã.

A cada colherada, o pequeno mestre abria a boca obedientemente.

Comia tão feliz que seus olhos chegavam a se fechar de satisfação.

Depois de algumas colheradas, ainda pegou um pedaço de maçã e começou a mordiscá-lo com enorme entusiasmo.

Do outro lado, Mi Yang também aguardava ansiosamente seu lanche.

Ele normalmente tomava leite em pó.

Depois que Cheng Qing preparou a mamadeira e conferiu a temperatura nas costas da mão, começou a alimentá-lo.

Após alguns goles, Mi Yang já não estava tão faminto.

Passou a beber distraidamente enquanto olhava pela janela.

A neve da noite anterior havia parado.

Lá fora, tudo estava coberto de branco.

O único verde visível vinha de alguns pinheiros vergados pelo peso da neve.

Só de olhar já dava sensação de frio.

Os bebês costumavam adormecer enquanto comiam.

Mi Yang não era exceção.

Enquanto sugava a mamadeira, fechou os olhos.

Pouco tempo depois, já estava dormindo.

Em certo momento, Cheng Qing o ergueu para oferecer mais leite.

Mesmo adormecido, Mi Yang abraçou automaticamente a mamadeira com um dos bracinhos e continuou bebendo com vontade.

Só parou depois de soltar um sonoro arroto.

Bai Luochuan assistiu à cena.

Então estendeu a mão para a mamadeira.

— Ah?

Mi Yang ficou furioso.

Que mania irritante!

Na vida passada era exatamente assim.

Tudo de que Mi Yang gostava, Bai Luochuan queria tomar.

Na escola, qualquer coisa para a qual ele olhasse duas vezes era roubada por Bai Luochuan.

Até a garota mais bonita da escola, que havia escrito uma carta de amor para Mi Yang, acabou sendo "roubada".

E agora...

Até a mamadeira?!

Mi Yang cuspiu o bico da mamadeira, ergueu as sobrancelhas e fez:

— Pfft!

Um jato de leite acertou Bai Luochuan.

Quem mandou querer roubar?

Mas o pequeno mestre Bai era extremamente persistente.

Com um verdadeiro espírito de bandido, arrancou a mamadeira das mãos de Mi Yang e colocou-a diretamente na própria boca.

Glub.

Glub.

Tomou duas grandes goladas.

Quando finalmente conseguiram recuperar a mamadeira, boa parte do leite já havia desaparecido.

Mi Yang olhou para o bico.

Bom...

Não era de admirar que o leite tivesse saído tão rápido.

O bico da mamadeira estava rasgado.

Cheng Qing arregalou os olhos.

— Nossa! O Luochuan já está com dentinhos!

Mi Yang, que ainda se escondia nos braços da mãe protegendo sua mamadeira, virou imediatamente a cabeça.

Bai Luochuan ria alegremente.

Na boca apareciam dois minúsculos dentinhos brancos, do tamanho de grãos de arroz.

Mi Yang sentiu outra pontada de inveja.

Apesar da diferença de idade entre eles ser de apenas dois meses, parecia que Bai Luochuan se desenvolvia muito mais rápido.

Ele lembrava que, no futuro, Bai Luochuan passaria facilmente de um metro e oitenta.

Já ele...

Ficara apenas com um metro e setenta e seis.

No norte do país, essa altura nem era considerada alta.

Mas ainda havia esperança.

Se comesse bastante, bebesse leite e tomasse muita sopa de ossos...

Talvez ainda conseguisse crescer mais uns dois centímetros.

Não precisava chegar a um metro e oitenta.

Um metro e setenta e oito já seria suficiente.

Enquanto pensava nisso, Bai Luochuan voltou a estender a mão para sua mamadeira.

Desta vez, nem pensar.

Mi Yang levou rapidamente o bico à boca e começou a beber em grandes goles.

Cheng Qing deu uma leve batidinha em sua testa.

— Seu pão-duro! Deixar o irmão beber um pouquinho faria o quê?

Ao lado, Bai Luochuan esperava pacientemente.

Parecia acreditar que, quando Mi Yang terminasse, ainda sobraria um pouco para ele.

Segurava um pedaço de maçã enquanto mordiscava distraidamente, mas seus grandes olhos não desgrudavam da mamadeira.

Mi Yang virou o rosto para o outro lado enquanto bebia.

Nem sonhando.

Vendo os dois, Cheng Qing caiu na risada.

Acabou preparando outra mamadeira para Bai Luochuan.

Os dois bebês ficaram lado a lado, cada um segurando sua própria mamadeira e bebendo avidamente, como se estivessem competindo.

Xiao Zhao comentou, divertido:

— Criar duas crianças juntas parece até mais fácil.

Depois de comer, o sono voltou rapidamente.

Bai Luochuan resistia um pouco mais que Mi Yang, mas continuava sendo apenas um bebê.

Depois de beber quase uma mamadeira inteira, começou a esfregar os olhos.

Cheng Qing trouxe um cobertor novo, macio e leve, feito com algodão recém-colocado.

Acomodou cuidadosamente os dois bebês para a soneca da tarde.

Mi Yang bocejou.

Esfregou o rostinho com a mãozinha.

E logo adormeceu.

Ao lado dele, Bai Luochuan tinha um jeito bem menos comportado de dormir.

Virou-se sozinho de bruços, esfregou a bochecha branquinha no cobertor macio, como se estivesse reconhecendo aquele cheiro familiar, piscou algumas vezes...

E, por fim, também caiu no sono.

That Guy Is This Guy - Capítulo 03

Capítulo 03

O lugar mencionado por Kim Daeseok era um pequeno farol localizado na Ilha Feroco, num canto remoto do Segundo Continente. Como eu já havia marcado aquele ponto durante a missão principal, usei o teleporte e fui para lá imediatamente.

[Global] DrinkWater: Olá.
[Global] SoEso: Convite pro grupo, vamo, vamo.

A personagem ao lado de Kim Daeseok acenou para mim.

Era uma personagem feminina vestindo uma armadura branca reluzente, com um enorme escudo preso às costas. Acima do apelido havia um ícone de coroa e o nome da guilda: Crepúsculo.

A entrevista começou de maneira descontraída, exatamente como eu esperava.

A vice-líder da guilda perguntou minha idade, se eu já havia servido o exército, se poderia participar do Discord e do grupo de mensagens. Por fim, chegou ao assunto da minha classe.

[Grupo] DrinkWater: Então você já fez a primeira evolução de classe? Mago Rúnico?
[Grupo] SoSleepy: Sim.
[Grupo] DrinkWater: Espera... você pretende seguir o caminho de Mago das Trevas??

Nesse ponto, eu já sabia exatamente onde ela queria chegar.

Mesmo assim, não havia motivo para mentir.

[Grupo] SoSleepy: Sim. Vou virar Mago das Trevas.
[Grupo] DrinkWater: Hmm...

Assim que respondi honestamente, o clima esfriou na mesma hora.

Era exatamente o que eu esperava.

Também entendia o motivo.

Como a classe havia acabado de ser lançada, ela provavelmente imaginou que eu fosse apenas um personagem secundário criado por curiosidade ou algum novato que perderia o interesse em poucos dias.

Talvez por isso Kim Daeseok finalmente tenha resolvido intervir.

[Grupo] SoEso: Noona Water.
[Grupo] SoEso: Ele não é do tipo que larga o jogo depois de alguns dias, sério T_T
[Grupo] SoEso: Você confia em mim, né?

Nossa...

Que frase patética.

Ainda assim, ele era o único do meu lado, então permaneci calado.

[Grupo] SoEso: Esse cara é completamente obcecado pelo jogo.
[Grupo] SoEso: Levou só uns dez dias pra chegar no nível 200.

[Grupo] DrinkWater: Sério?
[Grupo] DrinkWater: Isso não é nada fácil pra um novato.
[Grupo] SoEso: Pois é!! O cara manda muito kkkkk

A vice-líder pareceu interessada.

Ótimo.

Continue assim.

[Grupo] DrinkWater: Então sua mecânica deve ser boa.
[Grupo] DrinkWater: Mesmo assim, Mago das Trevas não é uma classe fácil...
[Grupo] SoEso: A mecânica dele é excelente.
[Grupo] SoEso: Aliás, ele era Grão-Mestre em Heroes of Legion.
[Grupo] SoEso: E não foi uma vez só. Pegava GM toda temporada.

[Grupo] DrinkWater: Grão-Mestre? Você jogava HoL?
[Grupo] SoSleepy: Parei faz alguns meses.

O clima gelado desapareceu completamente.

A vice-líder parecia sinceramente impressionada.

Não como mulher interessada em um homem.

Mas como uma jogadora admirando outro jogador habilidoso.

[Grupo] DrinkWater: Certo, gostei.
[Grupo] DrinkWater: Depois que entrar, faremos um período de teste de duas semanas.
[Grupo] DrinkWater: Vou mandar o convite da guilda. Só escreve que terminou a entrevista comigo e confirma.

Assim que a mensagem apareceu, um convite da guilda surgiu no centro da tela.

Escrevi que havia concluído a entrevista e enviei a solicitação.

Menos de um minuto depois, o nome da guilda apareceu acima do meu personagem.

Nada mal.

Abri imediatamente a janela da guilda.

Os nomes do líder, da vice-líder e dos demais membros estavam organizados em uma lista.

> Yoo Chae [Ausente]
DrinkWater [Online]
Let'sDoSeSeSe [Online]
Hwaseoun [Online]
TheHunter [Online]
ParkSeungjin99 [Online]
(...)



[Grupo] DrinkWater: Como pode ver, normalmente temos cerca de setenta membros online.
[Grupo] DrinkWater: O mais novo tem dezoito anos, mas a maioria já é adulta.
[Grupo] DrinkWater: Até o fim do dia te adiciono no Discord e no grupo.

Depois de explicar tudo rapidamente, ela avisou sobre minha chegada no chat da guilda.

[Guilda] DrinkWater: Entrou um membro novo! Recebam o SoSleepy~
[Guilda] ParkSeungjin99: Opaaa!
[Guilda] Hwaseoun: Oi oi~ prazer!
[Guilda] LaggingLikeCrazy: Olá!!
[Guilda] Let'sDoSeSeSe: Então não é alt? Bem-vindo~
[Guilda] Haereun: Achei que fosse alt também kkk. Ah, é verdade, estávamos recrutando. Seja bem-vindo!
[Guilda] SoSleepy: Sim. Prazer em conhecer todos vocês.

Fiquei olhando para a enxurrada de mensagens.

Era... caótico.

Fazia tanto tempo que eu não entrava numa guilda realmente ativa que provavelmente precisaria de um tempo para me acostumar.

[Grupo] DrinkWater: Tenho vinte e sete anos.
[Grupo] DrinkWater: Pode me chamar só de Drink, sem cerimônia~

Enquanto eu observava distraído a conversa da guilda, a vice-líder tentou quebrar o gelo.

Respondi naturalmente.

[Grupo] SoSleepy: Como você é três anos mais velha, vou continuar usando tratamento respeitoso e chamar você de noona kkk.
[Grupo] SoSleepy: Mas pode falar comigo de maneira informal.

[Grupo] DrinkWater: KKKK. Certo, prefiro assim mesmo.

Não conversávamos havia muito tempo, mas deu para perceber imediatamente que ela era uma boa pessoa.

Era um ótimo começo.

A guilda parecia ter um ambiente agradável.

Enquanto levava a mão aos lábios, percebendo que havia acabado de sorrir sem notar, um apelido estranhamente familiar apareceu no chat da guilda.

[Guilda] Yoo Chae: Drink, você está online?
[Guilda] DrinkWater: Por quê?

Era o líder da guilda.

Pouco antes ele aparecia como ausente.

Eu deveria cumprimentá-lo?

Já tinha me apresentado.

Cumprimentá-lo outra vez não seria exagero?

[Guilda] Haereun: Deve estar com sede, chamando a Drink kkkkk.
[Guilda] ParkSeungjin99: Eu também tenho água kkk.
[Guilda] YangnyeomCrabChomp: Por favor, não. 😐
[Guilda] Yoo Chae: Você ainda está com aquela Semente de Atero guardada no mascote?

Ignorando completamente as piadas idiotas, o líder foi direto ao assunto.

Drink invocou o mascote, procurou entre os itens armazenados e respondeu.

[Guilda] DrinkWater: Ainda tenho.
[Guilda] DrinkWater: Se precisar, vem agora para o Farol de Feroco.

[Guilda] Yoo Chae: Ok.

[Guilda] ParkSeungjin99: Drink, posso ir também? Acabei de terminar a última fase da raid.

[Guilda] Let'sDoSeSeSe: Eu também! Quero ir!

[Guilda] CrazyForHunting: Raid do Dragão de Fogo precisando de dois. Canal 8 até xx:20. Bora!

[Guilda] Haereun: A Drink está com o novato, né? Então eu também vou.

[Guilda] DrinkWater: Ah, isso mesmo. O novato acabou de entrar.

[Global] Yoo Chae: Novato?

A resposta apareceu no chat global.

Ele devia ter usado teleporte.

Quando percebi, um personagem masculino estava parado logo atrás de mim.

Cabelos negros.

Olhos vermelhos.

Um manto preto cobrindo apenas o braço esquerdo.

Na cintura, uma corrente dourada brilhava intensamente.

Pelo brilho...

Aquilo devia ser um equipamento +9.

"Dizem que um item +9 praticamente não tem preço."

Ele realmente parecia um líder da melhor guilda do servidor.

Talvez equipamentos desse nível fossem simplesmente o esperado.

[Global] DrinkWater: Ei, você não leu o chat da guilda?
[Global] DrinkWater: O SoSleepy é membro novo. Homem, vinte e quatro anos~

[Global] Yoo Chae: ?

Não consegui entender se aquilo era um sinal para eu me apresentar.

Meus dedos pairaram sobre o teclado, indecisos.

Então...

Depois de enviar apenas aquele ponto de interrogação...

O líder disse algo que eu jamais esperaria.

[Global] Yoo Chae: Não gostei do seu apelido.
[Global] Yoo Chae: Não quero você na guilda. kkk

"...?"

Pisquei algumas vezes.

Será que tinha lido errado?

Que diabos esse cara acabou de dizer?

[Global] DrinkWater: Que porra é essa? O que deu em você?

Felizmente, Drink disse exatamente o que eu estava pensando.

Enquanto eu permanecia completamente atônito, Kim Daeseok me mandou uma mensagem privada.

[Sussurro] SoEso: Que diabos foi isso?
[Sussurro] SoEso: Você já conhecia o líder da guilda?
[Sussurro] SoSleepy: Eu conheceria?

Independentemente do choque de nós três, o líder continuou repetindo a mesma coisa, como se não se importasse com mais nada.

[Global] Yoo Chae: Eu disse que esse apelido é horrível.
[Global] DrinkWater: E o que você quer que eu faça? Tá maluco?
[Global] Yoo Chae: Expulsa ele.
[Global] Yoo Chae: E quem disse que você podia aceitar novos membros?

[Global] DrinkWater: Você mesmo falou ontem pra eu fazer o que quisesse. Você enlouqueceu de vez?

Mesmo sendo apenas personagens dentro de um jogo, eu conseguia sentir DrinkWater me olhando sem jeito, sem saber como agir.

Aquilo era ridículo.

Inclinei a cabeça para trás enquanto sentia aquela conhecida irritação subir pela nuca.

[Global] Let'sDoSeSeSe: Chegueeei~~
[Global] Haereun: A fofíssima Haereun acabou de chegar ><
[Global] ParkSeungjin99: ?
[Global] ParkSeungjin99: Que bagunça é essa logo quando entro?

Como se não bastasse, os membros que haviam dito que passariam por ali começaram a aparecer um após o outro.

Foi então que o líder lançou a última bomba.

Diretamente para mim.

[Global] Yoo Chae: Se quiser continuar na guilda, mude seu apelido.
[Global] Yoo Chae: Caso contrário, cai fora.
[Global] Yoo Chae: Eu mesmo pago o item de mudança de nome. kkk

[Global] Haereun: ??
[Global] ParkSeungjin99: O quê? Que porra é essa?
[Global] DrinkWater: Minha pressão tá subindo...

— Hahaha...

Alguma coisa estalou dentro da minha cabeça.

Com a mão trêmula, peguei o mouse, abri as configurações e, calmamente, desativei o filtro de palavrões, que eu mantinha ligado apenas por preguiça.

Então digitei lentamente no chat.

[Global] SoSleepy: Vai tomar no cu, seu filho da puta.