29 de jun. de 2026

Sotus - Capítulo 19

Capítulo 19

Regra nº 19 para os calouros: "A engrenagem tem um significado importante."¹

— Então, o que você acha, Kongpob?

— Kongpob?

— Está me ouvindo?

Kongpob voltou a prestar atenção na conversa dos amigos. Eles estavam reunidos em um dos bangalôs à beira-mar, discutindo a apresentação que fariam naquela noite.

Fragmentos da conversa chegavam aos seus ouvidos de forma desconexa. Seus amigos o incluíam nos planos, e ele apenas assentia, sem realmente entender do que estavam falando. Em determinado momento, alguém lhe fez uma pergunta. Sem perceber qual era, Kongpob notou que todos voltaram os olhos para ele, aguardando sua resposta.

— Sim, eu ouvi. — Ele sorriu, tentando afastar os próprios pensamentos. — Concordo.

Assim que recebeu sua confirmação, May tratou de avisar o restante do grupo, completamente alheia ao fato de que Kongpob não fazia ideia do que acabara de aprovar.

Sua mente estava ocupada demais para pensar em qualquer outra coisa.

Tudo o que havia acontecido naquele dia deixara marcas profundas, não apenas no coração dos calouros, mas também no daquela pessoa...

A pessoa em quem ele não conseguia parar de pensar.

Arthit estava bravo com ele.

Não do jeito habitual.

Sendo sincero consigo mesmo, Arthit parecia viver irritado com ele. Mas, daquela vez, era diferente.

E Kongpob sabia muito bem o motivo.

Quanto mais pensava no que havia acontecido durante o dia, mais vontade tinha de bater em si mesmo. Agira por impulso, sem medir as consequências. Tudo o que queria era aliviar o calor sufocante das próprias emoções mergulhando na água fria.

Só que sua imprudência acabara fazendo muita gente se preocupar.

Principalmente a mesma pessoa que lhe dera a ordem de entrar no mar.

A mesma pessoa que correu primeiro para socorrê-lo, acreditando que ele estivesse em perigo.

Kongpob ainda conseguia recordar perfeitamente o rosto severo de Arthit, sua voz carregada de ansiedade e aqueles olhos assustados, tão próximos do seu.

Naquele instante, Kongpob teve certeza de que Arthit realmente se preocupava com ele.

Mas, quando Arthit percebeu que tudo não passara de uma enorme imprudência causada pela estupidez de Kongpob, foi como se tivesse levado um soco no rosto.

Toda a preocupação que demonstrara foi reduzida a motivo de chacota.

E essa preocupação transformou-se em pura raiva.

Kongpob queria se desculpar.

Queria muito.

O problema era que não sabia o que dizer.

Não havia desculpa capaz de justificar o que fizera.

Mesmo assim, saiu andando pelo resort na esperança de encontrar Arthit. Talvez, se conseguisse falar com ele a sós...

Mas Arthit não estava em lugar algum.

Depois de quase uma hora caminhando sem rumo, acabou sendo arrastado pelos amigos de volta ao grupo.

Sem alternativa, desistiu de procurá-lo e seguiu os demais calouros até o refeitório, carregando um peso sufocante no peito.

Sua cabeça estava um caos.

Os pensamentos rodopiavam sem parar, atormentando-o.

Kongpob soltou um longo suspiro, expirando com força, como se pudesse expulsar toda aquela angústia junto com o ar.

Naquela noite haveria uma apresentação preparada pelos calouros.

Depois de todas as atividades organizadas pelos veteranos, era natural que Arthit estivesse presente, já que era o líder do trote.

Kongpob tinha certeza de que aquela seria a última prova imposta aos calouros.

E estava decidido a dar o melhor de si.

Queria provar ao líder do trote que era digno de ser chamado de estudante da Faculdade de Engenharia.

E, acima de tudo...

Esperava que, ao ver seu esforço, Arthit aceitasse ouvi-lo.


---

Depois do jantar, todos os calouros receberam a instrução de se reunir no auditório principal.

Todos os anos era realizada ali uma cerimônia que reunia estudantes do primeiro ao quarto ano.

O evento começou com um discurso de um representante do quarto ano, Dear.

Em seguida, alguns alunos tocaram músicas acompanhadas de violão, arrancando aplausos calorosos dos calouros.

As meninas eram, de longe, as que gritavam mais alto.

Depois de algumas canções populares, o grupo de animação do segundo ano subiu ao palco para apresentar uma esquete cômica, cheia de piadas e atuações exageradas.

Eles haviam adiantado sua apresentação porque os alunos do terceiro ano ainda não estavam prontos.

Assim, quando terminaram...

Era a vez dos veteranos responsáveis pelo trote.

Só que eles continuavam se preparando.

Sem outra alternativa, decidiram adiantar a apresentação dos calouros.

Kongpob entrou no palco para interpretar seu papel.

Felizmente, não era nada difícil.

A peça havia sido escrita por May e retratava o primeiro dia de um estudante na universidade: conhecer novos amigos, reencontrar antigos colegas, participar da primeira reunião e aprender alguns dos conselhos transmitidos pelos veteranos.

Kongpob sequer era o protagonista.

Na verdade, tinha apenas três falas.

Sua participação também era curta.

Depois da primeira entrada em cena, afastou-se para um canto enquanto aguardava o momento de voltar ao palco.

Foi então que aproveitou para olhar ao redor.

Entre os veteranos do terceiro ano que assistiam à apresentação...

Ele finalmente encontrou o rosto que procurara o dia inteiro.

Arthit.

Alguns calouros estavam levando materiais para a apresentação dos veteranos, e Kongpob aproveitou para ajudá-los.

Sentiu um enorme alívio ao ver Arthit ali.

Apenas vê-lo já parecia aliviar um pouco o peso em seu coração.

"Não vou perder esta chance."

Era sua oportunidade de pedir desculpas.

Tomando coragem, caminhou em direção ao líder do trote.

Mas, de repente...

Um arrepio percorreu sua espinha.

Seus passos congelaram no mesmo instante em que ouviu um calouro dizer, no palco:

— Está vendo esta engrenagem? Este símbolo representa o orgulho de um estudante de Engenharia. Então me diga... se eu não entregar a minha para você... o que pretende fazer?

— Eu vou tomá-la de você!

Kongpob virou a cabeça imediatamente.

Seu rosto perdeu toda a cor.

Aquela cena...

Era a reconstituição exata da primeira discussão que ele tivera com Arthit.

Até mesmo a frase provocativa que dissera naquele dia, desrespeitando completamente um veterano, estava sendo reproduzida.

Sem entender o que estava acontecendo, correu até May, que organizava a apresentação nos bastidores.

— May! Por que vocês colocaram essa cena na peça?

Ela piscou, surpresa.

— Esqueceu? Eu perguntei se havia algum problema em incluir essa parte. Você disse que estava tudo bem.

Kongpob ficou sem fala.

Então se lembrou.

Devia ter sido justamente naquele momento em que sua cabeça estava longe dali.

Respondera automaticamente...

Sem saber com o que estava concordando.

E o pior...

Arthit estava assistindo a tudo.

A apresentação continuou.

E o desespero de Kongpob só aumentava.

A peça continuou.

— E como pretende tirar a minha engrenagem?

— Vou fazer de você minha esposa. Dizem que entre amantes tudo é compartilhado. Se você for meu, sua engrenagem também será minha!

O auditório explodiu em gargalhadas e aplausos.

Aquela frase já havia se tornado famosa entre os calouros.

Mas, para a pessoa que realmente a dissera...

Não havia absolutamente nada de engraçado.

Kongpob sentia o rosto arder de vergonha.

Só então percebeu o quanto, desde o primeiro encontro, havia se esforçado para provocar Arthit.

Se tivesse falado daquela maneira com qualquer outro veterano, provavelmente teria levado uma surra.

Além disso...

Ele nem sequer se lembrava de que suas palavras haviam soado tão insinuantes.

Mesmo depois de tudo aquilo, Arthit nunca procurou humilhá-lo diante dos outros.

Era verdade que o líder do trote lhe aplicara castigos severos, mas Kongpob agora entendia que aquilo jamais fora por simples vingança.

Por trás de cada punição havia um motivo.

Tudo o que Arthit fazia tinha uma razão.

E foi justamente isso que fez Kongpob desejar conhecê-lo melhor.

Queria saber tudo sobre ele.

Mais do que qualquer outra pessoa.

Sempre que descobria que existiam lados de Arthit que desconhecia...

Sentia uma estranha pontada no peito.

E, quando via Arthit sorrindo ou sendo gentil com outras pessoas, uma sensação difícil de explicar tomava conta dele.

Era...

Ciúme.

Ciúme de pessoas que podiam conversar normalmente com Arthit.

Porque, entre os dois, nunca existira uma conversa de verdade.

Kongpob queria recomeçar.

Mas...

Ainda haveria tempo?

Será que Arthit conseguiria esquecer toda a impressão ruim que ele havia causado?

Ele esperava que sim.

Precisava pedir desculpas.

Precisava que Arthit aceitasse seu arrependimento.

E, quem sabe...

Um dia...

Os dois pudessem se tornar próximos.

Mas esse pequeno desejo desapareceu no instante seguinte.

Ao mesmo tempo em que olhava para o palco...

Viu Arthit avançar furioso em direção a ele.

Sem hesitar, o líder do trote subiu ao palco e interrompeu a apresentação.

Sua voz ecoou pelo auditório exatamente como fazia durante as reuniões dos calouros.

— O que há de tão engraçado, calouros? Porque eu não estou achando graça nenhuma!

O silêncio foi imediato.

— Vocês são muito corajosos para apresentar uma peça dessas. Acham mesmo que merecem receber as engrenagens depois disso?

Seu olhar percorreu os estudantes que ainda estavam no palco.

Era frio.

Cortante.

— Vocês... saiam daí. Agora!

Os calouros desceram às pressas.

Todo o auditório mergulhou num silêncio sufocante.

May, autora da peça, estava completamente pálida.

Na verdade, o final da apresentação mostraria os alunos rebeldes compreendendo os verdadeiros motivos por trás das punições dos veteranos e agradecendo por terem sido orientados.

Mas Arthit interrompera tudo antes desse momento.

O objetivo da peça acabara sendo completamente mal interpretado.

Então ele gritou novamente.

— Todos... fechem os olhos! Cabeças abaixadas! Agora!

Nenhum calouro ousou desobedecer.

Todos abaixaram a cabeça até quase encostarem a testa no chão.

Nesse instante...

As luzes do auditório se apagaram.

A escuridão tomou conta do ambiente.

O medo voltou imediatamente.

Será que perderiam o direito de receber as engrenagens?

Ou seriam submetidos a mais uma prova cruel como a batalha pela bandeira?

Ninguém sabia.

O silêncio parecia interminável.

Cada segundo aumentava a tensão.

Então...

Uma contagem regressiva começou a ecoar pelos alto-falantes.

Logo depois...

O projetor foi ligado.

Na tela apareceu um vídeo.

As primeiras imagens mostravam os alunos do terceiro ano enfrentando exatamente os mesmos treinamentos físicos pelos quais os calouros haviam passado.

Depois surgiram os estudantes do segundo ano.

O grupo de animação ensaiando os hinos da universidade.

O grupo de primeiros socorros correndo de um lado para o outro para atender os estudantes durante as atividades físicas.

Por fim...

Apareceram os próprios calouros.

As imagens da conquista da bandeira.

O momento em que receberam as pulseiras brancas amarradas pelos veteranos como votos de boa sorte.

Cada cena despertava lembranças.

Momentos de esforço.

Companheirismo.

Sacrifício.

União.

O vídeo durou apenas cerca de dez minutos.

Mas foi suficiente para emocionar todos os presentes.

Quando terminou...

A tela ficou preta por alguns segundos.

Então surgiu outra imagem.

Os integrantes do grupo responsável pelo trote estavam sentados em um banco de pedra diante do prédio principal da Faculdade de Engenharia.

No centro deles...

Estava Arthit.

Sua expressão parecia estranhamente perdida.

Como se não soubesse muito bem o que fazer.

Ele olhou para a câmera.

— Ei... já está gravando?

Alguém respondeu atrás da câmera:

— Está! Fala logo!

— Hã? Por que eu?

— Porque você é o líder!

Todos riram.

Arthit fez uma careta.

Pigarreou discretamente.

E começou a falar.

Sua voz voltou a ser firme.

A mesma voz do líder do trote.

— Calouros... vocês provavelmente sabem que todas as provas pelas quais passaram durante esses últimos três meses foram preparadas por nós, alunos do terceiro ano.

Ele fez uma pequena pausa.

— Durante todo esse tempo acompanhamos o crescimento de cada um de vocês.

— O verdadeiro objetivo do trote... sempre foi ensinar o significado da união.

— E acreditamos que vocês conseguiram aprender isso.

Se, em algum momento...

Nós machucamos vocês...

Ou ferimos seus sentimentos...

Gostaríamos de pedir desculpas.

O auditório permaneceu completamente em silêncio.

Então Arthit ergueu os olhos e encarou diretamente a câmera.

Era como se estivesse olhando nos olhos de cada calouro.

— Assim como vocês sempre precisaram pedir nossa permissão para fazer muitas coisas...

Agora...

Somos nós que queremos pedir a de vocês.

Respirou fundo.

E perguntou:

— Calouros... vocês nos permitem ser seus veteranos?

Aquelas palavras fizeram o auditório inteiro mergulhar no mais absoluto silêncio.

Naquele instante...

Todos compreenderam.

Ser veterano nunca significou mandar.

Nunca significou possuir autoridade apenas por ter entrado antes.

A verdadeira relação entre veteranos e calouros era construída pela aceitação mútua.

Pelo respeito.

Pela confiança.

Pela união.

A voz de Arthit voltou a soar pelos alto-falantes.

— Se a resposta for "sim"... estaremos esperando por vocês na praia.

A tela se apagou.

Sem precisar dizer uma única palavra...

Todos os calouros se levantaram ao mesmo tempo.

E correram em direção à praia.

Assim que chegaram à praia, os calouros pararam, completamente maravilhados.

Diante deles havia um caminho iluminado por centenas de pequenas velas protegidas por copos de vidro. A luz tremeluzente refletia na areia e criava uma atmosfera quase mágica.

Os estudantes dos quatro anos da Faculdade de Engenharia estavam alinhados dos dois lados daquele caminho, aguardando silenciosamente a chegada da nova geração.

À frente de todos...

Havia apenas uma pessoa.

Arthit.

Ele permaneceu parado, com a postura firme, mas sem a rigidez que costumava demonstrar durante o trote. Seu olhar percorreu cada um dos calouros antes de falar em voz alta:

— Calouros! No fim deste caminho estão as engrenagens! Agora chegou a hora de eu cumprir meu último dever como líder do trote... conduzir vocês até elas!

Ao terminar, Arthit caminhou até a areia e sentou-se ao lado dos demais veteranos responsáveis pelo trote e dos integrantes da equipe de animação.

Então todos fizeram o mesmo movimento.

Sentaram-se frente a frente e entrelaçaram os braços, segurando os cotovelos uns dos outros, formando uma ponte humana.

Era o chamado "ponte viva".

Por ela, cada calouro atravessaria simbolicamente o caminho até se tornar um verdadeiro estudante da Faculdade de Engenharia.

Enquanto isso, o hino da faculdade começou a ecoar pela praia.

A cerimônia ganhou uma solenidade que emocionou todos os presentes.

Cada calouro era acompanhado por dois veteranos ao atravessar a ponte.

Embora ela tivesse apenas alguns metros de comprimento, cada passo parecia carregar um peso enorme.

Todos sabiam que estavam apoiando o próprio corpo sobre os braços unidos de seus veteranos.

Especialmente sobre o primeiro deles.

Aquele que recebia o maior impacto de cada pessoa que passava.

Mesmo assim...

Ninguém reclamava.

Todos compreendiam o significado daquele gesto.

Quando chegou sua vez, Kongpob parou diante da ponte.

Seu olhar encontrou Arthit.

Em voz tão baixa que quase foi engolida pelo vento do mar, murmurou:

— Me desculpe... P'Arthit.

Arthit ergueu os olhos por um breve instante.

Ao reconhecer Kongpob...

Desviou imediatamente o olhar.

Como se ele não existisse.

As palavras de desculpa desapareceram junto com a brisa.

Kongpob compreendeu.

Naquele momento não era a hora.

Mesmo assim, atravessou a ponte em silêncio.

Guiado pelos veteranos, caminhou até o final do caminho iluminado, onde outra pessoa o aguardava.

Era Dear.

O antigo líder do trote.

Em suas mãos estavam as engrenagens da nova turma.

Cada uma delas trazia gravado o símbolo da Faculdade de Engenharia e o número da geração correspondente.

Assim que Kongpob se aproximou, Dear levantou uma delas.

— Calouro. Qual é o seu nome?

— Kongpob.

Dear sorriu.

— Ouvi dizer que foi você quem sugeriu agradecer ao Arthit no dia da disputa pela bandeira. É verdade?

Kongpob ficou surpreso com a pergunta.

Ainda assim, respondeu honestamente:

— Sim.

— Foi uma excelente ideia.

Dear deu um leve tapinha em seu ombro.

— Me diga... você gostaria de ser o próximo líder do trote?

Kongpob arregalou os olhos.

— Eu?

— Sim.

Você ainda tem tempo para pensar.

Só precisará decidir quando estiver terminando o segundo ano.

Mas, por enquanto...

Vamos considerar essa vaga reservada para você.

O que acha?

A proposta pegou Kongpob completamente desprevenido.

Ele sequer entendia por que Dear o havia escolhido.

Antes que pudesse fazer qualquer pergunta...

Dear colocou delicadamente a engrenagem em sua mão.

— Tome.

Este é o símbolo da Faculdade de Engenharia.

A engrenagem possui muitos significados.

Cuide bem dela.

Kongpob ouviu atentamente enquanto Dear lhe explicava o verdadeiro valor daquele símbolo.

Era mais do que um simples acessório.

Era um ensinamento passado de geração em geração.

Depois de agradecer respeitosamente, Kongpob deu lugar ao próximo calouro.

Quando todos receberam suas engrenagens...

Veteranos e calouros cantaram juntos os hinos da Faculdade de Engenharia e da universidade.

Com aquilo...

A cerimônia do trote finalmente chegou ao fim.

Logo depois começou a comemoração.

Os alunos do terceiro ano haviam preparado uma festa para dar boas-vindas oficialmente à nova geração.

Havia karaokê.

Comida.

E, claro...

Cerveja.

Os amigos de Kongpob tentaram arrastá-lo para beber com eles.

Mas ele recusou.

Ainda havia uma coisa que precisava fazer.

Precisava conversar com Arthit.

Precisava resolver tudo entre eles.

Só que...

Arthit havia desaparecido.

Durante toda a cerimônia, seus olhares se cruzaram algumas vezes.

Entretanto, assim que tudo terminou, Arthit sumiu em meio à multidão.

Kongpob procurou por toda parte.

Na mesa dos veteranos.

Na praia.

Entre os grupos espalhados pela festa.

Nada.

Começou até a lamentar não possuir o número de telefone de Arthit.

Talvez pudesse pedir o contato a alguém...

Foi justamente quando pensava nisso que avistou uma silhueta caminhando sozinha em direção aos bangalôs.

Era Arthit.

Kongpob correu atrás dele.

Então percebeu algo.

O braço esquerdo de Arthit estava enfaixado.

Era justamente o braço que ficara na ponta da ponte viva, sustentando o peso de todos os calouros.

Seu coração apertou.

Claro...

Ele havia se machucado.

Mesmo suportando tudo sem demonstrar dor durante a cerimônia, agora Arthit massageava discretamente o braço.

Sem pensar duas vezes, Kongpob acelerou os passos.

— P'Arthit! Preciso falar com você!

Arthit parou no meio da escada.

Não respondeu.

Nem sequer se virou.

Apenas permaneceu imóvel.

Esperando que Kongpob dissesse o que queria.

Kongpob respirou fundo.

E falou aquilo que guardava desde cedo.

— Quero pedir desculpas.

As palavras saíram diretamente do coração.

Kongpob realmente queria que Arthit entendesse o quanto estava arrependido.

Sem perceber, seus olhos se encheram de expectativa.

Arthit, porém, manteve a mesma expressão fria de sempre.

— Pedir desculpas? Pelo quê?

— Por todas as vezes em que fiz você ficar bravo.

Arthit lançou-lhe um olhar breve antes de perguntar:

— Se você sabia que isso me irritava... por que continuou fazendo?

A pergunta era simples.

Mas atingiu Kongpob em cheio.

Ele permaneceu calado.

Nem ele próprio sabia responder.

Por que sempre fazia questão de provocar Arthit?

Por que gostava tanto de vê-lo irritado?

E, se era assim...

Por que agora desejava desesperadamente ser perdoado?

— Eu... — começou, sem conseguir completar a frase.

Arthit soltou um longo suspiro.

Parecia realmente cansado.

— Esquece isso.

Estou cansado de ficar brigando com você.

Depois de dizer aquilo, virou-se e caminhou de volta para a festa dos veteranos.

Kongpob permaneceu parado na areia.

Sentia como se algo muito importante tivesse escapado de suas mãos.

Era justo.

Durante três meses só fizera provocar Arthit.

Era natural que ele não quisesse mais perder tempo com alguém como ele.

A pessoa que, sem perceber, havia ocupado um espaço enorme em sua vida...

Agora o rejeitava.

Em apenas três meses, Kongpob havia passado a guardar cada lembrança envolvendo Arthit.

Cada discussão.

Cada encontro.

Cada pequeno momento.

Arthit havia se tornado sua motivação.

A razão de muitos de seus sorrisos.

Alguém que surgira inesperadamente em sua vida e que ele desejava conhecer melhor do que qualquer outra pessoa.

Nunca sentira aquilo por ninguém.

E agora...

Tudo parecia ter chegado ao fim.

Com o encerramento do trote, talvez nunca mais tivesse uma oportunidade de conversar com Arthit.

Kongpob abaixou a cabeça.

Guardou aquele sentimento no fundo do peito.

Estava prestes a voltar para a praia quando sentiu algo gelado tocar seu pescoço.

Assustado, virou-se imediatamente.

Diante dele...

Estava Arthit.

Na mão, uma lata de cerveja bem gelada.

— Quer?

Ainda atordoado, Kongpob aceitou a lata.

Arthit sentou-se tranquilamente na areia, abriu a própria cerveja e deu um gole.

Sem conseguir esconder a surpresa, Kongpob perguntou:

— Achei que você não quisesse mais falar comigo.

Arthit deu outro gole antes de responder.

— Eu nunca disse isso.

O que eu disse foi que não queria mais brigar com você.

Se quer conversar...

Então sente aí.

Ou mudou de ideia?

— Não!

Quero conversar!

Kongpob respondeu depressa, sentando-se ao lado dele.

Por um instante, ficou apenas observando o mar.

A brisa era agradável.

O céu estava completamente estrelado.

O clima transmitia uma estranha sensação de paz.

Depois de alguns segundos de silêncio, Kongpob finalmente fez a pergunta que desejava havia muito tempo.

— P'Arthit...

Por que você decidiu se tornar o líder do trote?

A resposta veio sem qualquer hesitação.

— Porque me obrigaram.

Kongpob quase engasgou com a cerveja.

Arthit continuou naturalmente:

— P'Tum era o líder quando eu era calouro.

Foi ele quem me escolheu para substituí-lo.

Na verdade...

Eu nunca quis esse cargo.

Ser líder do trote significa carregar muitas responsabilidades.

E eu sempre tive um temperamento difícil.

No primeiro dia das reuniões, quando agarrei você pela gola da camisa...

Quase perdi minha posição.

Kongpob arregalou os olhos.

Arthit continuou:

— Eu deveria apenas ter chamado sua atenção.

Nunca poderia ter encostado em você.

Meus amigos assumiram parte da culpa por não terem me impedido.

Como manda a tradição...

Quando um membro erra, todos dividem a responsabilidade.

Por isso, P'Dear resolveu deixar passar.

Como era minha primeira falha...

Recebemos apenas vinte voltas de punição no estádio.

Kongpob nunca soubera disso.

Naquele instante compreendeu que tudo acontecera por sua causa.

Baixou a cabeça.

— Me desculpe...

Arthit deu de ombros.

— Já passou.

Além disso...

Você também recebeu punição por causa da sua insolência.

Depois disso, ficou olhando para o mar em silêncio.

Kongpob aproveitou para mudar de assunto.

— Você lembra da aposta da competição Lua e Estrela?

Arthit assentiu.

— Lembro.

Já decidiu o que vai pedir?

— Sim.

Você está livre no próximo sábado?

— Estou.

— Quero sair para comprar algumas coisas.

Você pode ir comigo?

Arthit piscou, surpreso.

Durante dois meses imaginara que Kongpob pediria algo absurdo para humilhá-lo.

Mas...

Era só isso.

— Tudo bem.

Um enorme sorriso surgiu no rosto de Kongpob.

— Então me passa seu número.

Eu também vou te dar o meu.

Enquanto Kongpob pegava o celular, Arthit olhou para sua mão esquerda.

Franziu a testa.

— Quando pretende tirar isso?

— Tirar o quê?

Arthit apontou.

A pulseira branca ainda estava presa ao pulso de Kongpob.

— O que ela tem?

Eu gosto dela.

Kongpob sorriu suavemente.

Seus olhos brilhavam de um jeito estranho.

Arthit não conseguiu sustentar aquele olhar.

Sentiu o rosto esquentar.

E desviou os olhos.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa...

Uma voz ecoou atrás deles.

— Arthit! Onde diabos você se meteu? Volta logo! Todo mundo está esperando!

Arthit levantou-se imediatamente.

— Já estou indo!

— Espere, P'Arthit!

Kongpob também ficou de pé.

— Tenho uma coisa para você.

— O quê?

— Me dá sua mão.

Arthit fez uma expressão claramente contrariada.

Mesmo assim...

Estendeu a palma.

Kongpob colocou a mão no bolso.

Retirou um pequeno objeto.

E o depositou cuidadosamente na mão de Arthit.

Arthit olhou.

Era a engrenagem que Kongpob acabara de receber.

— Está devolvendo isso para mim?!

A voz saiu mais alta do que pretendia.

Por um instante, acreditou que Kongpob estivesse zombando dele outra vez.

Mas Kongpob balançou a cabeça.

— Não.

Não estou devolvendo.

Só quero que você cuide dela para mim.

Arthit ficou completamente confuso.

— Eu?

Por quê?

Kongpob pareceu ainda mais surpreso.

— Você...

Não sabe o verdadeiro significado da engrenagem?

Achei que soubesse.

Se quiser entender...

Pergunte ao P'Dear.

Arthit ficou sem reação.

Logo naquele momento seus amigos voltaram a chamá-lo.

Sem tempo para insistir, apenas guardou a engrenagem no bolso e foi embora, ainda confuso.

Mais tarde, já sentado com os veteranos, decidiu perguntar diretamente a Dear:

— P'Dear...

Qual é o verdadeiro significado da engrenagem?

Dear deu uma risada.

— Que pergunta estranha.

Já ficou bêbado tão rápido assim, Arthit?

Depois respondeu:

— A engrenagem representa a união da Faculdade de Engenharia.

É o símbolo do nosso orgulho.

Por isso não é fácil conquistá-la.

Arthit fez uma careta.

Aquilo ele já sabia.

Achava que Kongpob apenas brincara com ele outra vez.

Então Dear completou:

— Mas existe outra coisa...

A engrenagem representa o nosso coração.

O coração funciona como uma engrenagem.

Por isso...

Quando você entrega sua engrenagem para outra pessoa...

É o mesmo que entregar o seu coração.

Arthit quase cuspiu toda a cerveja.

Engasgou violentamente.

Dear bateu em suas costas.

— Devagar!

Você ficou completamente vermelho.

Está bêbado mesmo.

Arthit não respondeu.

Apenas limpou os lábios.

Levou lentamente a mão até o bolso.

Sentiu a pequena engrenagem que Kongpob lhe entregara.

Seu coração começou a bater de forma estranhamente acelerada.

"...Então era esse o verdadeiro significado..."

A engrenagem que Kongpob havia colocado em suas mãos...

Era o coração de Kongpob.


Notas de tradução

¹ Engrenagem: nas Faculdades de Engenharia da Tailândia, a engrenagem é o principal símbolo do curso. Recebê-la representa o reconhecimento oficial do estudante como membro da faculdade. Além disso, existe um significado simbólico mais íntimo: entregar sua engrenagem a alguém pode representar confiar-lhe o próprio coração, o que explica a reação de Arthit ao descobrir seu verdadeiro significado.

Ma Please - Capítulo 03

Capítulo 03

— Se desobedecer o p’, sabe o que vai acontecer — foi a frase que o P’Prood disse com voz firme antes de sair dirigindo.

Fui deixado na frente do 7-Eleven onde trabalho, mas como já tinha passado duas horas do meu horário, e meu corpo não estava em condições de aguentar o trampo, liguei a contragosto para a gerente pedindo folga. Ela reclamou um pouco, mas quando disse que estava doente não insistiu mais. Só mandou tomar remédio e descansar.

Cada passo que eu dava doía pra caralho. Ainda bem que faltei. Senão teria que responder por que estava andando todo estranho. Andei mancando até o alojamento, aguentando uma dor insuportável. Essa primeira vez em que eu fiquei por cima enquanto o desgraçado do P’Prood só ficou sentado de boa curtindo o momento... e o dele não é pequeno. Cada estocada me deixava sem ar!

Hã? O quê? Fui forçado e não reclamei? Ah... isso é verdade. No começo eu não queria, mas o desgraçado do P’Prood é bom demais, me fez ceder. A dor virou prazer sem eu nem perceber quando. Além disso, sou homem. Chorar não ia fazer aquele desgraçado se responsabilizar. Vou considerar como caridade. E se não fosse pelo vídeo sacana que ele gravou, eu até perdoaria.

Porque... fazer sexo pela primeira vez com um cara do nível ‘Ma Prood’, alguém como eu até que teve sorte, né. Hehe.

Tomei dois comprimidos de paracetamol, tomei banho e fui direto pra cama. Estava com o corpo todo dolorido. Fechei os olhos e o rosto bonito de alguém ficou girando na minha cabeça...

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Faltei quatro dias de aula porque estava com febre. Hoje ainda não estou 100%, mas tenho apresentação de mini projeto com o professor à tarde, então precisei arrastar esse corpo até a faculdade.

— Seu desgraçado, Plueeeeem!!! — Gritaram meu nome por trás. Quando virei, vi o Khun Tik vindo com o pessoal do Prem. Eles vieram e cada um me deu um tapa na cabeça, antes de me encarar sem piscar.

— Por que tão me olhando?

— Você ainda pergunta! Onde você se meteu, hein?! Fui no seu alojamento e você não estava, no trabalho também não. Achei que tinha morrido, seu merda! — Khun Tik berrou, fazendo os colegas do meu departamento que estavam na mesa de pedra perto olharem curiosos, sem entender por que um aluno de outra faculdade estava gritando na frente do prédio da Engenharia da Computação.

— Eu estava dormindo no alojamento. Estava meio doente.

— No alojamento?! A gente bateu na porta até a mão quase quebrar, nenhum cachorro abriu! — Khun Prem retrucou.

Abrir pra vocês atrapalharem meu sono, é? -_-_ Quando estou doente não gosto que ninguém me encha.

— Seu desgraçado, perdi tempo indo te procurar até no prédio da Medicina. — Khun Fren reclamou, antes de abrir o MacBook Air para checar o trabalho que íamos apresentar à tarde.

Falando em prédio da Medicina - _ também fico triste de não poder mais ir lá. Se eu aparecer, viro protagonista de GV na certa. Mas se fosse só por mim, não ligaria. Não sou de viver pela opinião ou julgamento dos outros. O que eu temo... é só manchar a reputação da minha família. Como o Khun Tik vive me chamando de mendigo de sobrenome grande. Ele deve estar se perguntando de que lado da família real, dos ricos, dos donos de empresas gigantes eu sou. Mas eu só digo que meu pai deve ser um parente distante daquele povo.

Sendo que na verdade minha mãe tem o título de M.R.V., é pediatra no hospital da filial principal onde meu pai manda e desmanda como administrador. Meu pai é cirurgião, enquanto minha irmã está no último ano de Medicina na mesma universidade que eu. Mas os externos quase nunca ficam no campus, por isso eu nunca me preocupei em aparecer no prédio da Medicina. Mas agora preciso pensar duas vezes antes de chegar perto daquele prédio.

— Pluem, sua cara tá pálida. Ainda não melhorou não, cara? — Khun Kim perguntou, preocupado. Assenti e continuei olhando os slides da minha apresentação.

— Quer comer alguma coisa? Vou comprar pra você.

— Então compra um chá de crisântemo pra mim, Khun Kim.

“E vocês, querem alguma coisa?”

Todo mundo foi pedindo até o Khun Kim reclamar que não ia lembrar de tudo. Khun Fren pegou um papel para anotar os pedidos. Li os slides mais um pouco, ajustei as partes que não precisavam ser apresentadas, antes de ficar ouvindo o Khun Prem reclamar do P’Prood, que ultimamente anda estranho.

— Meu irmão tá de saco cheio, não sei o que deu nele. Fica de mau humor o dia todo, vive descontando em mim. Eu já falei pro meu pai pra não deixar ele fazer Medicina. Olha aí, tá ficando doido cada dia mais. — Khun Prem falava enquanto apontava com a cabeça para o P’Prood, que acabava de descer do carro luxuoso, marca diferente a cada dia.

Aquele desgraçado do P’Prood é rico pra caralho. O pai dele é nível magnata, a mãe é filha de um grande banqueiro. A aura de playboy gruda nele. Mas essa aura não apareceu nem um pouco no Khun Prem.

— E nesses três, quatro dias ele vive vindo na nossa faculdade. Fico me perguntando se as meninas daqui são tão top assim pra ele vir todo dia. Daqui a pouco ele vem me encher o saco de novo -_- Sacoo.

Nem terminou de falar e as pernas longas do P’Prood já trouxeram aquele corpo cheio de músculos pra cá. Cabelo raspado estilo skinhead somado ao rosto bonito meio emburrado fez as meninas que passavam nem terem coragem de cumprimentar. Os caras do Prem fizeram o wai e se entreolharam, apreensivos. Quanto a mim, continuei tentando entender os slides na parte que eu tinha que explicar.

— Vou sentar aqui com vocês.

Abri espaço um pouco antes do P’Prood sentar do meu lado. — Prem, compra comida pra mim.

“Ué! Você veio até aqui só pra me mandar comprar comida pra você?! Que palhaçada é essa?”

“Problema?”

Khun Prem fez bico. — Tá, tá bom. O que o p’ quer comer?

“Traz qualquer coisa aí. Algo que seja gostoso pro meu paladar.”

“Como se você comesse fácil igual gente normal, né. Merda, vive mandando em mim. Fren, vem comigo.”

“Ei! Então eu vou também. Vou ajudar o Kim a carregar as coisas.”

E aí Khun Tik, Khun Prem e Khun Fren saíram todos. Fiquei focado nos slides, quase querendo entrar dentro do meu notebook velho porque o P’Prood não parava de me encarar, como se quisesse achar a senha da loteria no meu rosto. Digitei um conteúdo novo para não me perder na hora de explicar. Fale com linguagem minha, mas formal. A máquina estava lenta porque a RAM é do tamanho de uma unha, condizente com o preço que também não foi alto. Mas esse note eu troquei pelo meu iPhone, tá! Não subestima ele não!

“Não atende o telefone, desliga na minha cara. Quer que o país inteiro te veja gemendo, é?” Fiz ouvido de mercador, igual nos primeiros dois dias em que fingi não ouvir o celular. Aquele desgraçado do P’Prood ligou mais de trezentas vezes. Sério. Ligou pra quê, não sei. Ligou até a bateria do iPhone acabar, e eu nem pensei em carregar. Deixei desligado mesmo. Irritante.

“Não tive tempo de atender.”

“Diz que não sabe! Como quer que eu te chame?”

“Não estou bem, não deu pra atender. O P’Prood quer alguma coisa?”

O que mais você quer de mim? Queria perguntar de verdade. Não ir no seu prédio, eu já não vou. Ainda vem na minha cara pra quê? Tá de sacanagem, seu desgraçado?!

“Não tá bem como?”

Fiquei quieto, lendo os slides. Mas o P’Prood fechou meu notebook na cara dura. Aqueles olhos bonitos me encararam firmes até eu quase quebrar a pose.

“Melhorou?”

“....”

“Pluem! Tô perguntando, por que não responde!”

“Melhorei! O que o P’Prood quer tanto comigo?!”

P’Prood me olhou fixo, talvez porque eu tenha levantado a voz. Mas isso é pouco perto do que ele fez comigo. Eu nem reclamei de nada. Ainda fica enchendo meu saco. Se não levasse um chute na cara já podia agradecer por ter feito muita caridade!

“Hoje à noite vai comigo.”

“Não vou.”

“Pluem acha que pode me recusar?”

Suspirei, já de saco cheio da ameaça que não me afeta em nada. “Tenho que trabalhar, p’.”

“Que horas acaba o trabalho? Vou te buscar.”

“Três da manhã. Mas tenho que entrar no outro trampo depois.”

“Então três da manhã te espero na frente do 7-Eleven de sempre. Vou te buscar.”

“Tá.”

P’Prood sorriu satisfeito, a mão longa acariciou minha mão de leve. — E o celular que te dei, trouxe?

“Deixei carregando no quarto.”

“Hmm... da próxima vez que eu ligar e você não atender, você sabe o que vou fazer.”

“Tá.”

“Sabe que não pode ser teimoso comigo, né.”

“Sei. Já posso voltar pro meu trabalho?”

“Hmm.”

Abri o notebook e voltei pros slides, enquanto o P’Prood ficava só me olhando. Irritante, mas não quis falar nada. O trabalho que tenho que apresentar é mais importante porque essa nota é bruta, não divide. Se eu errar, perco trinta pontos na lata.

Demorou um pouco até o pessoal do Prem voltar. P’Prood ficou conversando com eles de bom humor enquanto comia o omelete que o Khun Prem comprou. Khun Prem arregalou os olhos e tirou foto do P’Prood dizendo que ia mostrar pra mãe que o irmão topou comer omelete. Que exagero, na minha opinião. Minha água de crisântemo foi roubada na cara dura. Não reclamei porque o Khun Tik estava olhando pra mim e pro P’Prood com curiosidade, aqueles olhos castanhos grandes cheios de fofoca.

“Já comeu?” P’Prood virou pra me perguntar, enquanto os outros conversavam baixo. Só o Khun Tik, que não tinha nada pra fazer igual os outros, ficou prestando atenção em mim e no P’Prood descaradamente.

“Já.”

“Pluem gosta de chá de crisântemo?”

“Não é que goste.”

“Então gosta de quê?”

“Não gosto de nada em especial.”

“Tem certeza?”

Olhei pro rosto bonito do P’Prood em silêncio, deixando claro com o olhar que estava de saco cheio das perguntas, porque precisava focar nos slides. Mas acabei ficando vermelho quando o P’Prood se aproximou e sussurrou no meu ouvido: “Não é que gosta da... minha não? Vi que o Pluem bebeu tudo, sem deixar uma gota.”

‘Desgraçado!’ Mexi a boca sem emitir som, mas o P’Prood deve ter entendido o que eu disse, porque aquele rosto bonito ficou sério na hora.

“Vai se dar mal.”

“P’Proooooood, tem alguma coisa com meu amigo?” Khun Kim perguntou rindo. — Não pega pesado com o Pluem não, p’. Olha ele, tá todo vermelho. Mas mesmo quieto assim, o Pluem te idolatra muito, viu. Hehe.

“Calado você não morre, sabia, Khun Kim?” Retruquei na hora. Khun Kim ficou boquiaberto, apontou pra mim como se fosse me dar um tapa, mas eu já guardei as coisas e levantei.

“Vou esperar na sala.”

“Uééé, Pluem, ei! Tá bravo? Tô brincando!!! Plueeem!” A voz do Khun Kim ficou pra trás, mas não olhei. Não estava bravo com ninguém. Só queria ficar quieto, me concentrar pra apresentação que começa em uma hora.

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.  
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Terminei o trabalho, enchi a barriga e fui sentar na frente do 7-Eleven esperando o P’Prood, que ligou dizendo que em cinco minutos chegava e pediu pra eu comprar pão e chá com leite pra ele. Fiz o que mandou. Fiquei olhando os carros passarem, dois ou três, e a BMW preta do P’Prood parou na minha frente.

“Entra.”

Fui sentar no banco do carona e entreguei o pão e o chá com leite. P’Prood pegou, sorriu pra mim de leve.

“Acabei de sair da aula.” Disse só isso e dirigiu. Não perguntei pra onde íamos, porque não me importava tanto. Só me importava que o P’Prood me deixasse de volta a tempo pro trabalho.

Fiquei quieto o caminho todo. P’Prood também parecia não ter nada pra falar comigo. O carro luxuoso entrou no estacionamento de um condomínio chique com mais de vinte andares. Segui o P’Prood até o elevador. Ele apertou o 35º andar e ficou do meu lado, comendo o pão.

“Decorou o caminho, né?”

“Sim.”

“Bom... da próxima vez que eu chamar, você já sabe vir sozinho.”

Fiquei quieto enquanto olhava os números subindo rápido até o elevador parar no 35º. Meu ouvido zumbiu um pouco. Saí do elevador meio tonto. Se der um terremoto de 8 graus, esse desgraçado do P’Prood não escapa não. Quem manda morar tão alto assim, não vai morar no céu logo - -_

O apê do P’Prood não é diferente dos outros condomínios de luxo. Tem tudo. Sala, quarto, cozinha, banheiro, tudo separado claramente. Vi a cozinha que parece ser o único cômodo pouco usado. Os utensílios pareciam novos, sem uso. Olhando pra cara do dono, não consigo imaginar o P’Prood de avental rosa com estampa de urso. Diferente da sala, que parece ser o cômodo mais usado. Uma estante embutida na parede do chão ao teto, cheia de livros. Do lado, uma mesa de computador bagunçada com papéis, o monitor cheio de post-its. Depois, uma mesa de vidro grande que imagino que ele use pra estudar, porque tinha apostilas e livros espalhados. No centro, um home theater, TV LCD de 60 polegadas na frente de um sofá preto enorme. Parece macio, confortável. Dá pra dormir ali melhor que na cama do meu alojamento - -_

“Faz alguma coisa pra comer.” P’Prood mandou.

“Só sei fazer miojo.”

“Coisa sem nutriente.”

“Se não comer, faz você mesmo. Senão sai pra comer fora.”

“Hoje estou cansado. Não quero sair.”

P’Prood parecia cansado mesmo, porque foi direto se jogar no sofá. Fui ver o P’Prood deitado de bruços igual criança. “Pode ser miojo? É o que eu sei fazer.”

“Uhum.”

Fui pra parte da cozinha, que nem dá pra chamar de cômodo, porque só tem um balcão separando do resto. Abri a geladeira e vi que estava cheia de coisas frescas. Comida congelada também lotava o freezer. Voltei pra ver o P’Prood, que agora assistia documentário sobre cobras.

“Quer arroz com manjericão e ovo frito? Eu esquento pra você.”

“Miojo mesmo. Coloca verdura e carne de porco pra mim.”

Com ele dizendo isso, voltei a procurar miojo. Boca fala que é sem nutriente, mas o P’Prood tem mais miojo estocado que no meu alojamento. Preparei o miojo, meu prato especial. Primeiro escaldei a verdura, piquei e cozinhei a carne, depois coloquei dois ovos, e por fim joguei a água na tigela com o miojo. Eu não cozinho o macarrão antes não, porque se cozinhar fica mole demais e feio. Pronto, chamei o P’Prood pra comer, e ele comeu quieto. Terminou, bebeu a água que preparei e voltou pro documentário.

“P’Prood, já posso ir?”

Depois de lavar a louça não tinha mais o que fazer. Fiquei massageando as pernas do P’Prood um tempo. Olhei a hora e já estava quase na hora do trabalho.

“Ainda não.”

“Daqui a pouco tenho que trabalhar.”

“Não deixei ir.”

“Tem mais alguma coisa pra fazer?”

“Me dá banho.”

P’Prood sorriu satisfeito ao ver minha cara. “Não vai fazer?”

“Não é demais?”

“O quê que é demais? Esposa dando banho no... marido.” P’Prood abaixou a cabeça, a palavra marido jogada na minha cara. “Tem algo de estranho?”

“....”

“Ou não vai fazer... mas acho que... Pluem não tem escolha, né. Já que virou esposa do marido... desgraçado! Desse aqui.”

Escolhi ficar quieto, porque realmente não tinha escolha. P’Prood devia estar bravo pelo que aconteceu mais cedo, mas as palavras nojentas dele já mereciam, não?

O banheiro é do tamanho do meu quarto. Tem uma banheira enorme no canto esquerdo, box de vidro no canto direito, plantas ornamentais em vasos chiques no meio. P’Prood entrou na banheira que preparei, com pose de rei mandando no escravo, que sou eu, com propriedade. Esfreguei as costas forte demais e levei bronca. Puxei o cabelo dele de leve na hora de lavar e levei esporro. Não posso fazer nada, quem mandou ficar aleijado? Se não tem capacidade de tomar banho sozinho, merece apanhar um pouco assim mesmo.

“Faz pra mim.” P’Prood saiu da água, sentou na borda da banheira, as pernas longas e brancas como leite levemente abertas. Olhei pra aquela coisa perigosa que quase me matou de dor quatro dias atrás, apreensivo. Agora ela apontava pra mim, ameaçando igual ao olhar do dono.

“Pluem, rápido. Senão não te levo.”

“Tá.”

“Sem usar as mãos.”

Me senti mal com o que o P’Prood fez, mas o que eu podia dizer? Alguém como eu teria direito de exigir alguma coisa? Usei minha boca pra ajudar o P’Prood, que agora segurava meu rosto e mexia o quadril no próprio ritmo. O rosto bonito se ergueu, os dentes morderam o lábio com força. Não demorou muito e o corpo do P’Prood tremeu duas, três vezes antes de soltar o líquido quente na minha boca. Chupei forte e engoli sem escolha, porque o P’Prood não saiu. Ouvi o som dele gemendo, o rosto bonito contorcido de prazer.

“Pluem... chega... solta...” O rosto do P’Prood parecia em agonia. Saiu devagar de mim antes de me puxar pra sentar no colo e me beijar de leve.

“Muito bem... daqui a pouco te levo.”

Assenti, antes de me afastar do P’Prood, cujos lábios já roçavam meu pescoço.

“Tá com raiva de mim...?”

“Não.”

“Nojo?”

“Talvez.”

As sobrancelhas grossas se franziram antes de ele apertar meu braço com força. “Mentira!”

“Pensa o que quiser.”

“Sai pra fora!” P’Prood gritou, me empurrou e entrou no box.

Esperei o P’Prood por uns vinte minutos, até ele sair do quarto com camiseta e shorts de basquete que, se outro homem usasse, não ficaria tão bem quanto no Ma Prood. Só isso já exala uma aura de beleza acima de qualquer mortal.

“Toma, usa.”

Cinco notas de mil foram estendidas pra mim, que olhei sem entender por que o P’Prood estava me dando.

“Pra que isso... não quero.”

“Tá sem dinheiro, não tá?”

“Mas isso não tem nada a ver com o P’Prood. Eu me viro.”

“Tá trabalhando que nem um condenado sem tempo pra descansar e ainda banca o orgulhoso.”

“Mas eu tô sobrevivendo. Guarda seu dinheiro, p’.”

“Não seja teimoso comigo... Pluem sabe que eu não gosto.”

Só de ver a cara... já sei o quanto o P’Prood está irritado. Ma Prood, o cara que as mulheres da universidade inteira sonham, não é só pela beleza que faz elas quererem ficar sob os cuidados desse homem. É por esse hábito de distribuir dinheiro e presentes. O boato de que as mulheres chamam ele de ‘Seu Prood’ deve ser verdade!

“Pluem te pergunta de verdade, P’Prood, o que mais você quer? Mandei não ir no seu prédio, já não vou. O que mais o P’Prood quer de mim?”

“Para de drama comigo, pode?”

Isso é drama? Isso é ser dramático? Minha dúvida não foi respondida e ainda levei bronca. Esse desgraçado do P’Prood deve estar querendo levar um chute pra acordar, né?!

“E o que o P’Prood quer?!”

“Levanta a voz de novo.”

“Desculpa.”

“Que horas o Pluem sai do trabalho? Vou te buscar.” Além de ignorar o que eu falo, o P’Prood ainda adora mudar de assunto do nada. Parece que ele acha que é o centro do universo, que todos os seres vivos têm que orbitar ao redor dele.

“Seis da manhã.”

“E que horas você dorme? Não, não deixo trabalhar.”

“Que que é isso, P’Prood?”

“Falei que não deixa trabalhar, não deixa. Não sei de nada. Pede demissão hoje.”

“Preciso de dinheiro! Se eu pedir demissão, vou viver de quê!”

“Eu te banco.”

“O p’ tá doido?! Não quero. Por que o p’ ia me bancar?”

“Chega! Falei que não deixa trabalhar, não deixa!”

Fiquei calado na hora com o grito do P’Prood, que foi mais forte que quando me expulsou do banheiro. Aquele rosto bonito estava pronto pra me chutar se eu ainda ousasse retrucar. Então só pude ficar quieto e assentir, sem escolha.

“Hoje dorme aqui. Não vou te levar. Tô cansado.”

Decidiu tudo sozinho de novo, antes de me deixar parado no meio da sala. E o P’Prood foi sentar pra ler na mesa de trabalho como se nada tivesse acontecido.

“Pluem vai tomar banho. Para de complicar. Amanhã tenho prova, não tenho tempo pra ficar te aturando.”

“Então vou de táxi mesmo. Melhor não incomodar o P’Prood.”

P’Prood virou com cara de bravo pra mim, o rosto bonito com óculos de armação preta no nariz alto fazia ele ficar ainda mais atraente. É, não importa a hora, eu ainda fico babando pela aparência desse homem, né -_- Que droga.

“Escolhe: ou faz o que eu mando na boa ou quer ir pra aula se arrastando amanhã.”

Claro que escolhi obedecer o P’Prood. Quem é doido de querer ir pra aula se arrastando? Só de ter levado aquela vez já fiquei todo dolorido, perdi aula por causa da febre ainda por cima.

...P’Prood sorriu satisfeito antes de mandar eu pegar toalha e roupa pra trocar no guarda-roupa do quarto. Peguei uma camiseta, mas calça não tinha nenhuma que servisse... a cintura era grande demais. Ainda bem que achei uma cueca tamanho único, nova, na gaveta de baixo. Peguei tudo e fui tomar banho rápido, senão o P’Prood ia reclamar de novo. Quanto à calça, depois a gente vê. Talvez eu tenha que amarrar alguma coisa na cintura.

Tomei banho e fui procurar o P’Prood, que estava lendo com cara séria na mesa. A camiseta do P’Prood que achei que seria a menor, mas quando vesti a gola quase caiu no ombro e ainda era comprida, cobrindo metade da coxa.

“P’Prood, vou dormir no sofá.”

P’Prood tirou os olhos do livro e me olhou dos pés à cabeça. — Vai dormir no quarto.

“Mas dá pra eu dormir no sofá.”

“Pluem!”

“Não quero incomodar o P’Prood.”

“Se não quer me incomodar, faz o que eu mando. Vai dormir. Vou estudar.”

Vendo que o P’Prood estava prestes a vir me estrangular, só pude assentir. P’Prood é muito bonito mesmo, mas outra coisa tão famosa quanto a fama de galinha é a fama de violento. Não ouso testar o pé número quarenta e tantos dele. Dá pra ver que ele pode quebrar minhas costelas se eu continuar arrumando problema. É, dormir na cama é bom também. Pulei e quase afundei no colchão. A cama dura do meu alojamento não chega nem perto.

Agora passa da meia-noite. Ainda não consegui dormir e o P’Prood não dá sinal de que vai entrar no quarto. Hoje também não fui trabalhar. Normalmente nessa hora eu estaria em pé firme atrás do caixa atendendo clientes. Ficar deitado à toa aqui é anormal pra mim. Pedir demissão eu também não vou fazer, só assenti pra ele parar de pensar em me bater. É, se eu sair do emprego, vou comer o quê, usar o quê? Descansei pra juntar força, quem sabe amanhã eu ache uma saída pro problema e um jeito de fugir do P’Prood de vez.

............................................Continua...............................................

Manner of Death - Capítulo Especial

CAPÍTULO ESPECIAL 

Minha mãe costumava dizer que as ruas ao redor da cidade eram assustadoras à noite, pois ficavam cheias de bandidos que assaltavam quem passava por elas.

Eu nunca havia acreditado nela... até hoje.

Minha aula com o professor Tann terminou às oito e quarenta e cinco da noite. Resolvi pegar o anel viário porque queria comprar algo para minha mãe no supermercado antes de voltar para casa. O ar estava gelado, penetrando até os meus ossos, principalmente quando as rajadas de vento atingiam meu rosto enquanto eu pilotava minha motocicleta. Reduzi a velocidade para amenizar a força do vento e desejei que todos os uniformes escolares do Norte incluíssem calças compridas.

Logo depois, vi a silhueta de um grupo de pessoas paradas na beira da estrada ao lado de suas motocicletas. Olhei pelo espelho retrovisor, preparando-me para virar à direita. Quando tornei a olhar para a pista, um dos homens avançou na minha direção empunhando um grande bastão de madeira.

— Aaah!

Soltei um grito de surpresa e ergui os braços para bloquear o golpe. Depois disso, tudo aconteceu rápido demais para que eu conseguisse entender. Quando percebi, estava caído à beira da estrada, enquanto minha motocicleta jazia a alguns metros de distância. Sentei-me rapidamente, sentindo uma dor intensa percorrer todo o meu corpo. Olhei para os lados em pânico.

— Aham, temos um estudante aqui.

Ouvi alguém dizer atrás de mim. Virei a cabeça e encontrei um homem vestindo camiseta preta e calça jeans. Ele passou por cima de mim, e tentei me levantar, mas parei ao ver outro sujeito se colocar à minha frente: era o mesmo que havia me acertado com o bastão.

— Por que fez essa cara, pirralho?

Fiquei boquiaberto, sentindo meu corpo começar a tremer de medo.

— Eu não fiz nada!

— Aff. Vi você tirando sarro de mim lá atrás.

Os lábios dele se curvaram em um sorriso debochado. Seu rosto me parecia familiar, como se eu o conhecesse de algum lugar.

— O... o que você quer? — perguntei, hesitante, enquanto pensava nos meus pais. Será que eu voltaria para casa com vida?

— Bela moto.

O homem apontou o bastão para minha motocicleta caída.

— Que tal deixarmos ela sob os nossos cuidados?

Encarei-o. A motocicleta era um presente da minha mãe, comprado com o dinheiro suado que ela ganhava vendendo Khao Tom Mud. Por que eu a entregaria a um estranho?

— Não.

Os delinquentes caíram na gargalhada. Olhei ao redor, semicerrando os olhos na tentativa de contar quantos homens estavam escondidos na escuridão. Pelo que consegui perceber, havia três deles.

— Ei, olha só isso. Você tem coragem, não é? Qualquer outro já teria enfiado o rabo entre as pernas e fugido.

— Bem, vou ficar com ela de qualquer jeito.

O homem com o bastão agarrou meu colarinho e me puxou para cima. Em seguida, ergueu a arma improvisada, pronto para me golpear outra vez. Instintivamente, levantei os braços para me proteger e fechei os olhos, esperando a dor.

— Ei, Kang!

Uma voz rouca ecoou pela estrada, fazendo o louco do bastão interromper o golpe no meio do movimento. Abri os olhos com cautela.

— Que porra você está fazendo?!

Kang virou-se para a direção da voz, claramente irritado.

— Foi esse filho da puta que começou!

— Que merda você está falando? Ele não disse uma palavra.

Um homem de porte robusto, vestindo uma camiseta escura, entrou no meu campo de visão. Seu rosto permanecia parcialmente escondido pela escuridão, lembrando uma sombra. Não havia luz suficiente para distinguir suas feições com clareza.

— Deixe ele ir.

Kang resmungou, contrariado, mas soltou meu uniforme com relutância.

Foi então que entendi por que seu rosto parecia tão familiar. Eu já o tinha visto na escola. Imaginei que fosse um aluno de alguma série abaixo da minha.

— Por que está aqui, Thad?

— O Sr. Black quer falar com a gente. Agora! — gritou o novato, com firmeza.

— Tá, eu ouvi.

Kang voltou-se para mim e apontou o bastão para o meu rosto.

— Se contar alguma coisa para a polícia, você vai se arrepender.

Esperei até que os gângsteres montassem em suas motocicletas e fossem embora um a um antes de tentar me levantar.

Por um breve instante, consegui ver melhor o homem que havia acabado de chegar, o líder da gangue. Seu rosto transmitia autoridade, e sua presença era intimidadora. Usava um corte de cabelo social e, para falar a verdade, era mais bonito do que os outros três. Ainda assim, tive a impressão de que era muito mais perigoso do que todos eles juntos.

Mancando, caminhei até minha motocicleta caída à beira da estrada. Para minha sorte, ela não havia sofrido nenhum dano sério.

Mas uma coisa era certa:

Eu nunca mais passaria por aquela estrada à noite.

— Ai, ai, ai! Senhorita, por favor, você está me machucando! — gritei, praticamente me debatendo enquanto a enfermeira da Emergência limpava minhas feridas com um cotonete. Parecia que ele estava embebido em ácido, de tanto que ardia.

— Você deveria ter vindo antes, rapazinho. O acidente aconteceu ontem à noite, não foi? — disse ela. Como se quisesse me dar uma lição, esfregou a ferida com ainda mais força.

— Aaaai! Desculpe! Eu... não sabia que ia doer tanto, então fui dormir.

Senti lágrimas se acumularem no canto dos olhos.

— Olhe só para você. Já nem dá para distinguir o que é sujeira e o que é sangue seco. Que tal limparmos tudo de uma vez?

Pela expressão dela, parecia até que estava se divertindo. Só me restava torcer para que estivesse brincando.

Tentei me distrair observando o movimento da sala. Vi uma médica de baixa estatura conversando com um paciente, uma enfermeira coletando sangue de uma senhora idosa e um homem entrando às pressas na Emergência.

Ergui um pouco a cabeça na maca e vi uma enfermeira correndo atrás dele.

— Dr. Bunn! Dr. Bunn!

Então ele era médico, pensei. Era por isso que parecia tão atraente. Havia algo nele completamente diferente da médica que havia me examinado.

— O quê? Ele veio trabalhar mesmo assim? — comentou a enfermeira que cuidava dos meus ferimentos, claramente surpresa.

Virei-me para ela.

— Ele é médico assistente?

— Não. É médico-legista. Achei que estivesse doente, então não esperava vê-lo por aqui hoje.

Ela começou a cobrir minhas feridas com gaze. Soltei um suspiro de alívio quando aquela tortura finalmente terminou.

— Daqui a pouco você vai conhecê-lo. É ele quem vai emitir o seu atestado médico.

— Vou conhecê-lo? Sério?

Por que eu estava tão animado? Nem eu conseguia entender.

A enfermeira riu.

— Fique quietinho. Vou encaixar você antes do próximo paciente, já que ele ainda vai demorar para chegar.

Nunca imaginei que aquele seria o dia em que conheceria o homem que se tornaria minha maior inspiração.

Eu não era uma pessoa muito confiante, mas sempre sonhei em ajudar quem precisava. Aos meus olhos, ele representava exatamente o tipo de pessoa que eu queria me tornar: alguém de caráter admirável, maduro, prudente, respeitoso e extremamente competente.

Como alguém podia reunir tantas qualidades?

— Qual é o seu nome, doutor? O senhor sabe que é muito bonito?

Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi que jamais deveria tê-las dito.

Mesmo assim, agradeci às estrelas quando o Dr. Bunn respondeu e me disse seu nome.

Fingi sair do cursinho, tentando parecer casual. De vez em quando, olhava discretamente para o líder da gangue, que caminhava em direção à motocicleta estacionada em frente à escola.

Assim que ele ligou o veículo e saiu, corri para a minha moto, saltei no banco, dei a partida e parti logo atrás dele.

Mantive uma distância segura para não levantar suspeitas.

Achei que ele fosse para algum bar frequentado por gângsteres e valentões, mas, em vez disso, seguiu até uma pequena casa no meio da cidade.

Estacionei minha motocicleta na entrada de um beco e me inclinei para observar.

Vi o homem descer da moto, abrir o portão e entrar no terreno. Em seguida, entrou em um pequeno carro vermelho, já bastante velho, que estava estacionado ali.

Esperei até que ele saísse com o carro.

— Aonde você vai...? — murmurei para mim mesmo.

Sem hesitar, subi novamente na motocicleta e comecei a segui-lo.

Felizmente, o carro era de um vermelho chamativo e tão antigo que jamais conseguiria acompanhar a velocidade da minha moto.

Isso me permitiu manter uma boa distância sem perdê-lo de vista.

À medida que avançávamos, os prédios foram ficando cada vez mais escassos.

Eu não fazia ideia de para onde ele estava indo.

Estávamos quase entrando em outro distrito, e o sol da tarde já começava a desaparecer no horizonte.

De repente, o carro vermelho parou à beira da estrada.

Rapidamente entrei com a moto em uma viela e a escondi antes de sair, andando sorrateiramente.

De longe, vi o líder da gangue caminhar até um carro estacionado próximo dali.

Ele ficou encarando uma casa de telhado azul, completamente imóvel, com uma expressão de choque.

Logo em seguida, correu de volta ao próprio carro, entrou e dirigiu até outra viela.

Saí do esconderijo, totalmente confuso com sua atitude.

Então olhei para a mesma casa.

E compreendi imediatamente o motivo daquele olhar.

Quatro homens vestidos de preto bloqueavam o portão.

Conversavam entre si com expressões sérias e ameaçadoras.

Um deles segurava alguma coisa na mão.

No início, não consegui distinguir.

Mas, quando ele se levantou...

Meu sangue gelou.

Era uma arma.

Naquele instante, um dos homens olhou diretamente para mim.

Meu coração quase saltou pela boca.

Desviei o olhar imediatamente e comecei a recuar em direção à minha motocicleta.

Merda...

Eu nunca deveria ter vindo até aqui.

Enquanto procurava o caminho de volta, alguém agarrou meu colarinho por trás e me puxou violentamente para dentro de um arbusto.

Soltei um grito de susto.

Antes que pudesse gritar novamente, uma mão cobriu minha boca.

Então ouvi uma voz baixa e firme:

— Fique quieto... se quiser continuar vivo.

Meu corpo inteiro congelou.

Fechei a boca imediatamente.

Quando virei a cabeça, encontrei o rosto frio e impassível do homem que me puxara.

Era o líder da gangue.

Ele observava atentamente a movimentação do outro lado do arbusto.

— Quem... quem são aquelas pessoas? — perguntei em um sussurro, assim que ele retirou a mão da minha boca.

Ele me lançou um olhar frio.

Sob a luz do entardecer, pude notar melhor seu rosto.

Era bonito.

Sua pele bronzeada denunciava o tempo que passava trabalhando sob o sol.

— Eu é que deveria perguntar. Quem é você... e por que está me seguindo?

Abri a boca para responder.

Mas ele levou um dedo aos próprios lábios, mandando-me ficar em silêncio.

Tentei olhar através das folhas do arbusto.

Não consegui enxergar praticamente nada.

Não fazia ideia de como ele conseguia acompanhar tudo dali.

— Venha comigo.

Sem esperar resposta, segurou meu braço e me puxou.

Atravessamos o jardim de uma casa e corremos até a viela onde seu carro estava escondido atrás de uma árvore.

— Entre.

— Hã?

Mesmo completamente desnorteado, obedeci e sentei no banco do passageiro.

Ele abaixou parcialmente o vidro da janela e voltou a observar a casa de telhado azul.

Em seguida, pegou o celular e fez uma ligação.

— Sr. Black... cheguei, mas os homens de Zom também estão aqui.

Fez uma breve pausa.

— Mal consegui entrar na viela a tempo. Ainda bem que não vim de moto.

Outra pausa.

— Isso está muito pior do que imaginei. Paul vai encontrar sua mãe com certeza. Os homens de Zom estão revistando todas as casas da região. Nesta aqui, há pelo menos quatro bloqueando a entrada.

Ele suspirou profundamente.

— Não faço ideia de como descobriram que ela estava escondida aqui. Não consegui chegar antes. Me desculpe.

Meus olhos se arregalaram.

O líder da gangue estava falando com...

o Sr. Black.

— Por que eu brincaria com uma coisa dessas? Isso é sério. Estou escondido dentro do carro agora. Se acontecer alguma coisa, eu ligo de novo.

Ele encerrou a chamada e virou-se para mim.

Sem qualquer aviso, agarrou meu colarinho e me puxou para perto.

— Eu vi você na escola do professor Tann. Se eu não estivesse com tanta pressa, teria acabado com você naquela estrada. Então me diga... por que estava me seguindo?

Engoli em seco.

Mesmo tremendo, a curiosidade falou mais alto.

— Quem... quem é o Sr. Black?

Ele franziu a testa.

— Aqui quem faz as perguntas sou eu.

Apertou ainda mais meu colarinho.

— Responda. Por que estava me seguindo? Se não falar, vou fazer você se arrepender.

Respirei fundo.

Eu tinha medo.

Muito medo.

Mas havia algo mais forte.

Minha curiosidade.

— Quero saber para quem você trabalha... quem é o Sr. Black... e se ele tem alguma ligação com o desaparecimento do Dr. Bunnakit.

Ele me encarou por alguns segundos.

Depois soltou meu uniforme e me empurrou de volta para o banco.

— Eu devia ter deixado você morrer ali mesmo. Só salvei sua vida porque você ficou correndo igual a uma barata tonta e virou um alvo fácil. Se aqueles homens seguirem você até aqui e descobrirem que estamos juntos, estaremos ferrados.

Olhei para ele nervosamente.

— Por que precisamos nos esconder?

Ele respirou fundo, claramente irritado.

Estava prestes a responder quando dois homens surgiram na entrada da viela.

Um deles segurava uma arma.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

Afundei no banco para tentar desaparecer.

— Merda...

Sem perder um segundo, ele ligou o carro.

Pisou fundo no acelerador.

Como a viela era estreita demais, o para-choque raspou violentamente na mangueira de uma casa.

Agarrei a alça acima da janela e fechei os olhos.

Esperava ouvir disparos.

Esperava ouvir o vidro se estilhaçando.

Mas nada aconteceu.

Quando tornei a abrir os olhos, já estávamos quase alcançando a avenida principal.

As luzes da cidade começavam a se acender.

Foi então que me lembrei.

— Minha moto!

Virei-me desesperado.

— Como vou buscá-la?

— Esqueça.

A resposta veio seca.

— Mas como vou para a escola amanhã?

Ele soltou um palavrão.

— Você causou tudo isso. Se voltar lá agora, morre.

Passou a mão pelos cabelos, claramente frustrado.

— Agora nem consigo terminar meu trabalho. Meu chefe vai me matar.

Olhei para ele.

— Seu chefe é o homem que você encontrou antes? O professor Tann?

Ele fez uma curva tão brusca que quase bati a cabeça na janela.

— Não é ele.

Depois lançou um olhar ameaçador.

— Continue fazendo perguntas... e eu corto sua cabeça fora.

Decidi ficar calado.

Passei o resto da viagem observando-o discretamente.

Na verdade...

Ele era bonito.

O que realmente assustava não era seu rosto.

Era sua postura.

Seu jeito de falar.

Sua presença.

Se sorrisse um pouco...

Provavelmente seria ainda mais bonito.

De repente, nossos olhares se cruzaram.

Desviei imediatamente para a janela.

O que eu estava pensando?

Meu objetivo era descobrir o paradeiro do Dr. Bunn.

— Para onde você está me levando? — perguntei.

— Você sabe coisas demais.

Ele respondeu sem tirar os olhos da estrada.

— Vou levá-lo ao meu chefe. Ele decidirá o que fazer com você.

Meu coração afundou.

Estou ferrado...

Olhei discretamente para a maçaneta da porta.

Será que eu conseguiria pular do carro?

Antes que tomasse qualquer decisão, o celular dele tocou.

— O quê?... Como assim?

Sua voz mudou completamente.

Parecia preocupado.

— Me diga onde você está! Estou indo agora!

Silêncio.

— Não faça isso sozinho!

A ligação caiu.

Ele tentou ligar novamente.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Sem sucesso.

Por fim, arremessou o celular no porta-copos.

— Droga...

Aquilo me surpreendeu.

Era a primeira vez que eu o via realmente abalado.

Resolvi dizer alguma coisa.

— Tente se acalmar...

Ele nem respondeu.

Depois de alguns segundos, perguntou:

— Onde você mora?

— Em Nai Viang...

— Então me mostre o caminho.

Fez uma pausa.

— Ou desça agora e volte a pé.

Fiquei completamente surpreso.

Ele... ia me levar para casa?

Continuei indicando o caminho.

Quando entramos na área central da cidade, mostrei minha casa.

Era uma residência simples, de dois andares.

Na cerca havia uma placa grande anunciando o Khao Tom Mud preparado pela minha mãe.

Quando o carro parou, permaneci imóvel.

Não fazia ideia de como explicaria o desaparecimento da motocicleta.

— O que está esperando?

A voz ríspida dele me trouxe de volta à realidade.

— Desça logo. Está desperdiçando meu tempo.

Saí rapidamente.

Fiquei parado diante do portão, observando o velho carro vermelho desaparecer rua abaixo.

Naquele momento, senti um enorme vazio.

Minha mochila.

Meus livros.

Minha carteira.

Tudo continuava dentro da motocicleta.

Foi então que ouvi a voz da minha mãe.

— Sorrawit! Você voltou!

Fechei os olhos.

Precisava inventar uma desculpa.

Mas nenhuma parecia convincente.

Respirei fundo.

Sorri do jeito mais natural que consegui.

— Voltei, mãe.


Eu sabia que era apenas uma questão de tempo até minha mãe descobrir que Kor nunca havia pegado minha motocicleta emprestada. Por isso, precisava recuperá-la naquele mesmo dia.

Depois que ela me deixou na escola naquela manhã, procurei meu amigo Pea e implorei para que me levasse até o lugar onde eu havia deixado a moto.

— Tudo bem. Se não for muito longe, eu levo você.

Suspirei aliviado.

Após a cerimônia matinal, fui para a minha sala, o terceiro ano, Classe Um, conhecida como a Classe dos Superdotados.

Eu era um dos melhores alunos porque estava decidido a entrar na Faculdade de Medicina. Estudava com afinco em todas as disciplinas para me preparar para o vestibular. Como era alto, meu lugar ficava no fundo da sala.

Depois de me sentar, fiquei olhando pela janela, pensando no Dr. Bunnakit e imaginando se Thad já havia conseguido se reconciliar com o Sr. Black, seu chefe tão importante.

Minha rotina escolar raramente tinha surpresas.

Mas, naquele dia, fui completamente pego de surpresa.

Enquanto caminhava com Pea em direção ao estacionamento, avistei minha motocicleta parada bem em frente ao prédio.

— Ei!

Gritei tão alto que Pea se assustou.

— É a minha moto!

— Então você não precisa mais da minha carona?

Corri até ela.

Conferi a placa.

Depois o adesivo de tigre na lateral.

Era realmente a minha.

— Quem trouxe você para cá...?

Só existia uma pessoa que sabia onde ela estava.

E também a quem ela pertencia.


---

Minha mãe sempre dizia que, quando alguém nos ajuda, devemos retribuir a gentileza.

Passei em casa, peguei alguns Khao Tom Mud feitos por ela e os coloquei em uma sacola.

Depois fui até a casa de Thad.

A pequena residência continuava simples e envelhecida.

A motocicleta dele não estava lá.

Apenas o velho carro vermelho permanecia estacionado, agora com marcas de arranhões no para-choque dianteiro.

Nunca imaginei que o líder de uma gangue pudesse fazer algo tão gentil.

Por trás daquela aparência intimidadora existia alguém muito mais bondoso do que deixava transparecer.

Talvez toda aquela dureza fosse apenas uma fachada.

Resolvi esperá-lo até as seis horas.

Se ele não aparecesse, deixaria a sacola pendurada no portão.

Sentei-me na motocicleta, peguei o celular e comecei a navegar pelas redes sociais.

Foi então que uma manchete chamou minha atenção.

"Tutor famoso é preso por sequestrar um patologista e é suspeito de envolvimento em homicídio."

A fotografia abaixo da notícia mostrava o professor Tann.

Meu coração disparou.

Era difícil acreditar que ele realmente tivesse cometido algo assim.

Então os rumores sobre sua ligação com os gângsteres eram verdadeiros.

E aquele patologista...

Só podia ser o Dr. Bunnakit.

Esperei ansiosamente a página carregar, justamente quando minha internet resolveu ficar lenta.

Quando finalmente consegui ler a notícia, senti um enorme alívio.

O Dr. Bunn estava vivo.

Levantei os braços automaticamente.

— O Dr. Bunn voltou!

— O que você está fazendo aqui?

Uma voz grave me fez congelar.

Virei-me.

Thad estava parado ali, segurando uma sacola de compras.

Gaguejei antes de estender a sacola de doces.

— Eu... vim agradecer por devolver minha motocicleta.

Ele apenas olhou para a sacola.

Depois continuou andando em direção à porta de casa.

Como se eu nem existisse.

Fiquei indignado.

Aproximei-me rapidamente.

Segurei seu braço.

— Por favor... aceite.

Thad puxou o braço com força.

Virou-se.

Levantou a mão.

Instintivamente fechei os olhos e ergui os braços para proteger o rosto.

Vai doer...

Mas o golpe nunca veio.

Em vez disso...

Senti uma mão pousar suavemente sobre minha cabeça.

Abri os olhos lentamente.

Thad me observava com a mesma expressão séria de sempre.

— Obrigado.

Sua voz continuava firme e curta.

Mesmo assim...

Havia uma delicadeza que eu nunca tinha percebido antes.

Ele pegou a sacola da minha mão e entrou em casa.

Fiquei parado por um longo tempo.

Meu peito parecia aquecido.

Cobri a boca com a mão.

Meu rosto queimava.

Como alguém podia ser tão fofo...?

Eu nunca imaginei que alguém pudesse superar o Dr. Bunnakit.

Mas aquele líder de gangue...

Estava conseguindo.


Eu sabia muito pouco sobre Thad.

Era dois anos mais velho que eu.

Estudava Mecânica em uma escola técnica.

Só isso.

Não fazia ideia de como havia entrado para uma gangue.

Nem se realmente trabalhava para o professor Tann.

Mas queria descobrir tudo sobre ele.

Não era apenas porque ele era bonito.

Era porque, por trás daquele jeito intimidador, escondia uma gentileza que parecia completamente incompatível com sua imagem.

No dia seguinte, em vez de visitar o Dr. Bunn no hospital, fui esperá-lo na saída do prédio de Mecânica Industrial da escola técnica.

O ambiente ali era completamente diferente do meu colégio.

Os estudantes pareciam muito mais maduros.

Quando se formassem, já estariam preparados para trabalhar.

Enquanto isso, eu ainda passaria anos na universidade antes de conseguir exercer a profissão que sonhava.

Arrumei o uniforme e fiquei olhando para o interior do prédio.

Desta vez eu não cometeria o mesmo erro.

Precisava pedir o telefone dele.

Ou pelo menos seu contato no LINE.

Na última vez, deixei essa oportunidade escapar.

Enquanto esperava, uma voz feminina chamou minha atenção.

— Ei, garoto... está esperando alguém?

Virei-me, um pouco surpreso.

Era uma jovem usando o uniforme da escola técnica: camisa de mangas compridas, gravata cinza e saia acima dos joelhos.

Ela era muito bonita.

— Um amigo — respondi timidamente.

Ela sorriu.

— Sério? Eu também estou esperando meu namorado. A aula atrasou hoje.

Olhou para o relógio de pulso antes de apontar para um banco de mármore próximo.

— Vamos esperar ali?

— Claro...

Sentei-me ao lado dela.

Ela pegou o celular e passou a mexer na tela em silêncio.

Fiz o mesmo, aproveitando para acompanhar as últimas notícias sobre o professor Tann.

Menos de cinco minutos depois, ouvi vozes animadas saindo do prédio.

Levantei-me imediatamente.

Mas a garota foi mais rápida.

Correu até o rapaz que acabara de sair, abraçou seu braço com força e começou a conversar com um sorriso radiante.

Meu corpo inteiro congelou.

Era Thad.

Por alguns segundos, fiquei incapaz de respirar.

Então... ele tinha namorada.

Cerrei os punhos.

Engoli em seco.

Às vezes eu me esquecia de que pessoas bonitas dificilmente estavam sozinhas.

E alguém como Thad...

Bonito.

Forte.

Confiável.

Naturalmente teria uma garota bonita ao seu lado.

Ela combinava muito mais com ele do que um estudante magrelo como eu.

Enquanto eu permanecia imóvel, Thad ergueu os olhos.

Nossos olhares se encontraram por um breve instante.

Rapidamente abaixei a cabeça.

Depois me virei.

E fui embora.


Naquela noite, tentei estudar.

Mas não consegui.

Primeiro, perdi a concentração por causa do desaparecimento do Dr. Bunn.

Agora...

Descobrir que Thad tinha uma namorada era ainda pior.

Deitei-me na cama e encarei o teto.

Se eu contasse aquilo aos meus amigos, certamente diriam que eu tinha enlouquecido.

Fechei os olhos.

Então uma dúvida voltou à minha mente.

Se ele tinha namorada...

Por que trouxe minha motocicleta de volta?

Por que acariciou minha cabeça daquele jeito?

Cobri o rosto com as mãos.

Eu realmente não entendia.

No fim...

Cheguei a uma conclusão.

Precisava conversar com Thad.

Olhei para o relógio.

Eram oito e quarenta e cinco da noite.

Minha mãe provavelmente estava nos fundos da casa preparando os ingredientes do Khao Tom Mud.

Meu pai devia estar assistindo ao noticiário na sala.

Saí do quarto o mais silenciosamente possível.

Desci as escadas.

Passei atrás do sofá sem chamar a atenção do meu pai.

Abri a porta devagar.

Assim que saí, corri para a motocicleta, liguei o motor e acelerei rumo à casa de Thad.

Quando cheguei...

Tudo estava escuro.

A motocicleta dele não estava lá.

Respirei fundo.

Restava apenas um lugar onde eu poderia encontrá-lo.

A estrada de cintura que contornava a cidade.

A mesma onde eu quase fui espancado.

Prometi a mim mesmo que jamais voltaria ali.

Mas...

Meu coração falou mais alto que o medo.

Segui até o local.

Não havia sinal de Thad.

Nem dos outros membros da gangue.

Soltei um longo suspiro.

Será que eu teria de esperar até amanhã?

Como fui idiota...

Tive tantas oportunidades de pedir o telefone dele.

E nunca pedi.

Nesse instante, meu celular começou a tocar.

Era minha mãe.

Atendi imediatamente.

— Oi, mãe.

— Onde você está, It? — perguntou ela, claramente irritada.

— Saí rapidinho. Já estou voltando.

— Então ande logo. Seu amigo, Thad, está aqui em casa esperando por você.

Fiquei completamente sem reação.

— O... o quê?

— Não ficou surdo, ficou? Venha para casa agora!

Ela desligou antes que eu pudesse responder.

Fiquei olhando para a tela do celular por alguns segundos.

Thad...

Foi até a minha casa?

Sem perder tempo, liguei a motocicleta novamente.

Casa... aí vou eu!

Levei pouco mais de dez minutos para voltar para casa.

Nunca uma viagem pareceu tão longa.

Assim que entrei, encontrei Thad sentado na sala, conversando tranquilamente com meu pai.

Ele interrompeu a conversa e voltou o olhar para mim.

Vestia uma camiseta preta e uma calça esportiva azul-marinho.

Respirei fundo, tentando controlar o nervosismo.

— Olha quem chegou. — Meu pai sorriu. — Seu amigo já estava criando raízes aqui de tanto esperar. Leve-o para o seu quarto.

Assenti em silêncio.

Thad levantou-se naturalmente e caminhou até a escada, como se já soubesse o caminho.

Passei por ele, subi os degraus e o conduzi até meu quarto.

Assim que entramos, fechei a porta e a tranquei.

Virei-me para encará-lo.

— O que você está fazendo aq...

Antes que terminasse a frase, senti um soco atingir minha bochecha.

Cambaleei para trás até cair sentado na cama.

Levei a mão ao rosto, completamente atordoado.

— Por que você está me evitando? — perguntou Thad, com um olhar frio.

Piscando algumas vezes, respondi:

— Quando foi que eu fiz isso?

— Hoje.

Sua resposta foi imediata.

— Depois que me viu, saiu correndo. Não pense que eu não percebi.

Fiquei ainda mais confuso.

— Você veio até aqui por causa disso?

— E por que me bateu?

Thad franziu a testa.

— Não é óbvio?

Silêncio.

Abri a boca algumas vezes, mas nenhuma resposta saía.

Óbvio?

O que havia de óbvio?

Depois de alguns segundos, Thad soltou um longo suspiro.

— Esquece.

Levantei-me lentamente.

Ainda massageando a bochecha dolorida, tomei coragem.

— Eu fui embora... porque vi você com aquela garota.

Ele permaneceu em silêncio.

Continuei:

— Achei que ela fosse sua namorada.

Minha voz saiu mais baixa.

— Então pensei... que não fazia sentido continuar ali.

Thad continuou olhando para mim.

Então perguntou calmamente:

— Você gosta de mim?

Senti meu cérebro parar de funcionar.

Meu coração disparou.

Minha garganta secou.

Depois de alguns segundos, consegui responder:

— Acho... que sim.

Meu rosto queimava de vergonha.

Foi então que aconteceu algo que eu jamais imaginei.

Thad sorriu.

Era um sorriso discreto.

Quase imperceptível.

Mesmo assim...

Foi suficiente para fazer meu coração perder completamente o ritmo.

Ele deu um passo à frente.

Depois outro.

Até parar bem diante de mim.

Instintivamente recuei, encostando as costas na porta.

— Então...

Ele inclinou levemente o rosto.

— Você gosta mesmo de mim?

Fechei os olhos com força.

— Talvez...

Respirei fundo.

— Talvez sim!

Uma risada baixa escapou dos lábios dele.

— Você fica engraçado quando cora.

Em seguida, beliscou de leve minha bochecha.

— Eu me lembro de você desde a noite em que alguns dos meus homens tentaram bater em você.

Abri os olhos.

Ele continuou:

— Disseram que você estava investigando quem era meu chefe.

— Desde então, fiquei de olho em você.

Sorri sem jeito.

Mas o sorriso desapareceu quando ele completou:

— Se você descobrisse alguma coisa importante... nós poderíamos ter matado você.

Engoli em seco.

— Você está falando sério?

Ele assentiu.

— Mas, por algum motivo...

Fez uma breve pausa.

— Mesmo sendo um pirralho intrometido...

— Você é fofo.

Meu rosto ficou ainda mais quente.

Antes que ele pudesse se afastar, envolvi sua cintura com os braços.

Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— E aquela garota?

Perguntei rapidamente.

— Minha prima.

Piscou.

— Ela está namorando um amigo meu.

Fiquei completamente imóvel.

Depois comecei a rir sozinho.

Todo aquele sofrimento...

Por nada.

Olhei novamente para Thad.

— Então...

— Você não tem namorada?

— Não.

Sorri de orelha a orelha.

— Então isso significa...

Respirei fundo.

— Que você pode namorar comigo.

Thad riu.

— Você ao menos sabe meu nome de verdade?

— Sei!

Respondi imediatamente.

— Thad!

Ele balançou a cabeça, divertido.

— Esse é só o apelido.

— Eu ainda não sei seu nome verdadeiro... sua idade... seu aniversário... seu telefone... nem para quem você trabalha.

Sorri.

— Mas posso descobrir tudo isso aos poucos.

Ele voltou a ficar sério.

— E quando descobrir...

Seu olhar tornou-se intenso.

— Vai contar tudo para a polícia?

Balancei a cabeça imediatamente.

— Claro que não!

Sorri sem pensar.

— Se você for preso... eu vou ficar sem namorado.

Por alguns segundos, ele apenas me observou.

Depois segurou meu colarinho.

Afastou-me delicadamente.

E disse:

— Lembre-se do que acabou de falar.

Sua voz voltou a ficar firme.

— Se algum dia você descobrir alguma coisa sobre mim...

— E resolver contar para a polícia...

— Sendo meu namorado ou não...

— Eu mato você.

Estranhamente...

A ameaça não me assustou.

Ao contrário.

Fez meu coração bater ainda mais forte.

Saí da Emergência e caminhei até minha motocicleta com um sorriso no rosto.

Embora não tivesse conseguido encontrar o Dr. Bunn, as enfermeiras confirmaram que ele já havia voltado ao trabalho.

Isso, por si só, já bastava para me deixar feliz.

Thad estava sentado na minha motocicleta, esperando por mim.

Vestia uma camisa cinza de mangas curtas e já estava pronto para ir para a escola técnica.

Nos últimos dias, nossa rotina havia se tornado sempre a mesma.

Eu o levava para a escola pela manhã e o buscava no fim da tarde.

Naquele dia, porém, eu pretendia passar primeiro no hospital para entregar ao Dr. Bunn um pacote de Khao Tom Mud preparado pela minha mãe.

Thad, naturalmente, não demonstrou o menor entusiasmo com a ideia.

— Conseguiu encontrá-lo? — perguntou.

Balancei a cabeça.

— A enfermeira disse que ele ainda não tinha chegado. Como não queria que você se atrasasse para a aula, resolvi ir embora.

Subi na motocicleta e coloquei o capacete.

— Vamos.

Thad montou na garupa.

Quando liguei o motor, ele aproximou o rosto do meu ouvido e disse, no tom mais casual do mundo:

— Liguei para o professor Tann. Enquanto estiveram desaparecidos, ele transou com o Dr. Bunn.

Quase engasguei.

— Informação demais!

Na mesma hora, toda a imagem impecável que eu tinha do Dr. Bunn foi por água abaixo.

Sem querer, comecei a imaginar coisas que definitivamente não deveria imaginar.

Antes que minha imaginação fosse longe demais, senti um tapa leve no capacete.

Thad.

Ele provavelmente já sabia exatamente o que estava passando pela minha cabeça.

Dois dias antes, eu havia confessado que admirava o Dr. Bunn e que comecei a investigar os gângsteres porque queria impressioná-lo.

Thad jamais esqueceria aquilo.

— Fique longe dele.

Sua voz soou firme.

— Ele já tem alguém.

Fez uma breve pausa antes de completar:

— Você não precisa mais ficar vindo ao hospital.

— Mas...

Outro tapa no capacete.

— Chega.

Sorri sem graça.

— Tá bom...

Faltavam menos de quinze minutos para o início da cerimônia de hasteamento da bandeira.

Acelerei a motocicleta.

Precisava deixar Thad na escola técnica antes de seguir para o meu colégio.

Enquanto o vento frio da manhã batia em meu rosto, percebi o quanto minha vida havia mudado.

Nunca imaginei que encontraria alguém com quem pudesse compartilhar minhas alegrias, meus medos e minhas tristezas.

Também não me importava com os olhares tortos das pessoas quando descobriam que eu estava namorando outro homem.

Para mim, isso nunca foi importante.

Homem ou mulher...

Nada disso fazia diferença.

O que realmente importava era estar ao lado de alguém que iluminasse meu coração e me fizesse feliz.

Apertei um pouco mais o acelerador.

Agora eu tinha um novo objetivo.

Entrar na Faculdade de Medicina.

Queria cuidar dos pacientes.

Ajudar minha família.

E proteger as pessoas que eu amava.

Sorri sozinho.

Desculpe, Dr. Bunnakit...

Mas vou precisar desistir de você.

Afinal... meu coração acabou sendo roubado por um gângster.


Nota de tradução¹

Teste de Quota: sistema de ingresso em universidades públicas da Tailândia por cotas regionais ou institucionais.

Khao Tom Mud (ข้าวต้มมัด): doce tradicional tailandês feito com arroz glutinoso, banana e leite de coco, embrulhado em folhas de bananeira e cozido no vapor.

Em muitas obras tailandesas, personagens ligados ao submundo utilizam apelidos em vez de seus nomes verdadeiros. Por isso, "Thad" é tratado como um codinome até o final deste capítulo especial.