23 de ago. de 2022

Bubble Tea - Capitulo 05

Capítulo 05: A Mudança

A loja estava um pouco vazia hoje porque não tinha muita gente passando. Só tinham os clientes fixos e o P'Pitchanam.  
Desde que abri, nunca tive tanto movimento. Comecei aos poucos, e no fim...  
No fim deu certo do jeito que eu imaginava!

Quando olhei pra frente da loja, vi o P'Phum parado lá. Com uma camisa social e segurando uma pasta. Parecia que tinha vindo direto do trabalho.  
Ele entrou, pediu um bubble tea clássico e sentou na mesa do fundo. Ficou mexendo no celular e olhando pra rua como se estivesse esperando alguém. Depois levantou, foi até o balcão e pagou. Antes de sair jogou uma frase: "Cuida bem da loja, tá?"

E saiu sem nem olhar pra trás.

Eu fiquei só olhando ele ir embora.  
Porque o P'Phum sempre foi assim comigo desde pequeno. Ele me trata como se eu fosse um irmão mais novo chato.

"Seja bem-vindo" Eu não consegui responder nada além disso.

Na verdade eu queria falar mais. Perguntar como ele estava, como estava o trabalho, se ele ainda ia naquela lanchonete que a gente gostava quando era criança. Mas na hora que abri a boca, só saiu isso.  
O P'Phum é chefe de um departamento agora. Mesmo sendo novo, ele já comanda uma equipe inteira. Dizem que ele é rígido, mas justo. Não deixa passar nada errado.  
Eu que sou o irmão mais novo, só sei fazer bubble tea e sorrir pros clientes.

O trabalho na loja é cansativo, mas eu gosto. Cuidar do caixa, atender, limpar. É pouco, mas é honesto. É meu.  
Pelo menos agora eu não dependo mais do dinheiro dos meus pais.

"Você não vai comer nada?"

"Hoje eu vim provar um sabor novo. Já pedi o de sempre." Eu respondi sem nem olhar pra ele. Porque se eu olhasse, ia acabar desabafando tudo. "Porque aqui perto de casa tem uma loja que faz um chá muito bom. Mas não é tão doce quanto o daqui."

"Oi? Você está elogiando a concorrência na minha frente?" Ele riu, mas era um riso cansado.  
Eu só dei de ombros. Na verdade eu só queria puxar assunto. Porque fazia tempo que a gente não conversava direito. Desde que eu fugi de casa.

"Me desculpa."  
"Desculpa pelo quê? Você não fez nada de errado." Ele suspirou. "É que eu não sei como falar com você mais. A gente cresceu, né. Você virou adulto e abriu sua própria loja. Eu só... não esperava."

Nós ficamos em silêncio por um tempo. Só o som da chaleira e da máquina de selar copos.  
O P'Phum pegou a bolsa e se levantou. "Eu tenho que ir. Reunião daqui a pouco. Anni, Anni. Cuida da loja."

Eu assenti com a cabeça.

E ele foi embora.

Eu fiquei olhando pra porta.  
Me perguntei se ele estava mesmo orgulhoso de mim.  
"Eu não sei se meu irmão está orgulhoso." Eu falei baixinho pra mim mesmo. Não sei se ele gosta do que eu estou fazendo. Porque não é o que ele esperava de mim.  
Mas eu gosto. Gosto mesmo de ficar aqui, mexendo nas pérolas e vendo as pessoas sorrirem tomando o que eu faço.

E quem diria que o garoto que trocava de hobby toda semana ia parar numa loja de bubble tea.

O celular tocou. Era um número desconhecido.  
Atendi sem pensar.  
"Alô, é o Pich do Pitchanam?"  
"Sim, quem fala?"  
"Oi, aqui é da escola. Estamos ligando pra avisar sobre a reunião de pais e mestres. O senhor é o responsável pelo Nai, certo?"

Eu quase deixei o copo cair.  
"Responsável? Ah... sim. Sou eu."  
"Então esperamos o senhor na sexta-feira, às 14h. Obrigado."

Desliguei e fiquei parado.  
Responsável pelo Nai.  
Eu?  
Desde quando eu virei responsável por alguém?

Não. Eu não posso fazer isso. Eu mal cuido de mim.

O telefone tocou de novo. Dessa vez era a mãe.  
"Filho, você viu a ligação da escola?"  
"Vi, mãe. E agora?"  
"Vai ter que ir, né. Você é o irmão mais velho. O pai e eu vamos viajar a trabalho."  
"Mas mãe, eu não sei falar com professor..."  
"Aprende. Você já é grande. E o Nai gosta de você."  

Ela desligou antes que eu pudesse reclamar.

Eu fiquei olhando pro teto da loja.  
Será que eu dou conta?  
Será que eu consigo ser responsável por alguém além das pérolas?

"Não sei se eu dou conta, P'Phum."

Eu não sabia explicar direito porque aceitei ir na reunião. Mas acabei indo no dia marcado. Mesmo com medo e com o coração na mão.  
Quando cheguei na escola, vi um monte de pais de terno. E eu lá, de avental da loja e com cheiro de chá de leite.  
Tive vergonha por um segundo. Mas depois pensei: esse é o meu trabalho. E eu tenho orgulho dele.

O professor me recebeu muito bem. Falou que o Nai é um aluno quieto, mas inteligente. Que ele ajuda os colegas e nunca dá trabalho.  
Eu só fiquei ouvindo e assentindo. Por dentro eu estava explodindo de orgulho.  
Meu irmãozinho. O pirralho que eu cuidava quando era pequeno.

Na hora de ir embora, o professor disse: "O Nai fala muito de você. Diz que você faz o melhor bubble tea do mundo."  
Eu sorri. Pela primeira vez em muito tempo, um sorriso de verdade.

No caminho de volta pra loja, eu pensei em muita coisa.  
Em como a vida muda. Em como a gente cresce sem perceber.  
Ontem eu só queria abrir uma loja. Hoje eu tenho uma loja, um irmão pra cuidar, e clientes que gostam de mim.

Talvez eu não seja o filho perfeito. Nem o irmão perfeito.  
Mas eu vou tentar ser o melhor P'Pitch que eu puder.

Porque no fim das contas...  
Isso aqui é minha casa agora.

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