4 de set. de 2024

Let me free - Capítulo 02

Capítulo 02: História sem fim

A luz do poste piscava, teimosa. E eu continuava ali, sentada na calçada fria, com a jaqueta ensanguentada do Mark no colo. 
Eu não sabia quanto tempo tinha passado. Só sabia que minhas mãos não paravam de tremer. Medo? Frio? Ou por causa dele?

A ambulância demorou uma eternidade pra chegar. Quando finalmente chegou, os paramédicos me afastaram com pressa.
— Moça, deixa a gente trabalhar.
Eu assenti, mas não saí dali. Fiquei vendo eles colocarem soro nele, estancarem o ferimento, colocarem ele na maca.

Mark estava pálido. Muito pálido. Mas ainda estava vivo.
Antes de fecharem a porta da ambulância, ele abriu os olhos por um segundo e me olhou.
Não disse nada. Só me olhou.

E depois sumiu na noite.


Horas depois - Hospital Municipal

O cheiro de desinfetante me dava náusea. Eu estava sentada na sala de espera há horas, com a roupa suja e as mãos ainda manchadas de sangue. 
Uma enfermeira se aproximou.
— Você é parente do paciente?
— Não — respondi rápido demais. — Eu... eu só o encontrei na rua.
Ela me mediu dos pés à cabeça.
— Ele está estável. Perdeu muito sangue, mas vai ficar bem. Você pode ir pra casa agora.
— Posso vê-lo? — perguntei, com a voz falhando.
— Só amanhã. E só familiares.

Claro. Família. Eu não era nada dele.

Saí do hospital e fui direto pro meu trabalho. Não tinha como faltar. Se eu faltasse, perdia o dia. E eu precisava do dinheiro.
No restaurante, o dono, Sr. Than, me olhou de cima a baixo.
— O que aconteceu com você, Lin?
— Caí — menti. — Estou bem.

Ele suspirou e me entregou o avental.
— Vai trabalhar na cozinha hoje. Não quero cliente vendo você assim.

O dia inteiro foi um borrão. Pratos, panelas, gritos na cozinha. Eu só pensava em uma coisa: será que ele acordou? Será que ele está com dor?

No fim do expediente, já era quase meia-noite. Eu estava varrendo o chão quando ouvi a voz.
— Lin.

Meu corpo inteiro congelou.
Mark estava na porta. Apoiado na parede. Com curativo no braço e cara de quem não dormiu nada.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, largando a vassoura. — Você devia estar no hospital.
— Fugi — ele disse, simples. — Não aguentava ficar lá.

Eu me aproximei, preocupada.
— Você é louco? Vai abrir os pontos!
— Talvez — ele deu de ombros. — Mas eu precisava te agradecer. Pessoalmente.

Agradecer? Por quê?
— Você salvou minha vida — ele disse, me olhando direto nos olhos. — Ninguém nunca fez isso por mim.

Ficamos em silêncio. O barulho da rua entrava pela porta aberta.
— Por que você estava naquele beco? — perguntei por fim.
Ele desviou o olhar.
— Assuntos de família. 
O tom fechou. E eu entendi que não devia perguntar mais.

— Você está com fome? — eu disse, mudando de assunto. — Ainda tem arroz aqui.
Ele hesitou. Depois assentiu.
Sentamos no chão da cozinha, comendo de marmita. Dois desconhecidos. Dois quebrados. 
Mas pela primeira vez em muito tempo, eu não me sentia sozinha.

— Lin — ele falou de boca cheia. — Amanhã... você pode me acompanhar no hospital?
— Eu trabalho...
— Por favor.
E pela primeira vez, a voz arrogante dele falhou. Parecia um pedido de verdade.

Eu assenti.
— Tá. Mas só porque você vai desmaiar se for sozinho.

Ele sorriu. Um sorriso pequeno, torto. Mas um sorriso.

E naquele momento eu entendi o título desse capítulo.
Porque algumas histórias... parecem que nunca vão ter fim.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por comentar!! _ (: 3 」∠) _

Por favor Leia as regras

+ Sem spam
+ Sem insultos
Seja feliz!

Volte em breve (˘ ³˘)