27 de jul. de 2026

Ai Shika Iranee yo Vol.01 - Capítulo 03

Capítulo 03

"Sinto muito por mantê-lo aqui até tão tarde." O professor da turma de Sawa, Suzushima, fez um gesto para ele se sentar. Eles estavam no escritório.

"Tudo bem. Eu só ia matar o tempo antes do meu curso preparatório começar."

"O quê? Você está fazendo curso preparatório? Mas suas notas são tão boas!"

"Não tenho certeza se as faculdades vão me aceitar se eu estudar só o que eles nos dão na escola." Sawa deu de ombros à pergunta de Suzushima. Ele se perguntou por que o professor estava demonstrando interesse tão tarde.

A escola de Sawa era uma das escolas particulares de maior prestígio na província, uma instituição combinada de ensino fundamental II e ensino médio só para meninos. Todo ano ela aprovava vários alunos na Universidade de Tóquio, a melhor universidade do país, e por isso a escola era nacionalmente famosa. Mas a abordagem da escola era relaxada, então sua atmosfera era completamente diferente das escolas de alta pressão, as chamadas escolas "elevador" que levavam direto para as melhores universidades.

Isso também podia ser devido ao fato de a escola ser um pouco afastada da cidade: eram duas horas de trem até Tóquio. Era um lugar tranquilo, com a natureza cobrindo o bairro onde a escola foi construída, tornando possível apreciar as riquezas de cada estação do ano.

O pai dele trabalhava na prefeitura, e a mãe dele dedicava todo o seu tempo ao trabalho dela e à liga de mulheres local.

O irmão de Sawa era três anos mais velho que ele. Depois de se formar no ensino médio, ele passou um ano estudando para entrar em uma faculdade em Kansai. Ele disse que pretendia seguir os passos do pai como funcionário público. Sawa estava pensando em seguir o mesmo caminho que o irmão.

"Sobre o que o senhor queria falar comigo, professor Suzushima?" Sawa trouxe a conversa de volta ao assunto.

"Um aluno transferido vai entrar na nossa turma na semana que vem. Existem algumas circunstâncias especiais envolvidas."

Sawa suspirou sem pensar. Devia haver circunstâncias realmente incríveis para o garoto estar mudando de escola tão perto das provas da faculdade. "Que tipo de circunstâncias?"

"Você sabe o que é a Aliança Koryu?" Suzushima perguntou em voz baixa.

"Você quer dizer aquela grande gangue—" Sawa começou a responder, e então engoliu em seco. Ele olhou, incrédulo, mas Suzushima apenas o observou sem dizer uma palavra. "Não me importo com o tipo de problema que eles vão causar. Por que estamos deixando um aluno problemático entrar na nossa escola em primeiro lugar?"

Eles estavam, de certa forma, na escola de "elevador" mais prestigiada da província.

"Tenho certeza de que há uma série de questões de bastidores contribuindo para a situação. Não sei os detalhes, mas há rumores de que o chefão da Aliança Koryu e o presidente do conselho da escola...

...têm algum tipo de relacionamento. Então o filho do chefão está vindo para cá. E eu quero que você o ajude até que ele se estabeleça aqui."

"Mas por quê?"

"Porque você é o representante de turma. Isso não é motivo suficiente?" As palavras de Suzushima não davam margem para discussão.

"Mas eu não sei lidar com o filho de uma família de gangster."

"Sério? Eu achei que você tinha amigos desse tipo."

"O quê?"

"Sabe, todo mundo comenta como você andava com aqueles garotos de gangue de moto na escola."

Sawa encontrou o olhar perspicaz de Suzushima. Ele descobriu imediatamente de quem o professor estava falando. "Eles eram amigos meus do ensino fundamental. Não é nem perto da mesma coisa. Esses caras fazem parte da yakuza."

Era verdade que alguns dos amigos de Sawa tinham entrado para gangues de moto, mas apenas porque eles simplesmente amavam andar de moto. Claro, eles gostavam de arrumar briga. E Sawa sabia que eles tinham se metido em alguns pequenos problemas com a polícia. Ele não aprovava isso, mas quando eles estavam com Sawa, não passavam de garotos com quem ele tinha brincado no ensino fundamental.

"De qualquer forma, eu espero que você seja amigável e não o julgue. Você é um cara legal que diz o que precisa ser dito."

"Como o senhor pode simplesmente me ordenar"

"Eu entendo o quanto isso parece tirânico. Posso pelo menos lhe garantir que ele não é o tipo de cara que sai perdendo a cabeça"



"Para nada. De qualquer forma, independente das circunstâncias de adulto ou não, ele passou no exame de admissão."

"Senhor Suzushima!"

"Estou confiando isso a você. Você é um garoto confiável."

As palavras de Suzushima pesaram no coração de Sawa.

"Tem alguém aqui para vê-lo, Senhor Suzushima," alguém disse da entrada do escritório.

"Isso significa que ele está aqui. Vamos discutir o resto depois."

"Mas eu não posso forçá-lo"

"Ah, desculpe, esqueci a coisa mais importante."
Suzushima se levantou de um salto e, ao voltar, pegou um pedaço de papel e rabiscou algo nele.
"O nome do garoto é Uzuki Kobayakawa. Obrigado de novo," disse Suzushima enquanto se apressava para sair do escritório.

Um homem vestindo um terno azul-marinho estava parado na frente da porta aberta. Ele tinha aparência de intelectual, com o cabelo em uma risca lateral desalinhada e usando óculos, mas havia algo nele que não lembrava nada Suzushima.

Sawa só o viu de relance, de longe, então não podia ter certeza, mas percebeu a tensão no ambiente ao redor do homem.

"Você tem sido de grande ajuda," ele ouviu fracamente alguém dizer em uma voz monótona e sem vida. A porta se fechou e Sawa, deixado sozinho no escritório, olhou para baixo, para o bilhete.
"Uzuki Kobayakawa."
O aluno transferido com mau timing e circunstâncias especiais que ia dar tanto trabalho. Sawa repetiu aquilo várias vezes.

"O que isso quer dizer, eu ser 'confiável'?" Sawa murmurou enquanto voltava para a sala de aula para pegar sua mochila. Ele tinha gostado de ajudar no passado, mas nessa época do ano, com os exames se aproximando, Sawa queria evitar se envolver em coisas que tomavam muito tempo. Mas isso não significava que ele podia recusar o pedido de Suzushima na hora que ele fez.

Tudo o que ele podia fazer era rezar para que esse novo aluno não desse problema.

"Ele nem ouviu o que eu disse."
Sawa olhou para o relógio. Ele sentiu que já tinha ficado no escritório por um bom tempo, mas só tinham se passado cerca de trinta minutos.

"Provavelmente não sobrou mais ninguém aqui tão tarde."
"Como vou matar o tempo antes do cursinho?" Sawa se perguntou. Ele abriu a porta da sala de aula e então congelou.

Ele achou que não teria ninguém lá. Mas havia um garoto sentado em uma carteira perto da janela. Ele estava em silhueta contra a luz do sol poente. Então as narinas de Sawa captaram o cheiro de tabaco. As aulas já tinham acabado, então não tinha como dizer se um professor poderia passar por ali. E de qualquer forma, era uma loucura fumar em uma sala de aula.

"Se alguém te pegar fumando aqui, eles vão fazer mais do que te expulsar," Sawa disse automaticamente, fechando a porta atrás dele.



"Quem é você?", respondeu uma voz de barítono.

"Não foi isso que você aprendeu? Ser educado antes de pedir o nome de alguém para o seu?" Sawa retrucou. Ele colocou as mãos na cintura e deu um passo lento para frente. Conforme o ângulo da luz do sol mudou, ele conseguiu ver direito o garoto sentado na mesa.

Suas pernas longas estavam esticadas sobre a mesa, e ele estava usando jeans, não uniforme. Nas mãos ele segurava um cigarro e um livro de capa de papel. Sawa reconheceu a capa e percebeu que era o livro que ele tinha deixado na mesa.

Era O Estrangeiro, de Camus. Quando estava saindo de casa, ele o tinha colocado na bolsa para dar a um amigo na escola. Ele tinha comprado na escola média, mas não importava quantas vezes Sawa lesse, ele não conseguia entender por que era tão bom.

"Meu nome é Sawa e eu sou o representante da turma."
"E já que estamos no assunto, esse é o meu livro."

"Desculpa. Ele estava só jogado aqui, então peguei para passar o tempo."

O garoto tirou o cigarro da boca e pediu desculpas de forma mais fácil do que Sawa esperava. Ele balançou as pernas para baixo da mesa e se levantou.

Mesmo de longe, Sawa podia dizer que ele era alto. As pernas dele eram longas: quase na proporção de um modelo. Enquanto o garoto caminhava devagar em direção a Sawa, Sawa prendeu a respiração pela boa aparência dele.

O perfil do rosto fino dele mostrava um nariz perfeitamente reto. Abaixo das sobrancelhas bem desenhadas, os olhos puxados cortavam de forma afiada, com uma luz intensa. Aqueles olhos agora estavam voltados para Sawa, que estava diante deles.

Ele não reconheceu esse homem notavelmente bonito com o rosto perfeito e angular.

"Aqui," ele disse de forma rude, estendendo o livro.
"Você gosta de ler?"
"Não," o garoto respondeu sem hesitar. "Eu estava lendo só por causa do sol."
"Claro," Sawa disse de forma um tanto sarcástica, arqueando a sobrancelha por um momento. Ele esticou a mão para pegar o livro de volta.

Em _O Estrangeiro_, o personagem principal matou alguém e disse que o fez "por causa do sol". Sawa não tinha dúvida de que foi por isso que ele respondeu daquele jeito.
Sawa ficou impressionado com a resposta dele. "E aposto que você vai dizer que está fumando aqui por causa do sol também, né?"

"Não mesmo." O homem mudou de posição e ficou obscurecido pela luz do sol novamente. "Eu fumo porque eu quero."
Ele ofereceu o cigarro, segurando entre os dedos para Sawa. Pressionado, Sawa pegou o cigarro entre os lábios e a fumaça distinta do tabaco subiu pelas suas narinas e pulmões.

Sawa começou a tossir, e o homem pegou o cigarro de volta, dando uma tragada como se fosse a segunda natureza dele. "Você nunca fumou antes?"
"Claro que não."
Sawa estreitou os olhos para ele, com os olhos lacrimejando, mas o homem apenas riu. Ele deu um tapa no ombro de Sawa e passou por ele.

Aquele cheiro era claramente diferente do cheiro dos colegas dele. Era o cheiro de um homem.
"Então é você, Uzuki."
Eles ouviram uma voz monótona no corredor e a respiração de Sawa travou. Pareceu a voz que ele tinha ouvido no escritório.
"É, já estou indo."

Pela forma fácil como o homem respondeu, Sawa começou a ligar os pontos.
"Até já."
O homem acenou de forma desleixada enquanto ia para o corredor. Sawa correu atrás dele por impulso. "Espera!"

Sawa alcançou o homem, mas também o homem do terno que ele tinha visto com Suzushima no escritório. Tinha certeza. Agora havia algo imponente nele. Estava mais evidente de perto, talvez por causa da largura dos ombros no terno de duas peças. E tinha, como antes, algo nele que era diferente das outras pessoas.

"Esse deve ser ele: o aluno transferido sobre quem Suzushima me contou. Só precisava ouvir ele falar para confirmar."
"Então você só exige o nome das pessoas e se recusa a dar o seu?"

O homem se apoiou de lado, com uma mão no bolso, e olhou para Sawa com um olhar forte. Sawa ficou em silêncio diante do poder penetrante daqueles olhos.
"E quem é você?"

O homem de terno empurrou a ponte dos óculos e deu um passo à frente, mas o outro homem o bloqueou com a mão. "Cala a boca."
"Mas, Uzuki—"
"Deixa pra lá!"

Um arrepio subiu pela espinha de Sawa com a dignidade poderosa na voz dele enquanto repreendia o homem que parecia até mais velho que ele. Sem pensar, até Sawa ficou um pouco mais ereto. O homem de terno não disse mais nada e, sem mudar a expressão, reconheceu a situação sem palavras e deu um passo para trás.
"Você é bem bonitinho, para um garoto," o homem sussurrou, olhando para o rosto de Sawa com total seriedade.
"O-quê?"
"Uzuki." O coração de Sawa disparou enquanto o homem dizia o nome. "Uzuki Kobayakawa. Vou me transferir para esta escola na semana que vem. Você vai ser meu representante."

O homem não deu atenção ao espanto de Sawa e apenas deu um leve sorriso antes de virar as costas.



Na segunda-feira seguinte, havia uma estranha agitação no ar quando Sawa chegou na sala de aula um pouco atrasado.
"Você está atrasado, Sawa."
"Dormi demais."

Por algum motivo ele teve dificuldade para dormir na noite anterior. Ele tinha começado a ler um livro e acabou terminando. Claro, naquela hora já estava começando a clarear lá fora, e a luz do sol entrando pela fresta da cortina o deixou meio tonto.



Kobayakawa sentado na carteira de Soichi Takaoka, que tinha acabado de falar com ele, sentado naquele lugar. Ele era um figurão; tinha jogado com o time de rugby até o começo da primavera.

"Eu ouvi que vamos ganhar um garoto novo hoje. De Tóquio."

Sawa olhou. "Eu sei."

Ele não tinha conseguido esquecer aquilo desde que Suzushima tinha falado com ele. Mesmo estando sobrecarregado estudando para as provas e fazendo o trabalho da escola, ele não conseguia tirar o rosto de Kobayakawa da cabeça.

Especialmente aqueles olhos dele, que tinham tanto poder de penetrar a alma das pessoas. Aquilo não era algo fácil de esquecer. Sawa nunca tinha conhecido alguém com olhos como aqueles antes.

"Lembra como o Suzushima queria me ver depois da aula da última semana? Ele me contou sobre isso."
"Então você sabe sobre ele?"
"Sabe o quê?"
"Aparentemente ele é o herdeiro de uma família yakuza!"

Sawa franziu a testa. Ele não tinha contado isso para ninguém, e aparentemente a notícia se espalhou rápido.
"Você sabe se é verdade que o motivo dele ter saído da escola anterior foi porque ele espancou um cara até quase matar?"

As palavras dele mandaram um arrepio pela espinha de Sawa.
"Alguém estava aqui antes do garoto novo chegar e deu uma olhada nele. Ele disse que ele era muito bonito. Aposto que as garotas estavam se jogando em cima dele."

Takaoka estava se abandonando à curiosidade. Aquilo provavelmente explicava toda a agitação na sala.

"Eu não podia ser só um cara comum se ele estava mudando de escola numa época como essa."
"O que você quer dizer com 'você sabia'?" Por algum motivo, Sawa sentiu uma raiva subindo no estômago.
"Eu só imaginei que os garotos de Tóquio seriam diferentes dos caras como a gente..."
"Você não pode simplesmente decidir o que é verdade e o que não é quando você não sabe nada sobre a pessoa." Ele bateu as mãos na mesa e se levantou de um salto. O barulho da sala sumiu num instante com a voz ameaçadora de Sawa. "Isso vale para o resto de vocês também! Vocês nem sequer conheceram o garoto. Não façam julgamentos sobre pessoas quando tudo o que vocês têm é um monte de especulações e rumores. Essa é uma ordem! Ficou claro?"

"O que está acontecendo com você, Sawa?" Takaoka sussurrou para Sawa enquanto ele se sentava na cadeira. Ele ainda estava nervoso. Antes que ele pudesse responder, a porta da frente da sala deslizou para abrir.

"Está todo mundo tão quieto hoje." Suzushima entrou na sala com um olhar desconfiado no rosto, vestido com um blazer cinza. Um suspiro percorreu a sala, como se eles estivessem gritando as palavras de Sawa. "Eu normalmente nem consigo me ouvir gritando aqui, vocês estão tão altos. Vocês não devem estar se sentindo bem se estão tão quietos."

Suzushima parou na mesa dele na frente da sala e fez a chamada como de costume.
"E o Yasuda está ausente. Isso completa a chamada. Bem, tenho certeza de que todos vocês já sabem disso, mas temos um aluno novo. Pode entrar, Kobayakawa."

De ombros erguidos, os olhos de Kobayakawa percorreram

a sala, e a classe ficou inquieta.

"Este é nosso aluno novo, Uzuki Kobayakawa. Kobayakawa, vou deixar nosso representante de turma cuidar do resto. Sawa, levanta a mão."

Uma tensão percorreu o corpo de Sawa quando Suzushima o chamou. "Aqui, senhor."
"Sua carteira é ao lado da dele. Se tiver dúvidas sobre as matérias optativas ou qualquer outra coisa, ele vai te ajudar."
"Tá," Kobayakawa respondeu de forma desleixada e foi direto até Sawa. Ele não deu atenção aos olhares dos alunos dos dois lados. Ele chegou na carteira que tinha sido preparada para ele.
"Oi, eu sou Junya Sawa."

Sawa estendeu a mão para Kobayakawa, sem ousar mencionar a última vez que eles tinham se visto. Mas Kobayakawa não reagiu além de lançar um olhar para Sawa. Ele se jogou na carteira e virou para longe dele.

"Sawa, você..." Takaoka começou a se virar, mas Sawa chutou o fundo da carteira dele.
"Você ainda não tem seus livros, né? Você pode compartilhar os meus por enquanto." Sawa moveu a carteira dele para o lado da de Kobayakawa e colocou o livro dele entre eles. Mas Kobayakawa apoiou o cotovelo na mesa e se recusou a olhar para ele.



Sawa mal conseguia ver o perfil dele, mas estava totalmente sem expressão. Sawa franziu as sobrancelhas e apertou os lábios. Ele sentiu o cotovelo de Kobayakawa na mesa, então desistiu de olhar para ele por pura teimosia, e isso o irritou.

"Vamos começar. Abram os livros na página 63 e" Da mesa dele na frente da sala, Suzushima estava começando a aula. Ele ficou na frente do quadro e escreveu números com o giz.

Kobayakawa virou o rosto para frente, mas não estava olhando para o quadro nem para o professor.

Sawa encarou o lado do rosto dele, então de repente empurrou o cotovelo de Kobayakawa debaixo do dele. O queixo de Kobayakawa bateu na carteira com a pancada inesperada.

"Ai!"

Um barulho surpreendentemente alto ecoou pela sala.

"O que você está fazendo, Sawa?" Takaoka murmurou como aviso. Ele e o aluno ao lado de Kobayakawa se viraram para olhar para eles ao mesmo tempo. Eles ficaram estupefatos com a visão lamentável da cabeça de Kobayakawa caída sobre a mesa.

"D-desculpa."
Sawa só tinha cutucado o cotovelo de Kobayakawa para chamar a atenção dele. No máximo, ele achou que ele ia afastar a mão dele da cabeça. Ele nunca imaginou que o queixo de Kobayakawa fosse bater tão forte na mesa.

Aflito sobre o que deveria fazer, Sawa decidiu pedir desculpas.

"O que você quer dizer com 'desculpa'?" Kobayakawa levantou o rosto, com a mão pressionada contra os lábios. "Não seja idiota de fazer algo estúpido em primeiro lugar se você vai só pedir desculpas depois."

A voz irritada de Kobayakawa ressoou pela sala. Os alunos tinham estado olhando para o quadro até então, mas agora todos se viraram para olhar para Kobayakawa e para Sawa para ver o que estava acontecendo. E Suzushima também.
"O que está acontecendo aí atrás?"

"Ele está sangrando!" Sawa interrompeu Suzushima, que estava começando a ir investigar.

"Sangrando?"

"Sim, o Kobayakawa está sangrando."
Sawa levantou imediatamente e agarrou o queixo de Kobayakawa.

O som da cadeira dele batendo no chão fez um barulho estranho. Ainda sem entender a situação, Kobayakawa encarou os olhos de Sawa, com o queixo firme na mão de Sawa.

"Ai meu deus, você está certo! É um banho de sangue!"

Takaoka também estava se debruçando para ver o que tinha acontecido e ficou enjoado. 

"Parece feio, Kobayakawa. Você mordeu a língua ou algo assim?"

"Desculpa. Eu bati no queixo dele."

Sawa tirou apressado um lenço do bolso e pressionou com força contra a boca de Kobayakawa.

"O que você está fazendo?" Kobayakawa arrancou o lenço. Ele jogou de volta em Sawa, mas franziu a testa quando viu como estava vermelho.

"Pronto, agora o que a gente faz? Senhor Suzushima, eu levo o Kobayakawa para a enfermaria."

"Boa ideia."

"Me dá um tempo. Isso não é nada! Eu..."
O gosto de sangue deve ter se espalhado pela boca dele enquanto ele falava. Kobayakawa ficou quieto, com um olhar inquieto no rosto.
"Você quer que eu vá também, Sawa?" Takaoka perguntou, preocupado.

"Não, tá tudo bem. Vamos, Kobayakawa."
Kobayakawa assentiu a contragosto.

Kobayakawa não disse uma palavra até chegarem à enfermaria.

"O senhor está aí? É o Sawa, do terceiro ano."
Sawa bateu na porta, mas não teve resposta.

"O que foi?" A voz de Kobayakawa saiu abafada com o lenço pressionado contra a boca.

Sawa procurou na enfermaria e encontrou um bilhete na mesa da enfermeira. "Diz aqui 'volta em trinta minutos'."

"Então vamos voltar pra sala."

"A gente não pode ir assim. Aqui, bochecha e cospe todo o sangue que está na sua boca."

Kobayakawa obedeceu às instruções de Sawa por enquanto, fazendo gargarejo com a água disponível na enfermaria. A primeira vez que ele cuspiu, a água estava vermelha viva.

"Nossa." Sawa se afastou rápido ao ver aquilo e Kobayakawa levantou as sobrancelhas.

"Não aja tão impressionado por tão pouco." Kobayakawa olhou para Sawa apontando para o canto da boca.

"É, bem, você ficou bem pálido também quando viu o sangue no lenço." Sawa retrucou.

"Mas eu não lido bem com sangue..."

Os olhos de Kobayakawa se arregalaram por um instante, depois ele pareceu que ia explodir de rir, mesmo ainda tendo água na boca.

"Como eu pude? Você estava gritando. Aposto que ouviram você nas salas do lado também."

"Ah, droga. Isso dói."
Sawa suspirou. Ele colocou todos os materiais que tinha juntado numa bandeja e sentou no chão na frente de Kobayakawa.

"O que foi, chateado por ter que cuidar do garoto novo?"

"Não é isso."

Sawa olhou para as prateleiras, pensando se devia passar água oxigenada no interior da boca de Kobayakawa. Depois de procurar com cuidado, ele finalmente achou um remédio para afta.

"O que você quis dizer com isso?"

"Você podia abrir a boca pra mim?"

"Abre a boca."

"Deixa eu ver o corte. Você ainda sente gosto de sangue?"

"Eu te falei que tô bem. O que tem de tão ruim um pouco de sangue?"

"Não é bom pra você. Agora deixa eu ver isso."
Sawa esticou a mão teimosamente para o queixo de Kobayakawa, mas Kobayakawa afastou ele. Sawa tentou de novo e foi empurrado de novo. Essa vai-e-volta continuou por vários segundos, mas o temperamento de Kobayakawa era mais curto que o de Sawa.

"Eu disse que tô bem!" Kobayakawa agarrou o pulso de Sawa e puxou com força para ele.

"Ei!" Sawa perdeu o equilíbrio com esse desenvolvimento inesperado. O corpo dele seguiu a mão dele, e ele caiu pra frente, colidindo com o peito de Kobayakawa.

"Q-que diabos?"

Aparentemente Kobayakawa não esperava que isso acontecesse também. Ele perdeu o equilíbrio e caiu de costas no chão, com Sawa caindo em seus braços.

"Aih!"

Houve um baque surdo, e Sawa sentiu uma dor intensa na testa. Ele pressionou as mãos contra ela.

"Você tá bem?"

"Bati a cabeça."

Sawa rolou de costas para avaliar a situação.

"Por que você fez isso?"

"Você não precisava cair em cima de mim também, sabe." Kobayakawa fez cara feia e se apoiou nos braços para se levantar do chão. Ele também tirou o braço que estava apoiando a cabeça de Sawa. Ao vê-lo remover o braço casualmente, Sawa percebeu de repente que Kobayakawa o tinha protegido.

Um cheiro de tabaco chegou ao nariz dele.

"Seu braço está bem?"

"É, tá de boa. Eu mal bati."

Ele rodeou a cabeça dele casualmente e fez cara feia só por um instante. Sawa tremeu de medo, mas assim que Kobayakawa percebeu, ele rapidamente espantou os medos dele.

"Acho que minha boca começou a sangrar de novo. É isso. Desculpa."

Reclamando do gosto, Kobayakawa se levantou apressado e foi cuspir o sangue na pia. Sawa se levantou também enquanto o som da água correndo enchia a sala.

"Desculpa."

"Tanto faz. Ia acontecer de qualquer jeito," Kobayakawa disse de novo quando viu Sawa com cara de cachorro que levou um chute.

"Mas é culpa minha você estar sangrando, e agora..."

"Tá tudo bem. Isso não é nada comparado com seu azar de ter que ser babá de mim só porque você é o representante de turma." Kobayakawa jogou a cadeira no chão com os pés.

"Kobayakawa—"

"Você já ouviu falar que meu pai é o chefe de uma gangue, certo?" Kobayakawa perguntou com um sorriso zombeteiro enquanto tirava um cigarro do bolso da jaqueta como se fosse a coisa mais natural do mundo. Assim que ele colocou na boca, Sawa arrancou de sua mão.

"O que você está fazendo? Você também não pode!"

"Eu nunca fumei e não vou começar," Sawa retrucou, agarrando a mão de Kobayakawa que ainda segurava o cigarro e jogando no lixo. 

"Eu já te falei antes: se pegarem você fumando na escola, você vai ser expulso."

"Não é a primeira vez."

"Você fuma só porque quer. Bem, isso não é bom o suficiente até você ser adulto." Sawa de repente enfiou a língua para fora para Kobayakawa. 

"E você está tentando me impressionar me dizendo que seu pai é o líder de uma gangue? Isso faz de você parte da gangue também, já que você é filho dele?"

"E—eu—"

"Eu não ligo se é ou não. Esta é uma escola, e na escola você segue as regras da escola. Até onde eu sei, você está numa gangue, certo? Além disso, você é novo aqui. Até se acostumar com como fazemos as coisas aqui, é melhor você calar a boca e fazer o que eu te disser."

Sawa soltou tudo o que vinha querendo dizer. Finalmente ele ficou sem fôlego e, embora seus ombros tremessem, ele não desviou os olhos de Kobayakawa. Kobayakawa olhou para Sawa por um longo tempo, então finalmente gaguejou como se não pudesse mais se segurar e explodiu em risada.

O queixo de Sawa caiu. Ele não fazia ideia de por que Kobayakawa estava rindo dele.

"Você é muito estranho," Kobayakawa disse, segurando a barriga e rindo.

"Não sou, não. Eu só disse a verdade," ele respondeu, tentando soar indignado, mas por dentro Sawa estava aliviado.

Ele vinha tentando ignorar, mas as palavras "filho de mafioso" passaram pela mente dele de qualquer jeito. Quem sabia o que poderia acontecer com ele se ele dissesse a coisa errada? Foi exatamente por isso que ele não queria ser responsável por coisas assim. Mesmo que ele soasse como se estivesse no controle, a verdade era que dúvidas como aquela o assombravam.

Mas enquanto ele via o garoto rir, todos os seus estereótipos e preconceitos desapareceram.

Kobayakawa pode até ter tido alguns hábitos rudes e ter falado um pouco de forma grosseira, mas Sawa percebeu que ele era só um estudante de colegial como ele.

"Tudo o que eu disse foi que isso é uma droga."

"É, isso. Acho que é bem horrível, também." Ele não soou nem obviamente autocomiserado quando disse isso, mas isso fez tudo ficar mais doloroso de ouvir.
"Só pra você saber, eu não estava falando de ter que olhar depois de você," Sawa o corrigiu.

"Então sobre o que você estava falando?" Kobayakawa se virou para olhar Sawa diretamente nos olhos. Os olhos dele focados em Sawa, parecendo penetrar sua alma.

"O fato de que as pessoas me ouviram gritar."
"Você quer dizer porque eu ouvi você? Quem liga? É a verdade, afinal."

"Mas não era isso que eu queria dizer." Ele negou veementemente a interpretação de Kobayakawa.

"Sawa, o que—?"

"Eu não sei qual é a sua história. Mas seja lá o que for, agora que você está usando nosso uniforme escolar, você pertence aqui. Falta menos de um ano para a formatura, então não temos muito tempo. Mas durante o pouco tempo que temos, eu gostaria de ser seu amigo." Ele não estava dizendo o que realmente queria dizer, mas Sawa tentou se expressar o melhor que pôde.

Quando Suzushima tinha falado com ele sobre Kobayakawa, ele tinha assumido que seria um saco. Ele já tinha problemas suficientes para lidar agora com as provas se aproximando. Ele não entendeu por que estava sendo forçado a cuidar de outra pessoa também. Era para ser "até ele se acostumar com a escola", mas dado o contexto, Sawa imaginou que poderia ser impossível para Kobayakawa se adaptar se as coisas começassem mal.

Mas depois da chance de encontro deles mais cedo, havia algo sobre Kobayakawa que ele achou interessante. Não era só a audácia de acender casualmente um cigarro na sala de aula. A força dos olhos de Kobayakawa quando ele olhou para Sawa exerceu algum poder poderoso sobre o coração dele.

Ele não se importava se Kobayakawa era filho de uma família yakuza ou qualquer outra coisa. Ele queria conhecer mais sobre Kobayakawa, o indivíduo.

Um impulso vago estava crescendo agora dentro de Sawa. Mas não importava como ele tentasse expressar seus sentimentos, eles acabavam soando como mentiras.

A cabeça de Sawa caiu de frustração por não conseguir transmitir seus sentimentos e ele apertou as mãos em punhos cerrados.

"Você é um cara realmente estranho."

"Você acha?"

Kobayakawa deu de ombros para a pergunta de Sawa. "Na minha última escola, todo mundo ficava longe de mim. Eles disseram que não queriam nada com um cara como eu. Todo mundo acreditou nas coisas sobre meu pai e todos os rumores sobre mim, e ninguém nunca tentou me ver por mim mesmo."

Sentado na cadeira, Kobayakawa abraçou as pernas e as puxou para o peito.
"Não me incomoda. Não tenho vergonha de ser filho do meu pai. Provavelmente vou seguir os passos dele quando me formar. Você me perguntou se eu sou um gangster, também, só porque eu sou filho de um líder de gangue. No meu caso, acho que não. Então decidi que realmente não me importava com a escola. Mas alguns caras bem chatos continuavam me dizendo que eu deveria ir para a escola enquanto eu ainda podia. Então decidi que ficaria até a formatura para tirá-los do meu pé."

Não havia traço de autocomiseração na voz dele. Kobayakawa soou bastante distante enquanto falava.

"Mas uma vez que eu te vi, pensei que talvez não fosse tão ruim ir para a escola."

"Sério?" Sawa perguntou com cautela.

"Achei, é, por que não se divertir um pouco melhor por uma mudança?" Kobayakawa deu um sorriso tímido. O coração de Sawa bateu mais forte e suas bochechas ficaram quentes com aquilo o primeiro sorriso que ele já tinha visto no rosto de Kobayakawa. Ele nunca tinha imaginado que aquele homem pudesse ter um sorriso tão gentil. A luz poderosa nos olhos dele parecia tão bondosa agora, parecendo se envolver ao redor da alma de Sawa.

De repente o nariz de Sawa captou o cheiro da colônia de Kobayakawa. Não era nada como ele já tinha cheirado antes o cheiro de um homem.

Sawa encarou Kobayakawa. Talvez ele conseguisse aguentar um pouco mais. Eles não estavam se encarando de forma impessoal, mas como um ser humano para outro. Bem quando ele decidiu dar um passo à frente, a porta do consultório da enfermeira se abriu com estrondo.

"Hã? O que você está fazendo aqui, Sawa?"

Sawa congelou na hora e se virou para olhar para a pessoa que tinha falado. A enfermeira estava na porta, usando uma jaqueta branca. A enfermeira, um polipalo usando óculos, olhou para Sawa com aborrecimento.

"Ah, éele bateu o queixo. A boca dele está sangrando."

"Eu não reconheço ele. Mas agora que você falou, lembrei. O senhor Suzushima me contou sobre o aluno novo que estava vindo."

A enfermeira revistou a mesa até achar uma lanterna e então foi ficar na frente de Kobayakawa.

"Onde você se machucou?"
Ela segurou o queixo de Kobayakawa com brusquidão e virou o rosto dele com desaprovação.

"Tá tudo bem agora."

"Eu vou ser quem decide isso, obrigada. Agora abre e não faz cara de boca de mármore.
Ou tem algum problema? Você está com vergonha de abrir a boca, como uma garotinha?"

Parecia que os insultos deliberados da enfermeira tinham funcionado perfeitamente para atingir o orgulho de Kobayakawa.
"Quem você pensa que é?"
"Nesse caso, você pode abrir a boca bem grande pra mim? Que garoto bonzinho."

Agindo como uma dentista com uma criança pequena, a enfermeira conseguiu fazer Kobayakawa abrir a boca sem dificuldade. Ela estava iluminando o interior da boca de Kobayakawa quando finalmente percebeu que tinha caído na dele.
Mas já era tarde demais para calar a boca de novo naquele ponto, então ela colocou com diligência, embora ele fizesse alguns barulhos de dor no fundo da garganta.

"Ah, aqui está. Você deve ter batido na beirada de um dente. Deve ter doído. Aposto que saiu muito sangue."

"Sim, saiu," Sawa respondeu por Kobayakawa, que tinha ficado em silêncio.

"O que aconteceu?"

"Ele estava apoiado no queixo na mão e eu bati o cotovelo nele."

"Entendo."

"Então ele bateu o queixo na carteira."

"E é assim que ele cortou a boca?"

A enfermeira estava olhando para ele com cara séria, mas as mãos começaram a tremer.

"Pare de rir!"

Kobayakawa parecia estar ficando sem paciência. Ele tinha aguentado tudo até aquele ponto, mas agora ele bateu nas mãos da enfermeira e se afastou. Quando ele gritou com ela, a enfermeira se dobrou, com os ombros tremendo de rir.

"Uh, senhor?"

"É tão engraçado que um cara esperto como ele se machucasse tanto só por bater o queixo numa mesa." A enfermeira não conseguiu mais segurar o riso por mais tempo. Ela se agarrou no estômago e ofegou.

"Que legal, rir da dor dos outros desse jeito," Kobayakawa disse, irritado, e se levantou para sair do consultório.

"Ei, Kobayakawa! Espera!"

"Já tive o suficiente do seu tratamento."

A voz da enfermeira veio de trás de Sawa, lutando para suprimir o riso. "Mas o remédio dele—"

Kobayakawa saiu da sala antes que ela conseguisse terminar.

"O sangramento dele parou, então está tudo bem. Se ele levar outra pancada, o sangramento pode voltar, então peça pra ele evitar comer coisas duras o máximo possível. Você fala isso pra ele?"

"Tá bom."

Sawa fez uma reverência educada e correu atrás de Kobayakawa, que já tinha saído na frente.


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