27 de jul. de 2026

You are to me Vol.01 - Capítulo 04

Capítulo 04 – Termosfera

Acontece que o príncipe dos corações, na verdade, era um tagarela de primeira.

Tagarela? Não, obrigada. Nuh-uh. Rejeitado. Ele e tão indesejável quanto aquele tipo de gente que fica brava se você não responde na hora. Na minha opinião, assassinos são melhores. Você fala demais. Demaaais! Conhece teu lugar, encostado.

Nos encontramos no santuário da Mana às 16h. Depois passamos uma hora numa cafeteria. Depois, mais uma hora num restaurante italiano. E ela pagou. Depois, mais uma hora nessa padaria. E sim, ela disse que ia pagar também. E a Yukari só falava, falava, falava. Será que lhe falta um parafuso? Tá treinando pra um triatlo, é? A cafeteria é a natação, o restaurante italiano o ciclismo e a padaria a maratona?

Tentei fazer ela ir direto ao ponto várias vezes, mas todas as vezes ela dizia: “Garanto que tudo isso é necessário, mesmo que você ainda não entenda” e “É importante que eu diga tudo de uma vez. Se continuar em outro dia, não vai funcionar.” Essa mulher ficaria falando por horas se não houvesse um limite de tempo, então que bom que vamos terminar tudo hoje. Foi o que eu percebi depois de 2 horas.

O conteúdo do que ela disse, de vez em quando, até que era interessante. Se ela não tivesse conseguido prender minha atenção, eu já teria surtado. Eu não conseguia imaginar a Mana com cabelo preto liso e longo, de uniforme marinheiro. Se tivesse alguma foto, eu queria ver.

O príncipe dos corações continuou falando com tranquilidade.

“Eu tinha certeza, sabe? Tinha certeza de que a Mana ia responder com cara de encrenca: ‘E por quê?’. Ou talvez me surpreender e dizer ‘Não sei’. Até uma resposta assim me deixaria sem escolha a não ser calar a boca. E tudo bem calar a boca. Se a Mana tivesse respondido ‘Não sei’, minha vingança teria sido completa.

Mas se você me perguntar por quê, eu não saberia responder. Aparentemente, existem pessoas que não sentem dor. Analgésicas, por assim dizer. Como você explicaria dor para essas pessoas? Eu não saber explicar é uma situação parecida. Você não acha ridiculamente arrogante achar que devemos entender tudo sobre os outros? Como você acha que se sentem as pessoas que nasceram sem sentir dor quando mandam elas ‘tentar entender a dor alheia’? Do jeito que eu vejo, essa exigência mostra justamente uma falta de compreensão da ‘dor alheia’.

‘Por que o céu é azul?’ Como você acha que a Mana respondeu a essa pergunta?”

Yukari ficou em silêncio.

Por um segundo duvidei dos meus olhos e ouvidos, mas era óbvio: a boca da Yukari não se mexia e eu não ouvia a voz dela.

Parecia que ela estava esperando minha resposta.

Que diabos? A Terra parou de girar, de repente? Era tão improvável quanto isso, a Yukari calada, esperando minha resposta. Era como a sensação que fica depois de uma longa viagem de barco, quando você ainda sente o balanço das ondas em terra firme. Mesmo calada, parecia que a Yukari ainda estava tagarelando.

Entendi. Essa conversa está acabando. Não. Eu vou fazer ela acabar.

“...Acho que ela respondeu perguntando ‘Por que os corvos grasnam?’”

“Boa. Se você responder ‘Por causa dele mesmo’, ela pode retrucar ‘Então o céu ser azul também é por causa dele mesmo’. Mas isso não teria causado um incidente.

Aqui vai a resposta.

A Mana, enquanto eu estava deitada de barriga para cima, montou em mim e──”

“Espera um pouco!”, eu disse, cortando pela primeira vez o discurso infindável da Yukari. Não me diga que ela me prendeu por 3 horas, pagando tudo, só pra falar sem parar por isso. “Olha como a gente se dá bem! Você é só uma chata.” É isso que tudo isso queria dizer?

Yukari baixou o olhar, desviando o meu, e soltou uma risada baixa. Riu por tanto tempo que eu comecei a ficar sem jeito.

“Infelizmente, a diversão que você está imaginando não aconteceu. Ah, desculpa, não é bom presumir que foi divertido. Eu não sei como é. Nesse caso, estou do lado das pessoas sem sensibilidade à dor. Mas então, acho que a maioria não tem esse tipo de sentimento. Provavelmente.”



“Vamos voltar para a história.

‘A Mana, enquanto eu estava deitada de barriga para cima, montou em mim──’”

Não me importou que a Yukari desse a desculpa de que não tinha esse tipo de sentimento. Eu não achei graça nenhuma. Quer dizer, eu também não consigo me relacionar com esse tipo de sentimento. Não, bem... talvez um pouco. Mas mesmo assim, na prática não tinha como. Dito isso, mesmo que na prática eu não tenha esse tipo de sentimento, ainda fiquei um pouco irritada.

Enquanto eu me ocupava com desculpas, Yukari continuou falando.

“──A Mana cobriu os dois olhos com as palmas das mãos.

‘Ainda está azul?’, ela perguntou.

‘Claro que está azul.’

‘E se esse olho nunca mais pudesse enxergar?’

‘Bom, ainda seria azul.’

‘Então, vamos testar.’

"A Mana enfiou os dedos nos meus olhos.”

             *

Junko, tenho certeza de que te disse isso no começo: “Tenho certeza de que, ao passarmos por este túnel, vou me transformar em outra coisa”. Parece que foi o que aconteceu. Vou ser direta.

Quando ela ouvia palavras desagradáveis, a Mana tentava calar a outra pessoa foi isso que eu afirmei, e foi disso que você reclamou, dizendo que era incoerente e leviano. Já que você foi tão longe, deixe-me dizer o que penso também.

Como mais a atitude da Mana aqui deveria ser interpretada?

" Eu já tinha dito isso”A Mana precisa eliminar as palavras desagradáveis. E para isso, não tem medo nem escrúpulos quanto aos métodos que usa.” Me diga, é possível entender a resposta da Mana aqui de outra forma?

Talvez você entenda, ó minha Grande Criadora. Você tem a sensibilidade que eu não tenho. Mas peço que não me imponha esse seu entendimento. Humanos com sensibilidades diferentes são moradores de universos diferentes; eles entendem as coisas de formas diferentes.

Sinto que foi isso que a Mana estava tentando me dizer naquela época. “O céu é azul”, essa percepção que eu tinha era algo que não podia ser separado do meu sentido da visão. Não se sustentaria em outros universos. Sinto que foi isso que ela tentou me transmitir.

             *

“Ei, você não está com boa cara. Está com fome? Vou pedir mais um conjunto de bolo. Já estamos aqui há um bom tempo, afinal.”

O príncipe dos corações chamou uma garçonete e pediu para as duas sem nem me perguntar.

“Os seus o──”

Foi tudo o que consegui dizer.

“Como pode ver, estão funcionando bem. Talvez eu tenha tido sorte, ou a Mana pegou leve comigo, ou talvez o corpo humano seja só resistente. Bem, provavelmente foram todas as opções.”

“Deu problema grande?”

“Deu. Suspensão e liberdade condicional.”

Finalmente entendi por que elas eram tão secretas sobre os motivos da transferência. Teria que ser uma situação bem complicada para elas quererem contar essa história.

“A suspensão foi uma punição leve, mas os pais dela não aceitaram. Os pais da Mana disseram que não conseguiam entender o motivo e estavam profundamente perturbados com tudo. Já que a Mana tem esse tipo de personalidade, eu tive que me levantar e defendê-la. Esse meu jeito prolixo de falar me ajudou muito, sabe? Assim como fiz hoje, levei meu tempo falando e consegui restaurar a relação da Mana com os pais.”

“Por que ir tão longe?”

“Somos amigas.”

“Mesmo depois dela ter feito isso com você?”

“Foi um pouco problemático, mas não foi grave o suficiente para eu cortar relações.”

Naquele momento, o conjunto de bolo que a Yukari pediu chegou. Sem nem olhar que tipo de bolo era, peguei o garfo, enfiei o bolo na boca e engoli sem nem sentir se era doce ou não.

Que diabos. No fim, as duas realmente têm um caso. Vocês só estão se gabando da vida amorosa. Que se dane. Eu odeio isso.

“Embora eu tenha dito que restaurei a relação, foi só o mínimo. A única coisa que sumiu foi o medo deles da Mana como um monstro imprevisível.”

O príncipe dos corações abriu as cortinas do segundo ato.

Existe um trabalho chamado Oficial Voluntário de Probation. São voluntários que ajudam o infrator, no caso adolescentes, na reabilitação. Por causa da natureza da profissão, monges e pastores frequentemente se voluntariam. O Oficial Voluntário de Probation da Mana era um monge de um certo templo. Esse monge tinha boa relação com alguém da administração do COMS Hakusan.

Na administração do COMS Hakusan, havia o desejo de anos de montar um santuário para uma Abençoada. Sabiam que daria burburinho e ficaram felizes por poderem usar os lotes vazios. O problema era quem seria a Abençoada. Uma Abençoada nunca pode tocar em dinheiro, e precisa viver sozinha. Não conseguiam encontrar alguém que não só estivesse disposta a viver uma vida inconveniente e solitária, mas que também fosse boa para a imagem do COMS Hakusan e fosse capaz de escrever os Fudas Abençoados.

A Mana preenchia todas essas condições.

A Mana precisava provar aos pais que estava se esforçando para se tornar uma pessoa correta. Se ela pudesse passar pelas provações de viver como uma Abençoada, conseguiria mostrar que tinha se tornado “correta”, e a relação entre pai e filha seria recuperada. Era essa a ideia. A vida inconveniente e solitária da Mana como Abençoada era uma provação para ela.

A Mana tem uma personalidade simples. Não é uma receita para popularidade entre pessoas da idade dela, mas eles não se importavam com a quantia ínfima de dinheiro que crianças gastavam no shopping. O ar maduro da Mana fazia sucesso entre quem tinha muito dinheiro. Para completar, ela ainda tinha habilidade com caligrafia e sabia escrever em cursivo.

“E foi assim que a Mana se tornou uma Abençoada.

Agora o terceiro ato: ‘Como eu me tornei uma governanta?’”

“Uma governantaaa?”

             *

O príncipe dos corações deu uma risada baixa por um longo tempo.

Governantas não são aquelas pessoas que servem a nobreza ocidental em mansões luxuosas? Em que parte a Yukari lembrava uma governanta? Mas quando pensei nisso, a Yukari nunca saía do lado da Mana no caminho de ida e volta para a escola. Para a Mana, que não podia tocar em dinheiro, a Yukari era uma necessidade. Acho que ela era algo como uma governanta.

Yukari finalmente parou de rir e começou a explicação.

“A palavra japonesa para governanta, ‘shitsuji’, na verdade é bem antiga. Na corte imperial do período Heian, existia um cargo chamado ‘shitsuji’. De fato, até hoje, em templos maiores e dependendo da seita, ainda existem pessoas ocupando o cargo de ‘shitsuji’. É uma posição onde alguém que não renunciou ao mundo secular cuida da parte administrativa do templo. ──Ou foi o que ouvi do oficial voluntário de probation designado para a Mana.

Quando ouvi isso, achei a parte de ‘não renunciar ao mundo secular’ do meu agrado. E então, comecei a me chamar de ‘shitsuji’, ou ‘governanta’. A Associação──A Associação das Abençoadas me deixou usar esse título e me contratou. Antigamente, pessoas nessa posição eram chamadas de ‘responsáveis pelo cofre’, e esse dever era rotacionado entre várias pessoas. Porém, achei que a palavra ‘dever’ não era adequada considerando que não haveria rodízio.”

Ah, então a Yukari também trabalhava para a Associação das Abençoadas. Agora que penso nisso, seria mais estranho se ela estivesse cuidando do dinheiro da Associação e não fizesse parte dela.

“Espero que você entenda a história por trás do nome agora. Bem, em seguida vem a questão de por que aceitei essa posição.

O que você acha que é o motivo?”

Yukari esperou minha resposta.

Eu não quero responder. E se fosse porque a Mana implorou com lágrimas escorrendo no rosto, dizendo “Precisa ser você.”? Estou cansada de ouvir sobre o caso de amor delas. Que se dane.

Yukari continuou esperando minha resposta. Por fim, cedi e disse,

“...Porque vocês são amigas?”

“Essa seria a maior razão. Mas, não é só isso.

Pode soar estranho eu dizer isso, mas──eu me senti responsável por tudo. Se eu nunca tivesse me aproximado da Mana, ela nunca teria feito esse tipo de coisa.”

Nossa, que chata. Ela só está se gabando ainda mais da profundidade da relação delas!

“Mas você não acha estranho?”

“O quê?”

“Mesmo eu sendo culpada por ter me aproximado dela, por que não houve nenhuma tentativa de colocar distância entre nós?

Vou te deixar com isso: a Mana provavelmente é lésbica. Eu, por outro lado, não sou.”

O príncipe dos corações pegou o recibo e foi embora.

             *

O Conto do Cortador de Bambu. A Princesa Kaguya é uma criminosa da lua, e como punição pelo crime, é banida para a Terra. Porém, em O Conto do Cortador de Bambu, não é mencionado em nenhum momento qual crime a Princesa Kaguya cometeu.

Vamos comparar a Mana com a Princesa Kaguya.

A Mana foi punida com o dever de uma Abençoada. Seu crime foi cegar a amiga por um motivo sem sentido. Ela disse, “Então, vamos testar” e tentou arrancar os dois olhos da amiga. Esse é um crime horrível e imperdoável. Exatamente por o motivo ser sem sentido, esse foi um crime horrível e imperdoável. Esse foi um pecado que transformou a pecadora de humana em uma besta desconhecida.

Porém, ações que parecem horríveis na Terra ganham outra cor na lua.

Vamos mudar o cenário do conjunto habitacional onde ela morava com a família para um deserto infinito e desolado na lua. Sem a atmosfera para enfraquecer os efeitos, a Terra e o sol brilham com dureza. Nem importa que o céu não seja azul, que não haja oxigênio para respirar, ou como as duas foram parar lá. Não importa. Na lua, nada é “sem sentido”. Além das duas, não há mais ninguém e portanto não há mais ninguém que precise entender.

Se ela, nessa lua, dissesse “Então, vamos testar”, e tentasse arrancar os dois olhos da outra──

Mais do que imaginar, eu fui consumida por essa fantasia.

No mundo da lua onde nem passado nem futuro existiam, não havia necessidade de se apegar à vida. Até mesmo infligir cicatrizes no corpo não passaria de uma sensação. Arrancar os olhos de alguém ou ter os olhos arrancados seria um sentimento estranho e intenso. Um que talvez unisse as duas, a que dá e a que recebe, com um laço profundo.

Mas, a lua onde a Princesa Kaguya vivia era uma com crime e punição. Nesse caso, não era muito diferente da Terra. A que quase teve os olhos arrancados pela Mana era aquela tagarela Yukari, e foi ela quem ficou tagarelando sobre passado e futuro. O deserto infinito e desolado, o mundo sem passado e sem futuro, nada mais era do que minha fantasia.

Minha Mas, era só minha?

O que motivou a Mana a fazer algo assim? Como ela conseguiu fazer isso neste mundo que tem passado e futuro, e pecado e punição?

Talvez aquele deserto atemporal fosse a fantasia da Mana. Logo, na minha cabeça delirante, aquele “talvez”, o sinal de que eu ainda tinha juízo, derreteu. Tornou-se que a Mana estava comigo no mesmo deserto, e eu não conseguia escapar.

As últimas palavras que Yukari me disse então, “A Mana provavelmente é lésbica. Eu, por outro lado, não sou.”. Talvez isso fosse apenas uma metáfora. Talvez ela estivesse tentando dizer que elas tinham uma diferença irreconciliável de opiniões. Talvez Yukari estivesse tentando dizer que a Mana vivia num deserto atemporal, e ela não. Não viveria.

Todos esses “talvez” derreteram nas delusões que fermentavam na minha cabeça. Eu imaginei a Mana arrancando os dois olhos em um deserto atemporal onde a Yukari não podia alcançar. Um momento eterno que não tinha passado e não tinha futuro.

             *

Dito tudo isso, fantasias são só fantasias, e a Mana é só a Mana.

Eu tive um sonho incrível depois de ouvir o que a Yukari disse e fantasiar. Nada daquilo aconteceu. Acordei normalmente e fui recebida por uma manhã normal. Peguei o ônibus para a escola, que parou no ponto perto do COMS Hakusan, e a Mana e a encostada entraram. A encostada estava segurando o cartão PASMO da Mana e disse “Isso é para pagar a passagem dela”. Depois, passou o cartão na catraca. Era algo que eu já estava acostumada a ver toda manhã.

“Bom dia”, eu disse. Depois da saudação casual de sempre, no momento seguinte cruzei o olhar com o da Mana.

Ah.

Ehh, hum.

Opa, não quis dizer nada com isso.

Não é nada. Sério. 100%.

Incapaz de dizer em voz alta, mentiras e desculpas transbordaram na minha cabeça. Eu não achava errado ter ouvido aquelas coisas ou ter tido aquelas fantasias. Porém, não pude deixar de arrumar desculpas para mim mesma. Tentei racionalizar. Fantasias são só fantasias; a Mana é só a Mana. Mas não funcionou. Quando tentei ajeitar os óculos, o deserto tremeu. Foi por causa dos meus dedos tremendo.

A Mana, com seus charmosos olhos puxados, sorriu um sorriso amigável como se fosse normal, como qualquer outra pessoa.

“Bom dia.”

Era só o “Bom dia” de sempre, mas parecia que ela tinha me lido por completo.

Em pânico, abri a boca.

“Mana, você na verdade” tem uma reserva secreta de dinheiro, não tem──Mas só consegui chegar até “na verdade” e então calei a boca.

Fiquei atônita com o que acabei de fazer. Não fazia sentido. Por que diabos eu abri a boca agora? Por que só falei pela metade? Que diabos. Eu não estava pensando.

A Mana pareceu perceber meu comportamento suspeito, e inclinou a cabeça para o lado, confusa. Mas será que estava realmente confusa? Não estava sorrindo porque me viu por dentro?

Uma coisa era certa. Eu queria muito perguntar coisas para ela. Você na verdade esconde dinheiro e anda com ele por aí, né? Certo, tinha outra coisa que era certa. Mesmo querendo muito fazer essa pergunta, eu não conseguia.

Tudo o que eu preciso fazer é perguntar. No pior dos casos a Mana fica brava, mas mesmo assim, depois ela fica bem. Mesmo assim, eu não conseguia perguntar.

Minha cabeça estava girando quando a Mana disse,

“Eu ouvi da Yukari.”

Sem pausa, Yukari disse,

“Ah, que repentino, Mana. Eu ia deixar a diversão para depois.”

“Yukari, fica quieta um pouco.”

Uma ordem bem firme vindo da Mana. E então,

“Você tem medo de mim?”

“O quê. Por quê.”

Respondi sem pensar, porque não estava em condições de pensar. Com medo da Mana? Isso é ridículo. Do que eu teria medo? Hum, não consigo lembrar.

“Porque eu fui a agressora num caso de agressão”

“Acho que você é perigosa, mas não tenho medo de você.”

Essa foi outra resposta honesta. A Mana era perigosa, mas eu não tinha medo dela.

“Entendi.”

A Mana sorriu. Um sorriso que parecia o de um animal selvagem: um sorriso cru.

As palavras de Yukari passaram pela minha cabeça, “A Mana é lésbica. Eu, por outro lado, não sou.” Talvez aquilo não fosse uma metáfora.

“Certo, então você pode segurar isso?”

Yukari tirou uma carteira da bolsa. Era a carteira que guardava o dinheiro e o cartão PASMO que eram necessidades da Mana.

“Não vai ser para sempre. Por enquanto, só segure até nos encontrarmos amanhã na escola. Por causa disso, meu tempo de deslocamento aumentou. É bem chato.”

Isso não afetaria meu tempo de deslocamento. “Claro, sem problema”, respondi enquanto estendi a mão para pegar a carteira, mas percebi então──se eu pegar isso, vou conseguir descobrir se a Mana tem dinheiro escondido.

Fantasias egoístas e convenientes inundaram minha mente. Digamos que é de noite, e estamos no COMS Hakusan. A Mana de repente dá vontade de comer oden. Ela decide que chamar a Yukari, que mora tão longe, só por causa de oden seria ruim. Então decide me ligar, já que moro no bairro, enquanto se prepara para ir à loja de conveniência. Infelizmente, por acaso eu estou no banho, então ela acaba deixando um recado na caixa postal. Ela chega na loja de conveniência e tenta me ligar várias vezes; todas as vezes, a ligação não completa. Nesse ponto, a Mana vai estar babando vendo oden fora do alcance. Nem os clientes nem os funcionários da loja parecem conhecê-la. É quando a Mana vai tirar a reserva secreta de dinheiro e comprar o oden. Finalmente saio do banho, ouço o recado e ligo para a Mana. Ela vai atender e então vai dizer, sem a menor pista de que era para ser segredo, que usou a reserva secreta de dinheiro e que não precisa mais da minha ajuda.

Conforme eu adicionava mais e mais detalhes à minha fantasia, fiquei rígida.

“Ah, peço desculpas. Foi um pedido egoísta da minha parte.”

Yukari tentou guardar a carteira de novo. Entrei em pânico e me apressei para pegá-la.

“Eu faço.”

No momento em que toquei na carteira, minha mão tremeu como se tivesse levado um choque. Segurei a carteira com as duas mãos, e o tremor finalmente parou. Imagino como eu, com o corpo obviamente tremendo, parecia para essas duas. Elas provavelmente acham que ainda estou sentindo o choque de saber sobre o passado da Mana.

De repente, tive uma ideia. Ontem, a Yukari tinha dito antes de ir embora, “Mesmo eu sendo culpada por ter me aproximado dela, por que ainda estamos presas juntas assim?” Talvez aquilo fosse──

“──Você tem certeza de que quer que eu só fique com ela ‘até amanhã’?”, perguntei enquanto olhava para a expressão da Yukari de perto, sem querer perder um detalhe. Meus olhos estavam arregalados.

“Por enquanto, sim. Eu vou pegar de volta direito depois.”

O príncipe dos corações sorriu de forma provocativa, como se fosse um jogo. Eu a encarei, tentando ao máximo ver o que havia por trás daquele sorriso, quando a expressão de Yukari ficou séria e ela assentiu. Eu assenti de volta.

A Yukari estava sem dúvida planejando se afastar da Mana.

             *

Mesmo assim, por que nos deixaria sozinhas assim!

“O dinheiro dentro dessa carteira é basicamente mesada. A Mana e eu podemos usar contanto que tomemos cuidado. Como as coisas compradas com esse dinheiro também viram Fudas Abençoados, você tem que tomar cuidado para não usar demais ou vai ser descoberta. Ah, e também garanta ser econômica caso surja alguma despesa repentina.”, Yukari terminou a explicação, e foi em direção a algumas colegas do terceiro ano. A propósito, o dinheiro dentro da carteira era pouco mais de 2000 ienes em espécie.

Eu deveria estar comemorando já que a encostada sumiu, mas não consigo me acalmar. Quero falar mas não consigo pensar em nada para dizer. Dizem que meio pão é melhor que nada, então não precisa ser nada grande.

Finalmente, encontrei algo para dizer e perguntei.

“Seus pais estão bem?”. Aaaa, errei. É uma manhã tão bonita e eu tive que estragar com um assunto pesado. Ela está basicamente exilada de casa agora. Em que eu estava pensando?

“Sim. E os seus?”

“Meu pai está bem. Minha mãe morreu faz muito tempo.” Ao ouvir isso, Mana baixou o olhar, triste, e disse,

“Eu não sabia. Desculpa por perguntar sobre um assunto delicado.”

Outro assunto depressivo! Bem, não para mim, mas eu ouço que é para as pessoas que perguntam sem querer.

O que eu realmente quero perguntar──a verdade é que você realmente tem uma reserva secreta de dinheiro, não tem? Mas não consegui me forçar a perguntar.

“Você está morando perto do COMS agora, né? Não é muito longe da minha casa, né? Se de repente der vontade de comer oden no meio da noite, só me ligar. Eu levo essa carteira para você.”

Usando minha fantasia de comprar oden mais cedo como guia, armei uma armadilha. Logo depois que falei, senti nojo de mim mesma. Ter uma segunda intenção dessas é horrível. Mesmo que a outra pessoa não perceba.

“...Junko, você está um pouco estranha hoje.” Acho que ela pode ter me visto por dentro.

“Bem, desculpa!” Por que diabos estou ficando brava! Entrei em pânico, acenando com as mãos e abaixando a cabeça, “Desculpa. É que estou me sentindo meio louca hoje.”

A Mana deu uma risadinha.

“Eh, eu falei algo engraçado?”

Ela sorriu em silêncio.

“Acho que de certa forma, sim?”

Como esperado, a Mana ficou em silêncio e inclinou a cabeça para o lado de forma significativa.

Mesmo depois de descermos do ônibus e chegarmos na escola, a Mana não disse uma única palavra. O tempo todo que ficamos juntas até o primeiro período começar, não importava o que eu dissesse, a Mana só ou acenava em silêncio, ria, desviava o olhar de mim, ou inclinava a cabeça para o lado.

Naquele momento, eu não consegui entender por que a Mana tinha feito tudo aquilo. Só me senti inquieta e irritada. Mas quando as aulas começaram, pensei nas expressões da Mana e em todos os gestos pequenos dela, e não me senti mais inquieta nem irritada. Pelo contrário, era tudo... uhh, como eu digo isso, não exatamente fofa, mas acho que em parte meio fofa. Tinha mais alguma coisa... Ah, desisto! Chega.

Quer dizer, vamos ser sinceras. A Mana é fofa. Ela também é linda. Mas eu não quero dizer isso. Me senti relutante em usar essas palavras. O problema é que essas palavras representam um ponto de vista objetivo, então você precisa pensar em como outras pessoas veem as coisas. O que eu sentia pela Mana estava completamente separado do que as outras pessoas pensavam.

Não tem outra forma de dizer e eu também não quero dizer desse jeito. Para mim, a palavra mais fiel não era “fofa” nem “linda”, nem era “atraída por”. Era “amor”.

             *

De ficar vigiando ela para estar apaixonada por ela. Isso é uma melhora ou eu piorei? Vamos dizer que são os dois.

Quer dizer, eu ainda tenho curiosidade sobre as coisas de dinheiro da Mana. Se eu pudesse levá-la para algum lugar escuro, tirar a roupa dela e revistar as roupas e a bolsa, seria matar dois coelhos com uma cajadada só; eu ficaria completamente satisfeita. Ou pelo menos era assim que eu me sentia com força. Bom, se eu fizesse isso, a Mana obviamente me odiaria e me evitaria, e a polícia também poderia se envolver. Seria um peso enorme saindo da minha mente.

Eu simplesmente não consigo ver o que mais eu deveria fazer com a Mana a não ser me tornar o próprio diabo daquele jeito. Qual o sentido de fazer algo normal num lugar escuro? Eu simplesmente não entendo por que os homens e as mulheres do mundo ficam tão animados saindo em encontros, ou viajando ou fazendo sexo com a pessoa que amam. Entendo que provavelmente eu devo parecer nojenta para eles.

No intervalo do almoço, a Mana finalmente falou comigo,

“Você está bem agora?”

“Provavelmente.”

Naquele momento, o príncipe dos corações apareceu,

“Ei Junko, como vão as coisas?”

“Bem, ainda não usei a carteira.”

“Ah, não é disso que estou falando. Estou falando de como você estava terrivelmente estranha essa manhã.” O jeito que a Yukari teve a audácia de usar “terrivelmente” quando qualquer outra pessoa, até a Mana, usaria “um pouco” era muito a cara dela.

“A vida é assim às vezes. É diferente com você?”

“Imagino que sim. Mas não posso dizer que já senti isso antes. Bom, vejo você depois.”

O príncipe dos corações foi embora.

Certo, é hora do almoço com a Mana. Só nós duas. Abri minha marmita e a Mana disse,

“Aquilo que você falou sobre oden essa manhã.”

Ah é, a armadilha que eu armei baseada na minha fantasia de comprar oden. Ouvir aquelas palavras que eu usei para esconder minha segunda intenção me deu uma pontada de auto-ódio. Mas seria estranho voltar atrás nas palavras agora.

“Não precisa ser oden.”

“Eu quero oden. Só não de loja de conveniência.”

“Quer dizer tipo em um restaurante popular ou algo assim? Eles vendem oden nesses lugares?” Eu quase nunca comia em restaurante popular, então não sabia que tipo de coisas tinha no cardápio.

“Faça.”

Faça? Quem? Ah, eu.

Ah. 0,1 segundo se passou.

Ah. 0,2 segundo se passou.

Ah. 0,3 segundo se passou.

Certo, agora uma perguntinha.

Q1: Onde você comeria oden da loja de conveniência que comprou no meio da noite no meio do inverno? Resposta: Em casa.

Q2: Se você tivesse uma amiga que veio até aí só para te ajudar a comprar oden, o que você faria? Resposta: Você a convidaria para sua casa e comeria oden juntas.

Q3: Se alguém, claramente com segundas intenções, te dissesse “Só me ligar se der vontade de comer oden à noite”, o que você concluiria que ela está planejando? Resposta: Ela quer te convidar para sua casa, comer oden juntas, e fazer mais alguma coisa.

Q4: De acordo com a Yukari, a Mana é esse tipo de pessoa. Então, que “tipo de pessoa” é essa? Resposta: Provavelmente, lésbica.

Q5: A Mana disse hoje de manhã que “ouviu da Yukari”. Então, a Yukari contou para a Mana sobre o assunto da quarta pergunta? Resposta: Existe uma grande possibilidade.

Q6: Se a resposta da Q5 for “sim”, que tipo de atividade o “mais alguma coisa” mencionado na Q3 está se referindo? Resposta: O tipo de coisa que amigas normalmente não fazem juntas.

Não é isso! De jeito nenhum!

...Mas então de novo. 0,5 segundo se passou.

Um convite para a casa da Mana caiu no meu colo. A razão pela qual eu a convidei para minha casa naquele domingo era para fazê-la me convidar para a dela em troca. Já que é a casa dela, ela provavelmente ficaria descuidada e deixaria rastros de uso de dinheiro──coisas como recibos de loja de conveniência e caixas de compras online──jogados por aí.

Isso é um presente dos céus? Espera. Espera um segundo. 0,7 segundo se passou.

Seria uma coisa se eu tivesse conseguido colocar meu plano em ação sem a Mana perceber, mas agora, é ela quem está me convidando. Quer dizer, se chegar a isso, eu posso simplesmente fugir. Mas se eu fugir, ela vai perguntar por que eu vim. E então, se eu não admitir minha verdadeira razão, descobrir rastros de dinheiro, ela vai me achar suspeita.

...Mas, talvez eu esteja pensando demais? 0,9 segundo se passou.

Pensa bem, a Mana e eu somos garotas. Eu nunca disse para ela que a amo e ela também não disse para mim. Nenhuma de nós deu a entender isso também. De acordo com a Yukari, a Mana é desse tipo de pessoa. Mas mesmo que seja verdade, isso não significa que ela ficaria bem com qualquer garota. Ela não está só me convidando como amiga?

E então eu me lembrei. 1,1 segundo se passou.

Eu me lembro. A primeira vez que conversei com a Mana na escola, quando perguntei se ela me odiava, ela disse que gostava de mim! Mas aquilo era um gostar de amiga, né? Mesmo se não fosse, ainda não existe prova decisiva que prove o contrário. Tenho certeza de que a Mana entende isso também. Por enquanto, vamos dizer que somos amigas──mas espera, você realmente se daria ao trabalho, no meio da noite ainda, só para comprar oden para alguém que é só sua amiga? Eu não acho tão estranho, mas alguém como meu pai, por exemplo, acharia.

Certo. Meu pai. 1,3 segundo se passou.

Eu ia sair à noite, então teria que contar para meu pai o porquê. Se eu ficasse fora por tanto tempo porque estava fazendo oden, o Pai ia ligar e então ia perguntar com quem eu estava e pedir para falar com a pessoa. E o Pai acha a Mana perigosa.

Essa é minha passagem para a liberdade: meu pai! O resultado da minha grande introspecção de 1,5 segundo foram essas palavras:

“Desculpa, meu pai não gosta que eu fique muito tempo fora à noite.”

“Entendi.”

A Mana olhou para mim em silêncio, sem mexer os hashis.

Aquela grande introspecção de 1,5 segundo deve ter sido um pouco estranha. Não, não foi só um pouco, foi terrivelmente estranha. Desviei o olhar, esperando a Mana mexer os hashis de novo.

             *

“Isso é para pagar a passagem dela”,

Recitei a fala de sempre da encostada. Parece estranho.

É de manhã, estou no ônibus para a escola. Estou parada pronta na parte da frente do ônibus. Esse ônibus tinha tarifa única por viagem, e você tinha que pagar assim que entrasse pela porta da frente. E eu estava esperando a Mana entrar no ponto perto do COMS Hakusan.

O terreno de Sama New Town é íngreme. As estradas principais passavam pelos vales, então olhando pela janela do ônibus, tudo o que se via eram ladeiras. A maioria dessas ladeiras tinha árvores crescendo, e algumas, as ladeiras muito íngremes, eram reforçadas com concreto. Por isso, quando você olhava para Sama New Town das estradas principais, parecia que havia linhas por todo lado. Não tanto quando você vê de cima.

Me pergunto como era o lugar onde a Mana morava antes. Vou tentar perguntar o que ela acha de Sama New Town. Até agora, a Mana parecia que não queria que perguntassem sobre o passado, então eu não podia. Mas agora que sei dos segredos da Mana, talvez ela esteja mais disposta a responder. Pensei nessas coisas enquanto esperava a Mana entrar no ônibus.

Quando nos aproximamos do ponto do COMS Hakusan, entre a fila de sempre de passageiros, a Mana estava lá, sem a encostada.

Vendo ela de perto não parece tanto, mas vendo ela ali entre outras pessoas de longe, fiquei surpresa com o quão pequena a figura da Mana era. Ela não era só baixa; tinha ombros pequenos, cintura pequena e cabeça pequena. Quase parecia que ela era a única fora de perspectiva na cena. Pequena, mas não fraca. Por mais compacta que fosse, ela tinha uma força.

Um pensamento abrupto veio à mente. Ela definitivamente está escondendo uma reserva de dinheiro. Sem dúvida.

As pessoas no ponto estavam entrando no ônibus. Assim que a passageira na frente da Mana passou o cartão PASMO no leitor, entrei e peguei aquela carteira. “Isso é para pagar a passagem dela”, disse para o motorista enquanto passei o cartão no leitor. A Mana fez uma saudação simples para o motorista ao passar pela catraca, sorriu para mim e disse “Bom dia”.

Ahhh.

Como eu digo isso? Uhh, ah, certo. É amor. Eu amo a Mana.

Eu realmente te amo, então por favor me mostra o dinheiro que você está escondendo. Esse pensamento maluco passou pela minha cabeça enquanto eu cumprimentava a Mana, “Bom dia”. Pessoas que dizem coisas como “Eu te amo tanto que...” ou “Se você me ama, então...” são realmente as piores, provavelmente têm um parafuso a menos também. Mas é, eu acabei de dizer algo parecido. Só que não em voz alta.

“Quando você se mudou para cá?”

“Por volta de meados de dezembro.” Uhuu, esse é um passo à frente. Até agora, a Mana só ficava quieta e desviava o olhar quando perguntavam sobre o passado.

“Quase dois meses desde então, né? Então, já conheceu a região?”

“Eu não saio muito. Não tem nada para ver mesmo.”

“As estradas e os prédios e essas coisas são bem legais, sabe.”

Contei para ela como, por causa do terreno íngreme e das muitas passarelas para pedestres, Sama New Town tinha muitas estradas e prédios únicos. Se você for para um lugar desconhecido, com certeza vai encontrar algo que vai te fazer dizer “que legal”. Também falei de como a única estrada reta é a estrada principal, e a maioria das estradas eram cheias de curvas e voltas, algumas até cruzando passes, o que as tornava bem imprevisíveis. E como por causa de tudo isso, Sama New Town inteira era literalmente como um labirinto gigante; você nunca sabia onde ia acabar quando entrava numa rua lateral.

Expliquei tudo isso, mas dessa vez, foi a Mana quem não conseguiu se relacionar.

“Não tem nenhum Inari por aqui. Me surpreendeu.”

“Tem sim?”

Tem um santuário Inari de verdade a uns 20 minutos da minha casa se você pegar ônibus e depois trem. Ficava na periferia de Sama New Town, mas ainda fazia parte. Expliquei isso e a Mana disse,

“Só aqueles oficiais.”

“Que ‘não oficiais’ existem?”

“Nos jardins de casas, são aqueles torii e santuários pequenos que têm mais ou menos essa altura.”

A Mana gesticulou uma altura que dava mais ou menos na altura do joelho. Miniaturas?

“De jeito nenhum, isso parece fofo.” Os olhos da Mana se arregalaram e ela perguntou,

“Você nunca viu?”

A Mana falou e descobri que perto da casa da família da Mana, tinha muitos desses. Mas, ainda parecia exagero quando ela disse que só precisava caminhar 5 minutos para ver um torii. Para mim parecia bem inacreditável.

“Eu só pensei: talvez a razão de eles quererem uma Abençoada seja por causa do tipo de cidade que essa é.”

“Isso tem relação?”

Por algum motivo, a Mana sorriu. Não um sorriso educado e amigável, mas aquele sorriso que me cativou, aquele sorriso cru.

“Esta cidade carece de religião.”

             *

Religião? Acho que uma Abençoada é meio que uma coisa religiosa... Espera, é?

O ônibus agora estava dirigindo na rodovia de Sama New Town, a Sama Street. Depois de dirigir um tempo pela Sama Street, o ônibus ia para o sul, passar por outra estrada de vale, e subir até o ponto de ônibus localizado num passo. Então, a gente desce do ônibus, anda cinco minutos, e chega na Academia Privada Feminina Sama Seitaku.

A Sama Street tem restaurantes populares, lojas de conveniência, locadoras de vídeo, postos de gasolina e coisas do tipo alinhadas em intervalos regulares nas laterais. Tenho certeza de que a maioria das rodovias no Japão tem essa vista nas laterais, mas eu não ando muito de carro então não sei.

“Religião não é o tipo de coisa que precisa de um fundador ou tipo uma doutrina?”

“O que é e o que não é religião; isso com certeza é uma questão religiosa.

Pega essa atleta olímpica de nado sincronizado que escreveu sobre o passado dela.”

Essa atleta disse que esse evento aconteceu quando ela estava no ensino fundamental. Ela tinha acabado de começar o nado sincronizado e estava se esforçando ao máximo para ficar mais flexível com calistenia. Ela não fazia sozinha, mas com a ajuda de treinadores adultos. E então um dia, enquanto os três treinadores a seguravam numa chave dupla de ombro, a fáscia dela se rompeu.

“O quê?”

Uma... fáscia rasgada? Não consigo imaginar como isso deve ser, mas parece assustador.

“No momento em que rasgou, doeu demais. Depois disso, a dor não passou, e ela teve hemorragia interna que a fez ficar sem conseguir andar direito. Foi o que li.”

Aparentemente, no dia seguinte, incapaz de suportar a dor, ela foi ao hospital, onde disseram para ela descansar um pouco. Ela tentou só observar durante o treino, mas os treinadores disseram que seria um desperdício não se mexer já que a fáscia finalmente tinha rasgado, e então ela foi forçada a participar do treino.

“Salvo razões extremamente importantes, fazer uma coisa dessas com uma criança do ensino fundamental é crime. Por exemplo, se não houvesse outra forma de curar uma doença. Precisa ser algo desse tamanho. Em vez de a dor daquela doença continuar para sempre, alguns dias de dor são aceitáveis. É perdoado por causa desse tipo de comparação.

Isso não vale para esportes. Se a dor vale a pena ou não só pode ser decidido pelas próprias atletas.

Porém, mesmo que uma criança do ensino fundamental tome uma decisão independente sobre esse tipo de assunto, na maioria dos casos, isso não afeta o julgamento de um crime.”

Até aqui, eu também estava concordando com interesse enquanto ouvia. Porém.

“Por exemplo, se alguém com menos de 13 anos faz sexo, não importa o que diga, seria classificado como estupro.”

Acho que meus ouvidos vão estourar. Não os olhos, mas os ouvidos. Não, sério! Que diabos! Estamos num ônibus lotado! O senso de vergonha da Mana tem que estar quebrado para ela dizer coisas como “sexo” e “estupro” em voz alta agora!

Eu tinha que pará-la de qualquer jeito. Mas a Mana odeia quando as pessoas falam com ela sem pensar. Nunca tentei isso antes, mas tanto faz. Então,

“Mana, desculpa. Posso definir duas palavras como proibidas? Não pergunta por quê. Por favor.”

“Palavra Proibida Nº1──”

...É embaraçoso demais falar! É tão fácil dizer quando estou brincando, mas agora estou morrendo de vergonha.

Como fiquei em silêncio por tanto tempo, a Mana disse,

“Desculpa, não consegui ouvir.” Ela realmente vai me fazer falar, né? Isso é jogo de humilhação? Pode vir então, eu vou junto com seu jogo de humilhação.

“...Sexo.” Ao dizer, sem querer imaginei fazendo com a Mana. Continuei,

“A segunda é estupro.” Essa não foi embaraçosa de dizer. Quer dizer, não consigo me imaginar fazendo isso com a Mana.

“Entendi.”

“Obrigada. ...Sobre o que você estava falando mesmo?”

“Eu estava falando de como as decisões de crianças do ensino fundamental são tratadas.

E de como são ignoradas quando se trata da Palavra Proibida Nº1”, Ela só substituiu a palavra! “mas não são ignoradas nos esportes.”

“Pelo amor de Deus, esportes e aquilo são completamente diferentes.”

Ouvindo isso, a Mana desviou o olhar e baixou a cabeça. Essa é a reação dela quando ouve palavras desagradáveis.

“Crianças e adultos são ‘completamente diferentes’?”

Ugh. Não dá para responder sim ou não a isso. Ninguém se transforma em uma pessoa completamente diferente no momento em que o relógio bate meia-noite e faz 13 anos. A Mana, vendo minha incapacidade de responder, colocou mais sal na ferida,

“E homens e mulheres?”

Mulheres não podem ter filhos juntas, mas com certeza podem fazer as coisas associadas a isso. Até eu e a Mana podemos. ...Eu definitivamente estou fantasiando demais sobre isso.

A Mana, alheia às minhas fantasias, continuou falando.

“Se ‘completamente diferente’ é suficiente para explicar as coisas, tudo neste mundo pode ser explicado como sendo simplesmente ‘completamente diferente’. É isso que você quer fazer, Junko?”

Quando você coloca desse jeito, acho que é verdade. Mas se eu concordasse, isso significaria que o japonês da Mana e o meu japonês são “completamente diferentes”. O que significaria que não conseguiríamos ter nenhuma conversa significativa porque nosso japonês seria tão diferente quanto inglês e chinês.

“...Entendi. Por favor, continue.”

“Apesar de serem ignoradas na palavra proibida nº1, não são nos esportes. Algo deve ser a causa dessa diferença.

Esse algo está relacionado à religião.”

“Você está dizendo que esporte é uma religião?”

Entendo. Como as pessoas podem se divertir tanto correndo todas suadas? Tipo, se fosse só ficar suada ainda tudo bem, mas aquela história da nadadora sincronizada que a Mana contou antes? Parece coisa de seita para mim.

“Talvez.

Ou talvez o que é religião não sejam os esportes, mas as crianças.”

Me perdi aí. As crianças são uma religião?

“Talvez os adultos sejam uma religião, ou talvez a palavra proibida nº1 seja uma religião.”

Hum, consigo entender a Palavra Proibida Nº1 ser uma religião também. Então os homens e mulheres tarados que se juntam para fazer combate noturno nos futons estão praticando religião. É, vamos fingir que é assim. Consigo sentir meu coração sendo purificado enquanto falamos.

“Na realidade, religiões não se limitam apenas a religiões organizadas que têm fundadores e doutrinas como você disse antes. As coisas que não se encaixam nessas condições não são necessariamente não relacionadas à religião.

Religião está presente nas coisas que não parecem ser. É como o ar ter vapor d’água. Religiões organizadas que têm fundadores e doutrinas são parecidas com a chuva. Estão conectadas ao vapor d’água no ar.

Seguindo essa metáfora, as Abençoadas são como névoa.”

Pela metade eu já não estava mais entendendo muito, mas entendi a conclusão. Religiões organizadas são chuva, as Abençoadas são névoa. Acho que era algo assim.

O ônibus já estava quase no ponto de ônibus do passo da montanha. Ao longo das estradas aqui, um parque e uma universidade, entre outras coisas, podiam ser vistos junto com as muitas cerejeiras que tinham perdido as folhas. Era uma visão maravilhosa ter todas essas cerejeiras na primavera, mas agora, era uma visão bem fria e solitária.

A Mana concluiu a conversa.

“Esta cidade carece de névoa.”

Em outras palavras, ela basicamente está tentando dizer que precisamos de mais santuários Inari em miniatura. Mas eu honestamente ainda não entendo muito bem por que precisamos daqueles.

E de qualquer forma,

“Mana, você não tem muito uma vibe de névoa.”

Os santuários Inari em miniatura de que ela falou são, assim como a Abençoada em Faca Errante, meio malfeitos e relaxados. Para cuidar de um santuário de verdade, você precisa de uma religião organizada de verdade; não dá para fazer as coisas pela metade.

A Mana não parece relaxada. Se ela fosse como meu pai esperava, alguém que só usasse uma impressora portátil para imprimir Fudas Abençoados, então ela seria relaxada. Mas a Mana escreve tudo corretamente em cursivo com as próprias mãos. Ela é muito correta.

A Mana desviou o olhar e franziu a testa de forma rígida ao ouvir minha impressão sobre ela. É raro ela fazer esse tipo de cara. Uh, o que eu disse foi tão ruim assim? Além disso, a Mana normalmente fala algo quando ouve algo desagradável dito a ela.

“...Verdade.”

Acho que ela tinha consciência disso.

Mas, você pelo menos tem uma reserva secreta de dinheiro, né? Quase falei isso em voz alta. Não tem como ela ser tão correta mesmo quando ninguém está olhando, então ela não precisa ficar tão ofendida com isso. Ah.

Mas, e se ela realmente não tiver nem um iene nas bolsas nem em casa? E aí?

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