27 de jul. de 2026

Anata No Miteiru Mukogawa – Capítulo 07

Capítulo 07

Fazia dez dias que eu não ia à Kanaria.

Como eu ia à lanchonete sem parar desde antes mesmo de notar o Kanto, com certeza era a primeira vez desde que virei cliente habitual.

Evitei o horário de pico e cheguei um pouco mais tarde.

Depois que passou para as mãos do Kanto, a loja não mudou a decoração. Parecia que ele ainda esperava que, um dia, o antigo dono voltasse.

Abri a porta, entrei e fui direto para o lugar onde sempre me sento quando estou sozinho.

O gerente me reconheceu na hora e disse:  
"Lá faz tempo que a gente não se vê."

"O trabalho está uma loucura. Um saco."

O Kanto não estava, mas mesmo assim inventei uma desculpa para não ter aparecido.

"Está tão ocupado assim?"

Uma voz grave veio de trás.

Me virei de susto. Eu nem tinha dado sinal, e hoje o Kanto estava ali parado.

"Com que cara de espanto é essa."

"Não é... é que o senhor sempre fica lá dentro e não sai, e agora está aqui fora."

"Eu saí porque vi você."

"Me viu?"

Impossível. Será que era verdade?

No olhar do Kanto eu estava refletido?

"Estava preocupado. Pensei se você não tinha ficado doente."

Fiquei feliz de verdade.

Não imaginei que o Kanto pensasse em mim.

Mesmo que fosse só por um segundo, mesmo que fosse só na posição de cliente, só de saber que ele pensou em mim sem ter o nome "Fukuhara" junto, eu já fiquei feliz.

"Está se alimentando direito? Você está com péssimo aspecto."

Tão feliz que as mãos chegaram a tremer.

"Estou comendo, sim. Só estou atolado de serviço, mas estou saudável. Ah, e já que vim até aqui hoje, me dá alguma coisa gostosa pra comer."

"Aqui, o cardápio."

Como o Kanto estava me atendendo, o gerente se afastou em silêncio.

Quando tive certeza de que só estávamos nós dois, abaixei a voz.

"Ei. Hoje à noite você está livre?"

O homem de poucas palavras não percebeu que era um convite.

"Como sempre."

"Mesmo tarde serve? Você consegue tirar um tempinho?"

"...Quer ir beber?"

Mesmo que eu dissesse que queria ir beber, ele não iria.

"Não. Não sei se você toparia ir até o meu apartamento. Tenho um DVD que quero ver, mas é um desperdício ver sozinho, então pensei em te chamar pra ver junto."

"É algum filme de terror?"

Ele riu, como quem está me provocando.

"Não. É o DVD do festival esportivo do terceiro ano do meu pupilo."

E foi aí que o rosto do Kanto endureceu.

Eu sabia que não conseguiria fazê-lo fazer aquela cara. Além disso, ele só é esperto quando o assunto é esse.

"Você vem ver comigo? Ou não quer ir no meu apartamento?"

Perguntei feito bobo.

Isso não ia ser motivo nenhum para ele não ir. Ele não liga pra mim.

"Não, se for na sua casa, tudo bem. Mas chegar muito tarde não é bom, certo?"

"Já é fim de semana. Se não der pra voltar, é só dormir lá. Eu ganho bem, meu apartamento é grande."

Vem.  
Vem.

Era o DVD que eu pedi de propósito por causa dele. Era a isca que eu preparei, mesquinha e cheia de ressentimento, porque sabia que só um convite meu não seria suficiente.

"...Tá. Hoje à noite então passa aqui pra me buscar no horário."

A resposta só podia ser uma, já que eu estava usando o Fukuhara, mas ainda assim soltei o ar aliviado.

"Fechou. Então vou pedir a tortilha de inhame e o frango ao shissô."

"E pra beber depois da refeição?"

"Já passou da hora do almoço, não?"

"Você é caso especial. Eu pago."

Eu sabia que "caso especial" era no sentido de cliente, mas ouvir aquilo da boca dele ainda me deixou contente.

"Então um café."

E ainda colocou a mão na minha cabeça com delicadeza. Desse jeito eu ia acabar criando esperança.

"É um chato, mas quando você não vem eu fico meio triste. Tem que aparecer pra eu ver seu rosto direito."

É cruel não saber de nada.

Ele foi embora com as costas retas, sem perceber que, por causa de uma frase tão simples, eu tive que morder o lábio pra não chorar.

Sem perceber que eu já não conseguia mais rir e dizer "O que você está falando, hein".

Sem perceber que ele me fez acreditar, nem que por um instante, que talvez eu tivesse mais chance do que pensava.

Ele nunca vai saber quanta coragem eu precisei juntar hoje só pra vir até aqui.

Pensei nisso e até deu um pouco de raiva, mas sabendo que ele está sofrendo por amor, não consigo odiá-lo.

Se eu estou sofrendo assim, com certeza o Kanto está sofrendo muito mais.

Pensar que ele está ferido me acalma um pouco. Essa é a prova de como eu sou ruim, e também a desculpa perfeita pra dizer que, por isso, meu amor nunca vai dar certo.

Quando fiquei sozinho, de vez em quando o gerente se aproximava e colocava um copo d'água na mesa.

"O Kanto está preocupado com você, viu."

Aqui também tinha alguém que não sabia do que eu sentia e me dizia coisas assim.

"Vocês dois são bem próximos, né."

Não me dá esperança.

"É que ele é cliente antigo. É tipo: finalmente esse cara apareceu no meu radar, sabe?"

Pra não criar expectativa demais, eu disse palavras que me colocavam no meu lugar e me machucavam.

"Aparecer no radar? É, ele tem isso mesmo. Não sei se digo que ele fala pouco demais ou que a visão dele é estreita demais."

"Ah, o gerente também acha?"

"Às vezes ele esquece de dizer algo porque acha que a outra pessoa já entendeu. Tirando isso, ele é muito competente em tudo."

"Ele é meio desligado, né."

"Pode ser. Ah, o que a gente conversou agora é segredo, tá?"

"Tá, tá."

Usei o Fukuhara como desculpa só pra vê-lo sozinho mais uma vez.

Mas dessa vez com certeza vai ser a última.

Se eu continuar usando o Fukuhara como isca, não vai dar em nada bom nem pro Kanto nem pro Fukuhara. Mas se eu perder essa isca, ele não vai querer me ver sozinho, então essa é a despedida.

Tudo bem.

Se eu vier até aqui ainda posso encontrá-lo, então posso ter tempo pra me valorizar.

Quem sabe, fazendo isso, um dia se abre outro caminho.

Mesmo que não seja amor, mesmo que seja esquecimento ou despedida. Acho que vou conseguir aceitar algo que não seja essa relação indefinida.

Por isso, só hoje à noite, deixa eu sonhar mais um pouco.

Sonhar que a pessoa de quem eu gosto vem brincar no meu apartamento.

Quando terminei o trabalho e estava saindo do escritório, o Fukada me chamou.

"O Fukuhara disse que está preocupado porque seu humor está instável?"

Que garoto esperto.

"Esse shiba é metido demais."

"Miyamoto."

"Eu sei com o que você está preocupado e vou pisar em cima dessa preocupação. A causa não é você nem o Fukuhara. E eu também sei que meu humor está instável."

"O motivo é..."

"Segredo. Agora eu estou na fase da puberdade."

"Miyamoto."

Eu sei.

Qualquer um desconfia quando um cara que sempre viveu fazendo o que quer, como se o mundo girasse em torno dele, começa a falar coisas sem sentido e a agir de forma esquisita.

"Está tudo bem. Eu também vou decidir por mim mesmo. Até você tomou suas decisões sozinho, não tomou?"

"Miyamoto, sobre isso..."

"O Fukuhara mora com a família, certo? No fim de semana chama o garoto pra ir no seu apartamento."

"Miyamoto!"

Hoje à noite, depois de passar um tempo agradável, eu vou recomeçar.

Conversar, rir um pouco, como amigos, conhecer mais um pouco do Kanto. Depois, por enquanto, vou reestabelecer essa situação e tentar me aproximar dele sem usar o Fukuhara como isca.

Agora eu ainda não tenho confiança pra lutar sozinho, mas sou eu. Se eu me esforçar, com certeza ainda consigo me dar bem com ele sem o Fukuhara.

Mesmo que seja só como amigos.

Pensando bem, se ele gostou do Fukuhara, significa que o Kanto pode gostar de homens, então minhas chances são de 1 a 2. Não, talvez uns 5%.

Vou pensar de forma otimista.

Ficar deprimido não combina comigo.

Se eu juntar todas as condições, com certeza vai ter uma resposta.

Eu gosto do Kanto. O Kanto gosta do Fukuhara, mas o Fukuhara já tem alguém. E o Kanto nem pensa em se declarar pro Fukuhara, então talvez ele desista mais fácil do que eu imagino.

Então dessa vez eu só preciso reconstruir minha relação com o Kanto.

Eu sou cliente antigo, então posso virar parceiro de bebida, e depois uma relação mais próxima.

"Cheguei pra te buscar."

De algum jeito levantei o ânimo e fui buscá-lo com o mesmo sorriso de sempre.

O Kanto estava de roupa comum. Para os meus olhos, que amam até o caminho de ida e volta, ele continuava tão elegante quanto antes.

"É longe?"

"Duas estações de trem. Perto o bastante pra não ser um problema ir trabalhar, e longe o bastante pra que, se me chamarem de noite, eu não consiga chegar na empresa na hora."

"Entendi."

"E você, Kanto?"

"Daqui deve dar uns 20 minutos de trem."

Não perguntei pra investigar. Era porque queria saber mais sobre ele.

"Mora sozinho? E sua família?"

"Sozinho. Não tenho família."

"Sua família mora longe?"

"...É."

"De onde você é?"

"Você tem irmãs, né? Só falta o pato."

"Falta o pato como?"

"É a feira."

"Que falta de educação. ...Bom, irmã eu tenho."

Eu estava nas nuvens.

Por estar andando ao lado dele.  
Por estar falando bobagem com ele.  
Por ele entrar no meu apartamento, que eu limpei com aspirador ontem.

Mas essa era só uma felicidade momentânea.

"É grande mesmo, né."

"Eu falei que ganho bem."

Dentro do apartamento, sentei ele no sofá e preparei o café na cafeteira pra servi-lo. Eu tinha me gabado de que ia fazer pra ele hoje.

No meio disso, coloquei num prato os sanduíches que comprei numa loja especializada que vende pra viagem, arrumei na mesa em forma de gota que eu tinha adorado quando comprei, e me sentei ao lado dele.

Entre mim e o Kanto, que já tinha tirado o casaco, havia uns 20 cm. Dava até pra sentir o calor do corpo do outro.

"Vamos comer enquanto assistimos."

Coloquei pra rodar o vídeo que consegui do Fukuhara pagando o preço da vergonha dos meus desenhos da época da escola.

Pelo jeito foi filmado pelos pais, porque no começo a imagem estava tremida e difícil de ver.

Mas parece que pegaram o jeito rápido, porque logo o Fukuhara mais novo que o de agora apareceu bem no centro da tela.

O perfil dele conversando com os amigos.

Parece que era gincana ou algo assim. Ele estava de gakuran comprido e com uma faixa na cabeça.

Era corrida.

O Fukuhara era bem rápido.

"Koji! Força!"

No meio do barulho dava pra ouvir a voz de uma mulher que devia ser a mãe do Fukuhara.

Parece que ouviu o chamado, porque o Fukuhara, sentado de joelhos no centro da tela, levantou o rosto, olhou para a câmera e acenou.

"Deve ser revezamento ou alguma coisa assim, né?"

Falei isso e virei o rosto pro lado. E foi aí que senti todas as esperanças que eu mesmo inventei desmoronarem.

Porque o Fukuhara já tem namorado, então talvez eu tenha uma chance?

Reconstruir a relação do zero, e um dia me aproximar dele?

Isso jamais vai acontecer.

A pessoa ao meu lado olhava fixamente para o Fukuhara na tela, inclinada pra frente, com os cotovelos na mesa e as mãos entrelaçadas cobrindo a boca.

O rosto dele só via ele.

Os olhos estavam cheios de um carinho que doía.

Tudo dizia que ele gostava do Fukuhara. Que ele amava o Fukuhara.

As palavras que eu disse antes não chegaram nem perto dos ouvidos dele.

No coração do Kanto só existe o Fukuhara.



A música animada do festival esportivo ecoava, os gritos da torcida eram ensurdecedores. Fukuhara se levantou e foi para o centro do estádio.

Como eu imaginei. Ele era o corredor do revezamento. E ainda por cima, o último.

Depois de um segundo mostrando alunos desconhecidos correndo sob aplausos estrondosos, a câmera voltou a focar apenas em Fukuhara, esperando a sua vez.

Por um instante, achei que aqueles eram os olhos de Kanto.

Mas eu não olhava para ele.

Mordendo o lábio para não chorar, eu mantinha os olhos grudados no perfil de Kanto.

Olha pra cá.  
Me deixa entrar no seu campo de visão.  
Só um pouquinho. Lembra que eu estou aqui.

Repetindo isso na cabeça, eu não desviava o olhar dele.

Mas até o fim daquele vídeo de família entediante, os olhos de Kanto não saíram da tela. O café que eu preparei já estava frio. O sanduíche que eu comprei, seco.

“…Quer que eu copie isso pra você?”

Só então ele virou o rosto na minha direção.

“Não, não precisa.”

Doeu.

“Você gosta muito do Fukuhara, né. Eu falei com você tantas vezes e você nem ligou.”

“É mesmo?”

Doeu demais.

“É.”

Meu peito doía.

“Eu pensei que alguém como eu jamais chamaria sua atenção.”

“Que absurdo. Você não é o tipo de pessoa que dá pra tirar os olhos.”

“Não precisa mentir. Se você gosta tanto dele, então é só se declarar.”

Aquela dor me transformou.

Transformou quem queria ser otimista, quem queria viver sendo fiel a si mesmo, em algo muito mais feio.

“Eu não vou fazer isso.”

“Por quê? Porque são dois homens?”

“…É.”

“E ser dois homens é errado? Existem tantas pessoas assim no mundo. Se você acha que todos eles são aberrações, isso é uma falta de respeito enorme.”

“…Não é isso que eu quis dizer.”

“Então o que é? Tenho um amigo que é gay e ele é um ótimo cara.”

Até o Fukuhara escolheu um homem. O Fukada.

Então por que você não diz que gosta? Por que não se declara e leva um fora logo? Não importa o quanto você goste dele, o Fukuhara já não pode mais ser seu. Você não percebe que esse sentimento não tem pra onde ir?

Igual ao meu.

“Miyamoto.”

“Eu também…”

Mas eu não consegui dizer.

Porque eu gostava dele. Porque eu sabia o quanto doía amar alguém e não ser correspondido. E eu não queria causar essa dor a ele.

“E se eu dissesse que sou igual a você? Você também ia me chamar de aberração?”

“Miyamoto?”

Se fosse isso, eu preferia me quebrar em pedaços.  
Se esse amor não desse certo, eu mesma encerraria.

Kanto não saberia que o Fukuhara já tinha alguém. Poderia continuar pensando nele à vontade.

“É. Eu também gosto de homens.”

Eu sorri.

“Eu sempre gostei só de homens.”

Com um rosto que não demonstrava sofrimento.

“E... agora eu gosto de você. Por isso eu te ajudei. Eu só queria ajudar alguém que está na mesma situação que eu. Mesmo que fosse um pouco.”

Kanto ficou completamente sem reação.

O que era de se esperar.

“Mas a partir de agora eu não vou mais te ajudar. Porque eu não aguento mais. Eu não vou te contar mais nada sobre o Fukuhara.”

Os olhos dele estavam em mim.
Só em mim.

Será que ele estava surpreso demais com a confissão e não conseguia pensar em mais nada? Será que, nesse momento, em vez do Fukuhara, eu era quem ocupava a cabeça dele?

“Se for brincadeira…”

“Quem faz uma brincadeira dessas? Eu tô falando sério. Ah, e eu sei que isso deve ser um incômodo pra você, então ignora. Só pensei que seria uma forma de retribuir tudo que você fez por mim.”

“O que você quer?”

“Dorme comigo. Só uma vez.”

O silêncio tomou conta do ambiente.

“Você gosta do Fukuhara, mas também tem desejo, não tem? Você mesmo disse que é selvagem. Então dorme comigo. Pode me usar como substituto do Fukuhara. Ou... é sua primeira vez com um homem?”

“E você... não é?”

“Eu? Eu sou diferente.”

Que patético.  
Superficial e patético.

Mentir de novo e de novo. Ficar encenando.

Mesmo assim, eu só queria tocá-lo na vida real. Nem que fosse só uma vez.

“Eu disse pra você dormir comigo porque eu gosto de você. E como é uma retribuição, não vai ter complicação depois. Não tem problema, certo? De qualquer forma você não pode ficar com o Fukuhara, então tanto faz com quem seja.”

“Não é a mesma coisa.”

As palavras dele doeram.

Mas eu não podia demonstrar que estava ferida.  
Porque se eu pesasse demais, ele ia fugir.

“Você é tão sério.”

Estendi a mão trêmula e toquei Kanto, ali do meu lado.

Como um homem seduz outro homem? Pena que eu não perguntei pro Fukada brincando. Com certeza era pra tocar ali, né?

“Só essa noite. Tenha pena de mim.”

As pernas dele eram musculosas e firmes, mesmo por cima da roupa.

“Você é diferente dele.”

“E daí? Eu sei disso. Só de ver você mais cedo eu já entendi o tipo de amor que você sente pelo Fukuhara.”

Eu nem chegava aos pés dele.

“Você percebeu…?”

“Claro. Não sou burra a esse ponto. Por isso que eu falei. Se não fosse isso, eu teria ficado quieta.”

“…É.”

Kanto baixou os olhos por um segundo.

Se não desse, era só me empurrar e ir embora.

Se fosse isso, eu choraria sem nem pensar.

Levar um fora. Chegar num ponto sem volta. Eu ia desabar e chorar. E então decidiria encerrar tudo.

Mas se ele aceitasse, nem que fosse por empatia, ou por pena, eu queria que ele me tocasse ao menos uma vez.

“Eu gosto de você. De um jeito completamente diferente do que eu gosto dele.”

“Que bom.”

E era verdade. Mesmo que fosse em segundo ou terceiro lugar, ouvir um “eu gosto de você” nessa situação me deixou genuinamente feliz.

“Sério?”

“Mesmo sabendo que é desse jeito?”

Mesmo sendo um amor que vem depois do outro. Quem não ficaria feliz ao ouvir isso da pessoa que ama?

“É verdade.”

A mão grande dele segurou a minha, que estava pousada na coxa dele.

O gesto inesperado me fez pular.

“Se você realmente gosta de mim, então eu vou corresponder a esse sentimento.”

Ele puxou meu braço com força e eu caí nos braços dele.

“A.”

Um homem que, no fundo, era gentil e bondoso.
Sério, de cara fechada, bruto, mas incapaz de pisar nos sentimentos dos outros.

Só por isso, eu já estava feliz.

Ele me abraçou. Me beijou. E isso me deixou tão feliz que quase chorei.

Eu sempre achei que Kanto não tinha intenção nenhuma de assumir o Kanaria.
Aquele bar foi criado pelo tio Baba, o antigo dono, e tinha coisas que não combinavam com o Kanto.

Mas a razão dele ter comprado provavelmente foi porque soube que o dono estava doente e precisava de dinheiro. E pensou que, se deixasse nas mãos de outra pessoa, o bar não continuaria igual.

Por isso, depois que comprou, ele não mudou nada. Por causa do tio Baba.

Eu me convenci de que um homem assim, mesmo sem amor, ainda poderia fazer sexo com alguém só por bondade. Ou então porque era tão experiente que se dizia “selvagem”.

Não podia me enganar.
Não podia esquecer o perfil de Kanto grudado naquela DVD.

Mesmo dizendo que gostava de mim, ele nunca me olhou daquele jeito.

Então aquela noite não seria entre dois amantes.

Depois de me abraçar com força e me beijar com intensidade no sofá, ele perguntou onde ficava o quarto e foi pra lá como se fosse uma obrigação.

Ele não disse nada. Sem sussurros. Sem justificativas. Só tirou a roupa e me empurrou na cama.

Ele ia acender a luz, mas eu segurei sua mão e neguei com a cabeça.

Não era porque eu tinha vergonha do meu corpo nu.  
Era porque eu podia me magoar e chorar. E eu não queria que ele visse minhas lágrimas.

A camisa foi erguida e dedos longos deslizaram por dentro.

Dedos que eu me perguntava se seriam quentes ou frios. Eram quentes.

“A...”

Os dedos tocaram meu peito.

Mesmo me dizendo pra agir como experiente, meu corpo, que já tinha estado com outros, mas nunca tinha sido tocado de volta, não aguentou.

“Ei, é sua primeira vez com um homem?”

Se eu ficasse em silêncio ia ficar pesado, então tentei bancar a experiente.

“Eu não tenho lubrificante nem camisinha. Tudo bem?”

Naquele momento parecia exatamente com o que eu tinha imaginado.

A porta para a sala, iluminada, parecia um mundo diferente.
E a sombra dele banhada por aquela luz.

“Vai doer, mas eu aguento. Só posso gritar. Eu não estou acostumada com dor.”

Meu peito vibrou ao pensar que ele estava na minha cama.

“Fica quieta.”

Só que ele não foi gentil.
Não, as palavras não foram gentis, mas as mãos sim.

Ele me tocava com cuidado, como se estivesse abraçando o Fukuhara.

Então mesmo sem curvas as pessoas ligam para o peito.  
Então mesmo sendo homem, mexer nos mamilos dá prazer.

Ele só me beijou uma única vez, no sofá. Depois não me beijou mais.

Em vez disso, os lábios dele percorreram minha barriga.

“Umm...”

A mão desceu e foi para o botão da calça.

Como eu não esperava que chegasse a isso, eu estava de calça skinny. Ela apertava tanto que já estava doendo de tão dura.

Então, quando ele me liberou por cima, a sensação mudou.

De uma dureza crescente, passou a reagir por conta própria.

“A...”

Quando a mão de Kanto tocou ali por cima da cueca, eu gemi.

“É mesmo... homem gosta quando tocam ali...”

“Fica quieta.”

Ele não queria ouvir minha voz?

Eu mesma apaguei a luz, mas por causa disso começou a me rondar a dúvida: será que a pessoa que ele estava abraçando não era eu?

E quando o prazer viesse e ele não conseguisse mais se controlar, talvez isso aparecesse no rosto dele.

Então era melhor mesmo não acender a luz.

“Difícil de tirar.”

Ele murmurou tentando tirar minha parte de baixo.
A calça skinny ficou presa na coxa.

“Eu tiro.”

Com medo de ele desistir por causa disso, eu tirei a calça às pressas. A cueca eu não tive coragem.

A mão dele voltou a tocar minhas pernas nuas.
Onde quer que tocasse, meu corpo inteiro sentia.

Eu achava que não era tão sensível assim.

“Umm...”

Kanto não tirou a roupa.
Continuou com a camisa quase preta e a calça cinza larga. Não tirou nada. Só me tocava.

“A... não...”

Aquilo parecia dizer que ele não queria. E doeu no meu peito.

“Kanto...”

Eu não sou mulher. Talvez eu devesse tirar a roupa dele, pensei, e levei a mão à camisa dele. Ele segurou.

“Não precisa.”

Ah. Doeu de novo no peito.

Ei, você vai fazer amor comigo, né?
Não vai ser só me dar prazer e acabou, né?

Eu queria perguntar, mas a voz não saiu.

“Kanto...”

Ele finalmente se deitou sobre mim, com um peso na medida certa.

A barra da camisa, que tinha voltado ao lugar, ele ergueu de novo com a boca.

Aquela cena por si só já dava um prazer como se estivesse me tocando.

Ele soltou a barra com a boca e foi direto para o meu peito, sugando o mamilo.

“A...”

Quente e úmido brincando com o bico do seio.

Ao mesmo tempo, a cueca foi puxada pra baixo e eu, sem querer, encolhi os joelhos.

Não pode.
Se eu fizer isso ele vai achar que estou recusando.

Pra não parecer que é minha primeira vez, eu preciso recebê-lo com mais experiência.

Mas a mão dele segurou meu membro e começou a se mover devagar, então meus joelhos, que iam se esticar, pararam no meio do caminho.

“A... a... a...”

Um arrepio subiu pela minha espinha.
A pele arrepiou do pescoço até a cabeça.

“Não...”

Meu corpo se contraía sozinho, sem parar.

“Umm...”

Kanto, tira a roupa também.
Deixa eu ver sua pele.
Vem pro mesmo lugar que eu.

Mesmo que seja mentira, deixa eu imaginar que estamos nos abraçando.

Se continuar assim, só vou pensar que estou sendo usada.

Estendi a mão pra ele de novo.
Dessa vez consegui alcançar o braço dele sem ser impedida.

O braço que eu achava magro era na verdade muito forte. Só agora percebi que a razão dele parecer ter braços que minha mão não alcança era porque ele era alto.

Mas não queria soltar o braço que custei a alcançar, então segurei o ombro dele.
Mesmo sem força, só isso já me acalmou um pouco.

“…Já vai.”

Ele murmurou baixo.

O que? Antes que eu pudesse perguntar, a mão que segurava meu membro acelerou.

“A!”

Fui engolida por uma onda que nenhum homem consegue resistir.

“Não...”

Mas espera, o Kanto nem tirou a camisa ainda.

“Não... para...”

Ele queria que só eu gozasse?
Ele não ia fazer amor comigo?

“Kanto!”

Não seja mecânico assim.
Olha pra mim.
Me possui.
Recebe meu sentimento.

Eu não vou pedir nada em troca. Eu sei que essa é a última vez.

“A... não!”

Mas a mão dele não parou.
Não fez nada do que eu pedi.
Só me levou ao limite, me forçou, me fez gozar sozinha, e acabou.

Enquanto o prazer tomava meu corpo inteiro, meu coração estava congelado.

Não era isso.
Não era isso que eu queria.
Não podia terminar assim.

Mas Kanto se afastou de mim, saiu do quarto, voltou do banheiro com uma toalha e cobriu a parte de baixo do meu corpo. Depois não se aproximou mais.

“...Eu vou embora. Descansa um pouco.”

“Ir embora... agora?”

Nesse estado?

“É. Eu não consigo ir além disso.”

Por quê?
Porque eu não sou o Fukuhara?

“É... tá.”

Se essa era a resposta, então tudo bem.
Se mesmo deitado em cima de mim ele não sentiu desejo, eu não podia pedir mais nada.

“Miyamoto.”

“O que?”

“...Copia aquele DVD pra mim. Se for você, eu posso pedir isso, né.”

Um homem cruel.

Me faz gozar e em troca me pede um favor? Eu disse que não ia mais fazer nada por ele.

“Tá. Na próxima eu levo no bar.”

Mas eu não consegui recusar.

Por mais que doesse, por mais que fosse triste, eu não consegui dizer não ao primeiro “pedido” que ele me fez.

Por mais patética que eu fosse...

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