27 de jul. de 2026

You are to me Vol.01 - Capítulo 04

Capítulo 04 – Termosfera

Acontece que o príncipe dos corações, na verdade, era um tagarela de primeira.

Tagarela? Não, obrigada. Nuh-uh. Rejeitado. Ele e tão indesejável quanto aquele tipo de gente que fica brava se você não responde na hora. Na minha opinião, assassinos são melhores. Você fala demais. Demaaais! Conhece teu lugar, encostado.

Nos encontramos no santuário da Mana às 16h. Depois passamos uma hora numa cafeteria. Depois, mais uma hora num restaurante italiano. E ela pagou. Depois, mais uma hora nessa padaria. E sim, ela disse que ia pagar também. E a Yukari só falava, falava, falava. Será que lhe falta um parafuso? Tá treinando pra um triatlo, é? A cafeteria é a natação, o restaurante italiano o ciclismo e a padaria a maratona?

Tentei fazer ela ir direto ao ponto várias vezes, mas todas as vezes ela dizia: “Garanto que tudo isso é necessário, mesmo que você ainda não entenda” e “É importante que eu diga tudo de uma vez. Se continuar em outro dia, não vai funcionar.” Essa mulher ficaria falando por horas se não houvesse um limite de tempo, então que bom que vamos terminar tudo hoje. Foi o que eu percebi depois de 2 horas.

O conteúdo do que ela disse, de vez em quando, até que era interessante. Se ela não tivesse conseguido prender minha atenção, eu já teria surtado. Eu não conseguia imaginar a Mana com cabelo preto liso e longo, de uniforme marinheiro. Se tivesse alguma foto, eu queria ver.

O príncipe dos corações continuou falando com tranquilidade.

“Eu tinha certeza, sabe? Tinha certeza de que a Mana ia responder com cara de encrenca: ‘E por quê?’. Ou talvez me surpreender e dizer ‘Não sei’. Até uma resposta assim me deixaria sem escolha a não ser calar a boca. E tudo bem calar a boca. Se a Mana tivesse respondido ‘Não sei’, minha vingança teria sido completa.

Mas se você me perguntar por quê, eu não saberia responder. Aparentemente, existem pessoas que não sentem dor. Analgésicas, por assim dizer. Como você explicaria dor para essas pessoas? Eu não saber explicar é uma situação parecida. Você não acha ridiculamente arrogante achar que devemos entender tudo sobre os outros? Como você acha que se sentem as pessoas que nasceram sem sentir dor quando mandam elas ‘tentar entender a dor alheia’? Do jeito que eu vejo, essa exigência mostra justamente uma falta de compreensão da ‘dor alheia’.

‘Por que o céu é azul?’ Como você acha que a Mana respondeu a essa pergunta?”

Yukari ficou em silêncio.

Por um segundo duvidei dos meus olhos e ouvidos, mas era óbvio: a boca da Yukari não se mexia e eu não ouvia a voz dela.

Parecia que ela estava esperando minha resposta.

Que diabos? A Terra parou de girar, de repente? Era tão improvável quanto isso, a Yukari calada, esperando minha resposta. Era como a sensação que fica depois de uma longa viagem de barco, quando você ainda sente o balanço das ondas em terra firme. Mesmo calada, parecia que a Yukari ainda estava tagarelando.

Entendi. Essa conversa está acabando. Não. Eu vou fazer ela acabar.

“...Acho que ela respondeu perguntando ‘Por que os corvos grasnam?’”

“Boa. Se você responder ‘Por causa dele mesmo’, ela pode retrucar ‘Então o céu ser azul também é por causa dele mesmo’. Mas isso não teria causado um incidente.

Aqui vai a resposta.

A Mana, enquanto eu estava deitada de barriga para cima, montou em mim e──”

“Espera um pouco!”, eu disse, cortando pela primeira vez o discurso infindável da Yukari. Não me diga que ela me prendeu por 3 horas, pagando tudo, só pra falar sem parar por isso. “Olha como a gente se dá bem! Você é só uma chata.” É isso que tudo isso queria dizer?

Yukari baixou o olhar, desviando o meu, e soltou uma risada baixa. Riu por tanto tempo que eu comecei a ficar sem jeito.

“Infelizmente, a diversão que você está imaginando não aconteceu. Ah, desculpa, não é bom presumir que foi divertido. Eu não sei como é. Nesse caso, estou do lado das pessoas sem sensibilidade à dor. Mas então, acho que a maioria não tem esse tipo de sentimento. Provavelmente.”



“Vamos voltar para a história.

‘A Mana, enquanto eu estava deitada de barriga para cima, montou em mim──’”

Não me importou que a Yukari desse a desculpa de que não tinha esse tipo de sentimento. Eu não achei graça nenhuma. Quer dizer, eu também não consigo me relacionar com esse tipo de sentimento. Não, bem... talvez um pouco. Mas mesmo assim, na prática não tinha como. Dito isso, mesmo que na prática eu não tenha esse tipo de sentimento, ainda fiquei um pouco irritada.

Enquanto eu me ocupava com desculpas, Yukari continuou falando.

“──A Mana cobriu os dois olhos com as palmas das mãos.

‘Ainda está azul?’, ela perguntou.

‘Claro que está azul.’

‘E se esse olho nunca mais pudesse enxergar?’

‘Bom, ainda seria azul.’

‘Então, vamos testar.’

"A Mana enfiou os dedos nos meus olhos.”

             *

Junko, tenho certeza de que te disse isso no começo: “Tenho certeza de que, ao passarmos por este túnel, vou me transformar em outra coisa”. Parece que foi o que aconteceu. Vou ser direta.

Quando ela ouvia palavras desagradáveis, a Mana tentava calar a outra pessoa foi isso que eu afirmei, e foi disso que você reclamou, dizendo que era incoerente e leviano. Já que você foi tão longe, deixe-me dizer o que penso também.

Como mais a atitude da Mana aqui deveria ser interpretada?

" Eu já tinha dito isso”A Mana precisa eliminar as palavras desagradáveis. E para isso, não tem medo nem escrúpulos quanto aos métodos que usa.” Me diga, é possível entender a resposta da Mana aqui de outra forma?

Talvez você entenda, ó minha Grande Criadora. Você tem a sensibilidade que eu não tenho. Mas peço que não me imponha esse seu entendimento. Humanos com sensibilidades diferentes são moradores de universos diferentes; eles entendem as coisas de formas diferentes.

Sinto que foi isso que a Mana estava tentando me dizer naquela época. “O céu é azul”, essa percepção que eu tinha era algo que não podia ser separado do meu sentido da visão. Não se sustentaria em outros universos. Sinto que foi isso que ela tentou me transmitir.

             *

“Ei, você não está com boa cara. Está com fome? Vou pedir mais um conjunto de bolo. Já estamos aqui há um bom tempo, afinal.”

O príncipe dos corações chamou uma garçonete e pediu para as duas sem nem me perguntar.

“Os seus o──”

Foi tudo o que consegui dizer.

“Como pode ver, estão funcionando bem. Talvez eu tenha tido sorte, ou a Mana pegou leve comigo, ou talvez o corpo humano seja só resistente. Bem, provavelmente foram todas as opções.”

“Deu problema grande?”

“Deu. Suspensão e liberdade condicional.”

Finalmente entendi por que elas eram tão secretas sobre os motivos da transferência. Teria que ser uma situação bem complicada para elas quererem contar essa história.

“A suspensão foi uma punição leve, mas os pais dela não aceitaram. Os pais da Mana disseram que não conseguiam entender o motivo e estavam profundamente perturbados com tudo. Já que a Mana tem esse tipo de personalidade, eu tive que me levantar e defendê-la. Esse meu jeito prolixo de falar me ajudou muito, sabe? Assim como fiz hoje, levei meu tempo falando e consegui restaurar a relação da Mana com os pais.”

“Por que ir tão longe?”

“Somos amigas.”

“Mesmo depois dela ter feito isso com você?”

“Foi um pouco problemático, mas não foi grave o suficiente para eu cortar relações.”

Naquele momento, o conjunto de bolo que a Yukari pediu chegou. Sem nem olhar que tipo de bolo era, peguei o garfo, enfiei o bolo na boca e engoli sem nem sentir se era doce ou não.

Que diabos. No fim, as duas realmente têm um caso. Vocês só estão se gabando da vida amorosa. Que se dane. Eu odeio isso.

“Embora eu tenha dito que restaurei a relação, foi só o mínimo. A única coisa que sumiu foi o medo deles da Mana como um monstro imprevisível.”

O príncipe dos corações abriu as cortinas do segundo ato.

Existe um trabalho chamado Oficial Voluntário de Probation. São voluntários que ajudam o infrator, no caso adolescentes, na reabilitação. Por causa da natureza da profissão, monges e pastores frequentemente se voluntariam. O Oficial Voluntário de Probation da Mana era um monge de um certo templo. Esse monge tinha boa relação com alguém da administração do COMS Hakusan.

Na administração do COMS Hakusan, havia o desejo de anos de montar um santuário para uma Abençoada. Sabiam que daria burburinho e ficaram felizes por poderem usar os lotes vazios. O problema era quem seria a Abençoada. Uma Abençoada nunca pode tocar em dinheiro, e precisa viver sozinha. Não conseguiam encontrar alguém que não só estivesse disposta a viver uma vida inconveniente e solitária, mas que também fosse boa para a imagem do COMS Hakusan e fosse capaz de escrever os Fudas Abençoados.

A Mana preenchia todas essas condições.

A Mana precisava provar aos pais que estava se esforçando para se tornar uma pessoa correta. Se ela pudesse passar pelas provações de viver como uma Abençoada, conseguiria mostrar que tinha se tornado “correta”, e a relação entre pai e filha seria recuperada. Era essa a ideia. A vida inconveniente e solitária da Mana como Abençoada era uma provação para ela.

A Mana tem uma personalidade simples. Não é uma receita para popularidade entre pessoas da idade dela, mas eles não se importavam com a quantia ínfima de dinheiro que crianças gastavam no shopping. O ar maduro da Mana fazia sucesso entre quem tinha muito dinheiro. Para completar, ela ainda tinha habilidade com caligrafia e sabia escrever em cursivo.

“E foi assim que a Mana se tornou uma Abençoada.

Agora o terceiro ato: ‘Como eu me tornei uma governanta?’”

“Uma governantaaa?”

             *

O príncipe dos corações deu uma risada baixa por um longo tempo.

Governantas não são aquelas pessoas que servem a nobreza ocidental em mansões luxuosas? Em que parte a Yukari lembrava uma governanta? Mas quando pensei nisso, a Yukari nunca saía do lado da Mana no caminho de ida e volta para a escola. Para a Mana, que não podia tocar em dinheiro, a Yukari era uma necessidade. Acho que ela era algo como uma governanta.

Yukari finalmente parou de rir e começou a explicação.

“A palavra japonesa para governanta, ‘shitsuji’, na verdade é bem antiga. Na corte imperial do período Heian, existia um cargo chamado ‘shitsuji’. De fato, até hoje, em templos maiores e dependendo da seita, ainda existem pessoas ocupando o cargo de ‘shitsuji’. É uma posição onde alguém que não renunciou ao mundo secular cuida da parte administrativa do templo. ──Ou foi o que ouvi do oficial voluntário de probation designado para a Mana.

Quando ouvi isso, achei a parte de ‘não renunciar ao mundo secular’ do meu agrado. E então, comecei a me chamar de ‘shitsuji’, ou ‘governanta’. A Associação──A Associação das Abençoadas me deixou usar esse título e me contratou. Antigamente, pessoas nessa posição eram chamadas de ‘responsáveis pelo cofre’, e esse dever era rotacionado entre várias pessoas. Porém, achei que a palavra ‘dever’ não era adequada considerando que não haveria rodízio.”

Ah, então a Yukari também trabalhava para a Associação das Abençoadas. Agora que penso nisso, seria mais estranho se ela estivesse cuidando do dinheiro da Associação e não fizesse parte dela.

“Espero que você entenda a história por trás do nome agora. Bem, em seguida vem a questão de por que aceitei essa posição.

O que você acha que é o motivo?”

Yukari esperou minha resposta.

Eu não quero responder. E se fosse porque a Mana implorou com lágrimas escorrendo no rosto, dizendo “Precisa ser você.”? Estou cansada de ouvir sobre o caso de amor delas. Que se dane.

Yukari continuou esperando minha resposta. Por fim, cedi e disse,

“...Porque vocês são amigas?”

“Essa seria a maior razão. Mas, não é só isso.

Pode soar estranho eu dizer isso, mas──eu me senti responsável por tudo. Se eu nunca tivesse me aproximado da Mana, ela nunca teria feito esse tipo de coisa.”

Nossa, que chata. Ela só está se gabando ainda mais da profundidade da relação delas!

“Mas você não acha estranho?”

“O quê?”

“Mesmo eu sendo culpada por ter me aproximado dela, por que não houve nenhuma tentativa de colocar distância entre nós?

Vou te deixar com isso: a Mana provavelmente é lésbica. Eu, por outro lado, não sou.”

O príncipe dos corações pegou o recibo e foi embora.

             *

O Conto do Cortador de Bambu. A Princesa Kaguya é uma criminosa da lua, e como punição pelo crime, é banida para a Terra. Porém, em O Conto do Cortador de Bambu, não é mencionado em nenhum momento qual crime a Princesa Kaguya cometeu.

Vamos comparar a Mana com a Princesa Kaguya.

A Mana foi punida com o dever de uma Abençoada. Seu crime foi cegar a amiga por um motivo sem sentido. Ela disse, “Então, vamos testar” e tentou arrancar os dois olhos da amiga. Esse é um crime horrível e imperdoável. Exatamente por o motivo ser sem sentido, esse foi um crime horrível e imperdoável. Esse foi um pecado que transformou a pecadora de humana em uma besta desconhecida.

Porém, ações que parecem horríveis na Terra ganham outra cor na lua.

Vamos mudar o cenário do conjunto habitacional onde ela morava com a família para um deserto infinito e desolado na lua. Sem a atmosfera para enfraquecer os efeitos, a Terra e o sol brilham com dureza. Nem importa que o céu não seja azul, que não haja oxigênio para respirar, ou como as duas foram parar lá. Não importa. Na lua, nada é “sem sentido”. Além das duas, não há mais ninguém e portanto não há mais ninguém que precise entender.

Se ela, nessa lua, dissesse “Então, vamos testar”, e tentasse arrancar os dois olhos da outra──

Mais do que imaginar, eu fui consumida por essa fantasia.

No mundo da lua onde nem passado nem futuro existiam, não havia necessidade de se apegar à vida. Até mesmo infligir cicatrizes no corpo não passaria de uma sensação. Arrancar os olhos de alguém ou ter os olhos arrancados seria um sentimento estranho e intenso. Um que talvez unisse as duas, a que dá e a que recebe, com um laço profundo.

Mas, a lua onde a Princesa Kaguya vivia era uma com crime e punição. Nesse caso, não era muito diferente da Terra. A que quase teve os olhos arrancados pela Mana era aquela tagarela Yukari, e foi ela quem ficou tagarelando sobre passado e futuro. O deserto infinito e desolado, o mundo sem passado e sem futuro, nada mais era do que minha fantasia.

Minha Mas, era só minha?

O que motivou a Mana a fazer algo assim? Como ela conseguiu fazer isso neste mundo que tem passado e futuro, e pecado e punição?

Talvez aquele deserto atemporal fosse a fantasia da Mana. Logo, na minha cabeça delirante, aquele “talvez”, o sinal de que eu ainda tinha juízo, derreteu. Tornou-se que a Mana estava comigo no mesmo deserto, e eu não conseguia escapar.

As últimas palavras que Yukari me disse então, “A Mana provavelmente é lésbica. Eu, por outro lado, não sou.”. Talvez isso fosse apenas uma metáfora. Talvez ela estivesse tentando dizer que elas tinham uma diferença irreconciliável de opiniões. Talvez Yukari estivesse tentando dizer que a Mana vivia num deserto atemporal, e ela não. Não viveria.

Todos esses “talvez” derreteram nas delusões que fermentavam na minha cabeça. Eu imaginei a Mana arrancando os dois olhos em um deserto atemporal onde a Yukari não podia alcançar. Um momento eterno que não tinha passado e não tinha futuro.

             *

Dito tudo isso, fantasias são só fantasias, e a Mana é só a Mana.

Eu tive um sonho incrível depois de ouvir o que a Yukari disse e fantasiar. Nada daquilo aconteceu. Acordei normalmente e fui recebida por uma manhã normal. Peguei o ônibus para a escola, que parou no ponto perto do COMS Hakusan, e a Mana e a encostada entraram. A encostada estava segurando o cartão PASMO da Mana e disse “Isso é para pagar a passagem dela”. Depois, passou o cartão na catraca. Era algo que eu já estava acostumada a ver toda manhã.

“Bom dia”, eu disse. Depois da saudação casual de sempre, no momento seguinte cruzei o olhar com o da Mana.

Ah.

Ehh, hum.

Opa, não quis dizer nada com isso.

Não é nada. Sério. 100%.

Incapaz de dizer em voz alta, mentiras e desculpas transbordaram na minha cabeça. Eu não achava errado ter ouvido aquelas coisas ou ter tido aquelas fantasias. Porém, não pude deixar de arrumar desculpas para mim mesma. Tentei racionalizar. Fantasias são só fantasias; a Mana é só a Mana. Mas não funcionou. Quando tentei ajeitar os óculos, o deserto tremeu. Foi por causa dos meus dedos tremendo.

A Mana, com seus charmosos olhos puxados, sorriu um sorriso amigável como se fosse normal, como qualquer outra pessoa.

“Bom dia.”

Era só o “Bom dia” de sempre, mas parecia que ela tinha me lido por completo.

Em pânico, abri a boca.

“Mana, você na verdade” tem uma reserva secreta de dinheiro, não tem──Mas só consegui chegar até “na verdade” e então calei a boca.

Fiquei atônita com o que acabei de fazer. Não fazia sentido. Por que diabos eu abri a boca agora? Por que só falei pela metade? Que diabos. Eu não estava pensando.

A Mana pareceu perceber meu comportamento suspeito, e inclinou a cabeça para o lado, confusa. Mas será que estava realmente confusa? Não estava sorrindo porque me viu por dentro?

Uma coisa era certa. Eu queria muito perguntar coisas para ela. Você na verdade esconde dinheiro e anda com ele por aí, né? Certo, tinha outra coisa que era certa. Mesmo querendo muito fazer essa pergunta, eu não conseguia.

Tudo o que eu preciso fazer é perguntar. No pior dos casos a Mana fica brava, mas mesmo assim, depois ela fica bem. Mesmo assim, eu não conseguia perguntar.

Minha cabeça estava girando quando a Mana disse,

“Eu ouvi da Yukari.”

Sem pausa, Yukari disse,

“Ah, que repentino, Mana. Eu ia deixar a diversão para depois.”

“Yukari, fica quieta um pouco.”

Uma ordem bem firme vindo da Mana. E então,

“Você tem medo de mim?”

“O quê. Por quê.”

Respondi sem pensar, porque não estava em condições de pensar. Com medo da Mana? Isso é ridículo. Do que eu teria medo? Hum, não consigo lembrar.

“Porque eu fui a agressora num caso de agressão”

“Acho que você é perigosa, mas não tenho medo de você.”

Essa foi outra resposta honesta. A Mana era perigosa, mas eu não tinha medo dela.

“Entendi.”

A Mana sorriu. Um sorriso que parecia o de um animal selvagem: um sorriso cru.

As palavras de Yukari passaram pela minha cabeça, “A Mana é lésbica. Eu, por outro lado, não sou.” Talvez aquilo não fosse uma metáfora.

“Certo, então você pode segurar isso?”

Yukari tirou uma carteira da bolsa. Era a carteira que guardava o dinheiro e o cartão PASMO que eram necessidades da Mana.

“Não vai ser para sempre. Por enquanto, só segure até nos encontrarmos amanhã na escola. Por causa disso, meu tempo de deslocamento aumentou. É bem chato.”

Isso não afetaria meu tempo de deslocamento. “Claro, sem problema”, respondi enquanto estendi a mão para pegar a carteira, mas percebi então──se eu pegar isso, vou conseguir descobrir se a Mana tem dinheiro escondido.

Fantasias egoístas e convenientes inundaram minha mente. Digamos que é de noite, e estamos no COMS Hakusan. A Mana de repente dá vontade de comer oden. Ela decide que chamar a Yukari, que mora tão longe, só por causa de oden seria ruim. Então decide me ligar, já que moro no bairro, enquanto se prepara para ir à loja de conveniência. Infelizmente, por acaso eu estou no banho, então ela acaba deixando um recado na caixa postal. Ela chega na loja de conveniência e tenta me ligar várias vezes; todas as vezes, a ligação não completa. Nesse ponto, a Mana vai estar babando vendo oden fora do alcance. Nem os clientes nem os funcionários da loja parecem conhecê-la. É quando a Mana vai tirar a reserva secreta de dinheiro e comprar o oden. Finalmente saio do banho, ouço o recado e ligo para a Mana. Ela vai atender e então vai dizer, sem a menor pista de que era para ser segredo, que usou a reserva secreta de dinheiro e que não precisa mais da minha ajuda.

Conforme eu adicionava mais e mais detalhes à minha fantasia, fiquei rígida.

“Ah, peço desculpas. Foi um pedido egoísta da minha parte.”

Yukari tentou guardar a carteira de novo. Entrei em pânico e me apressei para pegá-la.

“Eu faço.”

No momento em que toquei na carteira, minha mão tremeu como se tivesse levado um choque. Segurei a carteira com as duas mãos, e o tremor finalmente parou. Imagino como eu, com o corpo obviamente tremendo, parecia para essas duas. Elas provavelmente acham que ainda estou sentindo o choque de saber sobre o passado da Mana.

De repente, tive uma ideia. Ontem, a Yukari tinha dito antes de ir embora, “Mesmo eu sendo culpada por ter me aproximado dela, por que ainda estamos presas juntas assim?” Talvez aquilo fosse──

“──Você tem certeza de que quer que eu só fique com ela ‘até amanhã’?”, perguntei enquanto olhava para a expressão da Yukari de perto, sem querer perder um detalhe. Meus olhos estavam arregalados.

“Por enquanto, sim. Eu vou pegar de volta direito depois.”

O príncipe dos corações sorriu de forma provocativa, como se fosse um jogo. Eu a encarei, tentando ao máximo ver o que havia por trás daquele sorriso, quando a expressão de Yukari ficou séria e ela assentiu. Eu assenti de volta.

A Yukari estava sem dúvida planejando se afastar da Mana.

             *

Mesmo assim, por que nos deixaria sozinhas assim!

“O dinheiro dentro dessa carteira é basicamente mesada. A Mana e eu podemos usar contanto que tomemos cuidado. Como as coisas compradas com esse dinheiro também viram Fudas Abençoados, você tem que tomar cuidado para não usar demais ou vai ser descoberta. Ah, e também garanta ser econômica caso surja alguma despesa repentina.”, Yukari terminou a explicação, e foi em direção a algumas colegas do terceiro ano. A propósito, o dinheiro dentro da carteira era pouco mais de 2000 ienes em espécie.

Eu deveria estar comemorando já que a encostada sumiu, mas não consigo me acalmar. Quero falar mas não consigo pensar em nada para dizer. Dizem que meio pão é melhor que nada, então não precisa ser nada grande.

Finalmente, encontrei algo para dizer e perguntei.

“Seus pais estão bem?”. Aaaa, errei. É uma manhã tão bonita e eu tive que estragar com um assunto pesado. Ela está basicamente exilada de casa agora. Em que eu estava pensando?

“Sim. E os seus?”

“Meu pai está bem. Minha mãe morreu faz muito tempo.” Ao ouvir isso, Mana baixou o olhar, triste, e disse,

“Eu não sabia. Desculpa por perguntar sobre um assunto delicado.”

Outro assunto depressivo! Bem, não para mim, mas eu ouço que é para as pessoas que perguntam sem querer.

O que eu realmente quero perguntar──a verdade é que você realmente tem uma reserva secreta de dinheiro, não tem? Mas não consegui me forçar a perguntar.

“Você está morando perto do COMS agora, né? Não é muito longe da minha casa, né? Se de repente der vontade de comer oden no meio da noite, só me ligar. Eu levo essa carteira para você.”

Usando minha fantasia de comprar oden mais cedo como guia, armei uma armadilha. Logo depois que falei, senti nojo de mim mesma. Ter uma segunda intenção dessas é horrível. Mesmo que a outra pessoa não perceba.

“...Junko, você está um pouco estranha hoje.” Acho que ela pode ter me visto por dentro.

“Bem, desculpa!” Por que diabos estou ficando brava! Entrei em pânico, acenando com as mãos e abaixando a cabeça, “Desculpa. É que estou me sentindo meio louca hoje.”

A Mana deu uma risadinha.

“Eh, eu falei algo engraçado?”

Ela sorriu em silêncio.

“Acho que de certa forma, sim?”

Como esperado, a Mana ficou em silêncio e inclinou a cabeça para o lado de forma significativa.

Mesmo depois de descermos do ônibus e chegarmos na escola, a Mana não disse uma única palavra. O tempo todo que ficamos juntas até o primeiro período começar, não importava o que eu dissesse, a Mana só ou acenava em silêncio, ria, desviava o olhar de mim, ou inclinava a cabeça para o lado.

Naquele momento, eu não consegui entender por que a Mana tinha feito tudo aquilo. Só me senti inquieta e irritada. Mas quando as aulas começaram, pensei nas expressões da Mana e em todos os gestos pequenos dela, e não me senti mais inquieta nem irritada. Pelo contrário, era tudo... uhh, como eu digo isso, não exatamente fofa, mas acho que em parte meio fofa. Tinha mais alguma coisa... Ah, desisto! Chega.

Quer dizer, vamos ser sinceras. A Mana é fofa. Ela também é linda. Mas eu não quero dizer isso. Me senti relutante em usar essas palavras. O problema é que essas palavras representam um ponto de vista objetivo, então você precisa pensar em como outras pessoas veem as coisas. O que eu sentia pela Mana estava completamente separado do que as outras pessoas pensavam.

Não tem outra forma de dizer e eu também não quero dizer desse jeito. Para mim, a palavra mais fiel não era “fofa” nem “linda”, nem era “atraída por”. Era “amor”.

             *

De ficar vigiando ela para estar apaixonada por ela. Isso é uma melhora ou eu piorei? Vamos dizer que são os dois.

Quer dizer, eu ainda tenho curiosidade sobre as coisas de dinheiro da Mana. Se eu pudesse levá-la para algum lugar escuro, tirar a roupa dela e revistar as roupas e a bolsa, seria matar dois coelhos com uma cajadada só; eu ficaria completamente satisfeita. Ou pelo menos era assim que eu me sentia com força. Bom, se eu fizesse isso, a Mana obviamente me odiaria e me evitaria, e a polícia também poderia se envolver. Seria um peso enorme saindo da minha mente.

Eu simplesmente não consigo ver o que mais eu deveria fazer com a Mana a não ser me tornar o próprio diabo daquele jeito. Qual o sentido de fazer algo normal num lugar escuro? Eu simplesmente não entendo por que os homens e as mulheres do mundo ficam tão animados saindo em encontros, ou viajando ou fazendo sexo com a pessoa que amam. Entendo que provavelmente eu devo parecer nojenta para eles.

No intervalo do almoço, a Mana finalmente falou comigo,

“Você está bem agora?”

“Provavelmente.”

Naquele momento, o príncipe dos corações apareceu,

“Ei Junko, como vão as coisas?”

“Bem, ainda não usei a carteira.”

“Ah, não é disso que estou falando. Estou falando de como você estava terrivelmente estranha essa manhã.” O jeito que a Yukari teve a audácia de usar “terrivelmente” quando qualquer outra pessoa, até a Mana, usaria “um pouco” era muito a cara dela.

“A vida é assim às vezes. É diferente com você?”

“Imagino que sim. Mas não posso dizer que já senti isso antes. Bom, vejo você depois.”

O príncipe dos corações foi embora.

Certo, é hora do almoço com a Mana. Só nós duas. Abri minha marmita e a Mana disse,

“Aquilo que você falou sobre oden essa manhã.”

Ah é, a armadilha que eu armei baseada na minha fantasia de comprar oden. Ouvir aquelas palavras que eu usei para esconder minha segunda intenção me deu uma pontada de auto-ódio. Mas seria estranho voltar atrás nas palavras agora.

“Não precisa ser oden.”

“Eu quero oden. Só não de loja de conveniência.”

“Quer dizer tipo em um restaurante popular ou algo assim? Eles vendem oden nesses lugares?” Eu quase nunca comia em restaurante popular, então não sabia que tipo de coisas tinha no cardápio.

“Faça.”

Faça? Quem? Ah, eu.

Ah. 0,1 segundo se passou.

Ah. 0,2 segundo se passou.

Ah. 0,3 segundo se passou.

Certo, agora uma perguntinha.

Q1: Onde você comeria oden da loja de conveniência que comprou no meio da noite no meio do inverno? Resposta: Em casa.

Q2: Se você tivesse uma amiga que veio até aí só para te ajudar a comprar oden, o que você faria? Resposta: Você a convidaria para sua casa e comeria oden juntas.

Q3: Se alguém, claramente com segundas intenções, te dissesse “Só me ligar se der vontade de comer oden à noite”, o que você concluiria que ela está planejando? Resposta: Ela quer te convidar para sua casa, comer oden juntas, e fazer mais alguma coisa.

Q4: De acordo com a Yukari, a Mana é esse tipo de pessoa. Então, que “tipo de pessoa” é essa? Resposta: Provavelmente, lésbica.

Q5: A Mana disse hoje de manhã que “ouviu da Yukari”. Então, a Yukari contou para a Mana sobre o assunto da quarta pergunta? Resposta: Existe uma grande possibilidade.

Q6: Se a resposta da Q5 for “sim”, que tipo de atividade o “mais alguma coisa” mencionado na Q3 está se referindo? Resposta: O tipo de coisa que amigas normalmente não fazem juntas.

Não é isso! De jeito nenhum!

...Mas então de novo. 0,5 segundo se passou.

Um convite para a casa da Mana caiu no meu colo. A razão pela qual eu a convidei para minha casa naquele domingo era para fazê-la me convidar para a dela em troca. Já que é a casa dela, ela provavelmente ficaria descuidada e deixaria rastros de uso de dinheiro──coisas como recibos de loja de conveniência e caixas de compras online──jogados por aí.

Isso é um presente dos céus? Espera. Espera um segundo. 0,7 segundo se passou.

Seria uma coisa se eu tivesse conseguido colocar meu plano em ação sem a Mana perceber, mas agora, é ela quem está me convidando. Quer dizer, se chegar a isso, eu posso simplesmente fugir. Mas se eu fugir, ela vai perguntar por que eu vim. E então, se eu não admitir minha verdadeira razão, descobrir rastros de dinheiro, ela vai me achar suspeita.

...Mas, talvez eu esteja pensando demais? 0,9 segundo se passou.

Pensa bem, a Mana e eu somos garotas. Eu nunca disse para ela que a amo e ela também não disse para mim. Nenhuma de nós deu a entender isso também. De acordo com a Yukari, a Mana é desse tipo de pessoa. Mas mesmo que seja verdade, isso não significa que ela ficaria bem com qualquer garota. Ela não está só me convidando como amiga?

E então eu me lembrei. 1,1 segundo se passou.

Eu me lembro. A primeira vez que conversei com a Mana na escola, quando perguntei se ela me odiava, ela disse que gostava de mim! Mas aquilo era um gostar de amiga, né? Mesmo se não fosse, ainda não existe prova decisiva que prove o contrário. Tenho certeza de que a Mana entende isso também. Por enquanto, vamos dizer que somos amigas──mas espera, você realmente se daria ao trabalho, no meio da noite ainda, só para comprar oden para alguém que é só sua amiga? Eu não acho tão estranho, mas alguém como meu pai, por exemplo, acharia.

Certo. Meu pai. 1,3 segundo se passou.

Eu ia sair à noite, então teria que contar para meu pai o porquê. Se eu ficasse fora por tanto tempo porque estava fazendo oden, o Pai ia ligar e então ia perguntar com quem eu estava e pedir para falar com a pessoa. E o Pai acha a Mana perigosa.

Essa é minha passagem para a liberdade: meu pai! O resultado da minha grande introspecção de 1,5 segundo foram essas palavras:

“Desculpa, meu pai não gosta que eu fique muito tempo fora à noite.”

“Entendi.”

A Mana olhou para mim em silêncio, sem mexer os hashis.

Aquela grande introspecção de 1,5 segundo deve ter sido um pouco estranha. Não, não foi só um pouco, foi terrivelmente estranha. Desviei o olhar, esperando a Mana mexer os hashis de novo.

             *

“Isso é para pagar a passagem dela”,

Recitei a fala de sempre da encostada. Parece estranho.

É de manhã, estou no ônibus para a escola. Estou parada pronta na parte da frente do ônibus. Esse ônibus tinha tarifa única por viagem, e você tinha que pagar assim que entrasse pela porta da frente. E eu estava esperando a Mana entrar no ponto perto do COMS Hakusan.

O terreno de Sama New Town é íngreme. As estradas principais passavam pelos vales, então olhando pela janela do ônibus, tudo o que se via eram ladeiras. A maioria dessas ladeiras tinha árvores crescendo, e algumas, as ladeiras muito íngremes, eram reforçadas com concreto. Por isso, quando você olhava para Sama New Town das estradas principais, parecia que havia linhas por todo lado. Não tanto quando você vê de cima.

Me pergunto como era o lugar onde a Mana morava antes. Vou tentar perguntar o que ela acha de Sama New Town. Até agora, a Mana parecia que não queria que perguntassem sobre o passado, então eu não podia. Mas agora que sei dos segredos da Mana, talvez ela esteja mais disposta a responder. Pensei nessas coisas enquanto esperava a Mana entrar no ônibus.

Quando nos aproximamos do ponto do COMS Hakusan, entre a fila de sempre de passageiros, a Mana estava lá, sem a encostada.

Vendo ela de perto não parece tanto, mas vendo ela ali entre outras pessoas de longe, fiquei surpresa com o quão pequena a figura da Mana era. Ela não era só baixa; tinha ombros pequenos, cintura pequena e cabeça pequena. Quase parecia que ela era a única fora de perspectiva na cena. Pequena, mas não fraca. Por mais compacta que fosse, ela tinha uma força.

Um pensamento abrupto veio à mente. Ela definitivamente está escondendo uma reserva de dinheiro. Sem dúvida.

As pessoas no ponto estavam entrando no ônibus. Assim que a passageira na frente da Mana passou o cartão PASMO no leitor, entrei e peguei aquela carteira. “Isso é para pagar a passagem dela”, disse para o motorista enquanto passei o cartão no leitor. A Mana fez uma saudação simples para o motorista ao passar pela catraca, sorriu para mim e disse “Bom dia”.

Ahhh.

Como eu digo isso? Uhh, ah, certo. É amor. Eu amo a Mana.

Eu realmente te amo, então por favor me mostra o dinheiro que você está escondendo. Esse pensamento maluco passou pela minha cabeça enquanto eu cumprimentava a Mana, “Bom dia”. Pessoas que dizem coisas como “Eu te amo tanto que...” ou “Se você me ama, então...” são realmente as piores, provavelmente têm um parafuso a menos também. Mas é, eu acabei de dizer algo parecido. Só que não em voz alta.

“Quando você se mudou para cá?”

“Por volta de meados de dezembro.” Uhuu, esse é um passo à frente. Até agora, a Mana só ficava quieta e desviava o olhar quando perguntavam sobre o passado.

“Quase dois meses desde então, né? Então, já conheceu a região?”

“Eu não saio muito. Não tem nada para ver mesmo.”

“As estradas e os prédios e essas coisas são bem legais, sabe.”

Contei para ela como, por causa do terreno íngreme e das muitas passarelas para pedestres, Sama New Town tinha muitas estradas e prédios únicos. Se você for para um lugar desconhecido, com certeza vai encontrar algo que vai te fazer dizer “que legal”. Também falei de como a única estrada reta é a estrada principal, e a maioria das estradas eram cheias de curvas e voltas, algumas até cruzando passes, o que as tornava bem imprevisíveis. E como por causa de tudo isso, Sama New Town inteira era literalmente como um labirinto gigante; você nunca sabia onde ia acabar quando entrava numa rua lateral.

Expliquei tudo isso, mas dessa vez, foi a Mana quem não conseguiu se relacionar.

“Não tem nenhum Inari por aqui. Me surpreendeu.”

“Tem sim?”

Tem um santuário Inari de verdade a uns 20 minutos da minha casa se você pegar ônibus e depois trem. Ficava na periferia de Sama New Town, mas ainda fazia parte. Expliquei isso e a Mana disse,

“Só aqueles oficiais.”

“Que ‘não oficiais’ existem?”

“Nos jardins de casas, são aqueles torii e santuários pequenos que têm mais ou menos essa altura.”

A Mana gesticulou uma altura que dava mais ou menos na altura do joelho. Miniaturas?

“De jeito nenhum, isso parece fofo.” Os olhos da Mana se arregalaram e ela perguntou,

“Você nunca viu?”

A Mana falou e descobri que perto da casa da família da Mana, tinha muitos desses. Mas, ainda parecia exagero quando ela disse que só precisava caminhar 5 minutos para ver um torii. Para mim parecia bem inacreditável.

“Eu só pensei: talvez a razão de eles quererem uma Abençoada seja por causa do tipo de cidade que essa é.”

“Isso tem relação?”

Por algum motivo, a Mana sorriu. Não um sorriso educado e amigável, mas aquele sorriso que me cativou, aquele sorriso cru.

“Esta cidade carece de religião.”

             *

Religião? Acho que uma Abençoada é meio que uma coisa religiosa... Espera, é?

O ônibus agora estava dirigindo na rodovia de Sama New Town, a Sama Street. Depois de dirigir um tempo pela Sama Street, o ônibus ia para o sul, passar por outra estrada de vale, e subir até o ponto de ônibus localizado num passo. Então, a gente desce do ônibus, anda cinco minutos, e chega na Academia Privada Feminina Sama Seitaku.

A Sama Street tem restaurantes populares, lojas de conveniência, locadoras de vídeo, postos de gasolina e coisas do tipo alinhadas em intervalos regulares nas laterais. Tenho certeza de que a maioria das rodovias no Japão tem essa vista nas laterais, mas eu não ando muito de carro então não sei.

“Religião não é o tipo de coisa que precisa de um fundador ou tipo uma doutrina?”

“O que é e o que não é religião; isso com certeza é uma questão religiosa.

Pega essa atleta olímpica de nado sincronizado que escreveu sobre o passado dela.”

Essa atleta disse que esse evento aconteceu quando ela estava no ensino fundamental. Ela tinha acabado de começar o nado sincronizado e estava se esforçando ao máximo para ficar mais flexível com calistenia. Ela não fazia sozinha, mas com a ajuda de treinadores adultos. E então um dia, enquanto os três treinadores a seguravam numa chave dupla de ombro, a fáscia dela se rompeu.

“O quê?”

Uma... fáscia rasgada? Não consigo imaginar como isso deve ser, mas parece assustador.

“No momento em que rasgou, doeu demais. Depois disso, a dor não passou, e ela teve hemorragia interna que a fez ficar sem conseguir andar direito. Foi o que li.”

Aparentemente, no dia seguinte, incapaz de suportar a dor, ela foi ao hospital, onde disseram para ela descansar um pouco. Ela tentou só observar durante o treino, mas os treinadores disseram que seria um desperdício não se mexer já que a fáscia finalmente tinha rasgado, e então ela foi forçada a participar do treino.

“Salvo razões extremamente importantes, fazer uma coisa dessas com uma criança do ensino fundamental é crime. Por exemplo, se não houvesse outra forma de curar uma doença. Precisa ser algo desse tamanho. Em vez de a dor daquela doença continuar para sempre, alguns dias de dor são aceitáveis. É perdoado por causa desse tipo de comparação.

Isso não vale para esportes. Se a dor vale a pena ou não só pode ser decidido pelas próprias atletas.

Porém, mesmo que uma criança do ensino fundamental tome uma decisão independente sobre esse tipo de assunto, na maioria dos casos, isso não afeta o julgamento de um crime.”

Até aqui, eu também estava concordando com interesse enquanto ouvia. Porém.

“Por exemplo, se alguém com menos de 13 anos faz sexo, não importa o que diga, seria classificado como estupro.”

Acho que meus ouvidos vão estourar. Não os olhos, mas os ouvidos. Não, sério! Que diabos! Estamos num ônibus lotado! O senso de vergonha da Mana tem que estar quebrado para ela dizer coisas como “sexo” e “estupro” em voz alta agora!

Eu tinha que pará-la de qualquer jeito. Mas a Mana odeia quando as pessoas falam com ela sem pensar. Nunca tentei isso antes, mas tanto faz. Então,

“Mana, desculpa. Posso definir duas palavras como proibidas? Não pergunta por quê. Por favor.”

“Palavra Proibida Nº1──”

...É embaraçoso demais falar! É tão fácil dizer quando estou brincando, mas agora estou morrendo de vergonha.

Como fiquei em silêncio por tanto tempo, a Mana disse,

“Desculpa, não consegui ouvir.” Ela realmente vai me fazer falar, né? Isso é jogo de humilhação? Pode vir então, eu vou junto com seu jogo de humilhação.

“...Sexo.” Ao dizer, sem querer imaginei fazendo com a Mana. Continuei,

“A segunda é estupro.” Essa não foi embaraçosa de dizer. Quer dizer, não consigo me imaginar fazendo isso com a Mana.

“Entendi.”

“Obrigada. ...Sobre o que você estava falando mesmo?”

“Eu estava falando de como as decisões de crianças do ensino fundamental são tratadas.

E de como são ignoradas quando se trata da Palavra Proibida Nº1”, Ela só substituiu a palavra! “mas não são ignoradas nos esportes.”

“Pelo amor de Deus, esportes e aquilo são completamente diferentes.”

Ouvindo isso, a Mana desviou o olhar e baixou a cabeça. Essa é a reação dela quando ouve palavras desagradáveis.

“Crianças e adultos são ‘completamente diferentes’?”

Ugh. Não dá para responder sim ou não a isso. Ninguém se transforma em uma pessoa completamente diferente no momento em que o relógio bate meia-noite e faz 13 anos. A Mana, vendo minha incapacidade de responder, colocou mais sal na ferida,

“E homens e mulheres?”

Mulheres não podem ter filhos juntas, mas com certeza podem fazer as coisas associadas a isso. Até eu e a Mana podemos. ...Eu definitivamente estou fantasiando demais sobre isso.

A Mana, alheia às minhas fantasias, continuou falando.

“Se ‘completamente diferente’ é suficiente para explicar as coisas, tudo neste mundo pode ser explicado como sendo simplesmente ‘completamente diferente’. É isso que você quer fazer, Junko?”

Quando você coloca desse jeito, acho que é verdade. Mas se eu concordasse, isso significaria que o japonês da Mana e o meu japonês são “completamente diferentes”. O que significaria que não conseguiríamos ter nenhuma conversa significativa porque nosso japonês seria tão diferente quanto inglês e chinês.

“...Entendi. Por favor, continue.”

“Apesar de serem ignoradas na palavra proibida nº1, não são nos esportes. Algo deve ser a causa dessa diferença.

Esse algo está relacionado à religião.”

“Você está dizendo que esporte é uma religião?”

Entendo. Como as pessoas podem se divertir tanto correndo todas suadas? Tipo, se fosse só ficar suada ainda tudo bem, mas aquela história da nadadora sincronizada que a Mana contou antes? Parece coisa de seita para mim.

“Talvez.

Ou talvez o que é religião não sejam os esportes, mas as crianças.”

Me perdi aí. As crianças são uma religião?

“Talvez os adultos sejam uma religião, ou talvez a palavra proibida nº1 seja uma religião.”

Hum, consigo entender a Palavra Proibida Nº1 ser uma religião também. Então os homens e mulheres tarados que se juntam para fazer combate noturno nos futons estão praticando religião. É, vamos fingir que é assim. Consigo sentir meu coração sendo purificado enquanto falamos.

“Na realidade, religiões não se limitam apenas a religiões organizadas que têm fundadores e doutrinas como você disse antes. As coisas que não se encaixam nessas condições não são necessariamente não relacionadas à religião.

Religião está presente nas coisas que não parecem ser. É como o ar ter vapor d’água. Religiões organizadas que têm fundadores e doutrinas são parecidas com a chuva. Estão conectadas ao vapor d’água no ar.

Seguindo essa metáfora, as Abençoadas são como névoa.”

Pela metade eu já não estava mais entendendo muito, mas entendi a conclusão. Religiões organizadas são chuva, as Abençoadas são névoa. Acho que era algo assim.

O ônibus já estava quase no ponto de ônibus do passo da montanha. Ao longo das estradas aqui, um parque e uma universidade, entre outras coisas, podiam ser vistos junto com as muitas cerejeiras que tinham perdido as folhas. Era uma visão maravilhosa ter todas essas cerejeiras na primavera, mas agora, era uma visão bem fria e solitária.

A Mana concluiu a conversa.

“Esta cidade carece de névoa.”

Em outras palavras, ela basicamente está tentando dizer que precisamos de mais santuários Inari em miniatura. Mas eu honestamente ainda não entendo muito bem por que precisamos daqueles.

E de qualquer forma,

“Mana, você não tem muito uma vibe de névoa.”

Os santuários Inari em miniatura de que ela falou são, assim como a Abençoada em Faca Errante, meio malfeitos e relaxados. Para cuidar de um santuário de verdade, você precisa de uma religião organizada de verdade; não dá para fazer as coisas pela metade.

A Mana não parece relaxada. Se ela fosse como meu pai esperava, alguém que só usasse uma impressora portátil para imprimir Fudas Abençoados, então ela seria relaxada. Mas a Mana escreve tudo corretamente em cursivo com as próprias mãos. Ela é muito correta.

A Mana desviou o olhar e franziu a testa de forma rígida ao ouvir minha impressão sobre ela. É raro ela fazer esse tipo de cara. Uh, o que eu disse foi tão ruim assim? Além disso, a Mana normalmente fala algo quando ouve algo desagradável dito a ela.

“...Verdade.”

Acho que ela tinha consciência disso.

Mas, você pelo menos tem uma reserva secreta de dinheiro, né? Quase falei isso em voz alta. Não tem como ela ser tão correta mesmo quando ninguém está olhando, então ela não precisa ficar tão ofendida com isso. Ah.

Mas, e se ela realmente não tiver nem um iene nas bolsas nem em casa? E aí?

20 de jul. de 2026

Future Fake Husband - Capítulo 12

Capítulo 12 

Rhett

Taiti era um sonho. Um sonho bom demais para ser verdade, estrelado por Cole Mallory, o falso namorado charmoso da versão nerd e de repente um pouco bêbada de Rhett. A visão da única cama no quarto fez a cabeça de Rhett girar. Ok, talvez parte desse tontura tivesse a ver com a cerveja que ele tomou no jantar.

“Apenas uma cama, Rhett.” A voz de Cole saiu baixa, como se temesse assustá-lo.

Tarde demais. Rhett respirou fundo. “Ela é bem maior que a minha cama em casa.”

“Eu sei.”

As palavras de Cole o fizeram lembrar como tinha sido tê-lo no quarto, sentado na beirada da cama. Ele se sentira exposto, mas não de um jeito ruim. Agora era a mesma coisa. Como se Cole tivesse o dom de olhar para ele e realmente enxergá-lo. E aquele brilho de interesse que Rhett jurava ver nos olhos de Cole às vezes alimentava a vontade de deixá-lo entrar, de se abrir. Havia algo em Cole que o fazia se sentir seguro. E era nessa sensação que ele se agarrava agora, com a mesma força com que apertava a mão de Cole.

“Vou me arrumar para dormir.” Ele finalmente soltou a mão de Cole, fuçou na mala à procura do nécessaire e entrou no banheiro. Mal conseguia respirar por causa do aperto no peito. Aquela viagem dos sonhos tinha algo perigosamente doméstico. Jantar na praia. Brincar no mar sentindo o olhar de Cole o tempo todo. O jantar. Ser salvo do caranguejo. E agora Cole estava no quarto ao lado enquanto Rhett ia ao banheiro e escovava os dentes.

Cole sempre tinha sido amigo do Ryan. Um dos caras. Ryan falava sem parar das coisas que faziam juntos, da diversão que tinham, e Rhett nunca sentira ciúmes. Ele tinha a própria vida, os próprios amigos, e não trocaria a Penny por nada. Agora também não sentia ciúmes. Só um tipo novo de calor por dentro. Ele tinha aquelas memórias novas com Cole. Memórias que eram só deles dois. Parecia bobo até para ele mesmo, mas não queria contar para ninguém. Tinha medo de que perdessem a magia se fossem ditas em voz alta.

Uma batida na porta o tirou dos pensamentos.  
“Está tudo bem aí dentro?”

“Sim, já saio.” Rhett riu e terminou de escovar os dentes. Deixou o nécessaire na pia e saiu do banheiro. “Não quis demorar. Acho que me perdi nos pensamentos.”

“Mais cansado do que imaginava?”

“Algo assim.” Rhett sorriu, grato por Cole não ouvir o coração disparado nem sentir a umidade nas palmas das mãos. “Vou dormir.” O olhar dele escapou para a cama.

“Posso dormir no chão. Ou na poltrona. Não acredito que esse quarto não veio com sofá.”

“Cole, não. Está tudo bem. Somos adultos. Podemos dividir a cama.”

“Ok.” Cole sorriu. “Já volto.”

Assim que Cole sumiu no banheiro, Rhett tirou a roupa e se enfiou na cama. Ele costumava dormir nu, mas naquela noite achou melhor ficar de cueca. Deitou de lado, de frente para o mar, e torceu para adormecer milagrosamente antes de Cole se juntar a ele.

Descobriu rápido que dormir seria impossível sem desacelerar o coração. A cada segundo que passava, ele ficava mais desperto. Saber que ia dormir ao lado de Cole tinha lhe dado um segundo fôlego.

A porta do banheiro abriu e, um instante depois, o outro lado da cama afundou quando Cole se deitou.

E então…  
Nada.

Rhett inspirou, fechou os olhos e imaginou que podia sentir o gosto da pasta de dente de Cole, o sal na pele dele e o cheiro persistente da cerveja de Taiti.

“Rhett?” A voz de Cole estava rouca e íntima demais. Parecia uma carícia na escuridão do quarto de hotel. Um momento que Rhett guardou só para si, junto com todas as outras coisas que jamais contaria a ninguém.

“Sim?” Ele respondeu.

“Se você não parar de ficar todo sem jeito com isso, eu durmo no chão.”

“Eu não estou sem jeito.” A cama se mexeu e Rhett teve a nítida impressão de estar sendo observado.

“Então por que está grudado na beirada da cama?”

Rhett virou de barriga para cima e olhou para Cole, ridiculamente bonito na penumbra. “Desculpa. Vou tentar me controlar.”

“Por favor. Seria bom se você guardasse isso para a próxima vez que estivermos na rua e você for atacado por um bando de caranguejos errantes.”

Rhett sentiu o rosto queimar de novo. “Você vai ficar repetindo isso? Podia ter sido qualquer coisa.”

“Mas não foi. Foi o jantar. Você se assustou com o almoço de pernas.” Cole riu, o tom carinhoso.

Os dois caíram na gargalhada e o estranhamento sumiu. No lugar ficou um silêncio confortável, preenchido apenas pela amizade. Não era ruim, afinal, gostar de passar tempo com o falso namorado. Rhett se aconchegou nas cobertas, se remexendo até achar a posição perfeita. Abriu um olho e encontrou Cole olhando para ele.

“Boa noite, Cole.”

“Boa noite, Rhett.”

- _ _

Dormir com as cortinas abertas fez Rhett acordar com o sol. Ele assistiu ao primeiro nascer do sol em outro país ainda na cama, tentando negar que teria preferido acordar nos braços de Cole e não apenas nos lençóis. Teria sido um acidente, e talvez deixasse tudo ainda mais constrangedor, mas fazia um tempo desde que ele tinha alguém para abraçar dormindo. Rhett não sabia ao certo como funcionaria a dinâmica do relacionamento falso, mas esperava um dia negociar uma cota de abraços. Não achava que Cole se oporia.

“Bom dia.” Ele ouviu Cole resmungar atrás dele e a cama se mexeu. “O que quer fazer hoje? É o nosso único dia livre antes de começar a correria do casamento.”

Rhett se virou, abandonando o nascer do sol para olhar Cole, que estava lindo demais com cara de sono e cabelo bagunçado. “Não sei. Você é o especialista. O que sugere?”

Cole bocejou e se espreguiçou, e Rhett fez o possível para não encarar o peito nu dele. “Podemos pegar um barco para uma ilha particular. Podemos andar a cavalo. Podemos mergulhar com tubarões.”

Rhett guinchou. “Definitivamente não.”

Cole sorriu, aberto e lindo, com os cantos dos olhos franzidos. “Eu cuidaria de você, seu medroso.”

“Você me protege melhor se não me levar para nadar com tubarões. Parece a coisa menos segura que a gente poderia fazer juntos.” Na verdade, a segunda menos segura, pensou Rhett, torcendo para que Cole saísse da cama primeiro e lhe desse tempo de controlar a ereção insistente. Não era uma ereção matinal normal. Era movida pelo rosto sonolento de Cole e pela fantasia de passar o dia inteiro deitado na cama com ele, assim.

“Tá, sem tubarões.” Cole jogou as cobertas para o lado e saiu da cama, esticando os braços e bocejando. “Vou tomar banho. Quer pedir room service ou sair para comer?”

Comer no quarto parecia íntimo demais para as fantasias desgovernadas de Rhett. “Tem alguma coisa aberta agora?”

“Sempre tem alguma coisa aberta,” ele respondeu, fuçando na mala. “Saio em instantes.”

Rhett ficou na cama enquanto Cole tomava banho, pensando no café da manhã e tentando não imaginar um Cole completamente nu no cômodo ao lado, com a água escorrendo pelo corpo e a espuma deslizando pela pele. Rhett saiu da cama e pressionou a mão contra a ereção, tentando fazê-la sumir. Dividir a cama com Cole tinha sido uma ideia tão ruim quanto ele imaginava.

Quando ouviu a porta do banheiro abrir, pegou depressa uma muda de roupa. “Não vou demorar,” disse a Cole quando se cruzaram.

“Fica à vontade.”

Rhett fechou a porta do banheiro e jogou as roupas na pia antes de ir até o chuveiro. Abriu a água e ajustou a temperatura antes de tirar a cueca e entrar.

Pensou em ligar a água gelada e resolver o problema de outro jeito, mas Cole já estava debaixo da pele dele. Mesmo sozinho no banheiro, era como se sentisse a presença de Cole se enrolando nele, se tornando parte dele.

Rhett levou a mão ao sexo e conteve um gemido. Apoiou a outra mão no azulejo e fechou os olhos. A água sozinha ficou um pouco áspera, então parou para usar sabonete e facilitar o movimento.

Pelo menos tentou pensar em qualquer coisa que não fosse Cole, mas parecia errado pensar em outra pessoa quando quem ele realmente queria e não deveria estava no quarto ao lado esperando por ele. Então deixou pensar em Cole. Na forma como as mãos deles se encaixavam tão bem. Na forma como ele tocou o rosto de Rhett, ou encostou o ombro no dele. Cada lembrança tirou o fôlego de Rhett e logo ele estava mordendo o lábio para abafar um gemido quando o orgasmo veio, deixando as pernas bambas.

Terminou o banho e torceu para que um orgasmo fosse suficiente para manter o desejo recém-aceso sob controle até que pudesse ficar sozinho de novo.

Saiu do banheiro e soube que estava condenado. Cole guardou a carteira no bolso de trás e estendeu a mão para Rhett. “Pronto?”

“Para qualquer coisa, menos tubarões,” respondeu Rhett, pegando a mão de Cole e corando ao lembrar para que acabara de usar aquela mão.

“Você está sorrindo,” Cole comentou, erguendo uma sobrancelha.

“Claro que estou. Estou em Taiti.” Rhett torceu para que Cole não insistisse e agradeceu quando ele apenas sorriu, como se soubesse de alguma forma, mas preferisse não dizer nada.


17 de jul. de 2026

Deadlock - Capítulo 02

Capítulo 02


Micky convidou os dois para o refeitório, já que eram quase cinco horas. Todos os prisioneiros estavam reunidos em um só lugar, o que significava que, se você não chegasse cedo, era obrigado a esperar em uma fila longa e cansativa. Assim que chegaram ao primeiro andar, Micky chamou um homem na multidão.

“E aí, Nathan. Que coincidência. Deixa eu te apresentar esses caras. Yuto Lennix e Matthew Caine. Eles começam hoje no Bloco A. Esse aqui é meu colega de quarto, Nathan.”

“Nathan Clark. Prazer em conhecê-lo.” Nathan sorriu calorosamente, segurando alguns livros na dobra de um braço e estendendo a outra mão para um aperto de mãos. Ele tinha por volta de trinta anos, com cabelos castanhos lisos e brilhantes que chamavam a atenção. Era alto e magro, mas seus ombros largos impediam que parecesse franzino. Seu nariz fino e lábios delicados lhe davam um ar inteligente, mas também um tanto tenso. Contudo, seu sorriso gentil e seu jeito natural e descontraído atenuavam essa impressão, deixando-o com uma aura de aceitação digna.


“Venha conosco ao refeitório”, disse Micky.

“Claro. Só um minutinho enquanto guardo esses livros”, respondeu Nathan serenamente, subindo lentamente as escadas. De alguma forma peculiar, ele parecia não ser deste mundo.

Enquanto esperavam, Micky começou a contar sua história de vida sem que ninguém tivesse pedido. Ele havia fracassado em um assalto a banco, sido preso e estava ali há cinco anos. Orgulhosamente, informou-lhes que contrabandeava itens proibidos por uma rota especial que passava despercebida pelos guardas e que fazia disso um negócio, vendendo suas mercadorias para uma clientela diversificada.

“Se precisar de alguma coisa, é só me avisar. Revistas pornográficas, drogas, facas, o que você imaginar. Posso conseguir qualquer coisa, menos mulheres.”

Yuto esboçou um sorriso irônico por dentro. Então era disso que se tratava. Ele vinha se perguntando por que Micky era tão amigável, mas agora sabia que, para Micky, recém-chegados significavam novos clientes.

Nathan voltou logo em seguida, e o grupo de quatro saiu do Bloco A em direção ao refeitório. Micky assobiava enquanto caminhava à frente. Nathan, que vinha atrás, explicava a Yuto e Matthew, que ainda não faziam ideia de nada, vários detalhes sobre a prisão.

O edifício era dividido em quatro alas principais que abrangiam o terreno: a ala central, a ala oeste, a ala leste e a ala norte. As alas leste e oeste continham celas; a ala norte abrigava um ginásio e uma oficina; a ala central, a única com uma saliência que lhe conferia o formato de "T", abrigava o gabinete do diretor, a secretaria, o posto da guarda e o centro de controle – todos parte da ala administrativa na seção inferior do "T", que formava o núcleo principal da prisão. Na parte posterior do "T" ficavam o refeitório, a sala de recreação, a enfermaria, a biblioteca e as instalações educacionais.

Foram realizadas verificações de segurança pelos guardas em alguns dos portões principais. Alguns locais estavam equipados com detectores de metal.

“Há inúmeras maneiras de contornar isso, é claro”, acrescentou Nathan, com um sorriso maroto. Suas explicações eram diretas e concisas. Mesmo uma breve conversa bastava para demonstrar sua inteligência.

Eles foram revistados na entrada do refeitório. Yuto entendeu o que Nathan queria dizer quando o guarda lhe fez uma revista superficial. Com revistas corporais como essas, ele não teria muita dificuldade em esconder uma ou duas pequenas lâminas nos sapatos, sob a gola da camisa, atrás do cinto. Havia muitos lugares para esconder uma, se ele sentisse necessidade.

Na cozinha, os detentos vestindo aventais brancos trabalhavam atarefados sob o olhar atento dos guardas. Micky e Nathan, seguidos por Yuto e Matthew, pegaram bandejas de plástico e entraram em uma fila que já estava ficando bastante longa enquanto esperavam o jantar ser servido.

A refeição consistia em alguns itens, como peixe e frango fritos, grits de queijo em copos de papel e salada. Pão, suco de laranja e café estavam disponíveis gratuitamente.

O espaçoso refeitório fervilhava com a algazarra de vários detentos. O ar estava denso com o odor corporal masculino, que se misturava ao cheiro da comida, criando uma combinação peculiar.

Uma observação mais atenta revelou que as mesas em algumas partes da sala eram, na verdade, dominadas por certos grupos: brancos à direita, negros ao fundo e latinos à esquerda. Yuto se perguntou se certas raças tinham que se sentar em mesas específicas, mas Micky e Nathan se sentaram na mesma mesa que Yuto e Matthew, perto do centro da sala. Mesmo ao lado dele, detentos de diferentes cores de pele estavam comendo juntos. Aparentemente, o centro da sala era uma zona mista.

A refeição foi péssima, para dizer o mínimo, embora ele não esperasse muito. Mas o apetite não importava; uma vez no estômago, a comida seria metabolizada em energia. Yuto levou a comida à boca em silêncio com seus talheres de plástico, seu corpo uma máquina, a comida mais como combustível.

De vez em quando, um detento que passava olhava para Matthew e assobiava, como se estivesse cantando uma garota bonita.

"E aí, Marshmallow Caine", disse Micky, estalando os dedos e apontando para Matthew numa imitação exagerada.

"É Matthew", corrigiu o menino prontamente.

"Escuta, quando você terminar de comer, Menino Marshmallow, você precisa ir ao refeitório e comprar o cinto de castidade mais recente. Desenvolvido pela NASA especialmente para prisioneiros. Você pode cagar sem precisar tirá-lo. Legal, né?"

Micky bateu na mesa enquanto ria da própria piada, lançando um olhar para trás na direção de Matthew, que estava sentado ali com uma expressão de surpresa.

“Mas mesmo com um cinto de castidade, aposto que você não dura nem três dias. Aposto três maços de cigarro.”

Matthew fez uma careta, mas o rosto de Nathan estava sério enquanto concordava, dizendo que Micky não estava exagerando.

“Você precisa ter muito cuidado. O número de homicídios não se compara ao número de estupros que ocorrem na prisão. Tente não agir sozinha. Fique longe de lugares suspeitos. Tenha cuidado redobrado com as gangues. Se for atacada por elas, não tente revidar. Deixe que façam o que quiserem com você, e pelo menos você sairá viva.”

“Sair daqui vivo, senhor advogado?”

Nathan franziu a testa. Yuto ficou em alerta ao sentir uma mão agarrar seu ombro.

“Estamos nos divertindo por aqui? Gostaria de me juntar à festa de boas-vindas?” A mão no ombro de Yuto pertencia a um homem negro de estatura imponente. Ele usava um gorro de lã e um brinco de prata na orelha direita. Era, sem dúvida, o homem que havia falado com ele no local. Havia um grupo de homens negros de aparência rude atrás dele.

“Você não vai me apresentar esse rostinho bonito? Estou querendo conhecê-lo desde que o vi aqui. Qual é o seu nome? Sou Bob Trenkler. Todo mundo me chama de BB”, disse o homem, aproximando o rosto do de Yuto. Yuto desviou o olhar. Outro homem negro tentou espiar seu rosto do outro lado.

“Ei, BB. Esquece esse. O garoto branco é mais bonito.”

"Bobagem. O que você vai conseguir de um garoto que parece que nem chegou à puberdade? Aprenda a escolher suas garotas."

BB inclinou-se e aproximou o nariz do pescoço de Yuto. Inalou profundamente com uma expressão de êxtase no rosto, como se estivesse sentindo o cheiro de um banquete. "Ah, você cheira a uma vadia gostosa", sussurrou lascivamente em seu ouvido. Yuto se irritou.

"Não me toque com essas suas mãos imundas", ele cuspiu enquanto afastava a mão de BB. A multidão fervilhava de agitação.

"Você acha que pode falar assim com o BB só porque é novato, seu idiota?"

"Você está pedindo para ser morto?"

Os rapazes do BB se levantaram imediatamente, tomados pela raiva, e cercaram Yuto. Os espectadores, na esperança de presenciar uma briga, os incentivaram.

"Faça isso!"

“Peguem ele!”

“Saiam da frente”, disse uma voz ao grupo ameaçador de homens negros. Todos os olhares se voltaram para o dono da voz. “Deixem-me passar. Gostaria de comer”, disse o homem branco em voz baixa, segurando uma bandeja. Ele tinha uma constituição física equilibrada e musculosa, com um rosto proporcional que era simplesmente belo. Yuto se viu com os olhos fixos no homem.

O homem, que tinha os cabelos loiros compridos presos casualmente na nuca, não parecia se importar nem um pouco com a atmosfera tensa ao seu redor. Ele passou pelos homens negros e seus olhares agressivos e sentou-se ao lado de Yuto.

"Trenkler! O que você está fazendo aí? Se já terminou de comer, suma daqui!" gritou o guarda à distância, percebendo a confusão.

“Entendi, entendi. Só estava cumprimentando a novata”, disse BB tranquilamente para o guarda. Com um sorriso malicioso no rosto, ele lançou um olhar demorado para Yuto. “Gosto de garotas atrevidas. Vamos sair qualquer dia desses, bonitão. Vou te mostrar como é bom se divertir. — Ei, Burnford. Não pense que pode se exibir por aí só porque o Choker está te protegendo.”

BB lançou um olhar fulminante para o homem que o interrompera e saiu com seus comparsas. A plateia de homens ao redor, que observava com a respiração suspensa, soltou um suspiro coletivo, algo entre alívio e decepção.

“Bom trabalho em atrair a atenção do pior cara possível”, tagarelou Micky. “Aquele cara é o Bob Mau, líder dos Soldados Negros. Ele abriu fogo com uma metralhadora e matou quatro pessoas. Foi condenado a cento e cinquenta anos de prisão. Um cara perigoso, esse aí.”

"Soldados Negros? Isso soa meio ridículo, não é?" disse Yuto com desdém. Micky franziu a testa e balançou a cabeça.

“Não é brincadeira, cara. As gangues mandam aqui. As três maiores, com mais poder, são os Black Soldiers, o grupo chicano Locos Hermanos e a gangue de brancos, ABL. Acredite em mim, Yuto. Se você quiser sair daqui vivo, não arrume confusão com eles.”

"Certo, Micky, entendi. Acho que vou até o refeitório e pego um daqueles cintos de castidade da NASA também", disse Yuto, numa piada que já não era bem uma piada.

"Seria uma boa ideia", disse Micky, dando de ombros.

“Dick”, disse Nathan, “ele é seu novo colega de quarto”. O homem, que estava concentrado em sua refeição, virou-se para olhar Yuto sem expressão. Quando Yuto se apresentou, o homem fez o mesmo.

“Dick Burnford”, respondeu ele sucintamente, e voltou a comer. Yuto observou discretamente seu colega de quarto antissocial. Dick Burnford, em resumo, era bonito.

Seus traços masculinos eram bem definidos e proporcionais. Era um homem bonito aos olhos de qualquer pessoa. Sua alta estatura era bem equilibrada e tonificada à perfeição. Seu único defeito era uma cicatriz proeminente que ia da testa até a extremidade externa da sobrancelha, mas na prisão, uma cicatriz no rosto provavelmente lhe conferia um charme especial.

Mas o que mais chamou a atenção de Yuto, mais do que sua aparência refinada ou a cicatriz marcante, foram os impressionantes olhos azuis de Dick, que lembravam um lago cristalino. Não eram azul-acinzentados nem azul-esverdeados, mas azuis no verdadeiro sentido da palavra.

Cabelo loiro e olhos azuis. Não era uma combinação rara, mas os caucasianos que nasciam com olhos azuis tendiam a vê-los escurecer com a idade, assim como seus cabelos loiros. Nesse sentido, era raro encontrar alguém que tivesse conservado ambas as características de forma tão perfeita.

"Quantos anos você tem, Dick?", perguntou Yuto, esperando que sua pergunta servisse de gancho para uma conversa mais longa. Ele preferia ter uma ideia geral logo de cara da pessoa com quem iria dormir e acordar na mesma cela.

“Vinte e nove”, respondeu ele prontamente, sem sequer olhar para Yuto.

“Isso significa que temos um ano de diferença. Eu tenho vinte e oito. Quando você chegou aqui?” Yuto manteve um tom casual, mas Dick parecia totalmente indisposto a continuar a conversa. Em resumo, ele parecia difícil de lidar.

"Matthew, quantos anos você tem?" Micky interrompeu animadamente, como se quisesse apaziguar a situação. Matthew respondeu que tinha quase vinte e um. "Você parece que ainda estaria chorando pela mamãe, rostinho de bebê", comentou Micky. "O que te trouxe aqui?"

Matthew mexeu no mingau de milho com o garfo. "Não é nada demais", murmurou. "Meu amigo e eu furtamos um pouco de uísque de uma loja de bebidas administrada por um senhor de idade. Meu amigo disse que o homem era senil e que não precisaríamos nos preocupar. Mas acabamos sendo pegos e brigamos. Acabei esfaqueando o cara com a faca do meu amigo... foi no braço, mas o cara caiu com o susto e bateu a cabeça. Ficou em estado crítico, com uma contusão cerebral. Peguei dois anos."

“Você deu azar, cara”, disse Micky, dando um tapinha no ombro de Matthew. Um caso de furto em loja se transformou instantaneamente em cumplicidade em roubo qualificado e agressão. Sem mencionar a transferência para a ala oeste, que lhe rendeu até a pena do guarda. Matthew estava mesmo sem sorte.

“Quantos anos você vai ficar preso, Yuto?”

"Quinze."

Micky assobiou e inclinou-se para a frente, ansioso. "Então, o que você fez?"

“Eu não fiz nada.”

Micky e Nathan se entreolharam. Yuto não se importava com o que as pessoas pensariam dele. Não havia outra maneira de descrever a situação.

"Sou inocente", declarou Yuto com firmeza.

“Ah, bem”, disse Micky sem jeito, coçando a bochecha. “Acontece. Você também deve ter tido azar.”

Talvez Micky pensasse que ele era meio maluco, mas Yuto não ligava. Sua versão da história fora rejeitada desde o início, tanto nos interrogatórios quanto no tribunal. Ele fora incriminado pelo assassinato de seu colega investigador e condenado a quinze anos de prisão. Comparada à amargura disso, a ideia de um companheiro de cela pensar que ele tinha perdido o juízo não o incomodava nem um pouco.

“Ei”, disse Matthew a Nathan, como que para quebrar o gelo. “Sabe como aquele cara negro lá atrás te chamou de Senhor Advogado? Você era advogado antes de vir para cá?”

“O Nathan é voluntário na biblioteca jurídica”, respondeu Micky por ele, aparentemente incapaz de resistir à tentação de dar sua opinião sobre tudo. “Esse cara aqui sabe muito e eu digo muito mesmo sobre direito. Ele já apresentou denúncias por escrito em nome de detentos ao Departamento Estadual de Correções. Violações de direitos humanos, tratamento injusto, tudo isso. Ele aconselhou detentos com longas penas e consultou leis e precedentes para redigir e apresentar petições para reduzir suas penas. Ele é incrível. Outro dia mesmo, ele encontrou uma brecha na lei e entrou com um pedido em nome de um detento, e o cara teve sua pena reduzida em dez anos. Outros caras conseguiram liberdade condicional. Você pode confiar muito mais nesse cara do que em advogados de fora. O Nathan tem até o privilégio de falar diretamente com o diretor Corning.”

O tom de admiração de Micky deixou claro que ele respeitava seu colega de cela. Para muitos detentos aqui, Nathan provavelmente era como um salvador.

"O diretor só me chama a atenção quando quer me dar uma bronca", disse Nathan. "Eu o irrito porque vivo causando problemas desnecessários."

“Onde você estudou Direito?”, perguntou Yuto.

“Estudei um pouco disso na faculdade”, disse Nathan com um sorriso. “Minha especialização era direito penal. Agora posso estudar criminosos em primeira mão”, refletiu. Não havia autopiedade na maneira como Nathan brincava sobre sua situação. Yuto sentiu uma forte afeição por ele. Nathan não era apenas um homem inteligente.

Dick, por outro lado, era indecifrável a partir da breve interação que tiveram. Era um homem de poucas palavras e raramente iniciava conversas. Mas isso não significava que rejeitasse a comunicação por completo; ele ainda sorria para as piadas bobas de Micky e respondia às conversas banais de Nathan. Não era do tipo sociável, mas ainda demonstrava um nível aceitável de educação com seus amigos. Essa era a impressão de Yuto até então.

Seja como for, Dick era um colega de quarto infinitamente melhor do que um homem turbulento como Micky.

Após o jantar, o grupo de Yuto retornou ao Bloco A para o confinamento e a chamada às seis horas. Todos os detentos caminharam em massa para suas celas , como em um êxodo.

De repente, uma voz furiosa se ergueu da multidão em movimento. Os espectadores rapidamente se aglomeraram em torno do que parecia ser uma briga. Insultos altos e entusiasmados foram lançados ao ar.

Matthew tentou se aproximar da confusão, mas foi impedido por Nathan. "Não faça isso", advertiu ele. "Não se envolva. Se você se atrasar para a chamada, terá que responder por uma punição severa mais tarde."

“Brigas acontecem o tempo todo. Logo você nem vai mais achar isso novidade. Vamos embora”, disse Micky, empurrando os ombros de Matthew. O garoto deu um suspiro apático.

“Todo mundo está irritado porque não está ingerindo cálcio suficiente”, disse Nathan, com calma. Quando o grupo recomeçou a andar, Yuto tentou segui-los. Ele tinha dado apenas alguns passos quando foi puxado pelo braço por trás. Quando Yuto percebeu o perigo que corria, já era tarde demais. Um grupo de homens já o havia arrastado para um banheiro próximo. Eram os capangas de BB que o haviam ameaçado no refeitório.

"Acabem com ele!" gritou o homem que o imobilizava. Os outros três homens avançaram. Um desferiu um golpe forte em seu estômago; outro, um na nuca. Quando Yuto caiu no chão, tomado pela dor e pelo choque, foi chutado violentamente enquanto ainda estava caído.

Yuto sabia que poderia lutar decentemente se quisesse, mas quatro contra um era uma desvantagem muito grande. Em vez disso, encolheu-se para proteger seus órgãos, ergueu os braços para proteger a cabeça e dedicou-se exclusivamente à defesa enquanto esperava a tempestade passar.

“Da próxima vez que vocês resolverem desrespeitar o BB, lembrem-se de que não será tão gentil assim. Muito bem, pessoal, vamos lá.”

Após espancarem Yuto rapidamente, os homens negros se viraram e fugiram. Nathan e Micky apareceram logo em seguida. Ao verem Yuto caído no chão, correram até ele.

“Yuto, aguenta firme. Você está bem?”

"Droga, são aqueles bastardos dos Soldados Negros!" murmurou Micky, com a voz carregada de ódio. Nathan ordenou que ele trouxesse Dick. O homem irrompeu na sala justamente quando Nathan amparava Yuto nos braços, ajudando-o a se sentar. Dick encarou Yuto nos olhos.

Você consegue ver meu rosto?

“…Sim. Dois olhos, um nariz, uma boca. Olá, bonitão.”

“Se você estiver bem o suficiente para fazer piada, não temos nada com que nos preocupar. Vamos levá-lo para a nossa cela.”

Yuto conseguiu se levantar com o apoio de Nathan e Micky. Seu peito doía intensamente a cada inspiração, sem dúvida por causa dos chutes brutais que havia recebido.

“Vai embora. Vai ser uma experiência solitária para você se descobrirem que você estava brigando. Enquanto isso, vou agradecer aos céus por termos um encrenqueiro desde o primeiro dia.” O tom sarcástico de Dick irritou a todos.

"Eu não fiz nada", respondeu Yuto com uma careta.

“O Micky teve a gentileza de te avisar lá atrás, e você deu de ombros. Você mesmo provocou isso”, disse Dick friamente. Yuto sentiu o rosto endurecer.

"Vou te avisar agora mesmo que você não vai sair impune só porque é a vítima. Para os guardas, a própria confusão é o problema."

“Então você está dizendo que se alguém for linchado, ele também será punido por isso? Isso é muito errado”, disse Yuto irritado enquanto Dick olhava para fora do banheiro. Dick nem se virou.

“Não me importo se você acha isso errado. É aqui que você vai morar de agora em diante. — Certo, vamos embora.” Ao sinal de Dick, Nathan e Micky começaram a andar, carregando Yuto nos braços. Yuto sentia seu corpo gritar de agonia a cada passo. Mas de jeito nenhum ele ia dizer que não conseguia andar. Seu orgulho masculino já estava bastante ferido pela vergonha de apanhar sem nem mesmo ter a chance de revidar.

"Onde está Matthew?", perguntou Yuto a Micky, percebendo que o garoto não estava em lugar nenhum.

“Eu e o Nathan estávamos nos perguntando para onde você tinha ido quando vimos os caras dos Soldados Negros saindo correndo dos banheiros”, respondeu Micky. “Tínhamos uma ideia do que poderia ter acontecido, então o fizemos voltar sozinho. Não queremos envolver um garotinho com uma pena curta, não é?”

"Você tem razão." Yuto sorriu apesar da dor, sentindo-se um pouco redimido pela gentileza de Micky.

“Nathan, o que há de errado com o recém-chegado?” perguntou o guarda parado na entrada do Bloco A, com voz suspeita. Era Guthrie, o guarda que havia trazido Yuto e Matthew até ali.

“Ele foi derrubado e caiu. Estava lotado, então ele foi pisoteado bastante”, disse Nathan calmamente. Guthrie pareceu convencido; ele ergueu o queixo como quem diz para eles se apressarem. Micky suspirou aliviado ao lado dele.

Yuto, com toda a sua força de vontade, conseguiu subir os lances de escada até o terceiro andar. Nathan e Micky sentaram Yuto na cama de Dick antes de correrem para a cela. Poucos minutos depois, um sino ensurdecedor soou por todo o Bloco A.

"Recuem!" o rugido do guarda ecoou por todo o prédio.

“Depois de ouvir esse som, as portas se fecham automaticamente”, disse Dick. E, como prometido, as portas deslizaram rapidamente sobre os trilhos, fechando a cela. Yuto agora tinha plena consciência de que havia se tornado um verdadeiro prisioneiro dentro daquela cela apertada.

Assim que o guarda terminou a chamada, as portas se abriram novamente. Dick ordenou que Yuto se deitasse na cama. Enquanto ele se espreguiçava com cuidado, Dick olhou em seus olhos mais uma vez e, em seguida, passou as mãos frias pelo corpo de Yuto para verificar a gravidade de seus ferimentos, perguntando se ele tinha dor de cabeça ou sentia náuseas.

“Dick. Como está o Yuto?” Nathan e Micky voltaram para visitá-lo.

“Estou examinando-o agora mesmo. — Você disse que sente dor no peito ao inspirar?”

Quando Yuto assentiu com a cabeça, Dick se virou para Nathan e Micky. "Ele pode ter fraturado uma costela."

"O que devemos fazer?", perguntou Nathan. Dick deu de ombros, como quem diz que não era da sua conta, e se levantou.

“Só podemos esperar que se cure sozinho. Estou indo para a enfermaria. Ainda tenho trabalho a fazer. Choker não está nada bem.”

Assim que Dick saiu da cela, Yuto fez uma pergunta a Nathan: "Dick é médico?" Nathan balançou a cabeça negativamente enquanto aplicava uma toalha úmida no rosto inchado de Yuto.

“Mas ele tem bastante conhecimento. Ele é auxiliar de enfermagem na enfermaria. Está acostumado a cuidar de pessoas feridas. Yuto, se ficar insuportável, você deve avisar o guarda. Seu pedido só será recebido amanhã, então você terá que ficar sem a enfermaria esta noite.”

Yuto agradeceu a Nathan pela ajuda, mas disse que não iria apresentar uma queixa. Mesmo que consultasse um médico, o tratamento para uma costela fraturada provavelmente se resumiria, no máximo, ao uso de um colete ortopédico.

"Yuto, o que aconteceu?" Matthew gritou ao entrar na cela. Ele olhou, com os olhos arregalados, para o rosto inchado e repugnante de Yuto. "Está horrível", disse ele, franzindo as sobrancelhas. "Foram aqueles caras negros que estavam te incomodando no refeitório?"

“Sim”, respondeu Micky. “Mas ele teve sorte de ter acontecido antes do fechamento da cela e da chamada. Eles não tiveram muito tempo para causar danos.” Matthew ouviu a explicação de Micky, depois olhou para Yuto e mordeu o lábio, irritado.

"Eles chegaram a esse ponto por causa de um comentário insignificante? Estão loucos."

Yuto perguntou se podia ficar sozinho para descansar. Assim que os três homens saíram de sua cela, ele foi novamente forçado a lidar com as ondas de dor excruciante e incessante que o atacavam. A dor percorria não apenas seu peito, mas todo o seu corpo. Cada parte parecia latejar de dor. Um gemido lamentável ameaçava escapar de seus lábios, mesmo quando ele permanecia imóvel. Yuto cerrou os dentes e suportou.

Essa certamente não era a primeira vez que ele se envolvia em violência; ele já havia lutado com um homem armado que percebeu seu disfarce durante uma operação secreta. Ele também havia sido esfaqueado por um colega traficante quando estava infiltrado. Seu trabalho na DEA sempre lhe impunha algum tipo de perigo.

Mas essa foi a primeira vez que ele foi submetido a uma surra unilateral, sem sequer poder receber tratamento para os ferimentos sofridos. Foi um golpe para sua dignidade estar ali deitado sozinho na cama, em uma cela escura e apertada, sem outra escolha a não ser engolir a dor. Mas ele não ia deixar isso o abater.

Yuto deu a si mesmo um discurso motivacional. Não deixe isso te afetar. Você é um ex-investigador da DEA. Você sempre encarou todas as missões perigosas, sem temer nada. Você superou inúmeras dificuldades.

Naquele momento, o orgulho era a única força que restava a Yuto. Ele havia perdido tudo, mas ninguém podia lhe tirar a dignidade – sua crença em si mesmo. Ele não ia deixar a insegurança dominá-lo agora.

Ele temia que, uma vez que começasse a duvidar de si mesmo, acabaria perdendo completamente a fé em suas próprias habilidades. Era disso que ele mais tinha medo. A última pessoa que ele queria se tornar era um covarde que só se preocupava em se esquivar de todos os problemas.

Yuto praguejou mentalmente, dando um chute figurativo em seu próprio eu deprimido. Ele já previa tudo isso quando chegou aqui. Ninguém o obrigou a vir. A decisão foi dele.

Yuto escolheu vir para a Prisão Estadual de Schelger por vontade própria. Era verdade que ele tinha família em Los Angeles, mas havia outro motivo para ter atravessado o país de avião, da costa leste até aquela prisão remota na costa oeste. A gravidade da situação poderia desestabilizar a vida precária de Yuto.
Ou talvez ele já tivesse caído no abismo. Ele havia perdido tudo por causa daquele incidente — seu emprego, seu status social, a confiança dos amigos. Por mais que lutasse, jamais recuperaria tudo isso.
Mas Yuto recebera uma pequena faísca de esperança no momento mais sombrio e profundo de sua vida. Essa esperança residia ali, na Prisão de Schelger.

Quando Yuto foi condenado a quinze anos de prisão pelo assassinato de Paul McLean, ele foi atingido de forma tão profunda e irreversível que parecia não haver mais volta. Foi então que uma certa organização, discretamente, entrou em contato com Yuto: o FBI, ou Departamento Federal de Investigação.

“E aí, Lennix. Tudo bem?” Heiden mostrou seu crachá para Yuto na sala de reuniões do centro de detenção e se apresentou como investigador da seção de Terrorismo Doméstico da Divisão Antiterrorismo do FBI. Ele era um rosto bonito em um terno caro. Yuto achou difícil gostar dele, com sua atitude elitista, arrogante e condescendente tão típica do FBI.

Yuto ficou confuso a princípio, imaginando o que o FBI poderia querer com ele. Mas quando ouviu as palavras saírem da boca de Heiden, sua confusão se transformou em espanto.

“Queremos que você encontre um certo homem na prisão. Se o encontrar, prometemos sua libertação imediata em liberdade condicional.” A história repentina era muito suspeita. Yuto relutou em acreditar nas alegações do FBI a princípio. Heiden exibiu um sorriso presunçoso para o rosto apreensivo dele antes de começar a explicar.

“Você está ciente de que, ao longo do último ano, ocorreram uma série de atos terroristas de pequena escala em vários locais dos Estados Unidos, que se acredita serem obra de um único grupo?”

“Ouvi falar disso no noticiário”, respondeu Yuto. Os casos, apelidados de Terror Silencioso, estavam causando grande repercussão na sociedade. Até o momento, não houve declarações dos perpetradores, nem um padrão identificável nos locais onde os explosivos foram plantados. Mesmo entre os especialistas, havia muita especulação sobre se os perpetradores eram uma organização terrorista fundamentalista, uma força extremista de extrema-direita ou simplesmente criminosos que cometiam atos terroristas por diversão.

“O FBI está atualmente investigando essa série de incidentes e, há dois meses, prendemos um homem branco em um supermercado em Connecticut que estava em posse de explosivos. Suspeitamos que ele estivesse envolvido nesses incidentes e, por meio de seu depoimento, descobrimos que ele pertencia a um grupo sectário radical. Mas ele recusou um acordo judicial e se calou sobre todo o resto. A totalidade da organização ainda é desconhecida para nós.”

Assim que Heiden percebeu que o homem estava apavorado com a possibilidade de represálias da organização, ele o tranquilizou repetidamente, garantindo que seria incluído em um programa de proteção a testemunhas e que sua segurança estaria garantida. Comovido pela sinceridade de Heiden, o homem finalmente concordou em quebrar o silêncio.

“Resumindo, foi isso que ele nos disse. A organização detém um poder enorme. Aqueles que a traem são mortos. Todos os atos terroristas são decididos por uma única pessoa, o líder. Os atentados terroristas do passado foram apenas simulações – no futuro, algo ocorrerá em uma escala maior. Coisas vagas desse tipo. Também não conseguimos obter muitas informações dele sobre o líder em questão. O FBI decidiu transferir o homem para nossa sede em Washington, onde ele seria submetido a uma investigação mais completa. Mas isso nunca aconteceu.”

"Por que não?" perguntou Yuto. Heiden deu de ombros em fingida derrota.

“Ele morreu. O homem foi atingido por um atirador assim que saiu do centro de detenção. Morreu na hora. Um rifle foi encontrado no telhado do prédio ao lado, presumivelmente a arma do crime. Mas o atirador escapou da operação policial de emergência e nunca foi encontrado.”

Yuto pressentia algo muito estranho na capacidade da organização do culto de agir com tanta ousadia e crueldade. Um culto misterioso que cometia repetidos atos de terror – sem dúvida, eles eram incrivelmente perigosos, mas não era normal matar um de seus membros para impedi-lo de falar.

“Será que eles são mesmo apenas um culto insano? E quanto à possibilidade de uma organização criminosa maior estar por trás deles?”

“Consideramos essa possibilidade, mas não há informações suficientes sobre a organização em si. Nesta fase, não podemos afirmar nada. Mas o homem ficou consciente por um tempo após ser levado ao hospital e nos contou algo muito interessante. O nome do líder é Corvus. Obviamente, um apelido. O que esse homem nos disse foi que Corvus está secretamente coordenando as ações dos membros de dentro de uma certa prisão. Corvus é aparentemente um homem caucasiano, com cerca de trinta anos, e um assassino. No passado, ele passou por treinamento militar completo. Ele tem uma grande cicatriz de queimadura nas costas.”

Heiden tamborilava os dedos na mesa.

"Entendo", murmurou Yuto, olhando distraidamente para as unhas bem aparadas do homem. "E você está me dizendo para encontrá-lo."

“Exatamente. Aparentemente, Corvus está cumprindo pena na Penitenciária Estadual de Schelger, na Califórnia.”

Yuto finalmente se convenceu de que o FBI estava falando sério sobre fechar um acordo com ele. O alvo era um indivíduo extremamente perigoso que supostamente havia orquestrado atos terroristas em diversas ocasiões; se havia uma grande probabilidade de ele cometer mais atos terroristas no futuro, era compreensível que o FBI recorresse a métodos clandestinos para capturá-lo.

“Uma conferência internacional está programada para acontecer em Nova York neste outono. Várias pessoas importantes de diversos países participarão. Se elas planejassem um ataque terrorista durante esse período, vocês podem imaginar o caos que seria. O FBI está levando isso muito a sério. Enviamos investigadores à prisão de Schelger para verificar os perfis de todos os presos.”

“E mesmo assim você não conseguiu encontrá-lo.”

“Não. Havia algumas dezenas de caucasianos com cerca de trinta anos, mas eles tinham experiência militar, porém não tinham cicatrizes de queimadura, ou tinham cicatrizes de queimadura, mas não tinham experiência militar. Não conseguimos encontrar ninguém que se encaixasse perfeitamente na descrição.”

Heiden prosseguiu sua explicação de maneira concisa.

“Isso acabou dividindo opiniões no FBI. Alguns sugeriram que o homem assassinado nos deu uma pista falsa. Outros disseram que deveríamos reconhecer parcialmente suas palavras como verdadeiras e ampliar os critérios. Poderíamos, por exemplo, examinar minuciosamente cada prisioneiro que se encaixasse na descrição. Mas um prisioneiro com ficha limpa não vai confessar, não importa o quanto o interroguemos. Foi então que alguém sugeriu que investigássemos a Corvus por dentro.”

Yuto concluiu que, para o FBI, era como matar dois coelhos com uma cajadada só. Era arriscado demais enviar um dos seus para se infiltrar em uma prisão perigosa em busca de um homem cuja existência eles nem sequer tinham certeza. Mas Yuto já era um prisioneiro, e se falhasse ou colocasse sua vida em perigo, o FBI não seria responsabilizado. Quanto a Yuto, sua vida dependia disso. Sendo assim, o FBI provavelmente presumiu que ele se esforçaria ao máximo sem precisar de mais incentivo.

Embora Yuto soubesse que não passava de um peão conveniente e descartável para o FBI, para ele, aquele era o acordo dos seus sonhos. Não encontrar Corvus não aumentaria sua pena. Ele não tinha nada a perder. Mas a recompensa que se apresentava diante dele também podia não existir. Ele precisava manter essa possibilidade bem presente, ou sua última esperança provavelmente se transformaria em um desespero terrível e um golpe ainda mais duro.

Yuto tomou sua decisão e informou Heiden de sua disposição em aceitar o acordo. Ele não tinha um único motivo para pensar diferente. Assim, Yuto foi enviado para a Prisão de Schelger. Ele era como qualquer outro prisioneiro, pois foi enviado sob estas condições: não receberia nenhum apoio do FBI e só teria permissão para ligar para eles quando tivesse informações concretas. Não lhe foram concedidos privilégios especiais.

Antes de ser enviado para lá, o FBI mostrou-lhe uma lista de prisioneiros que correspondiam a algumas das características. Eram doze pessoas, e todas estavam na ala oeste. Yuto havia gravado seus nomes e rostos em sua memória.

Ao se despedirem, Heiden lhe disse que corvus significava "corvo" em latim. Fazendo jus ao nome, o homem havia se escondido na multidão de prisioneiros como um corvo se camuflando na escuridão. A liberdade só chegaria a Yuto quando ele o encontrasse.

Era irônico, de certa forma; Yuto havia passado anos reprimindo criminosos, e agora sua única esperança residia em um único terrorista diabólico.

Ele havia adormecido sem perceber. Yuto foi acordado pelo toque familiar e desagradável da campainha. Abriu os olhos e viu Dick sentado na beirada da cama, lendo um livro. Só então se lembrou de quem era a cama que estava ocupando, mas antes que pudesse se desculpar, o outro homem falou.

“Esta é a última chamada. Depois disso, as portas serão trancadas até de manhã. As luzes se apagam às onze horas.”

Yuto assentiu com a cabeça e se levantou. Um gemido baixo escapou de seus lábios devido à dor lancinante, mas ele conseguiu ficar de pé para dizer seu nome e número de prisioneiro quando o guarda apareceu.

Agora, ele poderia dormir sem ser incomodado até de manhã. Yuto suspirou aliviado e colocou a mão na escada para subir até a cama de cima, mas foi impedido por Dick.

“Má ideia”, disse ele. “Use a cama de baixo. Do jeito que você está, não vai conseguir subir nem descer por um tempo.”

Dick trocou os cobertores e travesseiros antes de ceder sua cama para Yuto. Foi gentil da parte dele oferecer, e Yuto aceitou sem reclamar. Ao se sentar novamente, Dick trouxe um copo de plástico com água e o que parecia ser um comprimido.

“Analgésicos. Peguei alguns na enfermaria.” Yuto ficou novamente surpreso com o gesto inesperado de gentileza. Embora Dick fosse brusco, aparentemente ele também tinha um lado bondoso. Yuto agradeceu antes de engolir o comprimido. Dick o observou, com os braços cruzados sobre o peito.

"Se você está pensando em dizer ao guarda que foi atacado pelos caras do BB, não diga", disse ele sucintamente.

"Porque eles voltarão para se vingar?"

“Esse é um dos motivos. Na prisão, o guarda é inimigo de todos. Mesmo se você for esfaqueado, nem pense em dedurar. Lembre-se: nós, os presos, temos nossas próprias regras. — Tem um chinês no Bloco A chamado Fei. Ele é o líder dos presos asiáticos. Cumprimente-o amanhã e peça para ele te deixar entrar no grupo.”

"Por que?"

"Por quê?", Dick repetiu. "Depois do que você passou no seu primeiro dia na prisão? Você tem alguma coisa substancial nesse seu crânio?", disse ele, erguendo uma sobrancelha em tom de deboche. Seus traços bonitos, combinados com sua expressão irônica, lhe conferiam um ar friamente impiedoso.

"Quer saber por que o BB agiu assim com você na frente de todos? Foi para mostrar que você era a presa dele. Ele pode estar falando sério sobre te fazer dele. Você quer ser a cadela dele?"

O rosto de Yuto se contraiu, mais pelo tom desdenhoso de Dick do que pelo que ele estava dizendo.

“Claro que não. Prefiro morrer a me tornar dele... argh!” Dick agarrou os ombros de Yuto de repente e o empurrou para a cama. O impacto causou uma dor aguda nas costelas, fazendo-o prender a respiração.

"Você fala grosso, Lennix, mas como vai se proteger nessa situação, hein? Eu posso te estuprar agora mesmo e te fazer perceber que você é impotente sozinho. Precisa mesmo aprender da maneira mais difícil?"

Dick apertou repentinamente a virilha de Yuto. Yuto ficou tão surpreso que, por um instante, esqueceu a dor.

“Dick, que porra é essa…”

“Você pode ficar comigo se não quiser ficar com o BB. Se você concordar em ser minha e somente minha, os outros caras vão te deixar em paz. Me dê seu corpo e eu o protegerei. Pense nisso como uma transação. Certo?”

Yuto estava sufocado pelo peso que o pressionava, e o aperto firme em sua virilha era doloroso. Ele começou a suar enquanto se desesperava para se impulsionar contra o peito sólido de Dick.

"Sai de cima de mim!", disse ele com ferocidade. "Pode tentar me estuprar, mas eu não vou ser sua cadela. E que se dane a proteção. Acha que pode me insultar assim? Vai se foder."

Ele estava frustrado. Se não fosse por aquele ferimento, teria socado o homem contra a parede oposta. Yuto encarou Dick sem se dar ao trabalho de esconder sua raiva. Dick retribuiu o olhar sem pestanejar. Então, deu um sorriso fraco e soltou Yuto sem oferecer resistência.

“Você é forte considerando o que passou no seu primeiro dia. Vamos ver quanto tempo essa energia dura.”

Quando Yuto percebeu que estava apenas sendo provocado, ficou furioso, mas ao mesmo tempo aliviado. Ele não estava nada contente com a ideia de ter que temer por sua castidade perto de seu colega de cela.

“Mas escute”, continuou Dick. “Você pode se debater o quanto quiser, mas não é nada contra um grupo que o escolheu como presa. Neste lugar, você claramente pertence ao lado dos caçados. Mas acho que você já sabe disso. É por isso que você está tentando enganar as pessoas com essa sua barba por fazer, não é?”, disse ele friamente.

Yuto rangeu os dentes de raiva. Embora Dick estivesse apenas apontando algo que Yuto já sabia, o tom sarcástico do homem o irritou profundamente.

“Mas você ainda não sabe que tipo de lugar é este”, continuou Dick. “Subestime-o e você vai se arrepender amargamente. Nathan e Micky podem ser pessoas legais, mas não vão se arriscar para te proteger. Até você conseguir se defender como eles, junte-se a um grupo. Da próxima vez que for atacado, você estará sozinho. Eu não tenho a paciência e a tolerância que Nathan e Micky têm. Prefiro não ter que limpar a sua bunda.” Assim que Dick terminou seu comentário seco, ele desapareceu no beliche de cima, encerrando a conversa.

 Yuto mal conseguia conter a vontade de retrucar. Quem conseguiria, quando Dick era tão rápido em tirar conclusões precipitadas e tão relutante em ouvir? Embora Dick não tivesse dito nada de errado, certamente poderia ter escolhido palavras melhores. Quem ele pensa que é, afinal?

Yuto descartou completamente a impressão que tinha de Dick como um cara legal. Sim, Dick Burnford era um homem extremamente bonito, mas sua atitude horrível era suficiente para anular qualquer ponto positivo que sua boa aparência pudesse ter gerado.