27 de jul. de 2026

Ai Shika Iranee yo Vol.01 - Capítulo 03

Capítulo 03

"Sinto muito por mantê-lo aqui até tão tarde." O professor da turma de Sawa, Suzushima, fez um gesto para ele se sentar. Eles estavam no escritório.

"Tudo bem. Eu só ia matar o tempo antes do meu curso preparatório começar."

"O quê? Você está fazendo curso preparatório? Mas suas notas são tão boas!"

"Não tenho certeza se as faculdades vão me aceitar se eu estudar só o que eles nos dão na escola." Sawa deu de ombros à pergunta de Suzushima. Ele se perguntou por que o professor estava demonstrando interesse tão tarde.

A escola de Sawa era uma das escolas particulares de maior prestígio na província, uma instituição combinada de ensino fundamental II e ensino médio só para meninos. Todo ano ela aprovava vários alunos na Universidade de Tóquio, a melhor universidade do país, e por isso a escola era nacionalmente famosa. Mas a abordagem da escola era relaxada, então sua atmosfera era completamente diferente das escolas de alta pressão, as chamadas escolas "elevador" que levavam direto para as melhores universidades.

Isso também podia ser devido ao fato de a escola ser um pouco afastada da cidade: eram duas horas de trem até Tóquio. Era um lugar tranquilo, com a natureza cobrindo o bairro onde a escola foi construída, tornando possível apreciar as riquezas de cada estação do ano.

O pai dele trabalhava na prefeitura, e a mãe dele dedicava todo o seu tempo ao trabalho dela e à liga de mulheres local.

O irmão de Sawa era três anos mais velho que ele. Depois de se formar no ensino médio, ele passou um ano estudando para entrar em uma faculdade em Kansai. Ele disse que pretendia seguir os passos do pai como funcionário público. Sawa estava pensando em seguir o mesmo caminho que o irmão.

"Sobre o que o senhor queria falar comigo, professor Suzushima?" Sawa trouxe a conversa de volta ao assunto.

"Um aluno transferido vai entrar na nossa turma na semana que vem. Existem algumas circunstâncias especiais envolvidas."

Sawa suspirou sem pensar. Devia haver circunstâncias realmente incríveis para o garoto estar mudando de escola tão perto das provas da faculdade. "Que tipo de circunstâncias?"

"Você sabe o que é a Aliança Koryu?" Suzushima perguntou em voz baixa.

"Você quer dizer aquela grande gangue—" Sawa começou a responder, e então engoliu em seco. Ele olhou, incrédulo, mas Suzushima apenas o observou sem dizer uma palavra. "Não me importo com o tipo de problema que eles vão causar. Por que estamos deixando um aluno problemático entrar na nossa escola em primeiro lugar?"

Eles estavam, de certa forma, na escola de "elevador" mais prestigiada da província.

"Tenho certeza de que há uma série de questões de bastidores contribuindo para a situação. Não sei os detalhes, mas há rumores de que o chefão da Aliança Koryu e o presidente do conselho da escola...

...têm algum tipo de relacionamento. Então o filho do chefão está vindo para cá. E eu quero que você o ajude até que ele se estabeleça aqui."

"Mas por quê?"

"Porque você é o representante de turma. Isso não é motivo suficiente?" As palavras de Suzushima não davam margem para discussão.

"Mas eu não sei lidar com o filho de uma família de gangster."

"Sério? Eu achei que você tinha amigos desse tipo."

"O quê?"

"Sabe, todo mundo comenta como você andava com aqueles garotos de gangue de moto na escola."

Sawa encontrou o olhar perspicaz de Suzushima. Ele descobriu imediatamente de quem o professor estava falando. "Eles eram amigos meus do ensino fundamental. Não é nem perto da mesma coisa. Esses caras fazem parte da yakuza."

Era verdade que alguns dos amigos de Sawa tinham entrado para gangues de moto, mas apenas porque eles simplesmente amavam andar de moto. Claro, eles gostavam de arrumar briga. E Sawa sabia que eles tinham se metido em alguns pequenos problemas com a polícia. Ele não aprovava isso, mas quando eles estavam com Sawa, não passavam de garotos com quem ele tinha brincado no ensino fundamental.

"De qualquer forma, eu espero que você seja amigável e não o julgue. Você é um cara legal que diz o que precisa ser dito."

"Como o senhor pode simplesmente me ordenar"

"Eu entendo o quanto isso parece tirânico. Posso pelo menos lhe garantir que ele não é o tipo de cara que sai perdendo a cabeça"



"Para nada. De qualquer forma, independente das circunstâncias de adulto ou não, ele passou no exame de admissão."

"Senhor Suzushima!"

"Estou confiando isso a você. Você é um garoto confiável."

As palavras de Suzushima pesaram no coração de Sawa.

"Tem alguém aqui para vê-lo, Senhor Suzushima," alguém disse da entrada do escritório.

"Isso significa que ele está aqui. Vamos discutir o resto depois."

"Mas eu não posso forçá-lo"

"Ah, desculpe, esqueci a coisa mais importante."
Suzushima se levantou de um salto e, ao voltar, pegou um pedaço de papel e rabiscou algo nele.
"O nome do garoto é Uzuki Kobayakawa. Obrigado de novo," disse Suzushima enquanto se apressava para sair do escritório.

Um homem vestindo um terno azul-marinho estava parado na frente da porta aberta. Ele tinha aparência de intelectual, com o cabelo em uma risca lateral desalinhada e usando óculos, mas havia algo nele que não lembrava nada Suzushima.

Sawa só o viu de relance, de longe, então não podia ter certeza, mas percebeu a tensão no ambiente ao redor do homem.

"Você tem sido de grande ajuda," ele ouviu fracamente alguém dizer em uma voz monótona e sem vida. A porta se fechou e Sawa, deixado sozinho no escritório, olhou para baixo, para o bilhete.
"Uzuki Kobayakawa."
O aluno transferido com mau timing e circunstâncias especiais que ia dar tanto trabalho. Sawa repetiu aquilo várias vezes.

"O que isso quer dizer, eu ser 'confiável'?" Sawa murmurou enquanto voltava para a sala de aula para pegar sua mochila. Ele tinha gostado de ajudar no passado, mas nessa época do ano, com os exames se aproximando, Sawa queria evitar se envolver em coisas que tomavam muito tempo. Mas isso não significava que ele podia recusar o pedido de Suzushima na hora que ele fez.

Tudo o que ele podia fazer era rezar para que esse novo aluno não desse problema.

"Ele nem ouviu o que eu disse."
Sawa olhou para o relógio. Ele sentiu que já tinha ficado no escritório por um bom tempo, mas só tinham se passado cerca de trinta minutos.

"Provavelmente não sobrou mais ninguém aqui tão tarde."
"Como vou matar o tempo antes do cursinho?" Sawa se perguntou. Ele abriu a porta da sala de aula e então congelou.

Ele achou que não teria ninguém lá. Mas havia um garoto sentado em uma carteira perto da janela. Ele estava em silhueta contra a luz do sol poente. Então as narinas de Sawa captaram o cheiro de tabaco. As aulas já tinham acabado, então não tinha como dizer se um professor poderia passar por ali. E de qualquer forma, era uma loucura fumar em uma sala de aula.

"Se alguém te pegar fumando aqui, eles vão fazer mais do que te expulsar," Sawa disse automaticamente, fechando a porta atrás dele.



"Quem é você?", respondeu uma voz de barítono.

"Não foi isso que você aprendeu? Ser educado antes de pedir o nome de alguém para o seu?" Sawa retrucou. Ele colocou as mãos na cintura e deu um passo lento para frente. Conforme o ângulo da luz do sol mudou, ele conseguiu ver direito o garoto sentado na mesa.

Suas pernas longas estavam esticadas sobre a mesa, e ele estava usando jeans, não uniforme. Nas mãos ele segurava um cigarro e um livro de capa de papel. Sawa reconheceu a capa e percebeu que era o livro que ele tinha deixado na mesa.

Era O Estrangeiro, de Camus. Quando estava saindo de casa, ele o tinha colocado na bolsa para dar a um amigo na escola. Ele tinha comprado na escola média, mas não importava quantas vezes Sawa lesse, ele não conseguia entender por que era tão bom.

"Meu nome é Sawa e eu sou o representante da turma."
"E já que estamos no assunto, esse é o meu livro."

"Desculpa. Ele estava só jogado aqui, então peguei para passar o tempo."

O garoto tirou o cigarro da boca e pediu desculpas de forma mais fácil do que Sawa esperava. Ele balançou as pernas para baixo da mesa e se levantou.

Mesmo de longe, Sawa podia dizer que ele era alto. As pernas dele eram longas: quase na proporção de um modelo. Enquanto o garoto caminhava devagar em direção a Sawa, Sawa prendeu a respiração pela boa aparência dele.

O perfil do rosto fino dele mostrava um nariz perfeitamente reto. Abaixo das sobrancelhas bem desenhadas, os olhos puxados cortavam de forma afiada, com uma luz intensa. Aqueles olhos agora estavam voltados para Sawa, que estava diante deles.

Ele não reconheceu esse homem notavelmente bonito com o rosto perfeito e angular.

"Aqui," ele disse de forma rude, estendendo o livro.
"Você gosta de ler?"
"Não," o garoto respondeu sem hesitar. "Eu estava lendo só por causa do sol."
"Claro," Sawa disse de forma um tanto sarcástica, arqueando a sobrancelha por um momento. Ele esticou a mão para pegar o livro de volta.

Em _O Estrangeiro_, o personagem principal matou alguém e disse que o fez "por causa do sol". Sawa não tinha dúvida de que foi por isso que ele respondeu daquele jeito.
Sawa ficou impressionado com a resposta dele. "E aposto que você vai dizer que está fumando aqui por causa do sol também, né?"

"Não mesmo." O homem mudou de posição e ficou obscurecido pela luz do sol novamente. "Eu fumo porque eu quero."
Ele ofereceu o cigarro, segurando entre os dedos para Sawa. Pressionado, Sawa pegou o cigarro entre os lábios e a fumaça distinta do tabaco subiu pelas suas narinas e pulmões.

Sawa começou a tossir, e o homem pegou o cigarro de volta, dando uma tragada como se fosse a segunda natureza dele. "Você nunca fumou antes?"
"Claro que não."
Sawa estreitou os olhos para ele, com os olhos lacrimejando, mas o homem apenas riu. Ele deu um tapa no ombro de Sawa e passou por ele.

Aquele cheiro era claramente diferente do cheiro dos colegas dele. Era o cheiro de um homem.
"Então é você, Uzuki."
Eles ouviram uma voz monótona no corredor e a respiração de Sawa travou. Pareceu a voz que ele tinha ouvido no escritório.
"É, já estou indo."

Pela forma fácil como o homem respondeu, Sawa começou a ligar os pontos.
"Até já."
O homem acenou de forma desleixada enquanto ia para o corredor. Sawa correu atrás dele por impulso. "Espera!"

Sawa alcançou o homem, mas também o homem do terno que ele tinha visto com Suzushima no escritório. Tinha certeza. Agora havia algo imponente nele. Estava mais evidente de perto, talvez por causa da largura dos ombros no terno de duas peças. E tinha, como antes, algo nele que era diferente das outras pessoas.

"Esse deve ser ele: o aluno transferido sobre quem Suzushima me contou. Só precisava ouvir ele falar para confirmar."
"Então você só exige o nome das pessoas e se recusa a dar o seu?"

O homem se apoiou de lado, com uma mão no bolso, e olhou para Sawa com um olhar forte. Sawa ficou em silêncio diante do poder penetrante daqueles olhos.
"E quem é você?"

O homem de terno empurrou a ponte dos óculos e deu um passo à frente, mas o outro homem o bloqueou com a mão. "Cala a boca."
"Mas, Uzuki—"
"Deixa pra lá!"

Um arrepio subiu pela espinha de Sawa com a dignidade poderosa na voz dele enquanto repreendia o homem que parecia até mais velho que ele. Sem pensar, até Sawa ficou um pouco mais ereto. O homem de terno não disse mais nada e, sem mudar a expressão, reconheceu a situação sem palavras e deu um passo para trás.
"Você é bem bonitinho, para um garoto," o homem sussurrou, olhando para o rosto de Sawa com total seriedade.
"O-quê?"
"Uzuki." O coração de Sawa disparou enquanto o homem dizia o nome. "Uzuki Kobayakawa. Vou me transferir para esta escola na semana que vem. Você vai ser meu representante."

O homem não deu atenção ao espanto de Sawa e apenas deu um leve sorriso antes de virar as costas.



Na segunda-feira seguinte, havia uma estranha agitação no ar quando Sawa chegou na sala de aula um pouco atrasado.
"Você está atrasado, Sawa."
"Dormi demais."

Por algum motivo ele teve dificuldade para dormir na noite anterior. Ele tinha começado a ler um livro e acabou terminando. Claro, naquela hora já estava começando a clarear lá fora, e a luz do sol entrando pela fresta da cortina o deixou meio tonto.



Kobayakawa sentado na carteira de Soichi Takaoka, que tinha acabado de falar com ele, sentado naquele lugar. Ele era um figurão; tinha jogado com o time de rugby até o começo da primavera.

"Eu ouvi que vamos ganhar um garoto novo hoje. De Tóquio."

Sawa olhou. "Eu sei."

Ele não tinha conseguido esquecer aquilo desde que Suzushima tinha falado com ele. Mesmo estando sobrecarregado estudando para as provas e fazendo o trabalho da escola, ele não conseguia tirar o rosto de Kobayakawa da cabeça.

Especialmente aqueles olhos dele, que tinham tanto poder de penetrar a alma das pessoas. Aquilo não era algo fácil de esquecer. Sawa nunca tinha conhecido alguém com olhos como aqueles antes.

"Lembra como o Suzushima queria me ver depois da aula da última semana? Ele me contou sobre isso."
"Então você sabe sobre ele?"
"Sabe o quê?"
"Aparentemente ele é o herdeiro de uma família yakuza!"

Sawa franziu a testa. Ele não tinha contado isso para ninguém, e aparentemente a notícia se espalhou rápido.
"Você sabe se é verdade que o motivo dele ter saído da escola anterior foi porque ele espancou um cara até quase matar?"

As palavras dele mandaram um arrepio pela espinha de Sawa.
"Alguém estava aqui antes do garoto novo chegar e deu uma olhada nele. Ele disse que ele era muito bonito. Aposto que as garotas estavam se jogando em cima dele."

Takaoka estava se abandonando à curiosidade. Aquilo provavelmente explicava toda a agitação na sala.

"Eu não podia ser só um cara comum se ele estava mudando de escola numa época como essa."
"O que você quer dizer com 'você sabia'?" Por algum motivo, Sawa sentiu uma raiva subindo no estômago.
"Eu só imaginei que os garotos de Tóquio seriam diferentes dos caras como a gente..."
"Você não pode simplesmente decidir o que é verdade e o que não é quando você não sabe nada sobre a pessoa." Ele bateu as mãos na mesa e se levantou de um salto. O barulho da sala sumiu num instante com a voz ameaçadora de Sawa. "Isso vale para o resto de vocês também! Vocês nem sequer conheceram o garoto. Não façam julgamentos sobre pessoas quando tudo o que vocês têm é um monte de especulações e rumores. Essa é uma ordem! Ficou claro?"

"O que está acontecendo com você, Sawa?" Takaoka sussurrou para Sawa enquanto ele se sentava na cadeira. Ele ainda estava nervoso. Antes que ele pudesse responder, a porta da frente da sala deslizou para abrir.

"Está todo mundo tão quieto hoje." Suzushima entrou na sala com um olhar desconfiado no rosto, vestido com um blazer cinza. Um suspiro percorreu a sala, como se eles estivessem gritando as palavras de Sawa. "Eu normalmente nem consigo me ouvir gritando aqui, vocês estão tão altos. Vocês não devem estar se sentindo bem se estão tão quietos."

Suzushima parou na mesa dele na frente da sala e fez a chamada como de costume.
"E o Yasuda está ausente. Isso completa a chamada. Bem, tenho certeza de que todos vocês já sabem disso, mas temos um aluno novo. Pode entrar, Kobayakawa."

De ombros erguidos, os olhos de Kobayakawa percorreram

a sala, e a classe ficou inquieta.

"Este é nosso aluno novo, Uzuki Kobayakawa. Kobayakawa, vou deixar nosso representante de turma cuidar do resto. Sawa, levanta a mão."

Uma tensão percorreu o corpo de Sawa quando Suzushima o chamou. "Aqui, senhor."
"Sua carteira é ao lado da dele. Se tiver dúvidas sobre as matérias optativas ou qualquer outra coisa, ele vai te ajudar."
"Tá," Kobayakawa respondeu de forma desleixada e foi direto até Sawa. Ele não deu atenção aos olhares dos alunos dos dois lados. Ele chegou na carteira que tinha sido preparada para ele.
"Oi, eu sou Junya Sawa."

Sawa estendeu a mão para Kobayakawa, sem ousar mencionar a última vez que eles tinham se visto. Mas Kobayakawa não reagiu além de lançar um olhar para Sawa. Ele se jogou na carteira e virou para longe dele.

"Sawa, você..." Takaoka começou a se virar, mas Sawa chutou o fundo da carteira dele.
"Você ainda não tem seus livros, né? Você pode compartilhar os meus por enquanto." Sawa moveu a carteira dele para o lado da de Kobayakawa e colocou o livro dele entre eles. Mas Kobayakawa apoiou o cotovelo na mesa e se recusou a olhar para ele.



Sawa mal conseguia ver o perfil dele, mas estava totalmente sem expressão. Sawa franziu as sobrancelhas e apertou os lábios. Ele sentiu o cotovelo de Kobayakawa na mesa, então desistiu de olhar para ele por pura teimosia, e isso o irritou.

"Vamos começar. Abram os livros na página 63 e" Da mesa dele na frente da sala, Suzushima estava começando a aula. Ele ficou na frente do quadro e escreveu números com o giz.

Kobayakawa virou o rosto para frente, mas não estava olhando para o quadro nem para o professor.

Sawa encarou o lado do rosto dele, então de repente empurrou o cotovelo de Kobayakawa debaixo do dele. O queixo de Kobayakawa bateu na carteira com a pancada inesperada.

"Ai!"

Um barulho surpreendentemente alto ecoou pela sala.

"O que você está fazendo, Sawa?" Takaoka murmurou como aviso. Ele e o aluno ao lado de Kobayakawa se viraram para olhar para eles ao mesmo tempo. Eles ficaram estupefatos com a visão lamentável da cabeça de Kobayakawa caída sobre a mesa.

"D-desculpa."
Sawa só tinha cutucado o cotovelo de Kobayakawa para chamar a atenção dele. No máximo, ele achou que ele ia afastar a mão dele da cabeça. Ele nunca imaginou que o queixo de Kobayakawa fosse bater tão forte na mesa.

Aflito sobre o que deveria fazer, Sawa decidiu pedir desculpas.

"O que você quer dizer com 'desculpa'?" Kobayakawa levantou o rosto, com a mão pressionada contra os lábios. "Não seja idiota de fazer algo estúpido em primeiro lugar se você vai só pedir desculpas depois."

A voz irritada de Kobayakawa ressoou pela sala. Os alunos tinham estado olhando para o quadro até então, mas agora todos se viraram para olhar para Kobayakawa e para Sawa para ver o que estava acontecendo. E Suzushima também.
"O que está acontecendo aí atrás?"

"Ele está sangrando!" Sawa interrompeu Suzushima, que estava começando a ir investigar.

"Sangrando?"

"Sim, o Kobayakawa está sangrando."
Sawa levantou imediatamente e agarrou o queixo de Kobayakawa.

O som da cadeira dele batendo no chão fez um barulho estranho. Ainda sem entender a situação, Kobayakawa encarou os olhos de Sawa, com o queixo firme na mão de Sawa.

"Ai meu deus, você está certo! É um banho de sangue!"

Takaoka também estava se debruçando para ver o que tinha acontecido e ficou enjoado. 

"Parece feio, Kobayakawa. Você mordeu a língua ou algo assim?"

"Desculpa. Eu bati no queixo dele."

Sawa tirou apressado um lenço do bolso e pressionou com força contra a boca de Kobayakawa.

"O que você está fazendo?" Kobayakawa arrancou o lenço. Ele jogou de volta em Sawa, mas franziu a testa quando viu como estava vermelho.

"Pronto, agora o que a gente faz? Senhor Suzushima, eu levo o Kobayakawa para a enfermaria."

"Boa ideia."

"Me dá um tempo. Isso não é nada! Eu..."
O gosto de sangue deve ter se espalhado pela boca dele enquanto ele falava. Kobayakawa ficou quieto, com um olhar inquieto no rosto.
"Você quer que eu vá também, Sawa?" Takaoka perguntou, preocupado.

"Não, tá tudo bem. Vamos, Kobayakawa."
Kobayakawa assentiu a contragosto.

Kobayakawa não disse uma palavra até chegarem à enfermaria.

"O senhor está aí? É o Sawa, do terceiro ano."
Sawa bateu na porta, mas não teve resposta.

"O que foi?" A voz de Kobayakawa saiu abafada com o lenço pressionado contra a boca.

Sawa procurou na enfermaria e encontrou um bilhete na mesa da enfermeira. "Diz aqui 'volta em trinta minutos'."

"Então vamos voltar pra sala."

"A gente não pode ir assim. Aqui, bochecha e cospe todo o sangue que está na sua boca."

Kobayakawa obedeceu às instruções de Sawa por enquanto, fazendo gargarejo com a água disponível na enfermaria. A primeira vez que ele cuspiu, a água estava vermelha viva.

"Nossa." Sawa se afastou rápido ao ver aquilo e Kobayakawa levantou as sobrancelhas.

"Não aja tão impressionado por tão pouco." Kobayakawa olhou para Sawa apontando para o canto da boca.

"É, bem, você ficou bem pálido também quando viu o sangue no lenço." Sawa retrucou.

"Mas eu não lido bem com sangue..."

Os olhos de Kobayakawa se arregalaram por um instante, depois ele pareceu que ia explodir de rir, mesmo ainda tendo água na boca.

"Como eu pude? Você estava gritando. Aposto que ouviram você nas salas do lado também."

"Ah, droga. Isso dói."
Sawa suspirou. Ele colocou todos os materiais que tinha juntado numa bandeja e sentou no chão na frente de Kobayakawa.

"O que foi, chateado por ter que cuidar do garoto novo?"

"Não é isso."

Sawa olhou para as prateleiras, pensando se devia passar água oxigenada no interior da boca de Kobayakawa. Depois de procurar com cuidado, ele finalmente achou um remédio para afta.

"O que você quis dizer com isso?"

"Você podia abrir a boca pra mim?"

"Abre a boca."

"Deixa eu ver o corte. Você ainda sente gosto de sangue?"

"Eu te falei que tô bem. O que tem de tão ruim um pouco de sangue?"

"Não é bom pra você. Agora deixa eu ver isso."
Sawa esticou a mão teimosamente para o queixo de Kobayakawa, mas Kobayakawa afastou ele. Sawa tentou de novo e foi empurrado de novo. Essa vai-e-volta continuou por vários segundos, mas o temperamento de Kobayakawa era mais curto que o de Sawa.

"Eu disse que tô bem!" Kobayakawa agarrou o pulso de Sawa e puxou com força para ele.

"Ei!" Sawa perdeu o equilíbrio com esse desenvolvimento inesperado. O corpo dele seguiu a mão dele, e ele caiu pra frente, colidindo com o peito de Kobayakawa.

"Q-que diabos?"

Aparentemente Kobayakawa não esperava que isso acontecesse também. Ele perdeu o equilíbrio e caiu de costas no chão, com Sawa caindo em seus braços.

"Aih!"

Houve um baque surdo, e Sawa sentiu uma dor intensa na testa. Ele pressionou as mãos contra ela.

"Você tá bem?"

"Bati a cabeça."

Sawa rolou de costas para avaliar a situação.

"Por que você fez isso?"

"Você não precisava cair em cima de mim também, sabe." Kobayakawa fez cara feia e se apoiou nos braços para se levantar do chão. Ele também tirou o braço que estava apoiando a cabeça de Sawa. Ao vê-lo remover o braço casualmente, Sawa percebeu de repente que Kobayakawa o tinha protegido.

Um cheiro de tabaco chegou ao nariz dele.

"Seu braço está bem?"

"É, tá de boa. Eu mal bati."

Ele rodeou a cabeça dele casualmente e fez cara feia só por um instante. Sawa tremeu de medo, mas assim que Kobayakawa percebeu, ele rapidamente espantou os medos dele.

"Acho que minha boca começou a sangrar de novo. É isso. Desculpa."

Reclamando do gosto, Kobayakawa se levantou apressado e foi cuspir o sangue na pia. Sawa se levantou também enquanto o som da água correndo enchia a sala.

"Desculpa."

"Tanto faz. Ia acontecer de qualquer jeito," Kobayakawa disse de novo quando viu Sawa com cara de cachorro que levou um chute.

"Mas é culpa minha você estar sangrando, e agora..."

"Tá tudo bem. Isso não é nada comparado com seu azar de ter que ser babá de mim só porque você é o representante de turma." Kobayakawa jogou a cadeira no chão com os pés.

"Kobayakawa—"

"Você já ouviu falar que meu pai é o chefe de uma gangue, certo?" Kobayakawa perguntou com um sorriso zombeteiro enquanto tirava um cigarro do bolso da jaqueta como se fosse a coisa mais natural do mundo. Assim que ele colocou na boca, Sawa arrancou de sua mão.

"O que você está fazendo? Você também não pode!"

"Eu nunca fumei e não vou começar," Sawa retrucou, agarrando a mão de Kobayakawa que ainda segurava o cigarro e jogando no lixo. 

"Eu já te falei antes: se pegarem você fumando na escola, você vai ser expulso."

"Não é a primeira vez."

"Você fuma só porque quer. Bem, isso não é bom o suficiente até você ser adulto." Sawa de repente enfiou a língua para fora para Kobayakawa. 

"E você está tentando me impressionar me dizendo que seu pai é o líder de uma gangue? Isso faz de você parte da gangue também, já que você é filho dele?"

"E—eu—"

"Eu não ligo se é ou não. Esta é uma escola, e na escola você segue as regras da escola. Até onde eu sei, você está numa gangue, certo? Além disso, você é novo aqui. Até se acostumar com como fazemos as coisas aqui, é melhor você calar a boca e fazer o que eu te disser."

Sawa soltou tudo o que vinha querendo dizer. Finalmente ele ficou sem fôlego e, embora seus ombros tremessem, ele não desviou os olhos de Kobayakawa. Kobayakawa olhou para Sawa por um longo tempo, então finalmente gaguejou como se não pudesse mais se segurar e explodiu em risada.

O queixo de Sawa caiu. Ele não fazia ideia de por que Kobayakawa estava rindo dele.

"Você é muito estranho," Kobayakawa disse, segurando a barriga e rindo.

"Não sou, não. Eu só disse a verdade," ele respondeu, tentando soar indignado, mas por dentro Sawa estava aliviado.

Ele vinha tentando ignorar, mas as palavras "filho de mafioso" passaram pela mente dele de qualquer jeito. Quem sabia o que poderia acontecer com ele se ele dissesse a coisa errada? Foi exatamente por isso que ele não queria ser responsável por coisas assim. Mesmo que ele soasse como se estivesse no controle, a verdade era que dúvidas como aquela o assombravam.

Mas enquanto ele via o garoto rir, todos os seus estereótipos e preconceitos desapareceram.

Kobayakawa pode até ter tido alguns hábitos rudes e ter falado um pouco de forma grosseira, mas Sawa percebeu que ele era só um estudante de colegial como ele.

"Tudo o que eu disse foi que isso é uma droga."

"É, isso. Acho que é bem horrível, também." Ele não soou nem obviamente autocomiserado quando disse isso, mas isso fez tudo ficar mais doloroso de ouvir.
"Só pra você saber, eu não estava falando de ter que olhar depois de você," Sawa o corrigiu.

"Então sobre o que você estava falando?" Kobayakawa se virou para olhar Sawa diretamente nos olhos. Os olhos dele focados em Sawa, parecendo penetrar sua alma.

"O fato de que as pessoas me ouviram gritar."
"Você quer dizer porque eu ouvi você? Quem liga? É a verdade, afinal."

"Mas não era isso que eu queria dizer." Ele negou veementemente a interpretação de Kobayakawa.

"Sawa, o que—?"

"Eu não sei qual é a sua história. Mas seja lá o que for, agora que você está usando nosso uniforme escolar, você pertence aqui. Falta menos de um ano para a formatura, então não temos muito tempo. Mas durante o pouco tempo que temos, eu gostaria de ser seu amigo." Ele não estava dizendo o que realmente queria dizer, mas Sawa tentou se expressar o melhor que pôde.

Quando Suzushima tinha falado com ele sobre Kobayakawa, ele tinha assumido que seria um saco. Ele já tinha problemas suficientes para lidar agora com as provas se aproximando. Ele não entendeu por que estava sendo forçado a cuidar de outra pessoa também. Era para ser "até ele se acostumar com a escola", mas dado o contexto, Sawa imaginou que poderia ser impossível para Kobayakawa se adaptar se as coisas começassem mal.

Mas depois da chance de encontro deles mais cedo, havia algo sobre Kobayakawa que ele achou interessante. Não era só a audácia de acender casualmente um cigarro na sala de aula. A força dos olhos de Kobayakawa quando ele olhou para Sawa exerceu algum poder poderoso sobre o coração dele.

Ele não se importava se Kobayakawa era filho de uma família yakuza ou qualquer outra coisa. Ele queria conhecer mais sobre Kobayakawa, o indivíduo.

Um impulso vago estava crescendo agora dentro de Sawa. Mas não importava como ele tentasse expressar seus sentimentos, eles acabavam soando como mentiras.

A cabeça de Sawa caiu de frustração por não conseguir transmitir seus sentimentos e ele apertou as mãos em punhos cerrados.

"Você é um cara realmente estranho."

"Você acha?"

Kobayakawa deu de ombros para a pergunta de Sawa. "Na minha última escola, todo mundo ficava longe de mim. Eles disseram que não queriam nada com um cara como eu. Todo mundo acreditou nas coisas sobre meu pai e todos os rumores sobre mim, e ninguém nunca tentou me ver por mim mesmo."

Sentado na cadeira, Kobayakawa abraçou as pernas e as puxou para o peito.
"Não me incomoda. Não tenho vergonha de ser filho do meu pai. Provavelmente vou seguir os passos dele quando me formar. Você me perguntou se eu sou um gangster, também, só porque eu sou filho de um líder de gangue. No meu caso, acho que não. Então decidi que realmente não me importava com a escola. Mas alguns caras bem chatos continuavam me dizendo que eu deveria ir para a escola enquanto eu ainda podia. Então decidi que ficaria até a formatura para tirá-los do meu pé."

Não havia traço de autocomiseração na voz dele. Kobayakawa soou bastante distante enquanto falava.

"Mas uma vez que eu te vi, pensei que talvez não fosse tão ruim ir para a escola."

"Sério?" Sawa perguntou com cautela.

"Achei, é, por que não se divertir um pouco melhor por uma mudança?" Kobayakawa deu um sorriso tímido. O coração de Sawa bateu mais forte e suas bochechas ficaram quentes com aquilo o primeiro sorriso que ele já tinha visto no rosto de Kobayakawa. Ele nunca tinha imaginado que aquele homem pudesse ter um sorriso tão gentil. A luz poderosa nos olhos dele parecia tão bondosa agora, parecendo se envolver ao redor da alma de Sawa.

De repente o nariz de Sawa captou o cheiro da colônia de Kobayakawa. Não era nada como ele já tinha cheirado antes o cheiro de um homem.

Sawa encarou Kobayakawa. Talvez ele conseguisse aguentar um pouco mais. Eles não estavam se encarando de forma impessoal, mas como um ser humano para outro. Bem quando ele decidiu dar um passo à frente, a porta do consultório da enfermeira se abriu com estrondo.

"Hã? O que você está fazendo aqui, Sawa?"

Sawa congelou na hora e se virou para olhar para a pessoa que tinha falado. A enfermeira estava na porta, usando uma jaqueta branca. A enfermeira, um polipalo usando óculos, olhou para Sawa com aborrecimento.

"Ah, éele bateu o queixo. A boca dele está sangrando."

"Eu não reconheço ele. Mas agora que você falou, lembrei. O senhor Suzushima me contou sobre o aluno novo que estava vindo."

A enfermeira revistou a mesa até achar uma lanterna e então foi ficar na frente de Kobayakawa.

"Onde você se machucou?"
Ela segurou o queixo de Kobayakawa com brusquidão e virou o rosto dele com desaprovação.

"Tá tudo bem agora."

"Eu vou ser quem decide isso, obrigada. Agora abre e não faz cara de boca de mármore.
Ou tem algum problema? Você está com vergonha de abrir a boca, como uma garotinha?"

Parecia que os insultos deliberados da enfermeira tinham funcionado perfeitamente para atingir o orgulho de Kobayakawa.
"Quem você pensa que é?"
"Nesse caso, você pode abrir a boca bem grande pra mim? Que garoto bonzinho."

Agindo como uma dentista com uma criança pequena, a enfermeira conseguiu fazer Kobayakawa abrir a boca sem dificuldade. Ela estava iluminando o interior da boca de Kobayakawa quando finalmente percebeu que tinha caído na dele.
Mas já era tarde demais para calar a boca de novo naquele ponto, então ela colocou com diligência, embora ele fizesse alguns barulhos de dor no fundo da garganta.

"Ah, aqui está. Você deve ter batido na beirada de um dente. Deve ter doído. Aposto que saiu muito sangue."

"Sim, saiu," Sawa respondeu por Kobayakawa, que tinha ficado em silêncio.

"O que aconteceu?"

"Ele estava apoiado no queixo na mão e eu bati o cotovelo nele."

"Entendo."

"Então ele bateu o queixo na carteira."

"E é assim que ele cortou a boca?"

A enfermeira estava olhando para ele com cara séria, mas as mãos começaram a tremer.

"Pare de rir!"

Kobayakawa parecia estar ficando sem paciência. Ele tinha aguentado tudo até aquele ponto, mas agora ele bateu nas mãos da enfermeira e se afastou. Quando ele gritou com ela, a enfermeira se dobrou, com os ombros tremendo de rir.

"Uh, senhor?"

"É tão engraçado que um cara esperto como ele se machucasse tanto só por bater o queixo numa mesa." A enfermeira não conseguiu mais segurar o riso por mais tempo. Ela se agarrou no estômago e ofegou.

"Que legal, rir da dor dos outros desse jeito," Kobayakawa disse, irritado, e se levantou para sair do consultório.

"Ei, Kobayakawa! Espera!"

"Já tive o suficiente do seu tratamento."

A voz da enfermeira veio de trás de Sawa, lutando para suprimir o riso. "Mas o remédio dele—"

Kobayakawa saiu da sala antes que ela conseguisse terminar.

"O sangramento dele parou, então está tudo bem. Se ele levar outra pancada, o sangramento pode voltar, então peça pra ele evitar comer coisas duras o máximo possível. Você fala isso pra ele?"

"Tá bom."

Sawa fez uma reverência educada e correu atrás de Kobayakawa, que já tinha saído na frente.


You are to me Vol.01 - Capítulo 04

Capítulo 04 – Termosfera

Acontece que o príncipe dos corações, na verdade, era um tagarela de primeira.

Tagarela? Não, obrigada. Nuh-uh. Rejeitado. Ele e tão indesejável quanto aquele tipo de gente que fica brava se você não responde na hora. Na minha opinião, assassinos são melhores. Você fala demais. Demaaais! Conhece teu lugar, encostado.

Nos encontramos no santuário da Mana às 16h. Depois passamos uma hora numa cafeteria. Depois, mais uma hora num restaurante italiano. E ela pagou. Depois, mais uma hora nessa padaria. E sim, ela disse que ia pagar também. E a Yukari só falava, falava, falava. Será que lhe falta um parafuso? Tá treinando pra um triatlo, é? A cafeteria é a natação, o restaurante italiano o ciclismo e a padaria a maratona?

Tentei fazer ela ir direto ao ponto várias vezes, mas todas as vezes ela dizia: “Garanto que tudo isso é necessário, mesmo que você ainda não entenda” e “É importante que eu diga tudo de uma vez. Se continuar em outro dia, não vai funcionar.” Essa mulher ficaria falando por horas se não houvesse um limite de tempo, então que bom que vamos terminar tudo hoje. Foi o que eu percebi depois de 2 horas.

O conteúdo do que ela disse, de vez em quando, até que era interessante. Se ela não tivesse conseguido prender minha atenção, eu já teria surtado. Eu não conseguia imaginar a Mana com cabelo preto liso e longo, de uniforme marinheiro. Se tivesse alguma foto, eu queria ver.

O príncipe dos corações continuou falando com tranquilidade.

“Eu tinha certeza, sabe? Tinha certeza de que a Mana ia responder com cara de encrenca: ‘E por quê?’. Ou talvez me surpreender e dizer ‘Não sei’. Até uma resposta assim me deixaria sem escolha a não ser calar a boca. E tudo bem calar a boca. Se a Mana tivesse respondido ‘Não sei’, minha vingança teria sido completa.

Mas se você me perguntar por quê, eu não saberia responder. Aparentemente, existem pessoas que não sentem dor. Analgésicas, por assim dizer. Como você explicaria dor para essas pessoas? Eu não saber explicar é uma situação parecida. Você não acha ridiculamente arrogante achar que devemos entender tudo sobre os outros? Como você acha que se sentem as pessoas que nasceram sem sentir dor quando mandam elas ‘tentar entender a dor alheia’? Do jeito que eu vejo, essa exigência mostra justamente uma falta de compreensão da ‘dor alheia’.

‘Por que o céu é azul?’ Como você acha que a Mana respondeu a essa pergunta?”

Yukari ficou em silêncio.

Por um segundo duvidei dos meus olhos e ouvidos, mas era óbvio: a boca da Yukari não se mexia e eu não ouvia a voz dela.

Parecia que ela estava esperando minha resposta.

Que diabos? A Terra parou de girar, de repente? Era tão improvável quanto isso, a Yukari calada, esperando minha resposta. Era como a sensação que fica depois de uma longa viagem de barco, quando você ainda sente o balanço das ondas em terra firme. Mesmo calada, parecia que a Yukari ainda estava tagarelando.

Entendi. Essa conversa está acabando. Não. Eu vou fazer ela acabar.

“...Acho que ela respondeu perguntando ‘Por que os corvos grasnam?’”

“Boa. Se você responder ‘Por causa dele mesmo’, ela pode retrucar ‘Então o céu ser azul também é por causa dele mesmo’. Mas isso não teria causado um incidente.

Aqui vai a resposta.

A Mana, enquanto eu estava deitada de barriga para cima, montou em mim e──”

“Espera um pouco!”, eu disse, cortando pela primeira vez o discurso infindável da Yukari. Não me diga que ela me prendeu por 3 horas, pagando tudo, só pra falar sem parar por isso. “Olha como a gente se dá bem! Você é só uma chata.” É isso que tudo isso queria dizer?

Yukari baixou o olhar, desviando o meu, e soltou uma risada baixa. Riu por tanto tempo que eu comecei a ficar sem jeito.

“Infelizmente, a diversão que você está imaginando não aconteceu. Ah, desculpa, não é bom presumir que foi divertido. Eu não sei como é. Nesse caso, estou do lado das pessoas sem sensibilidade à dor. Mas então, acho que a maioria não tem esse tipo de sentimento. Provavelmente.”



“Vamos voltar para a história.

‘A Mana, enquanto eu estava deitada de barriga para cima, montou em mim──’”

Não me importou que a Yukari desse a desculpa de que não tinha esse tipo de sentimento. Eu não achei graça nenhuma. Quer dizer, eu também não consigo me relacionar com esse tipo de sentimento. Não, bem... talvez um pouco. Mas mesmo assim, na prática não tinha como. Dito isso, mesmo que na prática eu não tenha esse tipo de sentimento, ainda fiquei um pouco irritada.

Enquanto eu me ocupava com desculpas, Yukari continuou falando.

“──A Mana cobriu os dois olhos com as palmas das mãos.

‘Ainda está azul?’, ela perguntou.

‘Claro que está azul.’

‘E se esse olho nunca mais pudesse enxergar?’

‘Bom, ainda seria azul.’

‘Então, vamos testar.’

"A Mana enfiou os dedos nos meus olhos.”

             *

Junko, tenho certeza de que te disse isso no começo: “Tenho certeza de que, ao passarmos por este túnel, vou me transformar em outra coisa”. Parece que foi o que aconteceu. Vou ser direta.

Quando ela ouvia palavras desagradáveis, a Mana tentava calar a outra pessoa foi isso que eu afirmei, e foi disso que você reclamou, dizendo que era incoerente e leviano. Já que você foi tão longe, deixe-me dizer o que penso também.

Como mais a atitude da Mana aqui deveria ser interpretada?

" Eu já tinha dito isso”A Mana precisa eliminar as palavras desagradáveis. E para isso, não tem medo nem escrúpulos quanto aos métodos que usa.” Me diga, é possível entender a resposta da Mana aqui de outra forma?

Talvez você entenda, ó minha Grande Criadora. Você tem a sensibilidade que eu não tenho. Mas peço que não me imponha esse seu entendimento. Humanos com sensibilidades diferentes são moradores de universos diferentes; eles entendem as coisas de formas diferentes.

Sinto que foi isso que a Mana estava tentando me dizer naquela época. “O céu é azul”, essa percepção que eu tinha era algo que não podia ser separado do meu sentido da visão. Não se sustentaria em outros universos. Sinto que foi isso que ela tentou me transmitir.

             *

“Ei, você não está com boa cara. Está com fome? Vou pedir mais um conjunto de bolo. Já estamos aqui há um bom tempo, afinal.”

O príncipe dos corações chamou uma garçonete e pediu para as duas sem nem me perguntar.

“Os seus o──”

Foi tudo o que consegui dizer.

“Como pode ver, estão funcionando bem. Talvez eu tenha tido sorte, ou a Mana pegou leve comigo, ou talvez o corpo humano seja só resistente. Bem, provavelmente foram todas as opções.”

“Deu problema grande?”

“Deu. Suspensão e liberdade condicional.”

Finalmente entendi por que elas eram tão secretas sobre os motivos da transferência. Teria que ser uma situação bem complicada para elas quererem contar essa história.

“A suspensão foi uma punição leve, mas os pais dela não aceitaram. Os pais da Mana disseram que não conseguiam entender o motivo e estavam profundamente perturbados com tudo. Já que a Mana tem esse tipo de personalidade, eu tive que me levantar e defendê-la. Esse meu jeito prolixo de falar me ajudou muito, sabe? Assim como fiz hoje, levei meu tempo falando e consegui restaurar a relação da Mana com os pais.”

“Por que ir tão longe?”

“Somos amigas.”

“Mesmo depois dela ter feito isso com você?”

“Foi um pouco problemático, mas não foi grave o suficiente para eu cortar relações.”

Naquele momento, o conjunto de bolo que a Yukari pediu chegou. Sem nem olhar que tipo de bolo era, peguei o garfo, enfiei o bolo na boca e engoli sem nem sentir se era doce ou não.

Que diabos. No fim, as duas realmente têm um caso. Vocês só estão se gabando da vida amorosa. Que se dane. Eu odeio isso.

“Embora eu tenha dito que restaurei a relação, foi só o mínimo. A única coisa que sumiu foi o medo deles da Mana como um monstro imprevisível.”

O príncipe dos corações abriu as cortinas do segundo ato.

Existe um trabalho chamado Oficial Voluntário de Probation. São voluntários que ajudam o infrator, no caso adolescentes, na reabilitação. Por causa da natureza da profissão, monges e pastores frequentemente se voluntariam. O Oficial Voluntário de Probation da Mana era um monge de um certo templo. Esse monge tinha boa relação com alguém da administração do COMS Hakusan.

Na administração do COMS Hakusan, havia o desejo de anos de montar um santuário para uma Abençoada. Sabiam que daria burburinho e ficaram felizes por poderem usar os lotes vazios. O problema era quem seria a Abençoada. Uma Abençoada nunca pode tocar em dinheiro, e precisa viver sozinha. Não conseguiam encontrar alguém que não só estivesse disposta a viver uma vida inconveniente e solitária, mas que também fosse boa para a imagem do COMS Hakusan e fosse capaz de escrever os Fudas Abençoados.

A Mana preenchia todas essas condições.

A Mana precisava provar aos pais que estava se esforçando para se tornar uma pessoa correta. Se ela pudesse passar pelas provações de viver como uma Abençoada, conseguiria mostrar que tinha se tornado “correta”, e a relação entre pai e filha seria recuperada. Era essa a ideia. A vida inconveniente e solitária da Mana como Abençoada era uma provação para ela.

A Mana tem uma personalidade simples. Não é uma receita para popularidade entre pessoas da idade dela, mas eles não se importavam com a quantia ínfima de dinheiro que crianças gastavam no shopping. O ar maduro da Mana fazia sucesso entre quem tinha muito dinheiro. Para completar, ela ainda tinha habilidade com caligrafia e sabia escrever em cursivo.

“E foi assim que a Mana se tornou uma Abençoada.

Agora o terceiro ato: ‘Como eu me tornei uma governanta?’”

“Uma governantaaa?”

             *

O príncipe dos corações deu uma risada baixa por um longo tempo.

Governantas não são aquelas pessoas que servem a nobreza ocidental em mansões luxuosas? Em que parte a Yukari lembrava uma governanta? Mas quando pensei nisso, a Yukari nunca saía do lado da Mana no caminho de ida e volta para a escola. Para a Mana, que não podia tocar em dinheiro, a Yukari era uma necessidade. Acho que ela era algo como uma governanta.

Yukari finalmente parou de rir e começou a explicação.

“A palavra japonesa para governanta, ‘shitsuji’, na verdade é bem antiga. Na corte imperial do período Heian, existia um cargo chamado ‘shitsuji’. De fato, até hoje, em templos maiores e dependendo da seita, ainda existem pessoas ocupando o cargo de ‘shitsuji’. É uma posição onde alguém que não renunciou ao mundo secular cuida da parte administrativa do templo. ──Ou foi o que ouvi do oficial voluntário de probation designado para a Mana.

Quando ouvi isso, achei a parte de ‘não renunciar ao mundo secular’ do meu agrado. E então, comecei a me chamar de ‘shitsuji’, ou ‘governanta’. A Associação──A Associação das Abençoadas me deixou usar esse título e me contratou. Antigamente, pessoas nessa posição eram chamadas de ‘responsáveis pelo cofre’, e esse dever era rotacionado entre várias pessoas. Porém, achei que a palavra ‘dever’ não era adequada considerando que não haveria rodízio.”

Ah, então a Yukari também trabalhava para a Associação das Abençoadas. Agora que penso nisso, seria mais estranho se ela estivesse cuidando do dinheiro da Associação e não fizesse parte dela.

“Espero que você entenda a história por trás do nome agora. Bem, em seguida vem a questão de por que aceitei essa posição.

O que você acha que é o motivo?”

Yukari esperou minha resposta.

Eu não quero responder. E se fosse porque a Mana implorou com lágrimas escorrendo no rosto, dizendo “Precisa ser você.”? Estou cansada de ouvir sobre o caso de amor delas. Que se dane.

Yukari continuou esperando minha resposta. Por fim, cedi e disse,

“...Porque vocês são amigas?”

“Essa seria a maior razão. Mas, não é só isso.

Pode soar estranho eu dizer isso, mas──eu me senti responsável por tudo. Se eu nunca tivesse me aproximado da Mana, ela nunca teria feito esse tipo de coisa.”

Nossa, que chata. Ela só está se gabando ainda mais da profundidade da relação delas!

“Mas você não acha estranho?”

“O quê?”

“Mesmo eu sendo culpada por ter me aproximado dela, por que não houve nenhuma tentativa de colocar distância entre nós?

Vou te deixar com isso: a Mana provavelmente é lésbica. Eu, por outro lado, não sou.”

O príncipe dos corações pegou o recibo e foi embora.

             *

O Conto do Cortador de Bambu. A Princesa Kaguya é uma criminosa da lua, e como punição pelo crime, é banida para a Terra. Porém, em O Conto do Cortador de Bambu, não é mencionado em nenhum momento qual crime a Princesa Kaguya cometeu.

Vamos comparar a Mana com a Princesa Kaguya.

A Mana foi punida com o dever de uma Abençoada. Seu crime foi cegar a amiga por um motivo sem sentido. Ela disse, “Então, vamos testar” e tentou arrancar os dois olhos da amiga. Esse é um crime horrível e imperdoável. Exatamente por o motivo ser sem sentido, esse foi um crime horrível e imperdoável. Esse foi um pecado que transformou a pecadora de humana em uma besta desconhecida.

Porém, ações que parecem horríveis na Terra ganham outra cor na lua.

Vamos mudar o cenário do conjunto habitacional onde ela morava com a família para um deserto infinito e desolado na lua. Sem a atmosfera para enfraquecer os efeitos, a Terra e o sol brilham com dureza. Nem importa que o céu não seja azul, que não haja oxigênio para respirar, ou como as duas foram parar lá. Não importa. Na lua, nada é “sem sentido”. Além das duas, não há mais ninguém e portanto não há mais ninguém que precise entender.

Se ela, nessa lua, dissesse “Então, vamos testar”, e tentasse arrancar os dois olhos da outra──

Mais do que imaginar, eu fui consumida por essa fantasia.

No mundo da lua onde nem passado nem futuro existiam, não havia necessidade de se apegar à vida. Até mesmo infligir cicatrizes no corpo não passaria de uma sensação. Arrancar os olhos de alguém ou ter os olhos arrancados seria um sentimento estranho e intenso. Um que talvez unisse as duas, a que dá e a que recebe, com um laço profundo.

Mas, a lua onde a Princesa Kaguya vivia era uma com crime e punição. Nesse caso, não era muito diferente da Terra. A que quase teve os olhos arrancados pela Mana era aquela tagarela Yukari, e foi ela quem ficou tagarelando sobre passado e futuro. O deserto infinito e desolado, o mundo sem passado e sem futuro, nada mais era do que minha fantasia.

Minha Mas, era só minha?

O que motivou a Mana a fazer algo assim? Como ela conseguiu fazer isso neste mundo que tem passado e futuro, e pecado e punição?

Talvez aquele deserto atemporal fosse a fantasia da Mana. Logo, na minha cabeça delirante, aquele “talvez”, o sinal de que eu ainda tinha juízo, derreteu. Tornou-se que a Mana estava comigo no mesmo deserto, e eu não conseguia escapar.

As últimas palavras que Yukari me disse então, “A Mana provavelmente é lésbica. Eu, por outro lado, não sou.”. Talvez isso fosse apenas uma metáfora. Talvez ela estivesse tentando dizer que elas tinham uma diferença irreconciliável de opiniões. Talvez Yukari estivesse tentando dizer que a Mana vivia num deserto atemporal, e ela não. Não viveria.

Todos esses “talvez” derreteram nas delusões que fermentavam na minha cabeça. Eu imaginei a Mana arrancando os dois olhos em um deserto atemporal onde a Yukari não podia alcançar. Um momento eterno que não tinha passado e não tinha futuro.

             *

Dito tudo isso, fantasias são só fantasias, e a Mana é só a Mana.

Eu tive um sonho incrível depois de ouvir o que a Yukari disse e fantasiar. Nada daquilo aconteceu. Acordei normalmente e fui recebida por uma manhã normal. Peguei o ônibus para a escola, que parou no ponto perto do COMS Hakusan, e a Mana e a encostada entraram. A encostada estava segurando o cartão PASMO da Mana e disse “Isso é para pagar a passagem dela”. Depois, passou o cartão na catraca. Era algo que eu já estava acostumada a ver toda manhã.

“Bom dia”, eu disse. Depois da saudação casual de sempre, no momento seguinte cruzei o olhar com o da Mana.

Ah.

Ehh, hum.

Opa, não quis dizer nada com isso.

Não é nada. Sério. 100%.

Incapaz de dizer em voz alta, mentiras e desculpas transbordaram na minha cabeça. Eu não achava errado ter ouvido aquelas coisas ou ter tido aquelas fantasias. Porém, não pude deixar de arrumar desculpas para mim mesma. Tentei racionalizar. Fantasias são só fantasias; a Mana é só a Mana. Mas não funcionou. Quando tentei ajeitar os óculos, o deserto tremeu. Foi por causa dos meus dedos tremendo.

A Mana, com seus charmosos olhos puxados, sorriu um sorriso amigável como se fosse normal, como qualquer outra pessoa.

“Bom dia.”

Era só o “Bom dia” de sempre, mas parecia que ela tinha me lido por completo.

Em pânico, abri a boca.

“Mana, você na verdade” tem uma reserva secreta de dinheiro, não tem──Mas só consegui chegar até “na verdade” e então calei a boca.

Fiquei atônita com o que acabei de fazer. Não fazia sentido. Por que diabos eu abri a boca agora? Por que só falei pela metade? Que diabos. Eu não estava pensando.

A Mana pareceu perceber meu comportamento suspeito, e inclinou a cabeça para o lado, confusa. Mas será que estava realmente confusa? Não estava sorrindo porque me viu por dentro?

Uma coisa era certa. Eu queria muito perguntar coisas para ela. Você na verdade esconde dinheiro e anda com ele por aí, né? Certo, tinha outra coisa que era certa. Mesmo querendo muito fazer essa pergunta, eu não conseguia.

Tudo o que eu preciso fazer é perguntar. No pior dos casos a Mana fica brava, mas mesmo assim, depois ela fica bem. Mesmo assim, eu não conseguia perguntar.

Minha cabeça estava girando quando a Mana disse,

“Eu ouvi da Yukari.”

Sem pausa, Yukari disse,

“Ah, que repentino, Mana. Eu ia deixar a diversão para depois.”

“Yukari, fica quieta um pouco.”

Uma ordem bem firme vindo da Mana. E então,

“Você tem medo de mim?”

“O quê. Por quê.”

Respondi sem pensar, porque não estava em condições de pensar. Com medo da Mana? Isso é ridículo. Do que eu teria medo? Hum, não consigo lembrar.

“Porque eu fui a agressora num caso de agressão”

“Acho que você é perigosa, mas não tenho medo de você.”

Essa foi outra resposta honesta. A Mana era perigosa, mas eu não tinha medo dela.

“Entendi.”

A Mana sorriu. Um sorriso que parecia o de um animal selvagem: um sorriso cru.

As palavras de Yukari passaram pela minha cabeça, “A Mana é lésbica. Eu, por outro lado, não sou.” Talvez aquilo não fosse uma metáfora.

“Certo, então você pode segurar isso?”

Yukari tirou uma carteira da bolsa. Era a carteira que guardava o dinheiro e o cartão PASMO que eram necessidades da Mana.

“Não vai ser para sempre. Por enquanto, só segure até nos encontrarmos amanhã na escola. Por causa disso, meu tempo de deslocamento aumentou. É bem chato.”

Isso não afetaria meu tempo de deslocamento. “Claro, sem problema”, respondi enquanto estendi a mão para pegar a carteira, mas percebi então──se eu pegar isso, vou conseguir descobrir se a Mana tem dinheiro escondido.

Fantasias egoístas e convenientes inundaram minha mente. Digamos que é de noite, e estamos no COMS Hakusan. A Mana de repente dá vontade de comer oden. Ela decide que chamar a Yukari, que mora tão longe, só por causa de oden seria ruim. Então decide me ligar, já que moro no bairro, enquanto se prepara para ir à loja de conveniência. Infelizmente, por acaso eu estou no banho, então ela acaba deixando um recado na caixa postal. Ela chega na loja de conveniência e tenta me ligar várias vezes; todas as vezes, a ligação não completa. Nesse ponto, a Mana vai estar babando vendo oden fora do alcance. Nem os clientes nem os funcionários da loja parecem conhecê-la. É quando a Mana vai tirar a reserva secreta de dinheiro e comprar o oden. Finalmente saio do banho, ouço o recado e ligo para a Mana. Ela vai atender e então vai dizer, sem a menor pista de que era para ser segredo, que usou a reserva secreta de dinheiro e que não precisa mais da minha ajuda.

Conforme eu adicionava mais e mais detalhes à minha fantasia, fiquei rígida.

“Ah, peço desculpas. Foi um pedido egoísta da minha parte.”

Yukari tentou guardar a carteira de novo. Entrei em pânico e me apressei para pegá-la.

“Eu faço.”

No momento em que toquei na carteira, minha mão tremeu como se tivesse levado um choque. Segurei a carteira com as duas mãos, e o tremor finalmente parou. Imagino como eu, com o corpo obviamente tremendo, parecia para essas duas. Elas provavelmente acham que ainda estou sentindo o choque de saber sobre o passado da Mana.

De repente, tive uma ideia. Ontem, a Yukari tinha dito antes de ir embora, “Mesmo eu sendo culpada por ter me aproximado dela, por que ainda estamos presas juntas assim?” Talvez aquilo fosse──

“──Você tem certeza de que quer que eu só fique com ela ‘até amanhã’?”, perguntei enquanto olhava para a expressão da Yukari de perto, sem querer perder um detalhe. Meus olhos estavam arregalados.

“Por enquanto, sim. Eu vou pegar de volta direito depois.”

O príncipe dos corações sorriu de forma provocativa, como se fosse um jogo. Eu a encarei, tentando ao máximo ver o que havia por trás daquele sorriso, quando a expressão de Yukari ficou séria e ela assentiu. Eu assenti de volta.

A Yukari estava sem dúvida planejando se afastar da Mana.

             *

Mesmo assim, por que nos deixaria sozinhas assim!

“O dinheiro dentro dessa carteira é basicamente mesada. A Mana e eu podemos usar contanto que tomemos cuidado. Como as coisas compradas com esse dinheiro também viram Fudas Abençoados, você tem que tomar cuidado para não usar demais ou vai ser descoberta. Ah, e também garanta ser econômica caso surja alguma despesa repentina.”, Yukari terminou a explicação, e foi em direção a algumas colegas do terceiro ano. A propósito, o dinheiro dentro da carteira era pouco mais de 2000 ienes em espécie.

Eu deveria estar comemorando já que a encostada sumiu, mas não consigo me acalmar. Quero falar mas não consigo pensar em nada para dizer. Dizem que meio pão é melhor que nada, então não precisa ser nada grande.

Finalmente, encontrei algo para dizer e perguntei.

“Seus pais estão bem?”. Aaaa, errei. É uma manhã tão bonita e eu tive que estragar com um assunto pesado. Ela está basicamente exilada de casa agora. Em que eu estava pensando?

“Sim. E os seus?”

“Meu pai está bem. Minha mãe morreu faz muito tempo.” Ao ouvir isso, Mana baixou o olhar, triste, e disse,

“Eu não sabia. Desculpa por perguntar sobre um assunto delicado.”

Outro assunto depressivo! Bem, não para mim, mas eu ouço que é para as pessoas que perguntam sem querer.

O que eu realmente quero perguntar──a verdade é que você realmente tem uma reserva secreta de dinheiro, não tem? Mas não consegui me forçar a perguntar.

“Você está morando perto do COMS agora, né? Não é muito longe da minha casa, né? Se de repente der vontade de comer oden no meio da noite, só me ligar. Eu levo essa carteira para você.”

Usando minha fantasia de comprar oden mais cedo como guia, armei uma armadilha. Logo depois que falei, senti nojo de mim mesma. Ter uma segunda intenção dessas é horrível. Mesmo que a outra pessoa não perceba.

“...Junko, você está um pouco estranha hoje.” Acho que ela pode ter me visto por dentro.

“Bem, desculpa!” Por que diabos estou ficando brava! Entrei em pânico, acenando com as mãos e abaixando a cabeça, “Desculpa. É que estou me sentindo meio louca hoje.”

A Mana deu uma risadinha.

“Eh, eu falei algo engraçado?”

Ela sorriu em silêncio.

“Acho que de certa forma, sim?”

Como esperado, a Mana ficou em silêncio e inclinou a cabeça para o lado de forma significativa.

Mesmo depois de descermos do ônibus e chegarmos na escola, a Mana não disse uma única palavra. O tempo todo que ficamos juntas até o primeiro período começar, não importava o que eu dissesse, a Mana só ou acenava em silêncio, ria, desviava o olhar de mim, ou inclinava a cabeça para o lado.

Naquele momento, eu não consegui entender por que a Mana tinha feito tudo aquilo. Só me senti inquieta e irritada. Mas quando as aulas começaram, pensei nas expressões da Mana e em todos os gestos pequenos dela, e não me senti mais inquieta nem irritada. Pelo contrário, era tudo... uhh, como eu digo isso, não exatamente fofa, mas acho que em parte meio fofa. Tinha mais alguma coisa... Ah, desisto! Chega.

Quer dizer, vamos ser sinceras. A Mana é fofa. Ela também é linda. Mas eu não quero dizer isso. Me senti relutante em usar essas palavras. O problema é que essas palavras representam um ponto de vista objetivo, então você precisa pensar em como outras pessoas veem as coisas. O que eu sentia pela Mana estava completamente separado do que as outras pessoas pensavam.

Não tem outra forma de dizer e eu também não quero dizer desse jeito. Para mim, a palavra mais fiel não era “fofa” nem “linda”, nem era “atraída por”. Era “amor”.

             *

De ficar vigiando ela para estar apaixonada por ela. Isso é uma melhora ou eu piorei? Vamos dizer que são os dois.

Quer dizer, eu ainda tenho curiosidade sobre as coisas de dinheiro da Mana. Se eu pudesse levá-la para algum lugar escuro, tirar a roupa dela e revistar as roupas e a bolsa, seria matar dois coelhos com uma cajadada só; eu ficaria completamente satisfeita. Ou pelo menos era assim que eu me sentia com força. Bom, se eu fizesse isso, a Mana obviamente me odiaria e me evitaria, e a polícia também poderia se envolver. Seria um peso enorme saindo da minha mente.

Eu simplesmente não consigo ver o que mais eu deveria fazer com a Mana a não ser me tornar o próprio diabo daquele jeito. Qual o sentido de fazer algo normal num lugar escuro? Eu simplesmente não entendo por que os homens e as mulheres do mundo ficam tão animados saindo em encontros, ou viajando ou fazendo sexo com a pessoa que amam. Entendo que provavelmente eu devo parecer nojenta para eles.

No intervalo do almoço, a Mana finalmente falou comigo,

“Você está bem agora?”

“Provavelmente.”

Naquele momento, o príncipe dos corações apareceu,

“Ei Junko, como vão as coisas?”

“Bem, ainda não usei a carteira.”

“Ah, não é disso que estou falando. Estou falando de como você estava terrivelmente estranha essa manhã.” O jeito que a Yukari teve a audácia de usar “terrivelmente” quando qualquer outra pessoa, até a Mana, usaria “um pouco” era muito a cara dela.

“A vida é assim às vezes. É diferente com você?”

“Imagino que sim. Mas não posso dizer que já senti isso antes. Bom, vejo você depois.”

O príncipe dos corações foi embora.

Certo, é hora do almoço com a Mana. Só nós duas. Abri minha marmita e a Mana disse,

“Aquilo que você falou sobre oden essa manhã.”

Ah é, a armadilha que eu armei baseada na minha fantasia de comprar oden. Ouvir aquelas palavras que eu usei para esconder minha segunda intenção me deu uma pontada de auto-ódio. Mas seria estranho voltar atrás nas palavras agora.

“Não precisa ser oden.”

“Eu quero oden. Só não de loja de conveniência.”

“Quer dizer tipo em um restaurante popular ou algo assim? Eles vendem oden nesses lugares?” Eu quase nunca comia em restaurante popular, então não sabia que tipo de coisas tinha no cardápio.

“Faça.”

Faça? Quem? Ah, eu.

Ah. 0,1 segundo se passou.

Ah. 0,2 segundo se passou.

Ah. 0,3 segundo se passou.

Certo, agora uma perguntinha.

Q1: Onde você comeria oden da loja de conveniência que comprou no meio da noite no meio do inverno? Resposta: Em casa.

Q2: Se você tivesse uma amiga que veio até aí só para te ajudar a comprar oden, o que você faria? Resposta: Você a convidaria para sua casa e comeria oden juntas.

Q3: Se alguém, claramente com segundas intenções, te dissesse “Só me ligar se der vontade de comer oden à noite”, o que você concluiria que ela está planejando? Resposta: Ela quer te convidar para sua casa, comer oden juntas, e fazer mais alguma coisa.

Q4: De acordo com a Yukari, a Mana é esse tipo de pessoa. Então, que “tipo de pessoa” é essa? Resposta: Provavelmente, lésbica.

Q5: A Mana disse hoje de manhã que “ouviu da Yukari”. Então, a Yukari contou para a Mana sobre o assunto da quarta pergunta? Resposta: Existe uma grande possibilidade.

Q6: Se a resposta da Q5 for “sim”, que tipo de atividade o “mais alguma coisa” mencionado na Q3 está se referindo? Resposta: O tipo de coisa que amigas normalmente não fazem juntas.

Não é isso! De jeito nenhum!

...Mas então de novo. 0,5 segundo se passou.

Um convite para a casa da Mana caiu no meu colo. A razão pela qual eu a convidei para minha casa naquele domingo era para fazê-la me convidar para a dela em troca. Já que é a casa dela, ela provavelmente ficaria descuidada e deixaria rastros de uso de dinheiro──coisas como recibos de loja de conveniência e caixas de compras online──jogados por aí.

Isso é um presente dos céus? Espera. Espera um segundo. 0,7 segundo se passou.

Seria uma coisa se eu tivesse conseguido colocar meu plano em ação sem a Mana perceber, mas agora, é ela quem está me convidando. Quer dizer, se chegar a isso, eu posso simplesmente fugir. Mas se eu fugir, ela vai perguntar por que eu vim. E então, se eu não admitir minha verdadeira razão, descobrir rastros de dinheiro, ela vai me achar suspeita.

...Mas, talvez eu esteja pensando demais? 0,9 segundo se passou.

Pensa bem, a Mana e eu somos garotas. Eu nunca disse para ela que a amo e ela também não disse para mim. Nenhuma de nós deu a entender isso também. De acordo com a Yukari, a Mana é desse tipo de pessoa. Mas mesmo que seja verdade, isso não significa que ela ficaria bem com qualquer garota. Ela não está só me convidando como amiga?

E então eu me lembrei. 1,1 segundo se passou.

Eu me lembro. A primeira vez que conversei com a Mana na escola, quando perguntei se ela me odiava, ela disse que gostava de mim! Mas aquilo era um gostar de amiga, né? Mesmo se não fosse, ainda não existe prova decisiva que prove o contrário. Tenho certeza de que a Mana entende isso também. Por enquanto, vamos dizer que somos amigas──mas espera, você realmente se daria ao trabalho, no meio da noite ainda, só para comprar oden para alguém que é só sua amiga? Eu não acho tão estranho, mas alguém como meu pai, por exemplo, acharia.

Certo. Meu pai. 1,3 segundo se passou.

Eu ia sair à noite, então teria que contar para meu pai o porquê. Se eu ficasse fora por tanto tempo porque estava fazendo oden, o Pai ia ligar e então ia perguntar com quem eu estava e pedir para falar com a pessoa. E o Pai acha a Mana perigosa.

Essa é minha passagem para a liberdade: meu pai! O resultado da minha grande introspecção de 1,5 segundo foram essas palavras:

“Desculpa, meu pai não gosta que eu fique muito tempo fora à noite.”

“Entendi.”

A Mana olhou para mim em silêncio, sem mexer os hashis.

Aquela grande introspecção de 1,5 segundo deve ter sido um pouco estranha. Não, não foi só um pouco, foi terrivelmente estranha. Desviei o olhar, esperando a Mana mexer os hashis de novo.

             *

“Isso é para pagar a passagem dela”,

Recitei a fala de sempre da encostada. Parece estranho.

É de manhã, estou no ônibus para a escola. Estou parada pronta na parte da frente do ônibus. Esse ônibus tinha tarifa única por viagem, e você tinha que pagar assim que entrasse pela porta da frente. E eu estava esperando a Mana entrar no ponto perto do COMS Hakusan.

O terreno de Sama New Town é íngreme. As estradas principais passavam pelos vales, então olhando pela janela do ônibus, tudo o que se via eram ladeiras. A maioria dessas ladeiras tinha árvores crescendo, e algumas, as ladeiras muito íngremes, eram reforçadas com concreto. Por isso, quando você olhava para Sama New Town das estradas principais, parecia que havia linhas por todo lado. Não tanto quando você vê de cima.

Me pergunto como era o lugar onde a Mana morava antes. Vou tentar perguntar o que ela acha de Sama New Town. Até agora, a Mana parecia que não queria que perguntassem sobre o passado, então eu não podia. Mas agora que sei dos segredos da Mana, talvez ela esteja mais disposta a responder. Pensei nessas coisas enquanto esperava a Mana entrar no ônibus.

Quando nos aproximamos do ponto do COMS Hakusan, entre a fila de sempre de passageiros, a Mana estava lá, sem a encostada.

Vendo ela de perto não parece tanto, mas vendo ela ali entre outras pessoas de longe, fiquei surpresa com o quão pequena a figura da Mana era. Ela não era só baixa; tinha ombros pequenos, cintura pequena e cabeça pequena. Quase parecia que ela era a única fora de perspectiva na cena. Pequena, mas não fraca. Por mais compacta que fosse, ela tinha uma força.

Um pensamento abrupto veio à mente. Ela definitivamente está escondendo uma reserva de dinheiro. Sem dúvida.

As pessoas no ponto estavam entrando no ônibus. Assim que a passageira na frente da Mana passou o cartão PASMO no leitor, entrei e peguei aquela carteira. “Isso é para pagar a passagem dela”, disse para o motorista enquanto passei o cartão no leitor. A Mana fez uma saudação simples para o motorista ao passar pela catraca, sorriu para mim e disse “Bom dia”.

Ahhh.

Como eu digo isso? Uhh, ah, certo. É amor. Eu amo a Mana.

Eu realmente te amo, então por favor me mostra o dinheiro que você está escondendo. Esse pensamento maluco passou pela minha cabeça enquanto eu cumprimentava a Mana, “Bom dia”. Pessoas que dizem coisas como “Eu te amo tanto que...” ou “Se você me ama, então...” são realmente as piores, provavelmente têm um parafuso a menos também. Mas é, eu acabei de dizer algo parecido. Só que não em voz alta.

“Quando você se mudou para cá?”

“Por volta de meados de dezembro.” Uhuu, esse é um passo à frente. Até agora, a Mana só ficava quieta e desviava o olhar quando perguntavam sobre o passado.

“Quase dois meses desde então, né? Então, já conheceu a região?”

“Eu não saio muito. Não tem nada para ver mesmo.”

“As estradas e os prédios e essas coisas são bem legais, sabe.”

Contei para ela como, por causa do terreno íngreme e das muitas passarelas para pedestres, Sama New Town tinha muitas estradas e prédios únicos. Se você for para um lugar desconhecido, com certeza vai encontrar algo que vai te fazer dizer “que legal”. Também falei de como a única estrada reta é a estrada principal, e a maioria das estradas eram cheias de curvas e voltas, algumas até cruzando passes, o que as tornava bem imprevisíveis. E como por causa de tudo isso, Sama New Town inteira era literalmente como um labirinto gigante; você nunca sabia onde ia acabar quando entrava numa rua lateral.

Expliquei tudo isso, mas dessa vez, foi a Mana quem não conseguiu se relacionar.

“Não tem nenhum Inari por aqui. Me surpreendeu.”

“Tem sim?”

Tem um santuário Inari de verdade a uns 20 minutos da minha casa se você pegar ônibus e depois trem. Ficava na periferia de Sama New Town, mas ainda fazia parte. Expliquei isso e a Mana disse,

“Só aqueles oficiais.”

“Que ‘não oficiais’ existem?”

“Nos jardins de casas, são aqueles torii e santuários pequenos que têm mais ou menos essa altura.”

A Mana gesticulou uma altura que dava mais ou menos na altura do joelho. Miniaturas?

“De jeito nenhum, isso parece fofo.” Os olhos da Mana se arregalaram e ela perguntou,

“Você nunca viu?”

A Mana falou e descobri que perto da casa da família da Mana, tinha muitos desses. Mas, ainda parecia exagero quando ela disse que só precisava caminhar 5 minutos para ver um torii. Para mim parecia bem inacreditável.

“Eu só pensei: talvez a razão de eles quererem uma Abençoada seja por causa do tipo de cidade que essa é.”

“Isso tem relação?”

Por algum motivo, a Mana sorriu. Não um sorriso educado e amigável, mas aquele sorriso que me cativou, aquele sorriso cru.

“Esta cidade carece de religião.”

             *

Religião? Acho que uma Abençoada é meio que uma coisa religiosa... Espera, é?

O ônibus agora estava dirigindo na rodovia de Sama New Town, a Sama Street. Depois de dirigir um tempo pela Sama Street, o ônibus ia para o sul, passar por outra estrada de vale, e subir até o ponto de ônibus localizado num passo. Então, a gente desce do ônibus, anda cinco minutos, e chega na Academia Privada Feminina Sama Seitaku.

A Sama Street tem restaurantes populares, lojas de conveniência, locadoras de vídeo, postos de gasolina e coisas do tipo alinhadas em intervalos regulares nas laterais. Tenho certeza de que a maioria das rodovias no Japão tem essa vista nas laterais, mas eu não ando muito de carro então não sei.

“Religião não é o tipo de coisa que precisa de um fundador ou tipo uma doutrina?”

“O que é e o que não é religião; isso com certeza é uma questão religiosa.

Pega essa atleta olímpica de nado sincronizado que escreveu sobre o passado dela.”

Essa atleta disse que esse evento aconteceu quando ela estava no ensino fundamental. Ela tinha acabado de começar o nado sincronizado e estava se esforçando ao máximo para ficar mais flexível com calistenia. Ela não fazia sozinha, mas com a ajuda de treinadores adultos. E então um dia, enquanto os três treinadores a seguravam numa chave dupla de ombro, a fáscia dela se rompeu.

“O quê?”

Uma... fáscia rasgada? Não consigo imaginar como isso deve ser, mas parece assustador.

“No momento em que rasgou, doeu demais. Depois disso, a dor não passou, e ela teve hemorragia interna que a fez ficar sem conseguir andar direito. Foi o que li.”

Aparentemente, no dia seguinte, incapaz de suportar a dor, ela foi ao hospital, onde disseram para ela descansar um pouco. Ela tentou só observar durante o treino, mas os treinadores disseram que seria um desperdício não se mexer já que a fáscia finalmente tinha rasgado, e então ela foi forçada a participar do treino.

“Salvo razões extremamente importantes, fazer uma coisa dessas com uma criança do ensino fundamental é crime. Por exemplo, se não houvesse outra forma de curar uma doença. Precisa ser algo desse tamanho. Em vez de a dor daquela doença continuar para sempre, alguns dias de dor são aceitáveis. É perdoado por causa desse tipo de comparação.

Isso não vale para esportes. Se a dor vale a pena ou não só pode ser decidido pelas próprias atletas.

Porém, mesmo que uma criança do ensino fundamental tome uma decisão independente sobre esse tipo de assunto, na maioria dos casos, isso não afeta o julgamento de um crime.”

Até aqui, eu também estava concordando com interesse enquanto ouvia. Porém.

“Por exemplo, se alguém com menos de 13 anos faz sexo, não importa o que diga, seria classificado como estupro.”

Acho que meus ouvidos vão estourar. Não os olhos, mas os ouvidos. Não, sério! Que diabos! Estamos num ônibus lotado! O senso de vergonha da Mana tem que estar quebrado para ela dizer coisas como “sexo” e “estupro” em voz alta agora!

Eu tinha que pará-la de qualquer jeito. Mas a Mana odeia quando as pessoas falam com ela sem pensar. Nunca tentei isso antes, mas tanto faz. Então,

“Mana, desculpa. Posso definir duas palavras como proibidas? Não pergunta por quê. Por favor.”

“Palavra Proibida Nº1──”

...É embaraçoso demais falar! É tão fácil dizer quando estou brincando, mas agora estou morrendo de vergonha.

Como fiquei em silêncio por tanto tempo, a Mana disse,

“Desculpa, não consegui ouvir.” Ela realmente vai me fazer falar, né? Isso é jogo de humilhação? Pode vir então, eu vou junto com seu jogo de humilhação.

“...Sexo.” Ao dizer, sem querer imaginei fazendo com a Mana. Continuei,

“A segunda é estupro.” Essa não foi embaraçosa de dizer. Quer dizer, não consigo me imaginar fazendo isso com a Mana.

“Entendi.”

“Obrigada. ...Sobre o que você estava falando mesmo?”

“Eu estava falando de como as decisões de crianças do ensino fundamental são tratadas.

E de como são ignoradas quando se trata da Palavra Proibida Nº1”, Ela só substituiu a palavra! “mas não são ignoradas nos esportes.”

“Pelo amor de Deus, esportes e aquilo são completamente diferentes.”

Ouvindo isso, a Mana desviou o olhar e baixou a cabeça. Essa é a reação dela quando ouve palavras desagradáveis.

“Crianças e adultos são ‘completamente diferentes’?”

Ugh. Não dá para responder sim ou não a isso. Ninguém se transforma em uma pessoa completamente diferente no momento em que o relógio bate meia-noite e faz 13 anos. A Mana, vendo minha incapacidade de responder, colocou mais sal na ferida,

“E homens e mulheres?”

Mulheres não podem ter filhos juntas, mas com certeza podem fazer as coisas associadas a isso. Até eu e a Mana podemos. ...Eu definitivamente estou fantasiando demais sobre isso.

A Mana, alheia às minhas fantasias, continuou falando.

“Se ‘completamente diferente’ é suficiente para explicar as coisas, tudo neste mundo pode ser explicado como sendo simplesmente ‘completamente diferente’. É isso que você quer fazer, Junko?”

Quando você coloca desse jeito, acho que é verdade. Mas se eu concordasse, isso significaria que o japonês da Mana e o meu japonês são “completamente diferentes”. O que significaria que não conseguiríamos ter nenhuma conversa significativa porque nosso japonês seria tão diferente quanto inglês e chinês.

“...Entendi. Por favor, continue.”

“Apesar de serem ignoradas na palavra proibida nº1, não são nos esportes. Algo deve ser a causa dessa diferença.

Esse algo está relacionado à religião.”

“Você está dizendo que esporte é uma religião?”

Entendo. Como as pessoas podem se divertir tanto correndo todas suadas? Tipo, se fosse só ficar suada ainda tudo bem, mas aquela história da nadadora sincronizada que a Mana contou antes? Parece coisa de seita para mim.

“Talvez.

Ou talvez o que é religião não sejam os esportes, mas as crianças.”

Me perdi aí. As crianças são uma religião?

“Talvez os adultos sejam uma religião, ou talvez a palavra proibida nº1 seja uma religião.”

Hum, consigo entender a Palavra Proibida Nº1 ser uma religião também. Então os homens e mulheres tarados que se juntam para fazer combate noturno nos futons estão praticando religião. É, vamos fingir que é assim. Consigo sentir meu coração sendo purificado enquanto falamos.

“Na realidade, religiões não se limitam apenas a religiões organizadas que têm fundadores e doutrinas como você disse antes. As coisas que não se encaixam nessas condições não são necessariamente não relacionadas à religião.

Religião está presente nas coisas que não parecem ser. É como o ar ter vapor d’água. Religiões organizadas que têm fundadores e doutrinas são parecidas com a chuva. Estão conectadas ao vapor d’água no ar.

Seguindo essa metáfora, as Abençoadas são como névoa.”

Pela metade eu já não estava mais entendendo muito, mas entendi a conclusão. Religiões organizadas são chuva, as Abençoadas são névoa. Acho que era algo assim.

O ônibus já estava quase no ponto de ônibus do passo da montanha. Ao longo das estradas aqui, um parque e uma universidade, entre outras coisas, podiam ser vistos junto com as muitas cerejeiras que tinham perdido as folhas. Era uma visão maravilhosa ter todas essas cerejeiras na primavera, mas agora, era uma visão bem fria e solitária.

A Mana concluiu a conversa.

“Esta cidade carece de névoa.”

Em outras palavras, ela basicamente está tentando dizer que precisamos de mais santuários Inari em miniatura. Mas eu honestamente ainda não entendo muito bem por que precisamos daqueles.

E de qualquer forma,

“Mana, você não tem muito uma vibe de névoa.”

Os santuários Inari em miniatura de que ela falou são, assim como a Abençoada em Faca Errante, meio malfeitos e relaxados. Para cuidar de um santuário de verdade, você precisa de uma religião organizada de verdade; não dá para fazer as coisas pela metade.

A Mana não parece relaxada. Se ela fosse como meu pai esperava, alguém que só usasse uma impressora portátil para imprimir Fudas Abençoados, então ela seria relaxada. Mas a Mana escreve tudo corretamente em cursivo com as próprias mãos. Ela é muito correta.

A Mana desviou o olhar e franziu a testa de forma rígida ao ouvir minha impressão sobre ela. É raro ela fazer esse tipo de cara. Uh, o que eu disse foi tão ruim assim? Além disso, a Mana normalmente fala algo quando ouve algo desagradável dito a ela.

“...Verdade.”

Acho que ela tinha consciência disso.

Mas, você pelo menos tem uma reserva secreta de dinheiro, né? Quase falei isso em voz alta. Não tem como ela ser tão correta mesmo quando ninguém está olhando, então ela não precisa ficar tão ofendida com isso. Ah.

Mas, e se ela realmente não tiver nem um iene nas bolsas nem em casa? E aí?

20 de jul. de 2026

Future Fake Husband - Capítulo 12

Capítulo 12 

Rhett

Taiti era um sonho. Um sonho bom demais para ser verdade, estrelado por Cole Mallory, o falso namorado charmoso da versão nerd e de repente um pouco bêbada de Rhett. A visão da única cama no quarto fez a cabeça de Rhett girar. Ok, talvez parte desse tontura tivesse a ver com a cerveja que ele tomou no jantar.

“Apenas uma cama, Rhett.” A voz de Cole saiu baixa, como se temesse assustá-lo.

Tarde demais. Rhett respirou fundo. “Ela é bem maior que a minha cama em casa.”

“Eu sei.”

As palavras de Cole o fizeram lembrar como tinha sido tê-lo no quarto, sentado na beirada da cama. Ele se sentira exposto, mas não de um jeito ruim. Agora era a mesma coisa. Como se Cole tivesse o dom de olhar para ele e realmente enxergá-lo. E aquele brilho de interesse que Rhett jurava ver nos olhos de Cole às vezes alimentava a vontade de deixá-lo entrar, de se abrir. Havia algo em Cole que o fazia se sentir seguro. E era nessa sensação que ele se agarrava agora, com a mesma força com que apertava a mão de Cole.

“Vou me arrumar para dormir.” Ele finalmente soltou a mão de Cole, fuçou na mala à procura do nécessaire e entrou no banheiro. Mal conseguia respirar por causa do aperto no peito. Aquela viagem dos sonhos tinha algo perigosamente doméstico. Jantar na praia. Brincar no mar sentindo o olhar de Cole o tempo todo. O jantar. Ser salvo do caranguejo. E agora Cole estava no quarto ao lado enquanto Rhett ia ao banheiro e escovava os dentes.

Cole sempre tinha sido amigo do Ryan. Um dos caras. Ryan falava sem parar das coisas que faziam juntos, da diversão que tinham, e Rhett nunca sentira ciúmes. Ele tinha a própria vida, os próprios amigos, e não trocaria a Penny por nada. Agora também não sentia ciúmes. Só um tipo novo de calor por dentro. Ele tinha aquelas memórias novas com Cole. Memórias que eram só deles dois. Parecia bobo até para ele mesmo, mas não queria contar para ninguém. Tinha medo de que perdessem a magia se fossem ditas em voz alta.

Uma batida na porta o tirou dos pensamentos.  
“Está tudo bem aí dentro?”

“Sim, já saio.” Rhett riu e terminou de escovar os dentes. Deixou o nécessaire na pia e saiu do banheiro. “Não quis demorar. Acho que me perdi nos pensamentos.”

“Mais cansado do que imaginava?”

“Algo assim.” Rhett sorriu, grato por Cole não ouvir o coração disparado nem sentir a umidade nas palmas das mãos. “Vou dormir.” O olhar dele escapou para a cama.

“Posso dormir no chão. Ou na poltrona. Não acredito que esse quarto não veio com sofá.”

“Cole, não. Está tudo bem. Somos adultos. Podemos dividir a cama.”

“Ok.” Cole sorriu. “Já volto.”

Assim que Cole sumiu no banheiro, Rhett tirou a roupa e se enfiou na cama. Ele costumava dormir nu, mas naquela noite achou melhor ficar de cueca. Deitou de lado, de frente para o mar, e torceu para adormecer milagrosamente antes de Cole se juntar a ele.

Descobriu rápido que dormir seria impossível sem desacelerar o coração. A cada segundo que passava, ele ficava mais desperto. Saber que ia dormir ao lado de Cole tinha lhe dado um segundo fôlego.

A porta do banheiro abriu e, um instante depois, o outro lado da cama afundou quando Cole se deitou.

E então…  
Nada.

Rhett inspirou, fechou os olhos e imaginou que podia sentir o gosto da pasta de dente de Cole, o sal na pele dele e o cheiro persistente da cerveja de Taiti.

“Rhett?” A voz de Cole estava rouca e íntima demais. Parecia uma carícia na escuridão do quarto de hotel. Um momento que Rhett guardou só para si, junto com todas as outras coisas que jamais contaria a ninguém.

“Sim?” Ele respondeu.

“Se você não parar de ficar todo sem jeito com isso, eu durmo no chão.”

“Eu não estou sem jeito.” A cama se mexeu e Rhett teve a nítida impressão de estar sendo observado.

“Então por que está grudado na beirada da cama?”

Rhett virou de barriga para cima e olhou para Cole, ridiculamente bonito na penumbra. “Desculpa. Vou tentar me controlar.”

“Por favor. Seria bom se você guardasse isso para a próxima vez que estivermos na rua e você for atacado por um bando de caranguejos errantes.”

Rhett sentiu o rosto queimar de novo. “Você vai ficar repetindo isso? Podia ter sido qualquer coisa.”

“Mas não foi. Foi o jantar. Você se assustou com o almoço de pernas.” Cole riu, o tom carinhoso.

Os dois caíram na gargalhada e o estranhamento sumiu. No lugar ficou um silêncio confortável, preenchido apenas pela amizade. Não era ruim, afinal, gostar de passar tempo com o falso namorado. Rhett se aconchegou nas cobertas, se remexendo até achar a posição perfeita. Abriu um olho e encontrou Cole olhando para ele.

“Boa noite, Cole.”

“Boa noite, Rhett.”

- _ _

Dormir com as cortinas abertas fez Rhett acordar com o sol. Ele assistiu ao primeiro nascer do sol em outro país ainda na cama, tentando negar que teria preferido acordar nos braços de Cole e não apenas nos lençóis. Teria sido um acidente, e talvez deixasse tudo ainda mais constrangedor, mas fazia um tempo desde que ele tinha alguém para abraçar dormindo. Rhett não sabia ao certo como funcionaria a dinâmica do relacionamento falso, mas esperava um dia negociar uma cota de abraços. Não achava que Cole se oporia.

“Bom dia.” Ele ouviu Cole resmungar atrás dele e a cama se mexeu. “O que quer fazer hoje? É o nosso único dia livre antes de começar a correria do casamento.”

Rhett se virou, abandonando o nascer do sol para olhar Cole, que estava lindo demais com cara de sono e cabelo bagunçado. “Não sei. Você é o especialista. O que sugere?”

Cole bocejou e se espreguiçou, e Rhett fez o possível para não encarar o peito nu dele. “Podemos pegar um barco para uma ilha particular. Podemos andar a cavalo. Podemos mergulhar com tubarões.”

Rhett guinchou. “Definitivamente não.”

Cole sorriu, aberto e lindo, com os cantos dos olhos franzidos. “Eu cuidaria de você, seu medroso.”

“Você me protege melhor se não me levar para nadar com tubarões. Parece a coisa menos segura que a gente poderia fazer juntos.” Na verdade, a segunda menos segura, pensou Rhett, torcendo para que Cole saísse da cama primeiro e lhe desse tempo de controlar a ereção insistente. Não era uma ereção matinal normal. Era movida pelo rosto sonolento de Cole e pela fantasia de passar o dia inteiro deitado na cama com ele, assim.

“Tá, sem tubarões.” Cole jogou as cobertas para o lado e saiu da cama, esticando os braços e bocejando. “Vou tomar banho. Quer pedir room service ou sair para comer?”

Comer no quarto parecia íntimo demais para as fantasias desgovernadas de Rhett. “Tem alguma coisa aberta agora?”

“Sempre tem alguma coisa aberta,” ele respondeu, fuçando na mala. “Saio em instantes.”

Rhett ficou na cama enquanto Cole tomava banho, pensando no café da manhã e tentando não imaginar um Cole completamente nu no cômodo ao lado, com a água escorrendo pelo corpo e a espuma deslizando pela pele. Rhett saiu da cama e pressionou a mão contra a ereção, tentando fazê-la sumir. Dividir a cama com Cole tinha sido uma ideia tão ruim quanto ele imaginava.

Quando ouviu a porta do banheiro abrir, pegou depressa uma muda de roupa. “Não vou demorar,” disse a Cole quando se cruzaram.

“Fica à vontade.”

Rhett fechou a porta do banheiro e jogou as roupas na pia antes de ir até o chuveiro. Abriu a água e ajustou a temperatura antes de tirar a cueca e entrar.

Pensou em ligar a água gelada e resolver o problema de outro jeito, mas Cole já estava debaixo da pele dele. Mesmo sozinho no banheiro, era como se sentisse a presença de Cole se enrolando nele, se tornando parte dele.

Rhett levou a mão ao sexo e conteve um gemido. Apoiou a outra mão no azulejo e fechou os olhos. A água sozinha ficou um pouco áspera, então parou para usar sabonete e facilitar o movimento.

Pelo menos tentou pensar em qualquer coisa que não fosse Cole, mas parecia errado pensar em outra pessoa quando quem ele realmente queria e não deveria estava no quarto ao lado esperando por ele. Então deixou pensar em Cole. Na forma como as mãos deles se encaixavam tão bem. Na forma como ele tocou o rosto de Rhett, ou encostou o ombro no dele. Cada lembrança tirou o fôlego de Rhett e logo ele estava mordendo o lábio para abafar um gemido quando o orgasmo veio, deixando as pernas bambas.

Terminou o banho e torceu para que um orgasmo fosse suficiente para manter o desejo recém-aceso sob controle até que pudesse ficar sozinho de novo.

Saiu do banheiro e soube que estava condenado. Cole guardou a carteira no bolso de trás e estendeu a mão para Rhett. “Pronto?”

“Para qualquer coisa, menos tubarões,” respondeu Rhett, pegando a mão de Cole e corando ao lembrar para que acabara de usar aquela mão.

“Você está sorrindo,” Cole comentou, erguendo uma sobrancelha.

“Claro que estou. Estou em Taiti.” Rhett torceu para que Cole não insistisse e agradeceu quando ele apenas sorriu, como se soubesse de alguma forma, mas preferisse não dizer nada.