27 de fev. de 2026
Deja Vu - Capítulo 22
S.C.I. Mystery Files Vol. 01 - Capítulo 17
Capítulo 17 – O Caso Antigo
Zhan Zhao folheava os arquivos um a um. A cada pasta aberta, sua expressão tornava-se mais sombria.
— O que foi, Gatinho? — perguntou Bai Yutang, apreensivo.
— Rato… como você descobriu isso? — Zhan Zhao ergueu os olhos para ele.
— …Descobri o quê?
— Todas essas pessoas têm relação com TOC e com sugestão psicológica! — Zhan Zhao bateu os arquivos contra o peito dele. — Responda! Não se faça de desentendido!
— Não estou me fazendo de desentendido. — Bai Yutang pegou a revista que estava lendo. — Pense um pouco. Este caso tem alguma ligação com você… e com o Departamento de Psicologia da Universidade C. Então imaginei que pudesse ter relação com psicologia.
— Além disso — continuou, Wang Chao e a equipe estão analisando esses arquivos há dias, mas não encontraram nenhuma conexão entre as vítimas. O único ponto em comum é que todos estavam passando por dificuldades na vida e não eram bem-sucedidos na carreira. Alguns inclusive tinham histórico de transtornos mentais.
— Ah… — murmurou Zhan Zhao, acariciando o queixo. — Então foi por isso que você veio aqui buscar inspiração.
Bai Yutang ergueu o queixo dele com dois dedos.
— E pelo visto encontrou. Olha essa cara convencida.
Zhan Zhao afastou a mão dele com um tapa leve.
— Vamos!
— Ei! Gato! Pra onde? — Bai Yutang correu atrás dele.
— Você sabia que nossa delegacia foi a primeira a criar o “Escritório de Pesquisa em Psicologia Criminal”? — perguntou Zhan Zhao, andando apressado.
— Hum… não foi criado há vinte anos, por sugestão do Comissário Bao? — Bai Yutang igualou o passo. — O que isso tem a ver com o caso?
Zhan Zhao apertou o botão do elevador.
— Sabe por que esse departamento foi fundado?
— Dá pra ir direto ao ponto?
— Naquela época houve um grande caso. Por causa das implicações, quase ninguém sabe os detalhes. Eu mesmo só descobri quando entrei para o setor.
Os dois entraram no elevador. Zhan Zhao apertou o botão do 11º andar.
— O que se sabe é que o assassino usava sugestão psicológica para controlar e matar pessoas. Em cinco anos, mais de cem morreram. Mais de uma dezena eram policiais.
As portas se abriram.
— Como eu nunca ouvi falar disso? — Bai Yutang perguntou, incrédulo.
Zhan Zhao riu, caminhando em direção ao arquivo.
— Quantos anos você tinha há vinte anos? Que criança teria acesso a esse tipo de coisa?
Bai Yutang revirou os olhos.
— E você sabia como?
Zhan Zhao lançou-lhe um olhar enviesado.
— Sou mais velho que você.
Estalou a língua, satisfeito, ao ver o rosto de Bai Yutang empalidecer de irritação.
— Quem diria que aquele menininho fofo que vivia me chamando de “Gege” cresceria para virar esse sujeito irritante?
— Ora, seu gato miserável! — retrucou Bai Yutang. — E você? Quer que eu conte como era quando pequeno? Quem era mesmo que voltava do jardim de infância com o rosto todo babado de tanto beijo das tias?
— Aham! — Zhan Zhao mudou de assunto abruptamente. — Chegamos ao arquivo!
Entrou depressa na sala.
— Se não fosse eu te proteger naquela época, acha que teria crescido inteiro? Ingrato… — resmungou Bai Yutang.
De repente, Zhan Zhao tentou fechar a porta na cara dele. Por reflexo, Bai Yutang segurou a porta a tempo.
— Você é cruel! Está com inveja do meu nariz perfeito?
— Shhh! — Zhan Zhao fez sinal para que ele se calasse e começou a procurar nas estantes.
— Isso não é extremamente ineficiente? — Bai Yutang olhou para as etiquetas amontoadas. — Não tem nada digitalizado?
— Já verifiquei. Não há registro no sistema… — Zhan Zhao interrompeu-se. — Hein?
— O que foi? Achou?
— Faltam muitos arquivos entre os anos de 82 e 87!
— Esses são confidenciais — disse uma voz envelhecida atrás deles.
…
Mesmo não sendo medrosos, era madrugada e o arquivo estava mergulhado em sombras. A voz repentina quase os fez saltar.
Um feixe de lanterna iluminou-os.
— Senhor Sun? — Bai Yutang protegeu os olhos, colocando-se instintivamente à frente de Zhan Zhao. — Por que está usando lanterna se as luzes estão acesas? Não estamos filmando um terror.
O velho arquivista riu.
— Pensei que fosse algum idiota tentando roubar documentos.
Zhan Zhao apontou a prateleira vazia.
— O senhor disse que esses arquivos são confidenciais?
O velho Sun fez sinal para que o seguissem até a sala dele. Lá dentro, um fogareiro elétrico fervia macarrão instantâneo.
— Que cheiro bom… — disseram os dois ao mesmo tempo, lembrando que não haviam comido nada a noite toda.
— Sentem-se. — Ele colocou mais dois pacotes na panela.
Enquanto distribuía as tigelas, explicou:
— Todos os arquivos desaparecidos pertencem ao mesmo caso. Parte foi selada como confidencial. A outra parte… destruída.
— Destruída?! Como assim?
— Foi destruída por aquela pessoa.
— Que pessoa?
— Se ele não tivesse destruído, talvez jamais tivesse sido capturado.
— Foi o próprio assassino quem destruiu os documentos? — Zhan Zhao arregalou os olhos.
O velho assentiu.
— Ele não era apenas o culpado. Era também policial.
Bai Yutang engasgou.
— Policial?!
— Já ouviram falar dos famosos “Preto e Branco” daquela época?
Bai Yutang riu.
— Está falando do Comissário Bao e do meu pai?
— Sim. Pode soar exagerado hoje, mas era impressionante. Só que… “Preto e Branco” na verdade eram três.
— Três?! — Zhan Zhao ficou chocado. — O terceiro era o assassino?
O velho Sun o encarou por alguns segundos.
— Ele era como você.
— …?
— Um gênio em análise psicológica. Mas naquela época não existia esse cargo. Então deram a ele o título de policial.
Bai Yutang ficou tenso.
— Afinal, quem é ele?
— É confidencial. Só três pessoas sabem tudo.
— Três? Além do meu pai e do Comissário Bao?
— Ele próprio.
— Ele ainda está vivo?! — Zhan Zhao deixou escapar.
— Matou mais de cem pessoas e não foi executado? — Bai Yutang não acreditava.
O velho balançou a cabeça.
— Ele não pode mais machucar ninguém.
E não disse mais nada.
Mais tarde, ao saírem, Bai Yutang resmungou:
— Esse mistério todo é irritante!
— E agora? Perguntamos ao seu pai?
— Pelo amor de Deus, não!
— E ao Comissário Bao?
— Você pergunta!
Enquanto discutiam, Zhan Zhao perguntou de repente:
— Xiao Bai, quantos anos seu irmão é mais velho que você?
— Oito… Aaaah!
— Então ele devia lembrar!
— Não é disso que estou gritando! — Bai Yutang parecia à beira do colapso. — Meu irmão chega hoje. Eu disse que iria buscá-lo.
— Que horas?
— Meio-dia…
Zhan Zhao olhou o relógio. Era exatamente meio-dia.
— Então corre! Meia hora de atraso não é tão grave.
Bai Yutang quase chorou.
— Meio-dia… de agora.
Zhan Zhao ficou em silêncio por um segundo.
— Considerando a personalidade do seu irmão… você está morto.
O restante terminou com Bai Yutang carregando Zhan Zhao à força até o elevador sob gritos de “Rato Branco!” e a porta se fechando com um ding.
Foi essa cena que Gongsun presenciou ao sair do Instituto Médico-Legal.
Logo depois, outro elevador se abriu. Dele saiu um homem alto, elegante, de traços marcantes.
— Está procurando alguém? — perguntou Gongsun.
— E você é quem? — respondeu o homem, frio.
Gongsun sorriu.
— Gongsun Ce, Instituto Médico-Legal.
Aperto de mão.
O homem então percebeu algo estranho: a luva cor de pele de Gongsun estava coberta por resíduos vermelhos e esbranquiçados.
— O vermelho é fígado. O branco, fluido cerebral. O preto é gordura carbonizada — explicou Gongsun com naturalidade.
O homem empalideceu, mas manteve a compostura.
— Como devo chamá-lo?
— Bai Jintang.
Um silêncio coletivo percorreu o corredor.
Então Bai Jintang abriu um sorriso enigmático e puxou Gongsun para um abraço.
— Yutang fala muito de você.
Nas costas de Gongsun ficou uma marca evidente, vermelha e branca.
Dry Drowning - Capítulo 20
Capítulo 20
Kyle, que sorria até então, interrompeu o riso ao perceber o olhar de Ian um olhar que parecia duvidar de seu caráter e compôs uma expressão injustiçada.
— A nossa Shucream nem sabe o que é “Shetier”.
Ian o encarou como se aquilo não tivesse a menor relevância, e Kyle, como se estivesse esperando por essa reação, continuou:
— Ela mal consegue escrever o próprio nome. Ensinar o nome do príncipe seria crueldade, não acha?
Soava como um disparate, mas, raramente, havia algo próximo da verdade ali. Já haviam tentado ensiná-la ao menos a escrever se não falava, talvez pudesse aprender pelas letras, mas a iniciativa fora interrompida por Victorian. Mesmo ele, que o tratava como a um irmão mais novo e lhe ensinava tudo com paciência, desistira em apenas um mês. Por mais que repetissem, Shu não memorizava sequer palavras simples. Parecia não ter vontade de aprender.
“Entendeu?” — perguntavam. E ele apenas sorria: “Hi”. Era de se imaginar quantas vezes alguém já não perdera a paciência.
Talvez ao ouvir a voz de Kyle, Shu assentiu energicamente e correu para apanhar um graveto caído ali perto. Pelo menos o próprio nome ele precisava saber escrever insistira Victorian e, a duras penas, ela conseguira decorar ao menos um caractere.
Com o som áspero do graveto riscando a terra, Shu se agachou e começou a escrever.
Um único som. Uma sílaba. Sem sobrenome.
— Mm!
Orgulhosa por conseguir escrever o único nome que sabia, abriu um sorriso radiante e virou a cabeça bruscamente na direção de Ian. Ele, que não conseguia sequer escrever o próprio nome, limitou-se a encarar aquela caligrafia trêmula que também não sabia ler.
Ao lado do nome de Shu, a palavra “cream” surgiu num instante. Kyle, sacudindo as mãos sujas de terra como se nada tivesse feito, proclamou:
— Viu? Ele já fica satisfeito com isso. E você duvidou da minha generosidade por não querer dar dever de casa à toa, não foi?
Era só provocação, embora falasse como se fosse algo grandioso. Ian desviou o olhar, como se não valesse a pena responder. Já Shu, que escutava atentamente os sofismas de Kyle, parecia concordar em parte.
É por isso que te tratam como boba.
Ian deu um leve toque na testa dele com a ponta do dedo. Shu arregalou os olhos. Quando ele a fitou de cima, como quem pergunta “o que foi?”, ele apenas inclinou a cabeça, confuso e levemente ofendido. Kyle não perdeu a cena e estendeu o graveto a Ian.
Ian o encarou como se perguntasse por que aquilo estava sendo entregue a ele. Kyle sorriu enviesado.
— Mas e se vocês nem sabem o nome um do outro? Escreve você mesmo. Seu nome.
— …
— Não é nada difícil. Até Shucream consegue decorar, não é?
O problema era que o dono do nome “não tão difícil” não o conhecia.
Ian alternou o olhar entre o graveto agora em sua mão e Shu, que o observava com olhos brilhantes. Não conteve o suspiro. O que estava fazendo ali? Não queria se envolver em trivialidades, mas o olhar insistente dela era impossível de ignorar.
Por mais que o encarasse assim, as letras que desconhecia não surgiriam magicamente.
Pensou em largar o graveto e ir embora, mas teve a sensação de que Shu o seguiria como um filhote. Reconsiderou.
De todo modo, naquele país ele era estrangeiro. Mandaram que escrevesse o nome não que fosse em Shetier. Chegando a essa conclusão, Ian se agachou e traçou uma longa linha diagonal logo abaixo do nome de Shu.
Eu escrevo no idioma que eu quiser.
— …
Mas ele não avançou além do “I”. Após alguns segundos fitando o chão, desenhou um círculo à esquerda da letra. Depois outro círculo ao lado. Em seguida, um traço que se projetava lateralmente. E, por fim, uma linha angulosa descendente.
Shu, ainda agachado, observava fascinado o nome escrito em hangul como se tentasse gravar na memória aquelas formas arredondadas e angulosas que representavam “Ian”. A expressão de Kyle, também voltado para o chão, tornou-se estranhamente ambígua. Leu várias vezes, como se tivesse presenciado algo incomum, e quando abriu a boca para falar.
— Se já voltou, apresente o relatório primeiro à chefia.
A voz firme veio de trás, e os três voltaram-se quase ao mesmo tempo. O homem que se aproximava pela entrada era um rosto conhecido.
Cabelos azuis presos no alto. O sinal sagrado traçado na testa. Traços bem definidos e uma expressão impassível, como se nem uma lâmina pudesse desalinhá-la.
Era Claude, o vice-comandante que, no dia da procissão, conduzira Ian a cavalo até a vila.
— Ora, se não é o Claude. O quê? Veio correndo do treino da manhã porque sentiu minha falta? Isso já é meio perturbador.
— Devo responder?
— Ah, agora nem nega mais?
Falavam com rapidez, como velhos conhecidos — embora não no melhor dos sentidos. Enquanto Kyle exibia um entusiasmo escorregadio, Claude caminhava com calma, respondendo como quem instrui alguém lento de entendimento.
— O treino começa às oito em ponto. Eu sempre chego cinco minutos antes. Não tem nada a ver com você.
— Sério?
Kyle continuava sorrindo. Shu, acostumado àquela atmosfera, inclinou a cabeça em cumprimento a Claude e puxou discretamente a manga de Ian.
Vamos escrever nomes juntos!
O pedido estava todo em seu olhar, mas o clima entre os dois homens esfriava rapidamente. Ian já ouvira menções aos nomes deles, mas era a primeira vez que os via lado a lado.
— Já devo ter dito isso mil vezes. Até um vira-lata retardado tem memória melhor que a sua.
Na Ordem, a rivalidade entre os dois era pública. Kyle, escravo de seus próprios impulsos, e Claude, um aristocrata rigoroso. Só pelas inclinações opostas, já eram incompatíveis. Ambos integrantes da elite, frequentemente designados às mesmas missões pelo Grão-Duque e, sempre que se encontravam, colidiam. Nenhum dos dois tinha o hábito de medir palavras. Transformar a Ordem num campo minado parecia quase um passatempo.
— O quê?
Kyle fez um rosto chocado.
Não era alguém que se abalasse com tão pouco. Ian suspeitou que viria algo absurdo e veio.
— Peça desculpas ao cachorro!
Parecia uma piada. Mas piorou:
— Claude, esse é o seu problema. Tenha mais consideração pelos sentimentos alheios. Compará-los a mim? Já pensou como eles ficariam magoados? O Alexander, que criam na frente da taverna, é inteligentíssimo!
— …
— Que expressão é essa? Não me diga que… toquei numa ferida? Bem, para ir à taverna, é preciso ter amigos… Foi mal. Essa foi minha.
— O erro foi meu por falar com você.
Claude se afastou, ignorando o dilúvio de provocações como quem corta ruído com uma lâmina. Se Kyle nascera com o dom de revirar o estômago alheio, Claude era especialista em ignorar disparates.
Aproximou-se então de Ian.
— Recebi ontem o relatório sobre o mal-entendido com alguns de nossos cavaleiros.
“Mal-entendido” talvez fosse brando demais. Ainda assim, Ian apenas assentiu após um instante. Não pretendia discutir. Em qualquer época, quem destoa é rejeitado.
— Era algo que eu deveria ter supervisionado.
Mentira. Era impossível que desconhecesse o tumulto causado por Fred durante mais de uma semana. Ian preparava-se para assentir novamente.
— Não supervisei.
— …Era uma provocação? Ou franqueza?
— Se deseja punição aos envolvidos, basta dizer. Incluirei o instigador e todos os que se omitiram.
Se Ian concordasse, parecia pronto para abrir um julgamento ali mesmo. Por que aquilo, uma semana depois? Ele não sabia. Mas sua resposta já estava decidida.
Ergueu lentamente a mão.
— …E apontou para si mesmo.
Claude permaneceu em silêncio. Só podia haver uma razão para aquilo.
As sobrancelhas se ergueram por um instante. Entrara há pouco na Ordem e já se deixara acuar por alguém como Fred? Corajoso.
— …Muito bem. Inclua-me também.
Ele também fora omisso. Se houvesse punição, que fosse justa.
Ian abaixou a mão. Já entendia que tipo de homem Claude era. Não tinha idade para fofocas pelas costas.
Fez um gesto indicando que não era necessário e virou-se.
Ali não encontraria o homem que procurava. E era esse seu único objetivo. Melhor voltar ao quarto.
— Ian.
Pensando bem, ele deveria ter fugido naquele momento.
Sem fazer perguntas. Sem querer saber de nada. Se tivesse simplesmente corrido, sem olhar para trás sem revisitar o homem que matara talvez, desta vez, pudesse ter encontrado a morte tranquila que desejava.
As memórias perdidas poderiam ter sido apenas um lampejo final.
Mas Ian não percebeu.
Virou-se ao ouvir aquela voz de articulação rígida. Por trás do rosto impassível de Claude, emoções indecifráveis passaram brevemente.
— O comandante deseja vê-lo.
Era um convite.
E também, um prenúncio.
Ang Ang — Capítulo 16
4 de fev. de 2026
Mercenary Goddess Vol.01 - Capítulo 07
27 de out. de 2025
Apocalypse: Counterattack of a Cannon Fodder - Capítulo 57
Yan Xu riu baixinho, sem se apressar em ir embora. Inclinou-se, prestes a beijá-lo novamente, mas Tang Shi o conteve.
— Camarada, seu período de avaliação ainda não acabou. Nem pense em ultrapassar os limites.
Yan Xu não se afastou. Apenas trocou o gesto por um toque leve: passou o polegar pelos lábios macios de Tang Shi, a voz grave e o olhar tomado de fascínio.
— Sabe... quando você corria pelo campo de treino me xingando e amaldiçoando os antepassados da minha família, o que eu mais queria era te jogar no chão e te foder até te fazer chorar.
Tang Shi se recostou no sofá, os cantos dos lábios curvados em um sorriso provocante.
— Que pena. Você perdeu o melhor momento. Agora, já não tem mais chance.
— É mesmo? — respondeu Yan Xu, sem se comprometer.
— A não ser que seja mais forte do que eu. Do contrário, vai ficar só na vontade. E claro — acrescentou com um meio sorriso —, pra ser mais forte, primeiro precisa conseguir me alcançar. Vamos, camarada, trabalhe. Desejar demais faz mal pra saúde.
Tang Shi cutucou o queixo bem desenhado de Yan Xu, orgulhoso e provocador.
Yan Xu suspirou, rendido, e começou a recolher os cacos e a louça espalhada pelo chão.
— Daqui a uns dias vou sair pra uma missão. Se tudo correr bem, volto em alguns dias.
Tang Shi, que já caminhava para o quarto, parou no meio do passo.
— Mal entrou e já te mandam pra uma missão? O exército realmente não sabe esperar.
Yan Xu não levantou a cabeça. Jogou os cacos no lixo.
— É uma missão urgente.
— Você nem faz parte da equipe de despertos. Missões especiais deveriam ser deles. Se querem aproveitar os privilégios que o exército oferece, é justo que deem algo em troca.
— Entre os despertos do exército, o mais forte é Jiang Huai, no limite do nível 1. Ouvi dizer que já tentou avançar pro nível 2 duas vezes e falhou nas duas. — explicou Yan Xu.
Tang Shi soltou um riso frio.
— Se o talento é ruim, não adianta ter quantos cristais de energia quiser. Não vai subir de nível indefinidamente.
Yan Xu concordou com a cabeça. Já havia pensado o mesmo. Cada pessoa tem uma aptidão diferente, e o avanço de nível depende disso. Ele e Tang Shi, por exemplo, sempre subiram de nível com facilidade nunca haviam falhado, e por isso evoluíram bem mais rápido do que a média.
Em termos de coleta de cristais de energia, era óbvio que o exército tinha muito mais recursos do que os dois juntos, mas, mesmo assim, o mais forte deles ainda estava preso no nível 1. Isso dizia tudo sobre a diferença de talento.
Tang Shi cruzou os braços, apoiando-se no batente da porta.
— Quantos despertos vão participar?
— Seis equipes. A primeira, liderada por Jiang Huai, vai permanecer de prontidão no quartel.
— Então, no momento, o desperto de nível mais alto é você. E é por isso que precisa liderar a missão, certo?
— Exato. Eu estarei no comando. Espero que dessa vez tenhamos algum resultado. — Na última operação de busca por mantimentos, o fracasso fora total: mais da metade dos soldados morreu, e o que conseguiram trazer mal sustentou o abrigo por alguns dias. Tudo dependia desta nova tentativa.
Na vida anterior, Tang Shi lembrava bem: além das missões de resgate e defesa contra os alienígenas, o exército só realizava grandes operações para saquear armazéns de comida. Sabia exatamente o que Yan Xu enfrentaria. Com mais de um milhão de sobreviventes na zona segura, o alimento era o problema mais urgente.
Mas, para Tang Shi, aquela insistência em arriscar tropas por comida era inútil. Seria muito melhor organizar logo a evacuação. Lincheng estava perdido só ele parecia enxergar isso. Mesmo se dissesse, ninguém acreditaria.
Na sua opinião, mesmo com despertos envolvidos, o resultado seria o mesmo: sacrifício inútil. Da última vez, metade do exército havia morrido para trazer alguns caminhões de mantimentos. Desta, provavelmente nem isso conseguiriam. A quantidade de criaturas estava aumentando, e elas evoluíam devorando umas às outras cada vez mais fortes, mais perigosas.
A missão de Yan Xu era mortal.
— E se eu mandar você recusar essa missão? Vai me obedecer? — perguntou Tang Shi, encarando-o.
Yan Xu ficou em silêncio por um instante.
— Sou soldado. Cumpro ordens.
Tang Shi assentiu, sem insistir. Voltou para o quarto e bateu a porta com força.
A reação dele deixou Yan Xu sem saída. Era militar tinha deveres. E, num momento tão crítico, se o exército desmoronasse, toda a zona segura cairia junto. Um milhão de vidas dependiam disso. Não podia ignorar essa responsabilidade.
Tang Shi trancou-se em casa por dois dias, sem sair. Enquanto isso, Yan Xu seguia pontualmente para o quartel, ajudando a conter os ataques das criaturas na linha de defesa.
No quartel dos despertos, Jiang Huai estava furioso. Sentado em seu escritório, atirou um maço de relatórios na mesa com um estrondo.
Aquela missão deveria ser dele. Mas justo agora, com a entrada de Yan Xu nas fileiras do exército, haviam passado o comando pra ele roubando-lhe a chance de conquistar mérito. Imperdoável!
Da última vez, soldados comuns haviam conseguido trazer alguns caminhões de comida, mesmo com perdas pesadas. Agora, com uma tropa maior e despertos de apoio, o sucesso parecia garantido. Era a ocasião perfeita pra se destacar e Yan Xu simplesmente apareceu e pegou o cargo.
O que mais o irritava: Yan Xu era um nível acima dele.
Jiang Huai rangeu os dentes. Ele sempre fora o mais forte desperto de Lincheng até agora. A chegada de Yan Xu era um tapa na cara.
Andava de um lado para o outro, inquieto. Se Yan Xu havia se juntado ao exército, e ainda por cima com esse poder… então e Tang Shi? Jiang Huai não tinha dúvidas de que ele também era um desperto. Será que pretendia se alistar? E qual seria o nível dele?
Atualmente, Jiang Huai ostentava a patente de major privilégio reservado aos despertos. No exército, quem possuía esse poder subia de posto muito mais rápido que os soldados comuns. Além disso, ele era o comandante das equipes de despertos, motivo pelo qual fora promovido diretamente de sargento a major.
Mesmo estando no mesmo nível hierárquico que Yan Xu, Jiang Huai não se sentia em pé de igualdade. Algo o corroía uma sensação de inferioridade difícil de disfarçar.
Depois de muito pensar, decidiu tentar disputar novamente a liderança. Não podia abrir mão daquela missão lucrativa.
Estava prestes a sair do escritório quando ouviu batidas na porta.
— Entre — disse, impaciente.
Era Zhu Peng, capitão da segunda equipe de despertos. Entrou às pressas, o rosto aflito, sem notar o mau humor do superior.
— Chefe, preciso de alguns homens emprestados. É urgente!
Jiang Huai franziu o cenho.
— Todos os despertos devem permanecer no quartel, aguardando ordens. Preciso repetir o regulamento?
— Eu sei — respondeu Zhu Peng, ansioso. — Mas meu irmão desapareceu. Saiu há três dias pra caçar na zona de risco e não voltou. Tenho medo de que tenha acontecido algo. Quero levar alguns homens pra procurá-lo.
Jiang Huai acendeu um cigarro luxo raro, privilégio de poucos e tragou lentamente.
— Três dias... Se algo realmente aconteceu, ir atrás agora não vai mudar nada.
— Eu conheço as habilidades do A-Ming! — insistiu Zhu Peng, exaltado. — Ele estava com mais dois companheiros, também despertos. Três despertos e alguns homens de apoio deveriam dar conta dos monstros próximos à zona segura. Acho que encontraram algo mais perigoso e ficaram presos. Por favor, deixe-me ir!
Jiang Huai suspirou, jogando o cigarro fora.
— Entendo seus sentimentos, Zhu Capitão. Mas regras são regras. Não me coloque em posição difícil.
Zhu Peng se aproximou e, discretamente, tirou do bolso cinco cristais de energia de nível zero, colocando-os na mão do superior.
— Só vou levar minha equipe por duas horas. Se a segunda equipe for convocada nesse período, peço que o chefe me cubra.
Jiang Huai fechou a mão sobre os cristais e os guardou no bolso, sem cerimônia.
— Uma hora. É o máximo que posso te conceder.
Zhu Peng mordeu os lábios e assentiu com firmeza.
— Está bem. Uma hora é suficiente. Voltarei rápido.
Na ampla sala de conferências, os líderes civis e militares de Lincheng estavam reunidos para a quinta assembleia de emergência. O assunto: o destino da cidade.
O prefeito Lin Wei abriu a reunião, obstinado.
— As cartas que caíram do céu afetaram o mundo todo. Mesmo que abandonemos Lincheng, pra onde iríamos?
O general Wu Weiguo respondeu com gravidade:
— As perdas militares são enormes. Nosso exército está exausto, e o número de criaturas aumenta a cada dia. Não podemos mais esperar. Precisamos planejar a evacuação.
O prefeito bateu na mesa.
— Se faltam soldados, recrutem! Há mais de um milhão de sobreviventes. Certamente há quem possa empunhar armas.
O general Xu Heng, de expressão severa, interveio:
— Recrutas sem treinamento só servem pra morrer. Seria melhor evacuar primeiro, ir para uma área menos devastada e reorganizar as forças. Além disso, as reservas de comida estão acabando. Em breve, ficaremos sem mantimentos.
O prefeito retrucou:
— Se falta comida, o exército deve buscá-la! Esse é o dever de vocês. Já o fizeram antes; desta vez, mandem mais homens e levem despertos juntos. Vai dar certo.
Wu Weiguo manteve o semblante sério.
— É nossa responsabilidade, sim. Mas mesmo que tentemos de novo, não há garantia de sucesso.
Os militares conheciam a realidade melhor do que os políticos confortavelmente sentados em seus gabinetes. Sabiam que Lincheng estava cercada por hordas cada vez mais fortes, e que as munições estavam no fim. Em um mês de combates, só gastaram nada entrou. A escassez total era questão de tempo.
— Aliás — disse o prefeito, mudando o tom —, ouvi que o general Wu escolheu um novo líder pra próxima missão. Um ex-soldado, não é?
— E o que o prefeito quer dizer com isso? — perguntou Wu Weiguo.
— Só acho curioso. Se o próprio general não confia na escolha, por que não enviar o capitão Jiang? — provocou o prefeito. — Ele é o desperto mais forte de Lincheng e comandante das equipes especiais. Com ele no comando, as chances seriam muito maiores. Ele é a esperança dos sobreviventes, não é mesmo?
Wu Weiguo não respondeu.
Se tivesse de escolher entre Yan Xu e Jiang Huai, não hesitaria nem por um segundo: ficaria com Yan Xu.
Não por favoritismo mas porque Yan Xu fora um soldado das forças especiais. Sua capacidade de julgamento em combate era muito superior à de Jiang Huai.
Counter Attack - Capítulo 46
A round trip to love Vol. 04 - Capítulo 10
Xiaochen?
Como ele chegou aqui? Ele ouviu tudo o que eu acabei de dizer?
Agora que as coisas chegaram a esse ponto, é hora de ir ao fundo da questão. Recompus-me e virei-me.
Yichen ficou parado em silêncio na porta, ainda segurando o casaco que eu havia deixado no bar. Seu corpo tremia como uma folha ao vento outonal, e o olhar em seus olhos era mais desesperado do que desespero, mais doloroso do que dor.
"Eu... vim pedir para Yichen te ajudar a levar seu casaco para a escola... o tempo está frio..." Ao me ver olhando para ele, ele gaguejou para explicar, como uma criança que fez algo errado.
"Tudo bem... é só usar..." Fiquei sem saber o que dizer por um momento. Afinal, sempre senti pena de Xiaochen.
"Irmão!" Yi Chen ficou atordoado por um longo tempo e finalmente se apressou: "Qin Lang estava falando bobagem agora mesmo. Ele ainda está bêbado. Irmão, não acredite nele. Ele sempre vai te tratar bem no futuro. Não se preocupe. Qin Lang, certo?" Ele virou a cabeça e olhou para mim suplicante.
Fechei os olhos, evitando o olhar suplicante de Yichen, e falei francamente com Xiaochen: "Xiaochen, me desculpe, o que eu disse agora é toda a verdade. Eu amo seu irmão, sempre amei!"
"Eu...eu entendo..." Ele respondeu apressadamente, evitando meu olhar, e rapidamente se libertou dos braços de Yi Chen e quis escapar.
"Irmão!", gritou Yichen. Quando olhei para cima, Xiaochen havia caído pesadamente da escada, em pânico.
"Remédio e gaze!" Vendo Yichen completamente em pânico, eu, já tendo sido espancado por ele muitas vezes e tendo considerável experiência, rapidamente lhe entreguei o remédio de primeiros socorros. Felizmente, Xiaochen tinha apenas um arranhão na testa, e depois que Yichen o segurou e enxugou suas lágrimas e ranho, ele acordou logo em seguida.
"Xiaochen, se não se importar, vou lhe contar a verdade!" Ignorando o olhar furioso de Yichen, que era o suficiente para me enfurecer, agarrei delicadamente a mão de Xiaochen e comecei a lhe contar toda a história. Como conheci Yichen, como meus sentimentos por ele floresceram, como o confundi com outra pessoa no bar por causa de um mal-entendido sobre nossos nomes, como acabamos no vagão do trem... Ele permaneceu em silêncio o tempo todo, sem uma única reação.
"Xiaochen, eu sei que você está magoado agora e eu não deveria estar lhe contando isso agora, mas eu só quero que você saiba que não há maldade na mentira em toda essa história."
"Eu sei..." Ele finalmente falou com o rosto pálido, levantou-se e acariciou lentamente as sobrancelhas de Yi Chen: "Yi Chen, eu sei que você sempre foi bom para mim, então agora eu imploro, deixe-me ficar sozinho por um tempo, ok? Não me siga..." Depois de dizer isso, sem olhar para mim, ele cuidadosamente colocou meu casaco na mesa e cambaleou para longe.
"Irmão!" Yichen queria ir atrás dele, mas eu o impedi: "Não vá, deixe-o ficar sozinho por um tempo!"
"É tudo culpa sua! É tudo culpa sua!" Toda a sua raiva finalmente encontrou um lugar para explodir, e ele me deu um soco: "Nunca vi uma pessoa tão inútil como você! Tudo bem se nada acontecer comigo hoje, mas se algo acontecer com ele, farei você se arrepender pelo resto da vida!"
"Você está brincando comigo?" Eu estava com tanta raiva que quase desmaiei. Nesse momento, ele ainda disse: "É melhor explicar tudo claramente agora. Seu irmão vai se sentir mal, mas vai melhorar depois de um tempo. Você ainda quer que eu minta para ele para sempre?"
"Idiota! Pare de inventar desculpas!" Ele ainda estava cheio de ódio. Ao me ver olhando feio para ele, gritou ainda mais alto: "Que diabos você está olhando?"
"O que você acha que estou olhando?" Sorri friamente, dei um passo à frente, abaixei a cabeça e o beijei.
"Sua besta, me solta!" Ele empurrou desesperadamente, xingando. "Pare de ser tão sentimental e pare de me dizer essa coisa nojenta de que você me ama. Só porque você me ama, eu tenho que te amar? Sai daqui! Eu não me importo!"
"Yichen, o que você disse?" Meu peito apertou e puxei seu cabelo para cima.
"Você não entende o que eu estou dizendo? Por que acha que eu te mantive por perto? Se não fosse pelo fato de eu gostar de você, eu teria te mandado embora! Você não entende, porra?" Ele escolheu frases que poderiam me matar e as pronunciou palavra por palavra, com um tom cheio de ódio para me matar.
Após três segundos de contato visual, levantei a mão e a balancei com força. Após um "pop", sangue vermelho imediatamente jorrou do canto da boca dele.
"Você ousa me bater?" Ele ficou atordoado por um longo tempo, cerrou os dentes e estava prestes a revidar. No segundo seguinte, a mão que queria vingança já estava agarrada por mim.
"Yichen, tem umas coisas que é melhor você perguntar ao Shen Chao para esclarecer!" Eu me aproximei dele, dizendo palavra por palavra: "Desde que eu tinha idade suficiente para entender, alguém já ousou me tocar? Você é o único que pode me chutar e me bater. Acha mesmo que eu não consigo te derrotar?"
"Besteira!" Ele não conseguia se soltar e tentava ansiosa e impacientemente se livrar dos meus lábios, que estavam cada vez mais próximos.
"Chega. Acabei de dizer que chega! Se você quiser que eu vá embora, eu vou embora, mas antes disso, vou retirar toda a compensação que mereço!" Dito isso, sorri friamente. No fundo do meu coração, que doía cada vez mais, uma voz fria dizia: Qin Lang, depois de nos separarmos, você e Yi Chen nunca mais conseguirão se encontrar.
"Idiota, o que você está fazendo? Pare! Você me ouviu quando eu disse para parar?" Ele queria lutar, mas eu o forcei e ele ficou completamente preso debaixo de mim.
"É um pouco difícil fazer isso no chão, mas eu consigo me virar!", disse eu sem nenhuma emoção. Torci suas mãos, que resistiam ferozmente, para trás das costas e comecei a arrancar suas roupas com violência.
"Você está louco? Me solta!" Ele ouviu minhas palavras inexpressivas, incrédulo, e finalmente percebeu, pelas minhas ações resolutas, que eu estava falando sério. Depois de lutar por um longo tempo, sua voz começou a conter um tom de súplica temeroso.
"Já que você já quer que eu vá embora, é claro que não posso me permitir sofrer tanto." Inclinei-me e o beijei lentamente, aos poucos. Seu corpo tremia sob meus lábios e ele não conseguia nem emitir um som.
"Por que você não fez nenhum progresso?" Vendo que ele ainda só sabia me evitar passivamente, agarrei seu queixo e o forcei a olhar para mim: "Não se esconda, olhe para mim, Yichen, olhe para mim!"
Ele mordeu os lábios com força, e o canto da boca que eu havia quebrado já estava inchado. Seus olhos escuros e úmidos estavam cheios de ódio, e não havia nenhum traço de amor neles.
Meus movimentos, que haviam sido suavizados um pouco por pena, tornaram-se selvagens novamente por causa do seu olhar. Com um único esforço, rasguei completamente sua camisa. Seu peito magro, porém robusto, arfava violentamente, sua pele cor de trigo tingida por um leve rubor de timidez. Fiquei assustada, incapaz de resistir a beijar seus mamilos.
Por um longo tempo, o único som que se ouvia era sua respiração ofegante. Quando ergueu os olhos, já havia mordido os lábios novamente, tentando desesperadamente conter o gemido.
"O que você está fazendo?" Belisquei seus lábios para impedi-lo de se morder: "Você não quer gritar? Acha que consegue segurar?"
Com um "sibilo", suas calças foram completamente abaixadas por mim. Suas pernas ficaram completamente expostas ao vento. Ele se esforçou para fechá-las, mas elas foram impiedosamente rasgadas pelas minhas mãos.
"Você ainda quer aguentar?" A mão dele já havia alcançado seu ponto mais vulnerável, provocando-o deliberadamente. A raiva crescente de antes se misturava a um constrangimento cada vez mais intenso.
O corpo em que eu havia pensado milhares de vezes estava bem embaixo de mim, suas pernas encolhidas foram puxadas por mim e enroladas em sua cintura. Só mais um momento e eu poderia penetrar seu corpo e possuí-lo completamente. Além disso, ele já soluçava e gemia baixinho sob a provocação da minha mão.
"Qin Lang, não me faça odiar você!" No último momento, antes de eu entrar no estágio de vergonha, ele levantou os olhos e olhou para mim, mas falou em voz baixa, como se tivesse esgotado todas as suas forças.
A declaração fraca soou como um trovão. Parei e o encarei, sem entender.
"Sério, não me faça te odiar, eu não quero isso!" Ele fechou os olhos novamente, e seu corpo, que estava tenso e esquivo, amoleceu como se tivesse desabado, permitindo que eu o abraçasse.
Yichen, que havia desistido até mesmo de lutar, disse: "Você perdeu toda a esperança em mim a esse ponto?"
E será que meu amor persistente foi trocado por tanto ódio dele?
Levantei-me delicadamente, cambaleei até o banheiro, joguei água fria no meu corpo quente e usei as mãos para aliviar o constrangimento fervente aos poucos.
Não sobrou nada.
Qin Lang chegou a esse ponto e não há nada que você possa fazer para detê-lo.
No momento em que o líquido branco saiu das minhas mãos, agachei-me sob a torneira fria e chorei silenciosamente.
Não sei quanto tempo demorou, mas saí do banheiro encharcado. Yi Chen estava encolhido num canto, com o rosto coberto de lágrimas.
Caminhei até ele em silêncio e coloquei nele o casaco que estava jogado sobre a mesa. Ele enterrou a cabeça profundamente e não olhou para mim.
Olhei para ele por um longo tempo, depois me levantei, saí do quarto e fechei a porta delicadamente.
A cidade ficou completamente silenciosa para mim, e minha rotina diária de deslocamento entre a sala de aula, a biblioteca e a casa transcorreu sem incidentes. Meu antigo professor ficou particularmente satisfeito com meu despertar repentino e me usou como exemplo para inspirar outros. Um mês depois, recebi minha carta de formatura da universidade. Meu pai perguntou se eu queria ficar e continuar meus estudos de pós-graduação. Eu disse que qualquer lugar serviria, menos nesta cidade.
A mãe disse: "Qin Lang, você não gosta daqui? Se não fosse pela sua insistência, a mãe e o pai já teriam se estabelecido no Japão há muito tempo." "Que tal isso? Você pode aprender um pouco na empresa do seu pai no Japão. Se quiser estudar novamente depois de um tempo, pode voltar e continuar seus estudos."
No dia anterior à minha partida, fiquei acordado até tarde bebendo no bar do Shen Chao. Su Xiaolu se juntou a nós, e a bebedeira dela quase nos deixou inconscientes, Shen Chao e eu. Lembrando de quando estávamos namorando, ela ficava bêbada e tentava me abraçar depois de um pouquinho de vinho, e eu ria alto.
Conversamos sobre muitas coisas, desde a professora que Shen Chao e eu costumávamos provocar quando éramos crianças e que agora tem um bebê, até o par de sapatos nos pés de Su Xiaolu que agora está com 50% de desconto na Printemps Paris, e assim por diante.
Mas ninguém mencionou os irmãos Cheng Yichen.
Embora eles saibam que eu realmente quero perguntar, embora eu também saiba que eles realmente querem dizer.
Shen Chao soube de toda a história por Su Xiaolu. Embora sempre falante, ele permaneceu em silêncio desta vez.
Isso é ótimo, posso voar para o Japão sem preocupações e começar minha vida romântica e feliz novamente.
Su Xiaolu também disse que um homem como eu, que é bonito, animado, bem-humorado e atencioso, é sempre popular onde quer que vá.
Fiquei tão empolgado que dei um tapinha no ombro de Shen Chao e disse: "Ei, cara, fica olhando. Se eu for lá, talvez eu consiga seduzir Eriko Imai."
Esqueci de mencionar que Shen Chao é fã de Eriko, e o escritório inteiro está cheio de pôsteres do primeiro imediato do SPEED.
Shen Chao riu e olhou para Su Xiaolu, sem ousar dizer uma palavra.
Quando o show estava prestes a terminar, Shen Chao cambaleou até o palco e pegou o microfone: "Irmão, para lhe desejar uma viagem segura, vou tocar uma bela música como despedida!"
Droga, pensei que ele mesmo fosse cantar, quase me assustei.
Suspirando e dando um tapinha em Su Xiaolu, gentilmente a lembrei: "Se Shen Chao quiser cantar no futuro, você deve encontrar um lugar para se esconder rapidamente."
Como resultado, Su Xiaolu olhou para ele e não gostou nem um pouco: "Qin Lang, você está indo embora. Shen Chao está muito triste. Por que você ainda está dizendo isso?"
"Não é uma questão de vida ou morte, é tão sério assim?" Eu ri e dei dois passos à frente, pronta para carregar o sujeito vergonhoso para fora do palco.
Então, aquela música "muito legal" tocou.
《BIRDCAGE》——Mr. Child《BIRDCAGE》。
A música que Yi Chen cantou na Côte d'Azur agora se tornou a voz desolada de um tio.
Suspirei e o abracei forte.
Shen Chao, obrigado por me deixar ter uma lembrança inseparável para me despedir de você neste momento.
Na manhã seguinte, embarquei em um voo direto para Tóquio, Japão, do Aeroporto Internacional Xiamen Gaoqi.
Não pedi a ninguém que se despedisse de mim nem mesmo à minha mãe tagarela, nem a Shen Chao, que havia se embriagado e vomitado no chão na noite anterior. Eu só queria ir embora em silêncio, sem incomodar ninguém.
A última pessoa que vi foi Su Xiaolu. Ontem à noite, ela me ajudou a entrar num táxi e me levou para casa.
Quando ela saiu, guardei a foto perto do peito.
CAGE" CD em sua mão, então disse a ela com uma risada: "Xiaolu, eu posso escapar amanhã!"
A última lembrança foi de suas lágrimas caindo no envelope rosa e se transformando em lindas gotas de água.
Honoo no Mirage Vol. 03 - Capítulo 06
Capítulo 06: Falcão do Norte
Naoe havia chegado à área do mapa Yamagata mais ou menos na mesma época. Por um tempo ele vinha indo e voltando entre Tóquio e Yamagata investigando a morte violenta e bizarra de um suspeito ligado a um caso de corrupção, mas finalmente encontrou uma pista e a seguiu até a cidade de Yamagata.
O caso de corrupção, que girava em torno do financiamento e da compra de um terreno para o desenvolvimento de um resort, explodira num enorme escândalo de suborno que envolveu desde bancos até o governo. Os subornos tinham origem em uma grande incorporadora imobiliária com sede em Sendai. Dois membros de sua diretoria ambos com fortes vínculos com o caso haviam morrido.
Trabalhando por conta própria, Naoe usara percepção espiritual e hipnotismo para infiltrar-se na promotoria, e empregara todos os meios ao seu alcance para reunir informações e buscar a verdade. E finalmente conseguira identificar uma pessoa que parecia ter alguma ligação com os «Yami-Sengoku»: Ueshima, uma figura influente na Dieta Nacional e membro do partido no distrito de Yamagata, que aparentemente mantinha relações de longa data com a incorporadora em questão e vinha facilitando favores para ela há bastante tempo. Ele também parecia estar profundamente envolvido no caso atual.
Ueshima era o número dois de uma facção muito influente dentro do partido no poder. De fato, fora considerado um dos favoritos nas eleições de outono para a presidência do partido.
Mas agora que esse caso de corrupção veio à tona (Ueshima provavelmente sofrerá a queda mais dura...)
Assassinatos para destruir provas de suborno. Era assim que Naoe via aquelas mortes estranhas.
Claro, arranjar para que alguém morresse devorado por animais na própria cama era um modo de matar altamente incomum quase inimaginável, na verdade.
Normalmente, ao menos.
Mas não se onryō tivessem sido usados.
Não era de modo algum impossível se Ueshima tivesse fechado algum tipo de acordo com um onshō dos «Yami-Sengoku» para se livrar dos suspeitos do suborno. Ueshima provavelmente teria aceitado um pacto para atravessar a tempestade que ameaçava sua candidatura presidencial e sua carreira parlamentar.
Tendo chegado a essa hipótese, Naoe passou a vigiar Ueshima por cerca de uma semana. Ueshima voltou para sua residência em Yamagata e não fez outros movimentos. Naoe checou minuciosamente as pessoas que entravam e saíam da casa, utilizando sugestão hipnótica ao máximo para recolher informações.
Finalmente descobrira a identidade do onshō com quem Ueshima negociava, bem como os detalhes do acordo.
O onshō era Mogami Yoshiaki.
O acordo consistia no uso do corpo de Ueshima como receptáculo espiritual por Mogami Yoshiaki.
— Entendo. Já começaram as invocações dos mortos.
Naoe falava ao celular com Ayako dentro de seu Cefiro enquanto fumava um cigarro, no dia seguinte ao da entrada de Ayako e Takaya em Sendai. Era uma das comunicações regulares entre eles para alinharem informações.
Uma barreira fora erguida ao redor da mansão de Ueshima, e todo o «shinenha» estava bloqueado, de modo que ele só conseguia sondar a situação por meio de dispositivos de escuta e afins (ele os havia plantado secretamente nas pessoas que iam e vinham da casa). As ondas de rádio alcançariam seu quarto de hotel, mas ele havia estacionado o carro próximo à mansão e montado vigília ali para poder reagir imediatamente a qualquer evento.
— Então os desabamentos têm mesmo relação com os «Yami-Sengoku» — Naoe franziu o cenho.
— E isso é da parte do Kokuryō-san: parece que os onshō estão aparecendo um após o outro na cidade — Ayako acrescentou. — Preciso fazer uma percepção espiritual mais detalhada, mas a «energia» da terra está realmente estranha.
— Estranha? O «jike» mudou?
— Não sei se mudou ou não, mas não é natural. Não parece algo causado pela reunião normal de pessoas e pelas «energias» dos espíritos; parece mais algo criado ou manipulado. Só que parece muito esquisito de alguma forma.
— Uma «energia» manipulada? Você ainda não achou ligação entre isso e as invocações dos mortos, né?
— Mmm. Ainda não tenho prova positiva, mas acho que terei evidências na próxima vez que conversarmos.
— Entendo. Isso me preocupa. Seja o que for, nossa primeira prioridade deve ser capturar os onshō que fazem essas invocações e realizar o chōbuku o quanto antes, para que mais inocentes não se machuquem. Você vai dar conta disso sozinha?
— Sim, acho que sim.
— ...Então fica com isso — disse Naoe, encerrando a ligação. Após um silêncio, perguntou: — E Kagetora-sama, como está?
— Kagetora? Acho que ele se comportou durante o treinamento especial com o Kokuryō-san. Estava aprendendo meditação.
— Está indo bem?
— Beeeem... — Ayako respondeu com um gemido confuso. — Ele definitivamente tem o gênio de Uesugi Kagetora, e o Kokuryō-san o elogiou bastante, mas o problema parece ser algo dentro dele.
O rosto de Naoe ficou tenso de surpresa. — Uma auto-sugestão?
— Ah, não é isso. Acho que tem a ver com Ougi Takaya. Ele está estranhamente distraído desde que veio a Sendai. Sabe, Naoe, você não ouviu nada, né? Nada sobre Sendai?
— Não...
Na verdade, embora Naoe conhecesse bem Uesugi Kagetora, ele não tinha tanto conhecimento íntimo sobre Ougi Takaya. Takaya não falava sobre si mesmo e recusava deixar que as pessoas o conhecessem.
(Embora eu tenha ouvido que os pais dele se divorciaram há alguns anos...)
— Sabe, Naoe, ele é mais criança do que aparenta. Ele imediatamente afasta as pessoas, mas você não acha que, lá no fundo, ele quer depender de alguém?
Os olhos de Naoe se arregalaram. Ayako continuou: — Eu me pergunto se ele vai abrir o coração para alguém.
— Haruie?
— Naoe. Eu realmente acho que você deveria ficar ao lado dele — Ayako disse com firmeza. — Por ele... por Ougi Takaya. Para esse garoto que não é Kagetora, somos estranhos que ele acabou de conhecer, mas certamente podemos formar novos laços com ele. Talvez Ougi Takaya, e não Uesugi Kagetora, esteja começando a ver Naoe Nobutsuna como alguém necessário a ele?
— O que é isso de repente...
— Ele está confuso. De repente ele é Uesugi Kagetora e foi arrastado para os «Yami-Sengoku» — ele não sabe mais quem é, então está apreensivo. Alguém precisa ficar com ele. Ele é mais frágil do que parece. Muito mais quebradiço e facilmente ferido que aquele garoto Yuzuru.
— Haruie.
Por um instante Ayako ficou em silêncio. Depois admitiu com voz baixa: — Estou começando a achar que ele não é Kagetora.
Naoe piscou.
— Porque ele não sabe de nada! E a personalidade é totalmente diferente. Kagetora era atencioso, cortês, confiável e inteligente, perfeito! Pelo menos, era para mim. Mas esse garoto é totalmente diferente. Como se fosse outra pessoa. Exceto quando ele está aflito, tem o mesmo olhar nos olhos que Kagetora tinha.
Houve uma expressão levemente dolorida no rosto de Naoe.
— Eu sei que você está tentando se redimir diante de Kagetora, mas isso provavelmente machucaria essa criança. Quando vi vocês dois em Matsumoto, pude ver o tipo de confiança que existia entre vocês há muito tempo, e isso me deixou realmente feliz. Eu não quero que a história se repita.
— Haruie.
— Por favor, fique ao lado dele... Por favor, fique ao lado de Ougi Takaya, desse menino que não é Kagetora, e o ajude.
Naoe ficou calado. Então respondeu com voz baixa, cabeça baixa: — ...Eu ficarei.
Eles desligaram. Naoe recostou-se no banco e fechou os olhos, cansado. As palavras de Ayako ecoaram em seus ouvidos: “Não quero que a história se repita.”
(—Não deixarei a história se repetir...), murmurou Naoe em sua mente, como se respondesse. Gravara aquelas palavras incessantemente em seu coração: se tivesse a chance de refazer tudo, não permitiria que a história se repetisse. Que não faria nada que causasse dor ou tristeza àquela pessoa. — E assim, mesmo que tivesse que enganar a si mesmo...
Não era difícil.
Ele podia suportar a agonia de mentir para si mesmo. Era nada comparado com a forma como a havia ferido.
“Jamais te perdoarei por toda a eternidade.”
Aquela declaração de exílio de trinta anos antes, cuspida como se banhada no sangue de Kagetora, ainda ecoava sem cessar em seus ouvidos. Mas agora eram as palavras de Ougi Takaya que o feriam — aquelas palavras que o esquartejavam — e nos últimos dias ele vinha acordando coberto de suor frio.
(Acho que estou apenas cansado.)
Afundado em reflexão, Naoe levou o filtro do cigarro aos lábios.
Não vinha dormindo o suficiente ultimamente, e agora lamentava não ter tomado o cuidado de pedir ajuda a Nagahide (Yasuda Nagahide — também conhecido como Chiaki Shūhei — ainda estava em Matsumoto guardando Narita Yuzuru). Percebendo que vinha se enterrando em trabalho para evitar Kagetora, Naoe mergulhou numa depressão ainda mais profunda.
“Talvez o garoto que é Ougi Takaya comece a ver Naoe Nobutsuna como alguém necessário a ele?”
Provavelmente era verdade.
Ele já não era ‘Kagetora’ ou ao menos, agora era ‘Ougi Takaya’. Não que Naoe não conseguisse entender Haruie ao considerá-lo uma pessoa diferente, mesmo sabendo que ambos eram, de fato, a mesma pessoa.
(É errado fazer reparações a essa pessoa chamada ‘Ougi Takaya’?)
Seria covardia fazê-lo para alguém que não era Kagetora?
Minhas reparações não deveriam ser feitas ao Kagetora que disse que nunca me perdoaria?
(Mas aqui não há ninguém além dele para mim...)
Servir Ougi Takaya era a única coisa que Naoe podia fazer.
Ele estava decidido. Não deixaria a história se repetir.
Mas sentia apreensão e inquietação. Porque a história poderia, de fato, se repetir.
Será que Naoe era realmente capaz de ajudar a mente de Takaya naquele estado?
O cigarro apagou, e ele afundou a testa nas mãos.
Kokuryō certamente conseguiria extrair uma parte dos poderes de Kagetora. Se Takaya pudesse controlar o que já tinha agora, seria suficiente.
(Mas a auto-sugestão dele provavelmente não se dissolverá tão facilmente...)
Mesmo Takaya não encontraria essa solução simples.
Mas, acima de tudo, para Naoe
(Não quero que se dissolva.)
Sim, esse era seu pensamento.
(Sou um egoísta de merda...), xingou a si mesmo, mas não conseguiu negar seus sentimentos verdadeiros.
Era, sem dúvida, verdade que os enormes poderes de Kagetora seriam necessários para destruir os «Yami-Sengoku». Na verdade, Naoe não sabia se conseguiriam resistir mesmo com todo o seu poder. Precisavam dos poderes do antigo Kagetora. Mas ele não poderia usá-los em plena medida sem restaurar suas memórias.
— E lembrará de você. Lembrará de Minako.
As palavras de Nagahide vieram à mente.
Os olhos de Naoe baixaram como se tentasse suportar o peso daquelas palavras.
Sim. Kagetora lembraria. Não, ele tinha que lembrar. E Naoe mesmo, que mais que ninguém desejara esquecer, teria que...
Kitazato Minako
Aquela que tanto os compreendia.
A mulher que Kagetora amara por sobre todas.
A mulher que fora arrastada para a luta contra Oda Nobunaga, e que Kagetora confiara a Naoe naquele dia, trinta anos antes. Ele ordenara que Naoe a protegesse e a levasse a um lugar seguro longe da batalha. A ordem fora prova da confiança de Kagetora em Naoe, apesar de seu ódio.
Uma confiança que ele traíra.
Para Kagetora não poderia haver ato mais hediondo.
“Jamais te perdoarei por toda a eternidade.”
Essas memórias torturantes voltaram à vida mais uma vez.
Minako, membros finos agitados em desespero.
Naoe, segurando-a com força e arrancando suas roupas enquanto ela gritava e chamava o nome de Kagetora
Ela devia ter visto olhos bestiais olhando para baixo.
E ele, que se transformara naquele monstro
Que nome seu coração clamara?
Um nome que o rasgara por dentro.
Quando aquela cruel noite virou amanhecer
Ao lado do corpo nu de Minako, imóvel como uma boneca despedaçada, seu coração humano retornara, e sentira apenas surpresa diante de suas próprias ações atrozmente bestiais. A vergonha e o auto-ódio lhe haviam cavado um buraco no coração que jamais se curaria. E Minako dissera apenas uma coisa para suas costas encolhidas e geladas, dor profunda em seus olhos.
Eu merecia qualquer escárnio ou abuso que ela quisesse lançar. Eu, que a havia violado, merecia ‘ele me estuprou’ e qualquer ato de crueldade em retribuição. Minako não deveria acreditar em mim, qualquer coisa que eu fizesse. Ela deveria estar estupefata e aterrorizada; deveria me desprezar. E, ainda assim. E, no entanto, ela. Minako.
Meu tratamento vis básico para com Kagetora e Minako, esse erro que esmagou quatro séculos numa única noite: fora ela, sabendo de tudo, quem me salvou.
Dizendo apenas uma pequena coisa
Ela olhou para mim com olhos de bodhisattva machucados.
Mas para essa pessoa que poderia ter sido seu bodhisattva
Eu...
Eu havia desferido o golpe final com aquele abominável ato chamado ‘kanshō’.
Fui eu quem forçou essas duas que tanto se amavam.
Por que os lábios de Minako tiveram que pronunciar as palavras de Kagetora?
Em quem teria nascido a pequena vida concebida naquela carne?
Por que acabou assim?
(Posso realmente recomeçar?)
Pensar isso diante do Kagetora que perdera suas memórias era insuportável. Sim, era verdade. Ele, que fingia pesar, sentia apenas alegria nas profundezas ocultas do seu coração por Kagetora ter esquecido sua vergonha.
Será que Kagetora poderia ter lhe dado essa chance, embora tal egoísmo o maculasse?
De repente deprimido mais uma vez, Naoe olhou as luzes solitárias ao longo da rua.
Um BMW preto passou por ele e subiu até os portões da mansão de Ueshima.
Um homem de meia-idade trajando roupas tradicionais japonesas desembarcou com vários acompanhantes. Foram calorosamente recebidos e conduzidos para dentro. Pareciam ser convidados de Ueshima.
Naoe inclinou-se e aumentou o volume dos receptores em seus dispositivos de escuta. Havia grande excitação e movimentação dentro da casa. (Quem é o convidado?) Um rápido relance não permitiu identificação precisa. Mas sentia que vira aquela pessoa antes.
(Alguém ligado ao mundo político...?)
Começou uma conferência dentro da casa. Alguns minutos depois
— Estamos progredindo firmemente na captura de Sendai.
Dois homens conversavam no parlor. Sentado numa grande cadeira de tatami, o representante Ueshima não, o general Sengoku Mogami Yoshiaki disse ao seu convidado de meia-idade vestido à moda antiga:
— Os Date parecem bastante distraídos, graças às tuas forças Ashina. Assim, expulsaremos os espíritos de Date antes mesmo de completarmos o «jike-kekkai».
— De fato. Nossos onryō rasgarão as almas dos Date e as condenarão a uma dor eterna. — Seu convidado riu altivamente. — Não permitirei que sejam purificados. Irei extinguir seus seres e «acorrentar» seus espíritos para que sirvam como nossos servos. Eles se tornarão nossa força; assim eliminaremos todas as ameaças no Nordeste e matamos dois coelhos com uma cajadada só. Parece que Date ainda não percebeu a aliança entre Mogami e Ashina.
Mogami Yoshiaki ergueu um copo de saquê aos lábios. —Ashina-dono, carregas ainda teu ódio por Date?
—Como poderia esquecer? — cuspiu Ashina Moriuji. — Nós, os Ashina, nobres desde o Período Kamakura, fomos tão magnificamente arruinados por Date. E outro ainda: o filho de Satake não deveria ter sido adotado no clã. Ashina foi destruída porque um homem assim tornou-se cabeça do clã. O infortúnio de minha casa foi uma maldição lançada por Date e Satake. Contudo, esta batalha findará de modo diverso. A ressurreição deste ‘Líder da Era Dourada’ Ashina Moriuji não permitirá mais que esses novatos façam o que bem entenderem. Eu lhes mostrarei o verdadeiro poder dos Ashina.
— Confio-te essa tarefa, Ashina-dono. Certamente tomarás a cabeça do Dragão de Um Olho dos Date.
— Não preciso de bajulação.
— Não é bajulação. Falo de coração. E há uma tarefa a mais que devo pedir-te.
Os dois se olharam por um instante. Com olhos sempre em guarda.
— Achas que eu me deixo enganar por ti? — murmurou Ashina Moriuji, as feições de sua veste espiritual retorcendo-se. Um sorriso astuto surgiu no rosto angular de Ueshima.
— Por favor, descanse esta noite.
(Aquilo foi uma surpresa...)
Naoe, que ouvira toda a conversa pelos bugs plantados, gemeu surpreso.
(Ashina e Mogami, trabalhando juntos...)
Já ouvira relatos da revivescência dos Ashina, mas não imaginara que uma aliança já se formara. E, além disso, que estivessem tecendo uma armadilha contra os Date...
(E o outro que ouvi... «jike-kekkai»...?)
A porta deslizou de repente, e vários homens saíram, entre eles o homem trajado tradicionalmente de antes — talvez Ashina Moriuji. Naoe esforçou os olhos na escuridão. Um pequeno homem de meia-idade, rosto estreito e cabelos brancos.
(Aquele homem é...)
Naoe estremeceu, reconhecendo-o de repente.
(Aquele não é o representante da Dieta Hirabayashi Mikio?)
Hirabayashi era líder do Partido Hirabayashi, facção à qual Ueshima pertencia. Ex-primeiro-ministro e uma voz poderosa dentro do partido. E aquela era a veste de Ashina Moriuji!
Dada essa conexão, não era estranho que Hirabayashi e Ueshima se convivessem. Mas possuir pessoas em posições políticas tão proeminentes... Certamente a possessão de Ueshima por Mogami não fora obra do acaso, mas Ashina fazer de alguém tão influente quanto Hirabayashi seu receptáculo...?
(Que diabos estão tramando?)
Quando o BMW preto de Hirabayashi sumiu na noite, uma voz feminina veio pelos dispositivos de escuta.
—Já retornou teu convidado?
Uma mulher atraente saiu do quarto do tatami. Yoshiaki sorriu e abriu-se.
—Ele voltou cedo demais. Será que pensa que o servimos com veneno?
—O que, nós faríamos tal.
Yoshiaki reclinou-se no assento de tatami e deu uma longa tragada no cachimbo. —Esses recipientes que ocupamos são insuportáveis. Bem. É verdade que são apenas velhos senis, mas seus poderes são certamente mais úteis em grande escala do que os de um «poder» não treinado.
Fumaça subiu ao teto envelhecido.
— Um poder que permite mover o mundo, hm?
—Já se passaram três anos desde que ressuscitamos neste mundo. Agora o terreno finalmente está preparado.
— Mmm. Levou-nos tempo para entender o estado atual das coisas, mas o mundo dos homens parece não mudar.
Yoshiaki riscou um círculo no ar com a ponta do cachimbo.
— Dinheiro e influência. Pessoas venderiam até suas almas para se proteger. Ou, neste caso, seus corpos.
—Tolos.
— Sim. São tolos. Aqueles que se esqueceram da batalha apodrecem sob o peso de seu próprio egoísmo curta-visão. Um governo formado por aqueles que estão podres torna-se ele próprio podre. Tal é o caminho das coisas, Oyoshi.
A mulher encarou Mogami com força. — Aniue, desejas verdadeiramente mergulhar este mundo no caos da guerra outra vez?
— Não desejo guerra. Não entrarei em guerra. Não entrarei em guerra, mas obtivemos agora um poder para mover este mundo. Por isso tomei este receptáculo espiritual. Pelo Mogami.
Sua irmã mais nova, Yoshihime que também era mãe de Masamune, Ohigashi-no-Kata estreitou os olhos contra o irmão.
— Se falares levianamente, poderá chegar aos ouvidos dele.
—Aquele, hm? — Os olhos de Yoshiaki estavam cheios de diversão. — Até a Princesa Demônio do Ōu o teme?
O rosto de Yoshihime enrijecia ao encarar o irmão. — Eu o temo. Não posso deixar de pensar que ele está trazendo algo terrível a esta terra do Nordeste.
— Isso te cai mal, Yoshi. Em todo caso, como está Kojirō? Uma vez que Sendai caia em nossas mãos, penso em confiar Yamagata a ele como meu procurador. Certamente não é inferior a Masamune em porte. Sem dúvida será um bom comandante.
—De fato.
Outra voz vindo da direção do quarto do tatami interrompeu a conversa. Os dois se voltaram e viram que, sem que eles soubessem, um jovem esbelto estava parado do outro lado da porta de correr. Havia quanto tempo ouvira a conversa? — Yoshiaki e Yoshihime empalideceram, mas o jovem falou com uma voz doce, sem se importar com o que se dissera antes: — Ficai à vontade, Mogami-dono. Kojirō-dono dos Date é um jovem guerreiro excelente. Estamos em pleno entendimento. Contudo, Mogami-dono. Há ratos nesta sala.
— Oq...!
O jovem caminhou, rindo, e levantou a pintura do rolo pendurada no tokonoma.
—Ah!
O jovem sorriu para Yoshiaki, que se encolheu.
— As orelhas de um grande rato — disse o jovem, e esmagou com a mão o minúsculo microfone do bug que segurava.
—Um rato, aí!
—!
O dispositivo de escuta cortou com um estouro de estática. Naoe arrancara o receptor no mesmo instante, sabendo que aquilo prenunciava desastre.
(Notaram...?!), pensou, quando o carro tremeu. Thud! Sentiu o carro ceder.
(O que!)
O corpo do carro rangeu alto, envolvido por um poder anormal. Um vento ardente de repente queimou a área ao redor dele. Nesse instante
—!
O Cefiro explodiu em uma coluna de fogo com um estrondo terrível.
—Não fuja, seu «nue»!
O dono daquela voz aguda saltou por cima da cerca junto com uma esfera de fogo rubra.
O Cefiro estremeceu enquanto queimava em chamas crimsons. Naoe, que rolara para fora do carro por um triz, estremeceu agachado no chão, com a mão pressionada contra o ombro direito.
(Isso é o «poder» deles?!)
Algo uivou atrás dele. Ele girou para ver chamas vermelho-escuro abrindo uma gigantesca boca em ataque.
Seu «nenpa» rompeu as chamas. Entidades que eram torrões flamejantes contendo faces humanas putrefatas apareceram perto dele. Suas bocas excessivamente grandes se abriram enquanto avançavam.
(Ém «kaki»...!)
Uma face flamejante atacou, cuspindo saliva ardente. Ele a enfrentou e liberou seu «nenpa». A face foi despedaçada com um grito grotesco. Mas os pedaços se reuniram imediatamente e voltaram à forma humana original.
(O que?!)
«Kaki» eram aglomerados de emoções de quem morrera no fogo. Um tipo de tsukumogami imaterial associado a desastres de fogo. Por serem sentimentos remanescentes, deveriam dispersar e desaparecer quando sua mente os pulverizava.
(Não são «kaki» comuns!)
Ele defendeu o próximo e o próximo ataque dos «kaki» com «nenpa», mas eles apenas se desfaziam e se recompunham novamente. O combate parecia interminável. Ao despedaçar mais um com «nenpa», Naoe percebeu de súbito: claro!
(Eles não são só aglomerados de emoção!)
Eram «nue» revestidos de emoções onryō!
(Então chōbuku!)
Naoe concentrou-se e reuniu seu «poder». Quando as figuras humanas mascaradas pelo fogo atacaram simultaneamente, prestes a engolfá-lo, ele bradou com voz estrondosa:
(bai)!
O ar congelou. Os onryō revestidos de «kaki» ficaram completamente paralisados.
— Noumakusamanda bodanan baishiramandaya sowaka! — Naoe gritou.
— Namu Tobatsu Bishamonten! Para esta subjugo demoníaca, empresta-me teu poder!
Ele abriu as mãos em gesto cerimonial na direção dos «nue».
— Chōbuku!
Luz irrompeu de suas mãos. A luz branca despedaçou os «nue» um a um.
—!
Ele sentiu uma energia letal terrível vindo diretamente por trás. Uma flecha invisível o atingiu quando se virou.
—Ugh!
Vontade atirada como pedras o envolveu por todo o corpo, e ele caiu no asfalto.
(Quem...!)
Ele concentrou «nenpa» na palma da mão. Seus olhos lacrimejantes não conseguiam focalizar o oponente.
Mas podia sentir uma aura incrível!
(Vai chegar...!)
O «poder» de alguém o atacou pela frente. Naoe prontamente ergueu um «goshinha» em torno de si.
Os dois «poderes» colidiram. Naoe empurrou as mãos, esticando suas forças ao limite para sustentar o «goshinheki». O ar uivou.
...
Ainda sustentando o «nenpa» esmagador com seu «goshinheki», Naoe se pôs de pé. Então convocou um «nenpa» com toda sua força.
— Gwaaaah!
Boom boom boom...!
Uma gigantesca fissura rasgou o chão aos pés de Naoe.
Naoe não perdeu o instante em que seu oponente vacilou. Arremessou tudo num «nenpa».
—!
O raio de plasma mortal foi defletido; as árvores e a cerca ao redor incendiaram-se num ápice. Uma «parede» evidentemente interceptara o «nenpa» de Naoe. Aquele não era um oponente comum!
(Nenhum «poder» nesse nível quem...?!)
— Guh!
Um novo atacante golpeou vindo da área praticamente vazia atrás dele. Uma corrente invisível enroscou-se ao redor dele, penetrando mais e mais no corpo. Não conseguia mover-se. Agonia!
(Então são dois...?!)
Parece que um relâmpago correra por todo o seu corpo.
Naoe caiu silenciosamente.
E permaneceu imóvel.
O silêncio retornou à ruela. As árvores e a cerca do jardim continuavam a arder, pegando apenas os remanescentes de fogo. Depois de verificar que Naoe perdera a consciência, Mogami Yoshiaki aproximou-se de sua irmã.
— Um indivíduo assustador. Teria corrido perigo sem teu auxílio.
— Aniue. Quem é aquele...
O jovem mestiço que estivera presente aproximou-se de Mogami e Ohigashi-no-Kata pelo lado. Observou Naoe imóvel e sorriu com riso divertido.
— Humph. Pensei que um grande rato houvesse se enfiado aqui, mas trata-se de um dos demônios dos Uesugi.
— Uesugi?!
O jovem olhou para Yoshiaki com um sorriso angelical.
— Este homem é Naoe Nobutsuna, um dos kanshōsha de Uesugi. Parece que a Yasha-shū de Uesugi já penetraram também no Nordeste.
— Yasha-shū de Uesugi!
— Se assim for, então devem ter também se infiltrado em Sendai. Pois bem. Será ainda melhor. Creio que acharemos o «poder» deste homem bastante útil.
O jovem sorriu de forma angelical.
— Agora partirei, mas gostaria de oferecer a Mogami-dono um presente modesto.
— ?
— Gostaria de oferecer-te uma cela impenetrável para aprisionar ratos. Se me permitires auxiliar na sua confecção, tua celebérrima força será mais que suficiente para sua manutenção um leve sorriso ergueu seus lábios.
— O rato não será autorizado a fazer nada em sua cela. Depois, Mogami-dono, terás a liberdade para grelhá-lo e torturá-lo como bem entenderes.
—...!
Os olhos do jovem brilharam com uma crueldade que até endureceu os rostos dos dois Mogami. Ignorando as reações, o jovem fungou em riso e olhou para os fogo remanescentes, seus cabelos sedosos ondulando na brisa.
O fogo refletiu num brilho violeta nos olhos de Mori Ranmaru.